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Mana vol.3 número2

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Academic year: 2018

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(1)

N a d a d e m in h a su b stâ n cia vos e ste ve ocu lto, Q u a n d o fu i form a d o n o m isté rio,

Q u a n d o fu i tra m a d o n a s p rofu n d e za s d a te rra , Vossos olh os via m m e u corp o in form e . (Sa lm os, 138:15)

N e ste a rtig o, a n a liso o siste m a d e p a r e n te sco d os Pir o d a Am a zôn ia p e ru a n a com o u m siste m a a u top oié tico, isto é , com o u m siste m a q u e g e ra su a s p róp ria s con d içõe s d e e xistê n cia . M e u a rg u m e n to é q u e o p a re n te sco p iro e m e rg e e sp on ta n e a m e n te d o in te rior d a s e stru tu ra s d a scon sciê n -cia h u m a n a ; é isso q u e re sp on d e p e la p ossib ilid a d e d e su a e xistê n -cia , e q u e o torn a p ote n cia lm e n te in te lig íve l p a ra p e ssoa s com o o p r e se n te a u tor e , e sp e ro, com o os e ve n tu a is le itore s d e ste tra b a lh o.

Pe rsig o a q u i trê s ob je tivos. Prim e iro, p re te n d o forn e ce r u m a e xp li-ca çã o d o p a re n te sco p iro a lg o m a is p rofu n d a q u e a q u e la p r e se n te e m m e u s tra b a lh os a n te riore s. Se g u n d o, d e se jo torn a r m a is e xp lícito u m p os-tu la d o te órico q u e su b ja z a e sse s tra b a lh os, a sa b e r, q u e o p a re n te sco é , a cim a d e tu d o, u m siste m a d e su b je tivid a d e , p ois a s e stru tu ra s b á sica s d a con sciê n cia h u m a n a e n volve m n e ce ssa ria m e n te a con sciê n cia d e u m e u [se lf] e m m e io a os ou tros. Te rce iro, e e ste é m e u ob je tivo m a is a m b icioso, q u e ro re cu p e ra r p a ra a a n trop olog ia sim b ólica o con ce ito d e n a tu -re za h u m a n a . O s d ois p rim e iros p on tos se rã o e xp licita m e n te d e se n volvi-d os n o a rtig o, e n q u a n to o te rce iro só se rá a b orvolvi-d a volvi-d o n a con clu sã o.

O e stu d o a n tr op ológ ico d o p a r e n te sco e stá , h oje e m d ia , b a sta n te fora d e m od a . Isto m e p a re ce trá g ico, p ois p rivou n ossa d iscip lin a d e u m d e se u s ob je tos m a is fe cu n d os. H a ve rá , ce r ta m e n te , m u itos m otivos a e xp lica r p or q u e os a n trop ólog os n ã o se se n te m m a is in te re ssa d os p e lo p a re n te sco; m a s e stou , a q u i, m e n os p r e ocu p a d o com ta is m otivos q u e com tu d o q u e se p e rd e u com se m e lh a n te d e sin te re sse .

O PAREN TESCO COMO CON SCIÊN CIA

HUMAN A: O CASO DOS PIRO

(2)

Em q u e con siste , e xa ta m e n te , a a n á lise d o p a r e n te sco? Q u a n d o Le w is H e n ry M org a n a in ve n tou , e m m e a d os d o sé cu lo p a ssa d o, e le p ro-cu ra va re sp on d e r a u m a q u e stã o, q u e p od e se r a ssim p a ra fra se a d a : com o é p ossíve l q u e ou tros se re s h u m a n os, a o p e n sa r sob re os a sp e ctos m a is ín tim os e im p orta n te s d a e xistê n cia , sa ia m se com id é ia s tã o d ra m a tica -m e n te con flita n te s co-m a s -m in h a s p róp ria s? Se d e sce n d e -m os tod os d os m e sm os a n ce stra is, o q u e fa z com q u e e sse s ou tros h u m a n os n ã o com -p a rtilh e m m in h a com -p re e n sã o d e sse la ço fu n d a m e n ta l? (ve r Tra u tm a n n 1987)

Pa ra M org a n , e ssa u n id a d e (d a h u m a n id a d e ) n a d ive rsid a d e (d o p a re n te sco) e ra p rofu n d a m e n te p e rtu rb a d ora , p ois h u m a n id a d e e p a re n -te sco e ra m u m a coisa só. Um sé cu lo m a is ta rd e , Lé vi-Stra u ss re form u lou o p rob le m a :

“ A id é ia [...] se g u n d o a q u a l a fa m ília b iológ ica con stitu i o p on to d e p a r tid a u tiliza d o p or tod a socie d a d e p a ra e la b ora r se u siste m a d e p a re n te sco n ã o é , d e ce rto, e xclu siva d o m e stre in g lê s [Ra d cliffe -Brow n ]. H á p ou ca s ou tra s id é ia s, a tu a lm e n te , ca p a ze s d e ob te r m a ior u n a n im id a d e . N ã o h á , ta m p ou -co, n e n h u m a ou tra tã o p e rig osa , e m m in h a op in iã o [...]. Um siste m a d e p a re n te sco n ã o con siste n os la ços ob je tivos d e filia çã o ou d e con sa n g ü in id a d e e n tre os in d ivíd u os. Ele só e xiste n a con sciê n cia d os h om e n s; é u m siste -m a a rb itrá rio d e re p re se n ta çõe s, e n ã o o d e se n volvi-m e n to e sp on tâ n e o d e u m a situ a çã o d e fa to” (Lé vi-Stra u ss 1958 [1945]:61).

(3)

b a b u ín os ou os m a ca cos la n g u r se ocu p a m d e re p re se n ta çõe s, p roce d e m a h istoriciza çõe s ou se e n tre g a m a p rá tica s d iscu rsiva s, e n tã o ta is m od os d e in te n cion a lid a d e só p od e m se r e xclu siva m e n te h u m a n os. H a ra w a y n ã o te m n e n h u m a d ificu ld a d e e m d e n u n cia r, a p on ta n d o su a vin cu la çã o com im a g e n s cu ltu ra is p od e rosa s e p e rig osa s, a fa lsa in ocê n cia d e u m a fotog ra fia q u e m ostra u m g e sto a fe tu oso d e in tim id a d e e n tre J a n e G oo-d a ll e u m ch im p a n zé . M a s h á u m a q u e stã o q u e H a ra w a y oo-d e ixa se m r e s-p osta : o q u e e sta ria fa ze n d o o ch im s-p a n zé n e ssa fotog ra fia ? O q u e e sta ria p a ssa n d o e m su a m e n te , ou p e lo m e n os n a q u ilo q u e p a ssa p or se r su a m e n te ?2

C om e fe ito, e ssa s n ova s d e scob e r ta s a ce rca d a socia lid a d e n ã o-h u m a n a sã o d e m old e a p rovoca r u m p rofu n d o m a l-e sta r, se você for u m h u m a n ista clá ssico. Pois e la s su g e re m u m a con clu sã o sim p le s, m a s d olo-rosa p a ra n osso org u lh o. N a s p a la vra s d e Rob e rt Fole y, os h u m a n os n ã o sã o a e sp é cie ím p a r, p rim e ira a os olh os d e De u s ou p rop rie tá ria e xclu siva d a Ra zã o, m a s a p e n a s m ais ou tra e sp é cie ím p a r. A h u m a n id a d e d os h u m a n os é tã o e sp e cia l com o a lu p in id a d e d os lob os ou a ostritu d e d a s ostra s.

Ao m e sm o te m p o, p a re ce e sta r-se form a n d o u m con se n so, e n tre os b iólog os, se g u n d o o q u a l a lin g u a g e m e ce r ta s form a s d e con sciê n cia se ria m a trib u tos e sp e cíficos d os h u m a n os. Atrib u tos, n ã o p rivilé g ios e sp e -cíficos. As lín g u a s n a tu ra is d e tip o h u m a n o p a re ce m se r g e n u in a m e n te e xclu siva s d e n ossa e sp é cie ; n ã o se con h e ce n a d a d e re m ota m e n te se m e -lh a n te e n tre os a n im a is, se q u e r e n tre os d e m a is m e m b ros d a su p e rfa m ília H om in oid e a . A con sciê n cia , e n tre ta n to, sob a s form a s d a con sciê n cia d e si e d a e xistê n cia d e ou tre m , p a re ce se r com u m a os H om in oid e a , com o p or e xe m p lo os h u m a n os, os ch im p a n zé s e os g orila s. Su a e xistê n cia n ã o p a re ce te r sid o d e m on stra d a d e m od o con vin ce n te e m b a b u ín os ou e m m a ca -cos v e rv e t — e m u ito m e n os e m lob os ou ostra s, ta n to q u a n to e u sa ib a .

Se olh a rm os p a ra os H om in oid e a , e n tã o, a ch a m os a con sciê n cia . O s e xce le n te s e stu d os d e Pre m a ck sob re a m e n te d os ch im p a n zé s, e n tre ta n -to, in d ica m u m a d ife re n ça fu n d a m e n ta l e n tre a con sciê n cia d e sse s a n i-m a is e a h u i-m a n a : os ch ii-m p a n zé s sã o con scie n te s [aw are ] d e si i-m e si-m os, e d e ou tre m , m a s n ã o p a re ce m se r con scie n te s d a con sciê n cia q u e os ou tros tê m d e le s m e sm os. Esse tip o d e re cu rsivid a d e g e n e ra liza d a d a con sciê n -cia p a re ce se r e xclu sivo d os h u m a n os, e , com o su g e re Pre m a ck , e stá p ro-va ve lm e n te a ssocia d o d e m od o e stre ito à lin g u a g e m .

(4)

-cie s (e a si m e sm os) n os con ste r n a . Tod o a q u e le q u e já te n h a olh a d o fa m in to p a ra u m a á rvore d a flore sta trop ica l ca rre g a d a d e fru tos, já e xp e rim e n tou u m a in ve ja la n cin a n te d os a trib u tos ím p a re s d os m a ca cosa ra -n h a ou d os ch im p a -n zé s. O m e sm o se d ig a d e q u e m q u e r q u e já te -n h a con te m p la d o u m g a to n o in ve rn o e u rop e u , a le g re m e n te “ d e sca lço” n a n e ve lá fora e n q u a n to tre m e m os d e frio d e n tro d e n ossa s ca sa s e a g a sa -lh os. Afin a l d e con ta s, a lin g u a g e m só se r ve p a ra se fa la r com e la , e o m e sm o va le p a ra a con sciê n cia . C om o ve re m os, a con sciê n cia e a lin g u a g e m p iro se con stitu e m a p a rtir d e ssa e xp e riê n cia q u otid ia n a d os a trib u -tos ú n icos d a s ou tra s e sp é cie s viva s.

