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VIAGEM DE DESCOBERTA

No documento IDENTIDADE \ IDENTITY PROCEEDINGS UBI (páginas 93-105)

DESIGNA2015 - PROCEEDINGS - VIAGEM DE DESCOBERTA DO ‘EU’. EXPLORAÇãO VISUAL DA IDENTIDADE PESSOAL 93

INTRODUÇÃO

O objetivo desta comunicação consiste em apurar se é possível através do retrato representar a totalidade da pessoa. A melhor forma de representar o “eu” foi desde cedo o retrato. Porém, ao criarmos o retrato, estamos simplesmente a representar o que vemos no exterior, o corpo.

O retrato não precisa só de um corpo, deve captar o carácter, a personalidade e a alma refletidos no olhar, nas feições, no gesto e na figura. Mas o que nos garante que, ao olharmos o retrato da pessoa, esta é retratada de acordo com a realidade?

Quem é de facto o sujeito? Será somente um corpo ou, pelo contrário, há algo mais profundo que a identifica? Chamemos-lhe alma. E, sendo assim, como é que conseguimos captar a alma num retrato?

REVISÃO DA LITERATURA

A procura do “eu” existe há muito e está na origem da própria filosofia. Os racionalistas acreditavam que o conhecimento residia na razão; já os empiristas defendiam que tinha origem na experiência sensível (Gaarder, 1995, p.288). Ambas as perspetivas são formas distintas de entender o mundo. Uns acreditavam que o mundo é como a razão o representa. Outros propunham o mundo exatamente como o percepcionamos.

Na filosofia do “eu”, emergirá uma corrente a que se dará o nome de Idealismo em que se defende a separação do corpo e da alma.

A dualidade foi relevante para o conhecimento do “eu” e foi explorada por vários filósofos como Platão, Descartes, Kant. Defendiam que o Homem era constituído pela alma, a dimensão pensante, e pelo corpo, a dimensão que ocupava lugar no espaço.

Alma provém do grego anemos, que significa ar. Para os filósofos o conceito de alma significa fonte vital do pensamento. Platão, em Diálogos, na parte de Fédon, defendeu a separação da alma e do corpo e o dualismo de ambos.

DESIGNA2015 - PROCEEDINGS - VIAGEM DE DESCOBERTA DO ‘EU’. EXPLORAÇãO VISUAL DA IDENTIDADE PESSOAL 95 Figura 1: Dualidade– Inês Caramelo

Será através da alma que atingimos o conhecimento. Na Idade Média, no contexto do debate da união da alma com o corpo, sobretudo com Santo Agostinho, o corpo é uma substância e posteriormente a alma une-se a esta, quase acidentalmente.

Quando se fala do “eu” e/ou do objeto artístico deve-se entender o que constitui um indivíduo e de como este se relaciona com a sociedade, bem como as características que envolvem a sua construção da subjetividade. Tornamo-nos indivíduos através da nossa capacidade de nos adaptarmos e aprendermos com os outros e com o meio.

Figura 2: Autorretrato, personalidade – Inês Caramelo

Comunicamos utilizando a escrita, a imagem ou a nossa expressão corporal. O sujeito constrói a sua identidade através de experiências.

A identidade pessoal depende da capacidade de o indivíduo contrair significados e de construir de forma integrada um sentido para si próprio.

Quando Oscar Wilde afirma que “Man is least himself when he talks in his own person. Give him a mask and he will tell you the truth.” (Wilde,1891, p.179) refere- se ao ato de uma pessoa esconder quem realmente é por detrás de uma máscara que usa no dia a dia. O termo persona deriva das máscaras usadas pelos atores na Grécia antiga. Estas escondem, criando identidades novas. A ideia que o indivíduo tem de si mesmo é representada, a persona corresponde a um comportamento que é imposto pela sociedade e ditado pelos seus desejos. Logo, não somos idênticos àquilo que parecemos ser.

DESIGNA2015 - PROCEEDINGS - VIAGEM DE DESCOBERTA DO ‘EU’. EXPLORAÇãO VISUAL DA IDENTIDADE PESSOAL 97 Figura 3: O que me vai na alma – Inês Caramelo

Este conceito pode ser visto na arte. Pablo Picasso investigou os pontos de vista, seguindo as teorias de Jung, que defendem que a personalidade total do Homem tem diversas faces contrastantes, que se encontram em conflito umas com as outras.

O corpo na arte representa muito mais que a carne, um objeto sem vida. É uma metáfora, expressa-se através de signos. Pode ser entendido como traço artístico do “eu”. Não é como os idealistas referiam uma prisão para a alma, mas sim um meio no qual vivemos, sentimos e nos expressamos. Logo, podemos afirmar que este representa o sujeito e a sua história. É através do corpo que experienciamos o mundo exterior e é através dos nossos sentidos que percepcionamos o que nos rodeia, é uma forma de entendermos o nosso lugar no mundo. (Mora, 1978, pp.85- 87). Os limites do nosso corpo correspondem à procura de identidade.

