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Mana vol.3 número2

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Academic year: 2018

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(1)

Epeli Hau’of a: a sociedade t ranscult ural

N a scid o n a N ova G u in é , filh o d e p a is ton g a n e se s; e d u ca d o n a Pa p u a -N ova G u in é , Ton g a , Fiji, C a n a d á e Au strá lia ; e x-se cr e tá rio p a rticu la r a d ju n to [De p u ty Priv ate S e cre tary ] d o re i d e Ton g a , e a tu a lm e n te p rofe s-sor-titu la r e d ire tor d a Sch ool of Socia l a n d Econ om ic De ve lop m e n t d a Un ive rsid a d e d o Pa cífico Su l e m Su va , Fiji; d ou tor e m a n trop olog ia p e la Un ive rsid a d e N a cion a l d a Au strá lia , com u m a te se b a se a d a e m se u tra -b a lh o d e ca m p o ju n to a os M e k e o d e Pa p u a ; a u tor d e n otá ve is o-b ra s d e ficçã o, a ssim com o d e m on og ra fia s e sp e cia liza d a s sob r e a socie d a d e m e k e o e sob re o d e se n volvim e n to e con ôm ico e m Ton g a , Ep e li H a u ’ofa e n ca rn a , e m su a p róp ria b iog ra fia , a visã o d a q u e le e sp a ço d e vid a oce â -n ico cria d o p e lo livre m ovim e -n to d os p ovos i-n su la re s, q u e e le m e sm o a rti-cu lou e m 1993, e m d e sa fio à s con ce p çõe s n e ocolon ia lista s q u e via m a s socie d a d e s d o Pa cífico com o con d e n a d a s a o su b d e se n volvim e n to d e vid o a o se u isola m e n to e à s su a s m ú ltip la s ca rê n cia s: ca rê n cia d e te r ra , d e p op u la çã o, d e re cu rsos e , m a is q u e tu d o, d e ca p a cid a d e d e e m p re e n d i-m e n to.

C om o p rofe ssor d e u m a u n ive rsid a d e q u e a te n d e a d oze p a íse s in su -la re s d o Pa cífico, H a u ’ofa d e c-la rou n ã o p od e r m a is con tin u a r ve n d e n d o a se u s e stu d a n te s e sse d iscu rso d e p re cia tivo e u rop e u . A oca siã o d e ta l p ro-n u ro-n cia m e ro-n to foi u m a coro-n fe rê ro-n cia p ú b lica , “ N osso m a r d e ilh a s” , p rofe ri-d a ri-d u ra n te a s ce le b ra çõe s ri-d o 25oa n ive rsá rio d a Un ive rsid a d e d o Pa cífico

Su l1. A con fe rê n cia g e rou on d a s d e ch oq u e q u e se p rop a g a ra m a tra vé s

d o ca m p u s, e se u re su lta d o im e d ia to foi u m p e q u e n o volu m e — A N e w O ce an ia: Re d iscov e rin g O u r S e a of Islan d s (Wa d d e ll, N a id u e H a u ’ofa 1993) — con te n d o a con fe rê n cia d e H a u ’ofa e a s r e a çõe s d e d e ze n ove cole g a s. Alg u n s d e ste s se d e cla ra ra m su rp re sos com o “ id e a lism o rom â n -tico” d e H a u ’ofa . C om e fe ito, e le d e se n volvia a rg u m e n tos a ce rca d a a u

to-O “PESSIMISMto-O SEN TIMEN TAL”

E A EXPERIÊN CIA ETN OGRÁFICA:

POR QUE A CULTURA N ÃO É UM “OBJETO”

EM VIA DE EXTIN ÇÃO (PARTE II)

