REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
Publicação Oficial da Sociedade Brasileira de Anestesiologiawww.sba.com.br
INFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Bloqueios
de
nervos
periféricos
guiados
por
ultrassom
em
pacientes
anticoagulados
---
série
de
casos
Luis
Eduardo
Silveira
Martins
a,
Leonardo
Henrique
Cunha
Ferraro
a,b,∗,
Alexandre
Takeda
a,b,
Masashi
Munechika
a,be
Maria
Angela
Tardelli
a,baUniversidadeFederaldeSãoPaulo(Unifesp),EscolaPaulistadeMedicina,DisciplinadeAnestesiologia,DoreTerapiaIntensiva,
SãoPaulo,SP,Brasil
bSociedadeBrasileiradeAnestesiologia,SãoPaulo,SP,Brasil
Recebidoem20demaiode2015;aceitoem15dejunhode2015 DisponívelnaInternetem23demarçode2016
PALAVRAS-CHAVE
Bloqueionervo periférico; Ultrassom; Coagulac¸ão
Resumo
Justificativaeobjetivos: Oadventodaultrassonografiatrouxeinúmerosbenefíciosparaos blo-queiosdenervosperiféricos.Agregoutantoseguranc¸aquantoeficácia,dadaapossibilidadede visualizac¸ãodeestruturasneurovascularesedaagulhaduranteoprocedimento.Apesardesses benefícios,nãoháconsensonaliteraturasobreousodatécnicaempacientesanticoaguladosou comoutrosdistúrbiosdacoagulac¸ão.Alémdisso,osbloqueiosperiféricosvariamcomrelac¸ãoà profundidade,expansibilidadeepossibilidadedecompressãolocal.Porém,poucassociedades levamissoemconsiderac¸ãoparaelaborarsuasrecomendac¸ões,estabelecemumrecomendac¸ão únicapara bloqueiosperiféricos,independentementedaviausada.Oobjetivodestasérieé ampliaradiscussãosobrebloqueiodenervosperiféricosempacientesanticoagulados.
Relatodecasos:Estasérierelata9casosdebloqueiosdenervosperiféricossuperficiaisguiados porultrassonografiaempacientescomdiscrasiasprimáriasousecundárias.Todososbloqueios foramfeitosporanestesiologistasexperientesnomanejodoultrassom,quenãoforam obser-vadoshematomasoulesõesneurológicasnoscasos.
Conclusões:Asériedecasosemquestãoajudaadiscussãosobrebloqueiosperiféricos superfici-aisedefácilcompressãolocal,comooaxilar,interescalênico,femoral,safenooupoplíteo,em pacientesanticoagulados,duplamenteantiagregadose/oucomoutrosdistúrbiosdacoagulac¸ão desdequeguiadosporultrassomefeitosporanestesiologistacomvastaexperiênciaem blo-queiosguiados.Entretanto,maioressériesdevemserfeitas paracomprovaraseguranc¸ada técnicaparaessespacientes.
©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](L.H.Ferraro). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.02.005
KEYWORDS
Peripheralnerve block;
Ultrasound; Coagulation
Ultrasound-guidedperipheralnerveblocksinanticoagulatedpatients---caseseries
Abstract
Backgroundandobjectives: Theadventofultrasoundhasbroughtmanybenefitstoperipheral nerveblocks.Itincludesbothsafetyandeffectiveness,giventhepossibilityofvisualizingthe neurovascularstructuresandtheneedleduringtheprocedure.Despitethesebenefits,there is noconsensusinthe literatureontheuse ofthis techniqueinanticoagulatedpatients or withothercoagulationdisorders.Moreover,peripheralblocksvaryindepth,spreadability,and possibilityoflocalcompression.However,fewsocietiestakeitintoaccountwhendrawingup itsrecommendations,establishingasinglerecommendationforperformingperipheralblocks, regardlessoftherouteused.Theobjectiveofthisseriesistoexpandthediscussionon periphe-ralnerveblockinanticoagulatedpatients.
