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textura e, neste processo, decidimos o que é bonito ou interessante,sem saber conscientemente como e por quê.

Podemos verter sentimentos e emoções durante o processo. Resultando em um tipo de expressão artística que reflita nossa personalidade na forma de nossos gostos e inclinações. (WONG, 2010, p. 13)

O desenho é um processo de criação visual que tem propósito. Diversamente da pintura e da escultura, que constituem a realização das visões e sonhos pessoais dos artistas, o desenho preenche necessidades práticas.

(WONG, 2010, p. 4)

Figura 19, 20 e 21 - Desenhos simbólicos.

Fonte: Arquivo privado da pesquisadora.

O Desenho foi precursor da linguagem escrita, da cartografia, da fotografia, do cinema, fez e faz parte da cultura de vários povos e está incluído em diversas ciências, sendo componente importante da dimensão material dos seres humanos. Como se registra na figura 22, leitura que é possível fazer pela clareza dos desenhos deixados nas paredes das cavernas.

Figura 22 - Pré- História.

Fonte: AUGUST, 2012.

O registro e o conhecimento do desenho constituem a memória individual e coletiva dacultura histórica de um povo.

Segundo Gomes (1996), o desenhista, o desenhador é aquele que debuxa a realidade, que também valoriza a cultura e a história,registra a natureza, fatos cotidianos, corpos, produções industriais e desenha a expressão cultural da memória individual e coletiva.

As memórias individuais e as memórias coletivas se alimentam da história construída pelos indivíduos e pelos grupos de uma determinada sociedade. Essas memórias são elementos essenciais das marcas identitárias que revelam a história presente e futura de um povo. Assim, como afirma Pallok (1992, p. 201):

[...] memória acontecimentos vividos pessoalmente, memória acontecimentos vividos pelo grupo e pela coletividade, fazem parte e é inserido na cultura histórica acerca das marcas identitárias dos corpos de cada membro da sociedade,e ou da escola por meio das representações sociais e antropológicas.

O desenho do corpo humano foi registrado primeiro na Pré-História, como ilustra o exemplo da figura 23que se refere à Estatueta de Vênusde Willendorf e representa um corpo feminino com seios, barriga, vulva e pernas bem avantajadas, com forma na amplitude de todo o seu corpo bastante acentuado e curvilíneo.A estatueta tem os braços curtos e escondidos em baixo

dos seios. Essa representação simbólica dá a oportunidade para diversas interpretações, assim como toda silhueta que compõe a estatueta.

Figura 23 - Estatueta Vênus de Willendorfc om 11,1cm (3/8 polegadas).

Calcário Oolítico. Criado entre 24000 e 22000 a.C, Áustria Fonte: EternalLSymlols.

O desenho da cabeça de Vênus deWillendorf, supostamente sugere cabelos, ou olhos, os desenhos da época doPaleolítico tinham como características ter muitos olhos na cabeça, formato que tambémé alvo de várias leituras corporais. Os pés da estatueta Vênus não foram esculpidos dando a leve impressão de se sustentar em si mesmo, ou de pés fora do chão, fora da realidade, com pouca mobilidade até mesmo por conta da obesidade e da procriação,o que leva a pensar sobre fragilidade ou seria fortaleza, agilidade e segurança.

As características corporais nos levam a variadas leituras interpretativas, como o pertence cultural, o momento histórico, as considerações de gênero, o recorte socialeconômico, e tantas outras nuanças que perfazem essa descrição da estatueta o queauxilia para a análise corporal.

E ainda poderíamos nos perguntar por que esta imagem corporal feminina não tem olhos, ouvidos e boca? O corpo dessa representação feminina estava ligado apenas à reprodução, à maternidade? Será que essa leitura corporal faz sentido nos dias atuais?Até porque nos dias atuais é de fundamental importância não só os dados de realidade mais a escuta sensível, a escuta da pessoa que está naquele corpo e que é o próprio corpo.