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n om ia cu ltu ra l d a s p e ssoa s com u n s, ch e g a n d o m e sm o a fa ze r a lu sõe s p rá -tico-m itológ ica s q u e re m e tia m a a tu a l lib e rd a d e d e m ovim e n to d os p ovos à s via g e n s le n d á ria s d e h e róis a n ce stra is a os m u n d os ce le ste s e su b te rrâ -n e os, a o m e sm o te m p o q u e p a re cia ig -n ora r a s re a lid a d e s m u -n d a -n a s — o siste m a d e d om in a çã o n e ocolon ia l im p la n ta d o p e la s cla sse s d om in a n te s m e rca n tis e p e la s corp ora çõe s m u ltin a cion a is. En tre ta n to, e m u m a re fle -xã o fin a l sob re a s crítica s re ce b id a s, H a u ’ofa ch a m ou a a te n çã o p a ra a con sciê n cia cu ltu ra l d o p róp rio p ovo, isto é , p a ra u m u so a u to-re fle xivo d a “ cu ltu ra ” se m e lh a n te a o q u e e n tã o d e sp on ta va , com o ve re m os, e m tod o o m u n d o. Ele la m e n ta va q u e os in te le ctu a is loca is in sistisse m e m ig n ora r su a s tra d içõe s cu ltu ra is e m fa vor d a s lin g u a g e n s a p a r e n te m e n te u n ive rsa is d a e con om ia e d a ciê n cia p olítica s. O s a ca d ê m icos in d íg e n a s e sta va m fa la n d o u m a lín g u a e stra n g e ira , e n q u a n to a s p e ssoa s com u n s se e sforça va m e m a d a p ta r se u s d iscu rsos a n ce stra is à su a situ a çã o corre n te :

“ La m e n ta ve lm e n te , p a re ce m os te r ig n ora d o a ta l p on to a im p ortâ n cia d e n ossa s cu ltu ra s q u e , se m p re q u e a lg u m d e n ós b u sca in sp ira çã o e ru m o e m su a p róp ria h e ra n ça , n a s con q u ista s d e se u s a n ce stra is, a ca b a a tra in d o sob re si a cu sa çõe s, p rove n ie n te s d e se u p róp rio p ovo, d e rom a n tism o, m itifica çã o, e sp e ciosid a d e , e m issã o d e ju ízos d e va lor [...]. Fica m os a rre p ia d os q u a n d o se m e n cion a n ossa cu ltu ra , p orq u e a ssocia m os n ossa s tra d içõe s a o a tra so e à ig n orâ n cia . Afin a l, som os in d ivíd u os in te rn a cion a lista s e p rog re ssista s, q u e só fa la m os e p e n sa m os n a lin g u a g e m u n ive rsa l e a cu ltu ra l d a e con om ia e d a ciê n cia p olítica s [...]. Ao e xclu ir d e lib e ra d a m e n te d e q u a lq u e r d iscu rso sé rio n ossa s tra d içõe s e m tra n sform a çã o, e sp e cia lm e n te a q u i n a Sch ool of Socia l a n d Econ om ic De ve lop m e n t [d a UPS], n ã o le va m os e m con ta o fa to d e q u e a m a ior p a rte d a s p e ssoa s a in d a a s u sa m e a s a d a p ta m com o in str u m e n tos d e sob re vivê n cia [...]. C re io q u e d e ve m os p re sta r m u ito m a is a te n çã o e a ssu m ir u m com p rom isso m u ito m a is sólid o com n ossa s cu ltu ra s d o q u e te m os fe ito a té o p re se n te , p ois d o con trá rio corre m os o risco d e n os torn a r se m e lh a n te s a os triste s m ím icos d e scritos p or V. S. N a ip a u l” (Wa d d e ll, N a id u e H a u ’ofa 1993:129).

