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SUA ORIGEM E SEU DESENVOLVIMENTO

No documento Deus no Antigo Testamento (páginas 167-187)

Estudiosos bem informados geralmente admitem que a descoberta, em Ras Shamra, de vasta literatura de Canaã, às vésperas do estabelecimento hebreu na Palestina, inaugurou nova era no estudo do AT. Não queremos dizer nada, sobre a elucidação da sociologia do Antigo Oriente Médio pelos textos administrativos e textos literários Krt e Aqht, nem sobre a ilustração de certas práticas religiosas, tais como os rituais e sa­ crifícios estacionais. Basta destacar que os textos mi­ tológicos mais elaborados são de grande valor ao ajudar-nos a reavaliar a poesia do AT. Nos Salmos, nos Profetas e no livro de Jó, o legado de Canaã é particularmente visível, especialmente na estrutura poética, no vocabulário e no uso de imagens. Mesmo a mitologia da Canaã politeísta era usada para enri­ quecer a poesia ortodoxa hebraica, ainda bem tarde,

no período pós-exílico, quando o escritor de Jó se re­ fere ao triunfo de Deus sobre a “ serpente primrtiiia!^1 que nós conhecemos de Is 27.1: “ ESvTãíã, a serpente primordial..., Leviatã, a serpente tortuosa” (líwjatan

nahash baríah... liwjatan nahash agalaton). Era, en­

tão, o mesmo monstro cuja morte é celebrada nos textos da Ras Shamra.2

Se contássemos todos os exemplos de forma, estilo e imagens comuns aos poetas cananeus e hebreus, sem dúvida seria possível enfatizar devidamente o signifi­ cado daqueles para o estudo destes. Albright, de fato, o tem assinalado repetidas vezes. Mowinckel, contudo, em sua magistral Offersang of Sangoffer é menos con­ tundente, e numa publicação recente3 rejuta direta­ mente as afirmações de Albright de que as descobertas de Ras Shamra inaugurem uma nova era no estudo dos Salmos hebreus. Quando divergem dois mestres tão famosos, a verdade, raramente, fica de um só lado. Na medida em que se fica em generalizações, nenhuma das posições nos ajuda muito. Ousamos sugerir que a discussão desta questão, com citação de textos de Ras Shamra e do AT, ajudará a aclarar a situação, e será valioso auxílio aos que se interessam por um es­ tudo menos especializado do AT.

Antes de dar início a esta tarefa devemos dizer que as afirmações de Albright, que Mowinkel refuta, levantam expectativas exageradas entre os não-espe- cialistas. Como Mowinckel indicou,4 não existe na lite­ ratura conhecida de Ugarite material semelhante aos salmos hebreus quanto à forma, conteúdo e importân­ cia. Uma possível exceção seriam apenas três ou qua­ tro fragmentos de hinos baseados em modelos mesopo- tâmicos, talvez, transcrições de originais mesopotâmi- cos.5 São, contudo, por demais fragmentários e obscuros para se revestirem de tanta importância. Ao mesmo tempo, devemos admitir que a ausência do sal­ mo, como forma literária, no dialeto local de Canaã, pode ser mais aparente do que real. As referências a hinos no texto de Gordon, UH 52, indicam que, de fato, eram usados cânticos cultuais. É simplesmente aciden­ tal que não tenham chegado até nós espécimes desse gênero literário. Contudo, permanece o fato de que não

existe nenhum exemplo, na literatura ugarítica, de salmos de sabedoria, queixas de um indivíduo sofre­ dor, lamento público ou salmo real, como os conhece­ mos no AT e na literatura mesopotâmica,. Nem sequer existe um hino de louvor comprovado ou atônomo, con­ forme padrões mesopotâmicos ou hebreus, embora os textos mitológicos contenham passagens de tal cunho. Sustentamos, contudo, que existia um texto relativo à entronização de Deus. Mowinckel admite este motivo

nos textos de Eas Shamra bem como a sua influência

na adoração, pensamento e literatura hebraica. Mas ele, com certeza, está errado ao seguir Hvidberg6 e. Kapelrud.7 Estes tomam o texto da vitória do deus . sobre o Caos como sendo o mito que celebra o conflito I entre Baal e Mot. Mas Baal assume o reinado não como conseqüência do conflito com Mot. — cujo resultado se perde numa lacuna — 8 mas a posse dele é o resultado de seu conflito com as águas re­ voltas (G-ordon UH n.° 129; 137; 68). Os mitos em torno do conflito entre Baal e Mot têm, nós achamos, um significado ligado às estações; refere-se a certas crises no decorrer do ano agrícola. Neste contexto, a “ casa” (templo ou palácio) de Baal é construída e fica pronta no tempo das pesadas chuvas de outono.9 Trata-se da única evidência positiva da ligação de parte destes textos à festa do Ano Novo, à qual Mo­ winckel quer relacionar os salmos hebreus de entroni­ zação. Destes textos, que tratam do conflito entre

