DEUS NO
ANTIGO
TESTAMENTO
ERHARD S. GERSTENBERGERorganizador
Beus
Crédito: Mazinho Rodrigues.
Associação de Seminários Teológicos Evangélicos Presidente, Dr. David Mein, Yive-Presidente, Dr. Nelson Kirst, Secretário, Professor Josué Xavier, Tesoureiro, Dr. Dunean A. Reily, vogais, Bispo Dr. Sumio Takatsu, Professor Antônio G. Mendonça e Professor Wilson Guerrieiro. Secretário Geral, Dr. Jaci C. MaraschiD
Deus
no Antigo Testamento
Coletânea
organizada
A seleção dos artigos que compõem esta coletânea foi feita por uma comissão c!e especialistas na área do Antigo Testa mento, escolhida pelo Conselho Deliberativo da ASTE, cons tituída pelos professores doutores Gerhard Gerstenberger, Yoshikasu Takiya e James Loyd Moon. Os trabalhos de orga nização, supervisão das traduções e contatos com os editores originais estiveram aos cuidados do prof. dr. Gerhard Gerstenberger. O Secretário Geral da ASTE, dr. Jaci C. Maraschin responsabilizou-se pela editoração do texto final.
Capa de Jorge Salim
Todos os direitos reservados pela
Associação de Seminários Teológicos Evangélicos Rua Rego Freitas, 530, F-13, São Paulo, SP, Brasil
Deus Libertador, Gerhard Gerstenberger... 9 O Deus Paterno, Albrecht Alt ... 31 Javé e os deuses dos patriarcas,
Frank Moore Cross Jr... 73 Moisés e o monoteísmo, H. H. R o w le y ... 103 O nome de Deus no Antigo Testamento,
Siegfried Herrmann ... 133 El, Baal e Javé, Rolf R e n d to rff... 155 A concepção hebraica da realeza de Deus:
sua origem e seu desenvolvimento, John Gray 177 Malkut Yahweh (Reino de Javé), Victor Maag 201 Javé e os deuses na profecia veterotestamentária,
Hans Walter Wolf ... 227 Deus criador e Deus salvador na profecia de
Dêutero-Isaías, Ernst Haag ... Acusação e absolvição de Deus, Lothar Perlitt . 291 O conceito de Deus na Sabedoria mais antiga de
Israel, Horst Dietrich Preuss ... 313 A teologia do Cronista, Robert N o r th ... 345 A concepção de Deus no salmo 139,
Karl-Heinz B ernhardt... 367 Teologia e terapia em Jó, W. S. T a y lo r... 389 A realidade de Deus, Gerhard von R a d ... 407
A selegão dos artigos que compõem esta coletânea foi feita por uma comissão de especialistas na área do Antigo Testa mento, escolhida pelo Conselho Deliberativo da ASTE, cons tituída pelos professores doutores Gerhard Gerstenberger, Yoshikasu Takiya e James Loyd Moon. Os trabalhos de orga nização, supervisão das traduções e contatos com os editores originais estiveram aos cuidados do prof. dr. Gerhard Gerstenberger. O Secretário Geral da ASTE, dr. Jaci C. Maraschin responsabilizou-se pela editoração do texto final.
Capa ãe Jorge Salim
Todos os direitos reservados pela
Associação de Seminários Teológicos Evangélicos Rua Rego Freitas, 530, F-13, São Paulo, SP, Brasil
Deus Libertador, Gerhard Gerstenberger... 9 O Deus Paterno, Albreeht Alt ... 31 Javé e os deuses dos patriarcas,
Frank Moore Cross Jr... 73 Moisés e o monoteísmo, H. H. Rowley ... 103 O nome de Deus no Antigo Testamento,
Siegfried Herrmann ... 133 El, Baal e Javé, Rolf R e n d to rff... 155 A concepção hebraica da realeza de Deus:
sua origem e sen desenvolvimento, John Gray 177 Malkut Yahweh (Reino de Javé), Victor Maag 201 Javé e os deuses na profecia veterotestamentária,
Hans Walter Wolf ... 227 Deus criador e Deus salvador na profecia de
Dêutero-Isaías, Ernst Haag ... Acusação e absolvição de Deus, Lothar Perlitt . 291 O conceito de Deus na Sabedoria mais antiga de
Israel, Horst Dietrich Preuss ... 313 A teologia do Cronista, Robert N o r t h ... 345 A concepção de Deus no salmo 139,
Karl-Heinz B ernhardt... 367 Teologia e terapia em Jó, W. S. T a y lo r... 389 A realidade de Deus, Gerhard von R a d ... 407
INTRODUÇÃO
DEUS LIBERTADOR
Teologia e Sociedade no antigo Israel e hojeDeus sempre era e hoje é, mais do que nunca, “ questionável” . Isto quer dizer: hoje em dia devemos duvidar não somente da justiça de Deus, como o fez o Jo da Bíblia. Está em jogo até a própria existência e eficiência do Senhor. Por quê? A humanidade, em geral, vivência e segue outras divindades; não se quer comprometer com o Deus bíblico. As forças divinas entronizadas pelas elites do mundo são, por exemplo, a autonomia irrestrita do homem, consumo e progresso, egoísmo, racismo, nacionalismo, e vários outros bezer ros de ouro. A vivência atual dos homens no globo testemunha fortemente a, presença dessas forças pseudo ou antidivinas. O verdadeiro Deus libertador da Bíblia, no entanto, parece estar banido ou desaparecido.
Como se pode desenvolver uma situação dessas? Quando o homem descobriu, através da ciência moder
na, sen próprio poder, o Deus todo-poderoso da tradi ção perdeu a importância. As sociedades ocidentais, na euforia da conquista de continentes e mares, se com portam como jovens que se afastam radicalmente dos pais para testarem o próprio destino. Porém, acon tece na história recente da civilização, frustração cada vez maior da confiança no poder humano. Não se chega nem perto de um paraíso terrestre. Muito ao contrário. O homem, orgulhoso construtor do novo mundo, está reconhecendo os problemas insolúveis que ele mesmo crioii. De repente, se sente vazio e per plexo. Surgem incertezas atormentadoras e tensões violentas nos indivíduos bem como nos grupos huma nos. A humanidade autônoma está agonizando, assim criando as condições para o guicídio coletivo.
É nesta situação que se levanta de novo, e com urgência sem precedentes, a pergunta por Deus. Será que o AT nos pode ajudar a encontrarmos, na nossa época, o verdadeiro Deus ? Ou teríamos que admitir: o AT é antiquado, não tem mais mensagens vitais para nós? Será que os velhos conceitos de Deus foram ani quilados por Cristo? Estudantes de teologia, pastores, cristãos inteligentes devem enfrentar tais perguntas inquietantes, coisa que também faz parte do serviço dos cristãos à humanidade confusa.
Pensando nestas linhas chegamos ao ponto de de finir a finalidade de uma coletânea de artigos em torno da temática “ Deus no A T ” . Estão reunidos aqui apenas 15 ensaios dos últimos 50 anos da pesquisa ve- terotestamentária. Considerando as centenas de pes quisas relevantes, publicadas no decorrer deste meio século, parece um número muito reduzido. Não obs tante, esperamos que cada uma das contribuições esco lhidas traga um pouco de luz aos estágios históricos e às condições sociais de adoração a Javé no antigo Israel. Incluímos conscientemente obras de várias es colas teológicas, achando que, inclusive, a colisão de opiniões opostas seria imprescindível num empreen dimento deste tipo.
O que mais interessa aos editores, contudo, é a uti lização da pesquisa histórica, sobre as concepções anti gas de Deus, no contexto atual da América Latina.
Para colocar essa coletânea dentro deste quadro é necessário considerar, antes da leitura e durante a mesma, alguns itens teológicos e sociológicos. Quere mos esboçá-los em rápidas pinceladas.
