Pº R.P. 54/2010 SJC-CT Depósito electrónico de documento particular autenticado. Prazo e demais requisitos legais. Liquidação do IMT e do imposto de selo pelas tornas devidas em partilha extrajudicial.
PARECER
A. A Solicitadora … requisitou online o registo de aquisição a favor da ora
recorrente ... 1 do prédio da ficha nº …, da freguesia de …, do concelho de … 2, ao qual
coube a Ap. ..., de …/…/…, o qual foi distribuído à Conservatória do Registo Predial de … Um dos títulos “apresentados” pela impetrante para basear o registo é um “documento particular autenticado” com o código …. Este documento integra a) “documento particular de partilha” outorgado em …/…/…, em que os co-herdeiros habilitados da titular inscrita …, dentre os quais a ora recorrente …, partilharam os bens da herança, tendo a esta co-herdeira sido adjudicado o prédio anteriormente identificado, levando a mais que o seu quinhão hereditário bens no valor de € 20.135,86 que pagou de tornas aos restantes herdeiros, b) “termo de autenticação” da mesma data (…/…/...), outorgado pelos partilhantes perante a solicitadora ... O “documento particular de partilha” está assinado pelos partilhantes e o “termo de autenticação” está assinado pelos partilhantes e pela Solicitadora. A autenticação do documento particular foi objecto de registo informático a que se refere a Portaria nº 657-B/2006, de 29 de Junho (registo nº …) na mesma data (…/…/…). O “conjunto documental” formado pelo documento particular, pelo termo de autenticação e pelo registo online de actos de solicitadores, composto de 6 folhas, foi numerado e rubricado pela Solicitadora.
Este “conjunto documental” foi depositado electronicamente em …/…/…, tendo-lhe sido atribuído o já referido código …
B. Em …/…/... foi na Conservatória e no respectivo processo de registo exarado um “despacho de identificação de deficiências” nos termos do nº 2 do art. 73º do C.R.P., no qual foi evidenciado que a) o documento particular foi autenticado em .../…/… e o seu depósito electrónico ocorreu em …/…/…, não tendo sido submetido o documento instrutório previsto no nº 2 do art. 7º da Portaria nº 1535/2008, de 30.12, b) não estão
1- Incompreensivelmente designada por “sujeito passivo” no respectivo pedido de registo nº …
2- Trata-se de um prédio urbano, inscrito na respectiva matriz sob o artigo …, com registo de aquisição a favor
assinadas nem rubricadas todas as folhas do documento particular de partilha pelos intervenientes, apenas se apresentando assinada a última folha, e c) o valor declarado para efeitos de IMT e Selo da verba 1.1. relativo ao excesso da quota-parte na partilha por parte da herdeira … está incorrecto porque consta € 19.428,08 quando aquele excesso foi de € 20.135,86.
Em …/…/…, sob a apresentação complementar nº … 3, a Solicitadora ... ofereceu o
“termo de autenticação” de …/…/… do “documento particular de partilha” de …/…/…, depositado electronicamente naquela data (…/…/…) sob o tipo de “documento particular autenticado” através do mesmo código de identificação do documento depositado electronicamente em …/…/… Consta inter allia deste “termo de autenticação” que por razões de carácter técnico não foi possível realizar o depósito no mesmo dia e que embora os outorgantes do documento particular de partilha não tenham rubricado as folhas deste documento, tiverem conhecimento do seu conteúdo. O documento está rubricado e assinado por todos (partes e Solicitadora). Foi também efectuado o registo online de actos de solicitador (nº …) na mesma data.
Este depósito electrónico de “documento particular autenticado” de .../…/… é ainda integrado por uma (nova) declaração da Solicitadora ..., donde consta que por problemas técnicos na digitalização não conseguiu depositar electronicamente o documento no dia .../…/…, pelo que só o fez no dia seguinte, mas não submeteu na
3- Os autos e a consulta à plataforma electrónica referida no art. 5º da Portaria nº 1535/2008 revelam-nos que
em …/…/… foi associada ao documento depositado electronicamente em …/…/…, através do respectivo código de identificação, e com o mesmo tipo de “documento particular autenticado”, uma declaração datada de …/…/… e subscrita pela Solicitadora …, em que afirma que “por problemas técnicos na digitalização” não conseguiu depositar electronicamente o documento particular de partilha autenticado em …/…/…, pelo que só o fez no dia seguinte.
Se bem ajuizamos, decorre dos próprios termos do recurso hierárquico que esta declaração e respectivo depósito electrónico não visaram satisfazer as exigências de qualificação da Conservadora da Conservatória do Registo Predial de … no processo de registo dos autos, antes visaram satisfazer as exigências, bem mais suaves, do Conservador da Conservatória do Registo Predial de …no processo de registo a que se refere a Ap. … de …/…/…
Expliquemo-nos.
