FCT/UNL, Probabilidades e Estat´ıstica I
MLE
1
Introdu¸c˜
ao
Neste cap´ıtulo estudamos as no¸c˜oes de probabilidade condicional e de independˆencia de conjuntos enfatizando as aplica¸c˜oes nos casos simples em que o espa¸co de probabilidades ´e finito. Tal como no primeiro cap´ıtulo recomendamos a leitura das obras que desenvolvem o formalismo introdut´orio da teoria das probabilidades a um n´ıvel universit´ario, nas quais se incluem [Fel68], [Shi96], [Sin92] e [Gne67] e [Par92].
2
Probabilidade condicional e independˆ
encia
Com a probabilidade condicional faz-se intervir o aumento da informa¸c˜ao dispon´ıvel na modela¸c˜ao matem´atica dos eventos aleat´orios.
Defini¸c˜ao 1. Seja (Ω,A, P) um espa¸co de probabilidade e B ∈ A um acon-tecimento verificando P[B] > 0. Para qualquer acontecimento A ∈ A, a pro-babilidade condicional de A dado B, representada por P[A | B], ´e definida por:
P[A | B] = P[A ∩ B]P[B] .
A proposi¸c˜ao seguinte permite aplicar `as probabilidades condicionais todo o forma-lismo dispon´ıvel para a no¸c˜ao de probabilidade.
Proposi¸c˜ao 1. A aplica¸c˜ao que a A ∈A associa P[A | B] ´e uma probabilidade sobre (Ω,A).
Demonstra¸c˜ao. A verifica¸c˜ao decorre imediatamente das defini¸c˜oes.
Defini¸c˜ao 2. Seja (Ω,A, P) um espa¸co de probabilidade e A, B ∈ A aconteci-mentos. A e B dizem-se independentes se e s´o se:
Nota¸c˜ao 1. Para A e B independentes num dado espa¸co de probabilidade escrevemos A ⊥⊥ B.
Observa¸c˜ao 1 (Independˆencia e disjun¸c˜ao). Sejam A e B acontecimentos independentes e disjuntos. Ent˜ao tem-se que:
0 =P[∅] = P[A ∩ B] = P[A]P[B] ,
o que implica, pela lei de anulamento do produto, que ou P[A] = 0 ou P[B] = 0. Ou seja, se dois acontecimentos incompat´ıveis (isto ´e, sem realiza¸c˜oes em comum) forem independentes ent˜ao um deles, pelo menos, tem probabilidade nula.
Observa¸c˜ao 2 (Auto-independˆencia e disjun¸c˜ao). Seja A um acontecimento independente de si pr´oprio. Ent˜ao tem-se que:
P[A] = P[A ∩ A] = P[A]P[A] = P[A]2 ,
o que implica que ouP[A] = 0 ou P[A] = 1. Isto ´e, se um acontecimento for independente de si pr´oprio ent˜ao, ou tem probabilidade nula ou tem probabilidade unit´aria.
A proposi¸c˜ao seguinte mostra que a no¸c˜ao de independˆencia probabil´ıstica de dois acontecimentos coincide, nos casos n˜ao triviais de conjuntos com probabilidades n˜ao nulas, com o facto de sabermos que se um dos acontecimentos ocorreu isso n˜ao altera a probabilidade do outro.
Proposi¸c˜ao 2 (Independˆencia de dois acontecimentos). Seja (Ω,A, P) um espa¸co de probabilidade. Se B for um acontecimento com probabilidade n˜ao nula ent˜ao B ´e independente de um qualquer outro acontecimento A se e s´o se a probabilidade condicional de A dado B for igual `a probabilidade de A, isto ´e,
∀A, B ∈A P[B] > 0 ⇒ (A ⊥⊥ B ⇔P[A | B] = P[A]) . (1)
Demonstra¸c˜ao. ´E uma simples aplica¸c˜ao das defii¸c˜oes. Se P[B] > 0 vem, primeiro, em resultado da independˆencia que
P[A | B] = P[A ∩ B]P[B] = P[A]P[B]
P[B] =P[A] ,
o que mostra que a condi¸c˜ao mais `a direita na f´ormula (1) ´e necess´aria. Em segundo lugar, se se verificar a condi¸c˜ao mais `a direita na f´ormula (1), vir´a que:
P[A]P[B] = P[A | B]P[B] = P[A ∩ B]P[B] P[B] = P[A ∩ B] ,
o que mostra que A e B s˜ao independentes e que, portanto, a codi¸c˜ao ´e suficiente. A proposi¸c˜ao seguinte mostra, num caso particular simples, uma propriedade geral muito importante: faz todo o sentido definir a no¸c˜ao de independˆencia no contexto das ´
Proposi¸c˜ao 3 (Independˆencia e ´algebras-σ). Seja Ω um conjunto e A, B ∈ P(Ω). Ent˜ao tem-se que:
1. σ({A}) := {∅, A, Ac, Ω} e σ({B}) := {∅, B, Bc, Ω} s˜ao ´algebras-σ sobre Ω. 2. A e B s˜ao acontecimentos independentes se e s´o se, todos os conjuntos de σ({A}) forem (dois a dois) independentes de todos os conjuntos de σ({B}), isto ´e, se e s´se:
∀C ∈ σ({A}) ∀D ∈ σ({B}) C ⊥⊥ D .
