“Cornel West e provavelmente o unico filosofo norte-americano capaz de discursar tao entusiasticamente sobre jazz, rap, hip-hop e blues quanto sobre Marx, Hegel, Kierkegaard e Dewey.”
Jervis Anderson, New Yorker
“Aos quarenta anos, Cornel West tornou- se nao apenas um dos mais brilhantes e apaixo- nados analistas do recente dilema racial norte- americano como tambem o arquiteto de uma filosofia de libertagao negra pos-direitos civis que esta comegando a se espalhar por todos os Estados Unidos.”
Jack E. White, Time
ISBN 85-7164-370-9
Enquanto o reconhecimento do valor da liberdade individual cresce no mundo inteiro, nos Estados Unidos ele e questionado por movi- mentos raciais herdeiros das aspi¬
rates da decada de 60, que, de maneira fragnientada e seni uni pro- jeto alternativo daramente formula- do, poem em xeque as institutes b.isicas do liberalismo democratico.
Ameafada pelo declinio de sua influencia internacional e por uma crise economica que alimenta a desigualdade, a sociedade americana se fragmenta em inumeras comu- nidades multiculturais. Negros, femi- nistas, gays reivindicam nao a inte- gra^ao social que a universalidade abstrata da condifao humana reco- mendaria, mas o reconhecimento das marcas camais que os diferenciam.
Em QuestHo dc ra(a, Cornel West insiste no universalismo. Dai a for?a inusitada de uni best-seller escrito em tom de sermao profetico, por um observador participante que e a um so tempo academico, negro, socialista e cristao. O distanciamento propiciado por sua posifao polivalente permite que ele critique tanto o economicis- mo dos liberals como o moralismo dos conservadores, o isolacionismo dos nacionalistas e afrocentristas e a discriminav.lo contra mulheres e gays no interior mcstno das comunidades negras.
Restabelecendo a figura do in- telectu.il publico nos Estados Unidos, West apela a velha e desprezada for^a das ideias. Mais do que taticas de
QUESTAO DE RAQA
afao imediata, este livro oferece uma perspectiva original e polemica dos conflitos culturais que dilaceram a America. Por mais que sua retorica
“profetica” possa nos causar estranha- mento, e atraves dela que ele cora- josamente enfrenta a pobreza dos espiritos sectarios propondo uma no^ao de multiculturalismo que, para alem da segregacao das diferen^as, permita alguma transcendencia.
Esther Hamburger
ESTA OBRA FOl COMPOSTA PELA TYPE- LASER DESENVOLVIMENTO EDITORIAL EM ENGLISH TIMES E IMPRESSA PELA GRAFICA PALAS ATHENA EM OFF-SET PA¬
RA A EDITORA SCHWARCZ EM MARCO DE 1994.
/m
CORNEL WESTQUEST AO DE RAQA
Traduijao:
LAURA TEIXEIRA MOTTA
Companhia Das Letras
_
Copyright © 1993 by Cornel WeSf, a Beacon Press Edigao em portuguis publicada por acordo com
Tftulo original:
Race matters Capa:
Silvia Ribeiro Prepara^ao:
Marcos Luiz Fernandes Revisao:
Ana Maria Barbosa Eliana Medeiros
Dados Intemacionais de Calatoga?ao i (Camara Brasileira do Livro,
l|w4.
ISBN 85-7164-370-9
Indices para catdlogo sistemdtico:
1. QuesUSo racial: Sociologia 305.8 2. Relates raciais : Sociologia 305.8
1994
reservados a Direitos exclusivos em lingua portuguesa
EDITORA SCHWARCZ LTDA.
Rua Tupi, 522 01233-000 — Sao Paulo — Si
Telefone: (Oil) 826-1822 Fax:(011)826-5523
Para meu extraordinario filho, cufton Loms west, que dia ap6s dia combate as injurias veladas k sua raga com a mais poderosa das armas — o amor por si prdprio e pelos
INDICE
■ hflAcio. 9 InlfDduv'ilo. 15
I I Nllllftino na America Negra. 25 I 1 A’, nrmadilhas do raciocmio de base racial. 37
■ l A i.’rlnc na lideran?a negra . 49
■ 4, O novo conservadorismo negro posto a nu. 65 I t Al<!m da “a?ao afirmativa”: igualdade e identidade . 79 ( h Nnhre as redoes entre negros e judeus. 87 I / A tcxualidade dos negros: um assunto tabu . 99 X Malcolm X e a ira negra... 111
PREFACIO
Pelo bent dos prdprios filhos, para minimizar as conse- qiiencias que eles terao de sofrer, e preciso cautela para nao nos refugiarmos em ilusoes — eo valor que se atribui d cor da pele i, e sempre sera, em qualquer lugar, uma ilusao.
Sei que o que estou pedindo e impossivel. Mas em nossa epoca, assim como em qualquer outra, o impossivel e o minimo que se pode exigir — afinal, encoraja-nos o espe- taculo da histdria humana em geral, e da histdria do negro norte-americano em particular, pois ela atesta nada mais, nada menos do que a perpetua realizagao do impossivel.
[...] E aqui estamos, presos no centro do arco da mais aparatosa, valiosa e inverossimil das rodas-d’aguas ja vistas no mundo. Agora, devemos reconhecer, tudo esta em nossas maos; nao temos o direito de supor o contra- rio. Se n6s — e aqui estou incluindo os brancos relativa- mente conscientes e os negros relativamente conscientes, que devem, tal qual amantes, insistir na conscientizagao dos outros, ou criar essa conscientizagao —, se nos nao faltarmos ao dever agora, poderemos conseguir, mesmo sendo poucos, por fim ao pesadelo racial, conquistar nosso pais e mudar a histdria do mundo. Se nao ousar- mos tudo agora, a realizagao da profecia, recriada da Biblia na cangao de urn escravo, se abatera sobre nos:
“God gave Noah the rainbow sign, no more water, the fire next time!". [Deus mandou a Nod o sinal do arco-iris; nao mais a agua, mas, da proximo vez, ofogo! ]
James Baldwin, The fire next time, 1963
Em setembro passado, minha esposa, Elleni, e eu nos pusemos a caminho em nossa jomada quinzenal de Princeton a Nova York. Eu cstava bem-humorado. A aula que havia dado pela manha no curso de Estudos sobre a Cultura Europeia, abordando a primeira metade da Republica, de Platao, transcorrera muito bem. E a aula da tarde, sobre a obra The souls of black folk, de W. E. B. Du Bois, em meu curso de Estudos sobre a Cultura Afro-Americana, deixara-me exausto, porem entusiasmado. O poderoso simbolismo platonico sobre a incursao de Sdcrates ao grande porto de Pireu — o centra multicultural dos nego- cios e do comercio grego e o baluarte da democracia ateniense — ainda ressoava em meus ouvidos. E a presciente afirmagao de Du Bois —
“O problema do seculo xx e o problema da barreira da cor” — conti- nuava a me perseguir. Misteriosamente, essa dupla de classicos apre- sentava-me os desafios mais fundamentais ao objetivo basico de minha vida: falar a verdade aos poderosos, com amor, para que a qualidade da vida cotidiana das pessoas comuns seja melhorada e a supremacia dos brancos se veja destitui'da de sua autoridade e legitimidade. Um desafio surgia da crftica de Platao — crftica profunda, porem pouco persuasiva — a democracia ateniense, para ele inevitavelmente corrom- pida pela ignorancia e pelas paixoes das massas. O outro provinha da penetrante analise de Du Bois sobre a intransigencia da supremacia branca na experiencia democrdtica norte-americana.
Quando nos aproximamos de Manhattan, comecei a ficar agitado, como ocorre toda vez que estou com pressa nas imedia§oes do tunel Lincoln. A coisa mais rara e nao ter de enfrentar um excruciante con- gestionamento — nao importa o dia ou a hora. Mas daquela vez atra-
11
vessamos o tunel sem percalgos, e eu atribuf a boa sorte a Elleni. Ao entrar na cidade, cogitamos parar em Sweetwater (nosso local favorito para descansar) caso sobrasse tempo depois de atender aos nossos com- promissos. Deixei minha esposa na rua 60, entre a Lexington e a Park Avenue, e guardei o carro — um vefculo muito elegante — em um esta- cionamento seguro; depois parei na esquina da rua 60 com a Park Ave¬
nue para tomar um tdxi. Eu estava bastante tranqiiilo, pois ainda fal- tava uma hora para meu proximo encontro, as cinco da tarde, com o fotografo que tiraria a foto para a capa deste livro, no telhado de um predio de apartamentos situado no East Harlem, entre a rua 115 e a First Avenue. Esperei, esperei, e esperei; depois de o nono taxi ter me recu- sado, meu sangue comegou a ferver. O decimo tambem me recusou, parando para uma gentil, bem vestida e sorridente compatriota de as- cendencia europeia. Ao entrar no taxi, ela comentou: “Isso e mesmo ridiculo, nao?”.
