confirma que é de suma importância atermo-nos às nossas motivações reais e aos campos em que atuamos, para ajustar nossas expectativas de realizações” (SILVA,2004, p. 134).
Sinto-me cansada, estressada, um peso no corpo como se estivesse uma pessoa me empurrando para eu andar (Flor do campo).
Eu não me concentro, me sinto com um esgotamento metal. Os alunos não se permitem aprender (Jasmim).
Estou um pouco cansada de trabalhar, sinto um cansaço mental (Boa noite).
Esta realidade mostra o sentimento que elas possuem, a consciência corporal enquanto profissional de educação ecomo se sentem fadigadas de tudo em suas vidas. Elas já chegam para trabalhar exaustas, a jornada é dupla e porque não dizer tripla. Como ser professora nessa condição? Como se livrardesse esgotamento que é mental, físico e emocional? Mesmo sentindo-se tão exaustas precisam exercer suas obrigações comtamanha fadiga. Essa afeta aos poucos todo o corpo, não apenas as funções intelectuais, mas, o emocional, os músculos, a sexualidade, a visão, o cardíaco, a energia, a digestão, o sono, os hormônios, o caráter e o comportamento dessas profissionais.
Mesmo assim, sempre tem lugar para a relação amistosa entre elas, buscam estar perto umas das outras para fazer as compensações de tantas faltas da formação continuada e do cansaço de uma vida tão fadigada.
Contudo o ambiente da escola é muito bom.Na escola municipal Paulo Freire existe um clima de solidariedade. Assim as professoras falam:“um ajuda o outro, é como se fosse uma família”. “Ambiente acolhedor”, inclusive se intitulam Família Paulo Freire. O que subjetivamentee objetivamente está nessa relação, não só é o fato delas se darem realmente bem, na medida do possível, mas por conta da vida que elas levam, então a escola fica sendo um ponto de encontro, de alegria, de fantasia, de esconder sua própria realidade, nos encontros forçados do almoço e nas diversas brincadeirasque realizam entre elas. Tudo isso fora da sala de aula, fora da função de ensinar. As professoras quando entram na sala de aula é como se materializassem suas vidas, a projeção da mãe, dos filhos, os atuais e os futuros problemas estão ali sentados olhando para elas.
A realidade se transforma no pátio, na festa ou em um encontro coletivo fora do espaço da sala de aula. Como pude ver e observar na escola durante dois encontros informais de confraternização, nos quais ocorreu mudança no emocional e na aparência das professoras.Fisicamente não reconheci algumas delas, pois, estavam totalmente mudadas em
suas fisionomias e em suas vestes. Os corpos pareciam menos mórbidos, curvados e entristecidos. Como afirma uma das entrevistadas; “Gosto de dançar, quando tem um evento na escola porque não saio” (Flor do Campo).
Para Silva (2004), fluir é agir na vida quando se pensa em vitalidade como energia, processo emocional como mobilidade. Assim como, pensar o organismo como corpo que vibra influencia diretamente nas circunstâncias vividas o que implica em dizer as inúmeras possibilidades que são de cada sujeito. E ainda,na capacidade que cada sujeito tem de fazer escolhas ou definir em ficar na mesma realidade que sempre pertenceu.
A consciência permite compreender de que lugar se sente a dor, amplia ou reduz a imensa capacidade humana que nos faz entender as dimensões emocionais ainda não exploradas. As professoras que realizam o investimento no autoconhecimento não registram fadiga edesâmino. Todas elas fazem trabalho de corpo como caminhada e pilates. Buscam se divertir indo ao cinema, teatro e viajando sempre nas férias. Duasdas professoras são solteiras e uma casada, todas não têm filho. Rosa menina faz terapia há 14 anos, Rosa menina há 8 anos e Flor de Cacto há 10 anos.
Faço atividade física, faço terapia e comecei há uns dois meses a cuidar da minha espiritualidade com mais responsabilidade. Busco também conviver com os meus, família, amigos, pois isto me alimenta, alimenta minha alma (Rosa vermelha).
O trabalho terapêutico é o primordial, é o principal dos cuidados que tenho com meu corpo, a partir da terapia aprendi a ouvir e entender meu corpo. Com isso passei a ter mais atenção com a alimentação e praticar atividade física(Rosa menina).
Busco me alimentar bem, antes eu não comia frutas, verduras, salada. Faço exames periódicos. Caminho, namoro e danço (Flor de cacto).