Baal e Mot, existem no próprio AT muitas adaptações

de imagens e da temática. A “ festa sacrificial de Deus”

(zebah yahweh) Sf 1.7-8, Is 34.6; Jr 46.10; e Ez

39.17-19 e possivelmente também Is 63, pode bem re­ fletir o massacre que Anát empreende contra seus adversários. Foram estes, para tal finalidade, engana­ dos com um banquete no seu templo ( UH ‘nt I I ) ; Zc 12.11 faz referência direta ao luto por Haãaã, Baal cananeu, lamento vivamente descrito no texto UH 67. Isaías menciona o banimento do “ Brilhante filho do amanhecer” em seu canto de escárneo contra o rei da Babilônia (Is 14.12). Este texto nos parece ser suge­ rido pela passagem ugarítica que descreve a incompe­ tência de Attar em preencher o trono vago de Baal e

seu conseqüente desterro (UH 49 n.° I, 15ss).10 Tais passagens, contudo, com outras frases e concepções que poderiam ser citadas, são apenas exemplos esporádicos da influência da literatura cananéia sobre o AT. São embelezamentos literários e, em absoluto, a adaptação de um tema ou ideologia dominantes .Não importa o grau de afinidade que se possa estabelecer, desta for­ ma, entre a literatura ugarítica e o AT. Dificilmente poderíamos considerar tais fatos a inauguração de Uma nova era no estudo do AT, muito menos ainda dos salmos. A estrutura poética e as variações de pa­ ralelismo sobre os quais Albright insiste com tanta ênfase, bem como o vocabulário que em certos casos esclarece obscuridades no saltério e tem até sugerido emendas, não são de caráter revolucionário, cremos, e neste particular concordamos com Mowincbel. No con­ flito de Baal contra as Águas Revoltas, contudo, e sua vitória e posse como rei, temos um grande tema, tam­ bém desenvolvido num dos principais tipos de salmos hebreus. São os salmos de entronização, cujo tema, com variações, penetra a religião hebraica nos salmos, nos profetas e no apocalipsismo desde o período do estabelecimento em Canaã até a era cristã, como se fosse artéria principal. Dentre todos, é de se esperar que Mowinckel seja o primeiro a apreciar o fato. O tema, tal como é representado especialmente nos sal­ mos, referia-se, supomos, à grande crise anual do agri­ cultor cananeu, ou seja, o Novo Ano Outonal. Não obstante, admitamos que nada disto é absolutamente demonstrável através do testemunho interno dos pró­ prios textos. Contudo, este tema cardeal seria muito apropriado para tal festa. O grande tema cósmico não é menos notável nos profetas do que no saltério. Porém, é nos salmos que podemos traçar seu desenvolvimento desde o primeiro estágio de sua adaptação do original cananeu. Um salmo como o SI 93 contém ainda prati­ camente traços autênticos do protótipo cananeu. A redescoberta das primeiras origens tem significado muito além do simples interesse documental. Os traços essenciais de um motivo, apesar da adaptação, não se perderam. Reconhecemo-los, voltando às fontes, com suas ênfases originais, e assim podemos melhor avaliar

o desenvolvimento posterior, no caso, do tema da “ rea­ leza de Deus” . É já por esta razão qne a descoberta do protótipo cananeu, no mito ugarítico do conflito de Baal e as Águas, justifica amplamente a opinião de Albright, da qual Mowinckel discorda.

Nos textos UH 129, 137 e 68, o primeiro, sendo bastante fragmentário, temos o antagonismo entre

Baal e Yam, o Mar. O segundo, bem melhor conserva­

do, mas ainda assim fragmentário, descreve como Yam desafia e até faz tremer a corte divina. Exige a re­ núncia de Baal, ao qual os deuses se submetem vil­ mente, “ abaixando suas cabeças até seus joelhos” em vergonhosa aquiescência.11 Baal, contudo, recusa-se a submeter-se e se torna o líder dos deuses contra a tirania de Yam. ia O terceiro texto é o melhor preser­ vado. Merece ser citado por causa de sua afinidade com a exposição hebraica do conflito de Deus com os „^ p od eres do Caos e também por ilustrar a afinidade formal entre a literatura cananéia e a poesia hebraica em geral.

