• Nenhum resultado encontrado

PÓS DÉCADA DE 1920: DESDOBRAMENTOS ANTROPOFÁGICOS

No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 57-64)

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

filosofia messiânica, em 1950. (...) a sua segunda tentativa de ingressar no magistério, em 1950, foi motivo para uma retomada vertiginosa do conceito de antropofagia. Aquilo que na década de 1920 surgiu como provocante plataforma literária, nesse momento é transformado por Oswald em uma filosofia existencial. (SILVEIRA, s/d, s/p)

Em A marcha das utopias, Oswald sugere que o contato com o homem americano também transforma, revoluciona a cultura europeia; embora nós, latino-americanos, sejamos os violentados, deflorados pela dominação, também a Europa não sai ―impune‖ e, consequentemente, sua cultura se remodela. ―As novas orientações da filosofia deste século são, para ele, um claro indício de que os europeus aos poucos abandonaram a segurança intelectual de seu milenar messianismo, impelidos pela nietzcheana ‗morte de Deus‘.‖ (GALLO, 1992, p. 93). Observa-se, portanto, que a filosofia existencialista é a grande chave para a constatação oswaldiana, claramente visível em seu próprio discurso:

A angústia de Kierkegaard, o ―cuidado‖ de Heidegger, o sentimento do

―naufrágio‖, tanto em Mallarmé como em Karl Jaspers, o Nada de Sartre, não são senão sinais de que volta a Filosofia ao medo ancestral ante a vida que é a devoração. Trata-se de uma concepção matriarcal do mundo sem Deus. (ANDRADE, 1978, p. 144, grifo no original)

Partindo agora de sua tese A crise da Filosofia Messiânica, constata- se que proposta oswaldiana seria uma filosofia da história que se converte para o futuro;

para alcançar tal premissa, retoma a seguinte divisão anteriormente comentada no Manifesto antropofágico: 1º termo: tese – o homem natural; 2º termo: antítese – o homem civilizado; 3º termo: síntese – o homem natural tecnizado. Conforme Oswald, estaríamos estagnados no segundo termo, ―em um estado de negatividade‖, o que pressupomos como reflexo de seu contato com as correntes existencialistas, sobretudo Kierkegaard. Prosseguindo sua profunda análise, Oswald passa a investigar o momento histórico que marca o advento das características patriarcais, evidenciando a comunhão nítida com a filosofia marxista:

A ruptura histórica com o mundo matriarcal produziu-se quando o homem deixou de devorar o homem para fazê-lo escravo. Friedrich Engels assinala o fecundo progresso dialético que isso constituiu para a humanidade.

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

De fato, da servidão derivou a divisão do trabalho e a organização da sociedade em classes. Criou-se a técnica e a hierarquia social. E a história do homem passou a ser como disse Marx, a história da luta de classes. (ANDRADE, 1978, p. 150)

Oswald, ao longo de toda a reformulação da metáfora antropofágica, posiciona-se contra a visão hegeliana de que ―tudo que é racional é real‖ e propõe ―a revalorização do homem natural que se produz contra os quadros esclerosados do homem histórico, do homem civilizado, do homem vestido, enfim, do homem cartesiano‖

(ANDRADE, 1945, s/p), aproximando-se do pensamento heideggeano e nietzcheano. Em seus ensaios Apesar de dependentes, universais (1982) e Oswald de Andrade e o elogio da tolerância étnica (1990), Silviano Santiago destaca o caráter ―irracionalista‖ da atitude antropofágica, aspecto saliente em toda a obra de Nietzche. ―Mais do que uma visão pessimista ou conformista com relação ao futuro, ele propõe uma revolução, não no sentido de que seria uma evolução mais rápida, mas que fragmenta o processo histórico em diferentes produções.‖ (SANTIAGO, citado em ALMEIDA, 2005, p. 86).

O projeto oswaldiano de antropofagia filosófica centra-se no conflito existente entre os modelos políticos e culturais europeus, abarcando esferas mais amplas que somente a literária. Oswald concebe ―a única filosofia original brasileira‖ (ANDRADE, 2001, p. 74), brilhantemente exposta por Haroldo de Campos:

(...) com a ―Antropofagia‖ de Oswald de Andrade, nos anos 20 (retomada depois, em termos de cosmovisão filosófico-existencial, nos anos 50, na tese A Crise da Filosofia Messiânica), tivemos um sentido agudo da necessidade de pensar o nacional em relacionamento dialético com o universal (...). Ela não envolve uma submissão (uma catequese), mas uma transculturação: melhor ainda uma

“transvaloração”: uma visão crítica da história como função negativa (no sentido de Nietzche) capaz tanto de uma apropriação como de desapropriação, desierarquização, desconstrução. (CAMPOS, s/d, p.