É n e sse con te xto g e ra l q u e d e se jo e xp lora r a q u e stã o d e M or g a n , tom a n d o o p a re n te sco p iro com o con sciê n cia h u m a n a . O q u e fa z com q u e os Piro, a o p e n sa re m sob re os a sp e ctos m a is ín tim os e im p orta n te s d e su a s re la çõe s com ou tre m , g u ie m se p or id é ia s tã o d ra m a tica m e n te con flita n te s com a s m in h a s p róp ria s? E com o e ssa s id é ia s se a ssocia m à lin g u a -g e m ?

Pa ra re sp on d e r a e sta s p e rg u n ta s, sig o a trilh a a b e rta p or u m a sé rie d e crítica s p e rsp ica ze s à a n á lise lé vi-stra u ssia n a d o p a r e n te sco, q u e a p on ta ra m u m a d e ficiê n cia cru cia l n e ssa a b ord a g e m : a in ca p a cid a d e d e le va r re a lm e n te e m con ta o p a p e l con stitu tivo d a su b je tivid a d e n o p a re n -te sco. Estou -m e re fe rin d o à s crítica s d e An th on y Wild e n e G a yle Ru b in , in sp ira d a s n a re form u la çã o la ca n ia n a d a te oria d e Lé vi-Stra u ss. M a s sig o ta m b é m u m a ob se rva çã o d e cisiva d e M a rylin Stra th e rn , q u e , d e se n vol-ve n d o os a rg u m e n tos d e Wild e n e Ru b in , a ssocia o fra ca sso d a a n á lise d e Lé viStra u ss a o u so d a te oria m a u ssia n a d o d om p a ra e xp lora r o p a re n -te sco com o u m a e stru tu ra d a con sciê n cia h u m a n a3.

Prossig o a q u i u m a a n á lise q u e p u b liq u e i h á a lg u n s a n os sob re e sse p rob le m a (G ow 1989), m a s a g ora b u sca n d o ch e g a r m a is p e rto d e se u ce n tro, m e d ia n te u m olh a r m a is a te n to a o m od o e sp e cífico p e lo q u a l a su b je tivid a d e é p re ssu p osta , e p osta , n o e p e lo m u n d o vivid o p iro. Esse tra b a -lh o a n te rior con ce n tra va -se n a q u e stã o d e sa b e r q u e e sp é cie s d e su je itos p od e m e xistir e m u m a e con om ia com o a d os Piro. Acre sce n to a isto, a g o-ra , a q u e stã o d e sa b e r com o a su b je tivid a d e p od e vir a e xistir e m g e o-ra l.

(5)

vive m e m a ld e ia s q u e a b rig a m e n tre cin q u e n ta e tre ze n ta s p e ssoa s (e xce -to n o ca so d a m issã o El Rosa rio d e Se p a h u a , com m a is d e m il p e ssoa s), ob te n d o su a su b sistê n cia d a a g ricu ltu ra itin e ra n te , d a p e sca e d a ca ça , b e m com o d o tra b a lh o p a ra a s m a d e ire ira s e ou tra s a tivid a d e s re m u n e ra -d a s. To-d os os Piro m a n tê m re la çõe s in te n sa s com p ovos n ã o-Piro com o os C a m p a Ash á n in k a , os M a ch ig u e n g a e os m e stiz os. O le itor p od e rá e n -con tra r m a iore s in form a çõe s e m m in h a m on og ra fia sob re os Piro (G ow 1991).

Ad virto q u e a d e scriçã o e a n á lise d o p a re n te sco p iro a p re se n ta d a s a se g u ir p od e m se r u m ta n to d ifíce is d e a com p a n h a r. Isto é u m a con se q ü ê n -cia lóg ica d a te se e n u n -cia d a m a is a trá s, a sa b e r, q u e o p a re n te sco p iro é u m siste m a a u top oié tico: com o e le d á orig e m a si m e sm o, n ã o h á p on to p rivile g ia d o p or on d e se e n tra r n e le , n e m ca m in h os p r e d e te rm in a d os p a ra se o p e rcorre r. Só m e re sta e sp e ra r q u e , a o ca b o d a le itu ra d e sta s p á g in a s, a lóg ica d e tip o “ p a sse io a le a tório” [ran d om -w alk ] d e m in h a a b ord a g e m te n h a se torn a d o cla ra , e , sob re tu d o, q u e a lóg ica d o p a re n -te sco p iro -te n h a sid o com p re e n d id a .

Falar ou não f alar

Q u a n d o se va i con ta r u m a h istória com p lica d a , é m e lh or com e ça r p e lo p rin cíp io. Pa ra os Piro, o p rin cíp io e stá n a s tsru n n in i g in k ak le , a q u e la s “ h istória s d os a n tig os” q u e os ve lh os à s ve ze s con ta m p a ra se u s n e tin h os a o ca ir d a n oite . O s a n trop ólog os n ã o te ria m m u ita d ificu ld a d e e m id e n ti-ficá -la s com o m itos. H á m u ita s d e la s, e n e n h u m Piro a firm a ria q u e sa b e tod a s. O s ve lh os a s con h e ce m a p e n a s p orq u e se u s p róp rios a vós a s re ci-ta va m p a ra e le s, q u a n d o e le s e ra m cria n ça s. N ã o te m os m e ios d e sa b e r, e os Piro ta m p ou co, q u a l com e ço é o ve rd a d e iro com e ço; p orta n to, com o u m n a rra d or Piro, p rin cip io p e la h istória m a is a fim a o m e u te m a5.

M u ch ik aw p otg im n i sato y in e ro g an u ru tatk a w a m g e n ok lu .

“ H á m u ito te m p o, d ize m , u m a m u lh e r ca sou -se com u m ja g u a r” .

(6)

a m orte d a m ã e , fra ca ssa n d o a p e n a s e m su a s te n ta tiva s d e m a ta r su a a vó, q u e e sta va g rá vid a . O s e p isód ios su b se q ü e n te s m ostra m Tsla e se u s irm ã os cria n d o os e le m e n tos b á sicos d a e xistê n cia p ir o. Tsla criou os h u m a n os, e m su a s form a s p rim á ria s d e y in e , “ H u m a n os ve rd a d e iros” , e d e k ajin e , “ Bra n cos” , a p a rtir d e d ois tip os d e a rg ila d e ola ria .

Tu d o q u e n ós p re cisa m os sa b e r sob re o p a re n te sco d os Piro e stá con -tid o n a n a rra çã o d e ssa cu rta h istória , p orq u e tu d o q u e e le s p re cisa m sa b e r e stá con tid o n e sse e ve n to. Isto é , tu d o q u e n ã o e stá n a h istória e stá n a re la çã o e n tre o n a rra d or e os ou vin te s, e vice -ve rsa . J á n a h istória te m os m a rid os e m u lh e r e s, m ã e s e filh os, p a is, tios, a vós e p a r e n te s a fin s. E, sob re tu d o, te m os a lin g u a g e m , u sa d a p or Tsla p a ra d a r o e stra n h o con se -lh o in tra -u te rin o à su a m ã e .

O s p roce ssos socia is p iro, e p orta n to o p a re n te sco p iro, p od e m se r ca ra cte riza d os com o a tra n sform a çã o d e O u tros e m H u m a n os, e d e H u -m a n os e -m O u tros, a o lon g o d o te -m p o. Pa ra os Piro co-m o u -m tod o, e sse s p roce ssos d e tra n sform a çã o com e ça ra m n o “ h á m u ito te m p o a trá s” d a s n a rra tiva s m ítica s, q u a n d o o m u n d o foi fe ito, e te r m in a rã o e m a lg u m m om e n to n o fu tu ro, q u a n d o o m u n d o a ca b a r. Pa ra q u a lq u e r p e ssoa p iro, ta l p roce sso p rin cip ia com a fa b rica çã o d e H u m a n id a d e log o a p ós o n a sci-m e n to, e te rsci-m in a cosci-m a p rod u çã o d e Alte rid a d e log o a p ós a sci-m orte . Pa ra o p ovo Piro, e ssa sé rie com p le xa d e p roce ssos foi in icia d a p e los g iy ak lu n e , os se re s m íticos; e a fa la é o m e io p e lo q u a l se tom a con h e cim e n to d isso. Tsru n n in i g in k ak le , “ h istória s d a g e n te d e a n tig a m e n te ” , sã o u m a form a m u ito e sp e cia liza d a d e d iscu rso, p ois e la s sã o a corp orifica çã o p le -n a d a te m p ora lid a d e h u m a -n a -n a fa la . Sa b e m -se e ssa s h istória s p or q u e e la s fora m con ta d a s p e los tsru n n i, “ a p ob re g e n te ve lh a e m orta ” — os a n te p a ssa d os d e scon h e cid os d os Piro h oje vivos. Tu d o q u e os vivos sa b e m d os tsru n n i lh e s ch e g a som e n te a tra vé s d a s h istória s a se u re sp e ito con -ta d a s p e la s p e ssoa s m a is ve lh a s. O s ve lh os sã o a fon te d e ssa s h istória s p orq u e e le s p róp rios con vive ra m com p e ssoa s m a is p róxim a s, n o te m p o, d os tsru n n i. M a s m e sm o os ve lh os n ã o sa b e m re a lm e n te d os tsru n n i, p ois n u n ca os vira m . C lotild e G ord ón , d e 80 a n os, a ssim re sp on d e u a u m a d e m in h a s p e rg u n ta s sob re e le s, q u e lh e fiz n o ve rã o p a ssa d o:

“ Eu n ã o se i; n u n ca vi a g e n te d e a n tig a m e n te . Só se i o q u e m in h a a vó m e e n sin ou q u a n d o e u e ra m e n in a p e q u e n a . Só se i o q u e vi m in h a a vó fa ze r” .

(7)

e ste s. O s tsru n n i e xiste m a p e n a s n a fa la d os ve lh os. É isso q u e torn a a s tsru n n in i g in k ak le tã o n otá ve is: e la s sã o o d iscu rso cita d o d e se re s q u e só e xiste m n o d iscu rso cita d o d os ve lh os. De ssa form a , a s n a rra tiva s m ítica s sã o u m tip o d e su p e rfa la , ou , n os te rm os d e Lé viStra u ss, “ e la s sã o m e n sa g e n s q u e n os ch e g a m , a rig or, d e lu g a r n e n h u m ” . Sã o os ve lh os, os tsru -n e , q u e co-n h e ce m e sse d iscu rso, se -n d o os ú -n icos ca p a ze s d e lh e d a r a form a d e fa la6.

