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Mana vol.4 número2

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Academic year: 2018

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(1)

Int rodução

A e con om ia é , se m d ú vid a , a d iscip lin a d a s ciê n cia s socia is q u e e stá m a is lig a d a à in te rve n çã o d o Esta d o, e isto d e sd e a s su a s orig e n s. C om e fe ito, se se re m on ta a o sé cu lo XVII, a e con om ia p olítica forn e ce u o q u a d ro con -tá b il (com a a ritm é tica p olítica , p re d e ce ssora d a C on ta b ilid a d e N a cion a l) e in te le ctu a l (com o m e rca n tilism o e d e p ois com a fisiocra cia ) q u e p e rm i-tiu fu n d a r o p od e r d o Esta d o. Em se g u id a , a “ ciê n cia e con ôm ica ” se e sfor-ça rá p a ra con stitu ir e m corp u s rig oroso, m é tod os e te oria s, p e rm itin d o d a r a o p od e r os in stru m e n tos d e u m a b oa in te rve n çã o p ú b lica (q u e , p a ra a lg u n s, d e ve se r m ín im a ), p od e n d o e sta se e xe rce r e m trê s d om ín ios, q u e con stitu e m ca m p os d e e stu d o d a d iscip lin a : a a loca çã o d os re cu rsos n a e con om ia (q u e re m e te à d e stin a çã o d os fa tore s — o tra b a lh o e o ca p ita l — com vista s a p rod u zir riq u e za s); a re d istrib u içã o d a s riq u e za s p rod u zi-d a s (o q u e re m e te , n ota zi-d a m e n te , a o p a p e l zi-d o fisco); e a re g u la çã o zi-d a a ti-vid a d e e con ôm ica n o â m b ito g lob a l, e m ou tros te rm os, a p olítica e con ô-m ica .

Foi, sob re tu d o, a p ós o té rm in o d a Se g u n d a G u e rra M u n d ia l q u e a in te rve n çã o d o Esta d o n a e con om ia cre sce u con sid e ra ve lm e n te . Ao lon -g o d e sse p e ríod o, a ciê n cia e con ôm ica ofe re ce u , com o k e yn e sia n ism o, a u m só te m p o a te oria e os in stru m e n tos d e ta l in te rve n çã o. A e p iste m olo-g ia in stru m e n ta lista d a ciê n cia e con ôm ica , d om in a n te e n tã o, e in sp ira d a e m Pop p e r a tra vé s d a le itu ra q u e d e le fa z o p rê m io N ob e l d e e con om ia M ilton Frie d m a n (1953), d e ve se r d ire ta m e n te re la cion a d a com o p a p e l e m in e n te m e n te p olítico d e ssa d iscip lin a . A p osiçã o se g u n d o a q u a l p ou -co im p orta o re a lism o d a s h ip óte se s, -con ta n to q u e se p ossa -con fr on ta r com a re a lid a d e a s con se q ü ê n cia s q u e se tira d os m od e los q u e e la s p e r-m ite r-m con stru ir, ir-m p lica o fa to d e q u e é a e ficá cia d a in te r ve n çã o q u e im p orta e n ã o a com p re e n sã o p rofu n d a d a re a lid a d e e stu d a d a . O form a

-DA IN VEN ÇÃO DO DESEMPREGO

À SUA DESCON STRUÇÃO*

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lism o m a te m á tico, tã o forte m e n te critica d o p e la s ou tra s ciê n cia s socia is, n ã o forn e ce o q u a d ro rig oroso d e u m a d e scriçã o d a re a lid a d e , m a s colo-ca e m re la çã o va riá ve is, d a s q u a is a lg u m a s p od e rã o se r u tiliza d a s com o “ in stru m e n tos” p a ra a g ir sob re ou tra s, q u e sã o a s va riá ve is “ ob je tivos” d a in te rve n çã o.

A va riá ve l “ ob je tivo” d a in te rve n çã o p ú b lica m a is im p orta n te d e sd e a Se g u n d a G u e rra n os p a íse s d a O r g a n iza çã o p a ra a C oop e ra çã o e o De se n volvim e n to Econ ôm ico (O C DE) é o d e se m p re g o. O p ósg u e rra p re se n cia o re in o d a s “ p olítica s d e p le n o e m p re g o” . Esta s d e ve m su p osta -m e n te re solve r a “ q u e stã o socia l” , cu ja for-m u la çã o con te -m p orâ n e a é o d e se m p re g o, d e p ois d a p ob re za (a té o fim d o sé cu lo XVIII) e o p a u p e rim o (n o sé cu lo XIX). A ca te g oria d e d e se rim p re g o é , corim e fe ito, u rim a con s-tru çã o h istórica (d o q u e , com fre q ü ê n cia , e sq u e ce m os e con om ista s, q u e te n d e m a con sid e ra r a s ca te g oria s e a s le is e con ôm ica s com o g e ra is n o e sp a ço e n o te m p o) q u e d e corre d e u m p roce sso cu jos m om e n tos p rin ci-p a is fora m o fim d o sé cu lo XIX/ in ício d o XX e os a n os 30. H oje , ci-p oré m , e ssa ca te g oria e stá e m crise : p a r e ce q u e a ssistim os a u m p r oce sso d e “ d e scon stru çã o” d a m e sm a , se g u n d o u m p r oce sso e m a lg u n s a sp e ctos in ve rso a o q u e d e se m b ocou e m su a in ve n çã o. Ta l q u e stion a m e n to d o “ d e se m p re g o” a b a la , p or su a ve z, a p róp ria ciê n cia e con ôm ica com o ciê n -cia d e re fe rê n -cia d a in te rve n çã o p ú b lica .

De p ois d e re tra ça r a s e ta p a s d a g ê n e se d a ca te g oria d e d e se m p re g o, n ota d a m e n te n a lin h a d os tra b a lh os h istóricos r e ce n te s d e sociólog os e e con om ista s fra n ce se s (Sa la is, Ba ve re z e Re yn a u d 1986; Top a lov 1994, De srosiè re s 1993; C a ste l 1995), te n ta re i m ostra r a lg u m a s e vid ê n cia s d o se u q u e stion a m e n to com o ca te g oria in d issociá ve l d e re p re se n ta çã o e a çã o d a in te rve n çã o p ú b lica , e su a s con se q ü ê n cia s p a ra a ciê n cia e con ôm ica .