S6rdidas lembrangas de injurias que sofri no passado por conta de minha raga passaram-me pela cabega num lampejo. Anos atras, quando eu estava dirigindo meu carro a caminho de Nova York para dar aula no Williams College, fui parado sob a acusagao foijada de tra- ficar cocarna. Ao declarar ao policial que eu era professor de religiao, ele replicou: “Ta legal, crioulo, e eu sou a Noviga Voadora! Vamos embora!”. Fui parado tres vezes nos dez primeiros dias que passei em Princeton, por dirigir devagar demais em uma rua residencial cujo limite de velocidade era de quarenta quilometros por hora. (E meu filho, Clifton, ja tem recordagoes semelhantes, na tenra idade de quinze anos!)' Nem e preciso dizer que incidentes como esses nao sao nada perto de casos como o espancamento de Rodney King e abuso de negros nos esforgos do Cointelpro* do FBI nas decadas de 60 e 70. Mesmo assim, aquelas lembrangas me retalhavam impiedosamente o espuito enquanto eu esperava naquela desolada esquina. Por fim, decidi ir de metro. Per- corri a pe tres longas avenidas, cheguei atrasado e tive de reerguer meu moral ao me aproximar do fotografo branco e da designer branca que faria a capa do livro. Preferi nao me alongar na histdria dessa minha experi¬
ence, tao comum na vida diaria dos nova-iorquinos negros. E passamos um tempo agradavel conversando, fazendo poses e tirando fotografias.
(*) O Cointelpro (Counter-Intelligence Program) visava Ifderes e organiza^oes negros. Sua ajao consistia em vigiar, perseguir ou mesmo matar. (N. T.)
12
Quando fui buscar Elleni, contei-lhe sobre a hora que eu passara
•uperando na esquina, meu atraso, a habilidade e o entusiasmo do foto- grnfo e da designer. Conversamos sobre nossa fantasia de mudar para Atlis-Abeba, na Etidpia, terra natal de Elleni e o local do evento mais Igruddvel de minha vida. Entretive-me com a ideia de assistir ao ultimo tlia do revival presidido pelo reverendo Jeremiah Wright, de Chicago, nil Igreja Batista do Cristo de Canaa, no Harlem, cujo mentor € o reve¬
rendo Wyatt T. Walker. Mas decidimos ir para Sweetwater. E as mds recordagoes se esvafram em meio ao soul da musica, da comida e dnquela gente.
Enquanto voltavamos para Princeton, embalados pela suave musica negra “Quiet storm”, de Van Harper, na wbls, frequencia 107.5, con¬
versamos sobre o que a questao racial significou para o passado norte- americano e o quanto a raga faz diferenga para uma pessoa nesta epoca c neste pais. Jurei ser mais vigilante e virtuoso em meu empenho para enfrentar os desafios propostos por Platao e Du Bois. Para mim, esse constitui um problema urgente de poder e moralidade; para outros, e uma questao diaria de vida ou morte.
13
INTRODU£AO
Desde os primordios da nagao, os norte-americanos brancos vem sendo acometidos por uma profunda incer- teza intima quanto a quem realmente sao. Uma das manei- ras adotadas para simplificar a resposta tem sido valer- se da presenga dos norte-americanos negros, usando-a como um indicador, um simbolo dos limites, uma meta- fora para o “forasteiro". Muitos brancospodiam obser- var a posigao social dos negros e sentir que a cor propor- cionava um aferidor simples e confiavel para determinar em que medida a pessoa era ou nao americana. Talvez por isso, um dos primeiros epitetos aprendidos por muitos imi- grantes europeus ao desembarcar tenha sido o termo pejo- rativo nigger — esse termo os fazia sentir-se americanos instantaneamente. Mas essa e uma magica capciosa. Ape- sar da diferenga racial e do status social, havia nos negros algo indisputavelmente americano que nao apenas susci- tava diividas acerca do sistema de valores do homem branco mas tambem despertava a perturbadora suspeita de que, nao importa o que mais seja o verdadeiro norte- americano, ele e tambem, de algum modo, negro.
Ralph Ellison, “What America would be like without blacks”, 1970
O que aconteceu em Los Angeles em abril de 1992 nao foi um conflito racial, nem um levante de classes. Na verdade, essa monumen¬
tal subleva9ao foi uma demonstra§ao de furia social justificada, que transcendeu os limites de ra$a e classe e na qua] predominaram os par- ticipantes do sexo masculino. A despeito do ignominioso ressentimento xendfobo, do clima de farra de adolescentes e do comportamento ine- quivocamente barbaro, essa como§ao social expressou o sentimento de impotencia que assola a sociedade norte-americana. As loquazes ten- tativas de reduzir seu significado as patologias da classe negra margi- nalizada, a a9oes criminosas de arruaceiros ou & revolta polftica das massas urbanas oprimidas erram de longe o alvo. Entre os que foram detidos, apenas 36% eram negros, mais de um ter90 tinha emprego em perfodo integral e a grande maioria declarou-se avessa a filia9ao poli- tica. O que testemunhamos em Los Angeles foi conseqiiencia de uma letal combina9ao de declfnio economico, decadencia cultural e letar- gia polftica na vida norte-americana. A ra9a foi o catalisador visfvel, e nao a causa subjacente.
E diffcil compreender o significado dos tempestuosos eventos de Los Angeles, pois a maioria de n6s permanece tolhida pela exfgua estrutura das concep9oes liberals e conservadoras sobre a questao racial nos Estados Unidos, as quais, com seu vocabulario cedi90, debilitam nosso intelecto, aniquilam nossa autoridade moral e deprimem nosso animo. A espantosa ausencia de men9oes ao quebra-quebra no debate publico evidencia o quanto e penoso e confrangedor um comprometi- mento serio com a questao racial. Nossos truncados debates publicos sobre o problema racial omitem o melhor de quern e do que somos
17
enquanto pessoas, pois nao abordam a complexidade da questao de modo franco e critico. A previsfvel contenda entre liberais e conser- vadores, entre os democratas que defendem os programas de ajuda govemamental aos desfavorecidos e os republicanos adeptos da livre iniciativa reforga o provincianismo intelectual e a paralisia polftica.
A iddia liberal de que mais programas govemamentais podem resolver os problemas raciais € simplista — precisamente por enfocar apenas a dimensao economica. E a opiniao conservadora de que o necessdrio mesmo 6 a mudan9a na conduta moral dos negros pobres habitantes das dreas urbanas (especialmente os homens, que, segundo afirmam esses conservadores, deveriam permanecer casados, susten- tar os filhos e parar de cometer tantos crimes) ressalta afoes imorais enquanto deixa de levar em consideragao a responsabilidade publica pelas circunstancias imorais que perseguem nossos concidadaos.
O denominador comum a essas concepijoes sobre a questao racial 6 o fato de que cada uma delas ainda encara as pessoas negras como
“pessoas-problema”, nas palavras de Dorothy I. Height, presidente do Conselho Nacional das Mulheres Negras, em vez de as olhar como cidadaos norte-americanos com problemas. Essas palavras fazem eco k pungente “pergunta que nao e feita”, de W. E. B. Du Bois, que escre- veu em The souls of black folk (1903):
Eles se aproximam de mim com urn jeito meio hesitante, olham-me com curiosidade ou compaixao e entao, em vez de dizer diretamente “Como 6 sentir-se urn problema?”, eles dizem “Conhe^o urn excelente homem de cor em minha cidade”. [...] Esses ultrajes sulistas nao fazem seu san- gue ferver? Quando eles acontecem, sorrio, demonstro interesse ou con- trolo um pouco a fervura, conforme exija a ocasiao. A verdadeira per¬
gunta, “Como 6 sentir-se um problema?”, eu raramente respondo.
Quase um sdculo mais tarde, restringimos as discussoes sobre a questao racial nos Estados Unidos aos “problemas” que os negros representam para os brancos, em vez de ponderar a respeito do que esse modo de ver os negros revela sobre n6s enquanto na?ao.
Essa estrutura imobilizadora incentiva os liberais a aliviar sua consciencia culpada apoiando os fundos publicos destinados aos “pro¬
blemas”; porem, ao mesmo tempo, relutantes em dirigir criticas fun- damentadas aos negros, os liberais negam a eles a liberdade de errar.
Analogamente, os conservadores atribuem os “problemas” aos proprios 18
m nms e com isso tomam sua miseria social invisfvel ou indigna
•In utenv'So publica.
Fm conseqiiencia, para os liberais, os negros devem ser “incluf- (Ion" e “integrados” em “nossa” sociedade e cultura, ao passo que, para on conservadores, eles devem ser “bem comportados” e “dignos de
■Ccila^'So” por “nosso” modo de vida. Em ambos os casos, nao se per- i t'be que a presen?a e as dificuldades dos negros nao sao adi^oes nem dcser^oes na vida norte-americana, e sim elementos constituintes dessa Vida.