A re la çã o d os ou vin te s com a lin g u a g e m é m u ito d ife re n te . Ele s sã o cria n ça s p e q u e n a s, q u e p ou co sa b e m , e se u s m od os p rim á rios d e lin g u a -g e m visa m a com u n ica çã o d e se u s d e se jos e n e ce ssid a d e s le -g ítim a s a os m a is ve lh os. Su a lin g u a g e m b á sica con siste e m te r m os d e p a re n te sco com o (a lista é e xa u stiva ) m am a, “ m a m ã e ” , p ap a, “ p a p a i” , jiro, “ vovó” , totu , “ vovô” , sh ap a, “ titia ” , k ok o, “ tio” , e y e y e , “ irm ã / o m a is ve lh o/ a ”7. O u so d e ta is te rm os d e m on stra q u e a cria n ça é d ota d a d e n sh in ik an ch i, “ m e n te , in te lig ê n cia , m e m ória , re sp e ito, a m or” . Esta q u a lid a d e , n sh in i-k an ch i, p od e se r d e sp e rta d a p or ce rtos a tos d a s p e ssoa s m a is ve lh a s, m a s n ã o p od e se r e n sin a d a à cria n ça ; e la p re cisa se d e se n volve r e sp on ta n e a -m e n te . Su a -m a n ife sta çã o p ri-m e ira e -m a is i-m p or ta n te é a fa la in te lig íve l; o u so d e te rm os d e p a re n te sco p a ra se ob te r a te n çã o e cu id a d o é o a sp e c-to m a is sa lie n te e p od e roso d e ssa ca p a cid a d e .

Q u a n d o os ve lh os con ta m “ h istória s d os a n tig os” p a ra se u s n e tos, ta n to o n a rra d or com o os ou vin te s e stã o d e m on stra n d o se u n sh in ik an ch i: a s cria n ça s, a o m ostra r in te r e sse n o d e se n rola r d a n a rra tiva ; os ve lh os, p e lo a to m e sm o d e con ta r a h istória , p e lo fa to d e e sta re m vivos p a ra con -tá -la , e d e te r n e tos vivos a q u e m con -tá -la . Volta re i a e sse p on to, d e p ois d e d iscu tir o m ito.

N o p e q u e n o fra g m e n to d o m ito tra n scrito a cim a , a m ã e d e Tsla é d e sig n a d a p e la p a la vra y in e ro. Essa p a la vra é o fe m in in o sin g u la r d e y in e , “ g e n te , Pir o, se re s h u m a n os” . Assim , a p e rson a g e m é m a r ca d a com o “ m u lh e r h u m a n a ” ; su a fe m in ilid a d e é u m a ca ra cte rística se cu n d á -ria q u e se rve p a ra e sta b e le ce r a va lê n cia d a r e la çã o p oste rior com o O u tro: a q u i, a H u m a n id a d e e stá p a ra a Alte rid a d e com o o a fim d o se xo fe m in in o e stá p a ra o a fim d o se xo m a scu lin o. M g e n ok lu , o “ ja g u a r” , p or su a ve z, con d e n sa a m u ltip licid a d e d o O u tro n e ssa fig u ra d o m a is p e ri-g oso d os m a m ífe ros se lva ri-g e n s, sím b olo d e tod a com p e tiçã o in te liri-g e n te e m orta l p e lo m u n d o vivid o im e d ia to.

(8)

-re za . O a con te cim e n to q u e le va os ja g u a r e s a m a ta r e com e r a m ã e d e Tsla é a â n sia d e vôm ito q u e a tom a a o m ord e r u m p iolh o d o m a rid o; p ois os p iolh os d o ja g u a r sã o e n orm e s, “ com o b e sou ros p ap aso, n ã o com o os p e q u e n os p iolh os d os h u m a n os” . C a ta r os p iolh os d o p a rce iro é u m d os a sp e ctos m a is ín tim os d a vid a con ju g a l; a e sp osa h u m a n a re ve la su a a lte rid a d e on tológ ica e m re la çã o a o m a rid o ja g u a r a o e n oja rse com a n a tu re za d e ste . M a rid o e m u lh e r d e ve m se r o m e sm o, a m b os d e ve m se r H u -m a n os.

M a s e le s n ã o p od e m se r e xa ta m e n te o m e sm o. H á a lg o a q u e os Piro m u ito ra ra m e n te a lu d e m , u m a p ossib ilid a d e q u e ron d a a m e a ça d ora m e n -te se u m u n d o socia l: o in ce sto. Q u e e u sa ib a , n e n h u m a n a rra tiva m ítica tra ta d e ssa q u e stã o8; n e n h u m Piro, ta m p ou co, ja m a is a d iscu tiu com ig o, e xce to n o ca so d e su a s form a s m e n os g ra ve s, com o o in te rcu rso se xu a l e n tre p a d ra sto e e n te a d a — e m e sm o a ssim p a ra e voca r a s con se q ü ê n cia s h orre n d a s q u e se a b a te ria m sob re os cu lp a d os. N a d a ou vi sob re re la -çõe s m ã e -filh o e sog ra -g e n ro, e o in te rcu rso e n tre irm ã o e irm ã só m e foi m e n cion a d o p a ra in d ica r q u e e le se ria u m a p rá tica d os m ash k o, u m p ovo d istin ta m e n te n ã o-h u m a n o q u e vive m u ito lon g e , a su d e ste9. Dizia -se d os

m ash k o: “ e le s n ã o sã o h u m a n os, sã o b ich os d o m a to!”

N ã o é sim p le sm e n te q u e os Piro n ã o fa le m sob re o in ce sto; é q u e o in ce sto p a re ce se r o op osto d a lin g u a g e m . M a tte son , u m a m ission á ria -lin g ü ista d o SIL [Su m m e r In stitu te of Lin g u istics], q u e com e çou a tra b a -lh a r e n tre os Piro n o fin a l d os a n os 40, fa z o se g u in te re g istro: “ Q u a n d o se su g e riu q u e u m m e n in o se ca sa sse com a filh a d e se u tio p a te r n o, su a m ã e lh e d isse : ‘M a s com o, você se ria ca p a z d e ca sa r com su a ir m ã zin h a , com a filh a d e se u p a i m a is m oço? Você é m e sm o u m ca ch orro! Você n ã o é g e n te d e je ito n e n h u m !” (M a tte son 1955: 80)10.

O ra , u m ce rto m ito p iro con ta q u e , a n tig a m e n te , os ca ch orros p od ia m fa la r, m a s q u e p e rd e ra m e ssa h a b ilid a d e p or te r e m d e sre sp e ita d o u m ta b u (q u e o m ito n ã o d iz q u a l é ). H oje e m d ia , a s re la çõe s e n tre h u m a n os e ca ch orros se re d u ze m à “ lin g u a g e m ” e le m e n ta r d a s ord e n s d a d a s p e los p rim e iros e d os va ria d os u ivos, la tid os e r osn a d os d os se g u n d os. Isto su g e re q u e o ta b u q u e b ra d o p e los cã e s d a a n tig u id a d e é a q u e le q u e in ci-d e sob re a s re la çõe s in ce stu osa s, e q u e o p r e ço ci-d a q u e b ra ci-d o ta b u é a p e rd a d a lin g u a g e m . O in ce sto e a lin g u a g e m sã o e sta d os m u tu a m e n te e xclu sivos: os Piro n ã o fa la m sob re o in ce sto p orq u e e le é , lite ra lm e n te , “ in d izíve l” .

(9)

G iy ak le w ata, “ tra n sform a r m ira cu losa m e n te ” , é u m m od o d e a çã o com -p le ta m e n te d e scon h e cid o d os Piro con te m -p orâ n e os. Só sa b e m d e le -p e la s h istória s: é o m od o d e a çã o ca ra cte rístico d os se re s m íticos e d os b ra n cos d e scon h e cid os q u e m ora m e m te rra s d ista n te s. N a p rim e ira ve z e m q u e u sa ta l p od e r n o m ito, Tsla fa la à m ã e p a ra le vá -la à p e rd içã o n a s g a rra s d os J a g u a re s11. Atra vé s d e sse a to in ce stu oso, e sse fa la r in tra -u te rin o à su a m ã e , Tsla lh e ca u sa a m orte .

O cort e do cordão umbilical

O q u e h á d e m ira cu loso, d o p on to d e vista p ir o, e m u m fe to fa la n te ? É p re ciso a q u i olh a rm os m a is d e p e rto p a ra a s on tog e n ia s d o fe to e d a lin -g u a -g e m .

O s Piro tê m id é ia s m u ito p róp ria s sob r e o fe to; m a is q u e isso, e le s tê m id é ia s m u ito p róp ria s sob re a s id é ia s q u e o fe to te m . O u m e lh or, e le s tê m id é ia s p róp ria s a re sp e ito d o q u e se ria o m u n d o ocu lto d os fe tos — d os fe tos q u e , a o con trá rio d e Tsla , n ã o sã o d a d os à con ve rsa çã o —, ta l com o re ve la d o p e la s fa se s p oste riore s d o d e se n volvim e n to in fa n til.

O q u e é u m fe to? Um fe to é m an e w lu , “ a q u ilo q u e e stá te n d o u m corp o fe ito” , “ a q u ilo q u e e stá se n d o e n corp ora d o” *. Ele é o p a cie n te d a a çã o ve rb a l m an e w ata, “ d a r form a su b sta n cia l a ” , “ fa ze r u m corp o p a ra ” . Por u m la d o, e ssa a çã o é o p rod u to sim p le s e d ire to d e d ois a g e n te s, u m h om e m e u m a m u lh e r q u e m istu ra m u m a ce r ta m a ssa d e sê m e n e sa n -g u e m e n stru a l p or m e io d e re p e tid a s re la çõe s se xu a is. Por ou tro, p oré m , n ã o se p od e sa b e r o q u e é u m fe to, p orq u e e le se ocu lta , in visíve l e sile n -cioso, d e n tro d o corp o d e u m a m u lh e r. In visíve l, e le e sca p a à fon te p ri-m á ria d o con h e ciri-m e n to p a ra os Piro, a visã o; sile n cioso, e sca p a à fon te se cu n d á ria , a fa la . As p e ssoa s p re cisa m e sp e rá -lo “ su rg ir” , g ish p ak a. So-m e n te q u a n d o o b e b ê n a sce é q u e e le p od e se r con h e cid o. O g e n itor e a g e n itora sã o os a g e n te s d e se u vir a te r u m corp o; m a s o fe to é o a g e n te d e se u p róp rio n a scim e n to. O s b e b ê s “ su rg e m d e d e n tro” , a tiva m e n te ; e le s n ã o sã o p a ssiva m e n te “ p a rid os” ou “ d a d os à lu z” .

