Uma revisão da base na bibliografia disponível mostra que tem se multiplicado a quantidade de trabalhos que abordam a evasão, um tema tido como complexo e com um amplo campo para a pesquisa, congregando questões pedagógicas, psicológicas, sociais, políticas, econômicas, administrativas, entre outras.
Palharini (2008, p. 151) destaca que na maioria dos estudos sobre evasão realizados a partir da década de 1990 estão “associados as questões relativas a política educacional de cunho neoliberal, inspirada nas recomendações de organismos internacionais (...) e orientado por resultados mensuráveis”. Desta forma tornou-se notória a preocupação com o grau de
ocorrência do fenômeno nas IES brasileiras e com a identificação das carreiras e áreas onde ele se manifesta mais dilatada. Essa concepção, segundo o autor, relaciona-se à “lógica eficientista”, resultante das críticas do MEC às universidades brasileiras pelos altos índices de evasão revelados pelo Relatório da Comissão Especial.
De acordo com Biazus (2004), a ênfase dos pesquisadores, até a data de seu estudo, esteve voltada para a demonstração dos seguintes aspectos sobre a evasão para os cursos de graduação das IES:
a) Identificar o tipo característico de evasão que ocorre com maior frequência;
b) Identificar o período (ano e semestre) em que houve índices mais elevados de evasão de alunos em cada curso de graduação;
c) Determinar o número de alunos evadidos desses cursos em relação ao número de alunos matriculados;
d) Investigar as principais causas que levaram os alunos a evadirem ou a trocarem de curso;
e) Identificar o estado civil, faixa etária, sexo, renda familiar, modalidade de ingresso nas IES;
f) Identificar os cursos de uma IES, que obtiveram maior índice de evasão (BIAZUS, 2004, p. 67-68).
Um dos precursores no desenvolvimento da pesquisa acerca da evasão foi o americano Vicent Tinto. Após um levantamento acerca das pesquisas em andamento na época sobre o fenômeno, o autor ficou receoso com as possíveis falhas registradas, preponderantemente no que se referia à utilização de um viés meramente descritivo na reprodução dos estudos.
A partir desta visão preliminar, Tinto (1975) procurou criar um modelo, o qual foi denominado de “Modelo Teórico Longitudinal” que tinha por objetivo explicar “as dinâmicas de interação entre o indivíduo e a instituição, que conduziam diferentes indivíduos ao processo de evasão” e que acabou se tornando referência para uma série de trabalhos posteriores. Sua proposta sofreu algumas alterações desde a concepção, mas que não atingiram caráter basal, que busca a integração do estudante ao ensino superior.
No Brasil, encontram-se alguns dos primeiros vestígios englobando o tema a partir dos anos 1980, os quais constituíram-se predominantemente de uma série de levantamentos estatísticos e estudos de casos, realizados por iniciativa do Ministério da Educação e de universidades públicas, ou de análises localizadas de alguns cursos ou cidades17.
17 De acordo com Braga et al. (2003), destaca-se nesta época, em relação ao primeiro caso, o levantamento estatístico divulgado pela Unicamp (1992), os estudos de Ramos (1995) e Bicudo (1995), e o relatório sobre a evasão na década de
A preocupação com a questão operacionalizou que, em 1995, a partir da Secretaria de Educação Superior, do Ministério da Educação e do Desporto (Sesu/MEC), a constituição de uma Comissão para realizar um estudo macro sobre o processo de evasão estudantil nas universidades públicas brasileiras.
De acordo com o documento, o “Seminário sobre Evasão nas Universidades Brasileiras”, realizado em fevereiro de 1995, teve como meta prioritária analisar os dados estatísticos sobre o desempenho das Instituições Federais, haja vista as declarações sobre o descompasso entre os vultuosos recursos públicos por aquelas consumidos e os resultados pouco satisfatórios apresentados, cuja crítica fundamentava-se no percentual de evasão dos estudantes dos cursos de graduação. Com isso, apontava-se para o objetivo principal da Comissão, qual seja, identificar “as causas gerais e específicas do fenômeno evasão e apresentasse sugestões para minimizar tais índices” (COMISSÃO ESPECIAL, 1996, p. 14).
