• Nenhum resultado encontrado

Infinito e sincronia

No documento A GÊNESE DO POLÍTICO: (páginas 34-37)

1.3 O nascimento do político

1.3.2 Infinito e sincronia

Mesmo a morte, que “torna insensata qualquer preocupação que o Eu desejasse ter relativamente à sua existência e ao seu destino”118, pode ganhar um sentido a partir de nossa responsabilidade. O curso de vida do ser, seu desenrolar, consiste em mostrar a essência na verdade. “A via pela qual o logos se eleva desta situação ao conceito do Eu passa pelo

até condiciona as coordenadas espaciotemporais que circunscrevem o domínio ontológico.” BUTLER, J. Relatar a si mesmo. Crítica da violência ética. Belo Horizonte: Autêntica editora, 2015. p. 114.

113 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 90.

114 SEBBAH, Levinas, p. 212.

115 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 90.

116 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 109 (nota 34).

117 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 109 (nota 34).

118 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 145.

33 terceiro”119. Meu próximo é também terceiro com relação a um outro, também ele próximo.

Este fato é “o nascimento do pensamento, da consciência e da justiça, e da filosofia”120. Dessa maneira, a consciência é imprescindível, porque aparece como um outro do ser,

“um sujeito chamado a recolher a manifestação”121, subjetividade que nada acrescenta à essência, pois a verdade do verdadeiro não se inscreve em nenhuma propriedade do termo revelado, nem recebe “qualquer ‘caráter imaginário’ que procedesse da consciência que acolhe a apresentação do ser descoberto ou desvelado”122.

O saber ocorre, portanto, fora do sistema. O saber pertence à subjetividade que recebe a manifestação. Ela se subordina ao “sentido da objetividade”123. Levinas descobre na objetividade uma relacionalidade, já que não são atributos que se mostram quando a quididade dos seres se desvela, mas, justamente, a relação de um atributo com outro. A relatividade, “na qual eles fazem sinal um ao outro”124, vem à luz com a quididade das coisas. O desvelamento é justamente o reagrupamento em sistema, a inteligibilidade que deixa ver a totalidade. O sistema é “a coexistência ou acordo dos termos diferentes na unidade do tema”125. A coexistência não é princípio, mas chegada.

Termos, estruturas e sistema mantêm uma relação de indiferença com o sujeito que observa, ainda que de forma diferente. Os termos não saem à luz fora das relações. Eles permanecem à sombra. As estruturas, as relações entre os termos, aparecem fora do sistema. A estrutura é já uma inteligibilidade, mas os termos não têm significação fora das estruturas. É na relação entre eles que ganham uma “graça”126.

Aqui, a subjetividade ainda não intervém, não se coloca na tematização. É “meio-dia sem sombras”127. Mas é a partir da inteligibilidade do ser enquanto devir de uma inteligibilidade, na presença de um intervalo que se iniciou na exposição, é a partir daqui que Levinas pensa a subjetividade. O ser segue seu curso: elementos insignificantes se reúnem em estruturas, e estas se reúnem em sistemas, em totalidade. “É nesta medida que a subjetividade intervém, na retenção, na memória e na história, para apressar a reunião, para dar mais oportunidades de acomodação, para reunir os elementos num presente, para re-presentar.”128

119 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 143.

120 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 144.

121 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 148.

122 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 147.

123 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 147.

124 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 148.

125 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 179.

126 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 148.

127 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 149.

128 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 149.

34 A essência do ser recorre ao sujeito para se manifestar, para aparecer verdadeiramente e, assim, o absorve: o sujeito faz parte do curso do ser. Da mesma maneira, a tentativa de entendimento entre os seres humanos pela fala pode entrar neste curso. Mas essa não é a relação descrita por Levinas como ética: ele a descreve como uma intriga. A responsabilidade é estruturada enquanto um-para-o-outro sem começo, an-árquica. Não cabe nesta relação a correlação sujeito-objeto. A significação não repousa no ser. O que se mostra no Dito já se mostra traído e como contradição.

O um-para-o-outro torna possível a relação e o ponto fora do ser, o ponto de desinteressamento necessário para uma verdade que não se quer pura ideologia. “A bondade está no sujeito, é a própria an-arquia”129. Bondade diferente da propensão altruísta por satisfazer, diferente de uma decisão da vontade, bondade sem retorno. Mas se não há propensão altruísta, não há natureza humana para ser boa. Longe da discussão moderna, Levinas se posiciona sobre o humano da seguinte maneira:

Não digo que que os seres humanos são santos ou que andam em direção à santidade.

Apenas digo que a vocação à santidade é reconhecida por todo ser humano como valor e que esse reconhecimento define o humano. O humano abriu uma fresta no ser imperturbável!130

O Infinito não aparece. A ordem é seguida antes de ser ouvida. Em certo sentido, antes de ser dada. O Dizer sem Dito é a Glória do infinito. Ele não é testemunha, aquele que vê. O

“Eis-me!” é testemunho: é substituição, é sinal. O testemunho “é exceção à regra do ser, irredutível à representação”.131 A Glória do Infinito é a identidade anárquica do sujeito desalojado, que não deixa ao eu nenhum refúgio. “A transcendência da revelação tem a ver com o fato de a ‘epifania’ proceder, no Dizer, daquele que a recebe”132.

O Infinito escapa na inversão entre heteronomia e autonomia, como na metáfora da inscrição da lei na consciência133. É a inversão que possibilita obedecer à ordem dada antes de a escutar (e antes mesmo de ela ser pronunciada). Ele significa na terceira pessoa, como ileidade. O Infinito não me ordena como um tu, mas no próximo como rosto. Ele me ordena sem se expor a mim. O Infinito só tem Glória pela subjetividade.

129 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 153.

130 LEVINAS, Violência do rosto, p. 29-30.

131 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 161.

132 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 164.

133 LEVINAS, De outro modo que ser ou para lá da essência, p. 163.

35 É necessário que todos os agentes estejam em cena. Assim, “o rosto torna-se aparecer e epifania”134, a expiação pelo outro se mostra no tema.135 “A contemporaneidade do múltiplo ata-se em torno da diacronia de dois.”136 Pela diacronia, a ética deixa sua marca no político. O sujeito sustenta a política não enquanto ser livre e racional, mas enquanto eleito e responsável.

A eleição não dá poderes democráticos, mas o poder do eleito é a responsabilidade, o poder da sabedoria, que recordará às instituições políticas a necessidade da justiça.

No documento A GÊNESE DO POLÍTICO: (páginas 34-37)