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O INTERROGATÓRIO ON LINE DIANTE DO PRINCÍPIO DA AMPLA

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 62-71)

Ampla Defesa, por impedir o acesso físico do investigado, réu ou condenado ao seu advogado e ao juiz.”

Por fim, D‟Urso e Costa (2009, p. 33) enfatizam, também, que os argumentos utilizados pelo Estado para apoiar a aprovação da videoconferência para o procedimento do interrogatório do acusado não se sustentam. Por exemplo:

[...] a ida do magistrado ao recinto prisional anularia a afirmativa de que evitaria a fuga do acusado durante o transporte ao foro; não é efetiva a afirmação de que haveria redução de custas, seja porque é de natureza do poder estatal fazer frente a despesas dessa natureza e peculiar ao próprio aparato segregador do réu preso, ou porque esse problema seria equacionado com a ida do magistrado ao recinto prisional, ou ainda, porque a videoconferência, nos termos da Lei, só poderá ocorrer excepcionalmente (p. 33).

Finalmente, conforme Fioreze (2009, p. 137), ao interrogatório virtual concluem que o mesmo “traz sérios prejuízos ao acusado, tendo em vista que anula sua condição básica de ser humano, impedindo-lhe um contato honesto, série e, efetivo com seu julgador”.

- Há garantia do Princípio da Ampla Defesa (CRFB/1988, art. 5º, LV): ao se utilizar o mecanismo da videoconferência, aquele poderá manifestar-se livremente, e todas as suas expectativas serão vistas e ouvidas pelo juiz, por meio de câmeras e microfones. [...]. Há também, um telefone, que permite o contato direto sigiloso entre acusado e advogado, garantindo-se, assim, a amplitude de defesa. Portanto, não que se falar em limitação da defesa ou da autodefesa.

- Há o respeito ao Princípio do Devido Processo Legal (CRFB/1988, art. 5º, LIV): é regra do art. 69, n.2, do Decreto n. 4388, de 25/9/2002, o qual recepcionou no ordenamento brasileiro o Estatuto de Roma do Tribunal Penal Internacional; no art. 24, item 2, “b”, do Decreto n. 5.015, de 12/3/2004, que sancionou a Convenção das Nações Unidas contra o Crime Organizado Transnacional; e por fim a Lei Estadual n. 11.819/2005.

- Ausência de ofensa aos Pactos e Acordos Internacionais: o direito do réu de ficar defronte ao julgador será preservado, pois virtualmente será realizada uma audiência em tempo real.

- A questão da Dignidade da Pessoa Humana (CRFB/1988, art. 1º, III):

evitará horas de viagem sem alimentação, os abusos e as humilhações sofridas durante o deslocamento em meio de transporte inadequado ferem a dignidade da pessoa humana, podendo a videoconferência abrandar tal ofensa. Não há porque falar em desrespeito à dignidade da pessoa humana.

- Publicidade dos Atos Processuais (CRFB/1988, art. 5º, LX e art. 93, IX, e CPP, art. 792): será ampliada no espaço, porque em qualquer lugar do mundo será possível ir à audiência, e no tempo porque com a gravação da audiência em compact disc e sua juntada aos autos do processo, será possível a consulta em qualquer momento, pelo juiz ou pelos magistrados das instâncias superiores.

- Garantia Constitucional da Celeridade Processual (Emenda Constitucional n. 45/2004 consoante a CRFB/1988, art. 5º, LXXVIII): favorece o cumprimento da referida garantia.

- Insistência de Nulidade Processual: o estudo das nulidades no contexto do Código de Processo Penal está delimitado pela previsão do ato do interrogatório nos arts. 185 a 196, os quais podem ser atendidos, também, no procedimento do teleinterrogatório, sem que haja prejuízo às partes.

Desse modo, Barros e Romão (2006 p. 166) defendem a adaptação do processo criminal à nova realidade tecnológica, permite a utilização da internet para

a prática de diversos atos processuais, assim como a realização de videoconferência, que dá a possibilidade de realizar o teledepoimento e o teleinterrogatório (interrogatório on line).