Conquanto foram definidos como objetivos específicos do estudo da Comissão:
1. Aclarar o conceito de evasão, considerando suas dimensões concretas: evasão de curso, evasão da instituição e evasão do sistema de ensino superior;
2. Definir e aplicar metodologia homogeneizadora de coleta e tratamento de dados;
3. Identificar as taxas de diplomação, retenção e evasão dos cursos de graduação das IESP do país;
4. Apontar causas internas e externas da evasão, considerando as peculiaridades dos cursos e das regiões do país;
5. Definir estratégias de ação voltadas à redução dos índices de evasão nas universidades públicas brasileiras (Ibid, p. 15).
Alicerçada nos três métodos apontados por Ramos (1994, apud COMISSÃO ESPECIAL, 1996, p. 27) para aferir-se os índices de evasão, a Comissão desenvolveu uma orientação metodológica que foi chamada de “fluxo de estudantes” ou de “acompanhamento de estudantes”. Ela também foi responsável pela normatização das terminologias agregadas à temática, quais sejam:
Ano/período-base – Corresponde ao ano e semestre de ingresso do estudante na universidade.
1980 em Minas Gerais, produzido pela Comissão Especial para Estudos de Evasão criado pelo MEC em 1995. Em relação ao segundo, sobressaem-se os trabalhos de Paredes (1994), abordando diversas carreiras e restrito à cidade de Curitiba, os de Senapeschi et al. (1985) e de Silva et al. (1995) referente ao curso de Química da UFSCar e da UnB, respectivamente.
Ingressante – Aluno que ingressou em dado curso, no ano/período-base considerado, independentemente da forma de ingresso. Deste modo, foram computados todos os ingressantes no ano/período-base estabelecido, qualquer que tenha sido o tipo de ingresso na universidade (vestibular, transferência, reingresso.etc.)
Diplomado – Aluno que concluiu o curso de graduação dentro do prazo máximo de integralização curricular, fixado pelo CFE, contado a partir do ano/período-base de ingresso.
Retido – Aluno que, apesar de esgotado o prazo máximo de integralização curricular fixado pelo CFE, ainda não concluiu o curso, mantendo-se, entretanto, matriculado na universidade.
Evadido – Aluno que deixou o curso sem concluí-lo.
Geração Completa – Corresponde à situação do conjunto de ingressantes em um dado curso, em um ano/período-base, ao final do prazo máximo de integralização curricular (Ibid, p. 32, grifos no original).
Após a conformação dos argumentos, o documento apresenta a fórmula pela qual a evasão pode ser calculada:
sendo:
Ny é o número de ingressantes;
Nd é o número de diplomados; e Nr é o número de retidos.
Conforme subscrito no próprio documento, ainda que restem falhas e omissões, as quais são compreensíveis, a Comissão julga que o estudo, ao unificar uma metodologia, ao estabelecer conceitos, ao indicar procedimentos com base em critérios científicos, cumpre a sua função de um estudo pioneiro e instigante. Ademais, os autores corroboram que o estudo não possui um caráter inteiramente conclusivo, embora faça “avançar o conhecimento sobre o desempenho do ensino de graduação no país” (Ibid, p. 115).
A relevância que o tema adquiriu na época, considerando a necessidade de diagnosticar causas e, em termos finais, promover a instrumentalização de ações corretivas, certamente foi o que motivou a emergência de diversos novos estudos correlacionados à evasão discente nas instituições de ensino superior.
Evasão=Ny−Nd−Nr Ny ∗100
Um dos primeiros trabalhos sobre o tema foi o realizado por Paredes (1994), que abordou o fenômeno da evasão discente em duas universidades da cidade de Curitiba, a Universidade Federal do Paraná (UFPR) e a Pontifícia Universidade Católica (PUC-PR), uma pública e outra particular, dentre os anos de 1980 e 1989. Em sua pesquisa ele entrevistou alunos dos cursos mantidos pelas Instituições de Ensino Superior e dirigentes delas, buscando dimensionar a evasão por meio de levantamento numérico e traçar um comparativo entre a configuração da evasão nas Instituições.
Ao correlacionar produtividade e evasão com procura dos cursos por ocasião do vestibular, o autor diagnosticou para os cursos com alta procura, uma baixa evasão; para os cursos com média procura, índices médios de evasão; e para os cursos com baixa procura, uma maior incidência da evasão.