O fe to só p od e se r con h e cid o a p ós te r e m e rg id o e sp on ta n e a m e n te , e som e n te e n tã o p od e -se d a r u m a re sp osta sa tisfa tória à q u e stã o cr u cia l:

(10)

“ Ele é H u m a n o?” O re cé m -n a scid o é in sp e cion a d o visu a lm e n te e m b u sca d e e vid ê n cia s d e su a id e n tid a d e . M u itos fe tos, a o e m e r g ire m , re ve -la m -se n ã o-h u m a n os: form a ra m -se com o ja b otis, p e ixe s, ou “ a lg u m a n m a l q u e n ã o re con h e ce m os” . Ele s n ã o tê m fu tu ro n o m u n d o d a H u m a n i-d a i-d e , e sã o e xp u lsos i-d o e sp a ço h u m a n o o m a is rá p ii-d o p ossíve l. A m a io-ria d os fe tos, e n tre ta n to, re ve la -se e sp on ta n e a m e n te com o h u m a n a . Se a s p e ssoa s q u e a ssiste m a o n a scim e n to con cord a re m q u e se tra ta d e u m n ovo h u m a n o, e n tã o o p a i (se e stive r p re se n te ) d e ve p a rtir e m b u sca d e u m n ã o-p a re n te p a ra p e rfa ze r a H u m a n id a d e d o n ovo h u m a n o.

O a to d o n a scim e n to, o “ sa ir” , n ã o e sta rá com p le to a té q u e tod o o fe to te n h a e m e rg id o. Isso sig n ifica q u e a q u ilo q u e , e m in g lê s, se costu -m a ch a -m a r d e “ afte rb irth ” [p la ce n ta , se cu n d in a s], e q u e p op u la r-m e n te se im a g in a se r p a rte d a m ã e , os Piro a firm a m e n fa tica m e n te se r p a rte d o fe to/ b e b ê : a p la c e n t a , g e y o n ch i, é u m a p a rte d o corp o d o fe t o. U m a cria n ça só é d ita te r n a scid o q u a n d o tu d o d e la e m e rg iu , in clu sive o cor-d ã o u m b ilica l e a p la ce n ta . Ta l u n icor-d a cor-d e é e xtre m a m e n te im p orta n te : a cria n ça re cé m - n a sc id a é u m a u n id a d e c om p le ta d e “ b e b ê ” + c ord ã o u m b ilica l + p la ce n t a . Ela é , p o r a ssim d ize r, u m fe to d e se n vo lvid o n o te m p o e n o e sp a ço, a p a rtir d e su a con d içã o p ré via d e a u to-in volu çã o d e n tro d o ú t e ro m a t e rn o . Alg u é m ch e g a , e n tã o, p a ra cort a r o c ord ã o u m b ilica l, cort a n d o , lit e r a lm e n t e , o re c é m -n a scid o e m d u a s m e t a d e s, se p a ra n d o-o d e si m e sm o.

N e sse a to — o corte d o cord ã o — e stá con tid a tod a a on tolog ia d os Piro. Pa ra e n te n d ê -lo, é p re ciso e xp lora r os d ois m od os p e los q u a is e le s se re con h e ce m com o h u m a n os. O s Piro se ch a m a m a si m e sm os d e y in e , “ H u m a n os” ; m a s e le s se ch a m a m e n tre si d e n om ole n e , “ m e u p a re n te ” . Em g e ra l, os d ois te rm os sã o co-e xte n sivos: se r y in e é se r n om ole n e d e ou tros y in e ; se r H u m a n o é se r p a re n te d e ou tros H u m a n os. M a s e m ce r-tos m om e n r-tos críticos, é p re ciso q u e se a ch e m y in e q u e n ã o se ja m n om o-le n e . O p a rto é u m d e sse s m om e n tos.

A p e ssoa q u e corta o cord ã o u m b ilica l d o re cé m -n a scid o se p a ra e ste e m d ois: u m H u m a n o, y in e ru ; e u m O u tr o, g e y on ch i, a “ p la ce n ta ” . Ao re a liza r e sse a to, ta l p e ssoa e n tra e m u m a n ova e p od e rosa re la çã o com o n ovo H u m a n o. Ao m e sm o te m p o, e la e sta rá a fir m a n d o su a id e n tid a d e com o H u m a n o e com o n ã o-H u m a n o p e ra n te os p a is d a cria n ça .

(11)

n o. Essa p e ssoa d e ve a ce ita r se r vista com o d ife re n te p or e sse s H u m a -n os. Em su m a , e la d e ve e sta r d isp osta a a ssu m ir o p a p e l d e O u tro (i.e . d e n ã o-H u m a n o) p e ra n te e sse s ou tros H u m a n os.

O q u e fa z u m a p e ssoa g im ole (“ p a re n te ” ) d e ou tra é a m ú tu a m a n i-fe sta çã o d e n sh in ik an ch i. Isso se re a liza , a n te s d e m a is n a d a , p e la m ú tu a a ce ssib ilid a d e d e riva d a d a co-re sid ê n cia e m u m a a ld e ia (ve r G ow 1991). M a s isso ta m b é m se tra d u z n o u so d e te rm os d e p a re n te sco e n o d iscu rso p olid o. Q u a lq u e r con ve rsa çã o e n tre os Piro e n volve n e ce ssa ria m e n te o u so d e te rm os d e p a re n te sco, p ois e ste s im p lica m a e xistê n cia d e re la -çõe s e sp e cífica s e n tre os fa la n te s12. Q u a n d o d ois d e scon h e cid os se e n con tra m , ou e sta b e le ce m im e d ia ta m e n te os te rm os d e tra ta m e n to a p rop ria -d os, ou se ig n ora m p or com p le to.

A con voca çã o d e u m corta d or d e cord ã o u m b ilica l é , a ssim , u m m om e n to d e lica d o, p ois o p a i d a cria n ça d e ve ir a té a lg u é m , d irig ir-se a e ssa p e ssoa p or u m d e te rm in a d o te rm o d e p a re n te sco, p a ra log o e m se g u id a n e g a r o p a re n te sco su p osto p e lo te rm o, com o p e d id o d e q u e corte o cord ã o d o re cé m -su rg id o, isto é , d e u m se r e m via d e se torn a r p a re n te d o p a i.

Tã o log o o a to é con su m a d o, tu d o se e sta b iliza , p ois se u s p rota g o-n ista s e o-n tra m e m u m a r e d e d e o-n ova s r e la çõe s b a se a d a s o-n e le . Ap ós te r tid o su a con d içã o d e n om ole n e n e g a d a p e lo p a i d a cria n ça , o corta d or d o cord ã o torn a -se n k om p ate (se h om e m ) ou n k om ate (se m u lh e r)13d os p a is, e n u stak je ru d a cria n ça (re cíp roco: n u stap loolu ). Esse s te rm os su b stitu e m os te rm os d e p a re n te sco ta n to n a re fe rê n cia com o n o voca tivo, e d e fin e m u m a e sp é cie d e h ip e rp a r e n te sco, m a r ca d o p or u m a in te n sifica çã o d a m e m ória e d o re sp e ito q u e ca ra cte riza a s re la çõe s e n tre p a re n te s.

Ta n to q u a n to e u sa ib a , n in g u é m ja m a is se re cu sa a se r o corta d or d o cord ã o u m b ilica l d e u m a cria n ça re cé m -n a scid a , p ois re ce b e r ta l p e d id o é u m a h on ra . N a ve rd a d e , é m a is fá cil a lg u é m se ofe n d e r p or n ão te r sid o ch a m a d o. O p rob le m a e xiste n cia l d o p a i n ã o e stá n a re sp osta q u e ve n h a a re ce b e r, m a s n a p róp ria e n u n cia çã o d o p e d id o. Este d e ve com e ça r p re s-su p on d o o n sh in ik an ch i e te rm in a r n e g a n d o-o. É com o se o p a i d isse sse : “ M e u p a re n te , ve n h a rá p id o d e ixa r d e se r a p a re n ta d o a m im !” Posto d e s-ta form a , o d ile m a d o p a i d e u m re cé m -n a scid o é m u ito se m e lh a n te a o d ile m a d o in ce sto: e le é a lg o d ifícil d e se fa la r.

A f ala t orna os Out ros possíveis

(12)

u so d a p a la vra . Esse u so e n volve u m m od o e sp e cia l d e fa la r, q u e se d e -se n volve d e n tro d os h om e n s n a a d ole scê n cia .

C om a p u b e rd a d e , o corp o d e u m jove m in ch a e cre sce com sa n g u e . Este sa n g u e é e n d óg e n o, d e se n volve n d o-se d e n tro d e le . Ap ós te r e sta d o le n ta m e n te cr e sce n d o g ra ça s à com id a in g e rid a d u ra n te a in fâ n cia , o m e n in o a tin g e fin a lm e n te u m ta m a n h o a p a rtir d o q u a l com e ça , re p e n ti-n a e d ra m a tica m e ti-n te , a iti-n tu m e sce r-se . Até e sse m om e ti-n to, e le h a via sid o u m re ce p tor, g e ra lm e n te p a ssivo, d e a lim e n to e d e ou tros cu id a d os; m a s a g ora , u m órg ã o se u com e ça a cre sce r e a se torn a r oco, e a se cre ta r su b s-tâ n cia s p ote n te s. Ta l órg ã o é a g a rg a n ta , e a su b ss-tâ n cia p ote n te p or e le se cre ta d a é o riso (g islu n ota, “ su a voz se q u e b ra , se m od ifica , n a p u b e r -d a -d e ” ). À p rop orçã o q u e a g a rg a n ta -d o ra p a z se a volu m a , e le va i-se tor-n a tor-n d o ca p a z d e d a r a g a rg a lh a d a a lta e ra sca tor-n te ca ra cte rística d os h o-m e n s a d u ltos.

Esse riso é u m a coisa p od e rosa : e le é a con d içã o d o m e y iw lu , “ fa rre a r, d ive rtirse , fe ste ja r” . O s b on s líd e rre s sã o con h e cid os p or su a g a rg a -lh a d a , q u e se op õe a o w am on ch i, “ triste za , p e sa r” . M a s a re sp on sa b ili-d a ili-d e p rin cip a l p e lo riso ca b e a os a ili-d ole sce n te s. As p e ssoa s m a is ve lh a s la m e n ta m a a u sê n cia d os jove n s q u a n d o e ste s e stã o lon g e , n a e scola , d ize n d o: “ a a ld e ia e stá tã o triste a g ora , só h á ve lh os com o n ós, g e n te q u e n ã o q u e r fa ze r n a d a , q u e n ã o te m von ta d e d e se d ive rtir” . Ela s e sp e ra m a n siosa m e n te a volta d os ra p a ze s, p a ra q u e a vid a volte a se a n im a r.