Resulta da p.r. que em …/…/… a Solicitadora … requisitou online os registos dos factos titulados no citado documento particular autenticado em …/…/…, tendo formulado três pedidos de registo, os quais foram distribuídos (sistema round robin – cfr. nota 8 da Informação prestada no Pº C.P. 33/2010 SJC) às Conservatórias do Registo Predial de …, … e …
Na Conservatória do Registo Predial de … (Ap. ... de …/…/…) o registo “já se encontra feito” (cfr. art. 4º da p.r.).
Na Conservatória do Registo Predial de … (Ap. … de …/…/…), o Conservador levantou o problema de o depósito do documento particular autenticado ter sido feito no dia seguinte, e para resolver esse problema assim procedeu a Solicitadora, elaborando e depositando electronicamente aquela declaração, tendo naquela Conservatória o problema ficado sanado e o registo sido efectuado (cfr. art.s 5º a 8º, inclusive, da p.r.).
mesma data o documento instrutório a declarar o facto, pelo que nos termos do nº 2 do art. 7º da Portaria nº 1535/2008 resolveu “depositar novo termo de autenticação outorgado hoje, face aos factos atrás relacionados”,
Finalmente, desta apresentação complementar faz ainda parte a entrega de duplicado do requerimento dirigido a Serviço de Finanças (não sabemos qual) e aí recebido em …/…/…, para liquidação do IMT devido pelas tornas no documento particular de partilha autenticado no dia …/…/… pela Solicitadora …
C. Por despacho de … a Senhora Conservadora decidiu, a título principal, recusar o pedido de registo, por ser manifesto que o facto não está titulado nos documentos apresentados, e, subsidiariamente, qualificar o mesmo pedido provisoriamente por dúvidas, com base na seguinte fundamentação:
a) O depósito electrónico de …/…/… não foi efectuado no prazo legal nem existe documento instrutório a este depósito;
b) A declaração emitida em …/…/… deveria ter sido feita no próprio dia em que se efectuou o depósito (…/…/…), não podendo ultrapassar as 48 horas a contar da data da elaboração do termo de autenticação, e ainda deveria ter sido indicada como documento instrutório e não, erradamente, como “documento particular autenticado”;
c) O segundo depósito, superveniente (de …/…/…), do (novo) termo de autenticação e do (novo) documento instrutório, não tem qualquer validade porque, para além de não se poder usar um depósito electrónico anterior ao termo de autenticação, não tem o documento particular que pretende autenticar, sendo que “o novo termo de autenticação teria que estar ligado ao documento particular e deveria ter um depósito electrónico autónomo a efectuar no dia em que lavrou esse mesmo termo de autenticação”;
d) O documento particular de partilha de .../…/… não chegou a adquirir a natureza de documento particular autenticado, sendo título insuficiente para o registo do facto;
e) Não estão assinadas nem rubricadas todas as folhas do documento particular de partilha, sendo que “o documento particular deve ter numeradas todas as suas folhas as quais devem estar rubricadas pelos intervenientes e pela entidade autenticadora, conforme dispõe o artigo 52º do Código do Notariado”;
f) “Consta do duplicado do Imposto de Selo e do IMT que o valor declarado para efeito de IMT e de Selo da verba 1.1. relativo ao excesso da quota-parte na partilha da herdeira …é 19.428,08 euros quando do título onde se procede à partilha consta que aquele excesso foi de 20.135,86 euros”.
D. Em …/…/… foi interposto recurso hierárquico da decisão da Senhora Conservadora, anteriormente referida, cujos termos aqui se dão por integralmente reproduzidos.
E. A Senhora Conservadora recorrida sustentou o despacho de qualificação em despacho cujos termos também aqui se dão por integralmente reproduzidos.
F. O processo é o próprio, as partes legítimas, a recorrente está devidamente representada, o recurso é tempestivo e inexistem questões prévias ou prejudiciais que obstem ao conhecimento do mérito.
Pronúncia:
1- O documento particular autenticado – (In)suficiência do título para o registo do facto.
A questão central colocada nos autos é a de saber se o facto objecto imediato do registo peticionado está titulado nos documentos apresentados.
Sobre esta questão nos vamos de seguida pronunciar.
1.1- No Pº R.P. 67/2009 SJC-CT realçámos a importância do depósito electrónico no processo de titulação dos actos elencados no art. 22º do D.L. nº 116/2008, de 4 de Julho, e sustentámos que o depósito electrónico do documento particular autenticado só será válido se for efectuado no prazo e com observância dos demais requisitos legalmente fixados. Aí também defendemos que a invalidade do depósito electrónico afectará a validade da autenticação e o documento particular não chega a adquirir a natureza de documento particular autenticado, pelo que as partes, querendo aproveitar o documento particular, terão que confirmar novamente perante entidade autenticadora (a mesma ou outra) o seu conteúdo, ou seja, terá que ocorrer nova autenticação, seguida de (novo) depósito electrónico nos termos legalmente fixados.
