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MOISÉS E O MONOTEÍSMO 1 H H ROWLEY

No documento Deus no Antigo Testamento (páginas 98-105)

A determinação da época do surgimento do mo­ noteísmo israelita constitui-se numa das questões atuais da pesquisa veterotestamentária. Entre as mais conhecidas concepções temos, já há algum tempo, a que situa o inicio do monoteísmo nos profetas do oitavo sé­ culo a.C., cuja mais plena expressão encontra-se no Deutero Isaías.2 Causse reporta o início do mono­ teísmo a Elias3 Holscher, no entanto, rejeita essa opinião, porque na religião de Elias não há conse­ qüência teórica desse monoteísmo. Não se nota univer­ salismo algum e não se nega a existência de outros deuses. Pfeiffer vai mais longe, contestando qualquer tipo de monoteísmo antes de Deutero Isaías. Ele acha que “ só se pode falar de monoteísmo antes de Deutero Isaías, no Antigo Testamento, tomando esse conceito num sentido que nada tenha a ver com a crença num

só Deus” . 5 Contudo, não são poucos os que admitem os primórdios do monoteísmo no ensino dos profetas do oitavo século. I.G. Matthews, por exemplo, opina que o monoteísmo ético baseia-se na noção de irman­ dade presente no ensino de Amós. 6 Esta idéia relacio­ na-se, normalmente, com o nome de Wellhaiisen cujas suposições evolutivas no campo da história das reli­ giões são hoje, na maioria ou em parte, reieitadas. Atri­ bui-se a ele, também, a noção de que o politeísmo, sob influência profética, transformou-se aos poucos em mo­ noteísmo. 7 Na verdade, este conceito é anterior a Wellhausen, 8 muito embora tenha se espalhado sob sua influência. W. L. Wardle, por exemplo, escrevia em 1925 na ZAW, “ pode-se considerar, seguramente, predominante a idéia de que a religião de Israel passou gradualmente de um estágio elementar de animismo, toteísmo e fetichismo, a um deísmo tribal, para chegar finalmente ao estágio da religião dos profetas, alcan­ çado graças à sua influência” . 9 Wardle não negou a existência de sinais de opiniões divergentes. No entan­ to, bem antes, pesquisadores mais cautelosos atribuí­ ram o desenvolvimento religioso de Israel, que consta­ tavam, não às forças naturais, mas à semente plantada por Moisés, que florescera pela influência de homens de Deus, que conhecemos como os profetas. 10

A teoria do desenvolvimento é hoje bastante con­ testada. Para alguns, o fato de se ligar ao nome de Wellhausen já é razã0 suficiente de descrédito. Natu­ ralmente, nem todas as teorias de Wellhausen podem ser ainda sustentadas.11 Tampouco, os atuais pesqui­ sadores podem ter certeza de que suas concepções per­ maneceram imutáveis por três quartos de século. De­ vemos admitir que Wellhausen não acertou em tudo. Afirmar, porém, que todas as suas idéias são falsas, seria tão errado como, possivelmente, algumas de süas concepções. Não'posso concordar com ele e seus segiii- dores, em certos pontos, mas o faço com o devido res­ peito. Tenho plena consciência de que muito devo aos que não pensam como eu. Honrar as sepulturas dos antigos profetas e apedrejar os contemporâneos é ati­ tude condenada pelo evangelho. Tampouco é louvável lançar pedras contra as sepulturas dos mestres da ge-

ração anterior. Hoje em dia está na moda afirmar-se que o monoteísmo é tão antigo quanto o gênero hu­ mano. Não se trata de afirmação nova: Andmv . Langl^form ulou-a como hipótese científica e o n o ^ tável pesquisador bíblico, Lagrange, a defendeu. La­ grange acreditava que a origem da religião semítica estava num monoteísmo em que El era venerado,13/ desdobrando-se, mais tarde, numa pluralidade de deu-* ses. Esta idéia aparece, especificamente, na volumosa obra de W. Schmidt, Der Ursprung der Gotesidee (A origem 3 ... Deus) . 14 Scl idt quer provar que quanto mais primitivo o povo, mais próximo encokr t'ra-se do monoteísmo. Assim, esta deve ser a o w í C da fé .15 O politeísmo então passa a ser cpn&iderádo produto da dissolução do monoteísmo, ÜgadoNacr'pro­ gresso da cultura.16 Parecem ocultai'-.s^e aí suposi­ ções tão inaceitáveis como a teorm d^mseôjolvimento, idéia baseada principalmente im ow ^reensão pessi­ mista da cultura humana. J*

