• Nenhum resultado encontrado

JULGADOS ACERCA DA VIDEOCONFERÊNCIA

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 71-85)

A esse respeito Fernandes (2005, p. 7) assevera que a Lei sobre Videoconferência

[...] não é uma simples norma a respeito de locais em que os atos de interrogatório e de instrução processual serão efetivados. Ela envolve, necessariamente, direitos dos acusados, como o seu direito a ser ouvido diretamente pelo juiz, o seu direito à presença do defensor ao ato do interrogatório, o seu direito a exercer em contato pessoal com o juiz a sua autodefesa, conforme está disposto no art.

185, §1º do Código de Processo Penal.

Neste sentido, Fernandes (2005 p. 7) conclui que:

[...] os dispositivos encontrados nas leis estaduais (São Paulo e Rio de Janeiro) representam opção contrária, ou seja, a de que o interrogatório possa ser efetivado sem o contato direto do juiz com o acusado, por meio da videoconferência. Há claro antagonismo entre a regra estadual e a norma federal do Código de Processo Penal, prevalecendo esta sobre aquela, pois, como visto, incumbe, meso em matéria procedimental, à União estabelecer as regras gerais.

Portanto, as leis estaduais são inconstitucionais por vício de origem, pois a utilização deste meio tecnológico só poderá ser instituído por lei federal. Para Soares e Machado (s/d),

[...] a flagrância da inconstitucionalidade por ausência de competência legislativa afasta por completo a aplicação das leis paulistas e cariocas, já que não trata de procedimento penal e sim da estruturação de um ato do processo; desse modo, matéria processual penal.

Em suma, a informatização do Judiciário, em sua plenitude, não é uma questão de utilidade, e sim de necessidade (GOMES, 2009, p. 31).

alguns julgados a seguir. Inclui-se, também, alguns julgados que solicitam a nulidade do interrogatório antes da edição da Lei n. 11.900/2009, e a permissão por excepcionalidade da videoconferência.

Adepto da idéia a favor da videoconferência no momento do interrogatório, a Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça, tendo como relator o Min. Paulo Medina que:

PROCESSUAL PENAL. HABEAS CORPUS. NULIDADE.

INTERROGATÓRIO. VIDEOCONFERÊNCIA. DEVIDO PROCESSO LEGAL. Prejuízo não demonstrado. O interrogatório realizado por videoconferência, em tempo real, não viola o princípio do devido processo legal e seus consectários. Para que seja declarada nulidade do ato, mister a demonstração do prejuízo nos termos do art. 563 do Código de Processo Penal. Ordem DENEGADA. (HC 34020-SP, Sexta Turma do Superior Tribunal de Justiça. Relator:

Ministro Paulo Medina. Julgado em: 15/09/2005) - antes da Lei n.

11.900/2009.

Ao fundamentar a sua decisão, o Min. Paulo Medina alegou que não haveria diferença se o réu falasse diante do juiz e ter o seu depoimento transcrito por um computador ou fazê-lo em audiência transmitida de forma remota e gravado em CD- rom para consulta posterior das partes, pois ambas as modalidades estariam em observância com o princípio da publicidade e o princípio da imediação. Salienta ainda que “o acusado tem acesso direto ao juiz da causa de forma a ser respeitado, com maior intensidade, o princípio do juiz natural, cabendo a réu “demonstrar o prejuízo decorrente da realização do interrogatório por videoconferência, nos termos do art. 563 do CPP.”

Ainda, entendeu a Corte Superior que se não houver motivo, o ato seria nulo, mas havendo motivo justificado, permitir-se-ia a realização do ato solene por meio da videoconferência:

INTERROGATÓRIO JUDICIAL. REALIZAÇÃO POR

VIDEOCONFERÊNCIA. NULIDADE - Admissibilidade, porém, se a saída do réu da unidade prisional acarretar perigo à ordem pública e à segurança das pessoas encarregadas da administração da justiça - Inteligência do art. 972 do Código de processo penal (RT 742/579) (ISHIDA, 2008, p. 89) - antes da Lei n. 11.900/2009.

Contrariando o entendimento anterior, julgou o Supremo Tribunal Federal o Habeas Corpus n. 88.914 – SP, tendo como relator o Min. Cezar Peluso, onde

afirmou que a realização do interrogatório por sistema de videoconferência exercia barreiras ao direito da ampla defesa e do contraditório, direitos estes inerentes ao réu, sendo este nulo:

AÇÃO PENAL. ATO PROCESSUAL. INTERROGATÓRIO.