O s ra p a ze s e stã o à p rocu ra d e g an u ru n e , “ cu n h a d os” . Um g an u ru é a lg u é m e xa ta m e n te com o você , m a s q u e , p or d e fin içã o, é u m ou tro p a ra você . O q u e os ra p a ze s e stã o p rocu ra n d o sã o O u tros h u m a n os. A a le g ria q u e e sse s a d ole sce n te s d ã o à s p e ssoa s m a is ve lh a s e stá , e m p a rte , n a d e s-tru içã o d o n sh in ik an ch i, d a “ m e m ória ” , p or e le s re a liza d a14.

(13)

re fe rir u m a o ou tro a o fa la r a su a s p róp ria s irm ã s. E e ste p a re ce se r o ca so, p ois u m d os m é tod os clá ssicos d e se p rovoca r u m a m ocin h a é d ize r-lh e : “G ap ok atk a p an u ru !”, “ O lh a a í te u m a rid o ch e g a n d o!” , q u a n d o u m h om e m re p u g n a n te à m e n in a se a p roxim a15.

C om o Lé vi-Stra u ss e ou tros já ob se rva ra m p a ra vá rios siste m a s d e p a re n te sco d a s te r ra s b a ixa s su l-a m e rica n a s, ta m b é m p a ra os Pir o a “ cu n h a d e z” [“b roth e r-in -law ”-n e ss] é u m a form a log ica m e n te p rim á ria . “ M a rid o” e “ m u lh e r” , e n q u a n to te rm os e sp e cíficos d e p a re n te sco, sã o d e riva d os d o te rm o p rim á rio g an u ru . A irm ã d o g an u ru é u m a g an u n ro p ote n cia l, u m a “ cu n h a d o fe m in in a / e sp osa ” ; e é a tra vé s d o e sta b e le cim e n to d e re la çõe s cim ú tu a s d e g an u ru e n tre os ra p a ze s q u e e ste s con se -g u e m su a s -g an u n ro p ote n cia is, e a s m oça s se u s -g an u ru p ote n cia is.

O s O u tros a b u n d a m n o cosm os, e a s re la çõe s d os Piro com m u itos d e ste s O u tros corre sp on d e m à q u ilo q u e Vive iros d e C a stro ch a m ou d e “ a fin id a d e p ote n cia l”16. A Alte rid a d e n ã o e stá , d e fa to, e m fa lta n o m u n -d o p iro; m a s os ra p a ze s -d e ve m p ro-d u zir Alte ri-d a -d e a p a rtir -d o ca m p o -d os p a re n te s, d os n om ole n e . Ele s p re cisa m tra n sfor m a r u m ou tr o H u m a n o e m a lg o q u a se , m a s n ã o com p le ta m e n te , id ê n tico a e le s p róp rios: u m g an u ru . Pre cisa m e n con tra r, d e n tro d o ca m p o d a id e n tid a d e (os H u m a -n os) a q u e la p e q u e -n a d ife re -n ça q u e p e rm itirá à su a se xu a lid a d e a ssu m ir u m a form a socia l. C om o e u d isse , o in ce sto é in d izíve l, e a ssim e ssa “ a lte -riza çã o” d e u m H u m a n o se ca ra cte -riza p or u m a in te n sifica çã o d a fa la , p ossib ilita d a p e la m a tu ra çã o d e u m órg ã o.

As m e n in a s, d u ra n te a a d ole scê n cia , ta m b é m e n corp a m d e vid o a o sa n g u e , q u e fa z u m órg ã o in te rn o cre sce r e se cre ta r u m a su b stâ n cia p ote n -te . A va g in a in tu m e sce e p rod u z sa n g u e m e n stru a l (tu x re w ata, “ e la m e n s-tru a p e la p rim e ira ve z” ). Isso fa z com q u e ta is m e n in a s se torn e m m a is se d e n tá ria s, re strin g in d o-se à ca sa d os p a is. “G itok o tw a”, “ Ela fica e m ca sa ” , d iz-se d e ssa s m e n in a s. Ela s se torn a m o ob je to d o d e se jo se xu a l d os ra p a ze s, d os g an u ru n e d e se u s irm ã os, q u e a corre m a su a s ca sa s a ve r se con se g u e m con ve rsa r com e la s, ca ir-lh e s n a s g ra ça s e d orm ir com e la s. É se m p re u m g an u ru q u e fa cu lta a u m ra p a z o a ce sso a u m a d e ssa s m e n i-n a s, e é com o g ai-n u ru , p or su a ve z, q u e e ste ú ltim o e sp e ra se r visto p or e la .

(14)

a g ora re ce b e r m u itos con vid a d os, q u e a corre m à s su a s ca sa s p a ra b e b e r. Bê b a d a s, a s p e ssoa s b rin ca m e rie m , e os ra p a ze s se torn a m “ d e scu id a -d os, se m -ve rg on h a ” — e m ou tra s p a la vra s, e le s solicita m a coop e ra çã o d a s m oça s a d ole sce n te s e m su a b u sca d e sa tisfa çã o se xu a l.

Um ra p a z e u m a m oça e n con tra m -se , fin a lm e n te , d e n tro d o m osq u i-te iro d a m oça , a cion a n d o e n tã o a ú ltim a p a r i-te d a e q u a çã o, o p ê n is d o ra p a z. Dive rtin d o-se d e ssa form a , e m e sp e cia l q u a n d o o fa ze m re g u la r-m e n te , e le s r-m istu ra r-m su a s su b stâ n cia s se xu a is, o sê r-m e n e o sa n g u e r-m e n s-tru a l, d e n tro d o corp o d a m oça . “ C a sos” fortu itos, d ize m os Piro, p od e m le va r à g ra vid e z e a o n a scim e n to d e cria n ça s17; m a s é o ritm o re g u la r e p rolon g a d o d e re la çõe s se xu a is e n tre a d u ltos p le n os q u e “ re a lm e n te ” fa z filh os.

C om o já d iscu ti e m d e ta lh e a lh u re s (G ow 1989; 1991), o ca sa m e n to b a se ia se e m u m a ju ste e q u ilib ra d o e n tre , d e u m la d o, o tra b a lh o p rod u -tivo, e , d e ou tro, o d e se jo ora l e se xu a l. O ca sa m e n to é o lu g a r on d e os corp os d e u m h om e m e d e u m a m u lh e r p od e m , com e fe ito, a ju sta r-se re ci-p roca m e n te . H á u m a ca n çã o d e a m or fe m in in a q u e m a n ife sta o id e a l d a se xu a lid a d e a d u lta : Yan asa sh ik ale , “ C a n ta r d e Am ig a ”18, q u e d iz o se -g u in te :

“ Eu te n h o u m a b oce ta g ra n d e , E o m e u m a rid o u m p a u g ra n d e ; Tu te n s u m a b oce ta g ra n d e , E o te u m a rid o u m p a u g ra n d e ” .

A im a g ística a lta m e n te con d e n sa d a d a ca n çã o a firm a q u e a s b oa s re la çõe s con ju g a is d e p e n d e m d a com p a tib ilid a d e e n tre m a rid o e m u lh e r q u a n to a se u d e se jo se xu a l19. Um b om ca sa m e n to é u m a re la çã o d e a b u n -d â n cia volu p tu osa e -d e cre sce n te com p a tib ili-d a -d e m ú tu a .

(15)

re la çõe s q u e p e rm a n e ce m id ê n tica s a p ós o ca sa m e n to sã o a q u e la s e n tr e “ cu n h a d os” [sib lin g s-in -law ]: e sq u e cid a s d e sd e o in ício, e sse e sq u e ci-m e n to n ã o p re cisa se r le ci-m b ra d o.

A t ransf ormação ampliada

J á e xp lica m os a s im p lica çõe s d o in te rcu rso se xu a l, d a g ra vid e z e d o n a s-cim e n to d e u m filh o. Re sta a g ora e xp lica rm os a g ê n e se d o n sh in ik an ch i n a cria n ça q u e n a sce u e a s con se q ü ê n cia s d e sse p roce sso.

Em se u s p rim e iros m e se s d e vid a , u m b e b ê e stá p e rig osa m e n te lig a -d o a o in te rior -d o corp o -d os p a is, -d e vi-d o à su a i-d e n ti-d a -d e com os flu i-d os se xu a is d e ste s, q u e d e ve m ob se rva r n u m e rosa s re striçõe s d e com p orta -m e n to a té q u e a cria n ça a tin ja u -m ce rto n íve l d e a u ton o-m ia p e ssoa l (ve r G ow 1989; 1991). É q u a n d o p á ra d e m a m a r e a p r e n d e a a n d a r q u e a cria n ça com e ça a d e se n volve r n sh in ik an ch i, e p orta n to com e ça a ch a m a r a q u e le s q u e cu id a m d e la p or te rm os d e p a re n te sco

Um a ve z com p le ta m e n te d e sm a m a d a , a cria n ça é a lim e n ta d a com “ com id a le g ítim a ” , a com id a q u e tod os os Piro com e m (u m a com b in a çã o d e ca rn e d e ca ça e b a n a n a ou m a ca xe ira ). Este a lim e n to, forn e cid o p e los p a is e , a tra vé s d e le s, p or tod os os p a re n te s a d u ltos, p re e n ch e e ssa n ova in te riorid a d e form a d a p e la s e n tra n h a s d a cria n ça . Sa tisfa ze n d o su a fom e , o a lim e n to d irig e a a te n çã o d a cria n ça p a ra o e xte rior, p a ra o ca m p o socia l d os “ a lim e n ta d ore s” , isto é , d a q u e le s q u e “ vira m a fliçã o” n a cria n ça .

N a con d içã o in tra -u te rin a , o fe to n ã o p ossu i in te rior ou e xte rior: e le e stá e m b ru lh a d o e m su a p la ce n ta , isto é , e m su a s p róp ria s e n tra n h a s. De p ois d o n a scim e n to, o b e b ê se vê se p a ra d o d a p la ce n ta , p roce sso q u e lh e d á u m in te rior e u m e xte rior. Esse in te rior va zio, ca u sa n d o-lh e fom e e sofrim e n to, p od e se r e n ch id o d e com id a , a q u a l, a o sa tisfa ze r u m d e se jo, tra n sform a -se e m n sh in ik an ch i n o e xte rior d o corp o, fa cu ld a d e d e q u e o b e b ê d á p rova s a o se m ostra r a te n to e a tra íd o p e los q u e o a lim e n ta m . Ta l n sh in ik an ch i m a n ife sta -se p rim ord ia lm e n te n o u so se le tivo d e te rm os d e p a re n te sco, isto é , n a lin g u a g e m .