Contudo, não podemos deixar de mencionar que estudiosos da estatueta de Vênus relatam que esses modelos de mulheres eram da preferência dos homens da Pré-História, consideradas divindades da fertilidade e da prosperidade.A partir desse exemplo da estatueta de Vênus Willendorf, nos é permitido pensar que as leituras corporais representadas por estatuetas e desenhos já acontecem há milênios, recursosutilizados até os dias de hoje. Os registros simbólicos, históricos, culturais e científicos nos permitem fazer interpretações do que estamos vendo e sentindo nos nossos corpos, por meio de diversas imagens representativas(desenhos, fotografias, estatuetas, etc.).

O acervo de estatuetas de Vênus énumeroso. Outra que tomamos como exemplo de modelo corporal esculpido na época do Paleolítico é a estatueta Kostenkifeitaaproximadamente entre 30000 e 15000 a.C e descoberta em Avdeevo,Kursk, naRússia, no ano de 1967 que similarmente trás características marcantes nas curvas corporais e também sinaliza o interesse pelo corpo ainda naquele período.

A leitura que as pessoas naquela época tinham do corpo feminino não mudava muito de uma para outra, até porque, as características representadas eram para enaltecê-las. Os seios extremamente grandes, assim como a barriga, com braços presos ao corpo, à cabeça ligeiramente inclinada para o ventre, alguns adereços nos braços e nos seios. As nádegas, os seios, a barriga e a cabeça estão sempre esculpidas de forma bem esféricas e muito grandes.

Além de estarem na maioria das vezes nuas e com órgão genital exposto. A imagem das mulheres sempre preconizava que elas estavamprontaspara a reprodução,mas não enxergavam, não falavam, nem ouviam e tinham os braços finos menos aparentes voltados para trás, dando uma ideia de pouca defesa, além da falta dos pés, conforme figura 24.

Figura: 24 - Estatueta de VênusKostenki10,2 cm,esculpida emmarfimdemamute.

Origem:Avdeevo,Kursk, naRússia.

Fonte:História ilustrada da arte, 2014.

Na Antiguidade Oriental, especificamente no Egito, as obras que representavam os corpos,mostravam riqueza de detalhes no que concerne às minúcias dos vestuários, os adereços, além de exibir nitidamente as características da personalidade,perfil individual e social,os traços faciais,olhos elábios bem destacados, a beleza e a realeza como podemos apreciar na figura 25.

Figura 25 - Busto da rainha egípcia Nerfetiti XVIII 50 cm, calcário e estuque.

Fonte: SILVA, 2014.

As estatuetas e os bustos tinham como objetivo eternizar as imagens dos Faraós e dos nobres.

Os corpos eram desenhados com tronco grande ede frente.Esta concepção ficou conhecida

com a Lei da Frontalidade, conforme figura 25. Esta lei possuía o principio de valorizar o corpo desenhado de perfil que dava bastante ênfase a todas as partes que compunham o rosto.

Nesses desenhos ficava evidente através das características corporais esboçadas na estatueta o perfil étnico e o prestígiosocial que evidenciavam o realismo. As figuras26 eram rígidas, sem movimento com braços paralelos ao corpo e postura estática.

Figura 26 - Debuxo Faraó por Gedalva da Paz.

Fonte: Arquivo privado da pesquisadora.

O corpo na Antiguidade Clássica teveconotação de grandiosidade, debeleza, de juventude e deperfeição, principalmente os corpos nus que representavam saúde, fertilidade e sexualidade, o que estápresente na figura 27. Estes, porém, eram apenas de homens que não eramretratados assim somente nas artes, maseles tinhampermissão para andar nus nos ginásios de esportes em público.

Para as mulheres restavaa obediência aos seus pais e a seus esposos. Nos períodos arcaicos e clássicos da história do corpo na Grécia a representação feminina nas artes era sempre bem vestida com túnicas que lhes cobriam todo o corpo, conforme figura 28.Apenasno período helenístico que as mulherescomeçaram a ser esculpidas nuas, e os corpos passaram a ter mais movimentos.Assim como o registro das emoções nos desenhos é uma das características dessa época.

Figura 27 - Hermes de Praxíteles, mármore, H. 2,15 m (7 pés de ½ pol.).

Fonte: Enciclopédia livre.

Figura 28 – Kore, Dama de Auxerre Sec.VII a.C,75cm.

Fonte: Enciclopédia livre.