REALIZAÇÃO MEDIANTE VIDEOCONFERÊNCIA.

INADMISSIBILIDADE. Forma singular não prevista no ordenamento jurídico. Ofensa a cláusulas do justo processo da lei (due process of law). Limitação ao exercício da ampla defesa, compreendidas a autodefesa e a defesa técnica. Insulto às regras ordinárias do local de realização dos atos processuais penais e às garantias constitucionais da igualdade e da publicidade. Falta, ademais, de citação do réu preso. Apenas instado a comparecer à sala da cadeia pública, no dia do interrogatório. Forma do ato determinada sem motivação alguma. Nulidade processual caracterizada. HC concedido para renovação do processo desde o interrogatório, inclusive.

Inteligência dos arts. 5º, LIV, LV, LVII, XXXVIl e LIII, da CF. e 792, caput e §2", 403, 2ª parte, 185, caput e §2º, 192, Parágrafo único, 193, 188, todos do CPP. Enquanto modalidade de ato processual não prevista no ordenamento jurídico vigente, é absolutamente nulo o interrogatório penal realizado mediante videoconferência, sobretudo quando tal forma é determinada sem motivação alguma, nem citação do réu. (STF - HC 88.914-SP. Segunda Turma. Relator:

Ministro Cezar Peluso. Julgado em: 14/08/2007) - antes da Lei n.

11.900/2009.

A Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, porém, já julgou não existir violação às garantias constitucionais ao se realizar o interrogatório do acusado através da videoconferência, sendo este nulo apenas quando demonstrado efetivo prejuízo para o réu:

HABEAS CORPUS. ROUBO TENTADO. INTERROGATÓRIO POR VIDEOCONFERÊNCIA. NULIDADE. NÃO-OCORRÊNCIA. ORDEM DENEGADA. 1. A estipulação do sistema de videoconferência para interrogatório do réu não ofende as garantias constitucionais do réu, o qual, na hipótese, conta com o auxílio de dois defensores, um na sala de audiência e outro no presídio. 2. A declaração de nulidade, na presente hipótese, depende da demonstração do efetivo prejuízo, o qual não restou evidenciado. 3. Ordem denegada. (HC 76046-SP. Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça. Relator: Min. Arnaldo Esteves Lima. Julgado em:

28/05/2007) - antes da lei n. 11.900/2009 – grifo nosso.

Contrário a este método de interrogatório, a Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal julgou o não atendimento ao exercício da ampla defesa, como também alegando a não estipulação de tal ato processual no ordenamento jurídico.

AÇÃO PENAL. ATO PROCESSUAL. INTERROGATÓRIO.

REALIZAÇÃO MEDIANTE VIDEOCONFERÊNCIA.

INADMISSIBILIDADE. Forma singular não prevista no ordenamento jurídico. Ofensa a cláusulas do justo processo da lei (due process of law). Limitação ao exercício da ampla defesa, compreendidas a autodefesa e a defesa técnica. Insulto às regras ordinárias do local de realização dos atos processuais penais e às garantias constitucionais da igualdade e da publicidade. Falta, ademais, de citação do réu preso, apenas instado a comparecer à sala da cadeia pública, no dia do interrogatório. Forma do ato determinada sem motivação alguma. Nulidade processual caracterizada. HC concedido para renovação do processo desde o interrogatório, inclusive. Inteligência dos arts. 5º, LIV, LV, LVII, XXXVII e LIII, da CF, e 792, caput e § 2º, 403, 2ª parte, 185, caput e

§ 2º, 192, § único, 193, 188, todos do CPP. Enquanto modalidade de ato processual não prevista no ordenamento jurídico vigente, é absolutamente nulo o interrogatório penal realizado mediante videoconferência, sobretudo quando tal forma é determinada sem motivação alguma, nem citação do réu. (HC 88914-SP. Segunda Turma do Supremo Tribunal Federal. Relator: Cezar Peluso. Julgado em: 14/08/2007) - antes da Lei n. 11.900/2009 – grifo nosso.

Sobre a hipótese de inquirição de testemunhas, a Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça julgou o pedido de nulidade em relação à audiência realizada para inquirição de testemunhas por meio da videoconferência.