1. Teologia, literalmente, significa saber a respeito de Deus e articulação deste conhecimento em palavras humanas. Logo, devemos destacar: cada afirmação teológica revela ao mesmo tempo algo da natureza hu mana. As frases e as obras teológicas são constituídas por Palavras e conceitos humanos. Não podemos igno rar, portanto, o elemento humano na teologia. Para avaliarmos qualquer palavra dentro da nossa experi ência cotidiana, precisamos conhecer o locutor. Pala vras avulsas, anônimas ou disfarçadas são bastante perigosas. Prova disso é a história da propaganda moderna. Concluímos: se é tão importante já na nossa vida diária saber quem fala e quais os verdadeiros interesses atrás das palavras, tanto maior deveria ser a nossa obrigação de identificar os autores de qual quer afirmação teológica.
O AT, por sua vez, salienta ainda mais essa ligação entre Deus e homem. Testemunha, de várias maneiras, o fato de que Detis mesmo estabeleceu tal relação íntima. Na criação, Deus constrói um ser hu mano conforme sua própria semelhança (Gn 1.26s; Sl 8.4ss). E toda a idéia da aliança culmina na asser ção: “ serei o vosso Deus, e vós sereis o meu povo”
(Lv 26,12; cf. Êx 6,7; 19,5s; Dt 7,6; 26,17s; Jr 7,23 etc). Os escritores do AT sabiam que Deus não per tencia a um universo vazio, mas sim, ao lado humano do mundo. Mais especificamente, ele pertencia ao povo eleito, Israel. Por isso, o AT fala muitas vezes em afeição, misericórdia, zelo de Javé para com seu povo.
Como podemos entender a inter-relação de Deus e homem afirmada no AT ? A linha atéia, da filosofia moderna (L. Peuerbach, K. Marx, P. Nietzsche, S. Preud, B. Russell etc.) e mais intensivamente ainda a vivência técnica ocidental reduzem o homem a si mesmo. Deus, conforme eles, torna-se mera projeção de emoções e ânsias humanas. Evidentemente, tal inter pretação da realidade contradiz a convicção funda mental da fé bíblica. Nem o homem nem o mundo
como um todo são redutíveis a si mesmos. 0 homem sempre tem que se transcender em direção a Deus, tem que procurar os fundamentos da sua existência fora de si mesmo. E, de fato, o faz inclusive dentro de sistemas ou ideologias materialistas.
Mas isso tudo não elimina a verdade de que o homem, enquanto vive e fala, permanece no seu es tado provisório e relativo. Os mais sublimes atos de se transcender, as mais nobres palavras teológicas, po dem, isto sim, indicar a realidade de Deus, mas em si mesmos não são idênticos ao absoluto. Qualquer teolo gia enraiza-se no seu lugar histórico, isto é, na sua relatividade e limitação. “ .. .agora vemos como em es pelho, obscuramente. . .” (ICo 13,12). Isto não signi fica cair num relativismo insondável. Significa, isto sim, que devemos avaliar cada teologia como um sinal na caminhada visando a um, alvo distante.
A conclusão para o AT deveria ser a seguinte: todas as afirmações teológicas do antigo Israel foram condicionadas por situações htimanas e culturais, das quais surgiram. Como povo nômade, antes da tomada da terra, Israel imaginava o seu Deus quase identifi cado com a ordem moral e econômica existente. Os ensaios aqui reunidos claramente mostram os fatos; quais são as conseqüências para a América Latina? 2. Para relativizar a nossa própria perspectiva teo lógica, cunhada por pensamentos gregos, admitimos que o AT originalmente tinha outras prioridades do que a compulsão ocidental de definir o ser divino. Falando em Deus, os autores do AT jamais se agarra ram à qualquer teoria especulativa. Sempre insistiram que seria, impossível e ilegítimo conhecer Deus apenas em termos intelectaais ou culturais (cf., p. ex., Êx 3.4-6; Dt 6.4s; Js 24.14s; Os 4.1-6; Am 5.21-24; Is 58.6s; SI 50 etc.). O AT, portanto, definitivamente exclui a atitude de observador entre os homens. Pede uma vivência ativa em comunhão com Deus. Freqüen temente, fala em adoração, respeito, amor, obediência diante de Javé. Daí podemos aprender: a curiosidade científica por si só não serve na relação com Deus. Ê preciso, isto sim, falar nele no contexto do nosso mun do. Naturalmente, implicando, também, em arriscar
definições do divino. Mas todo o nosso falar em Deus seria somente “ como o bronze que soa, ou como o cím- balo que retine” (ICo 13.1) se acontecesse sem o amor que ele quer inspirar em nós. Em outras palavras: a teologia tem que se implantar numa posição existencial que envolve o homem e a sociedade de modo integral; a teologia, de jeito nenhum, se pode limitar ao inte lecto do crente, nem às escolas ou aos cultos da comu nidade.
Como podemos descrever a inter-relação entre Deus e homem considerando imprescindível essa parti cipação do homem nas obras de Deus? O AT dá ao homem o papel de administrador da terra (cf. Gn 1.28; 2.15; SI 8.3ss; Pv 28.19s etc.). O povo de Israel, seus líderes, profetas, sacerdotes se tomaram colabo radores de Javé. No NT bem como na história eclesial posterior há amplos indícios de que tal teologia da par ticipação nunca foi esquecida. “ . . . somos cooperado- res de D e u s ...” , diz Paulo (ICo 3.9) e inúmeros cristãos de todas as épocas vivenciaram essa coopera ção no reino de Deus. Parece que hoje em dia a ex periência da participação plena e da solidariedade com Deus está ganhando mais importância, O homem, por causa do poder a ele prestado, se torna mais profun damente responsável pelo bem-estar do mundo todo. Será que poderíamos afirmar que o homem participa na realização de Deus neste mundo ? Ou, pelo contrário, poderia impedir o reino de Deus? São formulações tentativas e perigosas, sim. Mas justamente aquelas teologias vigentes que visam a libertação dos oprimi dos nos países do terceiro mundo bem como nas cama das mais baixas da população do mundo industrial, com muita razão sugerem um desenvolvimento necessá rio da nossa reflexão teológica nesta direção.
3. Vista como um todo, a história da fé israelita nos defronta ainda com vários outros problemas, dos quais apenas mencionaremos o seguinte: a idéia de Javé, durante o milênio da formação do AT, sofreu mu danças profundas em Israel. Mais ainda: não era uma concepção simples e puramente israelita. Ao contrário, tela veio de fora, das tribos ao Sul da Palestina. Algu
acordo com a tradição bíblica (cf. Êx 3.18), revelam a origem da religião ja^jfitajOQjestranggiro. Mais tar de, depois da tomada da terra, a teologia israelita so freu influências cananéias e paulatinamente entrou em contato com as crenças de vários povos vizinhos. Todos esses encontros tiveram conseqüências para a fé e a doutrina veterotestamentárias. Pois, apesar de for tes empenhos tardios, principalmente a partir da épo ca deuteronômica, de fechar as portas diante de quais quer influências alheias, Israel nunca se isolou total mente das religiões estrangeiras. Aconteceu, inclusive, na última hora da formação do AT ainda, que pensa mentos helenizantes determinaram o conceito de Deus dentro de uma corrente teológica dos judeus (cf. o livro Ec). Como enfrentar tal aglomeração de noções diferentes em torno de Javé no AT? Não se torna ex tremamente duvidosa toda a fé israelita se admitimos o crescimento gradual das concepções teológicas? Qual o sentido de proclamarmos o mandamento “ Não terás outros deuses diante de mim” ? (Êx 20.3).
