A determinação da época do surgimento do mo noteísmo israelita constitui-se numa das questões atuais da pesquisa veterotestamentária. Entre as mais conhecidas concepções temos, já há algum tempo, a que situa o inicio do monoteísmo nos profetas do oitavo sé culo a.C., cuja mais plena expressão encontra-se no Deutero Isaías.2 Causse reporta o início do mono teísmo a Elias3 Holscher, no entanto, rejeita essa opinião, porque na religião de Elias não há conse qüência teórica desse monoteísmo. Não se nota univer salismo algum e não se nega a existência de outros deuses. Pfeiffer vai mais longe, contestando qualquer tipo de monoteísmo antes de Deutero Isaías. Ele acha que “ só se pode falar de monoteísmo antes de Deutero Isaías, no Antigo Testamento, tomando esse conceito num sentido que nada tenha a ver com a crença num
só Deus” . 5 Contudo, não são poucos os que admitem os primórdios do monoteísmo no ensino dos profetas do oitavo século. I.G. Matthews, por exemplo, opina que o monoteísmo ético baseia-se na noção de irman dade presente no ensino de Amós. 6 Esta idéia relacio na-se, normalmente, com o nome de Wellhaiisen cujas suposições evolutivas no campo da história das reli giões são hoje, na maioria ou em parte, reieitadas. Atri bui-se a ele, também, a noção de que o politeísmo, sob influência profética, transformou-se aos poucos em mo noteísmo. 7 Na verdade, este conceito é anterior a Wellhausen, 8 muito embora tenha se espalhado sob sua influência. W. L. Wardle, por exemplo, escrevia em 1925 na ZAW, “ pode-se considerar, seguramente, predominante a idéia de que a religião de Israel passou gradualmente de um estágio elementar de animismo, toteísmo e fetichismo, a um deísmo tribal, para chegar finalmente ao estágio da religião dos profetas, alcan çado graças à sua influência” . 9 Wardle não negou a existência de sinais de opiniões divergentes. No entan to, bem antes, pesquisadores mais cautelosos atribuí ram o desenvolvimento religioso de Israel, que consta tavam, não às forças naturais, mas à semente plantada por Moisés, que florescera pela influência de homens de Deus, que conhecemos como os profetas. 10
A teoria do desenvolvimento é hoje bastante con testada. Para alguns, o fato de se ligar ao nome de Wellhausen já é razã0 suficiente de descrédito. Natu ralmente, nem todas as teorias de Wellhausen podem ser ainda sustentadas.11 Tampouco, os atuais pesqui sadores podem ter certeza de que suas concepções per maneceram imutáveis por três quartos de século. De vemos admitir que Wellhausen não acertou em tudo. Afirmar, porém, que todas as suas idéias são falsas, seria tão errado como, possivelmente, algumas de süas concepções. Não'posso concordar com ele e seus segiii- dores, em certos pontos, mas o faço com o devido res peito. Tenho plena consciência de que muito devo aos que não pensam como eu. Honrar as sepulturas dos antigos profetas e apedrejar os contemporâneos é ati tude condenada pelo evangelho. Tampouco é louvável lançar pedras contra as sepulturas dos mestres da ge-
ração anterior. Hoje em dia está na moda afirmar-se que o monoteísmo é tão antigo quanto o gênero hu mano. Não se trata de afirmação nova: Andmv . Langl^form ulou-a como hipótese científica e o n o ^ tável pesquisador bíblico, Lagrange, a defendeu. La grange acreditava que a origem da religião semítica estava num monoteísmo em que El era venerado,13/ desdobrando-se, mais tarde, numa pluralidade de deu-* ses. Esta idéia aparece, especificamente, na volumosa obra de W. Schmidt, Der Ursprung der Gotesidee (A origem 3 ... Deus) . 14 Scl idt quer provar que quanto mais primitivo o povo, mais próximo encokr t'ra-se do monoteísmo. Assim, esta deve ser a o w í C da fé .15 O politeísmo então passa a ser cpn&iderádo produto da dissolução do monoteísmo, ÜgadoNacr'pro gresso da cultura.16 Parecem ocultai'-.s^e aí suposi ções tão inaceitáveis como a teorm d^mseôjolvimento, idéia baseada principalmente im ow ^reensão pessi mista da cultura humana. J*