Estes autores apontam, também, um exemplo, que é o próprio objeto da Lei n. 9800/1999, que permite às partes a transmissão de dados e imagens tipo fac- simile para o envio de peças processuais, a qual, também, foi muito criticada. Hoje o sistema já se tornou reconhecidamente útil e aceitável na praxe e forense; isso para não lembrarmos as críticas, que em épocas passadas, foram feitas ao sistema de datilografia (p. 121).

Alega Amorim (s/d) que o sistema de videoconferência

[...] em nada limita a autodefesa do réu, que poderá alegar em seu favor todos os fatos que entender. Não se diga que o réu poderá estar constrangido pela proximidade com eles e não delatar cúmplices que estejam presos na mesma custódia ou maus-tratos recebidos por policiais durante a prisão, pois mesmo no interrogatório na sede do juízo tais informações podem chegar aos delatados.

Diante da publicidade do ato, mormente considerando que o réu preso permanece em juízo escoltado por policiais durante todo o tempo.

Tornaghi (apud D‟URSO, 1994), ao falar contra o teleinterrogatório, asseverava a respeito do interrogatório no processo penal: “[...] o interrogatório é a grande oportunidade que tem o juiz para, no contato direto com o acusado, formar juízo a respeito”.

Desse modo, pode-se entender que no interrogatório por sistema de videoconferência, “nenhum desses detalhes e momentos se perder continua sendo oral.

Segundo Fioreze o, “contacto visual permanece e é ampliado pelas tecnologias de captação, amplificação e aproximação de som e imagem.”

A videoconferência, hoje, causa “a mesma reação provocada pela máquina de escrever ou a estenotipia. Toda mudança de paradigma implica traumas e isso é normal” (FIOREZE, 2009, p. 151). “É preciso que a modernidade se harmonize com a plenitude de defesa” (p. 152).

Note-se que sempre que o Poder Judiciário tenta inovar com a utilização de tecnologias mais modernas, várias bandeiras contrárias se levantam, gerando uma enorme dificuldade de adaptação (BARROS e ROMÃO, 2006, p. 121).

Rodrigo Gomes (2008, p. 68) entende que o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência “é um claro avanço para o ordenamento jurídico pátrio, contribuindo para a desoneração do Estado e do contribuinte, para a redução do risco de fugas e para a maior celeridade processual, dentre outros benefícios.” Este procedimento eletrônico “permite o atendimento da finalidade constitucional da ampla defesa” (p. 68).

Entretanto, apesar disso, o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência é a forma de produção eletrônica de ato processual mais combatida e criticada por grande parte da doutrina. “O interrogatório do acusado por sistema de videoconferência vem provocando reações adversas entre a comunidade jurídica.”

Muitos deles apontam o conflito com a regra do art. 185, §1º, do Código de Processo Penal, segundo a qual o interrogatório do acusado deve ser feito no estabelecimento prisional em que se encontrar, em sala própria, desde que estejam garantidas a segurança do juiz e auxiliares, a presença do defensor e a publicidade do ato (BARROS e ROMÃO, 2006, p. 122-123).

O advento das leis paulista (Lei n. 11.819/2005) e carioca (Lei n.

4.554/2005), que autorizam os respectivos Governos de Estado a usar a tecnologia do sistema de videoconferência no momento do interrogatório continua gerando polêmica ao atendimento dos direitos e garantias constitucionais (SOARES e MACHADO, s/d).

[...] a realização do teledepoimento pode ser interessante ao próprio acusado. É notória a dificuldade de deslocamentos dos réus às sedes dos fóruns, sobretudo quando o presídio se localiza em região distante. Com o uso dessa tecnologia, estes podem assistir ao depoimento e participar dele sem a necessidade de sair do estabelecimento prisional (BARROS e ROMÃO, 2006, p. 123).

Barros e Romão (2006, p. 116) sustentam que a produção de provas no Processo Penal por meio virtual “não fere os direitos individuais constitucionalmente garantidos e que a modernização dos instrumentos de realização da justiça é uma necessidade que se impõe, sob pena de esta tornar-se apenas um símbolo distante e abstrato.”

Rodrigo Gomes (2008, p. 69) aponta as vantagens de se realizar o interrogatório por sistema de videoconferência:

[...] coibição de fugas e resgate de presos no transporte com escolta no trajeto presídio-fórum-presídio; celeridade processual; economia para os cofres públicos; realocação de policiais em suas funções primordiais de patrulhamento e garantia da ordem pública;

inexistência de vedação legal e o fato de o Código de Processo Penal admitir a realização de qualquer meio de prova não proibido por lei.