Ao nosso ver, é inestimável o valor do reconheci mento teológico, de que muitos povos contribuíram na formação da fé biEBcar^Sbre-se, assim, o círculo fe chado dos eleitos a fim de nele participarem aqueles outros, entre os quais estamos nós mesmos. É muito justo constatar o processo histórico do surgimento das teologias veterotestamentárias. Pois, oferece a oportu nidade de dialogarmos com as diversas tradições e tomarmos uma posição própria e certa diante do Deus vivo e da realidade de hoje. Mesmo sob a hipótese de que o povo de Israel desempenhou um papel muito especial na história da humanidade, deveria ser claro que Deus não pode ser reduzido à propriedade par ticular de um único agrupamento humano. A concep ção de Deus não devia ser moldada exclusivamente pelo intelecto de teólogos israelitas. Outra vez: a vera cidade de uma teologia difere da investigação a res peito de sua descendência e composição. Aí temos que lutar contra as divindades falsas. Determinada afir mação teológica do AT não se torna errônea porque contém pensamentos de etnias alheias. Só pode ser errada se não corresponder à realidade divina e huma
na. A mistura de tragos e elementos diversos no con ceito de Javé, portanto, testemunha o fato de que a revelação, desde os primórdios, se tornava histórica e concreta, e assim acessível aos homens.
4. Observando agora o AT mais de perto notamos a seqüência de várias teologias. Na verdade, não é de estranhar que a fé israelita se desenvolvia, na sua his tória milenar atestada no AT (1200 a.C. até 200 a.C.), através de mudanças e quebras profundas. A nossa co letânea de ensaios, de maneira eclética, reflete essa caminhada extensa do povo de Israel. Não obstante todas as valiosas pesquisas já realizadas, permanece uma tarefa urgente à historiografia para esclarecer os motivos externos que instigaram as relevantes mu danças teológicas. Para nós resta salientar o resulta do grosso, já garantido pela ciência veterotestamentá- ria. Temos que distinguir certas fases distintas do desenvolvimento histórico e espiritual na época do AT. No início, é claro, Israel era um povo nômade ou se- minômade, aderindo a uma religião patriarcal. A co lonização da terra prometida trouxe mudanças graves. Adotaram-se santuários fixos, um sistema elaborado de sacrifícios com todas as implicações imagináveis para o conceito de Deus. A terceira grande quebra acon teceu com a introdução da monarquia em Israel. Agora, as exigências da corte real e da política im perialista se impunham a,o pensamento teológico. Se guem-se os períodos do cativeiro babilónico, da re construção eclesial e espiritual sob o domínio dos per sas e o confronto com as crenças e filosofias heleni- zantes.
Para um estudo mais profundo, contudo, não bas tam as grandes divisões da história israelita. No de correr de um determinado período, às vezes, aconte ceram mudanças revolucionárias. Assim a transição da religião dos patriarcas para o javismo se deu na primeira fase indicada, E enquanto a monarqiiia uni ficada, sob os reis Davi e Salomão, criou uma teologia quase imperialista (ef. IlSm 24; IlSm 7; IRs 8; SI 2; SI 46 etc.), acabaram-se bem cedo esses sonhos israeli tas de dominar, com a ajuda de Javé, todos os povos vizinhos. Quebrou-se a união do reino davídico, e
surgiram potências maiores no Oriente Médio que logo começaram a exercer o poder sobre as nações pequenas. Israel tinha que lutar pela sobrevivência, tomando o caminho do sofrimento, no qual se tomava exemplar para toda a humanidade.
Um outro fato merece ainda, menção. Qualquer divisão histórica feita por nós hoje não estabelece, como é costume na produção industrial, unidades homogêneas que obedeceriam rigidamente a uma única orientação espiritual. O homem é um ser que se lem bra do passado. Tenta sempre, com razão, utilizar até experiências de outrora. E a teologia geralmente per tence às instituições mais conservadoras da sociedade. Inclusive, os profetas do AT atacavam seu ambiente cultural, político e econômico partindo de conheci mentos e valores antigos (cf. Am. 5.25? Os 2.15; Is 1.2ss; Jr 6.16; Ez 16.3ss). Constatamos, então, que cada período tem o seu perfil bem especial, embora mantendo, muitas vezes, idéias bastante remotas de determinada fase da história. O que, certamente, vale para as concepções de Deus que estamos estudando. 5. Infelizmente, até hoje não se considerou com a devida atenção, na teologia verotestamentária, a im portância das situações sociais para a formação de conceitos teológicos. De certo, um dos pioneiros nessa linha foi M. Weber que há muitos anos escreveu o famoso estudo sobre o antigo Israel. Outros pesquisa dores, entre eles A. Alt, incluiram a perspectiva so ciológica na sua metodologia. Mas, em geral, seus escri tos não produziram grande impacto sobre os teólogos contemporâneos. Por outro lado, as ciências humanas descobriam a influência formativa das condições sociais na vida intelectual e emocional do nomem. Com refe rência ao AT isto significa que as diversas concepções teológicas reconhecíveis nos escritos de Israel não so mente refletem suas respectivas épocas ou situações históricas mas ao mesmo tempo são cunhadas por suas origens sociais. Faz uma diferença considerável, se um seguidor de Javé fala em Deus, isto é, no mesmo Deus, na perspectiva agrícola ou da vivência urbana, como representante de uma burocracia real ou como chefe ou membro de um clã. Desta forma, a tarefa do
pesquisador se toma mais complexa. Ele tem que con siderar os acontecimentos históricos, quando possível, relevantes para um determinado texto do AT. É mais urgente ainda localizá-lo dentro de sua teia de rela ções sociais da qual surgiu. Pois muitas vezes as estru turas sociológicas nem mudaram com as grandes per turbações da história. Yia de regra permaneceram es táveis, a não ser em casos extremos. Assim, a monar quia e a organização militar foram abolidas depois da derrota de 587 a.C. O sistema familiar e a instituição religiosa no entanto, ou sobreviveram à crise ou se re cuperaram mais tarde. Com isso permaneceram relati vamente estáveis também os interesses e anseios, bem como, aliás, os conceitos de Deus, de determinada gente dentro de sua teia de relações sociais. Para citar alguns exemplos: o Javé do AT sempre fora, e de modo crescente se desenvolvia neste sentido, um Deus paternalista (cf. Jz 4.4s; Êx 21.7ss; Lv 15.19ss; 21.9; Dt 22.13ss; Ed 9-10). Tal característica remonta, sem dúvida nenhuma, à ordem patriarcal da sociedade israelita. O Deus que morava em um templo, cuja san tidade protegia o monte Sião, era, certamente, um deus urbano. O Deus, que lamentava a miséria de Israel sofrendo com p. povo (cf. Os ll.ls s ; Jr 4.19ss; 31.20; SI 12.5) era de fato um deus dafr-efirimidos. O condicionamento social da teologia é de suma impor tância, justamente para qualquer exegese bíblica na América Latina. Vemos neste ponto o maior potencial da contribuição dos ensaios reunidos em nossa coletâ nea. Embora a maioria de seus autores não esteja ple namente consciente desta linha de pensamento, os estu dos, com efeito, abrem a perspectiva sociológica da teologia veterotestamentária. Isto em si permite, co mo demonstraremos abaixo, melhor identificação com as mensagens do AT. Resta acrescentar apenas que a interpretação sociológica tem fortes raízes em alguns métodos tradicionais de exegese, a saber, a história das formas literárias e do processo traditivo, a análise lingüística e estruturalista, quando consideram língua e estruturas como fenômenos sociais.
6. Diante da variedade de expressões teológicas en contradas no AT temos que perguntar: qual é sua
mensagem para nós? Como podemos abordar o AT a fim de ouvirmos a voz do Deus vivo? Embora sejam métodos freqüentemente usados, queremos excluir des de o início dois modos de procedimento, para a inter pretação e a adaptação do AT à nossa situação. Trata- se, de um lado, do hábito de simplesmente se fazer uma síntese de todas as concepções teológicas manifes tas nos escritos veterotestamentários. Contra isso re volta-se a nossa consciência histórica e teológica. Co mo poderia ser possível somar atribuições do Senhor na atualidade de hoje? Por um lado, enfrentamos a tentativa comum de escolher traços ou imagens de Deus do AT de nosso agrado. Inclusive, existe a forte tendência de aplicar um filtro assim chamado “ cris tão” aos conceitos veterotestamentários de Javé. Tam bém tais empenhos restritivos são inoportunos, porque impossibilitam o reconhecimento de Deus hoje. O ca minho certo parece ser comparar as situações do AT, nas quais se formaram os pensamentos e textos sobre Deus, com nossa situação. A partir disso temos que des cobrir o Deus atuante na realidade de hoje. Os crité rios teológicos do AT, dada a analogia das situações, servem como indícios e corretivos para nossas afirma ções a respeito.