Pré-hist ória do desemprego

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e xp e rim e n ta o e n ig m a d e su a coe sã o e te n ta con ju ra r o risco d e su a fra -tu ra ” (1995:18).

Pa ra com p re e n d e r a g ê n e se d a ca te g oria d e d e se m p re g o, con vé m re tom a r a s form u la çõe s d a q u e stã o socia l q u e a p re ce d e ra m , e q u e , a liá s, e m ce rtos a sp e ctos, p a re ce m p róxim a s d a s form u la çõe s a tu a is, com o ve re -m os n a se g u n d a p a rte d e ste a rtig o. Até on d e re -m on ta r n e ssa p ré -h istória d o d e se m p re g o? A m isé ria e a p ob re za e xistira m e e xiste m e m p ra tica -m e n te tod a s a s socie d a d e s (se e xclu ir-m os a s socie d a d e s d ita s p ri-m itiva s). En tre ta n to, a q u e stã o socia l n ã o se re d u z à e xistê n cia d a p ob re za : e la su r-g e q u a n d o os p r ob le m a s socia is sã o r e p re se n ta d os com o ta is, ou se ja , q u a n d o sã o con ce b id os com o re m e te n d o à socie d a d e e m se u con ju n to, p orq u e sã o ca u sa d os p e lo siste m a socia l e / ou p orq u e coloca m e m p e rig o e sse siste m a . As for m u la çõe s d a q u e stã o socia l a lu d e m , p or ta n to, d e m a n e ira in d issociá ve l, a re p re se n ta çõe s e m od a lid a d e s d e a çã o d a socie -d a -d e sob re si m e sm a . Assim , -d e m a n e ira b e m e sq u e m á tica , p o-d e -se -d istin g u ir, n a s socie d a d e s ocid e n ta is e u rop é ia s, a su ce ssã o d e d u a s p rob le -m a tiza çõe s d a q u e stã o socia l q u e p r e ce d e -m a in ve n çã o d o d e se -m p re g o. A p rim e ira , q u e se e ste n d e , g rosso m od o, d o sé cu lo XIV a o fim d o sé cu lo XVIII, é a d a p ob r e za n a s socie d a d e s p ré -in d u stria is. A se g u n d a , q u e d om in a o sé cu lo XIX, é a d o p a u p e rism o a ssocia d o à in d u stria liza çã o. Foi p a ra te n ta r re sp on d e r a o d e sa fio q u e e ste ú ltim o la n ça à ord e m socia l q u e “ foi in ve n ta d o o d e se m p re g o” n a vira d a d o sé cu lo.

O lugar do pobre na sociedade pré-indust rial

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ord e m socia l tra d icion a l. É e n tã o q u e se p od e fa la r d a e m e rg ê n cia d e u m a q u e stã o socia l n o se n tid o a q u i d e fin id o.

Esta ú ltim a e n con tra rá u m a form u la çã o a tra vé s d a s p olítica s p r e co-n iza d a s a re sp e ito d os p ob r e s. Se ria e xa g e r o a firm a r q u e co-n e co-n h u m a m u d a n ça ocorre u n e ssa s p olítica s e n tre o in ício d o sé cu lo XIV e o fim d o sé cu lo XVIII. Pod e -se , e n tre ta n to, sa lie n ta r, a o p re ço d e u m a im p orta n te sim p lifica çã o, q u e ta is p olítica s con stitu íra m va ria çõe s su ce ssiva s e m tor-n o d e trê s te m a s r e corre tor-n te s: a a titu d e d ia tor-n te d os p ob r e s se itor-n scre ve , d u ra n te e sse p e ríod o, e m u m a d ia lé tica e n tr e a ssistê n cia e r e p re ssã o, sob re u m fu n d o p rod u tivista cla ra m e n te m a rca d o a p a rtir d o sé cu lo XVII, com a e sp e ra n ça , se m p re fru stra d a , d e torn a r os p ob re s re n tá ve is.

A a ssistê n cia re m e te à ca rid a d e cristã , q u e te m u m a trip la fu n çã o n a socie d a d e tra d icion a l. C om o sa lie n ta Sa ssie r (1990), a e sm ola p e r m ite g a n h a r a sa lva çã o p e ssoa l, m a s e la é ta m b é m con ce b id a com o e sta n d o n o fu n d a m e n to d o vín cu lo socia l; e n fim , é a ju stifica tiva d o rico q u e , se g u n d o C a lvin o, se se com p orta b e m , é u m ve rd a d e iro “ fu n cion á rio d e De u s” . A d im e n sã o local d a ca rid a d e é u m a sp e cto p rim ord ia l: o p róxim o é , a n te s d e tu d o, o p róxim o g e og ra fica m e n te , e a e sm ola d e se m p e n h a com o q u e u m “ se rviço socia l loca l” (C a ste l 1995:53). Ao m e sm o te m p o, a ca rid a d e é a n im a d a p e la p re ocu p a çã o d e d ar a o “ b om p ob re ” , d on d e se con stitu ir u m a a tivid a d e cla ssifica tória q u e e stá n o fu n d a m e n to d a re p re -se n ta çã o e d o tra ta m e n to d a p ob re za , e q u e , com o ve re m os, d e -se m p e n h a ta m b é m u m p a p e l im p orta n te n a in ve n çã o d o d e se m p re g o. A fig u ra d o p ob re m e re ce d or re m e te a o in vá lid o, à cria n ça e a o ve lh o, q u e sã o in ca -p a ze s d e tra b a lh a r, e n q u a n to o -p ob re vá lid o, e -p orta n to o va g a b u n d o e m p rim e ira lin h a , con stitu i, a o con trá rio, a fig u ra in fa m e , q u e d e p e n d e n ã o m a is d a a ssistê n cia e sim d a re p re ssã o.