Conforme Ishida (2008, p. 89), a Lei n. 11.819/2005 prevê em seu art. 1º que

“nos procedimentos judiciais destinados ao interrogatório e à audiência de presos, poderão ser utilizados aparelhos de videoconferência, com o objetivo de tornar mais célere o trâmite processual, observadas as garantias constitucionais.”

Atualmente, segundo Ishida (2008, p. 90), nas varas criminais da Comarca da Capital paulista, são realizadas audiências com a participação dos réus através de câmeras de computador, utilizando-se o sistema de videoconferência. O Código de Processo Penal permite a oitiva de vítima e testemunha sem a presença física do réu, mas por videoconferência (CPP, art. 217).

Assim sendo, levando em consideração que a literatura está demonstrando que o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência já está sendo utilizado em nível internacional, tendo resultados positivos, “o Estado, diante da criminalidade cada vez mais organizada, não deve permanecer restrito às formalidades e ao rigorismo legal” (RODRIGO GOMES, 2008, p. 68).

Desse modo, a informatização dos meios de documentação e investigação veio para atenuar o desgastante modo de vida do século XXI, reduzir gastos públicos e, principalmente, promover o acesso à justiça pelas partes e seus advogados.

Com a edição da Lei n. 11.900/2009, também houve alguns posicionamentos contrários e favoráveis à adoção da Lei de Videoconferência, como também, mais alguns julgados foram resgatados para melhor entendimento da matéria.

Finalmente, as posições favoráveis à Lei de Videoconferência assim estão argumentadas pelos doutrinadores e a jurisprudência:

Conforme o Des. Anjos (2010), a edição da Lei n. 11.900/2009 “veio para contribuir com o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência e/ou outro recursos tecnológico de transmissão de sons e imagens em tempo real.”

Apesar desta inovação tecnológica, para alguns juristas o interrogatório por sistema de videoconferência “significa cerceamento da defesa, pois diminui a possibilidade de comunicação entre juiz e acusado, representando mais impessoalidade e, portanto, mais frieza.” Pensando desta forma, estes juristas não estão levando em consideração a oportunidade “de se adotar medidas que tragam mais celeridades à justiça, num quadro de muita demanda, e de uma estrutura deficitária para atender às reais necessidades.

Luiz Gomes (2009) aponta que a edição da Lei n. 11.900/2009 promoveu

“um amplo e polêmico debate, que colocou o Superior Tribunal de Justiça e o Supremo Tribunal Federal em posições diversas, o que chegou a acarretar o reconhecimento de inconstitucionalidade das leis paulista e carioca.”

A videoconferência é recurso tecnológico a serviço da sociedade e do bem público. Além de interrogatório do acusado, este instrumento pode ter seu uso estendido para oitiva de testemunha, vítima e réu solto que moram fora da jurisdição do juiz ou distante da sede do juízo [...] (LUIZ GOMES, 2009).

Desse modo, o autor se posiciona a favor do interrogatório por sistema de videoconferência, observando que “este meio eletrônico representa poderoso instrumento de celeridade e desburocratização da Justiça, amparada pela Convenção de Palermo.

Soares e Machado (s/d) apontam que aqueles que defendem o interrogatório por sistema de videoconferência e audiências sustentam que a justiça criminal necessita deste meio tecnológico devido a lida com uma criminalidade cada vez mais estável e crescente.

O sistema de videoconferência é uma nova forma de contato direto (pessoal), não necessariamente no mesmo local. Conforme a Ministra Ellen Gracie do Supremo Tribunal Federal:

[...] além de não haver diminuição da possibilidade de se verificarem as características relativas à personalidade, condição socioeconômica, estado psíquico do acusado, entre outros, por meio de videoconferência, é certo que há muito a jurisprudência admite o interrogatório por carta precatória, rogatória ou de ordem, o que reflete a idéia da ausência de obrigatoriedade do contato físico direto entre o juiz da causa e o acusado, para a realização do seu interrogatório (apud LUIZ GOMES, 2009, p. 30).

Desse modo, desde que observadas todas as garantias constitucionais, internacionais e legais, não há como reconhecer a invalidade da videoconferência.