1. “ Então o Hábil e Perspicaz falou: ‘Eu não te disse, ó príncipe Baal,

não declarei eu, ó tu que cavalgas as nuvens t Eis teus inimigos, ó Baal,

5. eis teus inimigos, tu os golpearás, tu conquistarás teus adversários. Tu assumirás teu eterno reino, tua soberania duradoura’ . O Hábil talha uma dupla clava, 10. e proclama o seu nome.

‘ Teu nome é Caçador. Caçador ataca o mar, derruba o Mar de seu trono,

e até o Rio do lugar de sua soberania. 15. Tu voarás e arrebatarás na mão de Baal,

assim como uma águia em seus dedos. Golpeia os ombros do Príncipe Mar, até o peito do Juiz Rio’ .

20. assim como uma águia em seus dedos. Golpeia os ombros do Príncipe do Mar até o peito de Jniz Rio.

O Mar é forte ; ele não se acalma. Sua força não é enfraquecida ; 25. sua habilidade não falha.

O Hábil talha uma dupla clava e proclama seu nome.

Teu nome é Expulsador. Expulsador, expulsa o Mar, 30. expulsa o Mar de seu trono,

e até mesmo o Rio do lugar de sua soberania. Tu voarás e arrebatarás na mão de Baal, assim como uma águia em seus dedos. Golpeia a cabeça do Príncipe Mar, 35. entre os olhos do Juiz Rio.

Que o Mar sucumba e caia ao chão.

Então voa e arrebata a clava na, mão de Baal, assim como uma águia em seus dedos.

Golpeia a cabeça do Príncipe Mar, 40. entre os olhos do Juiz Rio.

O mar sucumbe e cai ao chão, sua força fica debilitada ; sua agilidade falha.

Baal o arrasta e o dispersa,

45. ele aniquila o Juiz Rio. Com exultação Attarat grita: ‘Dispersa-o, ó poderoso Baal,

Dispersa-o, ó tu que cavalgas as nuvens, pois o Príncipe Mar nos manteve cativos, 50. Ele nos manteve cativos, até o Juiz Rio’ .

Então Baal sai,

Baal o Poderoso o dispersa.

E ( . . . ) o Mar à morte. ‘ Que Baal reine..

Trata-se de, uma expressão cananéia da fé na providência. A ordem na natureza e até mesmo no con­ cílio divino estava ameaçada pela arbitrariedade de­

senfreada, dos poderes do Caos, tipificados pelas águas revoltas. Baal, contudo, defende os deuses e se empe­ nha num duro combate contra as águas. Finalmente vence e sua aclamação como rei sela sua vitória. Passou a ameaça de anarquia. Prevalece a ordem contra o caos. As chuvas equinociais inaugurarão o ano agreste, mas elas não excederão a medida oportuna. 13 Tanto quanto podemos enxergar, os cananeus ficaram con­ tentes com aquela certeza de experimentar a provi­ dência na natureza. Se eles experimentaram, através dela, segurança semelhante na esfera social, os textos de Ras Shamra não o revelam.14 Inclusive, a ideolo­ gia do culto da natureza não se adaptava às exigên­ cias da vida humana, como o culto de Osiris no Egito oii o culto eleusíaco na Grécia.

0 AT, contudo, adaptou o tema e o desenvolveu. Pretendemos, agora, demonstrar esse desenvolvimento da idéia do Reino de Deus.

Esse tema era condizente com os salmos de entro­ nização. Já mostramos o significado do SI 93, onde o motivo cananeu aparece quase que em sua primitiva simplicidade. Javé assume o reinado e em conseqüên­ cia, toda a natureza se ordena e estabelece. Sua sobe­ rania, como a de Baal no texto de Ras Shamra, é afir­ mada como sendo eterna. Existe, assim, uma coerência na natureza. “ Assim como era no princípio, é agora e será sempre” . É lembrada a oposição das águas revoltas:

As enchentes levantaram, ó Senhor, as enchentes levantaram sua voz,

as enchentes levantam suas ondas. (SI 93.3).15 A luta contra Deus, contudo é vã.