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m e lh or, e se a ssiste a u m a m u d a n ça d a visã o d a p ob r e za , p a ssa n d o d e u m a “ e xp e riê n cia re lig iosa q u e a sa n tifica a u m a con ce p çã o m ora l q u e a con d e n a ” (Fou ca u lt). De fa to, n a In g la te rra , o a sp e cto re p re ssivo a p a re ce b e m ce d o, com u m p rim e ir o é d ito re a l d e 1349 visa n d o lim ita r a va g a -b u n d a g e m , d e p ois a s “ p oor law s” , a p a rtir d e 1601, q u e o-b rig a m a s p a ró-q u ia s a d a r a ssistê n cia a os in d ig e n te s, m a s ró-q u e , a o m e sm o te m p o, in cita a coloca r p a ra tra b a lh a r os a p tos, o q u e a ca r re ta rá o d e se n volvim e n to p rog re ssivo d a s w ork h ou se s. N a Fra n ça , a se g u n d a m e ta d e d o sé cu lo XVII m a rca o in ício d o “ g ra n d e e n cla u su ra m e n to” , se g u n d o a e xp re ssã o d e Fou ca u lt, q u e vê tod os os m a rg in a is re le g a d os a h osp ita is d e ca rid a -d e , ou m u itos le va -d os a o tra b a lh o força -d o.

Essa in sistê n cia sob r e o tra b a lh o r e m e te a u m te r ce iro a sp e cto d a p olítica a re sp e ito d os p ob re s, in d issociá ve l d os d ois p rim e iros: a p re ocu p a çã o p rod u tivista , q u e in siste sob re a n e ce ssid a d e d e “ u tiliza r os in ú -te is” (Sa ssie r 1990). Assim , com o sa lie n tou Fou ca u lt, os h osp ita is d e ca ri-d a ri-d e sã o ve rri-d a ri-d e ira s “ m a n u fa tu ra s-p risõe s” , à im a g e m ri-d a s w ork h ou se s in g le sa s, cu ja e m e rg ê n cia d e ve se r a ssocia d a , se g u n d o e le , a o a p a re cim e n to d a ord e cim cim e rca n til, a d iscip lin a d o corp o te n d o p or ob je tivo a in te -g ra çã o n a or d e m ca p ita lista . É ta m b é m in te r e ssa n te ob se r va r q u e ta l id e olog ia p rod u tivista a p lica d a a os p ob re s e stá m u ito p re se n te n os e con om ista s d a é p oca , e m p rim e iro lu g a r con os m e rca con tilista s, com o p or e xe m -p lo M on tch ré tie n , n a Fra n ça . En tre ta n to, e ssa con ce -p çã o m a n té m u m a d im e n sã o m ora l b e m m a rca d a . É p re ciso e sp e ra r o a p a re cim e n to d a e co-n om ia clá ssica , com Sm ith , p a ra q u e o e coco-n ôm ico se e m a co-n cip e .

A virada liberal

N o fim d o sé cu lo XVIII e in ício d o XIX a ssiste se a u m a oscila çã o n a con -ce p çã o d a p ob re za , cu jos sin a is a n u n cia d ore s p od e m se r p e r-ce b id os d e s-d e o fim s-d o sé cu lo XVII, m a s q u e se rá p re cip ita s-d a n e ssa é p oca p or s-d ois a con te cim e n tos m a iore s: a Re volu çã o Fra n ce sa , n o ca m p o p olítico, e a Re volu çã o In d u stria l, n o ca m p o e con ôm ico. Esse p e ríod o é o d a “ vira d a lib e ra l” n os d ois ca m p os, com o d e sm a n te la m e n to rá p id o, com o n a Fra n -ça , ou m a is p rog re ssivo, com o n a In g la te rra , d a s re g u la çõe s tra d icion a is. Isso d e se m b oca rá n a cria çã o d e u m ve r d a d e iro m e rca d o d e tra b a lh o, in d issociá ve l d e u m a n ova con ce p çã o d o p róp rio tra b a lh o, q u e se a firm a -rá , n ota d a m e n te , n a ob ra d os e con om ista s d e sse p e ríod o.

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-b lé ia C on stitu in te , q u e e n u n cia rá u m a n ova form u la çã o d a q u e stã o socia l, e m re la çã o com os d ire itos d o h om e m . C om e fe ito, se g u n d o os m e m b ros d o com itê , “ on d e e xiste u m a cla sse d e h om e m se m su b sistê n cia , e xiste u m a viola çã o d os d ire itos d a h u m a n id a d e , o e q u ilíb rio socia l é rom p id o” (ap u d C a ste l 1995:185); tra ta -se , p orta n to, d e fa ze r va le r “ o d ire ito d o h m e m p o b re s o b re a s o c ie d a d e ” , a o m e s m o t e m p o q u e o d ire it o d a s cie d a d e sob re e ste ú ltim o. Esse d ire ito d o h om e m p ob re d e ve d e se m b oca r e m u m a u xílio p e lo tra b a lh o. Assim , e e ste p on to m a roca o in a oca b a -m e n to d o p rog ra -m a re volu cion á rio, o d ire ito ao trab alh o n ã o é a fir-m a d o: a in te rve n çã o d o Esta d o d e ve p e rm a n e ce r in d ire ta , a id é ia fu n d a m e n ta l é a d e q u e o livr e a ce sso a o m e r ca d o d e tra b a lh o é q u e d e ve p e r m itir re solve r o p r ob le m a d a fa lta d e e m p r e g o. É n e sse q u a d r o q u e se d e ve com p re e n d e r a le i Le C h a p e lie r, q u e su p rim e a s corp ora çõe s. M a s já q u e a lib e rd a d e d o tra b a lh o e ra tid a com o a con d içã o n e ce ssá ria e su ficie n te p a ra a re solu çã o d o p r ob le m a d a p ob r e za in volu n tá ria , a m e n d icâ n cia “ volu n tá ria ” torn a -se u m d e lito socia l, e re e n con tra m os a ssim o a sp e cto re p re ssivo.