Neste sentido, Nucci que anteriormente à edição da Lei n. 11.900/2009 tinha posição contrária à adoção do interrogatório por sistema de videoconferência, hoje, com a edição desta Lei, em termos específicos e proclamando a excepcionalidade da medida, o autor reviu a sua posição. Segundo afirma: “Parece-nos que, não se tornando regra, pode-se admitir a realização do interrogatório por sistema de videoconferência, quando sumamente necessário” (2010, p. 422). Afirmando ainda que, para o acusado, o interrogatório por sistema de videoconferência é positivo e:

É melhor fazê-lo desse modo em lugar de protelar o julgamento indefinidamente ou de acarretar maiores prejuízos ao réu, que ficaria preso por um período mais extenso à espera de escolta para ir ao fórum ou de adaptação de sala de audiência no presídio em que se encontra.

No entanto, o autor ainda ressalva: “[...] penso que o contato direto entre o magistrado e o réu parece-nos imperioso, como regra” (NUCCI, 2010, p. 423).

Nunes (2000) leciona que “o juiz pode perfeitamente ver pela câmara como é a postura do réu e a maneira que o encara, qual é seu comportamento [...].”

Brandão (1998, p. 504-506) ao defender o sistema de videoconferência leciona que “o conservadorismo de alguns juristas e o apego aos velhos formalismos são males da própria ciência do Direito.”

Sobre isso, Rodrigo Gomes (2008, p. 70) aponta que:

[...] em confronto com os princípios eficiência, celeridade, economicidade, e segurança pública, valores como vida e patrimônio, o argumento falta de contato físico perde fora, uma vez que o acusado pode ser ouvido por carta precatória, sem ter contato com o juiz da instrução, que julgará a ação penal.

Na visão de Capez (2009, p. 32), “a Lei n. 11.900/2009 procurou resguardar os direitos e garantias constitucionais do acusado. [...].” Portanto, na essência, nada mudou, “já que o réu poderá se valer de todos os seus direitos constitucionalmente assegurados, afastando-se qualquer posicionamento contrário à videoconferência”

(p.32).

Finalmente, Nucci (2010, p. 424) observa que a edição da Lei n.

11.900/2009, autorizando a realização do interrogatório por sistema de

videoconferência, nos casos nela previstos, provocará nova manifestação do Supremo Tribunal Federal. “Isso poderá ocorrer haja vista alguns indeferimentos com fundamentação calcada na ausência de disciplina legal a respeito, o que agora é suprido pela novel legislação” (p. 424).

Nucci (2010, p. 424) destaca os requisitos formais que dizem respeito aos elementos indispensáveis à sustentação da decisão judicial:

a) Excepcionalidade: é o interrogatório presencial a regra, de modo que o realizado por meio da videoconferência, uma exceção. Torna- se inadmissível inverter essa imposição legal, vulgarizando-se a forma de interrogatório ou coleta de depoimentos por meio eletrônico.

A facilidade ou a economia de custo para o Estado não está contemplada em lei e não é requisito para contornar a regra;

b) Fundamentação: propicia a consagração de que as decisões do Judiciário são fundamentadas (CRFB, art. 93, IX) e estabelece a evidência de ser decisão interlocutória a que autoriza o uso da videoconferência, não se tratando de despacho de mero expediente.

Logo, ao cercear o direito à ampla defesa e o direito de presença do réu, deve a decisão ser bem motivada;

c) Necessariedade: consagra a fórmula da necessidade do ato processual ser realizado de determinada forma, pois de outra, não atingiria a sua finalidade. O necessário é indispensável, equivalendo dizer que, se não for feito de certo modo, não se perfaz (NUCCI, 2010, p. 424).

O autor aponta, também, os requisitos substanciais, “que dizem respeito ao cerne da situação fática existente, de modo a fazer surgir a necessidade de uso da regra excepcional do emprego de videoconferência para o interrogatório e outros atos processuais.” São requisitos alternativos, quando observados os incisos de I a IV do §2º, do art. 185, do Código de Processo Penal (2010, p. 424-425).