(16)

É te n ta d or su g e rir q u e os b e b e zin h os sã o k w am on u ru , “ triste s, a n g u stia d os, d e sa m p a ra d os, m im osos” p orq u e e le s p e rd e ra m se u “ ou -tro” , a p la ce n ta . N os a d u ltos, a ca u sa p rim á ria d e w am on ch i, “ p e sa r, tris-te za , d e sa m p a ro” , é a m ortris-te d e p a re n tris-te s p róxim os. Assim , se ria ra zoá ve l su p or q u e o b e b ê e stá d e lu to p e la p e rd a d a ou tra m e ta d e d e si. M a s isso n ã o p a re ce corre to, visto q u e w am on ch i é , n os a d u ltos, u m a fe to d e cor-re n te d o n sh in ik an ch i, fa cu ld a d e q u e os b e b ê s a in d a n ã o d e se n volve ra m . Alé m d o m a is, a p la ce n ta n ã o é a lg o a q u e o b e b ê fosse “ re la cion a d o” — e la e e le e ra m u m a coisa só.

Pe n so q u e o q u e u n e o a d u lto e n lu ta d o e o b e b e zin h o n ã o é ta n to a p e rd a q u e p a rtilh a m , m a s su a com u m solid ã o h u m a n a . O a d u lto d e lu to p e rd e u u m p a re n te q u e rid o, e a ssim foi d e ixa d o sozin h o, a b a n d on a d o20. Um b e b e zin h o, g ra ça s à d e cisã o tom a d a n o m om e n to d e su a vin d a à lu z, é y in e ru , “ H u m a n o” . Ele é u m H u m a n o q u e se vê e m u m a con d içã o d olo-rosa d e sin g u la rid a d e , a con d içã o d e n ã o te r n in g u é m ca p a z d e a p la ca r se u s d e se jos. O q u e lh e fa lta é n om ole n e , “ m e u s p a re n te s” . É n isso q u e e le se a sse m e lh a a u m a d u lto e n lu ta d o, e é ta l d olorosa sin g u la rid a d e q u e é “ vista ” p e los ou tros.

O p ré -re q u isito p a ra q u e o b e b ê te n h a p a re n te s, p e ssoa s p a ra q u e m se volta su a con sciê n cia , é a p e rd a d e p a rte d e se u Eu orig in á rio, a sa b e r, se u O u tro Prim ord ia l. Este ou tro e u é se q ü e stra d o p or u m H u m a n o q u e se torn a o p rim e iro ou tro H u m a n o d o b e b ê , o n u stak je ru , “ m e u corta d or-d o-coror-d ã o-u m b ilica l” . C om o vim os, ta l p e ssoa , a q u e la q u e p e rm ite q u e a cria n ça te n h a p a re n te s, é d e fin id a com o n ã op a re n te p e los p a is d a cria n ça . Esse H u m a n o p e rm ite à cria n ça se r u m H u m a n o p a ra ou tros H u m a -n os, isto é , p a ra se u s -n om ole -n e , se u s “ p a re -n te s p rosp e ctivos” [k i-n sp e o-p le -to-b e ].

Pe rd e n d o o g e y on ch i, a n ova p e ssoa Piro a ch a o n sh in ik an ch i, e se volta p a ra ou tros H u m a n os. N sh in ik an ch i é u m a fa cu ld a d e e vid e n te q u e p od e se r vista n o d e se jo q u e u m ou tro H u m a n o m a n ife sta d e e sta r com o su je ito, e q u e p od e se r ou vid a n a fa la re sp e itosa d e sse ou tro. C om o ob se r-ve i a n te riorm e n te , o n sh in ik an ch i m a n ife sta -se p e la co-p re se n ça m ú tu a , p e la co-re sid ê n cia e m u m a m e sm a a ld e ia21. C om o p a ssa r d o te m p o, o

(17)

q u e , com oite n ta a n os, e ra a ú n ica p e ssoa a q u e m tod os e ra m e xp lícita e in e q u ivoca m e n te a p a re n ta d os22.

O n sh in ik an ch i se d e se n volve e m a n ife sta com o u m a e xp a n sã o d o ca m p o socia l im e d ia to, a a m p lia çã o d a s a ld e ia s, a m u ltip lica çã o d os p a re n te s. Isso se d á , p or a ssim d ize r, com o u m p u ro p rod u to d o te m p o, d a e xp e riê n cia vivid a . N sh in ik an ch i é a lg o q u e se d e se n volve e sp on ta n e a -m e n te d e n tro d a p e ssoa co-m o u -m a re sp osta à fo-m e sa cia d a , -m a s e le le va à m u ltip lica çã o e ra m ifica çã o d os la ços e n tre os vive n te s.

É, a ssim , o n sh in ik an ch i q u e e n volve a ce n a p or on d e com e ça m os e ste a rtig o, com os ve lh os Pir o con ta n d o tsru n n in i g in k ak le , “ h istória s d os a n tig os” , p a ra se u s n e tin h os. Um a lon g a vid a cu lm in a n a n a rra çã o d e ssa s h istória s, a e m issã o d e ssa fa la q u e , p rovin d o d os m ortos h á m u ito olvid a d os, “ n ã o n os ch e g a m , a rig or, d e lu g a r n e n h u m ” (Lé vi-Stra u ss 1964:26). E a o ou vire m a te n ta m e n te ta is h istória s, a s cria n ça s m ostra m e sta r d e se n volve n d o n sh in ik an ch i, n e sse p roce sso con tín u o d e tra n sfor-m a çã o d a con sciê n cia q u e é o p a re n te sco p iro.

Singularidade e mult iplicidade

Volte m os à h istória d os a n tig os sob re o “ N a scim e n to d e Tsla ” . C om o já vim os, Tsla é e fe tiva m e n te u m k g w iy ak le w ak le ru , u m “ se r m ira cu loso” , d a p e rsp e ctiva d os x an ik ak a y in e , o “ p ovo d e h oje e m d ia ” , ou se ja , os Piro a tu a is.

Tsla e m e rg iu e sp on ta n e a m e n te d o ú te ro d e su a m ã e d e sp e d a ça d a , se g u id o p or se u s “ irm ã ozin h os” , os m u ch k ajin e . O u se ja , e le n ã o som e n -te e ra u m a g e n -te h ip e rsocia l, fa la n d o a in d a d e n tro d o ú -te ro m a -te rn o (e p orta n to já com p le ta m e n te H u m a n o a n te s d o n a scim e n to), m a s e le ta m -b é m n u n ca se se p a rou d e se u O u tro Prim ord ia l, a p la ce n ta . C om e fe ito, Tsla m a n te ve ju n to a si e sse ou tr o, sob a form a d e se u s irm ã ozin h os e com p a n h e iros, os m u ch k ajin e , q u e e m e rg ira m d o ú te ro d e p ois d e le23. Tsla re a liza u m cu rcircu ito ra d ica l d e tod o o p a re n te sco p iro, a o se a u to-su scita r e sp on ta n e a m e n te com o u m a g e n te socia l com p le to. Ele é , a ssim , o cria d or m ira cu loso d e si m e sm o, e p or ta n to o cria d or m ira cu loso d o m u n d o. N ã o e xiste n a d a com o e le n o m u n d o vivid o con te m p orâ n e o d os Piro.

(18)

a n tig a m e n te , os p rim e ir os Bra n cos” . Se g u n d o a s h istória s d os a n tig os, Tsla e os m u ch k ajin e , a p ós ou vire m u m a a ve q u e a g ou ra va a m orte , fora m e m b ora rio a b a ixo, m u ito lon g e , “ n in g u é m sa b e p a ra on d e ” , d ize m os n a rra d ore s. Atrá s d e si, e le s d e ixa ra m os y in e , os Piro. Tsla os fe z d e a rg i-la d e oi-la ria , d a n d o-lh e s vid a com u m sop ro. Tsi-la lh e s d isse : “ Fiq u e m n e s-ta te rra , a g ora . M u ltip liq u e m -se . M u ltip liq u e m -se te n d o cria n ça s b oa s e in te lig e n te s. C u id e m b e m d e la s. Tra b a lh e m . Fa ça m r oça s. De rru b e m á rvore s. Pla n te m b a n a n a , m a n d ioca , ca n a .” (M a tte son 1951:52)

O s Piro sã o com o Tsla . C om o e le , e le s fa ze m H u m a n os. Ele s m od e -la m n ovos vive n te s, a n im a n d o-os com su a fa -la . M a s, a o con trá rio d e Ts-la , os Piro n ã o m od e la m n ovos vive n te s a tra vé s d e p od e r e s sin g u la re s, “ m ira cu losos” , n e m os a n im a m p or m e io d e u m sop ro p od e roso. Ele s d ã o orig e m a se u m u n d o a tra vé s d a m u ltip licid a d e , se g u in d o o con se lh o m ira -cu loso d e Tsla p a ra “ torn a re m -se m u itos” .

En q u a n to Tsla foi ca p a z d e m a n te r o ou tro p rim ord ia l ju n to a si sob a form a d e se u s irm ã os m a is m oços, o b e b ê Piro p re cisa p e rd e r se u ou tro p rim ord ia l p a r a p o d e r su b stit u í- lo p e lo s n om ole n e , “ m e u s p a re n te s” , u m a m u ltip licid a d e d e ou tros H u m a n os d ife re n cia d os. A ra iz m ole - sig n i-fica “ p a re n te ” , “ a m on toa r u m a q u a n tid a d e d e coisa s se m e lh a n te s” e “ d e z” . Ela sig n ifica , p orta n to, a re u n iã o d e e le m e n tos q u e sã o se p a ra d a -m e n te se -m e lh a n te s e -m u -m a -m u ltip licid a d e d e e le -m e n tos id ê n ticos: “ p a re n te s” , “ coisa s” , “ n ú m e r os” (i.e . os d íg itos d a s m ã os). Aq u ilo q u e Tsla p od ia fa ze r sozin h o, os Piro d e ve m fa ze r a tra vé s d e su a p róp ria m u l-tip licid a d e24.

Ta l m u ltip licid a d e con d u z a o va lor su p re m o d os Piro: g w ash lu , o “ vi-ve r b e m ” . O te rm o sig n ifica , lite ra lm e n te , “ m ora r e n ã o fa ze r m a is n a d a ” ; e le se re fe re à tra n q u ilid a d e d o d ia -a -d ia d a vid a n a a ld e ia , a u m a vid a m a rca d a p e la a u sê n cia d e q u a lq u e r triste za , in sa tisfa çã o ou re sse n tim e n -to q u e le ve u m a p e ssoa a q u e re r se m u d a r. Esse va lor se b a se ia n a orq u e s-tra çã o d os ciclos d e vid a d e p e ssoa s d ive rsa s p e lo se xo e a id a d e , d e ta l form a q u e os a con te cim e n tos e sp e cíficos d a vid a d e u m a p e ssoa (n a sci-m e n to, p u b e r d a d e ) ra sci-m ifica sci-m -se p a ra fora , tra n sfor sci-m a n d o a vid a d e ou tros, e se n d o tra n sform a d os, p or su a ve z, p or e sse s ou tros.