0 Senhor nas alturas é mais poderoso do que muitas águas, de fato, mais do que as ondas fortes do mar (SI 93.4).

Até aqui nada se acrescentou ao tema cananeu. Só aparece Javé, em todas as partes, ao invés de Baal. 0 último verso do Salmo, no entanto, leva a certeza de que existe o poder providencial além da natureza para a sociedade.

Teus testemunhos são de fato seguros. (SI 93.5). Neste particular o salmo parece refletir a influ­ ência da epopéia babilónica paralela ao mito cananeu, isto é, o conflito de Marãuque com Tiamat e seus monstruosos aliados, bem como o seu resgate das “ tá- boas do destino” .

O resto dos salmos de entronização mostram um desenvolvimento caracteristicamente hebreu do tema primitivo. A realeza de Deus garante a ordem (tsedeq

mishpat) contra o Caos. O Deus dos hebreus, contudo,

não era uma divindade impessoal da natureza,, como

Baal, mas sim, o Deus particular de uma aliança mili­

tante de confederados. Por isso os poderes do Caos são agora identificados com os inimigos políticos de Israel, Seu povo. São “ as nações” que são vencidas por Deus (SI 97.3). Diante delas Seu reinado é afirmado (SI 96. 3-10: 98.2) a fim de humilhá-los na sua derrota. Sua vitória coloca os pagãos idólatras na vergonha e con­ fusão (SI 97.7). Mais uma vez, contudo, as caracte­ rísticas do mito cananeu primitivo sobrevivem. Além das nações pagãs é o mar que fica obrigado a aclamar o triunfo de Javé.

Que o mar brame e toda a plenitude que há nele (SI 96.11; 98.7).

A ordem de Deus, implícita no seu reinado, se manifesta no seu controle sobre as forças da natureza. Em suas mãos estão os lugares profundos da terra, A força dos montes também lhe pertence (SI 95.4). O mundo também foi fundado para não ser aba­ lado. (SI 96.10)

Outro traço primitivo nestes salmos de entroniza­ ção constitui a afirmação da preeminência da Javé entre os outros deuses (SI 96.4; 97.7). Com efeito, se falou destes deuses pagãos que eles não passavam de ídolos (SI 96.5; 97.7), mas eles são considerados ele­ mentos ativos capazes de temerem Javé (SI 96.4) e até de se inclinarem perante Ele (SI 97.7). Em cone­ xão com isso devemos notar o SI 82, onde Javé é figu­ rado na assembléia divina, julgando no meio dos deuses ( ‘elohim nitsab l>e‘adat ‘el beqereb ‘elohim,

Yishpot). Condena-os por impotência ou relutância em

dade (vv.2-4). Este salmo, insinuamos, pertence tam­ bém à categoria de salmos de entronização, embora a realeza de Deus não seja expressamente mencionada. Parece-nos obviamente baseado no texto ugarítico que já citamos, onde Baal de fato é o único deus efetivo na assembléia divina (UH 137). Aqui de novo, no en­ tanto, notamos o desenvolvimento especificamente hebraico do tema cananeu, o estabelecimento da ordem não só na natureza como também na sociedade. A or­ dem na sociedade, assegurada por julgamento formal, se tornou um traço essencial quando os hebreus adapta­ ram o tema cananeu do triunfo de Deus sobre o Caos. Os salmos de entronização 16 são em si mesmos adaptação direta do tema cananeu da soberania de Deus. Além disso, o motivo em. sua parte essencial, se manifesta como um elemento em salmos de outras cate­ gorias. Nas lamentações da comunidade, por exemplo, a declaração de fé em Deus, sendo um elemento essen­ cial delas, pode incorporar o conflito vitorioso de Deus, com as águas revoltas; por exemplo SI 74.13-15 17; 89.9-10 18; 124.4-5. A posse de seu reinado se aponta no SI 9.4-7; 74.12; 89.18. Ele estabelece ordem na na­ tureza no SI 74.15ss; 89.11-12; 124.8; na história, no SI 9.5-7; e na sociedade no SI 89.19ss. Entre estes sal­ mos deveríamos notar particularmente o SI 89.5-14, que podemos citar integralmente:

Os céus celebram, Javé, tuas obras maravilhosas, tua fidelidade na assembléia dos santos.

Pois, quem nas nuvens se pode comparar com Javé, quem a Javé se iguala entre os deuses?

É Deus que causa terror no conselho dos santos grande e terrível a todos no seu âmbito.

Javé, Deus dos Exércitos, quem é como Tu? Cercado por tua força e fidelidade,

Tu dominas o orgulho do mar,

quando suas ondas se levantam tu as reprimes. Tu transpassaste e feriste Rahab,

dispersaste teus inimigos com teu poderoso braço. Teus são os céus, tua é também a terra.