No Pº C.P. 40/2010 SJC-CT também tentámos interpretar as normas do art. 7º da Portaria nº 1535/2008, de 30.12. Damos aqui por reproduzida a fundamentação alinhada no parecer emitido neste processo, e permitimo-nos reproduzir as conclusões 2ª, 3ª, 4ª, 6ª, 7ª, 8ª e 9ª, que, a nosso ver, ajudam a clarificar e a resolver a questão suscitada:
2ª: «O depósito electrónico dos documentos particulares autenticados [que titulem (ainda não completamente) quaisquer dos actos previstos no art. 22º do D.L. nº
116/2008] deve ser efectuado na data, ou seja, no dia da realização da autenticação do documento particular (cfr. art. 7º, nº 1, da Portaria nº 1535/2008, de 30 de Dezembro»;
3ª: «Se na hora (momento ou instante) em que intentou a feitura do depósito electrónico a entidade autenticadora do documento particular (autenticado) deparar com «dificuldades de carácter técnico respeitantes ao funcionamento da plataforma electrónica» referida no art. 5º da Portaria nº 1535/2008, deverá a mesma elaborar documento justificativo do facto que deverá ser submetido no (futuro) procedimento informático de realização do depósito electrónico»;
4ª: «O prazo fixado no nº 2 do art. 7º da Portaria nº 1535/2008 para a feitura do depósito electrónico pela entidade autenticadora é de dois dias a contar do dia da realização da autenticação do documento particular a depositar, e, terminando o prazo em sábado, domingo ou dia feriado, transfere-se para o primeiro dia útil»;
6ª: «A não submissão, no momento da realização do depósito electrónico do documento particular autenticado, do documento instrutório previsto no nº 2 do art. 7º da Portaria nº 1535/2008 pode ser suprida com recurso ao mecanismo previsto no art. 11º, nº 2, da citada Portaria, devendo a entidade autenticadora associar, durante o processo de carregamento, os documentos a submeter aos já depositados através do respectivo código de identificação do documento»;
7ª. «Seja qual for a modalidade de pedido de registo adoptada, na qualificação deste pedido deve o conservador/oficial de registo, ao constatar que o depósito electrónico do documento particular autenticado não foi efectuado no dia da realização da autenticação e que não se encontra depositado electronicamente documento justificativo da impossibilidade de depósito nesse dia, abrir sub-procedimento de suprimento de deficiências, convidando o «apresentante» a comprovar o depósito electrónico daquele documento»;
8ª- «Encontrando-se depositado electronicamente o documento instrutório previsto na conclusão anterior, o conservador/oficial de registo do serviço de registo onde foi formulado o pedido de registo do facto titulado no documento particular autenticado deve diligenciar junto do IRN, I.P. pela confirmação das «dificuldades de carácter técnico respeitantes ao funcionamento da plataforma electrónica» invocadas pela entidade autenticadora como causa justificativa da impossibilidade de realização do depósito electrónico na data legalmente definida»;
9ª: «Não se comprovando o depósito electrónico do documento instrutório justificativo da impossibilidade de realização do depósito electrónico do documento particular autenticado no tempo legalmente devido ou, encontrando-se embora tal depósito efectuado, não ocorrendo confirmação das «dificuldades de carácter técnico respeitantes ao funcionamento da plataforma electrónica» pelo IRN, I.P., o registo do
facto pretensamente titulado pelo documento particular autenticado depositado electronicamente deverá ser recusado nos termos do disposto no art. 69º, nº 1, b), do C.R.P., dado que, sendo o depósito electrónico inválido, é manifesto que o facto não está titulado nos documentos apresentados».
1.2- Decorre, a nosso ver, do anteriormente exposto – maxime das conclusões 6ª a 8ª do parecer emitido no citado Pº C.P. 40/2010, supra reproduzidas – que no caso dos autos a entidade autenticadora podia socorrer-se do mecanismo previsto no nº 2 do art. 11º da Portaria nº 1535/2008 para depositar electronicamente, como documento instrutório, o documento justificativo da impossibilidade de efectuar o depósito electrónico do documento particular autenticado na data da realização da autenticação (…/…/…).