Para abordar com eficacia a questao racial nos Estados Unidos, prccisamos come9ar nao pelos problemas dos negros, mas pelas imper- lci9oes da sociedade norte-americana — imperfei9oes que tern suas rai¬
zes em desigualdades historicas e em estereotipos culturais ha muito existentes. A maneira como estabelecemos os termos para debater os problemas raciais determina nossa percep9ao e rea9ao a eles. Enquanto os negros sao vistos como “eles”, recai-lhes o onus de todo o trabalho
“cultural” e “moral” que deve ser feito a fim de obter redoes raciais sadias. A implica9ao disso e que apenas certos norte-americanos podem definir o que significa ser norte-americano — e o resto deve simples- mente “adequar-se”.
A emergencia de fortes sentimentos de nacionalismo negro, espe¬
cialmente entre os jovens, constitui uma revolta contra essa ideia de precisar “adequar-se”. A variedade de ideologias nacionalistas negras, das opinioes moderadas do juiz da Suprema Corte Clarence Thomas quando jovem as de Louis Farrakhan em nossos dias, assenta sobre uma verdade fundamental: a America branca foi historicamente vacilante em garantir a justi9a racial, e continua a resistir a aceita9ao plena da humanidade dos negros. Enquanto os duplos criterios e o tratamento diferenciado predominarem — enquanto rappers como Ice-T forem severamente condenados ao mesmo tempo em que comentarios con¬
tra os negros como o do ex-chefe de polfcia de Los Angeles Daryl F.
Gates forem recebidos com respeitoso silencio, enquanto afirma9oes sobre o anti-semitismo como as do dr. Leonard Jeffries despertarem cdusticas rea9oes de ultraje em contraste com a polida resposta ao anti- semitismo do candidate a presidencia Patrick J. Buchanan —, enquanto
19
coisas como essas continuarem ocorrendo, os nacionalismos negros flo- rescerao.
O afrocentrismo, espccic contemporanea de nacionalismo negro, representa uma corajosa pordm mal orientada tentativa de definir uma identidade africana em meio a uma sociedade branca percebida como hostil. 6 corajosa porque coloca no centro da discussao a conduta e os sofrimentos dos negros, e nao as preocupa?oes e os medos dos bran- cos. £ mal orientada porque fortalece os debates limitados sobre a ques- tao racial, em razao do medo da hibridez cultural, do silencio sobre o problema racial, das iddias retrogradas acerca das mulheres negras e dos homens e mulheres homossexuais e, por fim, da relutancia em asso- ciar a questao racial ao bem comum.
Para estabelecer uma nova estrutura, precisamos comegar com o franco reconhecimento da condi?ao bdsica de seres humanos e norte- americanos inerente a cada um de n6s. E temos de admitir que como urn povo — dentre tantos outros — movemo-nos em uma ladeira escor- regadia em dire?ao ao conflito economico, & turbulencia social e ao caos cultural. Se a descermos, desceremos juntos. O quebra-quebra de Los Angeles for?ou-nos a perceber nao s6 que nao estamos ligados do modo como gostarfamos, mas tambem, em um sentido mais profundo, que o fracasso em conseguir tal liga9ao nos prende uns aos outros com fonja ainda maior. O paradoxo racial nos Estados Unidos 6 o fato de que nosso destino comum se toma mais evidente e amea?ado exata- mente quando nossas divisoes sao mais profundas. A Guerra Civil e seu legado tern nisso boa parte da responsabilidade. E nossas divisoes estao se ampliando. Hoje em dia, 86% dos norte-americanos brancos que moram nos bairros suburbanos vivem em Areas com menos de 1 % de habitantes negros, o que significa que as perspectivas do pai's depen¬
dent em boa parte do modo como suas cidades serao tratadas nas maos do eleitorado suburbano. Nao hd escapatoria para nossa interdepen¬
dence racial e, no entanto, a hierarquia racial vigente nos condena, enquanto na?ao, d paran6ia e d histeria coletiva — a rurna de qualquer ordem democrdtica.
A grande maioria dos norte-americanos percebeu o erro no vere¬
dicto do caso Rodney King, que desencadeou os incidentes de Los Angeles. Contudo, os brancos com frequence deixam de reconhecer os maus-tratos generalizados dispensados pelos agentes da lei aos negros, especialmente os do sexo masculino, e isso contribuiu para
20
hi wider a fagulha. O veredicto foi apenas o ensejo para que uma ira fbrtomcnlc arraigada viesse a superffcie. Essa ira e alimentada pela dtprcNsAo “silenciosa” que assola o pafs na qual os ganhos sema- tlHlN reais de todos os trabalhadores norte-americanos desde 1973 tive- nim uma queda de quase 20%, enquanto a riqueza foi redistribuida, 11 Hurntrando-se nas camadas mais privilegiadas.
() Oxodo dos empregos industrial estAveis dos centres urbanos pitm mercados de trabalho mais baratos no pais e no exterior, as poll- ileus habitacionais criadoras de “cidades de chocolate e suburbios de tMlinilha” (na memoravel frase do popular musico George Clinton), o liirdo que os brancos tern da criminalidade dos negros e o afluxo de Imigrantes pobres de paises de lingua espanhola e da Asia para as regifles urbanas — todos esses sao fatores que contribuiram para a ero- sftoda base tributaria das cidades norte-americanas, justamente quando o govemo federal cortou subven^oes e programas a elas destinados. O resullado e o desemprego, a fome, a falta de moradia e a doen£a para milhoes de pessoas.
E cresce o difuso empobrecimento espiritual. O colapso do sen- lido da vida — o eclipse da esperanga e a ausencia do amor por si mesmo e pelos outros, a ruptura da famflia e dos la90S de vizinhan9a
— conduz ao desenraizamento social e ao despojamento cultural dos habitantes das areas urbanas, especialmente as crian9as. Criamos pes¬
soas sem raizes, inconstantes, pouco ligadas as redes de apoio que fun- damentam algum sentimento de proposito na vida — a famflia, os ami¬
gos, a escola. Assistimos ao colapso das comunidades espirituais que, no passado, ajudaram os norte-americanos a enfrentar o desespero, a doen9a e a morte, e que transmitem atraves das gera9oes a dignidade e a decencia, a excelencia e a elegancia.
O resultado sao vidas dominadas pelo que podenamos chamar de
“agoras aleatorios”, momentos fortuitos e fugazes em que a preocupa- 9ao e “sair-se bem” obter prazer, bens e poder por qualquer meio que se fa9a necessario. (Nao foi isso o que Malcolm X quis dizer com sua famosa frase.) A culture pos-modema constitui cada vez mais uma culture de mercado, dominada pelas mentalidades das gangues e pela licenciosidade autodestrutiva. Somos todos engolfados por essa culture
— mas seu impacto sobre os desfavorecidos e devastador, acarretando extrema violencia na vida cotidiana. A violencia sexual contra as mulheres c os ataques homicidas que os jovens negros desferem uns
21
contra os outros sao apenas os sinais mais evidentes dessa busca vazia do prazer, da propriedade e do poder.
Finalmente, essa furia 6 nutrida pelo clima politico, onde predo- minam as imagens e nao as id£ias, e no qual os politicos gastam mais tempo angariando fundos do que debatendo sobre os problemas. As fungoes dos partidos foram substitufdas pelas pesquisas eleitorais, e os politicos comportam-se agora menos como termostatos que determi- nam o clima das opinioes e mais como termometros que registram o animo do publico. A polftica norte-americana foi sacudida por uma ava¬
lanche de ganancia entre os administradores publicos oportunistas — que seguiram os passos de seus colegas do setor privado, no qual se registrou que, a partir de 1989,1% da populagao detem 37% da riqueza e 10% controla 86% — e o resultado disso foi o profundo ceticismo e pessimismo dos cidadaos.
E considerando o modo como desde 1968 o Partido Republicano apela para as imagens xenofobas das massas — usando os trunfos dos negros, das mulheres e dos homossexuais de modo a reagrupar o elei- torado segundo as linhas de raga, sexo e preferencia sexual — nao sur- preende que a id6ia de que “somos todos parte da mesma malha do des- tino” tenha cafdo em descrddito. Os apelos aos interesses particulares em detrimento dos interesses publicos reforgam essa polarizagao. O tumulto de Los Angeles foi uma expressao da total fragmentagao dos cida¬
daos impotentes, nos quais se incluem nao s6 os pobres, mas todos nos.
O que deve ser feito? Como conquistar um novo espfrito e a visao necessaria para enfrentar os desafios da cidade p6s-industrial, da cul- tura p6s-modema e da polftica p6s-partidaria?
Antes de mais nada, temos de reconhecer que as fontes mais pre- ciosas de ajuda, esperanga e poder encontram-se em n6s mesmos e em nossa historia comum. Como nas 6pocas de Lincoln, Roosevelt e Mar¬
tin Luther King Jr., precisamos atentar para novas estruturas e lingua- gens a fim de compreender nossa crise multifacetada e superar o pro¬
fundo mal que nos aflige.
Em segundo lugar, precisamos concentrar a atengao sobre a esfera publica — o bem comum que alicerga nosso destino nacional e glo¬
bal. A vitalidade da esfera publica depende, em ultimo caso, do grau de importancia que atribufmos a qualidade de nossas vidas em con- junto. A negligencia com respeito a infra-estrutura de servigos piibli-
22
■M. por cxcmplo — rede de agua e esgoto, pontes, tuneis, rodovias, IIMUlO e mas —, reflete nao so nossas polfticas economicas mfopes, que MptUom a produtividade, mas tamb6m a pouca prioridade que damos I IU>nnu vida em comum.