A nudez na Idade Média sofre uma interdição, pois nessa época o corpo era tido como o meio de salvação do homem, mas por outro lado era considerado a fonte do pecado. Este perdeu o belo de sua naturalidade do período da Antiguidade Clássica e passa aser coberto com muitos tecidos e roupas,guardado, escondido e controlado.

Na Idade Média todos viviam a certeza da ressurreição,preocupados com a salvação eterna de suas almas e, por esse motivo, os corpos não podiam ser dessecados, pois, não era objeto. A anatomia do corpo humano sofreu uma estagnação, havendo um grande prejuízo para a medicina e estudos anatômicos.

O desenho foi de grande importância e iluminação para este momento, passou a ser visto e experienciadopor meio de esquemas gráficos traçados no papel pelo artistaLeonardo da Vinci (1452-1519), que adotou como ponto de partida a anatomia humanapara entender o funcionamento dos órgãos, do esqueleto, dos músculos e dos tendões.Da Vinci desenhou mais de1200 imagens anatômicas que se tornaram de muita relevância para o avanço das pesquisas e estudos do corpo, o que estabeleceuum marco de profundo valor para a medicina e para o desenho.

Sendo assim, o desenho possibilita a leitura dos corpos, das marcas identitárias, dos sentimentos, dos comportamentos e das posturas. Os corpos foram lidos ao longo da história tantonos desenhosanatômicos como nos processos psíquicos.

Os desenhos utilizados no sentido conotativo interpretativo têm como finalidade provocar sentimentos no receptor da mensagem, através da expressividade e afetividade que transmitem. São utilizados principalmente na linguagem poética. Osdesenhos são empregados por vários profissionais e em diferentes abordagens, quevêm contribuindo para o desenvolvimento de pessoas envolvidas em processo de ensino-aprendizagem, de análise terapêutica e de expressões artísticas das áreas da psicologia,da educação, da psicopedagoga, do teatro e da dança.

Segundo Albano (1995),a importância do desenho para o ser humano é desde a infância. O desenho é utilizado para o avanço intelectual e emocional da criança como possibilidade de brincar, de falar, de expressar as marcas dos sentimentos assumindo um caráter próprio para cada fase ou etapa em que a criança se encontra. Não só o desenho assume um caráter próprio, mas, o corpo também vai tomando para si posturas próprias, a depender das vivências realizadas, dos desenhos corporais que vão sendo traçados ao longo de cada história experienciada. Os desenhos da figura 29 retratam essa premissa, posturas, curvaturas, tensões musculares em diferentes localizações. Osregistros da memória corporal que identificam as marcas desenhadas deixadas pela vida, mostram a parte do corpo que fica mais afetada pelos sentimentos.

Figura 29 - Movimento e equilíbrio.

Fonte: Biomecânica, 2013.

Propor aos professores e professoras e aos alunos e alunas desenhar para recuperar a alegria, desfazer a tristeza, com o traço da poética das linhas do imaginário, fazer e refazer o que bem entender, transformar, divagar pela imaginação criativa, criar e recriar objetos, animais e o que for importante para cada um a depender do seu momento de vida é estruturante e desenvolve a capacidade criadora. Essas atitudes são fundantes para auxiliar não só no desenvolvimento do traço do desenho, mas, no traço do encontro com sua poética. O riscar no papel conteúdos que emanam do inconsciente ou da consciência os auxiliará a compreender melhor o que se passa no seu âmbito emocional. “A criança desenha para falar de seus medos, suas descobertas, suas alegrias e tristezas”. (ALBANO, 1995, p.20).

Desenhar, para as crianças, em quaisquer situações seja ela de doença física, emocional ou de saúde, é importante para reorganizar o seu interno e reconstruir a sua realidade. Essa experiência é significativa para a prática da/o profissional em educação, tanto para a sua própria história, como para a história de vida acadêmica do/aaluno/a. E o/a professor/a só proporcionará esse exercício de desenhar com esse objetivo se também for possível para ela/e experimentar, na sua formação pedagógica continuada, o exercício vivencial dessa prática.