Para Luiz Flávio Gomes (2009, p. 30-31), “não interessa tanto o método (tecnológico), e sim a forma (circunstâncias do ato).” Um modelo de processo penal eficiente com garantias, a videoconferência tem que acontecer em sala especial nos presídios, com acesso público; a presença de um funcionário judicial neste local se faz necessária; a comunicação direta e privada - linha telefônica exclusiva - entre o réu e o seu advogado é totalmente imprescindível, etc. (2009, p.30).

Portanto, o fundamental, como se vê, não é o método, e sim a forma, porque esta é garantia no processo penal. E todas essas formas foram garantidas pela Lei n. 11.900/2009.

E também, é claro, “a condição de validade do interrogatório por sistema de videoconferência é a prévia intimação do réu e do seu defensor” (GOMES Carneiro, 2008, p. 70).

Finalmente, Luiz Flávio Gomes (2009) entende que anteriormente à Lei de Videoconferência o problema era de legalidade, como por exemplo, as leis estaduais dos Estados de São Paulo e Rio de Janeiro, que não podiam cuidar da matéria, pois esta é de competência exclusiva da União, ou seja:

Do ponto de vista formal, porque de fato, lei estadual não pode cuidar de tema processual; mas não de pode confundir processo com procedimento. Ou seja, o interrogatório e as audiências são inequivocadamente atos processuais, e somente a União pode legislar.

Segundo Barros e Romão (2006, p. 121-123), a constitucionalidade da Lei 11.819/2005 do Estado de São Paulo foi considerada por muitos críticos, inconstitucional por vício de origem, já que o uso de videoconferência com interrogatório e audiências só pode ser instituído por lei federal, haja vista que compete à União legislar sobre o Direito Processual (CRFB/1988, art. 22, I).

Conforme estes autores, o Estado de São Paulo tem competência para legislar, nos exatos termos da Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, art. 24, XI, que atribui competência concorrente entre União, Estados e Distrito Federal para legislar sobre procedimentos em matéria processual.

Soares e Machado (p. 2) assim se manifestam:

Na intelecção do art. 22, I, da CRFB compete privativamente à União legislar sobre Direito Processual, ressaltando que o art. 24, XI, da CRFB ainda preconiza que União, Estados e Distrito Federal têm competência concorrente para legislar sobre procedimentos em matéria processual, incumbindo à União, conforme §1º, estabelecer as regras gerais, as quais servirão de balizas, para as leis estaduais.

Assim, em matéria procedimental, a União tem competência para estabelecer as normas gerais e os Estados para normas suplementares. Todavia a Lei n. 11.819/2005 da cidade de São Paulo, que autoriza a realização do interrogatório e das audiências por meio de videoconferência não é simples regra procedimental (SOARES e MACHADO, s/d).

A esse respeito Fernandes (2005, p. 7) assevera que a Lei sobre Videoconferência

[...] não é uma simples norma a respeito de locais em que os atos de interrogatório e de instrução processual serão efetivados. Ela envolve, necessariamente, direitos dos acusados, como o seu direito a ser ouvido diretamente pelo juiz, o seu direito à presença do defensor ao ato do interrogatório, o seu direito a exercer em contato pessoal com o juiz a sua autodefesa, conforme está disposto no art.

185, §1º do Código de Processo Penal.

Neste sentido, Fernandes (2005 p. 7) conclui que:

[...] os dispositivos encontrados nas leis estaduais (São Paulo e Rio de Janeiro) representam opção contrária, ou seja, a de que o interrogatório possa ser efetivado sem o contato direto do juiz com o acusado, por meio da videoconferência. Há claro antagonismo entre a regra estadual e a norma federal do Código de Processo Penal, prevalecendo esta sobre aquela, pois, como visto, incumbe, meso em matéria procedimental, à União estabelecer as regras gerais.

Portanto, as leis estaduais são inconstitucionais por vício de origem, pois a utilização deste meio tecnológico só poderá ser instituído por lei federal. Para Soares e Machado (s/d),

[...] a flagrância da inconstitucionalidade por ausência de competência legislativa afasta por completo a aplicação das leis paulistas e cariocas, já que não trata de procedimento penal e sim da estruturação de um ato do processo; desse modo, matéria processual penal.

Em suma, a informatização do Judiciário, em sua plenitude, não é uma questão de utilidade, e sim de necessidade (GOMES, 2009, p. 31).

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 62-71)

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