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Academic year: 2021

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26/05/2021

Número: 0004773-74.2021.8.17.9000

Classe: SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA Órgão julgador colegiado: Presidência do TJPE Órgão julgador: Gabinete Presidência Segundo Grau Última distribuição : 26/03/2021

Valor da causa: R$ 1.015,95

Processo referência: 0000060-56.2021.8.17.2210 Assuntos: Abuso de Poder

Segredo de justiça? NÃO Justiça gratuita? NÃO

Pedido de liminar ou antecipação de tutela? SIM Tribunal de Justiça de Pernambuco PJe - Processo Judicial Eletrônico

Partes Procurador/Terceiro vinculado

MUNICIPIO DE ARARIPINA (REQUERENTE) RAFAELA MARIA DE AGUIAR CAVALCANTI (ADVOGADO) RENATO CICALESE BEVILAQUA (ADVOGADO)

GUSTAVO PAULO MIRANDA DE ALBUQUERQUE FILHO (ADVOGADO)

PAULO ROBERTO FERNANDES PINTO JUNIOR (ADVOGADO)

NATALIE ARAGONE DE ALBUQUERQUE MELLO (ADVOGADO)

JOAO DIAS (REQUERIDO) FREDERYK KENNEDY LIMA FERNANDES (ADVOGADO) MARCIO RODRIGUES LEITE (ADVOGADO)

FRANCISCO EDIVALDO ALVES PEREIRA (REQUERIDO) FREDERYK KENNEDY LIMA FERNANDES (ADVOGADO) MARCIO RODRIGUES LEITE (ADVOGADO)

PROCURADORIA GERAL DE JUSTIÇA DE PERNAMBUCO (FISCAL DA ORDEM JURÍDICA)

Documentos Id. Data da Assinatura Documento Tipo 15761 399 30/04/2021 12:42 AD SS SLS - 0004773-74.2021 - suspensão de Lei municipal - contribuição previdenciaria - Araripina

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 MINISTÉRIO PÚBLICO DE PERNAMBUCO

PROCURADORIA-GERAL DE JUSTIÇA

Subprocuradoria-Geral de Justiça em Assuntos Jurídicos SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA Nº 0004773-74.2021.8.17.9000 ÓRGÃO JULGADOR: PRESIDÊNCIA DO TJPE

REQUERENTE(S): MUNICÍPIO DE ARARIPINA

REQUERIDO(S): JOÃO DIAS E FRANCISCO EDIVALDO ALVES PEREIRA MANIFESTAÇÃO

Trata-se de PEDIDO DE SUSPENSÃO DE LIMINAR, ajuizado pelo MUNICÍPIO DE ARARIPINA, com fundamento no art. 4º, da Lei nº. 8.437/1992 e art. 1º, da Lei nº. 9.494/1997, objetivando suspender os efeitos da decisão, prolatada pelo juízo da 2ª Vara Cível da Comarca de Araripina, que concedeu a tutela de urgência requerida nos autos do mandado de segurança nº 0000060-56.2021.8.17.2210, impetrado por JOÃO DIAS E FRANCISCO EDIVALDO ALVES PEREIRA, no sentido de suspender a vigência da Lei Municipal nº 2.979/2020 que, por sua vez, alterou normas atinentes ao Regime Próprio de Previdência do Município.

O Município de Araripina, em síntese, argumenta que a decisão objeto do presente pedido de contracautela provoca grave ofensa à ordem pública e à economia pública, na medida em que importa descumprimento do comando da Emenda Constitucional nº 103/2019, a qual determinou a reestruturação dos regimes próprios de previdência com o escopo promover equilíbrio atuarial, bem como provocará desfalques na contribuição previdenciária do município, majorando as dificuldades financeiras da municipalidade, notadamente no atual período pandêmico.

A inicial foi instruída com diversos documentos.

O Exmo. Presidente do Eg. TJPE reservou a apreciação do pedido de suspensão até a resposta da parte adversa e a manifestação ministerial (ID Núm. 15473261).

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 A parte Requerida apresentou a sua peça de bloqueio, defendendo a legalidade da decisão que concedeu a tutela de urgência vindicada, refutando a alegação de violação grave à economia pública em razão da decisão vergastada. Ao final, requereu o indeferimento do pedido de suspensão (ID Núm. 15656776).

