REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologia www.sba.com.brARTIGO
CIENTÍFICO
Efeitos
da
administrac
¸ão
intracerebroventricular
de
rocurônio
sobre
o
sistema
nervoso
central
de
ratos
e
determinac
¸ão
da
dose
indutora
de
crise
epiléptica
Mehmet
Baykal
a,
Necati
Gökmen
a,
Alper
Do˘
gan
a,
Serhat
Erbayraktar
b,
Osman
Yılmaz
c,
Elvan
Ocmen
a,
Hale
Aksu
Erdost
a,∗e
Atalay
Arkan
aaDokuzEylulUniversity,DepartmentofAnesthesiology,Izmir,Turquia bDokuzEylulUniversity,DepartmentofNeurosurgery,Izmir,Turquia
cDokuzEylulUniversity,DepartmentofAnimalResearchCenter,Izmir,Turquia
Recebidoem12dedezembrode2014;aceitoem23defevereirode2015 DisponívelnaInternetem15denovembrode2016
PALAVRAS-CHAVE Rocurônio;
Convulsão; Sistemanervoso central; Rato
Resumo
Justificativa: Oobjetivodesteestudofoiinvestigarosefeitosdobrometoderocurônio
admi-nistradointracerebroventricularmentesobreosistemanervosocentral,determinaradosedo limiarconvulsivoderocurônioemratoseinvestigarosefeitosderocurônionosistemanervoso centralemdiluic¸õesde1/5,1/10e1/100dadosedolimiarconvulsivodeterminada.
Métodos: Umacânulapermanentefoicolocadanoventrículolateraldocérebrodosanimais.
Oestudofoiprojetadoem duasfases.Naprimeira,adosedolimiarconvulsivodobrometo derocurôniofoideterminada.Nasegunda,oGrupoR1/5(n=6),oGrupo1/10(n=6)eGrupo 1/100(n=6)foramformadoscomdosesde1/5,1/10e1/100,respectivamente,dadosedo limiarconvulsivodebrometoderocurônioobtida.
Resultados: Descobrimos que o valor do limiar convulsivo de brometo de rocurônio é
0,056±0,009moL. Olimiar convulsivo, como uma func¸ão dopeso corporal dos ratos, foi
calculadocomo0,286moL/kg−1.Umadosede1/5dadosedolimiarconvulsivocausou
princi-palmenteaberturaposturaldosmembrosetremoresemtodoocorpo,enquantoumadosede 1/10dadosedolimiarconvulsivocausouagitac¸ãoetremores.Umadosede1/100dadosedo limiarconvulsivofoiassociadaàdiminuic¸ãodaatividadelocomotora.
Conclusões: Esteestudomostrouqueobrometoderocurôniotemefeitosdeletérios
relaciona-doscomadosesobreosistemanervosocentralepodeproduzirefeitosexcitatóriosdependentes dadoseeconvulsões.
PublicadoporElsevierEditoraLtda.emnomedeSociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Este ´
eumartigoOpenAccesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](H.A.Erdost). http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.10.010
KEYWORDS Rocuronium; Seizure; Centralnervous system; Rat
Theeffectsofintra-cerebroventricularadministeredrocuroniumonthecentral nervoussystemofratsanddeterminationofitsepilepticseizure-inducingdose
Abstract
Background: The aim of this study was to investigate the effects of
intracerebroventricu-larlyadministeredrocuroniumbromideonthecentralnervoussystem,determinetheseizure thresholddoseofrocuroniumbromideinrats,andinvestigatetheeffectsofrocuroniumonthe centralnervoussystemat1/5,1/10,and1/100dilutionsofthedeterminedseizurethreshold dose.
Methods:Apermanentcannulawasplacedinthelateralcerebralventricleoftheanimals.The
studywasdesignedintwophases.Inthefirstphase,theseizurethresholddoseofrocuronium bromidewasdetermined.Inthesecondphase,GroupR1/5(n=6),Group1/10(n=6),andGroup 1/100(n=6)wereformedusingdosesof1/5,1/10,and1/100,respectively,oftheobtained rocuroniumbromideseizurethresholddose.