Para exemplificar essa opção hermenêutica dire mos que a análise do AT e da realidade atual leva à conclusão de que a “ opressão” constitui a situação análoga da qual podemos partir. Estamos vivendo, quase todos nós, num verdadeiro cativeiro babilónico, ou seja numa escravidão egípcia. Incontestavelmente, existe um domínio total da técnica sobre a humani dade. Além disso, países e classes privilegiadas bru talmente exploram os fracos (cf. p. ex. H. Assmann e outros, A trilateral — Nova Fase do Capitalismo
Mundial, Petrópolis, 1979). Na verdade, a opressão
moderna não é idêntica àquela sofrida por Israel. Não obstante, podemos constatar com igual certeza, que as situações de domínio e opressão de outrora e de hoje revelam afinidades suficientes para fazermos comparações. Sobretudo, parece teologicamente legíti mo invocar aquele Deus libertador, cujo rosto nós achamos nos testemunhos do antigo povo de Israel.
Com isso, caem fora de consideração, carecendo de uma interpretação pelo contrário, as situações e as teologias de dominação dentro do AT (cf. IlSm 7; SI 46).
7. A fim de podermos analisar e avaliar essas situa ções análogas é indispensável o estudo da história e da realidade hodierna, através das ciências humanas. Portanto, queremos destacar o trabalho árduo e a res ponsabilidade severa, assumidos em seminários teoló gicos ou em comunidades vigilantes. Muitos estudantes e cristãos, de fato, acham supérfluo este trabalho. Querem colocar a Palavra de Deus pura, sem qual quer avaliação histórica, dentro da nossa realidade. Não podem admitir que essa Palavra está sempre en raizada nas condições humanas de determinada época, tomando assim imprescindível todo o processo de atua lização através de comparações e transposições à luz da realidade de hoje. Afinal, “ Ele não é Deus de mor tos, e, sim, de vivos” (Mt 22.32).
As vezes, isto sim, são compreensíveis as ressalvas contra uma teologia histórica e crítica. Divulgam-se, sobretudo nos países desenvolvidos, obras teológicas e estudos exegéticos que parecem bastante sofisticados, abstratos e afastados da realidade contemporânea. Por vezes, tem boa razão essa denúncia. Mas não se deve esconder ou esquecer, na igreja de Jesus Cristo, que o Verbo se toma came (cf. Jo 1.14). Quer dizer, ele entra integralmente em uma determinada situação cultural, identificando-se com os homens que têm fo me e sede de justiça, paz e amor (cf. Mt 5.6ss). Em conseqüência, existe só uma única avenida para se reconhecer a imagem de Deus na história: estudar mi nuciosa e detalhadamente as circunstâncias concretas dos eventos reveladores. Isto sempre engloba a averi guação dos elementos humanos da revelação divina. Não adianta recorrer a um Deus imutável e, por isso mesmo, desconhecido. O Deus vivo sempre de novo atua de maneira surpreendente conforme a,s situações histó ricas e sociais (cf. Jo 8.31ss).
8. É diante deste pano de fundo que nós temos de perguntar pelas qualidades de Deus no AT que po deriam ser, por analogia ou inferência, relevantes à
nossa situação. Conforme foi exposto acima, parti mos das conjunturas de opressão, que Israel sofreu, e do Deus Libertador. A imagem de Javé, neste contexto veterotestamentário, está caracterizada, por um lado, pela misericórdia para com o povo eleito, até o sofri mento, por outro, pela força violenta com a qual ele se vinga das derrotas de Israel (cf. Kx 15, ls s ; SI 68; Is 13ss; 60.10ss etc.). Logo começam as nossas difi culdades de ligar, numa concepção coerente de Deus, os elementos de poder com os de amor. O Deus dos cristãos é um Deus de amor incondicional, não é? Mas o que significa amor em situações de opressão e liber tação? Será que os inimigos de Deus até hoje devem ser aniquilados? Dessas dúvidas teológicas seguem-se uma pregação formal de um amor desvirtuado e, ao mesmo tempo, um comportamento brutal e agressivo contra aqueles outros que parecem contradizer a nossa própria ideologia. Assim, as igrejas cristãs, na sua longa história, muitas vezes se colocaram ao lado dos poderosos, defendendo, em nome do poder e da vin gança, seus interesses particulares.
Mas a situação sócio-teológica mudou de lá para cá. Na antiguidade havia, no campo das religiões, um particularismo total, pois prevaleciam entidades étni cas, nacionais ou culturais autônomas no Oriente Mé dio. Somente a partir de Alexandre Magno se experi mentou, com a helenização do seu vasto império, uma espiritualidade e cultura uniformes na Grécia e na índia. O que percebemos antes deste período é, prati camente, a luta de clãs e etnias, nações e dinastias pela sobrevivência e hegemonia. Neste contexto, era inevi tável que o deus conhecido e concebível aos israelitas fosse um Deus particular, à exclusão de outras enti dades sociais. O amor divino se restringiu a um deter minado povo —■ conclusão muito natural para os israe litas, sendo que “ os outros” haviam se ligado a outras divindades. Destacamos esta perspectiva antiga apesar do fato de alguns teólogos veterotestamentários, às vezes, conseguirem olhar além das próprias frontei ras (cf. Gn 12.3; Is 56.3ss; o livrinho de Jn etc.) fato feliz porque mostra uma certa quantia de liber dade da fé dentro de sistemas sócio-políticos vigentes.
Chegou Jesus Cristo, eonstituindo-se a igreja cristã. Foi o próprio Jesus histórico que começou a derrubar as barreiras étnicas e sociais. O homem dis tante ou hostil pode-se tornar próximo (cf. Mt 5.44; Lc 10.25ss). Ideal e teologicamente a comunidade da nova aliança engloba todas as raças e classes humanas (cf. At 2; G1 2ss; B f 2.13ss; Jo 17.15ss etc). E a igreja cristã, mesmo falhando e se desviando dos alvos do Senhor, sempre manteve pelo menos esses ou aqueles vestígios da fraternidade mundial dentro de suas es truturas organizacionais e vivenciais. E, por sinal, a unificação urgente da humanidade em prol das massas necessitadas e da sobrevivência do mundo inteiro, como a visou Jesus, se manifesta, hoje em dia, cada vez com maior claridade.
Como se pode imaginar, dentro de nossa situação, a inter-relação de poder e amor em Deus? A resposta mais simples e direta parece ser a seguinte: o amor divino não é mais exclusivo, mas sim inclusivo, abran gente. O amor, nem por isso, deve perder a própria vitalidade, isto é, não precisa deixar de ser partidário e afetuoso, abnegado e prudente. Ele atua, porém, dentro da humanidade inteira em prol da salvação in tegral. Concretamente, isso significa que o Deus Li bertador se solidariza em primeiro lugar com os opri midos e sofredores, sem perder de vista a recuperação dos opressores. Eles também são seres alinenados de si mesmos, carentes da libertação deles do seu poder excessivo e de suas riquezas roubadas.