O mundo e sua plenitude — foste tu que o fundaste o Norte e o Sul — tu os criaste.

Teu é um braço de força heróica, poderosa tua mão, sublime tua direita. Justiça e direito são suportes de teu trono, amor e lealdade diante de teu rosto marcham.19 Então, estão presentes os traços essenciais do mito cananeu contidos no texto UH 68, a saber, a vitória de Deus sobre as águas revoltas (vv.9-10), seu esta­ belecimento da ordem na natureza e seu reinado (im­ plícito na citação acima e explícito no v.19) Não so­ mente isso, mas também o motivo do outro fragmento do mesmo mito cananeu (UH 137), a defesa da assem­ bléia divina por parte de Deus, está também incluído

(vv.6-8). Este mesmo também é, afirmamos, o tema do SI 82. Existe até um eco do mito cananeu na la­ mentação do indivíduo sofredor como no SI 42.7ss e naquele salmo do livro de Jonas onde as águas são o símbolo de tudo aquilo que milita, contra a vida, saúde e paz do homem.

Também no hino de louvor que enumera os atri­ butos e as façanhas de Deus dignos de louvor, encon­ tramos ocasionalmente uma volta ao tema cananeu com a devida ênfase em um ou mais de seus elementos essenciais. O triunfo de Deus sobre as águas, é descrito em SI 29.3-10; 46.3; 65.7 e 104.7ss. Afirma-se que Deus é entronizado sobre os dilúvios (SI 29.10). E como resultado de seu triunfo sobre as águas, é esta­ belecida a ordem na natureza (SI 46.1-5; 65.6 e 9-13; 104.8s), e na história (SI 46.6-11; 65.7). De todos estes salmos, o SI 46 é uma ilustração particularmente boa da tendência hebraica de voltar para a história o mito cananeu da natureza.

Deve-se admitir que não podemos datar todos os salmos citados no período da monarquia hebraica. Nem podemos dar a data de origem com precisão no caso daqueles textos que provavelmente pertencem a esta época. Obviamente, contudo, um cântico como o SI 89, especificando a ordem divina como favor de Deus à casa real de Judá, deve ser datado para um período anterior ao exílio. O mesmo vale para o SI 46, que não visa ainda o colapso de Judá. Do ponto de vista de conteúdo, podemos afirmar que aqueles Salmos

que visualizam Javé como um entre muitos deuses, por exemplo, Sl 82; 89; 96; e 97, são certamente antigos. SI 93, que tão estreitamente reproduz o protótipo ca- naneu em todas as suas limitações, parece ser bem arcaico. Mesmo admitindo que não haja critério segura quanto à data neste caso, o salmo para nós é signifi­ cativo pelo fato de que serve como ponto de partida para nosso estudo e compreensão do desenvolvimento hebraico do tema cananeu. T. H. Gaster é da opinião de que os elementos mitológicos entraram na literatura hebraica apenas no período exílico e pós-exílico, quan­ do se supõe um ressurgimento, por assim dizer, de um interesse arqueológico. 20 Todavia, os salmos demons­ tram que no período monárquico a literatura e a litur­ gia de Canaã haviam imprimido uma marca distinta na literatura e no pensamento religioso dos hebreus. O que é realmente significativo é que esta influência se estendeu muito além do uso de imagens e de técni­ cas literárias, por mais amplas que sejam tais afini­ dades. Ora, a influência cananéia até atinge conceitos de vital importância como o da realeza de Deus e suas implicações de longo alcance para a fé e a doutrina hebraica e mesmo cristã.

À luz destes fatos é agora possível reconhecer em outras partes do AT e das escrituras judaicas poste­ riores, bem como cristãs, os elementos essenciais deste grande tema. Onde os encontramos fragmentados, como freqüentemente acontece, o resto, explícito ou implí­ cito, pode ser reconstruído como se fosse um mosaico quebrado.

Assim, em Isaías a revelação da realeza de Javé no chamamento do profeta (Is 6), implica no seu triunfo sobre os poderes do Caos e na condenação ou julgamento destes. Constatamos, neste caso, uma subli­ mação do antigo tema cananeu e mesmo de sua adapta­ ção hebraica contemporânea, pois se dá uma, identifi­ cação dos poderes do Caos com tudo aquilo que é

No documento Deus no Antigo Testamento (páginas 167-187)