Casereports: Thisseriesreports9casesofsuperficialperipheralnerveblocksguidedby
ultra-sound in patients with primary or secondary dyscrasias. All blocks were performed by
experienced anesthesiologists inthemanagementofultrasound, andthere wasno bruising orneurologicalinjuriesinthecases.
Conclusions: Thiscase seriessupportthediscussionon conductingsurfaceperipheralnerve blocks and easylocal knowledgeasthe axillary,interscalene, femoral,saphenousor popli-tealinanticoagulatedpatients,ondualantiaggregationtherapyand/orwithothercoagulation disorders,providedthatguidedbyultrasoundandperformedbyananesthesiologistwith exten-siveexperienceinguidednerveblocks.However,largerseriesshouldbeperformedtoprove thesafetyofthetechniqueforthesepatients.
©2016SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
Ousodoultrassomtem-semostradocadavezmaispresente nodiaadiadoanestesiologista.Sejaparaapunc¸ãodeveias profundas,paraobloqueiosdenervosperiféricosoumesmo parabloqueiosdoneuroeixo,oadventodoultrassomveioa somartantoemseguranc¸aquantonaeficáciaenosucesso dosprocedimentos.1
Alguns benefícios dessa técnica em relac¸ão à neuroestimulac¸ão têm sido demonstrados na litera-tura. Entre eles, destacam-se menor incidência de falha,menortempoparaexecuc¸ão,menortempode latên-cia, maiordurac¸ão do bloqueio e menor risco depunc¸ão vascular acidental.2---10 Com a menor probabilidade de
promoverlesõesvasculares,oultrassomtorna-seuma fer-ramenta interessante para orientarbloqueios periféricos, especialmente nos pacientes em uso de anticoagulantes oucom distúrbiosdacoagulac¸ão, osquais impõemcertos desafios para a anestesia regional devido ao risco de complicac¸ões hemorrágicas no caso de lesão vascular, especialmentequandoocorremem locaisquedificultama compressãodovaso.11
Apesar dos benefícios discutidos, não há consenso na literaturaquantoàindicac¸ãodebloqueios denervos peri-féricosguiadosporultrassomnopacientecomalterac¸ãoda coagulac¸ão.Apesardapopularizac¸ãoedodesenvolvimento dessatécnica,aindaencontram-sepoucoscasosdescritosna literaturaparaousodoultrassomnessetipodepaciente.12
Aseguir,apresenta-seumasériedecasosemqueforam feitososbloqueiosisquiático,femorale deplexobraquial guiadosporultrassomempacientesanticoagulados, dupla-menteagregadosoucomoutrosdistúrbiosdacoagulac¸ão.
Relatos
de
caso
Vertabela1.
Caso1
SRR, 63 anos, feminino, ASA 3, antecedente de hiper-tensão arterial sistêmica, insuficiência renal crônica em tratamentoconservadorediabetesmellitustipo2.Paciente em uso de piperacilina-tazobactana devido a sepse grave defoco em membroinferior direito, em programac¸ão de amputac¸ãotranstibial.Fazia usodeAAS100 mg/dia; Clo-pidogrel75 mg/dia;Heparinanãofracionada5000 U8/8h; Sinvastatina20 mg/dia;Enalapril20mg12/12h; Glibencla-mida5 mg2×diaeMetformina850 mg2×dia.
Programac¸ãocirúrgica
Amputac¸ãotranstibialdireita.
Propostaanestésica
Bloqueiofemoraleciáticoguiadoporultrassonografia(US) eestimuladorelétricodenervo.