Demonstra¸c˜ao. A primeira afirma¸c˜ao demonstra-se sem dificuldade recorrendo `a de-fini¸c˜ao de ´algebra-σ. Para demonstrar a segunda afirma¸c˜ao, a ´unica verifica¸c˜ao n˜ao trivial ´e que que A ⊥⊥ Bc(ou que Ac⊥⊥ B). Mas, por exemplo no primeiro caso
observa-se que, pela aditividade das probabilidades e, por observa-se verificar que A ⊥⊥ B, P [A] = P [A ∩ Ω] = P [A ∩ (B ∪ Bc)] =P [(A ∩ B) ∪ (A ∩ Bc )] =
=P [A ∩ B] + P [A ∩ Bc] =P [A] P [B] + P [A ∩ Bc] , donde resulta que:
P [A ∩ Bc] =P [A] − P [A] P [B] = P [A] (1 − P [B]) = P [A] P [Bc] ,
demonstrando-se assim que A ⊥⊥ Bc.
Proposi¸c˜ao 4 (Probabilidade Composta). Seja (Ω,A, P) um espa¸co de proba-bilidade. Seja A1, . . . , AN, · · · ∈A, tal que
∀N ≥ 2 P [A1∩ · · · ∩ AN −1] > 0 .
Ent˜ao, para qualquer N ≥ 2: P " N \ n=1 An # =P [A1] ×P [A2| A1] ×P [A3| A1∩ A2] × · · · ×P " AN | N −1 \ n=1 An # .
Demonstra¸c˜ao. Para N = 2 a proposi¸c˜ao resulta da defini¸c˜ao de probabilidade con-dicional. Para o caso geral demonstra-se por indu¸c˜ao. Suponha-se que se verifica a propriedade para um dado N > 2, isto ´e que:
P " N \ n=1 An # =P [A1] N Y k=2 P " Ak| k−1 \ n=1 An # . (2)
Verifiquemos a propriedade para o inteiro N + 1. Para tal basta observar que pela associatividade da intersec¸c˜ao e pela defini¸c˜ao de probabilidade condicional:
P "N +1 \ n=1 An # =P " AN +1∩ N \ n=1 An !# =P " AN +1| N \ n=1 An !# P " N \ n=1 An !# .
Pela hip´otese de recorrˆencia dada pela f´ormula (2): P " AN +1| N \ n=1 An !# P " N \ n=1 An !# =P [A1] N +1 Y k=2 P " Ak| k−1 \ n=1 An # , ou seja, P "N +1 \ n=1 An # =P [A1] N +1 Y k=2 P " Ak| k−1 \ n=1 An # , isto ´e, a propriedade enunciada para o inteiro N + 1.
Proposi¸c˜ao 5 (Probabilidade Total). Seja (Ω,A, P) um espa¸co de probabili-dade. Seja A1, . . . , AN, · · · ∈A uma parti¸c˜ao de Ω. Verifica-se que:
(∀n ≥ N P [An] > 0) ⇒ ∀B ∈A P [B] = +∞ X n=1 P [B | An]P [An] ! . (3)
Demonstra¸c˜ao. O teorema resulta das propriedades das probabilidades. Com efeito, dado que (An)n≥1 ´e uma parti¸c˜ao de Ω, pela aditividade-σ da probabilidade:
P [B] = P " B ∩ +∞ [ n=1 An !# =P "+∞ [ n=1 (B ∩ An) # = +∞ X n=1 P [B ∩ An] . (4)
Finalmente, uma vez que para cada n ≥ 1 se tem que P [An] > 0, pela defini¸c˜ao de
probabilidade condicional:
P [B ∩ An] =P [B | An]P [An]
o que, substitu´ıdo no termo `a direita em (4), d´a a f´ormula anunciada.