Results:Therocuroniumbromideseizurethresholdvaluewasfoundtobe0.056±0.009moL.
The seizure threshold, as a function of the body weight of rats, was calculated as 0.286moL/kg−1.Adoseof1/5oftheseizurethresholddoseprimarilycausedsplayedlimbs,
posturing,andtremorsoftheentirebody,whereasthedoseof1/10oftheseizurethresholddose causedagitationandshivering.Adoseof1/100oftheseizurethresholddosewasassociated withdecreasedlocomotoractivity.
Conclusions:Thisstudyshowedthatrocuroniumbromidehasdose-relateddeleteriouseffects
onthecentralnervoussystemandcanproducedose-dependentexcitatoryeffectsandseizures. PublishedbyElsevierEditoraLtda.onbehalfofSociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Thisis anopenaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense(http://creativecommons.org/licenses/ by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
Nos casos em que agentes bloqueadores neuromusculares
foram administrados acidentalmente no líquido
cefalor-raquidiano (LCR),1 miotonia, alterac¸ões autonômicas e
convulsõesocorreram.2Aadministrac¸ãoportempo
prolon-gadode rocurônio a pacientesem estadocrítico resultou
na entrada do medicamento no LCR.3 Em pacientes cuja
func¸ão da barreira hematoencefálica esteja prejudicada
essas moléculas também podem chegar ao LCR. Tassonyi
etal.4relataramquecomoalgunsagentesneuromusculares,
comooatracúrioeseumetabólito(laudanosina)presenteno
LCR,ovecurônionãopodeserdetectadonoLCRna
hemor-ragiasubaracnoide e que o atracúriopermaneceu no LCR
por várias horas após o fim da infusão. Embora seja um
medicamentoionizadonãodespolarizantecomlipofilicidade
relativamentebaixa,sabe-se querocurônio podepermear
noLCRapósinjec¸ãointravenosa.5Aadministrac¸ão
aciden-talderocurônionosistemanervosocentral(SNC)durante
anestesiaregionalfoirelatada.6Hápoucosdadossobreos
efeitosdessesmedicamentossobreoSNC.
O objetivo deste estudo foi investigar os efeitos da
administrac¸ãointracerebroventricularderocurôniosobreo
SNC,determinar a dose dolimiar convulsivo derocurônio
emratoseinvestigarosefeitosderocurôniosobreoSNCem
diluic¸õesde1/5,1/10e1/100dadosedolimiarconvulsivo
determinada.
Métodos
OprotocolodoestudofoiaprovadopeloComitêdeÉticaem
PesquisacomAnimaisdaUniversidadeDokuzEylul. Foram
usados36ratosalbinosdalinhagemWistar,criadosno
Labo-ratório de Pesquisa Experimental da Universidade Dokuz
Eylul.Osratospesavamentre180-260geeram87%
homo-gêneos, estavam entre 18-24 meses e exibiam atividade
normal. Osanimais forammantidos em condic¸ões
labora-toriais padrão (12h/12h de claro/escuro em temperatura
ambiente a 20-22◦C) por umasemana antes doinício das
experiências para se adaptar ao ambiente. Tiveram livre
acessoàáguaerac¸ãoeoestudofoifeitoemambientecom
ruídoatenuadoenamesmahora(h)acadadia.
Cirurgia
A anestesia foi induzida via injec¸ão intraperitoneal de
50mg.kg−1 de tiopental sódico (Pental® Sodyum I.E.
Ulu-gay Ilac¸ San. TAS, Istambul, Turquia), mantiveram-se a
respirac¸ãoespontâneaeoreflexociliar.Osratosforam
posi-cionadosemdecúbitoventraleumaáreade4×2cmentre
asorelhasqueseestendiaemdirec¸ãoaonarizfoiraspada.
Aassepsiadaáreafoifeitacomiodopovidona;1mLde
lido-caína a1% estéril(Aritmal® 2%amp,Biosel Ilac¸Sanayi ve
Ticaret A.S, Istambul, Turquia) foi infiltrado sob o couro
cabeludoeumaincisão cirúrgicanalinhamédiafoifeita.