Ouvi, certa vez, IlOTOgeier Robinson comentar com sarcasmo que o monoteísmo, de acordo com o que se disse, seria a r e fe a o das pessoas incapazes de con­ tar além de três. ^'--Á tese carece de fundamentação de que o§y«í(TO^\assim chamados “ primitivos” , preser­ vam a mâis ppimordial mentalidade do gênero humano. Sch^id^i afirma que estes povos jamais desempenha- jtjralquer papel determinante no mundo.18 Pa­ rque sua obra decorre da singular tese de que o ánoteísmo primitivo havia sido a religião dos insig- ____________________ _ - ±- ________________ ^ i- ficância. Além disso tal monoteísmo, assim atribuído ao homem “ primitivo” , não passaria de infrutífera fé num deus cujo único atributo residiria em sua unici­ dade. Vagas propriedades lhe seriam conferidas, mas, no melhor dos casos, não passaria de uma idéia obscura de divindade. A religião é avaliada segundo o seu ca­ ráter, não pelo número de seus deuses. O monoteísmo da Bíblia é mais do que a mera crença num só Deus. fÜ monoteísmo, acima exposto, difere absolutamente do ( monoteísmo bíblico.19

O erudito sueco H. Ringgren, em importante tra­ balho, demonstrou que de modo geral são constatáveis

duas tendências contrárias na religião: a que vai do politeísmo ao monoteísmo e a outra, do monoteísmo ao politeísmo.20 Mediante a substancialização de suas propriedades e realizações, um único deus pode desdo-' brar-se em muitos. Ao contrário, é possível que, de di­ versas maneiras, muitos deuses se unifiquem em ape­ nas uma entidade. O caráter do monoteísmo cte ^ e - notcísiBo resultante depende, portanto, da maneira co­ mo se formou: pode, partindo do politeísmo, passar por um teísmo monárquico e chegar ao monoteísmo; pode adotar uma forma panteísta; como pode se trans­ formar num ser divino abstrato ( tó theion). Mesmo es-\ tando errada a posição dogmática que sustenta o desen-/ volvimento linear da religião até o monoteísmo, ainda assim é impossível a aceitação de um processo de desen­ volvimento a partir de um monoteísmo primitivo. O problema não é resolvido nem de uma, nem de outra maneira, a partir de princípios genéricos, mas de pro­ vas. Pergunta-se então se possuímos fatos suficientes para se chegar com segurança à religião dos primór­ dios da humanidade.

3< Nãa vamos, no entanto, nos preocupar aqui com o monoteísmo primitivo, mas com o bíblico, 21 que, por sua vez, não pode se derivar de algum presumí­ vel monoteísmo primitivo. Uma das mais inteligentes réplicas à teoria evolucionista é a afirmação de que o monoteísmo israelita remonta a Moisés.22 Entre os de­ fensores desta tese encontra-se um pesquisador do porte de Albrigth. Suas idéias23 estão no extraordi­ nário livro, Frorn the Stone age to Christianity (Da idade da pedra ao cristianismo), a partir de certos es­ tudos anteriores a respeito,24 e seguidas por outros importantes estudos.25 Albright, contudo, só conse­ guiu fundamentar um monoteísmo mosaico, como o percebeu Meek,26 dando a esse conceito um novo sig­ nificado. “ Se a expressão monoteísta designa quem afirma a existência de um só Deus, — argumenta ele, — criador de tudo, fonte da justiça, poderoso tanto no Egito como no deserto e na Palestina, sem gênero ou mitologia, semelhante à figura humana mas invisí­ vel aos nossos olhos, incapaz de ser representado por imagens — se é esté o significado dessa expressão,

então o fundador do javismo era, de fato, monoV teísta” . 27 A maior parte dos elementos desta defi-I nição não tem nada a ver com a questão do mono-.' teísmo. Na verdade, não oferece provas. 28 Em parte alguma do pentateuco Moisés renega expressamente a existência de outros deuses — tal como encontramos, por exemplo, em Deutero-Isaías — com exceção de textos como Dt 4.33, 39; 32. 39 que, com certeza, não remontam a Moisés.