Teorema 1 (Teorema de Bayes ou da probabilidade das causas). Seja (Ω,A, P) um espa¸co de probabilidade. Seja A1, . . . , AN, · · · ∈ A uma parti¸c˜ao de Ω tal
que para n ≥ 1 se verifique: P [An] > 0. Ent˜ao para qualquer B ∈ A tal que
P [B] > 0:
∀i ≥ 2 P [Ai| B] = P [B | Ai]P [Ai] P+∞
n=1P [B | An]P [An]
.
Demonstra¸c˜ao. O teorema de Bayes ´e uma consequˆencia imediata das defini¸c˜oes relativas `
as probabilidades condicionais e da proposi¸c˜ao 5 relativa `a probabilidade total. Com efeito tem-se, em resultado da f´ormula (3) que:
P [Ai | B] = P [Ai ∩ B] P [B] = P [B | Ai]P [Ai] P [B] = P [B | Ai]P [Ai] P+∞ n=1P [B | An]P [An] .
Observa¸c˜ao 3. Uma ilustra¸c˜ao muito interesssante do teorema1, no contexto dos ensaios cl´ınicos, pode ser estudada no exerc´ıcio 10.
Defini¸c˜ao 3 (Acontecimentos independentes no seu conjunto). Uma fam´ılia de acontecimentos (Ai)i∈I indexada por um conjunto I, ´e uma fam´ılia de
aconteci-mentos independentes no seu conjunto ou, mutuamente independentes, se e s´o se: ∀N ≥ 2 ∀i1, i2, . . . , iN ∈ I P "N \ k=1 Aik # = N Y k=1 P [ Aik]
Observa¸c˜ao 4. Deve sublinhar-se que os elementos da fam´ılia (Ai)i∈I podem ser dois a
dois independentes, verificando a defini¸c˜ao1mas n˜ao serem mutuamente independentes no sentido da defini¸c˜ao 3. Um exemplo dessa situa¸c˜ao pode ser estudado no exerc´ıcio 7. As propriedades das probabilidades implicam que a f´ormula de defini¸c˜ao de aconte-cimentos independentes vale para um n´umero infinito numer´avel de acontecimentos.
Proposi¸c˜ao 6 (Acontecimentos independentes no seu conjunto). Seja I =N e (An)n∈N uma fam´ılia de acontecimentos independentes no seu conjunto, ent˜ao:
P "+∞ \ n=0 An # = +∞ Y n=0 P [An] .
Demonstra¸c˜ao. A proposi¸c˜ao ´e uma consquˆencia da continuidade da probabilidade 1, se observarmos que sendo, por defini¸c˜ao,
BN := N
\
n=0
An
se tem que BN +1⊆ BN, ou seja que a sucess˜ao (BN)n≥1´e decrescente. Observe-se ainda
que +∞ \ N =1 BN = +∞ \ N =1 N \ n=0 An ! = +∞ \ n=0 An,
o que implica, pela continuidade da probabilidade referida que: P "+∞ \ n=0 An # =P "+∞ \ N =1 BN # = lim N →+∞P [BN] =N →+∞lim P " N \ n=0 An # = = lim N →+∞ N Y n=0 P [An] = +∞ Y n=0 P [An] 1
Este resultado foi estudado no primeiro cap´ıtulo. Se (An)n≥1 for uma sucess˜ao decrescente de
conjuntos ent˜aoP ∩+∞
n=1An = limn→+∞P [An] e, tamb´em, se (An)n≥1 for uma sucess˜ao crescente de
As no¸c˜oes de convergˆencia seguintes permitem transpor para os conjuntos as no¸c˜oes de maior sublimite, menor sublimite e de limite de uma sucess˜ao, no¸c˜oes que foram estudadas no contexto das sucess˜oes de n´umeros reais.
Defini¸c˜ao 4 (Convergˆencias de conjuntos). Seja Ω um conjunto e A1, . . . , AN, · · · ∈A uma sucess˜ao de subconjuntos de Ω. Ent˜ao podemos definir
os seguintes limites.