Acabec¸adoanimalfoicolocadaemumaparelho
estereotá-xico, onde ficou firmeem posic¸ãoflexionada parafrente.
A pele foi refletida lateralmente e o crânio exposto foi
delicadamente dissecado (estilete rombo) com o bregma
exposto.Umafendade2mmparaainjec¸ãodebrometode
rocurôniointracerebroventricularmente(ICV)foiabertanas
coordenadasestereotáxicas,determinadasdeacordocomo
atlasdePaxinoseWatson,7paraacessaroventrículolateral.
Umacânulaparaaexecuc¸ãodosprocedimentos
umestileteadequado(C311/DC,PlasticsOneInc.,VA,EUA)
paraimpediraentradadetecidoe/oucorposestranhosna
cânula foramcolocados.Acolocac¸ãodacânula no
ventrí-culolateralfoiconfirmadapeladrenagemdoLCRatravésda
cânula.Asbordasdaincisãoforamaproximadas,suturadas
comfiodeseda2.0elimpascomiodopovidonaa10%.Esses
procedimentosforamfeitossobcondic¸õesestéreis.Foram
estabelecidas48horasparaoretornodasatividades
habi-tuaisdosratosapósaintervenc¸ão.Oobjetivodacolocac¸ão
deumacânulapermanentefoipermitiraadministrac¸ãodo
fármacoICVenquantoosratosestavamacordadosemóveis.
Preparac¸ãodomedicamento
Umasoluc¸ãoconcentradacom 0,016moLde brometode
rocurônio(Esmeron®,OrganonCorp,Oss,Holanda)em10
L
foi usada para determinar a dose do limiar convulsivo do
brometoderocurônio.
Após a determinac¸ão da dose do limiar convulsivo de
rocurônio, asdiluic¸ões de1/5, 1/10 e 1/100Lem 10L
desoluc¸ãodelactatode Ringerforampreparadas(Ringer
lactato,BioselIlacSan.TAS,Istambul,Turquia).
Os valoresde pH dobrometo derocurônio, lactato de
Ringer e das soluc¸ões de brometo de rocurônio-lactato
de Ringer a 23◦C foram medidos com ummedidor depH
(InoLab® 720, WTWWissenschaftlich-Technische
Werkstät-tenGmbH,Munique,Alemanha).
Protocoloexperimental
Determinac¸ãodadosedolimiarconvulsivodobrometode rocurônio(estudopiloto):paradeterminaradosedolimiar
convulsivodobrometoderocurônio,12ratosforamalocados
emdoisgrupos:
Gruporocurônio(n=6):paradeterminaradosedolimiar
convulsivo,umadaptadordepolietilenorevestidodevinil
foi anexado à cânula ICV e uma microsseringa Hamilton
foi anexada a esse adaptador (Hamilton® 710SNR 100
L
SyringeHamilton710seriessyringe,NV,EUA).Brometode
rocurônio (0,016moL×10L---1, 0,08moL no total) foi
injetadoatravésdaseringadeHamiltonemdosesdivididas
de5L.Cadadosefoiadministradaconsecutivamentepor
60segundos (s)---tempodurante oqualosefeitos dadose
sobre os ratos foram observados. A dose total necessária
parainduzirumaconvulsãotônico-clônicafoiregistrada.
Grupocontrole(n=6):50Ldasoluc¸ãodelactatode
Rin-ger,divididosemdosesde5L,foramadministradosICVvia
cânula,comoexplicadoacima.Osratosquenão
apresenta-ramconvulsãoforamsacrificadosapós6hdeobservac¸ão.
Gruposparaestudodedose-resposta(estudo
experimen-tal):apósadeterminac¸ãodadose dolimiar convulsivodo
brometoderocurônio,osratosforamaleatoriamente
distri-buídosemquatrogruposparaestudodedose-resposta.