Tabela1 Resumodoscasosdebloqueiosperiféricosempacientesanticoaguladosguiadosporultrassom
ASA Idade Bloqueio Discrasia/Medicac¸ão Déficitneurológico
novo
Hematoma Estimulador
denervo
Caso1 3 63 Femoral+Ciático AAS+Clopidogrel+Heparina Não Não Sim
Caso2 4 57 Femoral+Ciático AAS+Clopidogrel Não Não Sim
Caso3 3 74 Femoral+Ciático AAS+Clopidogrel Não Não Sim
Caso4 3 54 Plexobraquial
interescalênico
Hepatopatia
(AP61%)+Plaquetopenia
97 mil/mm3
Não Não Não
Caso5 3 32 Femoral+Ciático Enoxaparina60 mg12/12h Não Não Não
Caso6 4 73 Plexobraquial
interescalênico
AAS+Heparinanão fracionada
Não Não Não
Caso7 3 71 Femoral+Ciático Clopidogrel+RNI1,57 Não Não Não
Caso8 4 65 Femoral+Ciático AAS+Clopidogrel+AP30%
RNI 3,33
Não Não Sim
Caso9 3 71 Femoral+Ciático AAS+Warfarina(AP10%RNI
5,87)
Não Não Não
Procedimentotranscorreusemintercorrências.Em pós--operatóriopacienteevoluiucomcontroleálgicoadequado esemalterac¸õesdesensibilidadeoumotricidadeem terri-tóriodosnervosbloqueados.
Caso2
ACR,57anos,ASA 4,antecedentedeinsuficiênciarenal crô-nicadialítica,fibrilac¸ãoatrialcrônica,hipertensãoarterial sistêmica,diabetes mellitustipo 2 e tabagismo 40 anos--mac¸o. Vinha em uso de Losartana, Clonidina, Enalapril, Nifedipina,Hidralazina,InsulinaNPH,alémdeClopidogrel 75 mg/diaeAAS100 mg/diadevidoàrecenteangioplastia combalãoemartériatibialposteriordireita.
Programac¸ãocirúrgica
Amputac¸ãotransmetatarsaldireita.
Propostaanestésica
BloqueiosfemoraleciáticoguiadoporUSeestimuladorde nervoperiférico.
Feito bloqueio femoral, nível inguinal com 10 mL de Ropivacaína0,5%e10 mLdeLidocaína1,5%com vasocons-tritorassociadoaobloqueiodonervociáticocomabordagem poplíteacom15 mLdeRopivacaína0,5%e10 mLde Lido-caína1,5%comvasoconstritor.
Procedimentocirúrgicotranscorridosemintercorrências com durac¸ão de1 hora e 25 minutos, sob sedac¸ão leve. EnviadoàRPA.Evoluiucomcontroleálgicoadequadoesem déficitsneurológicosevidenciadosem1◦ pós-operatório.
Caso3
RCB,74anos,masculino,ASA3,antecedentedehipertensão arterialsistêmica e doenc¸a arterialperiférica, em usode AAS100 mg/diaeClopidogrel75 mg/diadevidoastentem artériailíacaesquerdafeitohavia1 mês.
Programac¸ãocirúrgica
Amputac¸ãotranstibialesquerda.
Propostaanestésica
BloqueiosfemoraleciáticoguiadoporUSeestimuladorde nervoperiférico.
Feitobloqueio femoral, nível poplíteo, com 10 mL de Ropivacaína0,5%e10 mLdelidocaína1,5%com vasocons-tritorassociadoaobloqueiodonervociáticocomabordagem posterior suprapoplíteacom 10 mLdeRopivacaína 0,5%e 10 mLdeLidocaína1,5%comvasoconstritor.
Procedimentocirúrgicotranscorridosemintercorrências comdurac¸ãode3 horas,sobsedac¸ãoleve.EnviadoàRPA. Evoluiucomcontroleálgicoadequadoesemdéficits neuro-lógicosevidenciadosem1◦pós-operatório.
Caso4
VLBNQ, feminino,54 anos, ASA 3por hepatopatia secun-dária a infecc¸ão pelo vírus C, apresentava coagulograma
alterado (atividade da Protrombina de 61%, com RNI de 1,59). Demaisexames evidenciavam contagemde plaque-tasde97.000 /L.Trazidaaocentrocirúrgicoparafixac¸ão defraturacomplexadeantebrac¸oesquerdo.