Ouvi, certa vez, IlOTOgeier Robinson comentar com sarcasmo que o monoteísmo, de acordo com o que se disse, seria a r e fe a o das pessoas incapazes de con tar além de três. ^'--Á tese carece de fundamentação de que o§y«í(TO^\assim chamados “ primitivos” , preser vam a mâis ppimordial mentalidade do gênero humano. Sch^id^i afirma que estes povos jamais desempenha- jtjralquer papel determinante no mundo.18 Pa rque sua obra decorre da singular tese de que o ánoteísmo primitivo havia sido a religião dos insig- ____________________ _ - ±- ________________ ^ i- ficância. Além disso tal monoteísmo, assim atribuído ao homem “ primitivo” , não passaria de infrutífera fé num deus cujo único atributo residiria em sua unici dade. Vagas propriedades lhe seriam conferidas, mas, no melhor dos casos, não passaria de uma idéia obscura de divindade. A religião é avaliada segundo o seu ca ráter, não pelo número de seus deuses. O monoteísmo da Bíblia é mais do que a mera crença num só Deus. fÜ monoteísmo, acima exposto, difere absolutamente do ( monoteísmo bíblico.19
O erudito sueco H. Ringgren, em importante tra balho, demonstrou que de modo geral são constatáveis
duas tendências contrárias na religião: a que vai do politeísmo ao monoteísmo e a outra, do monoteísmo ao politeísmo.20 Mediante a substancialização de suas propriedades e realizações, um único deus pode desdo-' brar-se em muitos. Ao contrário, é possível que, de di versas maneiras, muitos deuses se unifiquem em ape nas uma entidade. O caráter do monoteísmo cte ^ e - notcísiBo resultante depende, portanto, da maneira co mo se formou: pode, partindo do politeísmo, passar por um teísmo monárquico e chegar ao monoteísmo; pode adotar uma forma panteísta; como pode se trans formar num ser divino abstrato ( tó theion). Mesmo es-\ tando errada a posição dogmática que sustenta o desen-/ volvimento linear da religião até o monoteísmo, ainda assim é impossível a aceitação de um processo de desen volvimento a partir de um monoteísmo primitivo. O problema não é resolvido nem de uma, nem de outra maneira, a partir de princípios genéricos, mas de pro vas. Pergunta-se então se possuímos fatos suficientes para se chegar com segurança à religião dos primór dios da humanidade.
3< Nãa vamos, no entanto, nos preocupar aqui com o monoteísmo primitivo, mas com o bíblico, 21 que, por sua vez, não pode se derivar de algum presumí vel monoteísmo primitivo. Uma das mais inteligentes réplicas à teoria evolucionista é a afirmação de que o monoteísmo israelita remonta a Moisés.22 Entre os de fensores desta tese encontra-se um pesquisador do porte de Albrigth. Suas idéias23 estão no extraordi nário livro, Frorn the Stone age to Christianity (Da idade da pedra ao cristianismo), a partir de certos es tudos anteriores a respeito,24 e seguidas por outros importantes estudos.25 Albright, contudo, só conse guiu fundamentar um monoteísmo mosaico, como o percebeu Meek,26 dando a esse conceito um novo sig nificado. “ Se a expressão monoteísta designa quem afirma a existência de um só Deus, — argumenta ele, — criador de tudo, fonte da justiça, poderoso tanto no Egito como no deserto e na Palestina, sem gênero ou mitologia, semelhante à figura humana mas invisí vel aos nossos olhos, incapaz de ser representado por imagens — se é esté o significado dessa expressão,
então o fundador do javismo era, de fato, monoV teísta” . 27 A maior parte dos elementos desta defi-I nição não tem nada a ver com a questão do mono-.' teísmo. Na verdade, não oferece provas. 28 Em parte alguma do pentateuco Moisés renega expressamente a existência de outros deuses — tal como encontramos, por exemplo, em Deutero-Isaías — com exceção de textos como Dt 4.33, 39; 32. 39 que, com certeza, não remontam a Moisés.