INTERROGATÓRIO. TESTEMUNHAS. VIDEOCONFERÊNCIA Trata-se de habeas corpus em que se busca a nulidade do feito a partir da audiência de inquirição das testemunhas realizada por meio de videoconferência. Explica o Ministro Relator que o interrogatório judicial como meio de defesa exige a presença física do acusado (art.

5º, LV, da CF/1988). Logo, a realização do interrogatório judicial por meio de videoconferência constitui causa de nulidade absoluta, entendimento firmado no plenário do Supremo Tribunal (HC 90.900- SP, julgado em 30/10/2008), seguido também neste Superior Tribunal. Esclarece, contudo, que a hipótese é diferente, questiona- se a prescindibilidade da presença física do réu na audiência de inquirição de testemunhas. Quanto a essa questão, a jurisprudência deste Superior Tribunal sedimentou-se no sentido de que a ausência do réu na audiência de instrução não acarreta, por si só, a nulidade do processo, ou seja, caso o réu tenha a presença regular de um defensor e não se evidencie qualquer prejuízo, não há nulidade. No caso, ressalta constar dos autos que, durante a audiência, foi-lhe assegurado um defensor em tempo integral em sala do Centro de Detenção Provisória e outro defensor na sala de audiência própria para o evento, onde a defesa tem à sua disposição uma linha digital reservada conectada diretamente com o presídio, sendo possível o contato com o acusado e seus defensores para qualquer pergunta, esclarecimentos etc. Conclui, assim, o Ministro Relator que não houve demonstração de qualquer prejuízo ao réu pela sua ausência

física na audiência, conseqüentemente, não há causa de nulidade relativa por inobservância do devido processo legal. Com esse entendimento, a Turma denegou a ordem. Precedentes citados: HC 94.049-GO, DJe 7/4/2008, e HC 79.080-SP, DJe 26/5/2008. (HC 85894-SP. Quinta Turma. Relator: Min. Felix Fischer. Julgado em:

18/11/2008 - antes da Lei n. 11.900/2009.

Entre os que negam a aplicação do sistema de videoconferência para o procedimento do interrogatório do acusado, encontra-se o entendimento da Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça, que, por unanimidade de votos, decidiram o seguinte:

HABEAS CORPUS. FURTO QUALIFICADO. INTERROGATÓRIO POR VIDEOCONFERÊNCIA. NULIDADE ABSOLUTA. OFENSA AO PRINCÍPIO DO DEVIDO PROCESSO LEGAL E SEUS CONSECTÁRIOS. ORDEM CONCEDIDA.

1. O interrogatório judicial realizado por meio de videoconferência é absolutamente nulo, pois viola o princípio constitucional do devido processo legal e seus consectários.

2. Em regra, a realização de audiências, sessões e atos processuais devem ser públicos e ocorrer na sede do juízo ou no Tribunal onde atua o órgão jurisdicional, nos termos do art. 792 do CPP.

(HC 77860-SP, Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça..

Relator: Ministro Arnaldo Esteves Lima. Julgado em: 02/02/2009) julgado após a Lei n. 11.900/2009.

Esta mesma Turma já julgou um pedido de nulidade devido à ausência de contato prévio e reservado entre acusado e seu advogado, após vigência da Lei n.

11.900/2009.

HABEAS CORPUS. NULIDADE. INTERROGATÓRIO.

VIDEOCONFERÊNCIA. REALIZAÇÃO VIRTUAL ANTERIOR À EDIÇÃO DA NOVEL LEX. AUSÊNCIA DE OPORTUNIDADE DE

CONTATO PRÉVIO E RESERVADO COM ADVOGADO

CONSTITUÍDO. DIREITOS E GARANTIAS CONSTITUCIONAIS VIOLADAS. EIVA ABSOLUTA. ATOS SUBSEQUENTES ESCORREITOS. MANUTENÇÃO QUE SE IMPÕE.

1. Esta Corte de Justiça e o Supremo Tribunal Federal, antes da edição da Lei 11.900/2009, não admitiam o interrogatório virtual à míngua de previsão legal que garantisse os direitos constitucionais referentes ao devido processo legal e à ampla defesa.

2. Todo denunciado tem o direito de ser ouvido na presença do juiz, devendo ser-lhe oportunizada a comunicação prévia e reservada com o defensor por ele constituído, sob pena de macular a autodefesa e a defesa técnica albergadas pela Carta Política Federal.