Do ou tro la d o d o C a n a l d a M a n ch a , o in ício d o sé cu lo XIX é m a rca -d o p e lo q u e stion a m e n to -d a s le is sob re os p ob re s, se g u n -d o u m p roce sso q u e se e ste n d e rá p or u n s q u a re n ta a n os, e n o q u a l os e con om ista s vã o d e se m p e n h a r u m p a p e l e sse n cia l. O a n o d e 1795 h a via m a rca d o u m m o-m e n to d e p a ssa g e o-m n a h istória d a s le is sob r e os p ob re s, coo-m a le i d e Sp e e n h a m la n d in sta u ra n d o u m siste m a d e r e n d a m ín im a , re p ou sa n d o sob re u m a a ju d a e m fu n çã o d a e stru tu ra d a fa m ília e d o p re ço d o trig o, com p le m e n ta r à s e ve n tu a is re n d a s d o tra b a lh o. Se a le i foi m u ito p op u la r n o in ício, se u s e fe itos p e rve rsos a p a re ce ra m p ou co a p ou co, d e m od o q u e , se g u n d o Pola n yi (1944), o re su lta d o d a Sp e e n h a m la n d , q u e se p rop u n h a im p e d ir a p role ta riza çã o d o p ovo, “ foi sim p le sm e n te a p a u p e riza çã o d a s m a ssa s, q u e n o ca m in h o p e rd e ra m q u a se tod a form a h u m a n a ” . Ta is e fe i-tos n e g a tivos fora m con tin u a m e n te d e n u n cia d os p e los e con om ista s d a é p oca .

(7)

d o O cid e n te m od e rn o. De p ois d e Lock e , q u e fa z d e le o fu n d a m e n to d a p rop rie d a d e , Sm ith a b a n d on a a con ce p çã o, a in d a b e m p re se n te , d o tra b a lh o com o sin a l d a m a ld içã o b íb lica e con se q ü ê n cia d a e xclu sã o d a e sfe -ra d a riq u e za (n a ord e m t-ra d icion a l, os “ ricos” n ã o t-ra b a lh a m ), p a -ra fa ze r d e le , a o con trá rio, o fu n d a m e n to d a riq u e za com a te oria d o va lor tra b a -lh o. Pa ra q u e e le p ossa se d e se n volve r p le n a m e n te , o tra b a -lh o d e ve se r su b m e tid o à s le is d o m e rca d o. O ra , com o sa lie n ta m , q u a re n ta a n os d e p ois d e Sm ith , M a lth u s e Rica rd o — a s d u a s fig u ra s d e p roa d a e con om ia clá ssica n o in ício d o sé cu lo XIX — a le i d e Sp e e n h a m la n d ob stru i o livre fu n -cion a m e n to d o m e rca d o d e tra b a lh o, e con trib u i a ssim p a ra m a n te r e a té m e sm o a g ra va r a p ob re za q u e e la d e ve su p osta m e n te com b a te r. Sob in jú -ria s, a le i é a b olid a e m 1834.

A idade do pauperismo

De p ois d a vira d a lib e ra l, p a ssa se , p rog re ssiva m e n te , p a ra ou tra p rob le -m á tica . C o-m e fe ito, o d e se n volvi-m e n to d a in d u stria liza çã o d e ce p cion a rá a s e sp e ra n ça s otim ista s q u a n to à re solu çã o d o p rob le m a d a p ob re za : a m isé ria , lon g e d e d im in u ir, p a re ce , a o con trá rio, a u m e n ta r. À p ob re za clá ssica , “ re síd u o” com p osto d os d e sa filia d os d a ord e m tra d icion a l, va i su ce -d e r u m a m isé ria m a ciça , ra p i-d a m e n te p e rce b i-d a com o a con se q ü ê n cia d ire ta d o fu n cion a m e n to d o n ovo siste m a e con ôm ico: a fá b rica p rod u zin -d o -d ois a rtig os, con form e u m a b ou ta-d e in g le sa , “ a lg o-d ã o e p ob re s” . M a s o q u e im p orta é q u e a o la d o d o m ise rá ve l d e sp rovid o d e tra b a lh o, a p a re -ce o trab alh ad or m ise ráv e l, cu jo sa lá rio b a ixo d e m a is n ã o p e rm ite le va r u m a e xistê n cia d e ce n te . O “ p a u p e rism o” e stá d u p la m e n te n o ce rn e d a n ova q u e stã o socia l, já q u e re su lta d a n ova ord e m e con ôm ica e socia l e , e m re va n ch e , a m e a ça ta l ord e m . É, e vid e n te m e n te , M a rx q u e m sa lie n ta com m a is ê n fa se ta l con tra d içã o, d ia g n ostica n d o o cre scim e n to d o “ e xé r-cito in d u stria l d e re se rva ” e a p a u p e riza çã o d a s cla sse s tra b a lh a d ora s.

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ti-co, a “ Q u e stã o Socia l” (o te rm o a p a re ce n e ssa é p oca ) e sta n d o n o ce rn e d a s p re ocu p a çõe s ta n to d os re form a d ore s q u a n to d os con se rva d ore s.