109, ênfase acrescentada)

Toda essa filosofia oswaldiana preocupava-se, essencialmente, em inserir o Brasil e toda a América Latina no cenário mundial mediante uma representação singular, ―num processo de desierarquização que significa a possibilidade de uma expressão própria dos países de economia periférica (...)‖. (ALMEIDA, 2005, p. 96).

Transpõe-se a óptica para a relação local X universal, num prisma que engloba política, economia, sociedade, cultura e arte.

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

Oswald de Andrade, ao cunhar o conceito de antropofagia como estratégia para a discussão da cultura e do poder, formulou uma audaz abstração da realidade, propondo a ―reabilitação do primitivo‖

no homem civilizado, dando ênfase ao mau selvagem, devorador da cultura alheia transformando-a em própria, desestruturando oposições dicotômicas como colonizador/colonizado, civilizado/bárbaro, natureza/tecnologia. Ao propor o canibal como sujeito transformador, social e coletivo, Oswald produz uma reescritura não só da história do Brasil, mas também da própria construção da tradição ocidental na América. (ALMEIDA, 2005, p. 83)

O pedido de Oswald de Andrade, em 1954, perto de sua morte, para que pesquisadores dêem continuidade ao seu legado, sobretudo à filosofia antropofágica, alerta ao fato desta ser um conceito a fazer (e acontecer!):

A reabilitação do primitivo é uma tarefa que compete aos americanos (...). Devido ao meu estado de saúde, não posso mais longa esta comunicação que julgo essencial a uma revisão de conceitos sobre o homem da América. Faço pois um apelo a todos os estudiosos desse grande assunto para que tomem em consideração a grandeza do primitivo, o seu sólido conceito de vida como devoração e levem avante toda avante toda uma filosofia que está para ser feita.

(ANDRADE, 1991, p. 183)

Ainda como ressonância do Manifesto antropofágico, surge no final da década de 1960 o movimento tropicalista, que sacudiu o país e revelou nomes como Caetano Veloso, Gilberto Gil, Gal Costa, Tom Zé e Os Mutantes. Também são influenciados por essa frutífera corrente a prosa ímpar de Guimarães Rosa com seus espetaculares neologismos, o Cinema novo e neoexpressionista, os poetas concretos da década de 1950-60 e uma gama imensa de artistas, das mais diversas vertentes e estilos.

O Manifesto Antropófago registra o momento inaugural do que iria ocorrer posteriormente na linguagem – um pensamento cultural e uma língua brasileira calcada na síntese das expressões regionais da prática oral de todo o país. A palavra/imagem de Oswald de Andrade pulsa sob muitos outros textos, atravessando o romance regionalista até Guimarães Rosa. Ela será celebrada e retomada como fonte de inspiração pelos poetas concretistas nos anos 1950. Mas é no Cinema novo e posteriormente, na Tropicália que a sua metafísica será enfim

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

compreendida e encarnada pelos personagens, sons e imagens de Glauber Rocha, Joaquim Pedro de Andrade, Hélio Oiticica, Caetano Veloso, José Celso Martinez, Tom Zé, Torquato Neto entre outros neo-antropófagos.

Afirmando a mesma postura de descentramento da proposta oswaldiana, é da periferia urbana que surge agora um novo ciclo de antropofagia, marcada por exemplo pela edição da Semana de Arte Moderna da Periferia (SP/2007), que reeditou os signos do modernismo, em direção contrária, ao colocar na margem o centro dos acontecimentos. Quem quisesse assistir às manifestações, tinha que se deslocar para os saraus e lançamento dos novos autores, que emergiram sem o reconhecimento das instituições culturais e que pretendem criar seu próprio mercado. São histórias narradas pelos novos bárbaros tecnizados que no lugar do uso do tacape escrevem livros para vingar os seus parentes ancestrais. (MOTA, 2008, p. 6)

Observa-se, portanto, tamanha a força e proporção adquirida pela dialética oswaldiana ao contrapor e inverter criticamente a dicotomia colonizador x colonizado, numa síntese onde realmente se descobre o Brasil e, por seguinte, toda a América tecnizada.