(19)

vi-ve r b e m ” : “ Eu n u n ca p od e ria ir vivi-ve r lon g e d a q u i. Isso se ria o m e sm o q u e m orre r. O q u e é a m orte , se n ã o q u e você n u n ca m a is p od e rá ve r se u s p a re n te s, se u p a i, su a m ã e ?”

N ã o h á , ob via m e n te , n e n h u m a ra zã o p a ra q u e fiq u e m os p or a q u i; m a s u m a h istória d e ve p a ra r e m a lg u m lu g a r, e a ssim e ste é o fim d e m in h a a n á lise . C om o d ize m os n a rra d ore s d a s tsru n n in i g in k ak le : “ Se yo-k a tyo-k a ” , “ Isto é tu d o, p or ora ” , n a e sp e ra n ça d e q u e m a is ta rd e , a m a n h ã , ou tro d ia , a g e n te re com e ce d e on d e se p a rou .

Conclusão

À g u isa d e con clu sã o, g osta ria d e re tom a r ra p id a m e n te a lg u m a s d a s im -p lica çõe s m a is g e ra is d e m in h a a b ord a g e m d o -p a re n te sco -p iro e d a con s-ciê n cia h u m a n a . M a r ylin Stra th e r n ob se rva , d e u m a p e rsp e ctiva p ós-m od e rn a , q u e “ [p ]a ra o a n trop ólog o ós-m od e rn o, os fa tos d o p a re n te sco e ra ós-m a o m e sm o te m p o fa tos n a tu ra is e fa tos cu ltu ra is ou socia is” (1992:46).

Isso le vou os a n trop ólog os ocid e n ta is a p roje ta r sob re tod a s a s cu ltu -ra s q u e e stu d a m ce rta s form u la çõe s e sp e cifica m e n te ocid e n ta is sob re a “ n a tu re za ” e os “ la ços n a tu ra is”26. Foi con tra ta l p roje çã o in d e vid a q u e m u itos críticos d a a n á lise m od e rn ista d o p a re n te sco se le va n ta ra m ; u m d os m a is e m in e n te s d e sse s críticos, Da vid Sch n e id e r, ch e g ou m e sm o a p rocla m a r q u e “ o ‘p a re n te sco’ [...] é u m n ã o-ob je to, visto n ã o e xistir e m n e n h u m a cu ltu ra con h e cid a d o h om e m ” (1984:vii).

(20)

Ao com e ça r m in h a a n á lise , n e ste a rtig o, p or u m p rob le m a d e b iolo-g ia , o p rob le m a d a con sciê n cia e d a lin iolo-g u a iolo-g e m d os h u m a n os, p rocu re i e vita r e ssa a rm a d ilh a . Se , com o a rg u m e n te i, o p a re n te sco p iro é fe ito d e con sciê n cia e d e lin g u a g e m , e n tã o e le é u m fe n ôm e n o b iológ ico — u m d a q u e le s fe n ôm e n os b iológ icos, a liá s, sob re os q u a is os p róp rios b iólog os a d m ite m sa b e r m u ito p ou co.

C om e ça n d o p or u m p r ob le m a b iológ ico, a lé m d isso, n ã o fiz se n ã o se g u ir os p a ssos d e Fre u d . Pa ra Fre u d , o p rob le m a d a con sciê n cia h u m a -n a se m p re te ve su a s ra íze s -n a s ciê -n cia s -n a tu ra is, e e sp e cifica m e -n te -n a b iolog ia . Por m a is in a d e q u a d o ou a b su rd o q u e se u tra b a lh o n os p a re ça h oje , Fre u d se m p re e ste ve p re ocu p a d o e m a ju sta r a s d e scob e rta s d a p si-ca n á lise à b iolog ia q u e e le con h e cia . M u ito d o q u e soa e sq u isito ou risí-ve l e m Fre u d d e riva d a ig u a lm e n te e sq u isita e risírisí-ve l b iolog ia d e su a é p o-ca , a n te rior a o e n con tro d e M e n d e l e Da rw in n a N ova Sín te se . A ú n io-ca p sica n á lise con te m p orâ n e a q u e va le a p e n a le r, a liá s, é a q u e la q u e m a n -té m ta l la ço com a d in â m ica d a ciê n cia b iológ ica .

Fre u d ta m b é m e ra u m le itor vora z d e a n trop olog ia , e se m p re p rocu -rou lig a r se u tra b a lh o à s d e scob e rta s d e ssa d iscip lin a . Tra ta va -se , m a is u m a ve z, d a a n trop olog ia d e se u te m p o e lu g a r. Um d os m a iore s p rob le m a s d a a n trop olog ia d e Fre u d e ra o se u “ e volu cion ism o socia l” e a con se q ü e n te a ssim ila çã o d os se lva g e n s d a s te rra s d ista n te s a os a n te p a ssa -d os re m otos -d os e u rop e u s, e m u m a te n ta tiva -d e re m e -d ia r, com o q u e se sa b ia d os p rim e iros, a ig n orâ n cia sob re os se g u n d os, e re cip roca m e n te . Isso fe z com q u e Fre u d (e ta n tos ou tros d e su a é p oca ) re d u zisse a m b os a u m a m a ssa sim p le s e com u m , o q u e a u torizou o tra ta m e n to d e tod os os m itos d os se lva g e n s com o va ria n te s d e u m ú n ico m ito, o m ito g re g o d e Éd ip o, q u e se torn ou o m ito d e orig e m d a H u m a n id a d e . M a s, m a is u m a ve z, a ú n ica p sica n á lise con te m p orâ n e a q u e va le a p e n a le r é a q u e la q u e e stá com p rom e tid a com a d in â m ica d a a n trop olog ia .

(21)

“ M e n os con fu sõe s te ria m sid o su scita d a s p e la n oçã o d e n a tu re za h u m a n a , q u e p e rsisto e m e m p re g a r, se se tive sse a d ve rtid o q u e n ã o a con ce b o com o u m e d ifício d e e stru tu ra s a ca b a d a s e im u tá ve is, m a s sim com o m a trize s a p a rtir d a s q u a is se e n g e n d ra m e stru tu ra s q u e , e m b ora p e rte n ce n d o tod a s a o m e sm o con ju n to, n ã o p e rm a n e ce m n e ce ssa ria m e n te id ê n tica s a o lon g o d a e xistê n cia in d ivid u a l ou , n o ca so d a s socie d a d e s h u m a n a s, e m tod o te m p o e lu g a r” (1971:561).

C re io q u e a m a ioria d os b iólog os re con h e ce ria se u ob je to d e p e sq u i-sa m u ito m a is n e si-sa d e fin içã o d e n a tu re za h u m a n a q u e n a “ n a tu re za ” e n a “ b iolog ia ” q u e tê m fre q ü e n ta d o, a té o p re se n te , a s p á g in a s d e ta n ta s d e scriçõe s a n trop ológ ica s d o p a re n te sco. Essa é u m a d e fin içã o, a d e m a is, q u e n os p e rm itiria e vita r a s im p lica çõe s m u ito d iscu tíve is d e u m a con -ce p çã o d a H u m a n id a d e q u e a trib u iu a u n id a d e à b iolog ia e a va ria çã o a o “ d om ín io” ou “ n íve l” on tolog ica m e n te se p a ra d o d a “ cu ltu ra ” ou d a “ so cie d a d e ” . Se g u in d o a p e rsp e ctiva d e Lé viStra u ss, com o fiz a q u i, p od e re -m os co-m p re e n d e r a va ria b ilid a d e d os siste -m a s d e p a r e n te sco h u -m a n o com o p rod u to d a n a tu re za h u m a n a ; a lé m d isso, se e le s sã o tod os e stru tu -ra s q u e p e rte n ce m a u m m e sm o con ju n to, isso n os g a -ra n te su a in te lig ib lid a d e . C om o e tn óg ra fo, p osso com p re e n d e r o p a re n te sco p iro, e com u n i-ca r e sta com p re e n sã o, p orq u e su a in te lig ib ilid a d e é a d e u m m od o vivid o d a con sciê n cia h u m a n a .

Re ce b id o e m 14 d e m a io d e 1997

Ap rova d o e m 10 d e ju lh o d e 1997

Tra d u çã o d e Ed u a rd o Vive iros d e C a stro

Pe te r G ow é p rofe ssor d a Un ive rsid a d e d e M a n ch e ste r. Em 1996, foi p rofe s-sor-visita n te d o Prog ra m a d e Pós-G ra d u a çã o e m An trop olog ia Socia l (PPG AS) d o M u se u N a cion a l/ UFRJ . Pu b licou O f M ix e d Blood : Kin sh ip an d

(22)

Not as

1 O tra b a lh o d e ca m p o n o Ba jo Uru b a m b a foi fin a n cia d o p e lo Socia l Scie n ce

Re se a rch C ou n cil (G rã Bre ta n h a ), p e la N u ffie ld Fou n d a tion e p e la British Aca d -e m y. Por su a s su g -e stõ-e s, -e u g osta ria d -e a g ra d -e c-e r a C h ristin a Tor-e n , H -e on ik Kw on , J e a n La ve , Boru t Te lb a n e An d re w H old in g .

2 O a rg u m e n to d e H a ra w a y p a re ce su g e rir q u e a s re sp osta s a ta is p e rg u n

ta s sã o a u toe vid e n te s — com o se tod os n ós já a s sou b é sse m os. Ve ja se , e n tre ta n -to, o a rtig o d e La u ra M ille r, “ Wom e n a n d C h ild re n First” , p a ra u m a crítica d e m o-lid ora a e sse e stilo “ p rofe ssora ca re ta ” com o se n d o o in im ig o m orta l d e tod a in ve s-tig a çã o im a g in a tiva . N os p a ssos d e M ille r, p od e ría m os ve r H a ra w a y com o a p ro-fe ssora p u rita n a d os film e s sob re o Ve lh o O e ste , q u e ch e g a p a ra e xp u lsa r a s “ m á s m e n in a s” (a s p rim a tólog a s) d a cid a d e . Assim , a le rta d a p or H a ra w a y, q u a lq u e r p e ssoa d e b e m p od e rá con sta ta r q u e e ssa s p rim a tólog a s a n d a m e m p é ssim a com -p a n h ia : m a ca cos, -p rim a ta s a n tro-p óid e s [a-p e s] — e h om e n s. Isso é la m e n tá ve l, -p ois q u a n tos cie n tista s socia is e sta rã o d isp ostos a p a ra r p a ra le r Th e Ch im p an z e e s of

G om b e d e G ood a ll, d e p ois d e H a ra w a y lh e s te r d a d o u m a e xce le n te ra zã o p a ra n ão le r e sse livro?