Em seguida, os autos foram encaminhados a este Órgão Ministerial.

É o Relatório.

É de todos sabido que a suspensão da liminar deve se ater às razões que possam causar grave lesão à ordem, saúde, segurança e economia públicas, uma vez que o recurso apropriado para discutir as questões atinentes à legalidade da decisão liminar é o Agravo de Instrumento previsto no art. 1.015 e segs. do CPC.

Discorrendo sobre o tema, JOSÉ DOS SANTOS CARVALHO FILHO1 assinala:

“Ainda que de certo modo vagas as expressões definidoras dos valores a serem protegidos pela suspensão, podemos, com VEDEL, entender a ordem pública como aquela composta de um mínimo de condições essenciais a uma vida social adequada (...). Enfim, ordem pública é o conjunto de condições que propiciam bem-estar aos membros da coletividade”.

Segundo HUGO DE BRITO MACHADO2,

“o pressuposto para o deferimento do pedido de suspensão da execução liminar é de natureza eminentemente política. Consiste na possibilidade de grave lesão ao interesse público, expresso num dos conceitos acima mencionados, não o haver sido a liminar concedida ilegalmente”.

Dito isso, o Município de Araripina fundamenta o seu pedido suspensão em pretensa grave ofensa à ordem pública e à economia pública municipal, pois a

1

CARVALHO FILHO, José dos Santos. Ação Civil Pública - 1ª edição, p. 285. 2

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 decisão de suspender a vigência da Lei Municipal nº 2.979/2020 importaria descumprimento do comando da Emenda Constitucional nº 103/2019, a qual teria determinado a reestruturação dos regimes próprios de previdência com o escopo promover equilíbrio atuarial, bem como terminará por provocar desfalques na contribuição previdenciária do município, majorando as dificuldades financeiras que o Município vem passando em razão da pandemia.

A despeito do alegado pelo Município requerente, o presente pedido de suspensão deve ser indeferido.

Inicialmente, impende-se destacar que a ordem pública prevista na Lei nº 8.437/1992 não se confunde com a ordem jurídica, porquanto aquela diz respeito à continuidade da atividade administrativa, gerindo a coisa pública para que sejam prestados os serviços públicos regularmente à população, enquanto que a violação à ordem jurídica deve ser objeto de análise no âmbito processual, a se verificar o acerto ou descarto da decisão com relação ao erro do ponto de vista jurídico.

Portanto, a análise sobre a correção ou não do julgador de primeiro grau deve ser objeto de recurso próprio a ser apreciado por órgão fracionário, órgão competente para enfrentar os argumentos jurídicos contidos na decisão concessiva da tutela de urgência, não sofrendo limitação de cognição, como ocorre no pedido de suspensão.

No mesmo sentido, colaciona-se, dentre outros, o seguinte julgado, in verbis:

AGRAVO REGIMENTAL NA SUSPENSÃO DE LIMINAR E DE SENTENÇA. GRAVE LESÃO À ORDEM PÚBLICA. INEXISTÊNCIA. INDEVIDA UTILIZAÇÃO COMO SUCEDÂNEO RECURSAL. PEDIDO DE SUSPENSÃO INDEFERIDO. AÇÃO DE IMPROBIDADE. PREFEITO MUNICIPAL. AFASTAMENTO DO CARGO. AGRAVO REGIMENTAL DESPROVIDO.I - Na linha da jurisprudência desta Corte, não se admite a utilização do pedido de suspensão exclusivamente no intuito de reformar a decisão atacada, olvidando-se de demonstrar o grave dano que ela poderia causar à saúde, segurança, economia e ordem públicas.II - Em relação à lesão à ordem pública

(administrativa e jurídica), observo que os argumentos veiculados pelo requerente, a título de justificar a suspensão da liminar, revestem-se, em verdade, de caráter

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 eminentemente jurídico, notadamente a alegação de que o v. acórdão atacado teria imposto nova disciplina legislativa à lide tratada nos autos principais. .III - No que

tange à alegada ocorrência de grave lesão à economia pública, verifico que a pretensão da agravante está relacionada ao atendimento dos seus interesses particulares, o que não se coaduna com a estreita via do pedido suspensivo.IV - É que, ao meu ver, a questão

referente somente à responsabilidade de custeio da retirada da infraestrutura contida na faixa de domínio público da rodovia em questão é matéria de mérito da ação originária. Agravo regimental desprovido. (STJ - AgRg na SLS 1838 SP 2013/0417618-0 – Relator:

Ministro FELIX FISCHER – Órgão Julgador: CE - CORTE ESPECIAL – Julgamento: 19/03/2014 – Publicação: DJe 10/04/2014) (G.N.)