As questões emocionais da realidade dessas professoras se tornam conscientes, por meio da terapia, em relação ao que ocorre e ao que ocorreu em suas histórias de vida e em suas buscas para amenizar os fatores que podem impedi-las de viver intensamente.
A terapia, a meu ver, é uma viagem de autodescoberta. Não uma jornada curta e simples, nem tampouco livre das dores e dos tropeços. Há perigos, há riscos e nem a própria vida passa sem eles, já que em si constitui uma viagem para o desconhecido que é o futuro. A terapia retoma o passado esquecido e esta não é uma época segura e tranquila, pois se o fosse não teríamos vindo dela marcados pelas cicatrizes das batalhas e defendidos pela impenetrável couraça das tensões musculares (LOWEN,1982, p. 92).
As professoras disseram sobre as questões pessoais que as levaram a procurar o autoconhecimento, decisão que possibilitou nas reflexões e as resoluções dos problemas. O processo terapêutico ajuda principalmente no encontro com o eu interior e com o entendimento de quem somos nós mesmos, com nossas escolhas e nossosdesejos.
As professoras Rosa menina, Rosa vermelha e Flor de Cacto fazem terapia de análise Bioenergética, por entender que essa abordagem lhes proporciona o conhecimento das questões marcadas nos corpos e facilita a compreensão dos sintomas, das reações, das alegrias e das tristezas presentes no dia a dia. Desta maneira, as professoras dizem quais foram as motivações que as levaram a procurar a terapia
Por causa do desconforto que era viver, era como se precisasse de autorização para ser eu mesma. Com a terapia aprendi a ser mais confiante, a ter segurança para tomar decisões e, principalmente aprendi que posso fazer escolhas. Na vida profissional percebo que estou mais sensível às questões dos meus alunos. À medida que percebo meus limites, falhas e desejos também percebo os deles. Esta aproximação gera um conhecimento sobre minha prática e uma autonomia sobre meu trabalho (Rosa menina).
Não tenho palavras que traduzam o significado da terapia em minha vida. Busquei achando que iria resolver um problema de sofrimento por conta de um namorado que tive que me levava às lágrimas diariamente. Depois descobri que minha dor não nascia dele e nem muito menos com ele, precisei me reinventar, pois eu era tudo, menos eu mesma. A cada dia percebo que minhas confusões internas hoje são como uma foto que tirei em um passeio no primeiro dia deste ano, simplesmente luz, pois é uma coisa que amo fazer quando estou só. Fotografar. Luz que ilumina a mim mesma, parece ser poesia, mas na realidade é, pois, é minha própria poesia. Eu hoje simplesmente me enxergo, me namoro, me vejo e quando me vejo, vejo o outro também com tudo que o compõe, e com tudo que me compõe, e vejo que tento ser melhor para mim e para com o outro. Tentando ser justa, sincera, honesta e verdadeira (Rosa vermelha).
Como professora, sem filhos sempre tive uma vida financeira equilibrada, embora tendo que sacrificar alguns muitos prazeres. Sentia um vazio no peito muito forte, me sentia inadequada, era extremamente inflexível, intolerante, pessoa de pouca conversa e poucos amigos. Tinha a sensação que qualquer passo em falso eu seria punida. Era feia, triste e infeliz. Tinha crises de gastrite, tive problema sério nas cordas vocais. Fui afastada de sala de aula, deixei de existir, tiraram meu mundo.
Assim cheguei à terapia. Um ninguém que não respirava, não falava, fui proibida de falar pelo extremo esforço e a pouca voz que produzia, e não tinha o que fazer pela primeira vez na minha vida (Flor de cacto).
Estas falas das professoras, apresentam clareza dos fatos que acontecem em suas vidas devido a oportunidade de fazer uma revisão em suas trajetórias, por meio da terapia de análise corporal Bioenergética. Mesmo doendo muito, elas puderam ter a chance de recomeçar do ponto que supostamente haviam parado. Por conta da dor, da insegurança,da falta de autorização para viver, da negação de si, do buraco existencial, do vazio imensamente grande que lhes proibiam atribuir sentido à vida.
Essa realidade fez com que as professoras escolhessem fazer a terapia de análise bioenergética que além de exercício corporal, trabalha a respiração que elucida as questões da realidade atual e iluminaas lembranças anteriores que refletem na vida presente. Nesse processo
terapêutico os sentimentos reprimidos têm a permissão de ser expressos, assim como as forças inibidoras do medo, da raiva e do pânico.
