3 DO INTERROGATÓRIO POR SISTEMA DE VIDEOCONFERÊNCIA
Este item aborda a Lei da Videoconferência, como também apresenta as posições contrárias e favoráveis dos doutrinadores e da jurisprudência sobre o procedimento do interrogatório por sistema de videoconferência.
II - viabilizar a participação do réu no referido ato processual, quando haja relevante dificuldade para seu comparecimento em juízo, por enfermidade ou outra circunstância pessoal;
III - impedir a influência do réu no ânimo de testemunha ou da vítima, desde que não seja possível colher o depoimento destas por videoconferência, nos termos do art. 217 deste Código;
IV - responder à gravíssima questão de ordem pública.
Diante disso, este item aborda o interrogatório do acusado por sistema de videoconferência, trazendo posições dos doutrinadores e da jurisprudência, contrárias e favoráveis, anterior e posterior à edição da Lei n. 11.900/2009, com foco no Princípio da Ampla Defesa.
Como visto no capítulo anterior, o Princípio da Ampla Defesa e o Princípio do Contraditório são os princípios que servem de alicerce para o Direito Processual brasileiro, permitindo ao acusado a proteção de seus direitos e garantias fundamentais constitucionais.
Porém, um dos pontos que tem gerado discordância entre doutrinadores, juristas, e estudiosos do direito, diz respeito ao não atendimento do Princípio da Ampla Defesa, disposto na Constituição da República Federativa do Brasil de 1988 (art. 5º, LIV e LV - supracitado), como também, o ferimento do art. 185 (supracitado), disposto no Código de Processo Penal, no momento do interrogatório do acusado por sistema de videoconferência.
Soares e Machado (s/d) apontam que aqueles contrários à possibilidade do interrogatório por sistema de videoconferência, sustentam que ocorre flagrante desrespeito ao Princípio da Ampla Defesa e ao Princípio do Contraditório (due process of law).
Dentre os argumentos contrários, por parte dos doutrinadores e da jurisprudência, pode-se destacar alguns anteriores e posteriores à Lei n.
11.900/2009.
Sendo contrário ao interrogatório on line, Nucci (2008, p. 412) leciona que:
[...] um interrogatório bem feito, no contato direto entre autoridade judiciária e acusado, é inequívoco e valioso meio de defesa e de prova. Não são poucas as vezes em que se pode verificar, no Tribunal do Júri, a ocorrência da absolvição do réu conseguida por ele mesmo, durante o seu sincero interrogatório, diante dos jurados.
Por outro lado, também pode se observar réus que terminam evidenciando a sua verdadeira personalidade para os juízes, algo factível apenas porque há o contato pessoal.
Segundo Fioreze (2009, p. 133), os contrários afirmam, ainda, que:
[..] o interrogatório a distancia torna tudo muito „frio‟, distante e excessivamente formal, faltando, pois, o „olhar‟, o avaliar das expressões corporais e faciais, o mudo pedido de clemência ou a demonstração de arrependimento ou de insensibilidade oral, que independem de voz.
Casagrande (2003) aponta que o interrogatório judicial realizado a distância, pelo sistema de videoconferência, denominado de on line, “revela, patente nulidade, eis que viola princípios de natureza constitucional, em especial os da ampla defesa e do devido Processo Legal.”
Para o jurista Lopes Jr. (2005), o direito de defesa e o do contraditório são direitos fundamentais, “cujo nível de observância reflete o avanço de um povo. Isso se mede, não pelo arsenal tecnológico utilizado, mas sim, pelo nível de respeito ao valor dignidade humana.”
Sobre isso, Fioreze (2009, p. 135) leciona que o nível de civilidade alcançado exige que o Processo Penal seja um instrumento legitimante do poder, dotado de garantias mínimas, necessário para chegar-se a pena.
Lopes Jr. (2005) afirma que:
[...] é a visão de que o Processo Penal é um instrumento a serviço da máxima eficácia dos direitos e garantias fundamentais do acusado, de limitação do poder para obter o necessário respeito à esfera de dignidade do réu.
Para Tucci (2002, p. 176) e Saad (2004, p. 219-220), haveria violação do Princípio da Ampla Defesa “quando da impossibilidade de o réu ou de o defensor, que estivesse junto com o preso, consultarem os autos durante o interrogatório por videoconferência (direito à informação).”
Conforme Pitombo (2000, p. 1-2), haveria violação do Princípio do Contraditório e do Princípio da Ampla Defesa, “pois estes princípios não podem ser exercidos de forma plena no teleinterrogatório, já que o réu preso poderia sentir-se constrangido e inseguro em prestar declarações que incriminem”, como por exemplo, outros detentos e/ou denunciar eventuais abusos pelos agentes carcerários. [...].
Para Tourinho Filho (1998, p. 266), além da ofensa aos Princípios do Contraditório e da Ampla Defesa, por conseguinte, do Princípio do Devido Processo Legal e da Publicidade, “o fato de não se aplicar o Princípio da Identidade Física – esse argumento é anterior à inclusão da figura no processo penal brasileiro – do juiz no Processo Penal não significa que seja possível o interrogatório por videoconferência.”
Portanto, os autores (Tucci, 2002) e Saad (2004), Pitombo (2000); Tourinho Filho (1998) apontam, ainda, que “também serão dispendiosos os gastos com a aquisição e manutenção de todo o aparato tecnológico e humano para viabilizar o interrogatório por sistema de conferência.”