3. Independentemente da comprovação de evidente prejuízo, é absolutamente nulo o interrogatório realizado em juízo

deprecado e por viodeoconferência, se o método televisivo ocorreu anteriormente à alteração do ordenamento processual, porquanto a nova legislação, apesar de admitir que o ato seja virtualmente procedido, simultaneamente exige que se garanta ao agente todos os direitos constitucionais que lhes são inerentes.

4. A nulidade do interrogatório necessariamente não importa na invalidade dos demais atos subsequentes praticados, sendo que, diferentemente daquele, para a invalidação destes, é imprescindível que reste demonstrado o efetivo prejuízo à defesa do paciente, a contrario sensu, devem ser mantidos como escorreitos no feito.

5. Ordem parcialmente concedida para anular apenas o interrogatório do paciente, devendo outro ser realizado dentro dos ditames legais;

prejudicado o pleito referente à sua liberdade pelo excesso de prazo para a formação da culpa. (HC 115818-PR, Quinta Turma do Superior Tribunal de Justiça. Relator: Min. Jorge Mussi. Julgado em:

19/05/2009) – julgado após a Lei n. 11.900/2009 – grifo nosso.

Igualmente, a Sexta Turma julgou um pedido de nulidade do processo, devido ao interrogatório ter ocorrido anterior à edição da Lei n. 11.900/2009.

HABEAS CORPUS. INTERROGATÓRIO REALIZADO PELO SISTEMA DE VIDEOCONFERÊNCIA, EM DATA ANTERIOR À VIGÊNCIA DA LEI 11.900/2009. NULIDADE. PRECEDENTE.

[...]

1. Na linha da jurisprudência deste Superior Tribunal de Justiça, é nulo o ato do interrogatório realizado pelo sistema de videoconferência antes da vigência da Lei 11.900/2009. Precedente.

2. Não se justifica, com base em vício existente especificamente no ato do interrogatório, a anulação dos demais atos da instrução, que dele não dependem e, portanto, devem ser preservados. Inteligência do artigo 573, § 1º, do Código de Processo Penal.

3. A anulação do interrogatório e do processo somente a partir das alegações finais - inclusive -, preservando-se os demais atos da instrução, além de atender, de uma só vez, ao princípio da instrumentalidade das formas e à exigência de duração razoável dos processos (Constituição da República, artigo 5º, LXXVIII, incluído pela Emenda Constitucional nº 45/2004), está em consonância com a legislação processual, seja porque o Código de Processo Penal sempre permitiu que o interrogatório fosse realizado a qualquer tempo (CPP, artigo 196), seja porque a sua realização como último ato da instrução, antes de prejudicar, constitui um benefício para a defesa do réu, que poderá apresentar a sua versão dos fatos com o conhecimento de tudo o que já foi levado aos autos, sistemática, aliás, hoje adotada pela novel legislação (CPP, artigo 400, caput, com a redação determinada pela Lei 11.719/2008), e com a qual se buscou exatamente fortalecer o exercício do direito à ampla defesa e ao contraditório. Precedentes.

4. Anulada a condenação, resulta manifesto o excesso de prazo da prisão, efetivada há aproximadamente 2 (dois) anos e 4 (quatro) meses.

5. Habeas corpus concedido em parte, para anular o ato do interrogatório e o processo a partir das alegações finais - inclusive -,

ficando prejudicadas as demais questões suscitadas na impetração.

Concessão da ordem, de ofício, para relaxar a prisão, em razão do excesso de prazo verificado, sob compromisso de comparecimento a todos os atos do processo. (HC 132416-SP, Sexta Turma. Relator:

Min. Des. Celso Limongi. Julgado em: 05/04/2010) – após a Lei n.

11.900/2009.

Percebe-se assim que antes da entrada em vigor da Lei n. 11.900/2009, o entendimento majoritário do judiciário sobre a realização do interrogatório on line era de este ser um ato nulo, pois não existia previsão legal no ordenamento jurídico brasileiro que regulamentasse este ato processual, e sem esta, a realização de tal ato estaria em desacordo com a CRFB/88, como também infringia os princípios basilares do Processo Penal, citando como exemplo o princípio do contraditório e da ampla defesa. Mesmo assim, haviam alguns julgados contraindo o entendimento majoritário, afirmando que o ato de realizar o interrogatório por videoconferência seria admissível, mas para tanto, o mesmo não poderia trazer prejuízos ao acusado/réu.