Não há prova alguma que sustente que em Israel o politeísmo transformou-se, através de um desenvol­ vimento natural ou por especulações filosóficas, em monoteísmo. Não há prova que sustente que Moisés te­ nha sido politeísta, no sentido expresso do termo, isto é, que venerasse a mais de um deus. Porém, não há igualmente prova alguma que sustente que ele tenha sido monoteísta, no sentido real do termo, isto é, que negasse a existência de mais de um Deus. Javé deve­ ria ser o único Deus para Israel, e somente a ele a nação tinha que servir. Tudo parece indicar que Moi-# sés era henoteísta. 29 Afinal, não há como negar a existência de henoteísmo em Israel no periodo pós- mosaico. Albright classifica Jz 11.24 como o testemu­ nho principal (Paradebeispiel),30 mas insiste que não deve ser levado em conta, porque encontra-se em um discurso dirigido a um outro povo. O confronto se dá no campo intelectual alheio, a partir de seus pró­ prios pressupostos. Mas seria difícil desconsiderar da mesma forma a passagem de I Sm 26. 19s, onde Davi, em conversa com Saul, afirma que sua expulsão signi­ ficaria a intimação de servir outros deuses.31 A exis­ tência de henoteísmo em Israel não precisa nos sur­ preender, pois não faltam provas de que muitos israe­ litas caíram da elevada religião de Moisés no poli­ teísmo. É ainda pouco satisfatório, contudo, afirmar^ que Moisés tenha sido henoteísta. 32 Teríamos ainda que nos confrontar com a questão da passagem do henoteísmo para o monoteísmo. Comumente, os moa- bitas e os amonitas são tomados por henotistas, sendo

Camos o deus de Moabe, e Milcom, o de Amom. Em

verdade, não temos prova alguma de que somente

provável que estes fossem, com efeito, adorados como deuses nacionais, ao lado de outros, assim como, por longo tempo, Javé havia sido o Deus nacional de Israel enquanto o povo ainda cultuava outros deuses. E mes­ mo se Moabe e Amom tivessem sido henoteístas, te­ ríamos que perguntar como Israel pôde chegar ao mo­ noteísmo, e eles não.33 Moabe e Amom não influen­ ciaram tão profunda e constantemente as religiões da humanidade como Israel.

Sob tais circunstâncias, precisamos nos abster de rotulações convencionais, a fim de perceber onde ver­ dadeiramente se situa Moisés. Se não pudermos classi­ ficá-lo entre os monoteístas, é certo que era mais do que puro henoteísta.34 Como já foi mencionado, al­ guns pesquisadores mais antigos opinaram que a se­ mente do monoteísmo já se encontrava na obra de Moisés. No mesmo sentido expressa-se Meek, “ pode ser dito, com bastante segurança, que Moisés lançou as sementes do monoteísmo” . 35 Exatamente isto é o que gostaria de ressaltar, de forma mais enfática ainda do que outros. E é isto também que justifica em parte o enfoque extremado da posição de Albrigth.36 O que Moisés fez, foi muito mais do que elevar Israel à referida categoria religiosa de Moabe e Amom. No plano humano, ele foi o fundador da religião de Israel, legando-lhe um caráter peculiar. Assim, pois, o mo­ noteísmo israelita não é tão decorrente da unicidade de j Javé e da conseqüente legitimidade de sua adoração, quanto do seu caráter religioso. A este respeito, o re- • sultado preponderante do trabalho de Moisés reside me- > nos nos ensinamentos de que Javé deve ser o único Deus, do que na proclamação de sua singularidade.

Há provas suficientes para atestar que Israel pré- ^ mosaico era politeísta. Todos os vizinhos também eram politeístas. O Egito e a Babilônia eram politeístas, 37 e conhecemos agora o suficiente a respeito do panteão de Ras Shamra, onde temos a melhor indicação do que foi a antiga religião cananéia. 38 Os Habiru, que no século 14 a.C. suscitaram tanta agitação na Palestina, muitas vezes identificados com os hebreus, que sob o comando de Josué invadiram a Palestina, eram poli­ teístas, pois há menções aos “ deuses de Habiru” . 39

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Muitos nomes proprios israelitas indicam proveniência

No documento Deus no Antigo Testamento (páginas 98-105)