CONCLUSÃO

O Manifesto antropófago, mesmo completando 84 anos de suas ideias de pluralidade cultural e assimilação crítica, continua cada vez mais atual e pertinente.

O conceito de antropofagia foi diversamente articulado ao longo dos mais de 70 anos de sua apropriação positiva; contudo –é na contemporaneidade que ele encontra um lugar no jargão– dentro e fora do contexto brasileiro, refletindo uma busca de superação das desigualdades sociais que estruturam o Brasil, correspondendo ao que, segundo Oswald, seria uma forma de enfrentamento dos esquemas de opressão postos na sociedade de classes. (ALMEIDA, 2005, p. 3)

Esse intercâmbio de informações e inspirações é a sólida base de uma literatura nacional que, embora ―empreste‖, ―coma‖ dos amigos estrangeiros modelos e conceitos, está em constante reinvenção e transformação, refletindo uma arte

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

tipicamente brasileira e única. Transpondo as fronteiras literárias e nacionais, a filosofia antropofágica e seus pressupostos se inserem fertilmente em outras esferas das sociedades do Novo Mundo, como na política, religião e cultura, renovando e subvertendo antigas e obsoletas visões sobre o continente americano, numa tentativa vanguardista de edificação de uma tradição ocidental singular. Como já disse Oswald de Andrade, o mundo (o Brasil e a América como um todo) precisa canibalizar-se!

REFERÊNCIAS

ALMEIDA, M. C. F. Só a antropofagia nos une. In: CLACSO, D. M. Cultura, política y sociedad - perspectivas latinoamericanas. Buenos Aires: Consejo Latinoamericano de Ciencias Sociales, Ciudad Autónoma de Buenos Aires, 2005, p. 83-106.

______. Tornar-se outro: O topos canibal na literatura brasileira. São Paulo: Annablume, 2002.

AMARAL, A. Artes plásticas na semana de 22. São Paulo: Perspectiva, 1970.

AMARAL, E. et al. Novas palavras: português. 2. ed. São Paulo: FTD, 2003.

ANDRADE, O. Do pau-brasil à antropologia e às utopias. 2. ed. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 1978.

______. Informes sobre o modernismo. Conferência realizada em São Paulo, 15 de outubro de 1945.

______. Manifesto antropofágico. In: ______. Utopia antropofágica. 3. ed. São Paulo:

Globo, 2001.

______. Obras completas. São Paulo: Globo, 1991.

BARROS, J. D. A. Arte moderna e alteridade. Rio de Janeiro: LESC, 2006.

BOAVENTURA, M. E. A vanguarda antropofágica. São Paulo: Ática, 1985.

CANDIDO, A.; CASTELLO, J. A. Presença da literatura brasileira – modernismo. 6. ed. Rio de Janeiro: Difel, 1977.

CAMPOS, H. Da razão antropofágica: diálogo e diferença na cultura brasileira. In: Boletim bibliográfico (São Paulo: Biblioteca Mário de Andrade), v. 44, jan-dez.

CULT – Revista brasileira de literatura, ano II, n. 15, out. 1998. São Paulo.

GALLO, S. Modernismo e filosofia: o caso Oswald. Impulso, São Paulo, n. 24, 1992, p.

89-107.

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

MOTA, R. Manifesto antropófago – 80 anos e indo ao infinito. Disponível em:

<http://www.fafich.ufmg.br/manifestoa/pdf/analisemanifestoa>. Acesso em: 21 jun.

2012.

NUNES, B. Estética e correntes do modernismo. In: ÁVILA, A. O modernismo. São Paulo:

Perspectiva, 1975.

______. Oswald canibal. São Paulo: Perspectiva, 1995.

SILVEIRA, E. Oswald lança de ponta – antropofagia e imaginação política na década de 40. Disponível em: <www.sciello.com.br>. Acesso em: 12 jun. 2012.

_____________________________________________________________________________________________________

Scripta Alumni - Uniandrade, n. 8, 2012.

TRABALHO, ARTE, POLÍTICA E IMIGRAÇÃO ITALIANA: A

No documento NOVOS TEMPOS, MESMAS HISTÓRIAS (páginas 57-64)