Grupo1(GrupoC)(n=6):dezmicrolitrosdeumamistura
desoluc¸ãodelactatodeRingereácidoacéticocompH
idên-ticoaodasoluc¸ãoderocurônioqueinduziuconvulsãoforam
administradoscomaseringadeHamiltondurante60s.
Grupo 2 (Grupo R 1/5) (n=6): com o mesmo método
usadoparaoGrupoC,1/5dadoseconvulsivaderocurônio
foiadicionadoàsoluc¸ãodelactatodeRingerparaobterum
volumetotalde10Ldasoluc¸ãoeadministrá-loaosratos.
Grupo 3(Grupo R 1/10) (n=6):com o mesmo método
usadoparaoGrupoC,1/10dadoseconvulsivaderocurônio
foiadicionadoàsoluc¸ãodelactatodeRingerparaobterum
volumetotalde10Ldasoluc¸ãoeadministrá-loaosratos.
Grupo4(GrupoR1/100)(n=6):comomesmométodo
usadoparaoGrupoC,1/100dadoseconvulsivaderocurônio
foiadicionadoàsoluc¸ãodelactatodeRingerparaobterum
volumetotalde10Ldasoluc¸ãoeadministrá-loaosratos.
Avaliac¸ãodosefeitosdobrometoderocurônio intracere-broventricularmente:umaescaladecincopontosfoiusada
paraavaliarosefeitossobreoSNCdobrometoderocurônio
administradoporviaintracerebroventricular.8
0=semefeitosobserváveis
1=atividadelocomotorareduzidae/oupiloerec¸ão
2=agitac¸ãooutremor
3=tremoremtodoocorpo,posturaoumembros
espalma-dos
4=convulsõesouataques
Términodoestudo
Osanimaisque apresentaram convulsões foram
imediata-mentemortos cominjec¸ão intraperitonealde 120mg.kg---1
detiopentalsódico.Osanimaisquenãoapresentaram
con-vulsõesforamobservadospor6hemortoscom120mg.kg---1
detiopental sódicopor via intraperitoneal ao término do
estudo.
Post-mortem,oventrículocerebraldetodososanimais
foiinjetadocom50Ldeazuldemetilenoatravésdacânula
permanenteeocérebrofoibisseccionadoaolongodafenda
longitudinal para verificar se o corante estava
uniforme-mentedistribuídonointeriordoventrículo.
Análiseestatística
Asanálisesestatísticas foramfeitascom oprograma
esta-tístico SPSS para Windows v. 11.0. Os resultados são
expressosem média±desvio padrão. O teste de
Kruskal--Wallis,seguido doteste UdeMann-Whitney e dos testes
exatosdeFisher,foiusadoparacomparac¸õesintergrupo.As
comparac¸õesintragrupoforamfeitascomostestesde
Fried-maneWilcoxonep<0,05foiconsideradoestatisticamente
significativo.
Resultados
Determinac¸ãodolimiardeconvulsão(estudo piloto)
Osratosdogrupocontrole,quereceberam50Ldelactato
deRinger(pH=5,2)nosventrículoslateraisdocérebro,não
apresentaramquaisqueralterac¸õescomportamentais.
Nogrupo rocurônio,o limiarconvulsivo dobrometode
rocurônioICV(pH=3,6)foide0,056±0,009moL.Ovolume
necessárioparainduzirumaconvulsãofoide35,0±5,48L.
Olimiarconvulsivo,comoumafunc¸ãodopesocorporaldos
Tabela1 Dosesevolumesdebrometoderocurônio
Peso(g) Dose(moL) Dose(moL.kg−1) Volume(L)
201 0,064 0,326 40
198 0,064 0,331 40
212 0,064 0,308 40
206 0,048 0,239 30
198 0,048 0,248 30
184 0,048 0,267 30
Olimiarconvulsivo,comoumafunc¸ãodopesocorporaldosratos, foicalculadoem0,286moL.kg−1.