Como aí referimos (cfr. ponto 2.7), o documento instrutório, justificativo da impossibilidade da feitura do depósito electrónico do documento particular autenticado na data da realização da autenticação deste documento, não tem que ser elaborado nesta data nem tem (forçosamente) que ser submetido conjuntamente com o documento particular autenticado. O ponto é que tenham ocorrido dificuldades de carácter técnico no funcionamento da plataforma electrónica na hora (momento) em que a entidade autenticadora diligenciou pela feitura do depósito, e que tais dificuldades venham a ser confirmadas pela entidade competente (IRN, I.P.).
No caso dos autos, nós também teríamos aberto um sub-procedimento de suprimento de deficiências, mas para convidar o «apresentante» a comprovar o depósito electrónico do documento instrutório justificativo da impossibilidade de efectuar o depósito electrónico do documento particular autenticado na data da realização da autenticação 4.
4- Distanciamo-nos, assim, do “espírito” que norteou a abertura do sub-procedimento de suprimento de
deficiências dos autos. Se bem ajuizamos, a ora recorrida abriu tal sub-procedimento para permitir às partes realizar nova autenticação do documento particular e novo depósito deste documento particular (autenticado), e não para depositar electronicamente o documento instrutório que não foi submetido conjuntamente com o documento particular autenticado em …/…/…
Se bem interpretamos, no pensamento da recorrida – que mais impressivamente se extrai da “Nota” inserta no “despacho de identificação de deficiências”, na qual faz saber que se entretanto fosse apresentado título com data ulterior à data da apresentação dar-se-ia cumprimento ao disposto no nº 7 do art. 73º do C.R.P. – está subjacente o entendimento de que na fattispecie da norma do nº 6 do art. 73º do C.R.P. está incluída a hipótese de apresentação de título manifestamente insuficiente para a feitura do registo peticionado, com possibilidade de o «apresentante» diligenciar pela elaboração de novo título “substituto” do anteriormente apresentado, o qual, apresentado a registo, apenas daria lugar à “deslocação” da apresentação (e da prioridade, naturalmente) ao abrigo daquela norma do nº 7 do art. 73º do C.R.P.
Como salientámos no Relatório (supra, nota 3), o documento instrutório elaborado e submetido a depósito electrónico em .../…/…, com o mesmo código do documento particular autenticado em …/…/… e depositado electronicamente em …/…/…, não constituiu a “resposta” do «apresentante» à abertura do sub-procedimento de suprimento de deficiências.
De qualquer modo, ainda que em nenhum lugar do processo de registo referido, aquele documento instrutório não poderia deixar de ser, como aliás foi, considerado no despacho de qualificação 5.
Na nossa opinião, a questão da regularidade deste documento instrutório está ultrapassada, porquanto as próprias partes do documento particular de …/…/… e a entidade que autenticou este documento na mesma data e o depositou electronicamente em …/…/… já reconheceram, ainda que implicitamente, a invalidade da autenticação e do
depósito deste documento 6.
Pela nossa parte, e salvo o devido respeito, rejeitamos liminarmente esta construção, que, além do mais, não tem na letra da lei o mínimo de correspondência verbal (cfr. art. 9º, nº 2, C.C.). A nosso ver, a citada norma do nº 6 do art. 73º do C.R.P. prevê tão-somente a hipótese de «falta de apresentação de título». Se título foi apresentado, o conservador/oficial de registo apenas poderá/deverá qualificá-lo, e se o resultado qualificativo for a recusa assim deverá proceder, não se justificando qualquer sub-procedimento para a obtenção de novo título. Não sabemos mesmo onde nos poderia levar esta construção em termos de decisão registal e de extinção do processo de registo.
5- A matéria aqui aflorada demanda apreciação aprofundada. Mas cremos poder adiantar que o
conservador/oficial de registo pode/deve tomar em consideração na qualificação do pedido de registo os documentos até ao momento submetidos através da utilização do código de identificação do documento particular autenticado que serve de base ao registo peticionado, ainda que tais documentos não tenham sido indicados (até por serem ulteriores ou de depósito ulterior) no pedido de registo, seja qual for a modalidade deste, desde que os mesmos documentos possam servir para suprir deficiências do processo de registo (cfr. art. 42º, nº 1, do C.R.P., art.s 3º e 5º, nºs 4 e 5, da Portaria nº 621/2008, de 18.7, art. 24º, nº 5, do D.L. nº 116/2008, e art.s 11º, nº 2, 12º, nº 1, e 18º, nº 2, da Portaria nº 1535/2008).
6- Sempre diremos, no entanto, na lógica do entendimento que alinhámos no citado parecer emitido no Pº C.P.
40/2010, que a falta de menção da hora em que ocorreu a indisponibilidade da plataforma electrónica referida no art. 5º da Portaria nº 1535/2008 não obstava ao pedido de confirmação das «dificuldades de carácter técnico respeitantes ao funcionamento da plataforma electrónica». Se o IRN, I.P. viesse confirmar que naquele dia …/…/…, das 00 horas às 24 horas, a plataforma electrónica esteve indisponível, a validade do depósito electrónico realizado no dia seguinte seria indiscutível.