1. O limite superior da sucess˜ao (An)n≥1 dado por:
lim sup n→+∞ An:= +∞ \ n=1 [ m≥n Am ,
que ´e o acontecimento formado pelas realiza¸c˜oes que pertencem a uma infinidade de elementos da sucess˜ao (An)n≥1.
2. O limite inferior da sucess˜ao (An)n≥1 dado por:
lim inf n→+∞An:= +∞ [ n=1 \ m≥n Am ,
que ´e o acontecimento formado pelas realiza¸c˜oes que pertencem a todos salvo talvez a um n´umero finito de elementos da sucess˜ao (An)n≥1.
3. O limite da sucess˜ao (An)n≥1 que existe sempre que se verifica
lim supn→+∞An = lim infn→+∞An ´e, por defini¸c˜ao, igual a esse valor
comum, ou seja: lim
n→+∞An:= lim supn→+∞ An= lim infn→+∞An.
A determina¸c˜ao dos sublimites ou do limite de uma sucess˜ao de conjuntos, no caso em que a sucess˜ao converge n˜ao ´e, em geral, f´acil. No entanto, os casos das sucess˜oes mon´otonas s˜ao not´aveis.
Proposi¸c˜ao 7 (Convergˆencias de conjuntos). Seja Ω um conjunto e A1, . . . , AN, · · · ∈A uma sucess˜ao de subconjuntos de Ω. Tem-se que:
1. lim infn→+∞An⊆ lim supn→+∞An;
2. se a sucess˜ao (An)n≥1 for crescente ent˜ao: limn→+∞An=S+∞n=1An;
3. se a sucess˜ao (An)n≥1 for decrescente ent˜ao: limn→+∞An=
T+∞ n=1An.
observemos que para um dado p ≥ 1 fixo se tem, para qualquer q ≥ 1: \ m≥p Am ⊆ [ m≥q Am
pelo que vir´a uma vez que q ≥ 1 ´e arbitr´ario que
\ m≥p Am ⊆ \ q≥1 [ m≥q Am = lim sup n→+∞ An
o que, por sua vez implica, uma vez que n˜ao h´a restri¸c˜ao nos valores de p ≥ 1 que:
lim inf n→+∞An= [ p≥1 \ m≥p Am ⊆ \ q≥1 [ m≥q Am = lim sup n→+∞ An
Suponhamos que a sucess˜ao (An)n≥1 ´e crescente. Ent˜ao:
\ m≥n Am = An pelo que lim inf n→+∞An= +∞ [ n=1 \ m≥n Am = +∞ [ n=1 An. (5)
Por outro lado temos sempre que, para qualquer n ≥ 1
[ m≥n Am⊆ +∞ [ m=1 Am ⇒ lim sup n→+∞ An= +∞ \ n=1 [ m≥n Am ⊆ +∞ [ m=1 Am . (6)
Juntando as f´ormulas (5) e (6) temos finalmente, em consequˆencia da primeira asser¸c˜ao do enunciado que: +∞ [ n=1 An= lim inf n→+∞An⊆ lim supn→+∞ An⊆ +∞ [ n=1 An,
o que implica, que a sucess˜ao (An)n≥1 admite limite e que limn→+∞An =
S+∞ n=1An. A
demostra¸c˜ao da terceira asser¸c˜ao da proposi¸c˜ao ´e semelhante `a demosntra¸c˜ao da segunda asser¸c˜ao.
Os dois lemas seguintes mostram como relacionar informa¸c˜ao sobre elementos indi-viduais de uma sucess˜ao de acontecimentos com a informa¸c˜ao sobre conjuntos not´aveis constru´ıdos a partir dessa sucess˜ao de acontecimentos. O segundo lema oferece uma aplica¸c˜ao importante da no¸c˜ao de independˆencia de conjuntos.
Teorema 2 (Lemas de Borel Cantelli). Seja (Ω,A, P) um espa¸co de pro-babilidade e uma sucess˜ao de acontecimentos A1, . . . , AN, · · · ∈ A. Defina
lim supn→+∞An, o limite superior da sucess˜ao (An)n≥1. Mostre que:
1. Se P+∞
n=1P [An] < +∞ ent˜aoP lim supn→+∞An = 0.