Outro relevante trabalho é a tese escrita por Gomes (1998) que, dentre outros fins, realiza uma abordagem analítico-descritivo sobre a evasão escolar no ensino superior, com enfoque específico sobre os cursos de licenciatura da Faculdade de Ciências e Tecnologia de Presidente Prudente. Utilizando-se do discurso de ex-alunos, o autor procura investigar, as causas da evasão e o respectivo destino do evadido. Consoante ao autor
(…) o discurso sobre evasão escolar no ensino superior no Brasil vem apresentando uma dinâmica que na maioria das vezes responsabiliza, ora uma das vítimas, o aluno, pelo seu fracasso, ora a universidade pela sua baixa produtividade, fundando- se em dois aspectos básicos: um de ordem econômica através da avaliação de índices de produtividade das universidades e outro relacionado ao mau desempenho do ensino de 1º e 2º graus (GOMES, 1998, p. 144).
A pesquisa de Veloso (2000), por sua vez, propôs-se a acrescentar a abordagem qualitativa ao enfoque quantitativo dos estudos sobre evasão universitária existentes, na tentativa de explicar os índices de evasão dos cursos de graduação da Universidade Federal de Mato Grosso sob a ótica institucional.
Fundamentada em uma abordagem microscópica, realizada por meio de estudo de caso, a pesquisadora enumerou cinco prováveis fatores determinantes da evasão, na visão dos coordenadores de graduação do Campus de Cuiabá: o aluno, a estrutura física, a estrutura do curso, o mercado de trabalho e, o docente, afirmando que, portanto, a evasão está consistentemente atrelada ao aluno, à situação socioeconômica, aos conhecimentos adquiridos no ensino médio e ao desconhecimento do curso que escolheu. De acordo com suas
considerações, o processo de evasão dos cursos de graduação está inserido nas crises de hegemonia e legitimidade da universidade, em que
a atitude do aluno que abandona o curso, optando pelo mercado de trabalho, põe em questionamento conhecimentos adquiridos na universidade e sua utilidade para a formação da força de trabalho qualificada exigida pelo mercado; no reconhecimento por parte dos coordenadores de curso e talvez dos próprios alunos do prestígio de alguns cursos, “nobres” e “poucos nobres” caracterizando-os de acordo com a estratificação da universidade segundo a origem social do corpo estudantil (VELOSO; ALMEIDA, 2001, p. 13).
Os resultados conseguidos pela autora por meio de seu trabalho fazem-na supor que a evasão, no seu nicho de pesquisa, comporta-se como algo além de um processo dependente do aluno; ele consiste em um fenômeno institucional, reflexo da ausência de uma política de per- manência do aluno no curso de sua opção.
Na sequência apresenta-se o estudo de Biazus (2004), que teve por objetivo identificar os principais indicadores que influenciam o aluno a evadir-se dos cursos de graduação em Ciências Contábeis da Universidade Federal de Santa Maria e da Universidade Federal de Santa Catarina, averiguar se estavam sendo adotadas políticas pedagógicas (educacionais) com a finalidade de combater a evasão e elaborar um instrumento de análise para as suas causas. O intuito final do experimento, conforme o autor foi “contribuir para a melhoria da qualidade do processo ensino-aprendizagem, consequentemente, auxiliando para que se possa minimiza o problema da evasão (…)” (BIAZUS, 2004, p. 22).
O autor confirma na parte final do trabalho que todos os objetivos aos quais ateve atenção foram alcançados. Ao estabelecer os indicadores como previsto, ele obteve dados que conduziram à criação de um sistema de fatores que denominou Instrumento das Causas da Evasão – ICE. A ferramenta constituiu-se duas dimensões (interna e externa) e sete (7) componentes, sendo que cada componente está subdividido em trinta e sete (37) indicadores, e tem o propósito de melhor sistematizar o fenômeno evasão.
Também é importante destacar dentre os muitos estudos, aquele realizado por Silva Filho et al. (2007), o qual detém um viés predominantemente quantitativo e traça o percentual de evasão brasileiro, do ano 2001 a 2005, sob vários condicionantes, além de apresentar dados que permitem comparação com índices apresentados por outros países.
De acordo com a pesquisa, que se fundamentou em dados do INEP, a taxa anual média de evasão no ensino superior brasileiro no período pouco oscilou, mantendo-se no patamar de 22,3%, com leve tendência de crescimento. A evasão anual demonstrou ser maior nas IES privadas, sendo a taxa média no período de 26,8%, contra 11,9% das IES públicas. E considerando apenas estas, as municipais responderam pela maior taxa de evasão anual, enquanto as comunitárias e confessionais mostraram uma taxa maior que as particulares, entre as privadas.
Independentemente da conotação utilizada pelos vários pesquisadores para demonstração do problema da evasão percebe-se que o tema é um tanto profundo e tem se alastrado no entremeio científico, seja na forma de estudos macro ou microscópicos.