9. Com a unificação moderna da humanidade, levan ta-se de novo o problema da unicidade de Deus. A pesquisa histórica mostra um fato curioso: já nos pri mórdios de sua história, junto com a salvação pelo deus Javé até então desconhecido, introduziu-se em Israel o mandamento de se aderir a um único Deus. A realidade do mundo oriental, além de ser caracteriza da pelo particularismo vigente, não era propícia à adoção de uma fé monoteísta. O homem antigo, muito antes disso, já havia experimentado em sua vida diária divergentes influências de inúmeras forças divinas. Neste ponto, na verdade, sofremos ainda mais profun
damente num mundo que idealmente e por necessida de deveria se unir, mas se mostra fraccionado e frus trado. Podemos dizer, portanto, que o politeísmo e o polidemonismo são construções bastante condizentes com a realidade empírica. O monoteísmo antecipado do antigo Israel por isso correu o risco de se tornar instrumento da autpdefesa ou seja da auto-afirmação particular de um determinado povo. E foi justamente isso que aconteceu em Israel. A doutrina de um único Deus, exclusivo, atingiu o seu máximo desenvolvimento, dentro do AT, por volta do exílio babilónico, isto é, no século V I a.C. Foram os escritores deuteronômieos e deuteronomistas os que gravaram na memória do povo eleito a unidade do Senhor (cf. Dt 6.4ss etc.), segui dos pelo segundo Isaías (cf. Is 40.12-31 etc.) Essa fé monoteísta reflete, portanto, uma situação concreta: a luta dos israelitas, após a derrota total, de sobreviver e de se reorganizar sem as instituições usuais, a saber, o reinado, o templo, a administração autônoma. Crer em um único Deus assim significava, neste período histórico, confiar firme e exclusivamente nele para manter a própria, identidade.
A asserção teológica de que existe apenas um úni co Deus, um Senhor justo e compassivo a toda a hu manidade, é uma herança muito valiosa do AT. Que remos retomar o posicionamento dos antigos teólogos israelitas numa fase da história humana, na qual já estão visíveis plenamente padrões e estruturas do fu turo universal do nosso planeta. Assim, a única saída para os múltiplos dilemas da nossa época parece ser a autodefinição de todos os homens diante do Deus único. Neste sentido, cabe a todas as teologias parti culares, que cuidam dos anseios concretos de indiví duos e grupos, em especial dos oprimidos do mundo, de se entrosarem com as deliberações e atuações das demais entidades.
10. Uma outra problemática da nossa teologia, her dada do AT, gira em tomo da natureza pessoal e particular de Deus. Javé, o libertador de Israel, nor malmente foi concebido em termos bastante antropo mórficos. Ele era portador de um nome pessoal. Mos trava vestígios de emoções humanas, de alegria, raiva,
arrependimento, cansaço. Via de regra, foram-lhe atri buídas características de um ser masculino: embora não tendo esposa, como os deuses dos povos vizinhos, permanece um “ Ele” , que se torna, mais tarde, amante e marido do seu próprio povo (cf. Os 2.16; Ez I6.6ss), na linguagem figurativa dos profetas. Javé era, desde o início, um deus comunicativo, falando com os homens em idiomas humanos ou por sonhos e sinais. Enfren tava, como guerreiro, os inimigos de Israel. Atuava, de toda maneira como líder, guia, rei, médico, arqui teto, juiz, pai, resgatador, marido, e assim por diante. É verdade, ele também se manifestava em fenômenos não-humanos, tanto no fogo ou no vento, como na ordem moral do mundo. Mas, considerando o fato de que todo o universo antigo era experimentado como um organismo profundamente personalizado, cabe cons tatar que predominavam, entre os conceitos teológicos do AT, elementos antropomórficos.
É, no entanto, o que cria problemas para o nosso falar em Deus hoje. Os homens estão construindo um mundo, cada vez, mais personalizado. Este mundo transforma-se num aparelho mecânico nas mãos do próprio homem, obedecendo às suas mais absurdas or dens. Inevitavelmente, a vida humana se adapta às regras mecânicas implantadas nesta criação artificial. Em conseqüência, temos enormes dificuldades de harmonizar a imagem pessoal de Deus com o mundo moderno dominado por tecnocracias, burocracias e suas normas desumanizantes. Será que Deus ainda se pode manifestar como pessoa dentro de uma fábrica, operando conforme as leis férreas da produção? Será que Deus ainda tem vez nos cálculos e estatísticas dos cientistas?
Não obstante, a desilusão com o mundo contempo râneo, seria teologicamente ilegítimo simplesmente con denar este desenvolvimento moderno, numa tentativa ilusória de voltar a um estado “ natural” e paradisíaco. Antes disso, precisamos descobrir Deus até mesmo nos mecanismos despersonalizados do nosso próprio mundo. Pois, essa nova criação do homem não aconteceu por acaso. Foi Deus que a permitiu e inspirou até hoje. Para compreendermos esse Deus, temos que admitir
conceitos adequados da nossa experiência, inclusive alguns tirados do mundo mecanizado e impessoal. Não será fácil tal renovação da teologia em correspon dência com a vida contemporânea. Mas, o AT nos pode ajudar, oferecendo modelos de teologia para um con texto científico, ou seja sapiencial, insistindo, ao mes mo tempo, na predominância da vida sobre as regras mecânicas. Se já é difícil lidar-se com os problemas de uma teologia “ despersonalizada” , muito mais ainda será se libertar de uma teologia machista imposta, até nossos dias, por uma ordem social profundamente patriarcal. Também, neste ponto, temos que falar em Deus de maneira nova, superando as limitações histó ricas da conceituação veterotestamentária.
11. Se o Deus vivo atua de maneira libertadora até no interior de sistemas teológicos, de estruturas econô micas e mentais, como lidaremos com a sua invisibilida de e transcendência, igualmente sugeridas pelos teólo gos veterotestamentários? Pois, em contraposição ao próprio antropomorfismo mencionado acima, os mes mos autores do AT! proclamam Javé como deus sem imagem qualquer (cf. Êx 20.4-6; Dt 4.12ss). Será ele um deus não-imaginável f Que experiência temos de um deus inconcebível?
Não é fácil entrar nessas especulações meio filosó ficas. Mas nosso intelecto, condicionado sobretudo pela tradição grega de raciocinar levanta tais perguntas e exige respostas. Convém se conscientizar, no entanto, de que os israelitas proibindo quaisquer imagens de Deus, partiram de pressupostos diferentes. Também naquela época, convém lembrar, adorar a um Deus não-representável era um fenômeno inédito; jamais, contudo, um problema intelectual para os crentes do mundo semita. Tratava-se, antes, de uma questão de poder. Os israelitas consideravam ilegítimo tentar capturar a potência divina por meio de artefatos hu manos (cf. Is 44.9ss). Provavelmente, não fora assim desde o início da história de Israel. Conheciam-se muito bem, nos primórdios, diversas representações de Javé (cf. Nm 21.8s; Êx 32.4). Porém, a experiência decepcionante do homem querer usurpar o poder di vino por meio de controle sobre as imagens da deidade,
levavam-no a abandonar os artefatos. Foram substi tuídos, isto sim, na história judeo-cristã, por símbolos indiretos da presença do Senhor, como a arca, o tem plo, os sacrifícios, o rolo da torá etc. os quais, por sua vez, constituíam novas tentações à presunção humana. Não são comparáveis, todavia, àquelas antigas repre sentações diretas de deus.
A pergunta para nós, portanto, permanece essen cialmente a mesma: como imaginar e compreender a presença de Deus no nosso tempo, sem pretender mani pulá-lo conforme a nossa própria soberba? Temos que lutar contra as verdades abstratas; confiamos em Deus que se revela concreta e humanamente. Sabemos, pois, muito bem, da necessidade de indicarmos as manifes tações concretas de Deus no nosso mundo atual. A fé real precisa, portanto, de uma ou outra maneira, de representações e símbolos de Deus. Ao mesmo tempo reconhecemos, hoje em dia, a,té mais profundamente do que os antigos israelitas, as tentações e os perigos de quaisquer imagens do divino. Elas transformam-se em ídolos com grande facilidade. A propaganda co mercial ou política oferece muitos exemplos do abuso dos conceitos divinos. Deifica, com impunidade, pro dutos, figuras, idéias bem limitadas e até perversas. Uma das tarefas da teologia seria, nesta altura, esta- beleeer critérios fidedignos para o uso certo de repre sentações e símbolos de Deus. O AT nos pode ajudar em muito neste empreendimento. Podemos tirar con clusões importantes da própria experiência israelita. Em primeiro lugar, o AT nos adverte séria e justa mente contra a simples identificação de Deus com qualquer símbolo. O Supremo não se esgota em ne nhuma manifestação sua; ele jamais se torna o objeto da nossa ambição de poder. Em segundo lugar, é, de fato, imprescindível, usarmos semelhanças, idéias, con ceitos de Deus que adequadamente descrevam a, sua presença no nosso mundo. Em outras palavras, temos que usar símbolos tirados do nosso próprio ambiente. Não é legítimo, por exemplo, numa sociedade demo crática que garante direitos e deveres iguais a homem e mulher, falar em Deus em termos monárquicos e machistas.
