Essa categoria teve como objetivo investigar sobre os conteúdos trabalhados na Formação Continuada de professoras/es e verificar a aprovação das participantes a respeito da formação.
O objetivo dessa categoria foi saber se algum trabalho relacionado ao corpo, ao autoconhecimento, à escuta das dores e dos problemas era incluído na pauta das formações continuada. Obviamente que não fiz essas perguntas diretamente sobre esses conteúdos de forma tão explícita como mencionoaqui porque não pretendia obter como resposta um sim ou um não. Por entender que
o/a professor/a é uma pessoa. É uma parte importante da pessoa é o/a professor/a.
Urge por isso (re) encontrar espaços de interação entre as dimensões pessoais e profissionais, permitindo aos professores apropriarem-se dos seus processos de formação e darem-lhes um sentido no quadro das suas historias de vida (NÓVOA,2002, p. 57).
As professoras foram respondendo por meio de uma conversa espontânea, orientadas pelas perguntas do guia de entrevistas. As mesmas registraram as lacunas deixadas pela formação continuada, pois estánão atende suas demandas de sala de aula. A pauta destinada para as capacitações que são de programas do Governo Federal MEC- Ministério de Educação e Cultura. Estes são estudados nos encontros para serem aplicados nas escolas, nas salas de aulas em que as professoras atuam. Os programas mudam constantemente e vem com promessas suntuosas de soluções dos problemas. Como explica uma das professoras:
No curso na maioria das vezes, as formadoras lêem as atividades dos programas, vem tudo pronto, (Pro Letramento, Pacto, etc.) explicam o que sabem, depois vamos para a escola fazer com as/os alunos/as. Querem as novidades das/os professoras/as, ficam esperando tudo da gente. Às vezes tenho a impressão que as formadoras não
se preparam, não se planejam e querem que a gente dê o curso para elas/es (Boa Noite) .
Segundo falas das professoras, para compensar o que elas não encontram nas formações continuadas, para ajudar na prática pedagógica e melhor ensinar aos seus alunos/as, elas buscam ler revistas sobre os temas que elas têmdúvidas. Ossites de educação na internet são os mais consultados.
As professoras explanam ainda que os conteúdos que são estudados e apresentados na formação são básicos e não correspondem à realidade de sala de aula. Inclusive as dúvidas e os questionamentos trazidos por elas, são mantidos no mesmo lugar.
Para Nóvoa (2002), o processo de Formação é dependente de percursos educativos e alimenta-se de modelos educativos, e não se devedeixar controlar pela pedagogia, tornando-se demasiadamente educado.A formação se constrói no cerne da identidade pessoal. Portanto, é muito importanteconsiderar as experiências das professoras, ouvi-las acerca de suas dificuldades, dos entraves no processo educativo, das práticas exitosas e das histórias pessoais a fim de viabilizara melhora do exercício profissional.
Ainda corroborando com essa ideia Dominicé (1988),defende a necessidade de investir numa atenção especial às vidas das professoras, argumentando que o sujeito constrói o seu saber ativamente no trajeto de sua vida, e a experiência mobiliza interação e diálogo.
Já para as professoras que fazem terapia em análise bioenergética, as considerações não são muito diferentes a respeito do que acontece na formação.Porém, elas se posicionam de outro lugar, fazendo reflexões acerca de uma nova proposta, pois acreditam que a educação passa por um novo momento:
Na maioria das vezes, as formações são voltadas para os conteúdos práticos e com intuito de mudar práticas, ações e também as ideias sobre como e com que o professor deve ensinar. Penso que estamos em um momento novo, um momento onde precisamos articular as mudanças na prática profissional com o desenvolvimento pessoal do professor. Desta forma, nós professores estaríamos mais atentos às demandas dos alunos e as nossas e, ao mesmo tempo criando nossos instrumentos, reinventando nossos modos de pensar, fazer e refazer nossas práticas (Rosa menina).