Não há prova alguma que sustente que em Israel o politeísmo transformou-se, através de um desenvol vimento natural ou por especulações filosóficas, em monoteísmo. Não há prova que sustente que Moisés te nha sido politeísta, no sentido expresso do termo, isto é, que venerasse a mais de um deus. Porém, não há igualmente prova alguma que sustente que ele tenha sido monoteísta, no sentido real do termo, isto é, que negasse a existência de mais de um Deus. Javé deve ria ser o único Deus para Israel, e somente a ele a nação tinha que servir. Tudo parece indicar que Moi-# sés era henoteísta. 29 Afinal, não há como negar a existência de henoteísmo em Israel no periodo pós- mosaico. Albright classifica Jz 11.24 como o testemu nho principal (Paradebeispiel),30 mas insiste que não deve ser levado em conta, porque encontra-se em um discurso dirigido a um outro povo. O confronto se dá no campo intelectual alheio, a partir de seus pró prios pressupostos. Mas seria difícil desconsiderar da mesma forma a passagem de I Sm 26. 19s, onde Davi, em conversa com Saul, afirma que sua expulsão signi ficaria a intimação de servir outros deuses.31 A exis tência de henoteísmo em Israel não precisa nos sur preender, pois não faltam provas de que muitos israe litas caíram da elevada religião de Moisés no poli teísmo. É ainda pouco satisfatório, contudo, afirmar^ que Moisés tenha sido henoteísta. 32 Teríamos ainda que nos confrontar com a questão da passagem do henoteísmo para o monoteísmo. Comumente, os moa- bitas e os amonitas são tomados por henotistas, sendo
Camos o deus de Moabe, e Milcom, o de Amom. Em
verdade, não temos prova alguma de que somente
provável que estes fossem, com efeito, adorados como deuses nacionais, ao lado de outros, assim como, por longo tempo, Javé havia sido o Deus nacional de Israel enquanto o povo ainda cultuava outros deuses. E mes mo se Moabe e Amom tivessem sido henoteístas, te ríamos que perguntar como Israel pôde chegar ao mo noteísmo, e eles não.33 Moabe e Amom não influen ciaram tão profunda e constantemente as religiões da humanidade como Israel.
Sob tais circunstâncias, precisamos nos abster de rotulações convencionais, a fim de perceber onde ver dadeiramente se situa Moisés. Se não pudermos classi ficá-lo entre os monoteístas, é certo que era mais do que puro henoteísta.34 Como já foi mencionado, al guns pesquisadores mais antigos opinaram que a se mente do monoteísmo já se encontrava na obra de Moisés. No mesmo sentido expressa-se Meek, “ pode ser dito, com bastante segurança, que Moisés lançou as sementes do monoteísmo” . 35 Exatamente isto é o que gostaria de ressaltar, de forma mais enfática ainda do que outros. E é isto também que justifica em parte o enfoque extremado da posição de Albrigth.36 O que Moisés fez, foi muito mais do que elevar Israel à referida categoria religiosa de Moabe e Amom. No plano humano, ele foi o fundador da religião de Israel, legando-lhe um caráter peculiar. Assim, pois, o mo noteísmo israelita não é tão decorrente da unicidade de j Javé e da conseqüente legitimidade de sua adoração, quanto do seu caráter religioso. A este respeito, o re- • sultado preponderante do trabalho de Moisés reside me- > nos nos ensinamentos de que Javé deve ser o único Deus, do que na proclamação de sua singularidade.
Há provas suficientes para atestar que Israel pré- ^ mosaico era politeísta. Todos os vizinhos também eram politeístas. O Egito e a Babilônia eram politeístas, 37 e conhecemos agora o suficiente a respeito do panteão de Ras Shamra, onde temos a melhor indicação do que foi a antiga religião cananéia. 38 Os Habiru, que no século 14 a.C. suscitaram tanta agitação na Palestina, muitas vezes identificados com os hebreus, que sob o comando de Josué invadiram a Palestina, eram poli teístas, pois há menções aos “ deuses de Habiru” . 39