3 Essa s q u e stõe s e xig iria m , ob via m e n te , u m a d iscu ssã o m u ito m a is e xte n sa ,

ta n to m a is p orq u e os a rg u m e n tos d e Wild e n , Ru b in e Stra th e rn sob re o a ssu n to re ce b e ra m p ou ca a te n çã o n a lite ra tu ra su b se q ü e n te . Ta l d iscu ssã o im p lica ria u m a re fle xã o crítica sob re o p a p e l d o “ d om ” m a u ssia n o n os tra b a lh os d e Lé vi-Stra u ss sob re o p a re n te sco e sob re su a in flu ê n cia n o con ce ito la ca n ia n o d e “ sim b ólico” .

4 O e stu d o d e M im ica sob re os Iq w a ye e a a n á lise d e Tore n sob re o a m or

e m Fiji fora m fon te s d e in sp ira çã o fu n d a m e n ta is p a ra o p re se n te a rtig o.

5 Ad m ito e sta r a q u i fa ze n d o u m a ce rta p re stid ig ita çã o. De tod os os m itos

p iro, “ O N a scim e n to d e Tsla ” é o q u e m a is d e p e rto se a p a re n ta à s n a rra tiva s g e n é tica s d e m in h a p róp ria cu ltu ra ; tom e i, a ssim , ta l a ta lh o p or con ve n iê n cia e xp ositiva . C on tu d o, p od e ria te r com e ça d o p or q u a lq u e r m ito p iro, q u e ch e g a ria à m e sm a con clu sã o (a lg o q u e n ã o p osso p rova r a q u i, m a s a p e n a s, m a is u m a ve z, p re stid ig ita r). N a ve rd a d e , o p re se n te a rtig o d e riva d e u m a a n á lise d e ou tros m itos p iro: “ C om o o fog o foi e n con tra d o” , “ Kla n a p in ta o rosto d a Lu a ” e “ O h om e m q u e virou u m q u e ixa d a ” .

6 Arg u m e n te i e m ou tro tra b a lh o (G ow 1991) q u e os ve lh os tê m e ssa ca p a

(23)

7 H á ou tros te rm os d e p a re n te sco, com o w iw i e sh te , “ p a re n te m a is jove m ” ,

m ag i, “ cu n h a d a ” , e p an u , “ cu n h a d o” . M a s e ste s sã o, p or ra zõe s ób via s, p ou co u sa

-d os p or cria n ça s p e q u e n a s.

8 O m ito p iro d e orig e m d a s m a n ch a s d a lu a , a p e sa r d e su a se m e lh a n ça com

ou tros m itos a m e rín d ios sob re o te m a , d e sta ca -se p or n ão m e n cion a r o m otivo d o in ce sto.

9 O s m ash k o sã o u su a lm e n te id e n tifica d os a os p ovos d e lín g u a h a ra k m b ú t

d o rio M a d re d e Dios, com o os Am a k a e ri.

10A p a ssa g e m le va a cre r q u e a su g e stã o p a rtiu d e M a tte son , n ã o d e u m Piro.

11O m a rid o-J a g u a r p od e se r ou n ã o o g e n itor d e Tsla . Em a lg u m a s ve rsõe s

e le é , e m ou tra s fa la -se e m u m g e n itor h u m a n o, e m u ita s n a d a d ize m a re sp e ito. A q u e stã o n ã o te m m u ita im p ortâ n cia , p or m otivos q u e se torn a rã o cla ros m a is à fre n te . M a s o J a g u a r é in d u b ita ve lm e n te o p a i d e Tsla . [N .T. – O a u tor e stá a q u i con tra sta n d o g e n itor e p ate r, ou “ p a i b iológ ico” e “ p a i socia l” .]

12Um a p e ssoa m a is ve lh a p od e se d irig ir a ou tra m a is m oça p e lo n om e ou

a p e lid o, a lte rn a tiva m e n te a o te rm o g e n é rico “ p a re n te m a is jove m ” , m a s e sta ú lti-m a d e ve re sp on d e r u tiliza n d o u lti-m te rlti-m o d e p a re n te sco.

13Esse s te rm os sã o e ste n d id os a os côn ju g e s d os corta d ore s.

14N os fu n e ra is p iro, e sse s a d ole sce n te s sã o con vid a d os a b e b e r e “ d ive r

tir-se ” . Du ra n te u m ve lório, os vivos e stã o a torm e n ta d os p e la m e m ória (n sh in ik an ch i) a te rroriza n te d o m orto, a ssim com o (e p orq u e ) o m orto se le m b ra d os vivos. Se u m ve lório é m a rca d o p or u m a triste za e xce ssiva , costu m a se cu lp a r os p a re n te s e n lu ta -d os, -d ize n -d o q u e e le s n ã o p rovi-d e n cia ra m á lcool e m q u a n ti-d a -d e su ficie n te p a ra q u e os jove n s se d ive rtisse m — o p ote n cia l d e e xu b e râ n cia d os ra p a ze s n ã o foi re a liza d o.

15Esta a n á lise e n con tra e co n o a p e lid o u sa d o com u m e n te p e los Piro p a ra

fa la r d os C a m p a -Ash á n in k a vizin h os: Pish in to, q u e é a form a ca m p a p a ra “ tu a filh a ” . Isto se ria u m a con tra çã o d a fra se : “Pam e n e ro p ish in to!”, “ Dá -m e tu a filh a !” , g ra ce jo-p a d rã o q u e m a rca a s in te ra çõe s d e h om e n s Piro e C a m p a .

16Um b om e xe m p lo d isso sã o os C on ib o, d e lín g u a Pa n o, vizin h os se te n

trio-n a is d os Piro d o Uru b a m b a . O s Piro ch a m a m e sse p ovo d e Ch ay ik o, “ m u ito ch

a-y i” (d a p a la vra con ib o ch ai, q u e corre sp on d e a o p iro g an u ru ). O u se ja , os Piro

(24)

17As cria n ça s n a scid a s d e re la çõe s oca sion a is sã o ch a m a d a s “ filh a s d o ve n

-to” . Um a m u lh e r a ssim m e fa lou a fe tu osa m e n te d e u m a d e su a s filh a s, e n q u a n to lh e a fa g a va a ca b e ça : “ Ela é só u m a filh a d o ve n to. N u n ca vivi com o p a i d e la , só tre p e i com e le e m fe sta s. Se i lá on d e e le a n d a a g ora ” .

18A p a la vra y an asa foi-m e e xp lica d a com o se re fe rin d o a “ u m a m u lh e r m e

s-tiz a, a m ig a d e u m a m u lh e r Piro” .

19As ca n çõe s d e a m or p iro sã o m a rca d a s p or u m “ d e sliza m e n to” com p le xo

d a p osiçã o d e su je ito, d e ta l form a q u e o ou vin te p re fe re n cia l d e ve d e d u zir on d e se coloca r n o jog o d e d e sliza m e n to d o su je ito. O “ tu ” d a Yan asa sh ik ale é a “ a m ig a ” , m a s a ca n çã o é d iriig id a a os ou vid os d o m a rid o d a ca n tora . Troca n d o e m m iú -d os, a ca n tora -d iz a o m a ri-d o q u e e le s form a m u m ca sa l se xu a lm e n te com p a tíve l, e p orta n to q u e e le n ã o te m p or q u e d e se ja r ou tra s m u lh e re s q u e , p or su a ve z, sã o se xu a lm e n te com p a tíve is com se u s p róp rios m a rid os. Ve r G ow (1991) sob re a s re la çõe s e n tre com p ad re s e com ad re s.

20Ve r G ow (1991) p a ra u m a d iscu ssã o d a s re la çõe s com p le xa s d e a b a n d on o

e solid ã o e n tre p a re n te s vivos e m ortos.

21Vive r lon g e d os p a re n te s é “ e sq u e ce r-se ” d e le s, e tod o e sq u e cim e n to e n tre

p a re n te s le va a o re sse n tim e n to e , e m ú ltim a a n á lise , à fra g m e n ta çã o d a s a ld e ia s. Am b os os re su lta d os tê m a q u a lid a d e n e g a tiva d o q u e é m sh in ik atu , “ e sq u e cid i-ço, d e sa m orá ve l, d e sre sp e itoso, in se n síve l” .

22Ao volta r a os Piro e m 1995, a p ós se te a n os d e a u sê n cia , su rp re e n d i-m e a o

a ch a r Sa n ta C la ra tã o p ou co m u d a d a , a p e sa r d e tod o o sofrim e n to ca u sa d o p e la g u e rra civil p e ru a n a n e ssa re g iã o e d a m orte d e d ois líd e re s d a a ld e ia , e n tre vá ria s ou tra s p e ssoa s. Te n h o forte s su sp e ita s d e q u e foi g ra ça s à lon g e vid a d e d e C lotil-d e G orlotil-d ón q u e a a llotil-d e ia p e rm a n e ce u u n ilotil-d a .

23Pod e r-se -ia d ize r q u e Tsla é m ira cu loso p orq u e e le já tin h a p a re n te s a n te s

m e sm o d e h a ve r n a scid o. Essa form u la çã o a ju d a a m e d ir a e n orm e d istâ n cia e n tre a s con ce p çõe s p iro e ocid e n ta l d o p a re n te sco.

24Em p iro, a s p a la vra s y in e , “ H u m a n os” , e y in e ru / y in e ro, “ H u m a n o m a scu

-lin o/ fe m in in o” , p ossu e m u m a ca ra cte rística e xce p cion a l. Yin e é , te cn ica m e n te , a form a p lu ra l d a ra iz n om in a l y se g u id a d o “ p lu ra liza d or” -n e , m a s e ssa ra iz n om i-n a l i-n ã o p od e tom a r a form a sii-n g u la r (i-n ã o e xiste a p a la vra y i e m p iro). Assim , a s form a s sin g u la re s d os H u m a n os (y in e ru e y in e ro, con form e o g ê n e ro) sã o a sin g u -la riza çã o d o q u e é in trin se ca m e n te u m p lu ra l. C om a e xce çã o d os “ g r u p os n om i-n a d os e i-n d óg a m os” (ve r G ow 1991), e ssa situ a çã o i-n ã o te m p a ra le lo i-n a líi-n g u a p iro.

25Isso n ã o se ch oca , ob via m e n te , com a id e n tifica çã o d o p a re n te sco à m e m

(25)

26Uso a q u i “ ocid e n ta l” , e m lu g a r d o “ e u ro-a m e rica n o” d e Stra th e rn , e m

a te n çã o à p op u la rid a d e d e q u e o p rim e iro te rm o g oza , e n tre e sse g ru p o d e p e s-soa s, com o a u to-id e n tifica çã o.

27É sig n ifica tivo q u e a “ se g u n d a te oria d o p a re n te sco” d e Lé vi-Stra u ss,

Referências

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