As trdgicas dificuldades enfrentadas por nossas criangas revelam IHmso profundo descaso pelo bem-estar publico. Aproximadamente (Him em cada cinco criangas nos Estados Unidos vive na pobreza; entre
•sins, uma em cada duas criangas negras e duas em cada cinco crian- V'"> de origem hispanica. A maioria de nossas criangas — tratadas com IWgligCncia por pais sobrecarregados e bombardeadas pelos valores de mercado das grandes companhias famintas de lucro — 6 mal prepa- nidii para levar uma vida espiritual e cultural de boa qualidade. Diante desses fatos, como podemos esperar algum dia constituir uma socie- tludc vigorosa?
Um passo essencial consiste em alguma forma de intervengao jiovernamental em grande escala para garantir o acesso aos bens so- i mis bdsicos — habitagao, alimentagao, assistencia mddica, educagao, creches e empregos. Precisamos dar vigor ao bem comum com uma eombinagao sem precedentes de agoes do governo, das empresas e dos Irubalhadores. Depois de um perfodo em que se sacralizou a esfera pri- vuda e se destripou o setor publico, a tentagao agora 6 fazer deste ultimo um fetiche. Temos de resistir a oscilagoes dogmaticas desse tipo.
Finalmente, o principal desafio 6 atender a necessidade de gerar uma nova lideranga. A escassez de lfderes corajosos — tao patente na reagao aos eventos de Los Angeles — torna imperioso procurarmos aldm das elites e vozes de sempre, que reciclam as velhas estruturas.
Precisamos de lfderes — nem santos, nem esfuziantes personalidades da televisao — que sejam capazes de situar-se em uma narrativa his- tdrica mais ampla do pafs e do mundo, de compreender a complexa dinamica de nosso povo e de imaginar um futuro assentado sobre o melhor de nosso passado, mas que estejam, ao mesmo tempo, sintoni- zados com os aterradores obstdculos que nos desorientam. Nossos ideais de liberdade, democracia e igualdade devem ser evocados para revigorar-nos a todos, especialmente os que nao tem terra, propriedade e sorte. Apenas uma lideranga visionaria capaz de motivar “os melho- res anjos de nossa natureza”, nas palavras de Lincoln, e de ativar pos- sibilidades de um pafs mais livre, mais eficiente e estavel — apenas essa lideranga merece ser cultivada e apoiada.
23
A nova lideran§a tem de fundamentar-se em uma organiza?ao com origem no povo, que ressalte a responsabilidade democrdtica.
Sejam quem forem os nossos lfderes ao nos aproximarmos do sdculo XXI, seu desafio sera ajudar os norte-americanos a determinar se uma genufna democracia multirracial pode ser criada e mantida em uma era de economia global e em um momento de arrebatamento xenofobo.
Rezemos e esperemos que nao nos falte a vasta inteligencia, ima- gina?ao, humor e coragem dos norte-americanos. Ou aprendemos uma nova linguagem de empatia e solidariedade, ou o fogo, desta vez, nos consumird a todos.
24
1
NIILISMO NA AMERICA NEGRA
Nos, negros, nossa histdria e nossa presente exislen- cia, somos o espelho de todas as multiplas experiincias dos Estados Unidos. O que desejamos, o que represen- tamos, o que suportamos, isso e o que os Estados Unidos sao. Se nos, negros, perecermos, os Estados Unidos pe- recerao. Se o pais esqueceu seu passado, que olhe no espelho de nossa consciencia e verd o passado vivo no presente, pois nossas lembrangas remontam — por meio de nossa genie negra de agora, das recordagdes de nos¬
sos pais negros e das historias dos tempos da escravidao contadas por nossos avds negros — a epoca em que nenhum de nos, negro ou branco, vivia nesta terra fertil.
As diferengas entre negros e brancos nao sao de sangue ou cor, e os logos que nos unem sao mais fortes do que os que nos separam. O caminho comum da esperanga que todos nos percorremos conduziu-nos para um parentesco mais estreito do que todas as palavras, leis ou reivindicagoes legais.
Richard Wright, 12 million black voices, 1941
I
Os debates recentes acerca das dificuldades dos afro-americanos
— cspccialmente os que se encontram na base da escala social — ten¬
dril a dividir-se em dois campos. De um lado estd quern salienta as rcHlrisbes estrulurais ks oportunidades de vida dos negros. Esse ponto de vista encerra uma sutil analise histdrica e sociologica da mruvidao, da segrega§ao dos negros, da discrimina^ao no emprego c na habita^ao, das taxas de desemprego drspares, da assistencia inddica inadequada e da instrugao de ma qualidade. Do outro lado estSo os que ressaltam os obstaculos que o comportamento dos negros impoe & sua mobilidade ascendente, enfatizando o enfraque- cimento da 6tica protestante — trabalho arduo, adiamento das recom- pcnsas, frugalidade e responsabilidade — em boa parte da America negra.
Quern se coloca no primeiro desses campos — os “estruturalis- tas liberais” — reivindica programas objetivando o pleno emprego, a assistencia medica, a educa?ao e a assistencia a infancia, alem de amplas praticas de corre?ao dos efeitos da discrimina9ao no emprego e na habita?ao (os chamados programas de “a^ao afirmativa”, que procuram garantir o acesso das minorias ao trabalho e a habita9ao).
Em suma, uma nova e mais realista versao das medidas economicas e sociais mais louvdveis estabelecidas pelo New Deal e pelo Pro- grama para uma Grande Sociedade, este ultimo implementado no govemo do democrats Lyndon Johnson: mais dinheiro do govemo, melhores burocratas e cidadaos ativos. Os do segundo campo — os
“behavioristas conservadores” — incentivam programas que promo- vam a iniciativa pessoal, a expansao das empresas de proprietlrios
27
negros e as praticas de emprego que nao privilegiam as minorias.
Apdiam estrategias vigorosas de “livre mercado”, que dependem de mudangas fundamentais no modo como os negros agem e vivem. Em outras palavras: seus projetos tem por base, em boa medida, um revi- vescimento cultural da etica protestante na America negra.
Infelizmente, esses dois campos quase sufocaram o debate cru¬
cial que precisaria estar ocorrendo sobre as perspectivas da America negra. Esse debate deve ir muito alem das posigoes liberais e conser- vadoras, de tres maneiras fundamentais. Primeiro, temos de reconhe- cer que as estruturas e o comportamento sao inseparaveis, que as ins- tituigoes e os valores caminham de maos dadas. A maneira como as pessoas agem e vivem e moldada embora de modo algum ditada ou determinada pelas circunstancias mais amplas que as cercam.
Tais circunstancias podem ser alteradas e seus limites atenuados por agoes positivas visando a melhora das condigoes de vida.
Em segundo lugar, devemos rejeitar a ideia de que as estruturas sao, acima de tudo, entes economicos e politicos — ideia essa que ve a cultura como um conjunto efemero de atitudes e valores pertinentes a esfera do comportamento. A cultura e uma estrutura, tanto quanto a economia ou a polftica; fundamenta-se em instituigoes como as farm- lias, escolas, igrejas, sinagogas, mesquitas e industrias da comunica- gao (televisao, rddio, video, musica). Analogamente, a economia e a polftica nao apenas sao influenciadas pelos valores, mas tambem pro- movem ideias culturais especfficas sobre o que representa uma boa vida e uma boa sociedade.
Em terceiro lugar, e o mais importante, precisamos sondar as profundezas onde liberais e conservadores nao ousam penetrar: as turvas aguas da desesperanga e do medo que hoje inundam as ruas da America negra. Uma coisa 6 falar a respeito das lamentdveis estatfs- ticas de desemprego, mortalidade infantil, detengoes, gravidez na adolescencia e crimes violentos. Mas outra, muito diferente, e ter a coragem de lidar com o formidavel eclipse da esperanga, o colapso sem precedentes do significado da vida, o incrfvel descaso para com a pessoa e a propriedade dos homens (especialmente dos negros) que imperam em boa parte da America negra.
O debate de liberais e conservadores esconde o problema pri¬
mordial que se coloca hoje k America negra: a ameaga niilista a sua prdpria existencia. Essa ameaga nao constitui simplesmente uma
28
l|U»kinn de earcncia economica relativa e de impotencia polftica milllo embora o bem-estar economico e a influencia polftica sejam HqulNitos para um progresso significativo dos negros. Ela requer so- lili'liiili) quo se enfrente o problema, tao generalizado entre os norte-
■Mrlcunos negros, do profundo sentimento de depressao psicologi-
• a, dr falta de merito pessoal e de desesperanga social.
( )n estruturalistas liberais deixam de lidar com essa ameaga por dun* ruzfles. Primeiro, seu enfoque sobre as restrigoes estruturais Iflnclona-se quase exclusivamente as esferas da economia e da polf- l u ii Ides nao parecem compreender o carater estrutural da cultura.