Tabela 2 Efeitos de rocurônio no SNCa 1/5da dosedo limiarconvulsivo
Peso(g) EfeitoSNC Escore
189 Convulsão 4
266 Postura/extremidades 3
232 Postura/extremidades 3
238 Postura/extremidades 3
199 Postura/extremidades 3
184 Convulsão 4
Tabela3 EfeitosnoSNCde rocurônioa1/10dadosedo limiarconvulsivo
Peso(g) EfeitoSNC Escore
194 Tremor 2
180 Postura/extremidades 2
182 Postura/extremidades 2
217 Agitac¸ão 3
187 Agitac¸ão 3
189 Tremor 2
Tabela4 EfeitosderocurônionoSNCa1/100dadosedo limiarconvulsivo
Peso(g) EfeitoSNC Escore
218 Reduc¸ãodaatividadelocomotora 2 196 Reduc¸ãodaatividadelocomotora 1 192 Reduc¸ãodaatividadelocomotora 3 202 Reduc¸ãodaatividadelocomotora 1
186 Tremor 2
191 Reduc¸ãodaatividadelocomotora 1
Avaliac¸ãodosresultadosdoestudode dose-resposta(estudoexperimental)
OsvaloresdepHdoGrupoC,GrupoR1/5,GrupoR1/10e GrupoR1/100foramdeterminadosem3,6;3,9;4,1e4,8; respectivamente.
Nesteestudo,verificamosque1/5dadosedolimiar con-vulsivogeralmente causoumembros (postura) espalmados e tremores no corpo inteiro, enquanto 1/10da dose do limiarconvulsivocausouagitac¸ãoetremores(tabelas2e3).
Um centésimo dadose do limiar convulsivo foi associado
à reduc¸ão da atividade locomotora (tabela 4). Os
efei-tosobservadoscomessasdosesmelhoraramgradualmente
duranteumahorae,emseguida,forammantidoscomo
ati-vidadelocomotora reduzida.Osanimaisforamobservados
por 6h --- tempo durante o quala alimentac¸ão e os
com-portamentosmotoresficaramcomparáveiscomaquelesdo
grupocontrole.
Discussão
Nesteestudo,descobrimosqueaadministrac¸ãoderocurônio
nosistemanervosocentralderatosatravésdosventrículos
cerebraiscausou convulsõesquando osratos nãoestavam
sobanestesiaequeadosedolimiarconvulsivoderocurônio
foide0,286moL.kg−1.Determinamosduranteoestudode
dose-respostaque1/5 e1/10dadose dolimiar convulsivo
de rocurônio produziram respostas excitatórias, enquanto
1/100dadoseresultouemreduc¸ãodaatividadelocomotora.
Noestudopiloto,alterac¸õescomportamentaisnãoforam
observadasnosratosquandoadministramos100Lde
lac-tatodeRingera5L.min---1.Administramosummáximode
40Lenquantodeterminávamosadosedolimiarconvulsivo.
Não formulamos a hipótese de que o volumedo
medica-mentoseriaresponsávelpelasalterac¸õesnoSNCobservadas
nosratos.Nesteestudo,determinamosqueopH do
medi-camentoadministradoICVviacânulanãofoiumfatorque
contribuiuparaainduc¸ãodeconvulsões,poisareduc¸ãoda
atividadelocomotorafoiobservadaapenasnoGrupo1.
Em estudo similar,Szenohradszky et al. administraram
atracúrio, pancurônio e vecurônio no SNC e observaram
os efeitos colaterais, identificaram os potenciais
convul-sivos de atracúrio>pancurônio>vecurônio (0,12; 0,26 e
0,46moL.kg−1,respectivamente).8Nopresenteestudo,a
potênciaderocurônionecessáriaparaprovocarconvulsões
foiidentificadacomopróximaàqueladepancurônio.