Após a promulgação da Lei 11.900/2009, o interrogatório realizado por meio de videoconferência supriu a falta de regulamentação no ordenamento jurídico, tornando-se assim um ato processual válido e garantidor dos princípios norteadores da ordem jurídica. Entretanto, o interrogatório por videoconferência configura uma exceção à regra, ou seja, somente será realizado desde que seja necessário para atender as hipóteses elencadas no § 2º, incisos I a IV do art. 185 e devidamente fundamentado pelo juiz, caso contrário, o interrogatório deverá ser realizado pessoalmente.

Por se tratar de uma lei recente, ainda não há casos nos Tribunais Superiores de interrogatórios de acusados realizados por videoconferência na vigência da Lei 11.900/2009. Os julgados que se encontram atualmente são casos em que o interrogatório on line fora realizado anteriormente à promulgação da Lei n.

11.900/2009, e o entendimento para estes casos é o mesmo de antes, ou seja, serão nulos os interrogatórios realizados antes da entrada em vigor da Lei 11.900/2009, não importando a demonstração de prejuízo ao réu..

CONCLUSÃO

O presente trabalho abordou o estudo da Lei n. 11.900, de 08 de janeiro de 2009, denominada Lei da Videoconferência, que disciplina o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência.

O objetivo geral da pesquisa foi analisar e identificar se o uso do sistema de videoconferência fere os direitos e garantias inerentes ao acusado.

Para ratificar a hipótese e o problema de investigação previamente estabelecidos, no primeiro capítulo apresentou-se sobre o interrogatório, em seus aspectos gerais, como também, os aspectos históricos e conceituais da videoconferência e a viabilidade do interrogatório on line e a adoção do mesmo no Brasil. O capítulo segundo, por sua vez, abordou sobre os princípios que regem o Processo Penal, com ênfase no Princípio da Ampla Defesa, o qual serviu de embasamento para a defesa da viabilidade do interrogatório do acusado por sistema de videoconferência, foco deste estudo os aspectos históricos e conceituais da videoconferência e a viabilidade do interrogatório on line. Por fim, no capítulo terceiro tratou-se da polêmica gerada sobre este meio eletrônico a esfera do Direito Processual, abordando sobre a adoção do interrogatório on line no Brasil, com posições contrárias e favoráveis a utilização deste instrumento, bem como alguns julgados a respeito do tema.

Pôde-se constatar, em síntese, que os registros da literatura mostram que, no Brasil, o emprego do recurso tecnológico - sistema de videoconferência - teve seu início na Paraíba (Lei n. 2.210/2002), em São Paulo (Lei n. 11.819/2005) e no Rio de Janeiro (Lei n. 4.554/2005), com o intuito de normatizar o uso deste meio eletrônico no interrogatório e audiência on line do acusado (neste estudo o interrogatório).

Diante disso, os governos destes Estados brasileiros receberam muitas críticas, devido à competência ser de esfera federal para legislar sobre Direito Processual e não do governo estadual. É preciso lembrar que: “a Constituição da República Federativa do Brasil de 1988, em seu art. 24, I e XI, apresenta ressalva, disciplinando que compete à União, aos Estados e ao Distrito Federal legislar concorrentemente sobre direito penitenciário e procedimentos em matéria

processual, o que reafirma a constitucionalidade das citadas leis estaduais, pois estas não disciplinam o processo, mas simplesmente mais um procedimento de interrogatório.”

Assim sendo, após muitas controvérsias foi editada a Lei Federal n.

11.900/2009 - Lei da Videoconferência -, que visa preservar todos os direitos e garantias fundamentais do acusado. Esta Lei trata, ainda, de muitos outros aspectos, mas este estudo teve como foco o interrogatório on line do acusado.

É claro que a Lei da Videoconferência não resolverá todas as questões, mas já é um passo bem significativo rumo à modernização do Poder Judiciário. Conforme o autor do projeto, que deu origem a esta Lei, ressalta: “a videoconferência não se torna uma regra, mas é uma opção para a celeridade da Justiça.”

Desse modo, pode-se entender que os aspectos positivos preponderam sobre os negativos. Portanto, desde que sejam preservados os princípios e garantias constitucionais, em especial o Princípio da Ampla Defesa (foco deste estudo), pode-se constatar que o benefício do interrogatório por sistema de videoconferência do acusado vem contribuir com o processo evolutivo do Direito Processual.

É claro que todo benefício do processo de modernismo tem suas ressalvas, mas toda regra tem sua exceção. O que não se pode é deixar de reconhecer que o acusado é um cidadão e tem o direito de se beneficiar dos avanços tecnológicos, pois também é um sujeito de direitos.

