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RELAÇÃO ENTRE CULTURA VISUAL E MúSICA
Para um artista visual, a composição é a «organização dos elementos e características dentro de um espaço definido (...) um agrupar de componentes relacionados que faz sentido estarem juntos (...) equilibrados por uma aparência de continuidade.» BOWERS 1999 (cit. por EVANS 2005). Uma boa composição alcança a harmonia e consonância visual — que podemos apelidar de assertividade visual.
Esta ideia é um axioma a partir do qual podemos construir uma gramática da Música Visual. Se partirmos desta premissa, e de acordo com Evans (EVANS 2005: 13), o processo de compor Música Visual é simples, uma vez que se esta assertividade pode ser codificada e percebida, será fácil perceber o que não é certo. Progredir do visualmente “errado” para o visualmente “certo” transporta-nos da dissonância para a consonância, ou da tensão para a libertação dessa tensão, da mesma forma que na música uma harmonia dominante determina a tónica da mesma. Tal como na música, muito do interesse e energia reside nesses momentos de tensão — usando a construção baseada na tensão/libertação podemos “mover-nos” de forma dinâmica, podemos dizer até musicalmente, em materiais visuais, ao longo do tempo.
MOVIMENTO E RITMO
Conseguimos estabelecer pontos de cadência com os quais nos é possível articular unidades de tempo e assim desenvolver unidades temporais maiores como motivos, períodos e frases (idem ibidem). De acordo com Beyst (BEYST 2001), as artes visuais começam a associar-se com a música, uma vez que linhas e traços — características visuais — podem ser homólogos dos tons produzidos por um instrumento musicail.
Ambos contêm elementos de estrutura, medida e ritmo. As diferenças de peso dos elementos gráficos, que na música é demonstrado pelo volume, pode ser evocada através de variações na amplitude das curvas e na espessura do traço. As dinâmicas de traços visuais são uma forma primitiva de música — uma forma de música na qual o som apenas evoca o movimento que lhe deu origem. O autor defende que, de facto, existem dois tipos de Música Visual: com e sem movimento. No entanto, é da opinião de que a Música Visual nunca se irá desenvolver em pleno num ramo autónomo de arte — a Música Visual sem movimento apoia naturalmente a sua representação no âmbito do Design enquanto que a música visual com movimento está “condenada” a permanecer um complemento para o campo da música, ou até uma mera extensão desta (idem ibidem).
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Dewitt (DEWITT 1987: 119), no que se refere à discussão de como a percepção psicológica pode implicar uma estética visual semelhante à da música, começou por estudar as características físicas do olho, progredindo depois para o efeito estéreo do nervo óptico, nas ligações nervosas entre olho e cérebro. Peter Mark Roget, no início do séc. XIX, observou que uma sequência de imagens, quando apresentada numa velocidade ou ritmo acima das 12 imagens por segundo, parece estar “ligada” — este fenómeno psicológico é a base das técnicas aplicadas nas imagens em movimento. A persistência da visão “encaixa” com a nossa percepção aural. Ou seja, eventos sonoros distintos transformam-se em tons contínuos a partir de 20 ciclos por segundo. O ritmo pode ser sentido visualmente devido a mudanças espaciais discretas no campo de visão, sendo que a nossa percepção visual está relacionada com objectos em movimento. Segundo o autor, estes objectos atraem a nossa atenção mesmo no contexto de outra forma de imagens estáticas — esta sensibilidade é outra característica da psicologia visual que foi importante no desenvolvimento de uma estética da música visual. O que não significa que a nossa mente se foque sempre em objectos em movimento. Se o fundo mudar rapidamente, enquanto um plano mais próximo permanece estático, a nossa mente parece “agarrar-se” a esse objecto estático. Estas sensações são essenciais no que se refere às sensações musicais — têm um significado não verbal (idem ibidem).
RELAÇÃO FORMA/FUNDO E COR
O nosso cérebro é capaz de reconhecer imagens que são parcialmente bloqueadas ou ocultas da visão por outros elementos opacos. Podemos contrastar este facto com a audição — o ouvido pode ser exposto à soma de muitos sons simultâneos mas o nosso cérebro extrai coerentemente a informação das partes do ambiente sonoro total. Este é um processo de subtração dos elementos indesejados da nossa percepção imediata de uma forma de áudio complexa. No entanto, quando os nossos olhos registam um objecto “oculto”, o cérebro “preenche” os elementos que faltam, completando o processo de reconhecimento da forma pela adição das partes (DEWITT 1987: 119-121). Para Collopy (COLLOPY 2009: 7), a cor é um aspecto essencial na maneira como vemos o mundo e é uma questão que não pode ser ultrapassada, no que quer que os artistas visuais se proponham a fazer — até a sua ausência constitui uma escolha e tem significado. Sir Isaac Newton intrigou-se com a questão da natureza da luz e a sua relação com o som — percebeu, como muitos artistas e inventores desde aí, que ambos eram fenómenos que operavam dentro de uma gama de frequências e associou cada uma das sete cores que observava na luz prismática com as sete notas da escala harmónica. Podemos transpor as conotações associadas às cores no que se refere ao campo do Design e da Cultura Visual, mas
ainda não se chegou a uma teoria que determinasse em absoluto essa relação luz/
som, sendo ainda um capítulo em aberto (mas de grande importância) na estética da Música Visual.