Considero uma boa formação continuada, aquela que mexe comigo, que me faz ficar reflexiva, que sinto meu coração vibrar. Geralmente quando vou para uma formação os assuntos abordados não são novos, são coisas que de alguma forma já as vi, não me prende, não mexe comigo. Tenho dificuldade de concentração quando algo não me interessa, de prestar atenção, não me dá vontade de interagir(Rosa vermelha).
A professora Flor de Cacto tem uma experiência diferente na formação continuada da escola em que trabalha. O grupo de profissionais desta escola faz a inclusão temática e prática do autoconhecimento para professores e funcionários.
Na escola que trabalho são abordados os temas pedagógicos e os de autoconhecimento. Aprovo, pois apenas as questões pedagógicas não dão conta do nosso fazer em sala de aula, pois temos questões pessoais que interferem em nossa relação com os alunos, além do quadro de violência que tem se instalado na sociedade, principalmente nas comunidades em que ficam localizadas as escolas municipais. Temos que dar conta das nossas questões emocionais para poder atuar em situações limítrofes com as quais convivemos diariamente (Flor de Cacto).
Para compensar as lacunas deixadas pela formação continuada, as professoras que realizam trabalho de autoconhecimento, fazem avaliações a respeito de si e do seu comportamento enquanto professoras, deixando claro suas fragilidades diante do processo de formação que também é de autoformação, de busca pessoal, como Fanfani (2009) preconiza, a reflexão da prática e sobre a prática possibilita a consciência de como se pode atuar melhor.
Infelizmente o tempo é muito escasso, não se tem muito tempo para dar conta de tudo, tenho vontade de ler tantas coisas, tenho necessidade de compreender tantas coisas, mas venho dando conta na minha autoformação de discutir o tema que mais me interessa, a discussão sobre a diferença. Sobre como valorizamos, respeitamos e tratamos do espaço do outro, o que é diferente de mim, dentro do meu trabalho.
Entretanto algumas coisas vou deixando para traz com a falta de tempo, como pensar as tecnologias, a questão dos avanços científicos para tornar real a inclusão.
Percebo que tenho uma visão geral sobre muitas coisas, leio, sobretudo, revistas voltadas para a educação, como Nova escola, Presente!, Escola, pois elas são práticas, sugerem muitas coisas e desperta minha criatividade. Outra coisa que gosto muito de fazer é ler poesias, pois gosto de escrever, isto me faz recuperar uma coisa que acho que perdi no espaço no corre- corre do fazer do dia-a-dia, um espaço para o sentimento fluir, não me considero poeta, mas digo que as palavras brincam na minha mente, no meu espírito e saem em formato de versos, isto me faz tão bem. É como se eu conseguisse dialogar com meu interior, com minha alma, me deixa mais leve, mais comprometida comigo e com o outro, e muito mais respeitosa. Escrevo poesias de dores, de tristeza, de amor, de vida. As poesias me fazem mais gente, gente de verdade, gente que vê e sente tantas outras gente(Rosa vermelha).
Essa articulação entre as questões profissionais e o desenvolvimento pessoal tem ocorrido nas sessões de terapia, nas reflexões que tenho feito sobre minha atuação como mulher, professora, filha, neta e muitas outras. A disponibilidade individual em escutar as crianças e perceber como estão aprendendo, o diálogo permanente com as colegas de profissão também são momentos importantes que ajudam a orientar o trabalho (Rosa menina).
Busquei a terapia, faço leitura de livros com temas de autoconhecimento, leio artigos de psicólogos, assisto vídeos sobre filosofia e psicologia. Compro livros (Flor de Cacto).
Mediante as falas das professoras, tanto do grupo que faz terapia quanto do grupo que não faz, fica evidente a necessidade de buscar novas posturas,iniciativas e mais atualização nos cursos de formação continuada. Elas almejam por momentos que respondam às indagações e às inquietações no que concerne ao fazer pedagógico.