2. Se (An)n≥1 for uma sucess˜ao de acontecimentos independentes ent˜ao: +∞ X n=1 P [An] = +∞ ⇒P lim sup n→+∞ An = 1 .
Demonstra¸c˜ao. Dado que se verifica para qualquer n ≥ 1 que
+∞ \ n=1 [ m≥n Am ⊆ [ m≥n Am
o primeiro lema decorre trivialmente de se ter, em consequˆencia da monotonia da pro-babilidade, que P lim sup n→+∞ An =P +∞ \ n=1 [ m≥n Am ≤P [ m≥n Am ≤ X m≥n P [Am] ≤ X m≥n P [Am] .
A conclus˜ao segue, observando que uma vez que n ≥ 1 ´e arbitr´ario e que por hip´otese P+∞
n=1P [An] < +∞, isto ´e, a s´erie das probabilidades converge, se tem quePm≥nP [Am],
o resto da s´erie, tende para zero quando n tende para +∞.
O segundo lema decorre da continuidade da probabilidade, e da independˆencia dos acontecimentos da sucess˜ao. Vamos mostrar que P [lim infn→+∞Acn] = 0, atendendo a
que: 1 −P lim sup n→+∞ An =P +∞ \ n=1 [ m≥n Am c =P +∞ [ n=1 \ m≥n Acm =P lim inf n→+∞A c n .
Observemos que definindo
Bn=
\
m≥n
Acm
a sucess˜ao (Bn)n≥1´e crescente pelo que pela continuidade da probabilidade, referida na
demonstra¸c˜ao da proposi¸c˜ao 6, se tem que P lim inf n→+∞A c n =P "+∞ [ n=1 Bn # = lim n→+∞P [Bn] . (7)
Note-se que para qualquer p ≥ 1, pela independˆencia dos acontecimentos da sucess˜ao (An)n≥1, a condi¸c˜ao \ m≥n Acm⊆ n+p \ m=n Acm
implica, usando a majora¸c˜ao 1 − x ≤ e−x que ´e v´alida para x ≥ 0 que, P [Bn] ≤P "n+p \ m=n Acm # = n+p Y m=n P [Ac m] = n+p Y m=n (1 −P [Am]) ≤ n+p Y m=n e−P[Am]= = exp − n+p X m=n P [Am] ! . (8)
Finalmente, a hip´otese P+∞
n=1P [An] = +∞, onde se sup˜oe a divergˆencia da s´erie das
probabilidades, implica que:
lim p→+∞ n+p X m=n P [Am] = +∞ ,
pelo que, a majora¸c˜ao da f´ormula (8) implica que P [Bn] = 0, o que por sua vez pela
f´ormula (7) implica queP [lim infn→+∞Acn] = 0, isto ´e, o resultado anunciado no segundo
lema de Borel-Cantelli.
3
Exerc´ıcios
Exerc´ıcio 1 (Localiza¸c˜ao de um documento). [Jaf76, p. 15] Considerem-se as seguintes hip´oteses. [1]
H1 O documento X pode estar arquivado ou n˜ao. A probabilidade de que esteja arquivado ´e 1/2. H2 Na sala de arquivo h´a 9 estantes. O documento X pode ter sido arquivado numa qualquer das 9
estantes com igual probabilidade.
1. Determine p a probabilidade de que o documento X esteja na nona estante.
2. Determine q a probabilidade de que tendo verificado que o documento n˜ao se encontra nas oito primeiras estantes, o documento esteja na nona estante.
3. Comente a rela¸c˜ao observada entre p e q.
Exerc´ıcio 2 (Primeiro exemplo de acontecimentos independentes). Considere um modelo para dois [1]
lan¸camentos sequenciais de um dado equilibrado. Considere os acontecimentos:
B = {no primeiro lan¸camento saiu 6 } , A = {no segundo lan¸camento saiu 2 } . Mostre que A e B s˜ao independentes.
Exerc´ıcio 3. [Jaf76, p. 17] Sejam a, b e N trˆes inteiros estritamente positivos tais que N seja divis´ıvel [2]
por a e por b. Seja ω extra´ıdo ao acaso em Ω = {1, 2, . . . , N }. Considere os dois acontecimentos: A = {ω ´e divis´ıvel por a} , B = {ω ´e divis´ıvel por b} .
Dˆe uma condi¸c˜ao para que A e B sejam independentes.