12. Poderíamos continuar o exame das atribuições necessárias e certas de Deus na nossa época. Bastam, porém, os exemplos mencionados. O leitor pode, a par tir deles, investigar as evidências colocadas nos ensaios da nossa coletânea e tirar as suas próprias conclusões. Confrontadas com a nossa realidade de hoje, até as pesquisas mais secas de cunho histórico-crítico reve lam profunda atualidade. Atingem, explícita ou im plicitamente, os nossos próprios anseios. Como deve mos compreender a atuação divergente de Deus nas sucessivas fases da história? Qual o papel do sofri mento, inclusive do sofrimento injusto e arbitrário, na revelação de Deus? As catástrofes nacionais e glo bais que estão se aproximando, têm algo a ver com a realidade de Deus ? Quais são, hoje em dia, as bênçãos e quais as maldições provindas da fonte divina? Co mo harmonizar, dentro da nossa teologia, os conceitos de um deus conservador com os de um deus renovador do mundo? A pregação de Jesus Cristo e da primeira cristandade corrigiu ou aboliu, em pontos essenciais, a teologia veterotestamentária ? Assim perguntamos, sobretudo preocupados com a realidade latino-ame ricana: ela não somente aliena e desumaniza o povo, mas também tortura e desafia o próprio Deus.
Sem dúvida nenhuma, toda a humanidade de hoje, em especial o Terceiro Mundo, precisa de um Deus Libertador. Os homens estão presos em sistemas alienantes, que eles mesmo criaram. Sofrem, portanto, pressões, explorações, brutalidades em todos os cantos da terra. A grande maioria da população mundial nem pode ter o mínimo necessário para uma vida digna. Será, que Deus a esqueceu? Ou será verdade, que uma libertação equivalente àquela prometida aos israelitas já está se realizando nos nossos tempos? Quem sabe, este Deus Liberdador ainda vai devorar as classes e nações poderosas como ele fez com os an tigos Egípcios, Midianitas, Cananeus e Amoritas! Se ria isto um ato de amor combativo e zeloso em prol dos oprimidos que ao mesmo tempo visaria à libertação dos opressores. Pois, como indicamos antes, após a chegada de Cristo não se pode mais pensar em quais quer particularismos. O Deus Libertador é responsável pela humanidade inteira.
As traduções dos ensaios dessa coletânea, do original alemão ou inglês, foram feitas por um grupo de do centes e estudantes da Faculdade de Teologia da Igreja Evangélica de Confissão Luterana no Brasil (IECLB) em São Leopoldo: Antônio Monteiro, Carlos Musskopf, Erhard Gerstenberger, Getúlio Bertelli, Milton Sch- wantes e Yitor Westhelle.
0 DEUS PATERNO
Este ensaio, publicado em 1929, iniciou a discussão moderna em torno da “religião dos patriarcas” . Foi, mui tas vezes, republicado e traduzido, fazendo parte tam bém da coletânea de artigos de Albrecht ALT, Kleine
Schriften zur Geschichte des Volkes Israel, vol. I, Mu
nique 1953, págs. 1 — 78. Oferecemos aqui uma versão abreviada desse estudo clássico. Na sua introdujão. omitida nestas páginas, Alt levanta a seguinte pergun ta, sendo ela o seu problema principal: por que e co mo as tribos israelitas se uniram na adoração de um só Deus, Javé? Depois ele avalia as tentativas contempo râneas de esclarecer aquela pré-história religiosa de Israel. Os historiadores, não confiando no valor autên tico das histórias dos patriarcas em Gênesis, geralmsnte as deixaram de lado. Contrariando tal tendência positi vista, Alt quer descobrir vestígios e lembranças da his tória pré-javista dentro das sagas patriarcais.
Na verdade, a tradição israelita conserva elemen tos próprios de uma religião particular, embora sem
reconhecê-los. Remontam, se estou certo, à herança, peculiar de tribos ou grupos individuais. Trata-se da memória do Deus de Abraão, do Temor de Isaque, e do Poderoso de Jacó, resumindo, do Deus Paterno. 1. A TRADIÇÃO
1.1 . A teoria do eloísta
Para chegarmos aos fundamentos da tradição do Deus Paterno, não devemos partir, dentro do AT, da literatura mais recente. Esta, às vezes, designa Javé, de maneira formal e litúrgica, como Deus de Abraão, Isaque e Jaeó.1 Assim como é notável a perduração desta fórmula, pode-se também constatar que ela já está desgastada demais para que se possa reconhecer algo de sua origem. Se apenas a tivéssemos, só pode ríamos levantar, mas não resolver, a pergunta pela originalidade, tanto da identificação nela pressuposta entre o Deus Paterno com Javé, como também da estreita interligação dos nomes dos três patriarcas.
Mas podemos nos aproximar consideravelmente das origens se voltarmos aos blocos narrativos compi lados no Hexatêuco. Pelo menos aí há uma passagem que trata da relação entre Javé e o Deus Paterno, considerando o caráter narrativo do texto, da forma mais embasada possível. Refiro-me à narração eloísta da primeira revelação de Javé a Moisés em Êx 3 .2 Neste trecho também, sem dúvida, já está completa a disposição dos nomes dos patriarcas na fórmula “ Deus de Abraão, de Isaque e de Jacó” . É esta a auto- designação que aquele deus, aparecendo a Moisés, logo usa na sua apresentação (v.6). Em contraposi ção, a identidade de Javé com o Deus Paterno não é simplesmente pressuposta, mas está sendo, por assim dizer, solenemente realizada, ante os olhos do leitor no decorrer da narração. Pois aquele deus que está se revelando, ele mesmo pronuncia o seu nome “ Javé” , assim respondendo à pergunta de Moisés (v.14). 3 Jus tamente aí reside a função específica deste conto, no conjunto da obra eloísta: por um lado, toma consci ente ao leitor a grande distância entre o tempo dos patriarcas e de Moisés, isto é, da perspectiva divina. Por outro lado, harmoniza, afinal de contas, essa mes
ma diferença numa unidade superior. Sugere, por tanto, que o mesmo Deus apareça como portador da antiga bem como da nova designação divina. Assim, a narração de Êx 3 se torna o elo entre as sagas refe rentes aos patriarcas e a Moisés, de modo que elas po dem se desdobrar independentemente, mas em íntima relação, umas com as outras.
A identificação de Javé com o Deus Paterno, ele mento histórico de suma importância para a nossa pes quisa, constitui um problema muito especial. Se o deus aparecido a Moisés, já na sua primeira manifestação, designou-se a si mesmo como o Deus de Abraão, de
Isaque e de Jaeó (v. 6), então não havia mais necessi
dade nenhuma de anunciar um novo nome para ele. A expectativa de Moisés era que seus contemporâneos iriam perguntar pelo nome do deus que o havia comis sionado. Trazendo, porém, a mensagem: “ O Deus de vossos pais me enviou a vós” (v. 13) esta expectativa se torna uma contradição em si. 4 O conto não revela nenhum empenho para aliviar esta tensão. A nomea ção do Deus de Abraão, de Isaque e de Jaeó, no início de tudo, não tem quaisquer conseqüências. Mesmo sen do totalmente eliminado, o texto restante poderia ser reconstruído com toda coerência, interna.5 Trata-se da clara indicação da peculiaridade deste elemento narrativo. A análise do trecho confirma, portanto, o resultado ao qual já fomos levados, por um caminho diferente, comparando a apresentação eloísta com as outras obras literárias do Hexatêuco. É óbvio, então, que a referência ao Deus Paterno somente foi inserida no texto pelo redator. Ele interveio desta forma com um determinado objetivo: quis impressionar o leitor com a sua própria opinião de que uma única linha teológico-histórica ligava intimamente ambos os perío dos. Por isso, identificou as divindades logo no ponto axial, onde se encontravam a época patriarcal e o tempo de Moisés.