Assim como certifica Albano (1995, p. 62) sobre essa experiência de desenhar, “[...]

desenvolvimento afetivo e cognitivo ao mesmo tempo em que ajuda a criança a conhecer e dominar seu corpo e conviver com as relações sociais”.

A criança experimenta desenhar desde seus primeiros movimentos através das garatujas. Os deslocamentos desordenados de mudança de um lugar para outro, de pisar no chão, tocar em objetos, facilitam o desenhar através do corpo que abre o caminho para que possa se constituir e firmar-se no mundo, esse movimento propicia as conexões sinápticas cerebrais. Essa fase inicial do desenho é fundamental para o desenvolvimento cognitivo e estruturação afetivo- emocional, que acontece, com propriedade, por meio da representação gráfica simbólica, uma das características humanas e culturais por excelência.

Nesta fase evolutiva do traçado da criança o interesse pelo desenho aumenta muito, pois seu corpo está com maior facilidade em responder aos estímulos realizados e de interagir com o espaço, uma vez que,começa oaparecimento das representações mentais e o desenvolvimento de funções simbólicas que expressam no papel com as cores e os traços. Além,de o desenho começar a ser nomeado por ela, através das formas simbólicas que vão surgindo juntamente com a criatividade.

As imagens desenhadas com a participação ativa do corpo começamrepresentar através do traçado os conteúdos inconscientes e conscientes, memórias e fantasias e lembranças vivenciadas.

Estes desenhos realizados pelas crianças representamo que elasquerem, o que elas pensam, o que elas imaginam, o que elas desejam ou o que elas temem. O desenho é o grande confidente das crianças. O corpo consegue se contemplar com a imagem gráfica expressa no papel. A comunicação se estabelece através do desenho por ela realizadorevelando o que tem de mais íntimo e de mais guardado no seu interior. Nesta perspectiva, é necessário pensar o desenho

“[...] para designar a dimensão mais ampla que envolve a sua epistemologia e, mais adiante, para indicar a necessidade de explorar o potencial de sentido que o desenho pode demandar”

(FERREIRA, 2011, p.15).

O desenho, na pesquisa, estará a serviço de representar simbolicamente as marcas identitárias registradas nos corposdas/os professoras/es, estejam estas/es conscientes ou não dos seus sentimentos, que são estruturantes para edificar a identidade pessoal de cada indivíduo que ocupa um lugarna vida, na escola e no corpo.Como afirma Nunes (1987, p. 37), “O corpo, que se apropria da história, precisa enxergar-se apropriado pela História da qual se apropria”.

A/o professor/a, por sua vez, também foi criança e passou por essas fases do desenhar. Ser sabedor/a desses conhecimentos possivelmente a/o ajudará na difícil tarefa de ensinar. Para o adulto que trabalha com criança, conhecer esses conteúdos na prática e na teoria o auxiliará a rememorar seus sentimentos e, muitas vezes,desbloquear sentimentos que muito provavelmente foram causados também pela escola.

As contradições do corpo

Meu corpo não é meu corpo, é ilusão de outro ser.

Sabe a arte de esconder-me e é de tal modo sagaz que a mim de mim ele oculta.

Meu corpo, não meu agente, meu envelope selado, meu revólver de assustar, tornou-se meu carcereiro, me sabe mais que me sei.

Meu corpo apaga a lembrança que eu tinha de minha mente.

Inocula-me seus patos, me ataca, fere e condena por crimes não cometidos.

O seu ardil mais diabólico está em fazer-se doente.

Joga-me o peso dos males que ele tece a cada instante e me passa em revulsão.

Meu corpo inventou a dor a fim de torná-la interna,

integrante do meu Id, ofuscadora da luz

que aí tentava espalhar-se.

Outras vezes se diverte

sem que eu saiba ou que deseje, e nesse prazer maligno,

que suas células impregnam, do meu mutismo escarnece.

Meu corpo ordena que eu saia em busca do que não quero, e me nega, ao se afirmar como senhor do meu Eu convertido em cão servil.

Meu prazer mais refinado, não sou eu quem vai senti-lo.

É ele, por mim, rapace, e dá mastigados restos à minha fome absoluta.

Carlos Drummond Andrade, 1992.

Figura 30- Desenho produzido no set terapêutico.