Exerc´ıcio 4. [Jaf76, p. 15] Numa assembleia de N pessoas escolhe-se uma comiss˜ao com s elementos e, [1]
de entre estes, um presidente. Sabendo que uma certa pessoa da assembleia n˜ao ´e presidente da comiss˜ao, qual ´e a probabilidade dessa pessoa fazer parte da comiss˜ao?
Exerc´ıcio 5. [KL72, p. 74] Procuramos um guarda chuva que se encontra com uma probabilidade p/7 [1]
num qualquer dos sete andares de um pr´edio. Procurou-se em v˜ao nos seis primeiros andares. 1. Determinar a probabilidade que o guarda-chuva se encontre no s´etimo andar.
2. Seja f (p) a probabilidade determinada na al´ınea anterior. Represente graficamente a varia¸c˜ao de f (p) em fun¸c˜ao de p.
Exerc´ıcio 6 (Sobre a f´ormula das probabilidades totais). [KL72, p. 74] Uma urna contem bolas brancas [1]
e pretas. Efectuamos uma sequˆencia de n tiragens na urna. Supomos que a probabilidade que a k-´esima bola saia branca, dado que as k − 1 bolas tirandas anteriormente o eram tamb´em, ´e igual a 1/(k + 1). Determine a probabilidade de que as n primeiras bolas sejam todas brancas.
Exerc´ıcio 7 (Acontecimentos independentes dois a dois e acontecimentos mutuamente independentes2).
[Mig05, p. 20] Considere um tetraedro regular equilibrado em que uma das faces ´e verde, uma outra ´e [1]
encarnada, uma outra ´e azul e a quarta face ´e `as pintas encarnadas, azuis e verdes. Lan¸camos o tetraedro sobre uma superf´ıcie e observamos a face apoiada. Para cada uma das cores c ∈ {V, A, E}, considere os acontecimentos: Ac= { A face apoiada contem a cˆor c}. Estude, quanto `a independˆencia,
os acontecimentos Ac para c ∈ {V, A, E}.
Exerc´ıcio 8. Considere uma sucess˜ao infinita de lan¸camentos independentes de uma moeda equilibrada [2]
ao ar. Em cada lan¸camento n h´a dois resultados poss´ıveis, a saber, cara (0) e coroa (1) e, como a moeda ´e equilibrada temos quePn[{1}] = 0.5 =Pn[{0}]. Admita-se que o modelo para o fen´omeno atr´as descrito
´
e o seguinte. Ω = {(αn)n≥1: αn∈ {0, 1}}, a ´algebra -σ est´a bem definida e a probabilidadeP do modelo ´e
tal que se um dado acontecimento A ∈A s´o depender de um n´umero finito de lan¸camentos N ≥ 1, ent˜ao P[A] coincide comPbN[A] em que bPNe a probabilidade usual sobre {0, 1}´ N= {(β1, . . . , βN) : βi∈ {0, 1}}.
Mais concretamente, para (β1, . . . , βN) ∈ {0, 1}N tem-se que:
b PN[{(β1, . . . , βN)}] = N Y n=1 Pn[{βn}] .
1. Considerando para cada N ≥ 1 o acontecimento definido por sa´ıram caras nos N primeiros lan¸camentos, isto ´e:
AN= {(αn)n≥1: αn∈ {0, 1} , ∀ 1 ≤ i ≤ N αi= 1}}
mostre que a probabilidade de s´o sa´ırem caras numa infinidade de lan¸camentos independentes de uma moeda equilibrada ao ar ´e nula.
2. Considerando para cada N ≥ 1 o acontecimento definido por sa´ıu caras no lan¸camento N , isto ´e:
BN= {(αn)n≥1: αn∈ {0, 1} , αN= 1}}
mostre que vale 1 a probabilidade de numa dada infinidade de lan¸camentos independentes de uma moeda equilibrada ao ar sa´ırem uma infinidade de caras e uma infinidade de coroas.
Exerc´ıcio 9. Seja para cada N ≥ 1 um prisma PN de base quadrada com lado igual a 1/N e de altura [3]
N/4. Suponhamos que por raz˜ao de simetria e de homogeneidade, quando lan¸camos o prisma ele aterra numa dada face com probabilidade proporcional `a ´area da face.
2
Na obra cl´assica [Fel68, p. 126] W. Feller refere que as situa¸c˜oes em que os eventos s˜ao independentes dois a dois mas n˜ao s˜ao mutuamente independentes s˜ao t˜ao raras que o fen´omeno passou despercebido at´e que o matem´atico S. Bernstein constru´ıu um exemplo artificial.