É que, sendo a suspensão requestada uma medida excepcional, mister se faz a comprovação inequívoca da grave lesão a ser perpetrada com a manutenção dos efeitos da decisão que se pretende a suspensão, ou seja, deve-se demonstrar o real prejuízo à atividade administrativa do Município de Araripina com a suspensão da vigência da Lei Municipal nº 2.979/2020 que alterou normas atinentes ao Regime Próprio de Previdência.

Ocorre, contudo, que, analisando a exordial do presente pedido de contracautela, verifica-se que o Ente Municipal olvidou em comprovar onde residiria as graves ofensas, pois altercou de forma superficial a questão, deixando a Municipalidade de demonstrar quais serviços públicos deixariam de ser prestados em razão da continuidade dos efeitos da decisão objetada neste pedido de suspensão.

Sobreleve-se, ainda, que nem mesmo os impactos financeiros com a suspensão do diploma legal mencionado restaram demonstrados nos autos, não havendo sequer qualquer demonstrativo da situação acerca de eventual desequilíbrio financeiro e atuarial do regime próprio de previdência da municipalidade.

Ressalte-se que os argumentos do Município Requerente atinentes a questões do desacerto da decisão não devem ser comportados no presente pedido de contracautela, mas em sede de agravo de instrumento, consoante esposado alhures.

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 Gize-se, ainda, que a medida excepcional perseguida deve ser concedida com muita cautela, mediante prova robusta, concreta da grave ofensa alegada capaz de inviabilizar a prestação dos basilares serviços públicos.

Na mesma toada, transcrevo a lição da Profª. LUCIA VALE FIGUEIREDO3 acerca da suspensão de liminar:

“ ... há de ser concedida com muita cautela. Por isso mesmo, não bastará apenas a alegação da ocorrência de qualquer das situações enumeradas na norma. Será mister, sem sombra de dúvida, a prova concreta, robusta no caso sub judice. Não, como sói acontecer, a mera alegação do interesse público em perigo (...) E quanto a esta avaliação, não terá o Presidente do Tribunal, qualquer competência discricionária, mas sim, terá de verificar se está provado - e de forma contundente - que há ameaça à ordem, à saúde, à segurança ou à economia pública. A mera alegação não basta. É necessária a indicação exuberante com os elementos factuais de prova de que a lesão está por se verificar”. (G.N.).

Demais disso, impende-se destacar que o fundamento para o deferimento da tutela de urgência nos autos da ação matriz reside em suposta inobservância às regras do próprio processo legislativo, como a ausência de segundo turno de discussão e votação, previsto na Lei Orgânica do Município, em seu art. 51, § 2º, bem como a sanção por parte do prefeito sem sequer haver a aprovação por parte dos vereadores do respectivo projeto de lei, pondo em risco o próprio sistema democrático, mormente quando o presidente daquela Câmara Municipal, chefe maior daquela Casa, informou que a votação estava prejudicada pela ausência do quórum de maioria absoluta (Doc. ID Num. 15313341 – Págs. 76 a 78).

A propósito, transcreve-se o seguinte excerto da decisão objetada neste pedido de suspensão:

(...)

Com efeito, da detida análise da legislação acima, verifico, numa análise sumária, que a tramitação do projeto de Lei não obedeceu as normas do processo legislativo.

3

FIGUEIREDO, Lucia Vale. Ação Civil Pública: Lei n° 7.347/85, Reminiscências e Reflexões Após Dez Anos de Aplicação, MILARÉ, Édis (Coord.), São Paulo : Editora Revista dos Tribunais, 1995, p.344.

(7)

Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 A uma, porque na própria ata da sessão, o presidente da Câmara Municipal informou que a matéria “ficou prejudicada por exigir maioria da Composição da Câmara Municipal”, conforme se infere no documento juntado no ID 73986306.