É necessário trazer neste momento o entendimento de alguns doutrinadores e juristas, particularmente de Aras (2005), segundo o qual o “teleinterrogatório não elimina os direitos e liberdade do acusado, pois todas as formalidades dos arts. 185 a 196 do Código de Processo Penal são cumpridas. [...] A presença virtual do acusado, em videoconferência, é uma presença real - o juiz o ouve e o vê, e vice- versa. A inquirição é direta e a interação é recíproca. [...]”.

Portanto, a Lei n. 11.900/2009 atende o Princípio da Ampla Defesa quando do momento do interrogatório por sistema de videoconferência. O interrogatório on line, denominado, também, de presencial virtual consegue materializar interatividade entre todos os envolvidos. Permite o diálogo imediato entre o juiz e acusado, como se estivessem na mesma sala. A participação do acusado não é passiva, pois é um sistema dinâmico, havendo interação entre o grupo.

Finalmente, pode-se entender, então, que há muitas vantagens, para a adoção do interrogatório por sistema de videoconferência. Esta é mais significa garantia do Princípio da Ampla Defesa. Não há prejuízo de nenhum direito do acusado e, portanto, a Lei da Videoconferência atende todos os ditames da Constituição da República Federativa do Brasil. As tecnologias da informação são aliadas do direito de liberdade; a defesa é respeitada.

Desse modo, há que se quebrar paradigmas para que haja a evolução, neste caso o avanço e modernização do Poder Judiciário, sempre levando em conta o atendimento dos direitos e garantias constitucionais do acusado.

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, J. Canuto Mendes de. Princípios fundamentais do processo penal.

São Paulo: Editora Revista dos Tribunais, 1973.

ALVIM NETTO, José Manuel de Arruda. Código de processo civil comentado.

São Paulo: RT, 1975. v.1. p.75.

AMORIM, Luciana Magalhães Oliveira. Interrogatório por videoconferência:

Evolução tecnológica no meio forense. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=11350>. Acesso em: 7 abr. 2009.

ANJOS, Antonio Armando dos. Videoconferência: o judiciário no ritmo da modernidade. Minas Gerais: Tribunal de Justiça, 2010. Disponível em:

<http://www.tjmg.jus.br/institucional/discursos_artigos/desembargadores/Judiciario%

20no%20ritmo%20da%20modernidade.pdf>. Acesso em: 03 jul. 2010.

ARANHA,, Adalberto José Q. T. de Camargo. Da prova no processo penal. 3.ed.

São Paulo: Saraiva, 1994.

ARAS, Vlademir. Sociedade Digital: Teleinterrogatório não elimina nenhuma garantia processual. Disponível:

<http://www.cbeji.com.Br/Br/novidades/artigos/main.asp?id=3601>. Acesso em: 7 abr. 2009.

______. Videoconferência no processo penal. Jus Navigandi, Teresina, ano 9, n.585, 12 fev. 2005. Disponível em:

<http://jus2.uol.com.br/doutrina/texto.asp?id=6311>. Acesso em: 22 nov. 2009.

AVENA, Norberto Cláudio Pâncaro. Processo penal: esquematizado. 2.ed. rev., atual. e ampl. Rio de janeiro: Forense; São Paulo: Método, 2010.

BARROS, Marco Antônio de; ROMÃO, César Eduardo Lavoura. Internet e Videoconferência no Processo Penal. Revista CEJ, Brasília, n.32, p.116-125, jan./mar., 2006.

BEZERRA, Ana Cláudia da Silva. Interrogatório on line e a ampla defesa.

Disponível em:

<http://www.advogado.adv.br/artigos/2005/anaclaudiadasilvabezerra/interrogatorioon line.htm>. Acesso em: 7 abr. 2009.

BONFIM, Edison Mongenot. Processo penal 1: dos fundamentos à sentença.

4.ed. rev. e atual. São Paulo: Saraiva, 2007. [Coleção Curso e Concurso].

BRASIL. Lei n. 11.900/09, de 08 de janeiro de 2009. Disponível em:

<http://www.planalto.gov.br/ccivil_03/_Ato2007-2010/2009/Lei/L11900.htm>. Acesso em: 18 maio 2009.

No documento UNIVERSIDADE DO VALE DO ITAJAÍ - Univali (páginas 71-85)

Documentos relacionados