1. Mostre que sendo aN a ´area total do prisma e sendo li = {o prisma ca´ıu sobre a face i}, para
i = 1, . . . , 4, e se bj = {o prisma ca´ıu sobre a base j}, para j = 1, 2, se considerarmos Ω =
{l1, l2, l3, l4, b1, b2} e A = P(Ω) e ainda, P[li] = 1 4aN ,P[bi] = 1 N2a N ,
ent˜ao o espa¸co de probabilidade (Ω,A, P) ´e um modelo para o lan¸camento de o prisma PNdescrito
acima.
2. Seja para cada N ≥ 1 o acontecimento AN definido pela condi¸c˜ao: o prisma cai sobre uma
das bases. Mostre que se lan¸car sequencialmente os prismas P1, P2, . . . , PN, . . . a probabilidade
de uma infinidade de prismas ca´ırem sobre uma das suas bases ´e zero.
3. Seja para cada N ≥ 1 o acontecimento BN definido pela condi¸c˜ao: o prisma cai sobre uma
das faces laterais. Mostre que se lan¸car sequencialmente e de forma independente os prismas P1, P2, . . . , PN, . . . a probabilidade de uma infinidade de prismas ca´ırem sobre uma das suas faces
laterais ´e um.
Exerc´ıcio 10 (Probabilidade das causas). Suponhamos que ´e poss´ıvel efectuar um teste de diagn´ostico [1]
de uma doen¸ca tal que:
• a probabilidade que o teste dˆe positivo sabendo que o paciente tem a doen¸ca ´e 0.95; • a probabilidade que o teste dˆe negativo sabendo que o paciente n˜ao tem a doen¸ca ´e 0.95; • a probabilidade que um paciente tenha a doen¸ca ´e: 0.005.
Determine a probabilidade que uma pessoa com um teste positivo tenha a doen¸ca. Resposta: 8.7156%.
Exerc´ıcio 11 (Probabilidade das causas). Sejam A1 e A2 dois conjuntos de bolas brancas e pretas. [1]
Suponhamos que:
• A1 contem 70% de bolas brancas;
• A2 contem 80% de bolas brancas;
• A1 contem 3 vezes mais bolas que A2.
Colocam-se todas as bolas de A1 e A2 numa urna e tira-se ao acaso uma bola da urna observando-se que
´
e branca. Qual a probabilidade que a bola provenha do conjunto A1.
Resposta: 72.4138%.
Exerc´ıcio 12. Uma urna contem quatro bolas vermelhas e seis bolas pretas, distintas umas das outras. [1]
Retiramos duas bolas da urna sequencialmente. Determine a probabilidade que a primeira bola extra´ıda seja vermelha e a segunda seja preta sabendo que:
1. a primeira bola ´e reposta na urna antes da segunda extrac¸c˜ao; 2. n˜ao se rep˜oe a primeira bola extra´ıda na urna.
Respostas: 24/100 e 24/90.
Exerc´ıcio 13. Uma urna contem sete bolas vermelhas, cinco bolas brancas e trˆes bolas pretas, distintas [1]
umas das outras. Retiramos trˆes bolas da urna sequencialmente. Determine a probabilidade que a primeira bola extra´ıda seja vermelha, a segunda seja branca e a terceira preta, sabendo que:
1. n˜ao se rep˜oem as bolas extra´ıdas na urna;
Exerc´ıcio 14. Seja (An)n≥1uma sucess˜ao de acontecimentos mutuamente independentes (independen- [1]
tes no seu conjunto). Sejam I, J ⊂N∗tais que I ∩ J = ∅. Mostre que: \ i∈I Ai, \ j∈I Aj ! ´
e um par de acontecimentos independentes.
Exerc´ıcio 15. Seja (An)n≥1uma sucess˜ao de acontecimentos dois a dois disjuntos e tais que para cada [1]
n ≥ 1 os acontecimentos AN e B sejam independentes. Mostre que:
[ n≥1 An, B ´
e um par de acontecimentos independentes.