Porém, no caso dos autos, como bem acentua a recorrida no despacho de sustentação, o motivo alegado pela «apresentante» para justificar a não realização do depósito electrónico na data da realização da autenticação do documento particular foi a dificuldade na digitalização dos documentos, que nada tem a ver com o funcionamento da plataforma electrónica referida no art. 5º da Portaria nº 1535/2008, além de que os erros de digitalização podem ser corrigidos até ao momento da submissão (cfr. art. 11º, nº 1, daquela Portaria).
1.3- Sustentámos que, em caso de invalidade do depósito electrónico e da consequente invalidade da autenticação do documento particular, as partes, querendo aproveitar este documento particular, terão que confirmar novamente perante entidade autenticadora (a mesma ou outra) o seu conteúdo, ou seja, terá que ocorrer nova autenticação, seguida de (novo) depósito electrónico nos termos legalmente fixados.
Importa, no entanto, atentar em que a) o documento particular tem que ser apresentado ao notário (ou advogado, solicitador, conservador/oficial de registo) para fins de autenticação, devendo esta ser reduzida a termo (cfr. art. 150º, nº 2, do C.N.), o qual é lavrado no próprio documento a que respeita ou em folha anexa (cfr. art. 36º, nº 4, do C.N.), mas b) compete às entidades autenticadoras arquivar os originais dos documentos particulares autenticados [que titulem (não completamente) os actos elencados no art. 22º do D.L. nº 116/2008] depositados electronicamente (cfr. art. 24º, nº 6 deste Decreto-Lei, e art. 8º, nº 1, da Portaria nº 1535/2008).
Coloca-se, então, a questão: como lavrar novo termo de autenticação de documento particular autenticado e depositado electronicamente, cujo original (em suporte de papel) se encontra arquivado?
Afigura-se-nos líquido que o original do documento particular (com o termo de autenticação anexo) terá que ser restituído às partes para ser apresentado novamente (à mesma entidade autenticadora ou a outra) para fins de autenticação. O que vale por dizer que a obrigação de arquivo (do original) só existe para documentos particulares validamente autenticados e validamente depositados electronicamente.
Mas a restituição às partes do documento particular arquivado deverá ser titulada, isto é, algum documento terá que ocupar no arquivo o espaço do documento “desarquivado”. A nosso ver, será bastante uma declaração conjunta (das partes e da entidade autenticadora) recognitiva da invalidade do depósito electrónico e da autenticação e declarativa de que o documento particular autenticado e depositado electronicamente não chegou a basear o registo de qualquer facto nele pretensamente titulado 7.
No nosso modesto modo de ver, o documento particular destinado à titulação dos actos elencados no art. 22º do D.L. nº 116/2008, sob pena de insegurança jurídica cujas proporções ainda não vislumbramos totalmente, designadamente ao nível dos efeitos a
Do que resulta que in casu nem sequer se justificaria o pedido de confirmação ao IRN, I.P., impondo-se desde logo a recusa do registo por ser manifesto que o facto não estava titulado nos documentos apresentados, nos termos do disposto no art. 69º, nº 1, b), do C.R.P.
7- Talvez a situação ficasse mais clara se a esta declaração fosse anexada cópia do documento particular
que tende o acto jurídico pretensamente titulado nesse documento, não pode conter dois ou mais termos de autenticação e ser objecto de dois ou mais depósitos electrónicos igualmente válidos.
Portanto, na nossa opinião, o documento que tomar o lugar do documento particular autenticado depositado electronicamente - em que as partes e a entidade autenticadora reconhecem a invalidade do depósito electrónico e da autenticação e declaram que nenhum registo foi efectuado ou peticionado com base nesse documento – deve por sua vez ser depositado electronicamente pela entidade autenticadora, com
recurso ao mecanismo previsto no nº 2 do art. 11º da Portaria nº 1535/2008 8.
Observados que sejam os procedimentos anteriormente referidos, será então a nosso ver legalmente possível que entidade autenticadora (a mesma ou outra) lavre
novo termo de autenticação do documento particular 9 e proceda «a novo depósito
electrónico, sem relação nenhuma com o anteriormente efectuado (…)» 10.
1.4- Em face do anteriormente exposto, não pode merecer a nossa concordância a actuação da entidade autenticadora no caso dos autos.
As razões invocadas pela Senhora Conservadora recorrida para rejeitar o “novo título” são inteiramente pertinentes, como aliás resulta do que temos vindo a expor, não
se justificando na economia do parecer outros desenvolvimentos sobre a matéria 11.