1.2 O testemunho das sagas patriarcais
Tendo encontrado um indício de uma religião pré-javis- ta em Êx 3, Alt se propôs a examinar toda a tradição dos patriarcas redigida pelo eloísta bem como pelo ja- vista, em busca de mais evidências.
Mesmo sem mencionar o nome de Javé, é signifi cativo que o javista, nos contos sobre Isaque, inicie o discurso revelatório de Javé com as seguintes pala vras : “ Eu sou o Deus de Abraão, teu pai” . 6 A se guir, o discurso indica até mesmo a razão pela qual se estabelece, na autodesignação introdutória do deus aparecido, a relação com o próprio Abraão. É por causa de Abraão que Isaque vai ser abençoado. O cuidado especial da divindade pela sorte dos descen dentes é decorrente do relacionamento peculiar que existia entre esta divindade e o antepassado. Ao final desta história tão insípida menciona-se a construção de um altar por Isaque. Seria lógico, a partir da in trodução, esperar que fosse um altar para o Deus de Abraão. No entanto, nesta altura, o javista insere o nome de Javé. É pouco pro vável que o texto todo esteja baseado em uma saga antiga e isolada, mas tudo indica que ele foi elaborado livremente pelo próprio javista.7 Por isso, aqui se mostra melhor o valor atribuído, por este escritor, à expressão “ Deus de Abraão” . Aparentemente, ela pa receu-lhe bem conveniente a fim de conscientizar os seus leitores da estreita relação entre Abraão e Isaque.
Com similar solenidade, o javista introduz o Deus de Isaque. Isto se dá no episódio da revelação viven- ciada por Jacó em Betei, quando este fugiu de Esaú. 8 Aqui as primeiras palavras de Javé são as seguintes: “ Eu sou Javé, Deus de Abraão, teu pai, e Deus de Isaque” . 9 Devido ao avanço de uma geração até Jacó, a designação divina também aumenta em um elemento. Com isto, no entanto, não se muda o seu sentido, como evidenciam as promessas a ela afixadas, promessas do deus aparecido a Jacó. Dentro do plano geral da obra javista, referente aos patriarcas, este episódio tem provavelmente, a mesma função daquela revelação a Isaque, referida acima. Liga Jacó a Isaque como já haviam sido ligados Isaque e Abraão. Por isso, é bom considerar este episódio, igualmente, uma redação livre do javista. A narração eloísta dessa experiência de Jacó em Betei, por sua vez, reforça a nossa conclusão. Esta claramente provém de uma saga antiga e autô noma e não contém paralelo algum ao discurso
reve-latório encontrado na fonte javista. Em conseqüên cia, também, não menciona o Deus de Abraão e de Isaque.
O eloísta começa a falar do Deus Paterno justa mente nas sagas referentes a Jaeó. Primeiro, o faz de forma geral, em um tipo de confissão que Jaeó dirige às suas esposas: “ O Deus de meu pai tem estado comigo” . 10 Segue-se uma significativa declaração de Labão: “ O Deus de vosso pai me falou, ontem à noite” . 11 Também o faz, ainda no contexto da mesma história, de modo especial na discussão de Jaeó com Labão, devendo esta formulação ser atribuída ao elo ísta: “ Se não fora o Deus de meu pai, o Deus de Abraão e o Temor de Isaque. . . ” 12 Mais adiante vol taremos à extranha e singular designação “ Temor de Isaque” . Todas as formulações acima mencionadas são, todavia, apenas preparação para o fecho desta história. Aí Jaeó e Labão entram em acordo e, seguindo o cos tume verdadeiramente antigo, cada um evoca o seu Deus Paterno 12a como penhor do pacto firmado: “ O Deus de Abraão e o Deus de Naor julguem entre nós” . 13 “ E julgou Jaeó pelo temor de seu pai Isaque” , diz a outra fonte.14
Este fecho da narração provocou, mais tarde, grandes preocupações. Não seria um puro paganismo o fato do genearca de Israel e um parente seu terem jurado perante duas divindades distintas ? Precisava-se " Sbrahdar~~uma afirmação tão capciosa mediante um adendo ou uma mudança textual. O resultado, no en tanto, das emendas lançadas com essa finalidade não, foi sempre o mesmo. O mais simplório destes expedi entes apresenta-se na tradução grega que muda o verbo para o singular, nesta frase que originalmente disse: “ O Deus de Abraão e o Deus de Naor julguem entre* nós” . Assim o leitor é automaticamente levado a iden- / tificar ambos os sujeitos. A tradição judaico-masoré- tica, por sua vez, não ousou modificar o plural original ^ d o verbo. Não obstante, tentou submeter os dois su
jeitos a um sentido singular, através do aposto: “ o I Deus do pai deles” . O erro aí resume-se no seguinte: I este adendo não se harmoniza com o texto, contradiz o verbo no plural e, sobretudo, também não confere com
o “ entre nós” . 15 Finalmente, a concepção samaritano- masorética é que vai mais longe, juntando o verbo e. o aposto, ambos no singular, e, mais ainda, alterando este último: “ O Deus de Abraão e o Deus de Naor julgue entre nós, o Deus de Abraão” . Parece evidente que o resultado ainda assim não pode satisfazer nin guém.
Todas essas tentativas de remediar o texto apenas testemunham a antiguidade daquilo que ele expressou na sua forma original ao dizer que, como Jacó, assim também Labão havia evocado um Deus Paterno cujo nome se deriva de seu antepassado. Para ambas as partes, estas divindades eram propriamente seus deu ses. Nenhum outro entrava em cogitação quando sur giu a necessidade para os bandos pertencentes aos respectivos líderes se associarem permanentemente, através de um juramento solene. É de todo improvável' j que um redator tenha introduzido esta característica na narração do pacto de Jacó com Labão posterior e arbitrariamente. Não se pode negar a este conto o ca ráter de uma antiga e autêntica saga. A presença do Deus Paterno em ambas as camadas literárias da nar rativa opõe-se decisivamente à tese da inserção. A es colha divergente de designação de Deus, dentre as disponíveis, isto'sim, parece ter sido algo de respon sabilidade dos redatores. A eles temos de ser gratos que em uma fonte permaneceu o “ Deus de Naor” e, na outra, o “ Temor de Isaque” . 16 Se concluímos cor retamente, essa narração nos aproxima substancial mente da origem da tradição, melhor do que aqueles episódios descritos livre e criativamente pelo javista, nas histórias de Isaque e Jacó, das quais já falamos.
As sagas sobre José contêm apenas formulações poste riores a respeito do Deus Paterno.
Somente em um episódio da história de José talvez ocorra algo diferente. A caminho do Egito, em Berse- ba, Jacó oferece um sacrifício “ ao Deus do seu pai Isa que” . 17 Neste mesmo lugar, recebe uma revelação co meçando com estas palavras: “ Eu sou a divindade, o Deus de teu pai” . 18 Pela primeira e única vez temos aqui a notícia de um culto dedicado ao Deus Paterno
num lugar determinado. Este episódio, acentuou Gun kel com razão, ainda não é uma saga institucional de um culto, como diversas vezes ocorre com as divinda des (hebraico: ‘êlim) dos santuários da Palestina. Ele pressupõe, muito antes, o culto do Deus Paterno e o coloca, de uma maneira significativa, justamente em Benseba. Vivia lá, segundo as sagas, Isaque, o pai de Jaeó. Seria de se cogitar, por conseguinte, que este episódio, mesmo não pertencendo à tradição mais an tiga, remonta a uma saga de Isaque não preservada em outro lugar.19
Fora de tudo o que até agora foi visto, e mesmo das sagas, eacioiitra-se, por fim, menção ao Deus Pa terno na bênção de Jaeó a José. Este dito deve ser considerado um documento por si só, apesar de ter che gado a nós como parte constituinte da obra javista.20 O poeta fala do Deus que auxilia a José, pensando, f certamente, em Javé. No entanto, evita de propósito o \ nome Javé e o substitui por uma série de antigas de- ^ signações divinas, que, aparentemente já tinham sido relacionadas com Javé, coisa que dificilmente teria ocorrido pela primeira vez nesta época. Seja, mmn ffirA para nós é muito significativo que nesta listagem, de estilo conscientemente arcaico, também se mencione o “ Deus de teu pai” , lado a lado ao 'êl shadday 21, que é bem outra coisa, e ao “ Poderoso de Jaeó” . Quanto ao último, eaber-nos-á ainda perguntar se não teve já originalmente certa afinidade com o Deus Paterno. O Deus Paterno, para o poeta, deve ter sido parte inte grante do mais antigo acervo religioso de Israel. Se não o fosse, seria muito difícil explicar porque o men ciona neste contexto. Por conseguinte, estamos diante de um testemunho autônomo. Leva-nos perto das ori gens, pelo menos no mesmo grau daquelas partes mais antigas das narrativas de Gênesis.