Programac¸ãocirúrgica
Osteossíntesedeantebrac¸oesquerdo.
Técnicaanestésicaproposta
Anestesiageralassociadaaobloqueiodeplexobraquial gui-adoporultrassom.
Transcorrido procedimento sem intercorrências, com durac¸ão de4 horas e 50 minutos. Enviadaà recuperac¸ão anestésicacombloqueiomotoresensitivo.Pacienteevoluiu com controleálgico adequado e sem déficitsneurológicos evidenciadosemprimeiropós-operatório,naocasiãodaalta hospitalar.
Caso5
FAS,masculino,32 anos,ASA 3portromboangeíte oblite-rante,em usodeEnoxaparina60 mg12/12h,é levadoao centrocirúrgico paradesbridamentodeúlceraem antepé esquerdo.
Programac¸ãocirúrgica
Desbridamentocirúrgicodeúlceraemantepéesquerdo.
Técnicaanestésicaproposta
Bloqueiodenervosfemoraleciáticoguiadoporultrassom. Feito bloqueio de nervo ciático guiado por ultras-som, abordagem poplítea, com 20 mL de Bupivacaína 0,375%semvasoconstritorassociadaa20 mLdeLidocaína 1,5%semvasoconstritor.
Procedimento transcorrido sem intercorrências, com durac¸ãode1 hora,sobsedac¸ãoleve.EnviadoàRPA.Evoluiu com controleálgico adequado e sem déficitsneurológicos evidenciadosem1◦ pós-operatório.
Caso6
LHO, feminino, 73 anos, ASA 4 por insuficiência renal crônicadialítica,coronariopatia,insuficiênciacardíaca, dia-betes mellitus e hipertensão arterial sistêmica. Evoluiu comtrombosedefístulaarteriovenosaemmembrosuperior esquerdo.Trazidoaocentrocirúrgicopara tromboembolec-tomiaàFogarty.VinhaemusodeHeparinanãofracionada em bomba de infusão contínua, AAS 100 mg/dia, Sos-sorbida monocordil R 20 mg 8/8h, Atenolol 50 mg/dia, Hidralazina50 mg12/12heInsulinaregular.
Programac¸ãocirúrgica
Tromboembolectomia à Fogarty em fístula arteriovenosa braquiocefálicaesquerda.
Técnicaanestésicaproposta
Bloqueiodeplexobraquialguiadoporultrassom.
Feitobloqueio deplexobraquial guiadoporultrassom, abordagem axilar, com 15 mL de Ropivacaína 0,5%. Pro-cedimentocirúrgico sem intercorrências,com durac¸ão de 2 horas e 10 minutos, sob sedac¸ão leve. Enviado à RPA. Evoluiucomcontroleálgico adequado,semdéficits neuro-lógicosouhematomasevidenciadosem 1◦ pós-operatório. Pacientetevealtahospitalarem3◦ pós-operatório.
Caso7
Pacientemasculino,71anos,ASA3porhipertensãoarterial sistêmica,diabetesmellitustipo 2,insuficiência cardíaca congestivadeetiologiaisquêmica(3 infartosagudosdo mio-cárdioprévios,submetidoarevascularizac¸ãodomiocárdio em2010;nomomentodoprocedimentosemangina, disp-neia,ortopneia), dislipidemiae tabagista180 anos-mac¸o. EmusodeClopidogrel75 mg/dia,comINR 1,57; radiogra-fiadetóraxevidencioucongestãobilateral,comvelamento deseiocostofrênicoàdireita,ecardiomegaliaacentuada.
Programac¸ãocirúrgica
Amputac¸ãotranstibialdireita.
Técnicaanestésicaproposta
BloqueiosfemoraleciáticoguiadoporUS
Feito bloqueio femoral, nível inguinal, com 10 mL de Ropivacaína 0,5% e 10 mL de Lidocaína 1,5% sem vaso-constritor associadas ao bloqueio do nervo ciático com abordagem poplítea, com 10 mL de Ropivacaína 0,5% e 10 mLdeLidocaína1,5%semvasoconstritor.