Fonte: Arquivo privado da pesquisadora.

2 CORPO NA EDUCAÇÃO

2.1 POLISSEMIA CORPORAL: diferentes construções da imagem visual do corpo

Entre o século XVIII e o século XIX, na História e na Antropologia existe registro na Europa e na América do Norte da cultura da deformidade, valorização ou negação das imagens visuais que os seres humanos traziam consigo. As pessoas com imagem fora do padrão convencional de beleza e de normalidade eram expostas em praças públicas, circos, salões, barracas etc., para divertir os espectadorespor meio da zombaria e observação do corpo do outro. Os entretenimentos eram homem-elefante, crianças unidas pelo mesmo tronco com duas cabeças, mulheres macacos, barbadas, criança microcéfala, exibidas entre macacos, leões, considerados como diversão popular, uma exposição cruel de olhar, mas com uma plateia de vários curiosos (COURTINE 2005).

Esses eventos aconteceram pouco mais de um século atrás,prática que não era pauta de reflexão, nem de preocupação com a imagem das pessoas expostas e, muito menos com os sentimentos delas. Assim como pontua Courtine (2005, p.255):

Nessas festas dói olhar, as grandes aglomerações de povo do final do século XIX, a curiosidade dos basbaques corria solta, e os olhares faziam um inventário sem limites da grande exibição das bizarrices do corpo humano: “fenômenos vivos”,deformações humanas ou animais extraordinários das barracas;espécimes teratológicos em frascos de vidro ou patologias sexuais dos museus de cera anatômicos; morfologias exóticas e rituais selvagens dos “zoos humanos”(...).

As polissemias corporais eram apresentadas por várias monstruosidades espetaculosas que firmavam a cultura visual desses continentes. Courtine (2005, p.260) refere-se a Foucault e a Canguilhem para explicar a normalização desses fatos.

Aquilo que Foucault procura caracterizar,discernindo assim a sombra do monstro por trás das múltiplas e mutáveis do anormal é, como nos diz, a emergência mais tarde a extensão a toda sociedade do “poder de normalização”. Uma límpida fórmula de Georges Canguilhem elucida o laço entre o monstro e a norma: “No século XIX, o louco está no asilo,onde serve para ensinar a razão; e o monstro está na redoma do embriologista onde serve para ensinar a norma”.

Essas imagens assim vistas comprometiam o comportamento e o emocional das pessoas, e as faziam vítimas de um sistema de normalização e de diversão de massa popular, por meio da figura humana do outro em diferentes espaços.

No século atual, a postura e a cultura da diversão pautadas na imagem do outro que não faz parte do padrão estético preestabelecido é uma prática frequente em muitas instituições. Na escola, essa situação perversa, tanto da monstruosidade quanto da normalização, traz

implicação no desenvolvimento cognitivo dos pares envolvidos no processo educativo, tanto para quem ensina, a professora, quanto para quem aprende, o aluno.

Esta foi, portanto uma das formas essenciais da formação do poder de normalização na virada do século: a extensão do domínio da norma se realizou através de um conjunto de dispositivos de exibição do seu contrário, de apresentação da sua imagem invertida. Sem necessidade alguma de meios coercitivos,no entanto, para essa pedagogia de massa,bem o contrário de um espaço panóptico e de uma vigilância de Estado: uma rede frouxa e disseminada de estabelecimentos de espetáculo,privados ou públicos,permanentes ou efêmeros,sedentários ou nômades,primíciase,depois,a formação de uma indústria da diversão de massa que distrai e fascina. Ela inventa dispositivos que atuam sobre o olhar, fabrica um estimulo a ver que terá nas espécies anormais do corpo humano. (COURTINE, 2005, p.261).

No século XXI ainda percebemos estranhamento pela imagem considerada não adequada, perfil intitulado pela mídia e ou sociedade sobre o modelo do corpo do outro que alguém julga ser o melhor, o belo, o perfeito e adequado. Notamos dificuldades nas comunidades, na escola em lidar com as imagens corporais consideradas monstruosas que estão fora do padrão escolhido de beleza, seja por diferenças raciais, por percepções diferentes de corpos com base naqueles ditos normais ou por dificuldades de aprender determinado conteúdo em se tratando de escola especificadamente.