Ta l te n sã o e n tre a via re volu cion á ria e a via m a is p ra g m á tica é b e m ilu stra d a p e la Re volu çã o d e 1848, n a Fra n ça . Esta d e se m b oca , com e fe ito, e m im p orta n te s d e b a te s sob re o “ d ire ito a o tra b a lh o” (d e ce n te ), solu çã o d a q u e stã o socia l p a ra os e le itos ra d ica is d a n ova Asse m b lé ia (Don ze lot 1984, Rosa n va llon 1995). Pa ra e ste s ú ltim os, o d ire ito a o tra b a lh o d e corre d ire ta m e n te d os d ire itos d o h om e m , e m a rca , p orta n to, a re a liza çã o d o p rog ra m a d a Re volu çã o Fra n ce sa . Pa ra os lib e ra lcon se rva d ore s, a o con -trá rio, cu ja s g ra n d e s fig u ra s n a Asse m b lé ia sã o Th ie rs e Tocq u e ville , o d ire ito a o tra b a lh o n ã o p od e te r n e n h u m e sta tu to ju ríd ico. Ele re m e te a u m d ire ito socia l, u m d ire ito “ cré d ito” e m fa ce d a socie d a d e , q u e d istin-g u e os in d ivíd u os se istin-g u n d o su a s ca ra cte rística s socioe con ôm ica s, q u a n d o o ú n ico d ire ito e xiste n te é o d ire ito civil, u m d ire ito “ a u toriza çã o” , q u e se a p lica a tod os se m d istin çã o. Alé m d isso, com o b e m a ssin a lou Tocq u e ville , a trá s d o d ire ito a o tra b a lh o se p roje ta a som b ra d o socia lism o, o q u e se rá ta m b é m forte m e n te sa lie n ta d o p or M a rx e m A Lu ta d e Classe s n a Fran ça. Ta is d e b a te s te rm in a rã o, n a ve rd a d e , com a vitória d os lib e ra lcon se rva -d ore s, sa n cion a -d a p e lo a -d ve n to -d o Se g u n -d o Im p é rio. Até o fim -d o sé cu lo é , p ois, “ u m a p olítica socia l se m o Esta d o” q u e d om in a rá (C a ste l 1995: 217), m a rca d a p e la a ssistê n cia p e rson a liza d a a os in d ig e n te s e a p a tron a -g e m sob re a cla sse op e rá ria , d a s q u a is Le Pla y foi u m d os -g ra n d e s p rom o-tore s fra n ce se s n a é p oca . É p re ciso, e n tã o, e sp e ra r a vira d a d o sé culo p a ra q u e a p a re ça m n ovos p a ra d ig m a s d e re p re se n ta çã o e d e a çã o.

A invenção do desemprego e a idade de ouro da economia

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As t ransf ormações da relação salarial e a racionalização do mercado de t rabalho

Pod e -se , é cla ro, vin cu la r a e m e rg ê n cia d a ca te g oria d e d e se m p re g o à e volu çã o d os con te xtos e con ôm ico e socia l d a é p oca . O fim d o sé cu lo XIX foi m a rca d o p or u m a tra n sfor m a çã o p rog re ssiva d a “ r e la çã o sa la ria l” . Esta , ta n to n a In g la te rra q u a n to n a Fra n ça , e m b ora se g u n d o m od a lid a d e s d ife re n te s (u rb a n a s n o p rim e iro p a ís, ru ra is n o se g u n d o), é b e m p ou co e sta b iliza d a . As e m p re sa s d e fron ta m se e sp e cia lm e n te com u m a rota -tivid a d e b a sta n te e xp re ssiva , q u e a s coloca sob a a m e a ça d e p e n ú ria d e m ã o-d e -ob ra e m ce rto p e ríod o, n ota d a m e n te n a Fra n ça on d e a p lu ria tivi-d a tivi-d e (m u itos op e rá rios sã o ta m b é m a g ricu ltore s) é a in tivi-d a m u ito tivi-d ifu n tivi-d itivi-d a (N oirie l 1984). Sim e trica m e n te , e ssa fra ca lig a çã o com a e m p re sa se tra -d u z p a ra os op e rá rios e m u m a forte p re ca rie -d a -d e q u e os -d e ixa à m e rcê d a m e n or d e sa ce le ra çã o con ju n tu ra l. A re la tiva e sta b iliza çã o d o a ssa la ria d o se rá e fe tu a d a , p rim e ira m e n te , p or u m a con stru çã o ju ríd ica , re fle tin d o e m p a rte u m a n ova re a lid a d e q u e é a d a s g ra n d e s e m p re sa s. À con ce p çã o d o d ire ito civ il, q u e fa z d o con tra to d e tra b a lh o u m sim p le s con -tra to d e troca e n tre d ois in d ivíd u os (q u e a e con om ia clá ssica r e p e te a o fa ze r d o tra b a lh o u m b e m e se rviço q u e se troca e m q u a lq u e r m e rca d o), su ce d e rá a d o d ire ito d o trab alh o, q u e in scre ve a re la çã o d e tra b a lh o n o te m p o, e fa z d e le u m vín cu lo d e su b ord in a çã o e n tre u m in d ivíd u o e u m a e n tid a d e cole tiva , a e m p re sa . Ap a re ce , e n tã o, o e m p re g o com o in scriçã o socia l e ju ríd ica d a p a rticip a çã o d os in d ivíd u os n a p rod u çã o d a s riq u e -za s, se n d o q u e o d e se m p re g o p od e rá se r d e fin id o com o se u n e g a tivo.

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O desemprego como cat egoria econômica e est at íst ica