4
Resolu¸c˜
oes
Resolu¸c˜ao:[Exerc´ıcio10] Seja D o acontecimento definido por o paciente tem a doen¸ca, e T+ o acontecimento o teste deu positivo. As hip´oteses podem ser expressas usando as
probabilidades condicionais na forma:
P [T+| D] = 0.95 , P T+c | Dc = 0.95 , P [D] = 0.005 ,
pretendendo-se determinar P [D | T+]. Pelo teorema de Bayes ou da probabilidade das
causas, observando que D, Dcformam uma parti¸c˜ao de Ω, tem-se a f´ormula: P [D | T+] = P [T+
| D]P [D]
P [T+| D]P [D] + P [T+| Dc]P [Dc]
.
Finalmente, observando que P [Dc] = 1 −P [D] e que P [T+| Dc] = 1 −P T+c | Dc,
P [D | T+] =
0.95 · 0.005
0.95 · 0.005 + (1 − 0.95) · (1 − 0.005) = 0.087156 .
♦ Resolu¸c˜ao:[Exerc´ıcio 11] Este exerc´ıcio poderia ser interpretado, por exemplo, da forma seguinte. A1 ´e um conjunto de ´arbitros do centro e sul com 30% de ´arbitros
incorrupt´ıveis, havendo d´uvidas para os restantes 70%. A2 ´e um conjunto de ´arbitros
do norte com 20% de ´arbitros incorrupt´ıveis, havendo d´uvidas para os restantes 80%. No contexto do enunciado, consideremos os seguintes acontecimentos. U corresponde `a bola extra´ıda ter origem no conjunto A1 e B corresponde `a bola extra´ıda ser branca.
Pretende-se determinarP [U | B]. Dado que U, Ucformam uma parti¸c˜ao de Ω vem, pela
f´ormula de Bayes,
P [U | B] = P [B | U] P [U] + P [B | UP [B | U] P [U] c
Sabemos pelas hip´oteses que P [U] = 3/4 e, portanto, que P [Uc] = 1/4. Ainda pelas hip´oteses, sabemos que P [B | U] = 0.7, e que P [B | Uc] = 0.8, donde resulta que:
P [U | B] = 0.7 · 0.75
0.7 · 0.75 + 0.8 · 0.25 = 0.724138 .
♦ Resolu¸c˜ao:[Exerc´ıcio12] Seja o conjunto das bolas vermelhas e pretas designado por: B = {v1, v2, v3, v4, p5, p6, p7, p8, p9, p10}. Para a primeira quest˜ao, temos que o conjunto
das realiza¸c˜oes ´e: Ω = {(a, b) : a, b ∈ B} = B × B, pelo que #Ω = 100. Temos ainda que as tiragens s˜ao independentes pelo que a probabilidade que a primeira bola extra´ıda seja vermelha ´e 4/10 e a a probabilidade que a segunda bola extra´ıda seja preta ´e 6/10. Em consequˆencia, no conjunto das duas extrac¸c˜oes independentes a probabilidade que a primeira seja vermelha e a segunda preta ´e: (4 × 6)/100 = 24/100.
Para a segunda quest˜ao, consideremos os acontecimentos V1 dado pelas realiza¸c˜oes
em que a primeira bola extra´ıda ´e vermelha e P2dado pelas realiza¸c˜oes em que a segunda
bola extra´ıda ´e preta. Pela defini¸c˜ao de probabilidade condicional temos que: P [V1∩ P2] =P [P2 | V1] ·P [V1] = 6 9· 4 10 = 24 90 . ♦ Resolu¸c˜ao:[Exerc´ıcio13] A resolu¸c˜ao ´e semelhante `a do Exerc´ıcio12. Para a segunda quest˜ao temos tiragens independentes pelo que a probabilidade da primeira sair vermelha a segunda branca e a terceira preta ´e:
7 15 · 5 15 · 3 15 = 7 225= 3.11111% .
Paara a primeira quest˜ao, em que h´a reposi¸c˜ao, consideremos os acontecimentos V1 dado
pelas realiza¸c˜oes em que a primeira bola extra´ıda ´e vermelha, B2 dado pelas realiza¸c˜oes
em que a segunda bola extra´ıda ´e branca e P3 dado pelas realiza¸c˜oes em que a terceira
bola extra´ıda ´e preta. Temos pelas defini¸c˜oes de probabilidade condicional, usando a associatividade da intersec¸c˜ao, que:
P [(V1∩ B2) ∩ P3] =P [P3| V1∩ B2] ·P [V1∩ B2] = =P [P3| V1∩ B2] ·P [B2| V1] ·P [V1] = = 3 13 · 5 14· 7 15 = 1 26 = 3.84615% . ♦
Referˆ
encias
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