Por qufi? 6 porque tendem a considerar as pessoas sob os angulos do egofsmo e do racionalismo, segundo os quais elas sao motivadas principalmente pelo interesse proprio e pela autopreservagao. Nem e preciso dizer que isso em parte se aplica a quase todos nos. No entunto, as pessoas, especialmente as rebaixadas e oprimidas, tam- hdin sao dvidas por identidade, por um significado para sua vida e por vulorizagao pessoal.
A segunda razao por que os estruturalistas liberais passam ao largo da ameaga niilista 6 simplesmente a falta de coragem. Eles hesi- tum em falar honestamente sobre a cultura, o reino dos significados e valores, porque faze-lo parece conduzir com muita facilidade a con- clusoes conservadoras, na maneira restrita como os norte-americanos discutem a questao racial. Se existe um tabu oculto entre os liberais,
<5 o de resistir a falar “demais” a respeito dos valores, pois tais discus- soes deslocam o enfoque dado as estruturas e, sobretudo, obscurecem o papel positivo do govemo. Mas essa falha dos liberais deixa de lado as realidades existenciais e psicologicas dos negros. Dessa forma, os estruturalistas liberais negligenciam as identidades destrogadas oni- presentes na America negra.
Quanto aos behavioristas conservadores, eles nao so interpretam erroneamente a ameaga niilista como, inadvertidamente, contribuem para intensifica-la. Essa e uma acusagao grave, que se baseia em varias afirmagoes. Os behavioristas conservadores falam sobre valo¬
res e atitudes como se as estruturas polfticas e economicas nao exis- tissem. Eles raramente, ou talvez nunca, examinam os inumeros casos em que negros de fato agem segundo a etica protestante e ainda assim permanecem na base da escala social. Em vez disso, salientam os poucos exemplos em que negros ascendem ao topo dessa escala.
29
como se o sucesso estivesse ao alcance de todos os negros, indepen- dentemente das circunstancias. Essa vulgar adaptagao para o caso negro dos romances de Horatio Alger, onde garotos pobres bem-com- portados, esforgados e persistentes sempre acabavam recompensados com a respeitabilidade e o ingresso na classe media, pode servir como fonte de inspiragao para alguns — uma especie de modelo para os que ja se encontram no caminho certo. Mas nao pode ser usada como substituto para uma seria andlise historica e sociologica das dificul- dades e perspectivas de todos os negros, e sobretudo dos que flagran- temente estao em desvantagem.
Os behavioristas conservadores tambem discutem a cultura negra como se fosse tabu reconhecer a obvia vitimizagao dos negros pelas praticas hegemonicas dos brancos (agravadas pelo machismo e pela condigao de classe). Dizem aos negros que se considerem agentes, e nao vftimas. Superficialmente, esse e urn conselho reconfortante, um simpatico chavao para os oprimidos. Mas lemas inspiradores nao podem substituir a analise historica e social. Embora os negros nunca tenham sido simplesmente vftimas, chafurdando na autopiedade e implorando migalhas dos brancos, eles foram e ainda sao viti- mados. Portanto, conclamar os negros a serem agentes somente faz sentido se tambem examinarmos a dinamica desse processo pelo qual foram vitimados, contra o qual seus esforgos, em parte, serao dirigi- dos. O que e particularmente ingenuo e singularmente cruel na pers- pectiva dos behavioristas conservadores e sua tendencia a negar os efeitos indeleveis da historia dos negros — historia essa que e insepa- ravel do processo pelo qual foram vitimados, ainda que nao se possa reduzi-la somente a ele. Dessa maneira, os temas cruciais e indispen- saveis da iniciativa propria e da responsabilidade pessoal sao alijados do contexto historico e das circunstancias contemporaneas — como se tudo nao passasse de uma questao de vontade pessoal.
Essa perspectiva aistorica contribui para a ameaga niilista na America negra porque pode ser usada pelos politicos de direita para justificar cortes nas verbas destinadas a pessoas pobres que lutam por habitagao, creche, assistencia medica e educagao condigna. Como ja mencionado, a perspectiva liberal e deficiente em pontos importantes, porem ainda assim os liberais acertam o alvo quando criticam os cor¬
tes do govemo conservador nos servigos destinados aos pobres. Esses cortes atrozes sao uma das causas da ameaga niilista a America negra.
30
() ponto de partida correto para o crucial debate acerca das pers-
|m>« iivus da America negra e o exame do niilismo que cada vez mais I# ipodcru das comunidades negras. O niilismo deve ser compreen- Ifall) nqui nao como uma doutrina filosofica segundo a qual nao exis- li'in fundamentos racionais para normas e autoridade legitimas; ele 4, mullo mais, a experiencia de viver dominado por uma pavorosa lull,i ,lc proposito, de esperanga e (acima de tudo) de amor. O resul- i in It i uterrador e o desligamento e a insensibilidade em relagao as QtltntN pessoas e uma indole autodestrutiva em face do mundo. A vida inn significado, sem esperanga e sem amor gera uma perspectiva fria
» mcsquinha, que destroi tanto o proprio indivfduo como os demais.
O niilismo nao € algo recente na America negra. O primeiro
•rnbate do africano com o Novo Mundo foi o encontro com uma fbrma caracteristica do Absurdo. A luta inicial dos negros contra a degradagao e a desvalorizagao em sua condigao de escravo no Novo Mundo consistiu, em parte, em uma luta contra o niilismo. De fato, o muior inimigo da sobrevivencia do negro na America foi, e ainda e, nrto a opressao nem a exploragao, mas a ameaga niilista — ou seja, a perda de esperanga e a ausencia de proposito. Isso porque, enquanto a esperanga perdura e o significado da vida e preservado, a possibili- dade de sobrepujar a opressao permanece viva. A ameaga niilista cncerra uma profecia que se cumpre justamente porque foi feita: sem esperanga nao pode haver future; sem proposito nao pode haver luta.
Foi um ato de genialidade de nossos antepassados e antepassa- das criar poderosos anteparos para se precaver contra a ameaga nii¬
lista, equipar os negros com uma armadura cultural para rechagar os demonios da desesperanga, da ausencia de propdsito e da falta de amor. Os anteparos consistiam em estruturas culturais de propositos e sentimentos, que criavam e sustentavam as comunidades; as arma- duras eram as formas de vida e de luta que incorporavam valores de servigo e sacriffcio, amor e solicitude, disciplina e excelencia. Em outras palavras, as tradigoes a servigo da sobrevivencia e prosperi- dade dos negros sob as condigoes geralmente adversas do Novo Mundo representaram importantes barreiras contra a ameaga niilista.
Essas tradigoes compuseram-se principalmente das institutes reli- giosas e cfvicas dos negros, que sustentaram redes de apoio familia- res e comunitarias. Se as culturas sao, em parte, o que os seres huma- nos criam (a partir de fragmentos anteriores de outras culturas) para
31
convencer a si mesmos a nao se suicidar, entao as antepassadas c antepassados negros sao dignos de aplauso. De fato, ate o infcio da decada de 70, registravam-se entre os norte-americanos negros as mais baixas taxas de suicfdio nos Estados Unidos. Hoje em dia, porem, os jovens negros lideram essas estatfsticas.
O que mudou? O que deu errado? A amarga ironia da integra- gao? Os efeitos cumulativos de uma conspiragao genocida? O virtual colapso das expectativas crescentes depois da otimista decada de 60?
Nenhum de n6s compreende plenamente por que as estruturas cultu- rais que outrora sustentaram a America negra ja nao sao mais capa- zes de afastar a ameaga niilista. A meu ver, duas razoes significativas para que essa ameaga seja agora mais poderosa do que nunca sao a saturagao das forgas de mercado e da mentalidade consumista na vida dos negros e a atual crise na lideranga negra. A recente fragmentagao, em fungao do mercado, da sociedade civil negra famflias, bairros, escolas, igrejas, mesquitas —, deixa um numero cada vez maior de negros vulneravel a uma vida dominada por um fraco senso de iden- tidade e um Mgil arrimo de princi'pios e lagos que amparem sua exis- tencia.
Os negros americanos sempre viveram a margem da vida social e polftica, procurando conquistar um lugar ao sol. No entanto, muitos negros agora vivem em uma selva govemada por uma implacavel mentalidade consumista, privados da fe na salvagao ou da esperanga de liberdade. Ao contrario das alegagoes superficiais dos behavioris- tas conservadores, essa selva nao e basicamente a conseqiiencia de um comportamento patologico. Esse comportamento representa a tra- gica reagao de um povo destitufdo de recursos para enfrentar a maquina da sociedade capitalista norte-americana. Isso nao equivale a afirmar que os negros nao sao responsaveis por seus atos — assas- sinos e estupradores negros devem ir para a prisao. Mas e preciso reconhecer que a ameaga niilista contribui para o comportamento cri- minoso. Essa ameaga nutre-se da pobreza e da fragmentagao das ins¬
tituigoes culturais, e seu poder aumenta a medida que enfraquece o arsenal destinado a combate-la.