A ob ra d e M a rsh a ll, o g ra n d e e con om ista in g lê s d o p e ríod o, b a sta n te e n volvid o n os d e b a te s socia is d e su a é p oca , d e se m p e n h a , d e sse p on to d e vista , u m p a p e l im p orta n te (M a n sfie ld , Sa la is e Wh ite sid e 1994). Ele se e sforça p a ra m ostra r, a p oia d o e m e sta tística s, q u e con tra ria m e n te à op i-n iã o d os socia lista s e d e i-n u m e rosos re form a d ore s, o sa lá rio p or ca b e ça te ria cre scid o a o lon g o d o sé cu lo XIX, d e m od o q u e o e m p ob re cim e n to d a s cla sse s tra b a lh a d ora s com o re su lta n te n e ce ssá ria d o d e se n volvim e n -to d o ca p ita lism o in d u stria l é u m a id é ia fa lsa . Q u a n -to a os in d ivíd u os d e s-p rovid os d e e m s-p re g o, o con ce ito d e s-p rod u tiv id ad e m arg in al, ce n tra l n o p a ra d ig m a d a e con om ia n e oclá ssica q u e e le con trib u i p a ra fu n d a r, p e r-m ite d istin g u ir os “ e r-m p re g á ve is” e os “ n ã o e r-m p re g á ve is” . Este s ú ltir-m os sã o a q u e le s cu ja p r od u tivid a d e é fra ca d e m a is p a ra q u e p ossa m se r e m p re g a d os com sa lá rio corre n te , m e sm o d e su b sistê n cia , e q u e d e p e n -d e m , p orta n to, -d a a ssistê n cia , p a ra a s -d e sva n ta g e n s q u e n ã o p o-d e m se r m od ifica d a s, ou , p a ra a m a ioria , d a p olítica d e for m a çã o, d e stin a d a a a u m e n ta r se u ca p ita l h u m a n o. O s p róp rios “ e m p r e g á ve is” p od e m se e n con tra r se m e m p re g o, d e vid o a re vira volta s con ju n tu ra is. É Be ve rid g e (1909) q u e m com p le ta rá a e la b ora çã o d a ca te g oria d e “ d e se m p re g o” , a o d istin g u ir a s su a s d ife re n te s ca u sa s (sa zon a l, con ju n tu ra l cíclica ou e stru -tu ra l d e in a d e q u a çã o). Pa ssa -se , e n tã o, d e u m a cole çã o d e in d ivíd u os — os “ p ob re s” , os “ in d ig e n te s” ou os “ d e se m p re g a d os” — p a ra u m fe n ô-m e n o ô-m a crossocia l, o “ d e se ô-m p re g o” . O tod o n ã o é ig u a l à soô-m a d a s p a r-te s: n ã o é p or a ca so se , n a Fra n ça n a m e sm a é p oca , é u m d u rk h e im ia n o, La za rd , q u e m d e fin e o d e se m p re g o com o u m fa to socia l irre d u tíve l a os in d ivíd u os q u e o com p õe m (Top a lov 1994).

O d e se m p re g o se rá ob je to d e m e n su ra çõe s e sta tística s, a p rin cíp io n o q u a d ro d os ce n sos (o d e 1896 é o p rim e iro on d e a p a re ce m os d e se m -p re g a d os n a Fra n ça ), d e -p ois, a -p a r tir d os a n os 30, n os Esta d os Un id os, p or son d a g e n s, g ra ça s a o d e se n volvim e n to d e sta té cn ica . É o tra b a lh o e sta tístico q u e p e rm itirá d a r “ re a lid a d e ” a e sse con ce ito, e con fe rirá a e le , a o m e sm o te m p o, u m ca rá te r op e ra tório. O d e se m p re g o, e n tã o, tor-n a r-se -á u m a ca te g oria d e re fe rê tor-n cia d os d ife re tor-n te s a tore s, se rvitor-n d o-lh e s p a ra a ju sta r su a s in te ra çõe s. C om o sa lie n ta De srosiè re s,

“ A re a lid a d e a p a re ce com o o p rod u to d e u m a sé rie d e op e ra çõe s m a te ria is d e in scriçõe s [q u e con stitu e m ] o ob je to d e in ve stim e n tos [...]. Esse s in ve stim e n tos só g a n h a stim se n tid o e stim u stim a lóg ica d e a çã o q u e e n g lob a a lóg ica a p a

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com o re la tiva a u m a ta l lóg ica , e la é , a u m só te m p o, re a l, já q u e e ssa a çã o se p od e a p oia r sob re e la (o q u e é u m b om crité rio d e re a lid a d e ) e con stru í-d a , n o q u a í-d ro í-d e ssa lóg ica ” (1993:21).

Desemprego e int ervenção pública

N o p la n o d a in te rve n çã o p ú b lica , a in ve n çã o d o d e se m p re g o d a rá lu g a r, a n te s d e tu d o, à in d e n iza çã o, cria d a p ou co a n te s d a Prim e ira G u e r ra M u n d ia l n a In g la te rra . A a ssim ila çã o d o d e se m p re g o a u m risco social d e ve se r vin cu la d a à su a con ce p çã o e sta tística e m a crossocia l. Ela d e ve se r situ a d a n o q u a d ro d o n ovo p a ra d ig m a q u e su rg e n o fim d o sé cu lo e n a sce , n o con te xto fra n cê s, d a a lia n ça d e u m a id e olog ia m u ito m a rca d a p e lo d u rk h e im ia n ism o, o solid a rism o, e u m a té cn ica , o se g u r o (Ew a ld 1986). O solid a rism o, te oriza d o p or Lé on Bou rg e ois, in siste n o fa to d e q u e o h om e m é , d e sd e o se u n a scim e n to, “ u m d e ve d or d a a ssocia çã o h u m a-n a ” . O se g u r o socia l, p or se u la d o, p e r m itirá coa-n fe rir u m a r e a lid a d e a e ssa solid a rie d a d e se m ca ir n o socia lism o, re solve n d o a ssim a e q u a çã o p olítica d o sé cu lo XIX. C om o n ota Ew a ld , “ o se g u ro p e rm ite a ca d a u m b e n e ficia r-se d a s va n ta g e n s d o tod o, d e ixa n d o-o livre p a ra e xistir com o in d ivíd u o. Ele p a re ce re con cilia r e sse s d ois te rm os a n ta g ôn icos q u e sã o socie d a d e e lib e rd a d e in d ivid u a l” (1986:177).

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Desconst rução da cat egoria de desemprego e abalo da ciência econômica

Vá rios in d ícios le va m a p e n sa r q u e se a ssiste h oje a u m p roce sso e m m u i-tos a sp e ci-tos in ve rso a o q u e a ca b a d e se r d e scrito, e a o re ssu rg im e n to d e p rob le m á tica s q u e le m b ra m a s d a id a d e d a p ob r e za e d o p a u p e rism o. Essa d e scon str u çã o d o d e se m p r e g o p od e se r d e lim ita d a n os con te xtos a m e rica n o e e u r op e u . Ela con trib u i p a ra o q u e stion a m e n to d a p osiçã o d om in a n te d a e con om ia e n tre a s ciê n cia s socia is, e , n ota d a m e n te , com o q u a d ro d e re fe rê n cia d a a çã o p ú b lica .