O ponto, porém, que não podemos deixar passar em claro, reside na (in)disponibilidade da entidade autenticadora para lavrar termo de autenticação de
8- Reconhecemos que a hipótese não está prevista na letra da citada norma, mas cabe perfeitamente no seu
espírito. A segurança jurídica demanda que do registo informático (depósito electrónico) fique a constar o reconhecimento da invalidade do depósito electrónico do documento particular autenticado, facto que sempre deverá ser tomado em consideração se porventura alguém pretender fazer valer, designadamente em sede registal, este depósito do documento particular autenticado.
9- Este novo termo de autenticação será lavrado em folha anexa (não vemos como possa sê-lo no próprio
documento a que respeita) à(s) folha(s) anexa(s) do termo de autenticação anteriormente lavrado e cuja invalidade foi reconhecida. O reconhecimento da invalidade da anterior autenticação deverá ser expressamente mencionado no novo termo de autenticação (a alternativa seria anexar também ao documento cópia da declaração recognitiva da invalidade).
10- Cfr. deliberação tomada no Pº R.P. 259/2009 SJC-CT, onde foi apreciado um caso de autenticação irregular
própria (não consequente da invalidade do depósito).
11- Não obstante, uma nota se justifica para observar que nos termos do nº 2 do art. 6º da Portaria nº
1535/2008 a promoção do depósito electrónico de documento particular autenticado que titule acto sujeito a registo predial dispensa o registo em sistema informático previsto na Portaria nº 657-B/2006, de 29 de Junho.
documento particular que já havia sido anteriormente autenticado e depositado electronicamente e que com sucesso já havia servido de base à feitura de registos de factos nele pretensamente titulados.
Sobre o ponto, a nossa posição é no sentido de que não é legalmente possível lavrar novo termo de autenticação de documento particular já anteriormente autenticado e depositado electronicamente se os efeitos a que tende o acto jurídico nele titulado já se encontrarem consolidados no registo predial relativamente a parte do seu objecto mediato, enquanto subsistir este registo.
Portanto, as partes e a entidade autenticadora terão elas próprias que tomar posição sobre a validade do depósito electrónico efectuado em …/…/… e sobre a validade consequente da autenticação realizada em …/…/… Se entenderem que tais actos são inválidos, como implicitamente reconheceram no termo de autenticação de .../…/…, não lhes resta outra solução que não seja promover o cancelamento dos registos efectuados nas Conservatórias do Registo Predial de … e de … – que serão nulos [cfr. art. 16º, b), do C.R.P.] – através do processo próprio previsto e regulado no capítulo II do título VI do Código do Registo Predial (cfr. art. 121º, nºs 1 e 2) 12.
2- A rubrica das folhas do documento particular autenticado a que se reportam os art.s 22º e 24º do D.L. nº 116/2008 – Efeitos da sua falta.
Esta matéria já foi exaurientemente apreciada na deliberação tomada no Pº R.P. 233/2009 SJC-CT, cuja argumentação reiteramos e aqui damos por integralmente reproduzida.
Salientamos a distinção nítida que ali se faz entre a rubrica (assinatura abreviada) das folhas do documento particular autenticado e a assinatura propriamente dita, posta no final do conteúdo do documento particular e do termo de autenticação, e a “função” que cada uma delas desempenha: preservar a integridade do documento e assumir a
12- Não está aqui em tabela a pronúncia sobre a validade dos registos efectuados nas Conservatórias do Registo
Predial de ... e de …
De qualquer modo, e sem prejuízo de outras diligências que superiormente se entenda deverem ser tomadas, somos de opinião que os Senhores Conservadores destas Conservatórias deverão ser notificados deste parecer, se homologado for, para os devidos efeitos.
autoria deste, respectivamente. E as consequências da falta de uma e de outra: o acto notarial só será nulo se faltar a assinatura propriamente dita 13.
No que toca à falta da rubrica, ali se escreveu que «o documento autenticado que delas careça (…), sendo embora formalmente “imperfeito” (para quem, como nós,
entenda que se lhe deve aplicar o regime do art. 52º do CN 14, precisamente por causa
da mesma natureza avulsa que os caracteriza, e que amplamente justifica que menores não hajam de ser as cautelas), não cremos que por isso se possa dizer nulo. O que aquela omissão pode determinar, isso sim, é a privação do valor probatório dado pelo art. 377º CC, daí resultando, na perspectiva que particularmente mais nos interessa, a eventual inabilidade do documento para servir de base ao registo que com ele se tenha em mira (originando, no limite, a recusa prevista na al. b) do nº 1 do art. 69º do CRP). Em linha porém com a função estritamente “protectora” que ao requisito especificamente apontámos, quer-nos parecer que somente a falta da rubrica que houvesse de ser feita pelo punho do notário [advogado, solicitador, conservador/oficial de registo] é que pode provocar aquela perda de valor probatório».