O argumento destes autores, sobre a violação do Princípio do Contraditório e da Ampla Defesa, é de que não se pode, a pretexto da necessidade de redução de custos, justificar o interrogatório por sistema de videoconferência. “Está-se diante de direitos fundamentais, com os quais o Estado não pode jamais transigir. Este é um dos ônus do monopólio do ius puniendi e da própria segurança pública (CRFB/1988, art. 144).” Afinal de contas, todo Estado democrático de Direito tem seu preço.
Sendo assim, o argumento da evolução tecnológica, a qual propiciaria a facilitação dos mecanismos operacionais do próprio Estado, não pode, portanto, extrapolar o respeito aos direitos fundamentais.
Rodrigo Gomes (2008, p. 69-70) aponta uma desvantagem na adoção do interrogatório por sistema de videoconferência: “falta de contato físico entre o réu e o juiz.”
Luiz Gomes (2009, p. 30) aponta que o argumento desfavorável mais repetido é o seguinte: “com a videoconferência impede-se o contato físico do réu com o juiz.”
Segundo Soares e Machado (s/d), aqueles que são contrários ao interrogatório por sistema de videoconferência e audiências, mas são favoráveis em situação especial (intermediários), sustentam que o procedimento do interrogatório e de audiências por sistema de videoconferência pode ser admitido somente para o acusado que se encontre e local muito distante onde tramita o processo. “É apenas através de uma convivência jurídica espontânea entre o acusado e o juiz, face a face, livre, é que ocorrerá a garantia de autodefesa do réu.”
Para D‟Urso e Costa (2009), a Lei n. 11.900/2009 não prevê o emprego obrigatório do sistema de videoconferência, mas deixa a critério do juiz seu uso por decisão fundamentada, de ofício ou a requerimento das partes, no caso de risco à segurança pública, a testemunhas ou vítimas e diante da dificuldade de locomoção do réu, retomando o debate dos direitos dos presos diante do juízo penal.
“Representa, portanto, uma séria ameaça ao Princípio constitucional da Ampla Defesa.”
Assim sendo, para esse grupo de juristas, a proibição do interrogatório criminal por sistema de videoconferência se faz necessário, sob pena de flagrante desrespeito às principais garantias constitucionais do processo, entre elas a imediatidade e a identidade física do juiz, o contraditório e a ampla defesa (due processo f law e corolários) (SOARES e MACHADO, s/d).
Nesta linha de raciocínio, Greco (2005, p. 95) ainda preleciona:
[...] sobre o claro vilipêndio às garantias processuais do acusado nos casos que o órgão judicante lhe impõe um interrogatório on line, o que, irremediavelmente, infringirá os ditames constitucionais no toante à consecução de um processo justo em seu trâmite e, ainda mais grave, gerando fatores de nulidade no seu resultado final, colocando em xeque a indispensabilidade de um decisum justo.
Ainda para D‟Urso e Costa (2009, p. 33), durante a videoconferência,
[...] o exercício pleno do direito de defesa sofre comprometimento. As formalidades legais deixam de ser cumpridas com a realização do interrogatório em dois lugares distintos: o advogado não conseguirá, ao mesmo tempo, prestar assistência ao acusado e estar com o juiz, no local da audiência, para verificar se os ritos processuais estão sendo cumpridos; a comunicação advogado-acusado também fica prejudicada, mesmo havendo um canal de áudio reservado, pela insegurança natural que sempre haverá em saber se realmente é totalmente imune a escritas e gravações; o prejuízo maior diz respeito na comunicação do réu com o próprio magistrado;
possibilidade do preso estar sofrendo coação de vários matizes, seja de maus-tratos ou tortura, sem que tenha garantias mínimas para a livre manifestação, que ocorreria se estivesse na presença do magistrado; a possibilidade da queda do link no momento em que uma das partes estiver falando, gerando prejuízo ao raciocínio; e, finalmente, o reconhecimento do réu, pela vítima ou testemunha, por meio de uma tela de computador.
Para Oliveira Costa (2009, p. 35), o sistema de videoconferência “viola princípios constitucionais como os do Devido Processo Legal, do Contraditório, o da
Ampla Defesa, por impedir o acesso físico do investigado, réu ou condenado ao seu advogado e ao juiz.”
Por fim, D‟Urso e Costa (2009, p. 33) enfatizam, também, que os argumentos utilizados pelo Estado para apoiar a aprovação da videoconferência para o procedimento do interrogatório do acusado não se sustentam. Por exemplo:
[...] a ida do magistrado ao recinto prisional anularia a afirmativa de que evitaria a fuga do acusado durante o transporte ao foro; não é efetiva a afirmação de que haveria redução de custas, seja porque é de natureza do poder estatal fazer frente a despesas dessa natureza e peculiar ao próprio aparato segregador do réu preso, ou porque esse problema seria equacionado com a ida do magistrado ao recinto prisional, ou ainda, porque a videoconferência, nos termos da Lei, só poderá ocorrer excepcionalmente (p. 33).
Finalmente, conforme Fioreze (2009, p. 137), ao interrogatório virtual concluem que o mesmo “traz sérios prejuízos ao acusado, tendo em vista que anula sua condição básica de ser humano, impedindo-lhe um contato honesto, série e, efetivo com seu julgador”.