Procedimento transcorrido sem intercorrências, sob sedac¸ão leve com durac¸ão de 1 hora e 15 minutos. Ao término do procedimento, paciente foi enviado à sala de recuperac¸ão anestésica. Nas primeiras 24 horas do pós-operatório não foram evidenciados sangramentos, hematomasounovosdéficits neurológicos.Paciente apre-sentoucontrole álgico aprimoradonas primeiras10 horas apósoprocedimento.
Caso8
Paciente, masculino, 65 anos, ASA 4 por doenc¸a pul-monar obstrutiva crônica exacerbada, insuficiência renal crônica em hemodiálise, doenc¸a arterial periférica de membrosinferiores,dislipidemia,hipertensão arterial sis-têmica, tabagismo 50 anos-mac¸o e etilismo. Em uso de AAS 100 mg/dia; Clopidogrel 75 mg/dia; Capto-pril 75 mg/dia; Propranolol 80 mg/dia e Omepra-zol 20 mg/dia. Exames pré-operatórios: hemoglobina= 7,9g/dL;hematócrito=22,6%;leucócitos=13.100/L; pla-quetas=263.000/L;atividadedeprotrombina=30%;razão normalizadainternacional=3,39;tempodetromboplastina ativado=172,4segundoscomrelac¸ãonormatizadade 6,63; creatinina=6,30 mg/d; ureia=71 mg/dL. Internado em enfermariaparatratamentodeexacerbac¸ãodeDPOC, evo-luicomqueixadedorempernaepéesquerdo.Aavaliac¸ão dopéesquerdopelacirurgiavascularevidencioupresenc¸a denecrose em 1◦, 2◦, 3◦ e 4◦ pododáctilos e ferida com sinaisinfecciososnaregiãoanterior,indicou-seamputac¸ão emcaráterdeurgência.
Programac¸ãocirúrgica
Propostaanestésica
BloqueiosfemoraleciáticoguiadoporUSeestimuladorde nervoperiférico.
Feito bloqueio femoral, nível inguinal, com 20 mL de Bupivacaína 0,375% com vasoconstritor associado ao blo-queiodonervociáticocomabordagemposteriorinfraglútea com20mLdeLidocaína1,5%semvasoconstritor.
Oprocedimentocirúrgicofoifeitosemintercorrências, comdurac¸ãode1horae45 minutos.EnviadoàRPA.No pós--operatório,aperfusãodomembrofoiavaliadapormeiode Dopplereoexamefísiconeurológicofoifeitoparaverificar arespostamotoranoterritóriodosnervosfemorale isquiá-tico,ambosdentrodanormalidade.Aoexamefísico,nãose observoudesenvolvimentodehematomanolocaldapunc¸ão. Opacientepermaneceu semqueixas álgicasnasprimeiras 10 horasapósobloqueio.
Caso9
Paciente masculino, 71 anos, ASA 3 por insuficiên-cia cardíaca congestiva de etiologia isquêmica (infarto agudo do miocárdio de porc¸ão septal e parede infe-rior havia 2 anos), fibrilac¸ão atrial, doenc¸a arterial crônica de membros inferiores, hipertensão arterial sis-têmica, ex-tabagista, ex-etilista, em uso de AAS 100 mg/dia; Varfarina 5 mg/dia; Captopril 150 mg/dia; Car-vedilol50 mg/dia;Furosemida80 mg/dia;Sinvastatina20 mg/dia. Exames pré-operatórios: hemoglobina=9,4g/dL; hematócrito=27,8%;plaquetas=335.000 /L;atividadede protrombina=10%;razão normalizadainternacional=5,84; tempodetromboplastinaativado=84segundos;ureia=120 mg/dL;creatinina=2,17 mg/dL.Pacienteélevadoao cen-trocirúrgicoparalimpezacirúrgicadepioatritedejoelhoD emcaráterdeurgência.