Porém, «decorre da diferente natureza do documento particular autenticado a que se reportam os art.s 22º e 24º do D.L. nº 116/2008 e do “comum” documento particular autenticado a que se referem os art.s 363º/3, do CC, e 35º/3, do CN – e designadamente da circunstância de, num caso, a autenticação representar a intervenção terminal da entidade autenticadora, e de, no outro, ela constituir uma intervenção intermédia num processo de titulação faseado que culmina no depósito electrónico a cargo da mesma entidade – que divergente também haja de ser, num e noutro caso, a importância a conceder ao requisito da aposição da rubrica por parte dos sujeitos intervenientes, podendo desse requisito em princípio prescindir-se, por supérfluo do
13- Tanto basta, a nosso ver, para afastar a tese assumida pela Senhora Conservadora, a qual, se bem
interpretamos, assenta na nulidade do acto notarial, por aplicação subsidiária do art. 70º, nº 1, e), do C.N., sanável nos termos do disposto na al. d) do nº 2 daquele mesmo artigo.
Mas, para além de no caso de falta de rubrica das folhas entendermos que o acto notarial não é nulo, importa ainda observar que o raciocínio da recorrida enferma a nosso ver de outro equívoco, qual seja o de defender que na «forma autêntica» da declaração prevista na citada al. d) do nº 2 do art. 70º do C.N. cabe o «documento particular autenticado». Ora, para nós as expressões «forma autêntica» e «documento autêntico», empregadas respectivamente nas alíneas b), c) e d) e na al. e) do citado nº 2 do art. 70º do C.N., valem exactamente o mesmo e devem ser levadas «à letra, pelo que [a declaração] terá que ser prestada perante notário (CCivil, art. 363º/2)» (cfr. deliberação tomada no Pº R.P. 259/2009 SJC-CT, pág. 6).
14- Como é realçado na citada deliberação, o art. 52º do C.N., invocado pela recorrida, diz directamente
ponto de vista da defesa da inalterabilidade do documento, quando este se destine a depósito electrónico» (cfr. conclusão 3ª da citada deliberação) 15.
3- A divergência do valor das tornas entre o documento da partilha e os documentos de liquidação do IMT e do Imposto de Selo.
A matéria da tributação, em sede de imposto de selo e de imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis, do excesso da quota-parte que ao adquirente pertencer, nos bens imóveis, em acto de partilha, já foi também apreciada por este Conselho no Pº R.P. 185/2009 SJC-CT, para cuja deliberação remetemos (com o esclarecimento de que a mesma foi emitida anteriormente à Lei nº 3-B/2010, de 28 de Abril, que introduziu alterações nos respectivos códigos).
O ponto que, se bem ajuizamos, agora está em debate consiste em saber se o conservador, no âmbito da fiscalização das obrigações fiscais que o art. 72º do C.R.P. lhe comete, deve exigir que a liquidação dos impostos anteriormente referidos incida sobre o valor tributável determinado no documento da partilha.
Afigura-se-nos líquido que a liquidação daqueles impostos é feita com base nos correspondentes instrumentos legais (cfr. art. 23º do CIMT, aplicável ao imposto de selo
ex vi do art. 23º, nº 4, do CIS, e deliberação tomada no citado Pº R.P. 185/2009 SJC-CT
).
Reconhecemos que uma coisa é a liquidação do imposto – sobre a qual o citado art. 72º, nº 2, do C.R.P. expressamente nos diz que ela não está sujeita à nossa apreciação – e coisa diversa é a determinação do respectivo valor tributável. Mas nos casos em que a liquidação é feita com base no correspondente instrumento legal, a responsabilidade pela adequação da liquidação ao valor tributável apurado é exclusiva do liquidatário. Ao conservador/oficial de registo não compete fiscalizar a actuação do liquidatário fiscal. O que lhe compete, isso sim, é verificar se o instrumento legal que serviu de base à liquidação é o mesmo que foi apresentado a registo. Ora, em face do requerimento dirigido ao Serviço de Finanças a pedir a liquidação, onde expressamente
15- Importa sublinhar o que na citada deliberação já havia sido evidenciado: este Conselho não sufraga a tese
de que a falta da rubrica das folhas «não constitui efectiva preterição do correcto modo de fazer, nem tão-pouco que seja indiferente rubricar ou não rubricar. Pelo menos no que respeita às folhas que contenham as declarações de vontade dos outorgantes, o autenticador, cuidando de que todos as rubriquem, sempre se previne contra uma futura eventual alegação, por parte de algum desses outorgantes, de que, entre a autenticação e o depósito, abusivamente tenha procedido à modificação do conteúdo negocial» (cfr. nota 5).
se refere que a partilha foi titulada por documento particular autenticado em …/…/… pela
Solicitadora …, é de presumir que este documento foi apresentado ao liquidatário 16.