Mas por que esta ocorrendo essa fragmentagao da sociedade civil negra? O que acarretou o enfraquecimento das instituigoes cul-
32
Mil Hi x dos negros nas selvas de asfalto? As instituigoes de mercado iIm* rinprcsas contribufram significativamente para esse colapso.
mNtl esse termo, instituigoes de mercado das empresas, designo o
|Milli|>l«*xo conjunto de empreendimentos interligados detentores de Htyn volume desproporcional de capital e poder, que exercem uma inlliM'iicia preponderante sobre o modo como nossa sociedade e Drill!.i c como nossa cultura e moldada. E mais do que sabido que a pQilviigiio primeira dessas instituigoes e o lucro e que sua estrategia consiste em convencer o publico a consumir. Essas institui- N contribufram para a criagao de um modo de vida sedutor, uma Dllllura do consumo que se aproveita de toda e qualquer oportunidade lull a ganhar dinheiro. Os cdlculos de mercado e as andlises de i Hsiu beneffcio reinam soberanos em quase todas as esferas da socie- iliidc norte-americana.
O denominador comum desses calculos e analises e, de modo in nil, 0 fomecimento, a expansao e a intensificagao do prazer. Este t um termo polivalente; signiftca coisas diferentes para varias pes- xt ins. No modo de vida norte-americano, prazer quer dizer conforto, i omodidade e estfmulo sexual. Assim defmido, o prazer guarda pou- qulssima relagao com o passado, e ve no futuro apenas a repetigao do picscnte orientado para o hedonismo. Essa mentalidade dominada pelo mercado estigmatiza as outras pessoas como objetos para o pra- /cr pessoal ou o estfmulo ffsico. Os behavioristas conservadores ar- gumentaram que a moral estabelecida foi arruinada pelas feministas c pelos radicals da cultura da decada de 60. Mas esta bem claro que ns instituigoes de mercado das empresas, para continuar a funcionar e ter lucres, contribufram substancialmente para solapar a moral tra- dicional. A redugao dos indivfduos a objetos de prazer e especial- mente clara nas industrias da cultura televisao, radio, video, musica — que inundam o mercado com demonstragoes de cancias sexuais e prazer orgiastico.
Como todos neste pafs, os afro-americanos sao fortemente in- fluenciados pelas imagens de conforto, comodidade, machismo, femi- nilidade, violencia e estimulagao sexual com que se bombardeiam os consumidores. Essas imagens sedutoras contribuem para o predomf- nio do modo de vida inspirado pelo mercado, em detrimento de todos os outros; com isso, tiram de circulagao os valores, transmitidos pelas geragoes passadas, que nao servem aos interesses do mercado o
33
amor, a solicitude, o trabalho em benefi'cio dos outros. O predominio desse modo de vida entre os que vivem na pobreza, cuja capacidade para se preservar contra o desprezo e o 6dio por si proprios e limi tada, resulta no possfvel triunfo da ameaga niilista que paira sobre a America negra.
Uma importante estrategia empregada hoje em dia para manter
& distancia a ameaga niilista 6 o ataque direto contra o sentimento de inutilidade e autodesprezo que impera na America negra. Esse senti¬
mento generalizado de angustia quase neurdtica, angst, assemelha-se a um tipo de depressao clinica coletiva e tern sido observado em gru- pos significativos da America negra. O eclipse da esperanga e o colapso do sentido da vida para a maioria dos americanos negros estao associados h dinamica estrutural das institutes de mercado das empresas, que afeta todos os norte-americanos. Sob tais circuns- tancias, a angustia existencial dos negros deriva da experiencia das feridas ontol6gicas e cicatrizes emocionais infligidas pelas crengas hegemonicas dos brancos e pelas imagens que impregnam a socie- dade e a cultura nos Estados Unidos. Essas crengas e imagens atacam incessantemente a inteligencia, o talento, a beleza e o carater dos negros, de vdrias maneiras, algumas sutis e outras nem tanto. O romance The bluest eye, de Toni Morrison, por exemplo, revela o efeito devastador dos difusos ideais europeus de beleza sobre a auto- imagem das jovens negras. A revelagao, por Morrison, do grau ele- vado em que esses ideais brancos prejudicam a auto-imagem do negro 6 um primeiro passo em diregao it rejeigao desses ideais e a vitoria sobre a auto-aversao niilista que engendram nos negros.
O efeito cumulativo das feridas e cicatrizes infligidas aos negros na sociedade dominada pelos brancos e uma ira entranhada, um sen¬
timento ardente de furia e um pessimismo irrefletido quanto ao desejo de justiga nos Estados Unidos. Sob as condigoes da escravidao e da segregagao racial, a ira, a furia e o pessimismo permaneceram relativamente abafados em razao do medo, plenamente justificavel, da represdlia dos brancos. As grandes rupturas da decada de 60 mais no campo psiquico do que no politico — repeliram aquele medo. Lamentavelmente, a combinagao do modo de vida dominado pelo mercado, das condigoes ditadas pela pobreza, da angustia exis-
34
IH" lal tins negros e da diminuigao do medo das autoridades brancas lilt)., ..mi grande parte da ira, da furia e do desespero contra os
*1)1, Hi,Hiics negros, especialmente as mulheres, que sao as criaturas v ill neraveis em nossa sociedade e nas comunidades negras.
reccntemente essa ameaga niilista com suas perversas Kfipcctlvus e agoes desumanas — emergiu na sociedade norte-ame- eomo um todo. Seu aparecimento, sem duvida alguma, poe a 1M uni dos muitos exemplos de decadencia cultural de um imperio em
>i> •ilfnlt*.
■ <) que deve ser feito a respeito dessa ameaga niilista? Existe IVnhncnte alguma esperanga, considerando nossa sociedade civil
■Mmcntada, os grandes empreendimentos voltados para o mercado ' f n hegemonia branca? Quando se comega falando sobre a ameaga de Um niilismo concreto, faz-se necessdrio discorrer sobre algum tipo de Kp|(flea de conversao. Novos modelos de lideranga coletiva negra ilrvem criar uma versao dessa politica. Assim como o alcoolismo e a toxicomania, o niilismo 6 uma doenga da alma. Nunca podera ser Ititalmente curado, e existe sempre o ensejo de uma recafda. Contudo, pmpre ha tambem a possibilidade da conversao uma chance de as pcKSoas acreditarem que existe uma esperanga no futuro e um obje- livo por que lutar. Essa chance nao se fundamenta em um acordo a respeito do que 6 a justiga, nem em uma analise de como opera o ra-
oUmol
o machismo ou a subordinagao de classe. Tais acordos e ana- liscs sao indispensaveis. Mas uma politica de conversao requer mais.() niilismo nao e vencido com argumentos e analises; ele e aplacado pelo amor e a solicitude. Toda doenga da alma tern de ser sobrepu- jada por uma mudanga da propria alma. Essa mudanga se faz por meio da afirmagao, pela pessoa, de seu proprio valor — afirmagao essa alimentada pela consideragao dos outros. Uma etica do amor tern de estar no centra da politica de conversao.
A etica do amor nao tem nenhuma ligagao com sentimentos compassivos ou conexoes tribais. Ela constitui a ultima tentativa para gerar entre as pessoas oprimidas o sentimento de que elas sao capa- zes de influir. O melhor exemplo dessa dtica do amor e descrito em vdrios niveis no grandioso romance Beloved, de Toni Morrison. O amor por si proprio e o amor pelos outros sao, ambos, costumes que
35
conduzem a pessoa a uma crescente valoriza?ao de si mesma e incen- tivam a rea9ao poh'tica em sua comunidade. Esses habitos de valori zagSo e rea9ao encontram-se entranhados em uma memoria subvei siva — que traz a lembran^a s6 o melhor do passado de cada um, sem nostalgias romanticas e sao guiados por uma etica universal do amor. Para meus objetivos neste livro, o romance Beloved deve ser interpretado como uma obra que junta a amorosa, porem crftica, afii - mafao da humanidade da gente negra encontrada nos aspectos mais louvdveis dos movimentos nacionalistas negros, a etema e inque- brantdvel esperan9a de uma coalizao transracial dos movimentos pro- gressistas e a penosa luta pela sanidade mental, que se sustenta por si prdpria em uma historia onde a amea9a niilista parece insuperdvel.
A polftica de conversao 6 conduzida principalmente em ambito local — nas institui9oes da sociedade civil que ainda demonstram vigor suficiente para promover a autovaloriza9ao e a auto-afirma9ao.
Ela aflora no ambito govemamental e nacional apenas quando as organiza9oes democraticas populares colocam em evidencia uma lideran9a coletiva que lhes cativou o amor e o respeito e, sobretudo, que provou prestar contas kjuelas organiza9oes. Essa lideran9a cole¬
tiva deve dar o exemplo de integridade moral, cardter e competencia para govemar democraticamente, tanto no piano pessoal como no nfvel das organiza9oes.