No processo de autoconhecimentoa respiração profunda ajuda na liberação de energia que é necessária para o movimento de mudança e para o enfrentamento domedo e da redução do nível de tensão no corpo como as professoras disseram que tinham.
As professoras também desenharam os símbolos que traduziram como elas estavam no início da terapia e como elas estão agora. Nesses desenhos que seguem, elas dizem dos seus estados emocionais no momento que procuraram a terapia, sabendo que a maioria das pessoas que buscam a terapia “não está atrás de nirvanas nem de jardim de éden. As pessoas estão confusas, desesperadas às vezes, precisam de ajuda para continuar a jornada da vida”(LOWEN 1982, p. 93).
Nesse entendimento as professoras foram reconstruindo suas histórias anteriores para compreender os desenhos atuais e refazer os movimentos das situações de vividas.
Figura 44 - Desenho do início da terapia.Figura 45- Desenho do momento atual (Rosa menina).F Fonte:
Pesquisa semiestruturada 2015. Fonte: Pesquisa semiestrutura 2015.
Agora sou uma mulher de braços abertos e com vento no rosto. Acho que fui uma menina de olhos fechados. Mudou a forma como me vejo, como expresso meus sentimentos, como me relaciono com as outras pessoas. Sinto que mudei de direção, tinha tudo para ser doente, coitada e fraca. Agora tenho um corpo vivo e que precisa de cuidados. Atualmente em relação a minha saúde físico psicoemocional me sinto mais equilibrada internamente, inteira e responsável pela minha vida e pela minha felicidade. A cada dia aprendendo a lidar com as situações de forma mais leve e sem buscar sofrer (Rosa menina).
O desenho representado por Rosa menina, como símbolo do seu início de terapia, é um corpo traçado apenas por linhas verticais quemostra a articulação entre a fala e a percepção da sua trajetória de vida. O símbolofala de questões antigas e atuais, tristezas vividas e sofridas, dores guardadas que revelam os segredos de sua alma e das expressões internas. “[...] A linguagem simbólica, traz uma luz para entender melhor o que acontece conosco. Isto porque o símbolotoca em núcleos, pontos internos nossos que remetem a campos e áreas profundos e amplos.” (NASSER, 2003, p. 6).
O desenho do início da terapia simboliza esses campos, lugares que contêm histórias que vivemos emoções que criamos. A figura humana 44, representada pelo corpo palito que, segundo o relato da história professora, essa imagem remete a fragilidade, a insegurança. A figura está com os olhos fechados que podem sugerir indícios de quem não quer ou não pode, e ou, não aguenta fazer contato com a realidade.
Na figura 45, a professoraRosa menina se representa atualmente, a imagem tem sexo,corpo, cabelo e alegria bem distante do vazio traçado anteriormente. Osolhos e os braços estão abertos, para acolher e ser acolhida. Os símbolos são a certeza de que estamos vivos, falam por si mesmo. Esteé o mediador entre um ponto e outro, entre uma passagem de um estado emocional a outro,o que podemos observar de um desenho para o outro, da professora Rosa menina (fig. 44 e 45).
Os desenhos que seguem são da professora Rosa vermelha, imagens que representam o antes e o depois do processo terapêutico em análise bioenergética.
Figura 46 - Desenho do início da terapia.
Fonte: Pesquisa semiestruturada 2015.
Figura 47 - Desenho do momento atual._______________________Fonte: Pesquisa semiestruturada 2015.
Para a professora Rosa vermelha o início do seu trabalho terapêutico estaria relacionado com um desenho de um barco(fig.46), distante, cinzento e a deriva. Estava confusa perdida em si mesma. O barco tem traçado leve e sombrio que simboliza o seu estado emocional daquele momento, pois o símbolo exprime o mundo vivido e percebido segundo os sentimentos psíquico inconsciente.
O desenho que a representa atualmente écomo se fosse um coração, esse possui cores vibrantes e aparenta irradiar luz em contraponto ao símbolo anterior(fig.46), em que não vemos energia. A força é reativada na figura 47,momento que simboliza o refazer de sua história.