A duas, porque o projeto de lei fora posto em discussão na sessão extraordinária datada de

29/12/2020, e o ato sancionatório da lei se deu em 31/12/2020, a revelar, portanto, que o projeto não foi apreciado em dois turnos de discussão e votação, consoante exige o art. 51, § 2º, da Lei Orgânica do Município, em face do curtíssimo espaço de tempo

entre um ato e outro. Não bastasse isso, não consta nos autos qualquer elemento que

indique a ocorrência de outra sessão que tratasse do tema em questão.

A três, porque o Presidente da Casa, ao pautar a discussão, adiantou que votaria favorável à aprovação do Projeto de Lei, sendo que, nesses casos, conforme art. 51, §§ 4º e 5º, da Lei Orgânica, ele não tem direito a voto, o que demonstra, assim, a probabilidade de mais uma violação às regras insculpidas no referido diploma.

Sob esse viés, entendo que a plausibilidade do direito restou demonstrada nos autos, notadamente em vista do conteúdo da ata da 1ª sessão extraordinária da Câmara Municipal de Araripina do 2º período legislativo (ID 73986306), de onde se depreende que o projeto de lei em testilha não foi aprovado pelos Vereadores, bem como diante do silêncio da Procuradoria Jurídica Municipal, que deixou transcorrer o prazo que lhe foi concedido sem qualquer manifestação.

(...)

Lado outro, verifico também, na hipótese dos autos, o perigo de dano. Isso porque a vigência da Lei nº 2.979, de 31 de dezembro de 2020, sancionada, aparentemente, sem o devido respeito às regras do processo legislativo, coloca em risco o próprio sistema democrático, na medida em que há indícios de irregularidades na sua aprovação e, portanto, não se afigura legítima a sua aplicação nas relações de direito material, ainda mais quando tal diploma normativo abrange a esfera jurídica de todos os

servidores públicos municipais.

(...) (G.N.) (DOC. ID Num. 15313340 – Pág. 3)

Ora, ainda que alegue o Município a pretensa existência de grave ofensa à ordem pública por inobservância à determinação contida na EC nº 103/2019, não se pode olvidar que as modificações na legislação municipal, a toda evidência, não podem ser efetivadas ao alvedrio do legítimo processo legislativo, razão por que eventual inobservância às regras mais comezinhas de aprovação das leis municipais representam uma primeira ofensa grave à ordem pública municipal, a ser imputada ao Chefe do Executivo daquela municipalidade, o que evidencia, inclusive, a existência do periculum in mora inverso.

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Rua do Imperador D. Pedro II, 473 - Ed. Roberto Lyra - Santo Antônio – Recife/PE - CEP 50.010-240 Fone: (81)3182-7000 Sobre o tema, o festejado REIS FRIEDE4 assevera:

“A não produção do denominado periculum in mora inverso, necessariamente implícito no próprio bom senso do julgador, portanto, desponta inegavelmente como um pressuposto inafastável para a decisão final pela concessão da medida liminar – a ser sempre e obrigatoriamente verificado, de forma compulsória – uma vez que, em nenhuma hipótese, poderia ser entendido como um procedimento lícito a modificação de uma situação de fato perigosa para uma parte – mas tranqüila para outra – por uma nova que apenas invertesse a equação original, salvaguardando os interesses de uma das partes em detrimento da outra e ao elevado custo da imposição de gravames [até então inexistentes e por vezes até mesmo insuportáveis]”.

Dessa forma, resta evidente que o presente pedido de suspensão não preenche os requisitos autorizadores, uma vez que não restaram comprovadas as graves ofensas alegadas na exordial.

Diante de todo o exposto, considerando que não restaram preenchidos os requisitos do art. 4º, da Lei nº 8.437/92, o Ministério Público de Pernambuco manifesta-se pelo INDEFERIMENTO do pedido de suspensão.

Recife, 29 de abril de 2021.

FRANCISCO DIRCEU DE BARROS

Subprocurador Geral de Justiça em Assuntos Jurídicos

MARIA DO SOCORRO SANTOS OLIVEIRA Promotora de Justiça/Assessor Técnico em Matéria Cível

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