Como se deve avaliar, na sua íntegra, esta averi guação? Não carece de maiores explicações o fato de que a evidência histórico-traditiva, concernente ao Deus Paterno, seja essencialmente diversa daquela re lativa aos ‘êlim dos santuários da Palestina. Estes sem pre surgem apenas por um instante; procuramos em vão os efeitos do seu aparecimento no decorrer dos
ciclos narrativos.22 Em contraposição, o Deus Pater no é sempre de novo mencionado, tanto na obra javista quanto na eloísta, desempenhando nestes livros histó ricos papel muito mais importante que todos os ‘êlirn em conjunto. Não apenas do ponto de vista estatístico, mas também de conteúdo. Discursos revelatórios, ora ções, bênçãos, juramentos, confissões, sacrifícios, em resumo, quase todas as manifestações religiosas que podem aparecer na literatura narrativa acham-se aqui e ali orientadas ao Deus Paterno. Numa observação superficial, a ênfase preponderante dada a ele parece incontestável. Afinal, o Deus Paterno realmente vive nestas narrações enquanto os ‘êlvrn apenas nelas vege tam.
O processo de transmissão, não obstante, pouco fa voreceu o Deus Paterno. Pois, onde aparece um ‘êl, quase sempre há uma saga antiga e autônoma, cuja origem na tradição pré-literária ainda se percebe cla ramente. Em conseqüência, verifica-se, logicamente, que os ellm remontam às antigas sagas. Em. contrapo sição, pudemos notar seguidamente, nas menções ao Deus Patemo, que ele deve sua existência à configu ração livre e criativa do material traditivo por parte dos redatores. Eles aceitaram, isto sim, nas suas obras as antigas sagas-dos ‘êlvrn, sem, porém, desenvolvê-las. Ao mesmo tempo, foram eles os únicos responsáveis pela ampliação e consagração do lugar do Deus Pater no, até o ponto onde se encontra hoje. Enfim, cabe a pergunta se esta figura foi inserida na tradição apenas4 pelos redatores. As poucas passagens nas quais consta tamos a influência de uma tradição do Deus Patemo por eles herdada naturalmente iriam dificultàr a eli minação total dessa divindade da tradição pré-literá ria. Refiro-me principalmente à saga da firmação do pacto entre Jacó e Labão, e a bênção de Jacó a Josê. Mas talvez permitam ainda tal corte, pois podemos reconstruir a pré-história do Deus Patemo apenas hipoteticamente. Precisamos, então, fazer observações mais acuradas, se quisermos descobrir a idade real dessa divindade.
O tratamento tão diferente dado, na obra narra tiva, aos ‘êlim, por um lado, e ao Deus Paterno, por
outro, por si só não constitui nenhum fundamento su ficiente para sustentar a hipótese de que aqueles fos sem componentes velhos da tradição enquanto este uma criação totalmente nova dos escritores. O fato de te rem destacado tanto o Deus Paterno também é com preensível caso esse tipo de deus lhes tenha sido lega do pela tradição. Importava-lhes, aparentemente, acen tuar a relação entre os distintos genearcas de Israel, ultrapassando a eoncatenação genealógica pelo estabe lecimento de uma linha mestra religiosa de Abraão, passando por Isaque, até Jaeó e seus filhos. Com os
‘ êlim, este objetivo não era tão facilmente atingível.
Pois as sagas deles estavam ligadas a determinado lu gar, no caso, os referidos santuários na Palestina. Mas a história dos patriarcas como um todo, devido à mul tiplicidade de cenários, aos quais as sagas estavam ligadas individualmente, só pode ser elaborada num conjunto através da troca freqüente de lugar. A fim de dar-lhes, portanto, aquela mobilidade, necessária no vaivém da história dos patriarcas, os redatores te riam que privar os ‘êlim do que lhes era mais próprio conforme a antiga tradição. E isto valeria também para qualquer outra divindade encarregada de ficar perto dos genearcas de Israel. Mais ainda: a pluralidade de deuses não relacionados entre si, neste caso, igual mente, teria que ser superada. Era essa uma caracte rística dos ‘êlim que provinha necessariamente de sua fixação local. Enquanto perdurava, constituía num empecilho para a exposição da uniformidade religiosa da história dos patriarcas.
A natureza do Deus Paterno é bem outra. Sua relação com um determinado santuário não desem penha papel algum.23 É até lembrado com especial predileção em narrações cujo cenário distancia-se muito das moradias normais dos genearcas de Israel, seja na terra dos arameus no Eufrates, seja junto aos egípcios no Nilo. Dificilmente pode-se atribuir à livre criatividade redacional a ausência desta fixação local, na apresentação do Deus Paterno. Por um lado, é inad missível que os autores intencionalmente impediram a localização de um deus por eles criado em lugar de terminado, a fim de poder inseri-lo à vontade nos
seus contos. Por outro, é também inadmissível que eles, no caso de terem recebido o Deus Paterno de uma antiga tradição, tivessem rompido os laços ori ginais, ligando a divindade a um local fixo. A razão verdadeira, porém, para tratar esta figura de maneira especial, reside no fato de ela já representar, desde o início, um outro tipo de religião, diferente daquela dos ‘êlvm: uma religião em que o elemento decisivo não está na fixação local, mas na constante relação com um grupo humano. Até mesmo a designação “ Deus Paterno” de acordo com indivíduos humanos, e ja mais com lugares, vale como segura indicação do caráter peculiar deste tipo de religião. Se isto é verda de, então a preferência do javista e do eloísta pelo Deus Paterno é perfeitamente compreensível, tam bém sob a suposição de que a sua imagem, na tradi ção pré-literária, já estava tão bem configurada como as dos ‘êlim. Assim, era intrínseca ao próprio Deus Pa terno, desde o início, a possibilidade da livre movi mentação. De maneira mais específica, pode-se falar da sua adaptabilidade à cada mudança do respectivo grupo humano. Era justamente isto que ia de en contro aos redatores, quando tentaram homogeneizar, sob perspectiva divina, as diversificadas narrativas patriarcais. „
A partir daí, não emerge nenhum argumento de cisivo contra a suposição de que o Deus Paterno já fosse conhecido na, tradição pré-literária. Foram, aparentemente, só os redatores, que, por motivos ób vios, deram lugar de destaque a essa figura, no con texto global da época patriarcal. Se é certo assim, ainda outras ponderações histórico-traditivas podem, ao meu ver, fortalecer a probabilidade desta hipótese. O Deus Paterno, nas obras do javista e do eloísta, tem que concorrer com os ‘elim. Além disso, ele fica muito prejudicado pelo constante emprego do nome di vino Javé, no javista, e pela designação genérica de
‘elohim (divindade) no eloísta. Naturalmente há uma
diferença entre tais designações, O leitor facilmente se satisfaz com a oscilação entre designação genérica e específica do Deus Patemo. Raramente toma consciên cia da discrepância interna entre ambos. 24 No entan