Assim como os estruturalistas liberals, os defensores da poh'tica de conversao jamais perdem de vista as cond^oes estruturais que influenciam as dificuldades e a vida das pessoas. Contudo, ao contrd- rio do estruturalismo liberal, a polftica de conversao encara de frente a amea9a niilista. Assim como o behaviorismo conservador, a poh'¬
tica de conversao confronta abertamente as a9oes autodestrutivas e desumanas dos negros. Porem, em contraste, ela situa essas a9oes no contexto desumano em que se inserem (mas sem as desculpar por isso). A poh'tica de conversao e avessa d notoriedade, que atrai os que buscam um status privilegiado e bajula os egdlatras. Ela prefere man- ter-se com os pds no chao, labutando ao lado das pessoas comuns, projetando humildes campeoes da liberdade — seguidores e lfderes
—, audaciosos o bastante para atracar-se com a amea9a niilista e recha9ar seus ataques letais.
36
2
AS ARMADILHAS DO RACIOCINIO DEBASE RACIAL
A insistencia nos valores machistas, na identificagao da libertagao dos negros com o acesso dos homens negros a privilegios masculinos que lhes permitiriam afirmar seu poder sobre as mulheres negros, foi uma das forgas mais significativas no solapamento da luta radi¬
cal. Crlticas detalhadas sobre as condigdes dos sexos teriam compelido os lideres das lutas pela libertagao dos negros a conceber novas estrategias e a falar sobre a subjetividade dos negros sob um prisma visiondrio.
Bell Hooks, Yearning: race, gender, and cultural politics, 1990
O aspecto mais deprimente nas audiencias do caso Clarence Thomas/Anita Hill nao foram os ataques mesquinhos dos republica-
„„s nem o silencio titubeante dos democratas ambos revelam a prcvisfvel incapacidade da maioria dos politicos brancos para falar fruncamente sobre a questao racial e o papel dos sexos. O mais per- lurbador foi a pobreza da discussao polftica entre os negros norte- umcricanos a respeito dessas audiencias um discurso grosseiro ncerca de ra$a e sexo, que acusa a falta de coragem das lideraneas ncgras.
Essa falta de coragem ja se manifestara por ocasiao do processo de seleeao e nomeagao de Clarence Thomas. A escolha de Thomas por Bush pegou desprevenida a maioria dos lfderes negros. Poucos se atreveram a declarar publicamente que aquela nao passava de uma dnica demonstrate proforma de aquiescencia as revindicates de participate dos negros na condugao da sociedade, disfargada com mentiras deslavadas quanto a qualificagao de Thomas como o candi¬
date mais apropriado independentemente de consideragoes raciais.
Como estudante, Thomas possuia apenas um currfculo sofrivel (um simples diploma da Faculdade de Direito de Yale nao capacita nin- guem para a Suprema Corte); durante seus turbulentos anos na Co- missao para Oportunidades Iguais de Emprego, deixara 13 mil pro- cessos sobre discriminasao por idade mofando nos arquivos por falta de investiga§ao; seu desempenho nos breves quinze meses como juiz no tribunal fora mediocre. O proprio fato de nenhum lfder negro ter sido capaz de afirmar publicamente que um negro indicado para a Suprema Corte nao estava apto mostra o quanto esses lfderes estao
39
escravizados pelos estereotipos racistas dos brancos a respeito do talento intelectual dos negros. Nao se trata simplesmente do fato de que se Thomas fosse branco eles nao hesitariam em gritar isso aos quatro ventos. Ocorre tambem que o silencio desses lfderes negros revela que eles podem cogitar na possibilidade de o estereotipo racista ser verdadeiro. Dai sua tentativa de encobrir com o silencio a mediocridade de Thomas. li claro que, em particular, alguns admiti- ram saber daquela mediocridade, mas ao mesmo tempo salientaram a mediocridade do juiz Souter e de outros membros do Tribunal — como se a mediocridade dos brancos fosse uma justificativa para a dos negros. Nada de duplo critdrio aqui e o argumento; se urn negro nao esta qualificado, pode-se defende-lo e desculpd-lo apontando outros jufzes brancos que tambem nao estao. Essa postura dos lfderes negros condiz perfeitamente com a cfnica demonstragao de aquies- cencia do governo its reivindicagoes dos negros, e tern com esta o mais baixo denominador comum: a pouca preocupagao pelo objetivo de fazer ruir o estereotipo racista ou pela defesa do interesse publico da nagao. Tambem toma invisfveis jufzes negros altamente qualifica- dos, que realmente merecem ser lembrados na selegao dos membros da Suprema Corte.
Como foi que boa parte dos lfderes negros se deixou enredar nessa situagao critica? Por que tantos deles capitularam £ cfnica es- trategia de Bush? O primeiro motivo e a pretensao de Thomas a autenticidade racial — seu nascimento na segregacionista Georgia, a infancia como neto de urn pequeno lavrador negro, seu inegdvel feno- tipo negro, rebaixado pelos ideais racistas de beleza, e sua galante luta de negro que procura subir na vida a despeito do racismo no pais.
Em segundo lugar, existe uma complexa relagao entre aquela preten¬
sao a autenticidade racial e o crescente espfrito de cooperagao entre os negros norte-americanos. Os cada vez mais intensos sentimentos na- cionalistas negros — a ideia de que o desejo de justiga racial nos Esta- dos Unidos 6 fraco e, portanto, os negros devem cerrar fileiras para sobreviver em um pafs hostil — fundamentam-se principalmente em afirmagoes de autenticidade racial. Em terceiro lugar estd o modo como sentimentos nacionalistas negros promovem e incentivam o conservadorismo cultural entre os negros, em especial o poder machista (e homofdbico). A ideia de os negros cerrarem fileiras con¬
tra os hostis norte-americanos brancos fortalece o poder masculino
MIM. ido pelos homens negros sobre as mulheres negras (com costu- HM,„ i;oiiu>, por exemplo, a protegao, o controle, a subordinagao e, MilliiuliO) cm geral, mas nao sempre, a pratica de usar e abusar das iimlli. ms); o argumento e que isso contribuiria para preservar a indrin social entre os negros sob circunstancias de um ataque simbd- H, ,t mi literal por parte dos brancos. (Discorreremos com mais deta¬
il sobre esse processo no capftulo 7.)
A tnaioria dos lfderes negros perdeu-se no emaranhado desses
•riliimentos, sendo, por isso, vitimada por uma forma vulgar de racio- i lulu, lundamentado somente no aspecto racial: autenticidade negra mentalidade favoravel a “cerrar fileiras” -> subordinagao das iiiulhcres negras pelos homens, no interesse da comunidade negra em uni pafs racista hostil. Essa linha de raciocfnio gera perguntas como
|.ui exemplo: “Thomas e realmente negro?” “Ele e negro o suficiente imia ser defendido?” “Serd que ele € negro so por fora?” Com efeito, quesldes desse tipo foram aventadas, debatidas e respondidas por lodu a America negra, nas barbearias, saloes de beleza, salas de estar, Igrcjas, mesquitas e escolas.
Infelizmente, nao se questionou a propria estrutura desse racio- t inio que toma por base o aspecto racial. Entretanto, se esse tipo de raciocfnio continuar a reger o pensamento e a agao dos negros, casos como o de Clarence Thomas se sucederao na America negra cnquanto Bush e outros conservadores assistem de camarote e pros- peram. Como se pode abalar a estrutura do raciocfnio de base racial?
Demolindo cada um de seus pilares, lenta e sistematicamente. O objetivo fundamental desse processo e substituir o raciocfnio de base racial pelo raciocfnio de base moral, compreender a luta dos negros pela liberdade como uma questao nao de pigmentagao da pele ou de fendtipo racial, mas de princfpios dticos e sabedoria polftica, e com- bater a tentativa dos nacionalistas negros de subordinar os problemas c interesses das mulheres negras associando o amor e respeito ma- duro do negro por si proprio a relagoes igualitdrias dentro e fora das comunidades negras. A falta de coragem das liderangas negras deriva de sua recusa em abalar e demolir a estrutura do raciocfnio de base racial.
Comecemos com a afirmagao de autenticidade racial afirma- gao essa que Bush fez a respeito de Thomas, que este fez a respeito de si mesmo durante as audiencias e que os nacionalistas negros
41
fazem a respeito de si prdprios. O que vem a ser a autenticidade negra? Quern e realmente negro? Em primeiro lugar, a negritude n3o tem sentido fora de um contexto marcado por pessoas e prdticas prco cupadas com diferen?as raciais. Apos seculos de degradagao, explo- ragao e opressao racista nos Estados Unidos, ser negro significa estar sujeito, por mfnimo que seja, aos abusos hegemonicos dos brancos c fazer parte de uma rica cultura e de uma comunidade que lutaram contra tais abusos. Todas as pessoas de pele negra e fenotipo africano estao sujeitas a um potencial abuso hegemonico dos brancos. Por conseguinte, todos os norte-americanos negros tem algum interesse em resistir ao racismo mesmo se esse interesse for restrito unica mente a si proprios como indivfduos e nao abranger comunidades negras mais amplas. Entretanto, varia a forma como € definido esse
“interesse” e como sao entendidos os indivfduos e comunidades negras. Assim, qualquer alega?ao de autenticidade negra — exceto a de ser um potencial alvo de abuso racista e herdeiro de uma grandio- sa tradi9ao de luta pela causa dos negros — esta na dependencia da defini^ao, pela pessoa, do que vem a ser o interesse dos negros e de sua compreensao 6tica sobre o modo como esse interesse se relaciona com os indivfduos e as comunidades dentro e fora da America negra.