Programac¸ãocirúrgica
LimpezacirúrgicadejoelhoD.
Técnicaanestésicaproposta
Bloqueiodenervosfemoraleciáticoguiadoporultrassom. Feitobloqueiodenervofemoral,nívelinguinal, guiado porultrassomeestimuladordenervoperiférico,com20mL Bupivacaína 0,375% sem vasoconstritor associado ao blo-queio ciático infraglúteo guiado por US e estimulador de nervoperiférico com 20 mL deLidocaína 1,5% sem vaso-constritor.
O procedimento cirúrgico foi feito sem intercor-rências, com durac¸ão de 1 hora e 30 minutos. No pós-operatório, o paciente não apresentou hematoma no localdapunc¸ãoeoexamenãoevidencioualterac¸ãomotora ousensitivanoterritóriodosnervosfemoraleisquiático.O pacientepermaneceusemqueixasálgicasnasprimeiras12 horasapósobloqueio.
Não foram evidenciados complicac¸ões neurovasculares nos9 casosreportados.Ospacientesforamacompanhados nasprimeiras24 horasapósoprocedimentocirúrgicoenão foi constatado déficit neurológico novo ou hematoma em localdepunc¸ão.Todososprocedimentosforamguiadospor
ultrassom,emquatrodelesoestimuladordenervotambém foiusado.
Discussão
Com osavanc¸osdamedicina,introduc¸ão denovos fárma-cos e tecnologias,a expectativadevidatemapresentado aumentos significativos nas últimas décadas. Com esse avanc¸o,temseobservadoumamaiorprevalênciadedoenc¸as doaparelhocardiovascular.Assim, érotineirodepararmos compacientesemusodemedicac¸õesanticoagulantese/ou antiagregantesquevêmaocentrocirúrgicoparacirurgiasde urgência/emergência.Sabemosqueainterrupc¸ãode fárma-cosantiagregantes,comooclopidogreleaaspirina,nãoé isentadecomplicac¸ões.Estudosapontamqueainterrupc¸ão daaspirina(AAS)aumentaaincidênciadeeventos trombó-ticosem3,4%.13
Enquantoohematomaespinhaléacomplicac¸ão hemor-rágica mais grave da anestesia regional devido ao efeito catastróficodosangramento docanalmedularnão expan-sível e nãocompressível,o risco associado àstécnicasde bloqueiosdeplexosedenervosperiféricosaindanãoestá bemdefinido.Afrequênciaeaseveridadedascomplicac¸ões hemorrágicas após bloqueio de plexoe nervos periféricos foram pouco estudadas. Entretanto, alguns relatos de complicac¸ões sérias após cateterismo vascular para pro-cedimentos cirúrgicos, radiológicos ou cardíacosjá foram descritosnaliteraturaepodemajudaraestimaroriscode algunsdosbloqueiosperiféricosnessetipodepaciente.14
Por exemplo, em uma série de 4.879 pacientes que foramsubmetidosàcateterizac¸ãocardíacaouangioplastia coronariana, em cujos procedimentos os pacientes são anticoagulados, a frequência de complicac¸ão vascular foi de0,39%.Otamanhodocatetereograudeanticoagulac¸ão influenciaram na frequência das complicac¸ões.15
Entre-tanto, nenhuma complicac¸ão neurológica ocorreu como resultado da complicac¸ão vascular. O maior estudo que avaliou o risco de complicac¸ões hemorrágicas associado a bloqueio de nervo periférico incluiu 670 pacientes que foram submetidos ao bloqueio contínuo do plexo lombar. Nesse estudo, os pacientes, submetidos à artroplastia de quadril, eram anticoaguladoscom warfarine tinham seus cateteres de plexo lombar removidos no segundo dia de pós-operatório. No momento da remoc¸ão do cateter, o valordoINReramedido.Dos670 casos,36%apresentavam umINR>1,4 nomomentodaretiradadocateter. Somente um caso de sangramento foi verificado em um paciente com INR>3,0 e o tratamento foi feito com compressão local.16 Apenas 26 casos de complicac¸ões hemorrágicas
Tabela2 Sociedadesdeanestesiologiaerecomendac¸õesquantoaosbloqueiosperiféricosnavigênciadeanticoagulantes
ASRA2010 Osriscosapósbloqueiosdenervosperiféricospermanecemporesclarecer.Deforma
conservadoraaplicamrecomendac¸õesdaanestesiadoneuroeixoemdoenteshipocoagulados àanestesiadeplexosoutécnicasnervosasperiféricas.