Algumas lições da experiência americana

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le va r e m con ta os d e se m p re g a d os d e se n cora ja d os, a s p e ssoa s e m te m p o p a rcia l n ã o e scolh id o, com o ta m b é m a p a rte d os d e se m p re g a d os d e lon -g a d u ra çã o. Ta l d e clín io e m vá ria s ta xa s d e d e se m p r e -g o m a rca u m a p ri-m e ira forri-m a d e d e scon stru çã o d a ca te g oria d e d e se ri-m p re g o, a q u i cori-m o ca te g oria e sta tística .

Alé m d isso, o q u e é m a is fu n d a m e n ta l, o d e se m p re g o n ã o e stá m a is n o ce rn e d a q u e stã o socia l n os Esta d os Un id os. Ba sta sa lie n ta r a coe xistê n cia a li d o q u e é con sid e ra d o com o p le n o e m p re g o (u m a ta xa d e d e se m -p re g o in fe rior, n o in ício d e 1997, a 5% ) e -p rob le m a s socia is im -p orta n te s. Isto re su lta d o fa to q u e , sim e trica m e n te , o e m p re g o n ã o é , ou n ã o é m a is, con d içã o su ficie n te d a in te g ra çã o socia l, com o se p e n sa va n o p a ra d ig m a b e ve rid g ia n o. De sd e o in ício d os a n os 80 a s d e sig u a ld a d e s a u m e n ta ra m con sid e ra ve lm e n te d e vid o à q u e d a , n ã o a p e n a s e m te rm os re la tivos, d a re n d a d os m e n os q u a lifica d os. N o tota l, n e sse p a ís, d e se m p re g o e p ob re za coin cid e m ca d a ve z m e n os: n o in ício d os a n os 90, 20% d os tra b a lh a -d ore s tin h a m u m n íve l -d e r e n -d a q u e os coloca va a b a ixo -d o lim ia r -d e p ob re za (form a n d o a ca te g oria d os “ w ork in g p oors” ), e n q u a n to, sim e tri-ca m e n te , u m g ra n d e n ú m e ro d e b e n e ficiá rios d a a ju d a socia l (os “ w e lfare lfare cip ie n ts” ), n o e n ta n to a p tos, n ã o e stã o q u a lifica d os com o d e se m p lfare -g a d os. Essa s d u a s ca te -g oria s re m e te m a p a ra d i-g m a s q u e le m b ra m , e m m u itos a sp e ctos, a s r e p re se n ta çõe s q u e p r e ce d e ra m a in ve n çã o d o d e se m p re g o. Assim , com o w ork in g p oor, re e n con tra -se a con ju n çã o d o tra b a lh o e d a m isé ria q u e e stá n o fu n d a m e n to d o p a u p e rism o. Do m e sm o m od o, com os p rog ra m a s d o W ork fare , p or op osiçã o a o W e lfare , q u e con d icion a m a a ssistê n cia socia l a u m a con tra p a rtid a e m tra b a lh o, re e n con -tra -se a ve lh a d ia lé tica -tra d icion a l “ a ssistê n cia -re p re ssã o” n o -tra ta m e n to d a p ob re za , d e ta l m od o q u e o p a stor J e sse J a ck son p ôd e d ize r q u e “ a g u e rra con tra a p ob r e za ” , su rg id a n os a n os 60, d e u lu g a r h oje a u m a “ g u e rra con tra os p ob re s” .

Algumas lições da experiência européia

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s-sa g e m e m d ois te m p os. Pa ssou -se d a p olítica d e re g u la çã o m a croe con ôm ica d e p le n o e ôm p re g o à s p olíticas e sp e cíficas d o e ôm p re g o — q u e re a -g ru p a m a s in te rve n çõe s d ire ta s n o m e rca d o d e tra b a lh o visa n d o re d u zir se u s d e se q u ilíb rios —, e d e p ois, ca d a ve z m a is, à s p olíticas d e in se rção, q u e u ltra p a ssa m a sim p le s d im e n sã o p rofission a l d a in te g ra çã o socia l. Essa s p a ssa g e n s se tra d u ze m , n o p la n o d a s ca te g oria s d e re p re se n ta çã o e d e a çã o, p e la p a ssa g e m d o d e se m p re g o, tom a d o e m su a g lob a lid a d e , a os p ú b licos e sp e cíficos d e d e se m p re g ad os (os jove n s, os d e se m p re g a -d os -d e lon g a -d a ta p rin cip a lm e n te ), e -d e p ois a os e x clu í-d os.

Vê -se q u e e sse p r oce sso é o in ve rso d a q u e le q u e d e se m b ocou n a in ve n çã o d o d e se m p re g o. Esta , com o sa lie n ta m os, con sistiu , n ota d a m e n -te , e m su p e ra r a tip olog ia d os in d ivíd u os e m fu n çã o d e su a s ca ra c-te rísti-ca s p róp ria s, p a ra p a ssa r a u m ou tro p la n o d e a n á lise , e a u m a e n tid a d e a b stra ta m a crossocia l. O re cu rso a os g ru p os-alv o d a in te rve n çã o p ú b lica n o â m b ito ce n tra l, e a in d a m a is, a p róp ria d e scon stru çã o d e sse s g ru p os con sid e ra d os com o h e te r og ê n e os d e m a is n o p la n o loca l — os a g e n te s loca is d o e m p re g o re corre n d o a se u s p róp rios crité rios d e cla ssifica çã o p a ra id e n tifica r e orie n ta r os d e se m p r e g a d os (cf. De m a ziè r e 1995) —, m a rca m o re torn o d a localiz ação e d a in d iv id u aliz ação d a in te rve n çã o p ú b lica . Esta d e se m b oca e m u m a con ce p çã o e m q u e sã o, a n te s d e tu d o, a s ca ra cte rística s d os in d ivíd u os q u e e xp lica m su a d ificu ld a d e d e in se r-çã o, e n ã o u m a d isfu n r-çã o d o siste m a e con ôm ico e socia l. O forte re torn o d o con ce ito d e e m p re g ab ilid ad e com o re fe rê n cia d a in te rve n çã o p ú b lica (G a zie r 1990) é b a sta n te sin tom á tico d e sse p on to d e vista . É in te re ssa n te n ota r q u e e sse con ce ito tin h a u m a con ota çã o p r e d om in a n te m e n te m é d i-ca n os Esta d os Un id os a o lon g o d os a n os 60.