A professora interpreta os símbolos representativos dizendo:
Não lembro qual o desenho. Mas se fosse desenhar hoje a representação de como hoje me vejo há quase nove anos atrás seria um barco a vela em alto mar dependendo do vento, do tempo, do mar. Hoje, vejo-me como uma emoção constante que tem um coração que vibra que diz estou viva, cheia de luz que acaba sombreando o mar da esperança em forma de luz. Minha alma é minha luz, e meu coração é minha alma. Desta maneira desenhei minha alma e minha sombra em forma de coração e luz, onde coração e luz são minha alma. Queria dizer que hoje vejo minha sombra traduzindo quem eu sou. Não sei se me fiz entender. Antes minha sombra não era o meu eu, e sim os tantos „eus‟ alheios. Hoje sou dona de mim mesma, dos meus desejos, sonhos, da minha vida, mas sem impedir o toque alheio. Atualmente me sinto, venho me redescobrindo, sabia tão pouco de mim, o que eu sabia, a maioria das coisas eram sobre o que os outros esperavam de mim, hoje me tenho nas mãos, hoje vejo quem de fato eu sou e quero ser, me sinto
saudável, energizada. Sinto-me como a minha poesia que intitulei „pé de moleque‟
buscando reencontrar sempre meu pé de moleque (Rosa vermelha).
Os corpos vividos estão sendo representados conscientemente através dos desenhos que expressam os fenômenos das vidas das professoras e das fases de crianças, de adolescentes e das adultas que evidenciam as marcas psíquicas no eu e no corpo- simbólico.
A professora Flor de cacto desenhou dois momentos para elucidar seu processo terapêutico, o início e atualmente.Ela os explica fazendo o seguinte relato:
Figura 48 - Desenho do início da terapia.
Fonte: Pesquisa semiestruturada 2015.
Antes um pássaro, sem pena de asa quebrada, sem uma perna e preso em uma gaiola. Um ser que não respirava, nem sabia que não respirava, um ser que não cabia no mundo(Flor de cacto).
Figura 49- Desenho do momento atual.
Fonte: Pesquisa semiestruturada 2015.
Hoje um pássaro solto, livre que pode errar, pedir desculpas, que canta, que dança, que não tem medo de ser punida, que respira e sente a respiração, que tem cores , que pode mudar a qualquer hora e que busca ser (Flor de cacto).
A professora Flor de cacto fala da sua mudança de como era doente, e não se relacionava bem com as pessoas, era fechada em seu próprio mundo, cheia de certeza, mas sem liberdade interna, sem saúde física e emocional.Fala que está bem representada no seu desenho da figura(48), uma ave sem expressão, entristecida que chora, tem dores da prisão e da mutilação, como se fosse consciente da sua situação. Está presa em suas crenças, inclusive do próprio engaiolamento, pois observando o desenho é como se o pássaro estivesse fora da gaiola.
As tramas desde a infância, o isolamento, a carência, a falta de mãe a fez ser uma profissional rígida, sem toque e sem afeto. “É como se a natureza estivesse aguardando pelo instante do despertar para libertar sua força. Com mentes mais flexíveis, emoções em vias de transformação e corpos mais soltos, não há grande impedimentos a uma prática educacional menos autoritária e menos repressora” (CELANO, 1999, p. 101).
A professora Flor de cacto,com a representação do desenho(figura 49), nos remete a ideia de corpo vibrante. O traçado do pássaro tem características saudáveis que pode voar. Resgata os movimentos de um corpo vivo que respira, pulsa e expandeao alteraro desenho para um pássaro grande, colorido,mas com leveza, o que pressupõea liberação do peso da sua história.
O trabalho terapêutico que lembra e faz consciente as histórias das professoras proporciona a releitura de quem são elas, por intermédio dos registros que estão no corpoe que ajuda a descobrir a pessoa em si mesma. A terapia reconstrói, refaz épocas “anteriores pode provê-las dessa força se houver uma melhoria em sua autoconsciência, se puderam passar a exprimir-se melhor e se seu autodomínio aperfeiçoar-se. Estarão melhor equipadas para lutar se tiverem um senso mais forte de si mesmas” (LOWEN 1982, p. 93).
Após a terapia mudou minha existência, antes eu vivia num mundo irreal de perseguidos e perseguidores no qual tocar nos alunos era perigoso, pois poderia gerar processos. Que era preciso ensinar aos alunos, pois eles tinham que sair daquela situação de abandono, de não reconhecimento, de excluídos. Durante muito tempo eu não suportava a ideia deles terem mães, pois elasnão cuidavam deles e ainda atrapalhavam o meu trabalho. Que precisava fazer com que eles aprendessem de qualquer jeito, para tanto me esforçava ao extremo, tanto que acabei com minhas cordas vocais, alfabetizando manhã, tarde, noite (Flor de Cacto).
4.3 COMPREENSÃO DOS DESENHOS CORPORAIS - MARCAS IDENTITÁRIAS