A imagem visual do corpo construída por diferentes traços e contrastes, durante séculos, sofreu interdições, censuras e proibições, dentro e fora do espaço escolar. Assim, professores/as e alunos/as foram vitimas da ditadura de um modelo, permaneceram calados, paralisados, introspectados fáceis de serem manipulados, domesticados, por estarem fora do dito padrão de boniteza e de intelectualidade. Corpos submissos a uma tirania predeterminada por pessoas que detém o poder de dizer e legitimar os ditos padrões. Na escola, esta premissa se torna verdadeira quando temos alunos/as limpinhos, cheirosos, calados, obedientes e de preferência aprendentes e sem dificuldades. Dessa forma, sãos belos.E quando é diferente os/as professores/as se queixam, mas repetem seus planejamentos há anos a fio sem mudar, sem inovar e sem refletir.

A escola e ou a sociedade não isenta alunos/as e nem professores/as se estiverem avessos ao padrão preestabelecido. A imagem do corpo do/a professor/a na escola perpassa por várias simbologias que estão impregnadas no contexto sócio educacional. A imagem sendo do/a professor/a, por sua vez, imagem de mulher, muitas vezes, é associada à imagem masculina, se possuir liderança, se for forte em suas atitudes e ações, e é considerada mulher/homem, militar, pessoa que transmite medo, é bruxa. Paradoxalmente, outra pessoa que exerce

amesma função, com características emocionais diferentes, é dita singela, permissiva e meiga.

As pessoas naturalmente são diferentes. Aqui quero registrar as diferentes imagens desse profissional que convém ou não para a sociedade ou para a comunidade escolar, pois, muitas vezes, a imagem corporal que a pessoa possui para si não combina nem com uma coisa nem com outra. Falo aqui do estereótipo da imagem da/o professor/a.

Na sociedade como um todo as características corporais são diversas e as características das/os professoras/es parecem ser unificadas, semelhantes. Como nos assegura Silva (2004, p.11): “A projeção de imagens corporais que inundam o nosso arquivo mental com certeza se encarrega de deturpar a visão que temos de nós mesmos e que nos contam quem somos”.

Essa projeção descreve quem é cada pessoa que busca melhorar a própria imagem visual, ou disfarçá-la para viver mais confortavelmente. As pessoas que fazem parte da escola, apesar de tanta dicotomia, desajuste social e financeiro não foge a regra. As mudanças corporais, na atualidade, de modo geral, estão a serviço da moda, das joalherias, da indústria dos cosméticos, da indústria de alimentos, da cirurgia plástica, das academias. Os corpos são sequestrados e ficam reféns de cumprirem papéis para satisfazer as imagens ditadas pelos segmentos lucrativos da sociedade capitalista contemporânea.O “corpo-máquina”, que é retirado da sua condição orgânica e simbólica para apenas produzir os ritos ditados por outrem. Como ressalta Araújo (2008, p. 65, 66):

[...] o corpo é reduzido a uma máquina pensante e produtiva, a um instrumento eficiente que deve operar mecanicamente sob as determinações da ratio (medida); é confinado a uma entidade fria e disforme que deve ser controlada apresentada comportamentos pré-determinados. Forja-se assim, um corpo inodoro e desprovido de cromaticidade. Um corpo docilizado e bem comportado; reduzido á condição de coisa. Portanto, um corpo exilado de seu estofo orgânico e simbólico.

Além das mudanças provocadas ou naturais, não se pode deixar de registrar as alterações indesejáveis, as marcas do tempo, da genética, os aspectos naturais que não agradam e os acidentes que mudam as características originais do corpo. Algumaspessoas não aguentam carregar a própria imagem por descontentamentos dos mais diversos.A consciência da situação lhes permite sair ou permanecer na interdição que é dada ao seu corpo ou refazer a imagem mental e real de si mesma.

O corpo do/a professor/a também inserido na realidade da imagem midiática, concorre com corpo dos/as alunos/as que possuem tendências que fazem parte da realidade da malhação, da ostentação, da moda etc., pois tanto um como o outro fazem parte do mundo. Ou seja,