Crise do desemprego e crise da ciência econômica

É com u m ob se rva r q u e o g ra n d e a u m e n to d o d e se m p re g o n a Eu rop a m a r-ca u m ce rto fra r-ca sso d os e con om ista s, in r-ca p a ze s d e d a r e xp lir-ca çõe s in te i-ra m e n te con vin ce n te s e u n â n im e s p a i-ra e sse fe n ôm e n o. De fa to, é , n a m in h a op in iã o, o p róp rio a b a lo d a ca te g oria d e d e se m p r e g o q u e tor n a frá g il a p osiçã o d om in a n te d a e con om ia , e m a is p re cisa m e n te , d a m acroe -con om ia.

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d os. As e sfe ra s e con ôm ica e socia l p a re ce m e n tra r n ova m e n te e m con tra -d içã o. O ra , a ciê n cia e con ôm ica , se p e rm ite (m a is-ou -m e n os) -d e scre ve r a s força s a tu a n te s, n ã o é , n o m om e n to, ca p a z d e forn e ce r solu çõe s p a ra lim ita r os e fe itos p e rve rsos d e sse p roce sso, e m u ito m e n os p a ra re ve rtê -lo. Alé m d isso, é a su a p róp ria a u ton om ia — q u e p or ve ze s tom ou o a sp e c-to d e h e g e m on ia se ctá ria — q u e é q u e stion a d a . Pa ra se com p re e n d e r o d e se m p re g o d e lon g a d u ra çã o e a e xclu sã o, n ã o se p od e d issocia r a s d im e n sõe s e con ôm ica s d a s ou tra s d im e n sõe s socia is. Som e n te a e con o-m ia n ã o b a sta ria p a ra d a r a s ch a ve s d a re solu çã o d a n ova q u e stã o socia l. Se olh a rm os m a is d e p e rto, p a re ce ria q u e a crise d o d e se m p re g o n ã o a b a la a p e n a s a e con om ia , m a s ta m b é m u m a ce rta sociolog ia . C om e fe ito, p a ra a lé m d o d e se m p re g o, o con ju n to d a s ca te g oria s m a crossocia is se ria q u e stion a d o p e la s m u ta çõe s socia is e m a çã o. Assim , se g u n d o Rosa n va llon (1995), o fe n ôm e n o d a e xclu sã o, d a d a a g ra n d e h e te rog e n e id a d e d os in d ivíd u os q u e e le a fe ta , ilu stra o fa to d e q u e , “ n ã o sã o m a is id e n tid a d e s cole -tiva s q u e é p re ciso d e scre ve r, e sim p e rcu rsos in d ivid u a is” (1995:209). O a u tor a cre sce n ta , a in d a , q u e “ a ob se rva çã o e sta tística clá ssica é in a d e q u a d a p a ra a com p re e n sã o d os fe n ôm e n os d e e xlu sã o” (1995:202). G e n e -ra liza d a p a -ra o con ju n to d os fe n ôm e n os socia is, e ssa p osiçã o d e se m b oca n o q u e stion a m e n to d a sociolog ia q u e re p ou sa sob re a u tiliza çã o d e ca te -g oria s — n ota d a m e n te e sta tística s — m a crossocia is (e m p rim e iro p la n o, a s ca te g oria s sociop rofission a is), ou se ja , os p roce d im e n tos ta n to d e in s-p ira çã o d u rk h e im ia n a q u a n to m a rxista . Assim com o s-p a ra a m a croe con o-m ia , p e rce b e -se , p oré o-m , os p e rig os p olíticos d o q u e stion a o-m e n to d a “ m a crossociolog ia ” : a a n á lise d os p rob le m a s socia is é re m e tid a à d a s ca -ra cte rística s e com p orta m e n tos in d ivid u a is, e é a p róp ria n oçã o d e “ q u e s-tã o socia l” , n o se n tid o e m q u e d e fin im os a q u i, q u e p e rd e g ra n d e p a rte d e su a p e rtin ê n cia .

Tra d u çã o: Eloisa Ara ú jo Rib e iro Re ce b id o e m 25 d e n ove m b ro d e 1997

Re visã o té cn ica : M a rcio G old m a n e Ap rova d o e m 21 d e m a io d e 1998

Silvia N og u e ira

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Ref erências bibliográf icas

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Not as

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Resumo

A ca te g oria d e “ d e se m p re g o” é fru to d e u m a con stru çã o socia l, e sta tística e ju ríd ica q u e se p od e fa ze r re cu a r, n a Eu rop a , a o fim d o sé cu lo XIX e in ício d o XX. N a sce u d e u m a re form u la çã o d a “ q u e stã o socia l” q u e se a rticu la va e m torn o d a n oçã o d e “ p ob re za ” , a té o fim d o sé cu lo XVIII, e d e “ p a u p e rism o” , n o sé cu lo XIX. A n oçã o m a crossocia l d e “ d e se m p re g o” e n con tra -se n o ce rn e d e u m n ovo p a ra d ig m a d e re p re se n ta çã o e d e a çã o, q u e te m se u a ca b a m e n to n o p rog ra m a d e Be ve rid g e d e b u sca d o “ p le n o e m p re g o” n a s socie d a d e s d e -m ocrá tica s d o p ós-g u e rra . A p a rtir d os a n os 60, a ssiste -se a u m p roce sso d e “ d e scon stru çã o” p rog re ssiva d a n oçã o d e d e se m p re g o, e m a lg u n s a sp e ctos si-m é trico a o q u e d e u lu g a r à “ in ve n çã o d o d e se m p re g o” . Esse p roce sso fra g ili-za o d iscu rso e con ôm ico, q u e fu n d a ra su a le g itim id a d e , a o lon g o d o p ós-g u e r-ra , sob r e o su ce sso d a s p olítica s d e “ p le n o e m p re g o” .

Abst ract

Referências

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