Em suma, a negritude 6 um construto politico e dtico. Os apelos a autenticidade negra nao levam em conta esse fato; eles escondem e disfar?am a dimensao polftica e etica da negritude. Por isso 6 que as alegafoes de autenticidade racial levam a melhor sobre a argumen- ta9ao polftica e dtica e que o raciocfnio de base racial desencoraja o raciocfnio de base moral. Toda afirma9ao de autenticidade racial pressupoe elaboradas concep9oes de redoes polfticas e eticas de in- teresses, indivfduos e comunidades. O raciocfnio de base racial oculta essas pressuposi9oes com um enganoso manto de consenso racial — no entanto, ele 6 um tipo sedutor de raciocfnio, pois evoca uma ine- gdvel historia de abuso e luta racial. E esse o motivo por que as afir- ma9oes de Bush sobre a autenticidade negra de Thomas, as deste ultimo sobre sua propria autenticidade negra e as dos nacionalistas negros a respeito da autenticidade negra em geral ressaltam, todas, histdrias de abuso contra os negros e das lutas por eles travadas.
Mas se as afirma9oes de autenticidade negra constituent con- cep9des polfticas e eticas da rela9ao entre os interesses, indivfduos e comunidades negras, entao qualquer tentativa de restringir a autenti-
42
, lilrnli' negra fis polfticas nacionalistas ou aos interesses masculinos inn negros gera suspeita. Por exemplo, os lfderes negros deixaram de Igl^nlur iis declara9oes problematicas feitas por Clarence Thomas a iripi'ilo de sua irma, Emma Mae, concementes a experiencia desta
|iitilo iio sistema previdenciario. Perante uma plateia conservadora , m Sul Francisco, Thomas deu a entender que ela fraudulentamente 1$ fl'/era beneficidria do seguro-desemprego pago pelo govemo. Con¬
i' (udo, como a maioria das mulheres negras na historia do pats, Emma Muc c uma mulher muito trabalhadora. Ela fora sensfvel o bastante pnru cuidar de uma tia doente, mesmo ficando incapacitada para tra- Hiilhur por um breve perfodo. Depois que parou de receber o seguro- dewmprego, passou a trabalhar em dois empregos — ate as tres da mndrugada! As decides de Thomas revelam sua propria falta de n.u-gtidade e de carater. Mas o fato de os lfderes negros terem dei- KUdo de ressaltar aquelas declara9oes expoe uma conceP9ao de auten- llcidade negra restrita ao lado masculino dos interesses, indivfduos e comunidades negras. Ou seja, a recusa, pela maioria dos lfderes negros, a dar importancia aos interesses das mulheres negras ja estava evidente antes mesmo de Anita Hill entrar em cena.
As afirma9oes de autenticidade negra que se nutrem da mentali- dnde favoravel a “cerrar fileiras” sao perigosas precisamente porque essa uniao ocorre geralmente a custa das mulheres negras. Tais afir- mu9oes tambem tendem a nao levar em conta as divisoes de classe e as preferences sexuais entre os negros norte-americanos divisoes essas que exigem aten9ao se forem considerados todos os interesses, indivfduos e comunidades negras. A polftica conservadora republi- cana de Thomas nao favorece a ideia de cerrar fileiras; ele reivindica sua autenticidade negra com o objetivo de se autopromover, de obter poder e prestfgio. Durante toda a sua vida profissional, Thomas defendeu o progresso pessoal e os criterios de sele9ao e promo9ao que nao tomam por base a ra?a. Mas quando pareceu que o Senado nao confirmaria sua indica9ao para a Suprema Corte, ele usou o trunfo racial da vitimiza9ao e da solidariedade dos negros, em detri- mento de Anita Hill. Assim como ftzera com sua irma, Emma Mae, ele poderia usar e abusar de Anita Hill em prol de sua concep9ao, eivada de interesse proprio, sobre a autenticidade e a solidariedade racial dos negros.
43
Thomas foi bem-sucedido ao usar seu trunfo racial — primciro apelando para sua vitimagao na segregacionista Georgia, depois paru sua vitimagao por urn “linchamento hi-techesse exito deve-se ao profundo conservadorismo cultural prevalecente entre os brancos e os negros norte-americanos. Entre os brancos, o conservadorismo cultural assume a forma de racismo cronico, machismo e homofobia.
Assim, apenas certos tipos de negros merecem ocupar posigoes importantes: os que aceitam as regras do jogo em vigor na America branca. Jd entre os negros, o conservadorismo cultural se manifesta sob a forma de xenofobia incipiente (por exemplo, contra brancos, judeus e asiaticos), machismo sistemdtico e homofobia. Assim como ocorre em todos os casos de conservadorismo alicergado na busca da ordem, a desordem generalizada na America branca e, especialmente, na Amdrica negra insufla e sustenta a canalizagao da raiva na diregao dos membros mais vulnerdveis e degradados da comunidade. Para os brancos norte-americanos, isso significa principalmente usar como bodes expiatdrios os negros, as mulheres e os homossexuais. Jd os negros norte-americanos voltam-se contra as mulheres negras e os homossexuais negros. Dessa forma, as afirmagoes de autenticidade negra pelos nacionalistas e machistas negros dao mais forga ao con¬
servadorismo cultural. O apoio dado a Clarence Thomas pela Nagao do Isla, de Louis Farrakhan a despeito da crftica de Farrakhan as polfticas racistas e conservadoras do Partido Republicano —, eviden- cia esse fato, e al6m disso mostra como o raciocmio de base racial conduz pontos de vista totalmente dispares na America negra ao mes- mo beco sem safda deixando de lado solidos princi'pios eticos e uma polftica sdbia e perceptiva.
O solapamento e o desmantelamento da estrutura do raciocmio de base racial — especialmente das ideias-chave de autenticidade negra, mentalidade favordvel a cerrar fileiras e conservadorismo cultural conduzem a uma nova estrutura de pensamento e prdtica para os negros. Ela deve ser uma estrutura profetica de raciocmio de base moral, com suas ideias fundamentals sobre uma identidade negra madura, uma estrategia de coalizao e uma democracia cultural negra.
Em vez de apelos catdrticos it autenticidade negra, a perspectiva profe¬
tica fundamenta o amor e o respeito maduro do negro por si prdprio na qualidade moral das reagoes dos negros a inegavel degradagao racista que ocorreu e ainda ocorre nos Estados Unidos. Essas reagoes nao pres-
44
lUpOrm mna essencia racial compartilhada por todas as pessoas de
|»li' negra, nem uma perspectiva a qual devem aderir todos os t HggitiH. Em vez disso, a estrutura profetica incentiva uma avaliagao i mu a,il das vdrias perspectivas que se apresentam aos negros, selecio- iiamlo aquclas que tomam por base sua dignidade e decencia, quali- EmIck cslas que os induzirao a abster-se de colocar qualquer cultura ini grupo de pessoas no pedestal ou na sarjeta. A negritude, entao, 6
••nli'inlida como a etema possibilidade do abuso hegemonico dos [iruiKos ou os diferentes estilos e modos dominantes de expressao incontrados nas culturas e comunidades negras. Esses estilos e mi td) is de expressao sao diversificados — e realmente se destacam .Inn dc outros grupos (mesmo que sejam moldados pelos de outros grupos, ou que os moldem). E todos esses estilos e modos de expres- i.io necessitam de uma avaliagao etica. A identidade negra madura iVHiilta do reconhecimento das reagoes especiTicas dos negros aos iibusos hegemonicos dos brancos e de uma avaliagao moral dessas rcugdes, de modo que a condigao humana dos negros nao dependa da rcdugao dos outros a deuses ou demonios.
No lugar da tendencia a cerrar fileiras, a estrutura profetica esti- inula uma estrategia de coalizao que induz a genurna solidariedade entre os que estao fortemente comprometidos com a luta contra o racismo. Essa estrategia nao e ingenua nem oportunista; a descon- fianga que os negros tern dos brancos, latinos, judeus e asiaticos e grande, por motivos histdricos. Entretanto, existem frageis porem significativas tradigoes anti-racistas entre os brancos e asiaticos, e especialmente entre os latinos, judeus e povos indfgenas, e elas nao devem ser desprezadas. Coalizoes como essas sao importantes preci- samente porque nao s6 dao forga ao compromisso da gente negra mas tambem porque enriquecem a qualidade da vida no pais como um todo.
Finalmente, a estrutura profetica substitui o conservadorismo cultural dos negros pela democracia cultural negra. Em vez das con- cepgoes autoritarias que subordinam as mulheres ou rebaixam os homossexuais, a democracia cultural negra incentiva a igualdade entre homens e mulheres e evidencia a condigao humana dos homos¬
sexuais. Em suma, a democracia cultural negra rejeita o generalizado machismo e a homofobia que imperam na America negra.
45