ESRA2010 Osriscosapósbloqueiosdenervosperiféricospermanecemporesclarecer.Deforma
conservadoraaplicamrecomendac¸õesdaanestesiadoneuroeixoemdoenteshipocoagulados àanestesiadeplexosoutécnicasnervosasperiféricas.
Alemanha2005 Bloqueiodeplexolombardeveseguirasmesmasrecomendac¸õesdosbloqueiosdeneuroeixo.
Semprequepossível,osintervalosdetempoparaainserc¸ãodevemseguirasrecomendac¸ões dosbloqueiosdeneuroeixo.
Nãocontraindicamaexecuc¸ãodebloqueiosperiféricossuperficiais(picadaúnica)---axilar, femoraleciáticodistalemdoentesmedicadoscomAASeanticoagulantes.
Áustria2005 Bloqueiosprofundos(feitosemlocaisdedifícilcompressão),comoobloqueiointerescalênico,
supra,infraclavicularedeplexolombar,deverãoseguirasmesmasrecomendac¸ões dosbloqueiosdeneuroeixo.
relatadassurgiramprincipalmenteem casosemqueforam executadosbloqueiosprofundoscomoodoplexolombarou usadoscateteresparabloqueiocontínuo.17---20Dessaforma,
talvezamelhormaneiradeavaliarosriscosdeumbloqueio periférico seja individualizar cada via, uma vez que os bloqueios periféricosvariam comrelac¸ão àprofundidade, expansibilidadeepossibilidadedecompressãolocal.
Algumas sociedades, como a Sociedade Austríaca e a AlemãdeAnestesiologia,diferenciamexplicitamenteos blo-queiosem periféricossuperficiais, periféricosprofundose deneuroeixo.Dosprimeiros,o axilar,o femorale o poplí-teodistal podemserfeitos na vigência deanticoagulac¸ão (tabela2).21
Além disso, outro fator que deve ser considerado em bloqueiosperiféricosem pacientesanticoaguladoséo uso doultrassom.Metanálisesquecompararambloqueios peri-féricos guiados por ultrassom com as técnicas clássicas (parestesia e neuroestimulac¸ão) demonstraram a menor incidência de punc¸ão vascular nos casosque foramfeitos comoauxíliodoultrassom.8
Com isso,em nossainstituic¸ão,estabeleceu-seum pro-tocolo no qual se consideram bloqueios periféricos em pacientesanticoaguladosnasseguintessituac¸ões:
Bloqueio superficial e de fácil compressão local --- por exemplo:axilar,interescalênico,femoral,safeno,poplíteo. Osbloqueiosdevemserguiadosporultrassome devem ser feitos por anestesista com vasta experiência em blo-queiosguiados.
Portanto,levando-se em considerac¸ão osbenefícios da ultrassonografiaem guiar a punc¸ãode nervos periféricos, bemcomoalgumascaracterísticasdealgumasviasparaos bloqueios,comoaprofundidade eapossibilidadede com-pressão,algunsbloqueiosperiféricospodemvirasetornar umaopc¸ãoseguraem pacientescomdiscrasiassanguíneas primáriasousecundárias.Entretanto,maioressériesdevem serfeitasparacomprovaraseguranc¸adatécnicaparaesses pacientes.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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