4- Em face do exposto, é entendimento deste Conselho que o recurso não merece provimento.
Somos ainda de opinião que o presente parecer, se homologado for, deve ser notificado aos Senhores Conservadores das Conservatórias do Registo Predial de … e de …, para os devidos efeitos.
Firmam-se as seguintes
Conclusões
1- O depósito electrónico de documento particular autenticado só será válido se for efectuado no prazo e com observância dos requisitos fixados no art. 7º da Portaria nº 1535/2008, de 30 de Dezembro, e, sendo efectuado fora do prazo ou com violação desses requisitos, a invalidade do depósito afectará a validade da autenticação e o documento particular não chega a adquirir a natureza de documento particular autenticado, tendo então as partes, querendo aproveitar o documento particular, que confirmar novamente perante entidade autenticadora (a mesma ou outra) o seu conteúdo, ou seja, terá que ocorrer nova autenticação, seguida de (novo) depósito electrónico nos termos legalmente fixados.
2- Para que a entidade autenticadora lavre novo termo de autenticação de documento particular já anteriormente autenticado e depositado electronicamente é necessário que o original – que se encontra arquivado nos termos dos art.s 24º, nº 6, do D.L. nº 116/2008, de 4 de Julho, e 8º, nº 1, da citada Portaria nº 1535/2008 – seja previamente restituído às partes para ulteriormente lhe ser apresentado para fins de autenticação, o que demanda a observância de um conjunto de procedimentos ditados pelo princípio de que a segurança jurídica exige que o documento particular destinado à titulação dos actos elencados no art. 22º do D.L. nº 116/2008 não pode conter dois ou
16- Do requerimento não consta o código de identificação do depósito electrónico, pelo que terá servido de base
mais termos de autenticação e ser objecto de dois ou mais depósitos electrónicos igualmente válidos.
3- O pedido de registo de facto pretensamente titulado por documento particular autenticado cujo depósito electrónico for inválido deve ser recusado por ser manifesto que o facto não está titulado nos documentos apresentados [ cfr. art. 69º, nº 1, b), do C.R.P.].
4- Decorre da diferente natureza do documento particular autenticado a que se reportam os art.s 22º e 24º do D.L. nº 116/2008 e do “comum” documento particular autenticado a que se referem os art.s 363º, nº 3, do C.C., e 35º, nº 3, do C.N. – e designadamente da circunstância de, num caso, a autenticação representar a intervenção terminal da entidade autenticadora, e de, no outro, ela constituir uma intervenção intermédia num processo de titulação faseado que culmina no depósito electrónico a cargo da mesma entidade – que divergente também haja de ser, num e noutro caso, a importância a conceder ao requisito da aposição da rubrica por parte dos sujeitos intervenientes, podendo desse requisito em princípio prescindir-se, por supérfluo do ponto de vista da defesa da inalterabilidade do documento, quando este se destine a depósito electrónico.
5- Em face das disposições combinadas do art. 23º, nº 4, do CIS, e do art. 23º do CIMT, à liquidação do imposto de selo e do imposto municipal sobre as transmissões onerosas de imóveis servem de base os correspondentes instrumentos legais, pelo que não compete ao conservador, no âmbito da fiscalização do cumprimento das obrigações fiscais que o art. 72º do C.R.P. lhe comete, apreciar se a liquidação daqueles impostos incidiu sobre o valor tributável determinado no instrumento legal.
Parecer aprovado em sessão do Conselho Técnico de 24 de Junho de 2010.
João Guimarães Gomes Bastos, relator, Isabel Ferreira Quelhas Geraldes, António Manuel Fernandes Lopes, Maria Eugénia Cruz Pires dos Reis Moreira, Luís Manuel Nunes Martins, Maria Madalena Rodrigues Teixeira, José Ascenso Nunes da Maia.
Ficha para publicação na intranet Pº R.P. 54/2010 SJC-CT.
Súmula das questões tratadas:
__ Depósito electrónico de documento particular autenticado – Prazo e demais requisitos legais;
__ Invalidade do depósito electrónico e consequente invalidade da autenticação do documento particular;
__ Nova autenticação e novo depósito electrónico do documento particular: procedimentos a observar;
__ Falta da rubrica das partes no documento particular: consequências;
__ Liquidação do IMT e do imposto de selo pelas tornas devidas em partilha extrajudicial: responsabilidade exclusiva do liquidatário.