Figura 4: Espaço do corpo – Inês Caramelo

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A representação visual do corpo pode tornar-se o epítome do rasgar da pele com o intuito de renascer, o voltar ao nosso “eu” primitivo. Estar nu significa retirarmos a máscara que usamos, mostrar quem realmente somos.

Figura 5 Corpo e Alma rompidos – Inês Caramelo

Hermes Trimegisto refere que para habitarmos algo é necessário haver um espaço, um tempo e um indivíduo, que implica uma identidade.

O primeiro lugar habitado é o corpo. O habitar exterior é o nosso envolvimento social. Merleau-Ponty afirma que existimos porque o outro nos vê (citado por Gil, 2001, p.61).

Figura 6 Novo Lugar – Inês Caramelo

Quando se representa o Homem através da imagem, existe a limitação de o representar através do seu aspeto, mas o artista revela nela a sua visão do mundo.

Só experienciando o que nos é exterior é que podemos interpretar o real em imagens. O filósofo via as imagens como sinais e não como cópias da realidade, distinguindo entre o objeto, que é real, e a imagem que é a representação do real.

O artista é um filósofo que vê o invisível no visível. Lacan (Cederbaum, 2009) afirma que é na pintura que se encontra a história do seu “eu”.

Figura 7: Imagem distorcida – Inês Caramelo

A arte é uma linguagem objetiva. O exercício artístico característico da

representação do “eu” é o retrato e o autorretrato, onde o “eu” se confronta consigo mesmo.

É através da perceção que nos relacionamos com o mundo e conseguimos interpretar uma imagem através da nossa relação com ele.

O auto-retrato é uma maneira de contar a história segundo a versão da pessoa. Não sabemos se o que é retratado é a verdade, mas relacionamo-nos com a narrativa que é contada. Quem é a pessoa que se encontra no espelho? Eu ou outro?

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Um pintor é como um espelho, observa o que existe, analisa e capta, revelando-se.

Basil, o pintor de Dorian Gray, reflete sobre esta problemática afirmando que “…

it is rather the painter who, (…) reveals himself. (Wilde, 2010, p.5). O artista toca o universal e olhando o mundo observa-se a si mesmo. Basil aprofunda esta ideia: “I have put too much of myself into it.” (Wilde, 2010, p. 2).

Figura 8: Eu sou a minha arte – Inês Caramelo

Eu torno-me uma imagem perante o olhar. O olhar é exterior, estou a ser observado, logo sou uma imagem. (Mirzoeff, 2002, pp. 126-132).

Em suma, podemos dizer como Bayer que “todas as manifestações do espírito se reduzem a sensações.” (Bayer, 1979, p.152)

PROJETO

Todas as explorações realizadas serviram como uma descoberta do eu, sendo desenvolvidas no sentido de conhecer uma identidade pessoal e artística. Assim, todas as imagens finais carregam as experiências e a relação com o mundo.

Trata-se de um projeto de exploração visual e uma viagem de auto-descoberta, uma viagem onde o eu se expõe perante os outros e se desvela em cada imagem criada.

Apesar do carácter pessoal, os conceitos inerentes às representações visuais são universais, permitindo aos observadores relacionarem-se e interpretarem de acordo com as suas próprias experiências.

Procurou-se privilegiar uma abordagem emocional das imagens. Somos incapazes de olhar uma imagem sem nos relacionarmos com ela.

É importante, no processo de criação, existir uma ligação entre o criador e a imagem.

Optou-se por usar certos métodos e materiais que ajudaram na aproximação da sensação visual que se queria transmitir. A fotografia auxiliou na descoberta física do corpo. O uso das tintas, dos tecidos e técnicas, permitiram a aproximação dos conceitos mais abstratos e tornaram as histórias e os conceitos mais realistas.

CONCLUSõES

Conclui-se que as abordagens visuais poderiam ser executadas de inúmeras formas, tendo em conta a visão pessoal de cada autor, não permitindo resultados pragmáticos. Porém, possui qualidades expressivas e sugestivas que captam a atenção do observador e provocam emoções perante o individuo retratado.

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bibliOgraFia

BAYER, R. (1979). História da estética. Lisboa:Estampa

CEDERBAUM, N. (2009). “Self-Portrait” – A Study of the “Self”. Cambridge: N.Cederbaum. Dissertation in Partial Fulfillment of the requirements of Anglia Ruskin University for the Degree of Doctor of Philosophy.

GAARDER, J. (1995). O mundo de Sofia. Lisboa: Editorial Presença.

GIL, J. (2001). Movimento Total: O corpo e a dança. Lisboa: Relógio d’Água.

MIRZOEF, N. (2002). Bodyscape: Art, modernity and the ideal figure. Londres: Routledge.

MORA, J. (1978). Dicionário de Filosofia. Lisboa: Editorial Presença WILDE, O. (2010). The picture of Dorian Gray. Londres: Harper Press.

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