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Magnitude e complexidade

No documento implementação do SNE, do CAQi e do CAQ (páginas 142-145)

Capítulo 4: O processo de elaboração do atual PNE e as características da lei nº

4.1 O processo de elaboração do PNE

4.2.1 Magnitude e complexidade

4.2 Características do PNE e suas implicações para a implementação do SNE, do CAQi e do CAQ

Ou seja, é possível depreender da análise de Schwartzman (2017) e das reflexões apresentadas pelo entrevistado A que a adequada implementação deste Plano só daria certo mediante uma confluência perfeita - e, portanto, bastante improvável - entre, pelo menos: (i) clima político, (ii) contexto econômico, (iii) ambiente informacional, (iv) relações horizontalizadas - entre os poderes federados - e verticalizadas - entre os níveis de governo - e, (v) finalmente, desde que todas as instituições e atores implicados na viabilização do Plano convirjam em suas preferências e modus operandi.

Ainda em relação a estes diagnósticos sobre as dificuldades de se viabilizar um Plano Nacional nos moldes como formalizado na lei que o institui, é possível destacar que, desde o ano de 2011, portanto, quando do principiar do processo de elaboração do Plano em tela, já havia quem advertisse que o documento cuja tramitação estava em curso no Congresso Nacional se caracterizava como superestimado. Não por acaso, Castro, Oliveira e Schwartzman (2011) sugeriam ser possível sintetizar em 8 (oito) as iniciativas basilares, capazes de contribuir para a efetiva elevação da qualidade da educação oferecida no Brasil61.

Na mesma linha, o entrevistado D, cerca de 10 anos após as constatações e sugestões de Castro, Oliveira e Schwartzman (2011), sustenta que uma proposta mais factível, em contrapartida à magnitude, abrangência e complexidade do Plano vigente, deveria contar com apenas 3 ou 4, objetivos estratégicos. Para este entrevistado, não obstante a educação brasileira tenha reconhecidamente muitos problemas, tais mazelas seriam finitas e desigualmente vitais. Ou seja, haveria algumas delas que são mais importantes, merecendo intervenção prioritária, bem como a atuação sobre determinados destes

61 Essas oitos propostas seriam: “(i) Mudar o sistema de gestão das escolas públicas: mais autonomia e responsabilidade pelos resultados; novas formas de parceria público-privada e veto à influência político- partidária na designação de gestores e professores nas secretarias de Educação; (ii) definir com clareza conteúdos dos currículos nos diversos níveis de ensino e alinhar os materiais pedagógicos e sistemas de avaliação; (iii) exigir que todas as crianças sejam alfabetizadas no primeiro ano do ensino fundamental, valendo-se de metodologias e materiais pedagógicos testados; (iv) rever o sistema de formação e carreira de professores, que devem dominar os conteúdos e práticas pedagógicas como condição de ingresso na carreira, passar por período probatório de prática supervisionada e por processo de certificação; (v) facilitar e estimular o acesso de profissionais de nível superior e de estudantes de pós-graduação ao magistério; (vi) permitir que o ensino médio se diferencie em uma pluralidade de opções acadêmicas e profissionais e que o Enem se transforme em um conjunto de certificações correspondentes ao leque de opções; (vii) eliminar o ensino médio no período noturno; (viii) mudar o atual sistema de educação de jovens e adultos para um leque de certificações distintas, sobretudo de natureza profissional” (CASTRO, OLIVEIRA &

SCHWARTZMAN, 2011).

problemas vitais acabaria por desencadear um efeito em cascata, em que outras mazelas poderiam ser automaticamente sanadas.

Como conclusão, este entrevistado D considera que o Plano Nacional vigente não apenas peca por ser pouco estratégico e muito abrangente; peca por não propor encaminhamentos efetivos para as questões de que trata, sejam elas mais ou menos vitais. Por exemplo, o PNE estabeleceu metas de alcance para o Índice de Desenvolvimento da Educação Básica (IDEB) por parte de estados e municípios, sem, contudo, mencionar como seria possível melhorar a qualidade da educação, a ponto de impactar neste indicador de desempenho educacional.

Além disso, os entrevistados D e K advertem que o Plano Nacional sequer regulamenta critérios para o aporte de recursos financeiros por parte dos entes federados, no sentido de se estabelecer formalmente a contribuição de cada nível de governo para o alcance dos 10% do PIB definidos em lei.

Finalizando esta seção de exemplos, o mesmo entrevistado D também nos adverte de que não há qualquer pista sobre como se fazer cumprir parte a Meta 1 do Plano, relativa à ampliação da oferta de “educação infantil em creches de forma a atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de até 3 (três) anos até o final da vigência deste PNE” (BRASIL, 2014).

Ainda em relação à implementação desta primeira meta do Plano Nacional, o entrevistado U reflete sobre como um gestor público poderia compatibilizar a meta sobre educação infantil62 com a realidade orçamentária do MEC, ou com instrumentos legais, entre os quais o PPA e a LOA. Ou seja, para este entrevistado, na prática, a viabilização efetiva das metas e estratégias constantes no Plano Nacional não foi pensada quando de sua formulação. Tampouco esta preocupação se viu consubstanciada no formato final assumido pelo Plano.

62Meta 1: universalizar, até 2016, a educação infantil na pré-escola para as crianças de 4 (quatro) a 5 (cinco) anos de idade e ampliar a oferta deeducação infantil em creches de forma a atender, no mínimo, 50% (cinquenta por cento) das crianças de até 3 (três) anos até o final da vigência deste PNE” (BRASIL, 2014).

Além disso, uma vez que o processo de elaboração de diversas políticas sociais no Brasil tem servido muito mais como palanque para a retórica das comunidades de advocacy, alguns dos prazos constantes no diploma legal foram claramente superestimados, o que, endossamos, pode ser revelador tanto do viés populista e retórico que caracteriza o desenho do Plano vigente, quanto da correlata dificuldade de se fazer cumprir propostas tão ousadas e cujos prazos para implementação são sobremaneira exíguos.

Como exemplo prático, o entrevistado Y menciona criticamente o prazo estipulado para promulgação da lei concernente ao Sistema Nacional de Educação. Afinal, “consta no texto do PNE um prazo de dois anos para sua criação, conquanto a gente esteja há 20 anos, no mínimo, discutindo uma proposta de SNE”.

Ou seja, ao que parece, (i) o otimismo que contagiava as comunidades de advocacy e a defesa incontinente de diversas de suas bandeiras, (ii) o cálculo populista do Congresso Nacional de aglutinar as mais diversas preferências dos grupos de interesses, sobretudo por parte da Câmara dos Deputados e (iii) a premeditação do poder executivo sobre os custos políticos de se vetarem pontos da proposta, contribuiu para que o desenho do atual PNE adquirisse feições sobremaneira abrangentes e complexas e de difícil e improvável viabilização prática, com consequências sobre a capacidade de o governo federal implementar o SNE, o CAQi e o CAQ, ainda mais levando-se em conta os prazos estipulados para a implementação destas agendas.

Como conclusão, é possível constatar que a inclusão destas iniciativas, tal como passaram a constar no diploma legal, não levou em conta a ausência de consensos mínimos sobre como poderiam ser viabilizadas na prática, bem como não levou em conta a necessidade de definições de caráter mais técnico e operacional sobre como implementá-las.

No documento implementação do SNE, do CAQi e do CAQ (páginas 142-145)