Noscasosemqueagentesbloqueadoresneuromusculares
foramadministradosacidentalmentenoLCR,1adifusãode
rocurônionotecidoneuronalapartirdolíquido
cefalorra-quidianoéprovavelmenteumafunc¸ãodopesomolecular,da
solubilidadelipídicaedotempo.9Combaseemsuas
propri-edadesfísicas,éprovávelquerocurôniopermanec¸anoLCR
apósa injec¸ão,apenetrac¸ãorápidanostecidos neuronais
éimprovável.9AssubstânciasfarmacológicasnoLCRpodem
ser redistribuídas para a circulac¸ão periférica pelo
trans-porte através dabarreira hematoencefálica. Uma infusão
ICVpode,emalgunscasos,imitarumainfusãointravenosa
lenta.10Nãoobservamostalincidênciaemqualquerfasedo
estudo,oquepodeterocorridoporqueadosederocurônio
que entrounacirculac¸ãosistêmicanãofoisuficiente para
atingir a concentrac¸ão necessária para alcanc¸ar a junc¸ão
neuromuscularecausarrelaxamentomuscular.
Os medicamentos administrados ICV podem exercer
efeitos mediados pelo receptor na ou perto da
inter-face cérebro-líquido cefalorraquidiano. Rocurônio é um
composto de amônio quaternário. A carga positiva dessa
moléculaimitaoátomodenitrogênio quaternáriode
ace-tilcolina(ACh).Esse átomoéoprincipalcontribuintepara
os efeitos derocurônio sobre o nAChrneuronal.11 Nãohá
dadossuficientessobreacinéticadadistribuic¸ãode
relaxan-tesmuscularesnoLCRquandoadministradosnosventrículos
cerebrais8,12 e não sabemos em que parte do cérebro os
receptoresdeacetilcolinamedeiamosefeitosinibitóriose
Tal comoacontece emtodos osrelaxantesmusculares,
olocaldeac¸ãoderocurônioéoreceptorpós-sinápticode
ACh na junc¸ão neuromuscular. Em um estudo
experimen-tal, Jonsson etal.13 demonstraramque rocurônio inibiuo
nAChrmusculareneuronal.OnAChrneuronalé
irreversivel-menteinibidoporrocurôniononívelmicromolar,demodo
dependenteda concentrac¸ão. Essesachados sugeremque
rocurônioexerceefeitosinibidoresapenassobreos
recep-tores de acetilcolina na junc¸ão neuromuscular, enquanto
exerceefeitosinibitórioseexcitatóriossobreosreceptores
nicotínicosdeAChnoSNC.
Fuchs-Buderetal.6 eTassonyietal.14 relataramqueos
agentesbloqueadoresneuromuscularespodemafetaroSNC,
talcomoevidenciadopelainduc¸ãodeapneia.
Shaoetal.15 demonstraramqueosistemanervoso
coli-nérgicoéimportantenaregulac¸ãodospadrõesrespiratórios
e a inibic¸ão do nAChr pode causar depressão central da
respirac¸ão. Em nosso estudo, não observamos sinal de
depressãodarespirac¸ãoouapneia.
As alterac¸ões comportamentais nos ratos,
manifesta-das como reduc¸ão da atividade locomotora após 1h, e a
recuperac¸ão dosmovimentosecomportamentos
alimenta-resnormaisapós6hforamatribuídasàrápidadepurac¸ãodo
LCR,que,emratos,é de2,83L.min−1.16 Comoovolume
deLCRemratoséde500L,otempodedepurac¸ãototaldo
LCRéde176minutos(min).4,8Meulemansetal.17relataram
que45% doLCRdeumratode 290gforamdepuradosem
1h,oqueestádeacordocomosnossosachados.
Osmecanismosexatosdeac¸ãodosrelaxantesmusculares
sobreoSNCnãoforamestabelecidos.Esteestudomostrou
querocurônioéeficaznoSNCetemefeitosdeletérios
rela-cionados à dose. Com base nos resultados deste estudo,
nãoépossívelestabelecerumarelac¸ãoentreosefeitosde
rocurônio em humanos e ratos. A quantidade acumulada
de rocurônio noLCR depacientes que receberaminfusão
prolongadaderocurônioédesconhecida.
DevemosconsiderarqueefeitosnoSNCpodemser
obser-vadosserocurônioforinfundidoporperíodosprolongadose
noscasosemqueabarreirahematoencefálicaestiver
com-prometidaourocurônioforadministradoinadvertidamente
duranteumbloqueioregional.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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