visual cOunTerPOinT
Para Evans (EVANS 2005: 21), um trabalho artístico pode ser definido como uma relação complexa de elementos — é multidimensional. Múltiplos elementos gráficos podem trabalhar independentemente de forma a suportar uma figura maior: é o que Eisenstein define como Visual Counterpoint. Refere que montagem é conflito e lista os vários conflitos que podem ocorrer, de direcções gráficas que envolvem linhas estáticas ou dinâmicas, conflito de escalas, conflito de volumes, conflito de massas que envolvem volumes preenchidos com várias intensidades luminosas e conflitos de profundidade. Evans (EVANS 2005: 12) defende que um trabalho musical procura no seu ouvinte uma resposta estética à percepção de um padrão sonoro — a apreciação da forma com significado. Quando os artistas visuais discutem a composição referem-se aos elementos estáticos e à distribuição formal dos objectos numa imagem plana ou no espaço tridimensional. (idem ibidem).
MúSICA VISUAL
Evans (EVANS 2005) afirma que a Música Visual pode ser definida como um conjunto de imagens baseado no tempo que estabelece uma arquitectura temporal de uma maneira semelhante à música em si. É tipicamente não narrativa e não representacional, embora não tenha de ser assim. Pode ser acompanhada de som mas também pode ser silenciosa. Já no séc. XX, ao mesmo tempo que o estilo de narrativa de Hollywood dominava o cinema, os cineastas estavam a tentar desenvolver uma linguagem não narrativa com luz. Já em 1987 Dewitt (DEWITT 1987: 122) afirma que a Música Visual está a emergir como nova forma de arte, sendo que a sua estética pode ser deduzida parcialmente pela análise de características-chave da percepção visual humana — a estrutura do olho, as ligações nervosas que ligam o olho ao córtex visual e as características funcionais do cérebro. A música “tradicional” e a arte visual são os percursores da Música visual e as suas estéticas são muito importantes quando estudamos e aprofundamos esta nova forma de arte, e segundo o autor, a Música Visual pode vir a tornar-se no maior veículo para a expressão artística (idem, ibidem). Segundo Evans (2005), a animação abstracta, a que se chama muitas vezes de Música Visual, pode ter uma base semelhante à da música absoluta — a música que depende apenas dos instrumentos musicais sem ter associado nenhum texto ou letra.
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De acordo com McDonnel (MCDONNEL 2007) , os elementos visuais, sejam quais forem, são compostos e apresentados com estratégias estéticas e procedimentos semelhantes aos que são empregues na composição ou performance da música.
A tecnologia providencia a oportunidade de criar e moldar parâmetros de imagem e som, tanto de maneiras que nos são familiares como totalmente inesperadas.
Existem parâmetros amplos como a tradição musical, estilo, tempo, estrutura, forma, espaço, ritmo, duração, relação, harmonia e Gestalt. Depois existem alguns mais específicos como a orquestração, faseamento, alinhamento, cor, contraste, forma, padrão, repetição, consonância, dissonância, tom e dinâmica. Para além disto temos o estilo artístico e intuições do compositor, onde há uma consideração pela expressão de conceitos, ideias e emoções. O resultado da consideração por todos estes aspectos, de acordo com o autor, é um trabalho artístico temporal que existe no tempo e cujos elementos constituintes evoluem ao longo do tempo à medida que os elementos musicais evoluem e existem.
INTERTExTUALIDADE ENTRE O UNIVERSO VISUAL E O MUSICAL O que temos em comum entre a música e um trabalho de música visual é a consideração pela composição — «the craft of creation », como McDonnel refere — que apresenta semelhanças com a composição musical. O que tem mais impacto nos trabalhos de Música Visual é que de maneira a dar forma a material visual, o enfoque foi posto no uso de conceitos da música, focando-se nas estruturas e linguagens, mas reinterpretando esses conceitos para uma produção visual. A intertextualidade que se verifica entre os campos da cultura visual e da música, o estímulo criativo que representa uma peça musical (pelo poder de evocar na nossa mente memórias, emoções e imagens que podemos traduzir visualmente) e a diversidade incalculável de estilos, sonoridades e intensidades, permite uma exploração visual muito vasta e diversificada. A música e a cultura visual são dois campos muito ricos e a sua interligação contribuirá, decerto, para um enriquecimento da nossa cultura e pensamento, enquanto cidadãos de um mundo repleto de estímulos que desafiam a nossa criatividade.
reFerências
— BEYST, S. (2001). An inquiry into the musical potential of the image, disponível em: http://d-sites.net/english/visual%20music.htm.
Consultado em 11/02/2013.
— COLLOPY, F. (2009). Glimpse – the art + science of seeing, vol. 2, n.º 3, pp. 6-12, Playing with Color, disponível em: http://Rhytmiclight.com/articles/Playing(With)Color.pdf; Consultado em: 20/02/2013
— DEWITT, T. (1987). Visual Music: Searching for an Aesthetic, Leonardo, vol.20, nº. 2, pp. 115-122, Londres: Pergamon Journals Ltd.
— EVANS, B. (2005). Foundations of a Visual Music. Computer Music Journal, pp.11-24, Winter 2005, Massachusetts Institute of Technology.
— MCDONNEL, M. (2007). Visual Music. Disponível em: http://www.soundingvisual.com/visualmusica/
VisualMusicEssay.pdf. Consultado em: 19/2/2013.
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