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a “ m od e rn iza çã o” , se g u n d o a s q u a is a s socie d a d e s in su la r e s se ria m p ob re s d e m a is p a ra a tin g ir q u a lq u e r coisa d e va g a m e n te se m e lh a n te a u m “ d e se n volvim e n to” a u tôn om o, ou m e sm o p a ra con q u ista r a lg u m re s-p e ito s-p rós-p rio. É a ssim q u e se ria m a s “ socie d a d e s M IRAB” * — e ste o n om e in fe liz p or q u e e ra m con h e cid a s n a Un ive rsid a d e d o Pa cífico Su l—, su b sistin d o à cu sta d e m ig ra çõe s, d e re m e ssa s d e d in h e iro d os e m ig ra n te s, d e a ju d a e xte rn a e d e u m a b u rocra cia in ch a d a . A n oçã o d e socie d a -d e s M IRAB, p r op osta p e la p rim e ira ve z p or Be r tra m e Wa tte rs (1986), te ve , se m d ú vid a , o m é rito h istórico d e situ a r a s ilh a s d o Pa cífico e m u m siste m a d e re la çõe s in te rn a cion a is, se n ã o m e sm o d e a s con ce b e r com o a b rig a n d o socie d a d e s ve r d a d e ira m e n te in te r n a cion a is. O p r ob le m a , e n tre ta n to, e ra o p a p e l cu ltu ra l p u ra m e n te r e a tivo q u e o con ce ito d e M IRAB a trib u ía a os p ovos in su la re s. “ As força s d e cisiva s [...] p roce d e ra m d o e xte rior, m a is q u e d e q u a lq u e r d in â m ica in te rn a ; [os p ovos n a tivos] re sp on d e ra m se m p re p or re a com od a çõe s loca is” (Wa tte rs 1987:35-37). Tra ta va -se d e u m “ p r oce sso g e ra d o e xte r n a m e n te ” , q u e “ d om in ou d e m a n e ira cre sce n te e d e cisiva a s re sp e ctiva s socie d a d e s in su la re s, d e te r-m in a n d o e r-m la rg a r-m e d id a su a e volu çã o” (Be rtra r-m e Wa tte rs 1986:55, 47). N a d a d e b om p od ia re su lta r d e ta l d e p e n d ê n cia p a ra p a íse s “ e xtre m a -m e n te p e q u e n os, p ob r e s e -m re cu rsos, isola d os, co-m e con o-m ia s g e ra l-m e n te l-m on ocu ltora s, l-m e rca d os in te rn os lil-m ita d os, cu stos d e tra n sp orte m u ito e le va d os, b a la n ça s com e rcia is d e se q u ilib ra d a s e vá rios ou tros p ro-b le m a s m u ito p e cu lia re s” (Wa tte rs 1987:42)2. Du ra n te os a n os 80, H a u ’ofa

h a via sid o u m cú m p lice re lu ta n te d e ssa id e olog ia d o d e se sp e ro. Em 1986, e le e scre ve u , n o con te xto d e u m se m in á rio sob re “ d e se n volvim e n to” , u m tra b a lh o a ce rca d a s socie d a d e s d o Pa cífico in titu la d o “ Sob re a s Im p lica -çõe s d e se Se r M u ito Pe q u e n o” , q u e e ra u m ve r d a d e iro ca tá log o d a s la m e n ta çõe s e con ôm ica s su scita d a s p or e ssa con d içã o p ou co in te re ssa n -te . Alé m d o m a is, a rg u m e n ta va H a u ’ofa , a situ a çã o g e og rá fica d a s ilh a s, com b in a d a com su a s p rop orçõe s lilip u tia n a s, fa zia com q u e su a sob e ra -n ia fosse tã o vu l-n e rá ve l à s m a q u i-n a çõe s d a s p otê -n cia s p re se -n te s -n o Pa cí-fico q u a n to o e ra m su a s e colog ia s a os te ste s n u cle a re s “ e a ou tra s coisa s q u e os p a íse s g ra n d e s n ã o ou sa m fa ze r e m ca sa ” . O p e q u e n o p od e se r b on ito p a ra a lg u m a s p e ssoa s, d isse H a u ’ofa , “ m a s o r e sto d o m u n d o tra n sform ou n osso ta m a n h o d im in u to e n ossa loca liza çã o g e og rá fica n a ca u sa d e n ossa m isé ria ” .

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Ain d a a ssim , n e sse e e m a lg u n s ou tros tra b a lh os, h a via se m p re u m a ce rta a m b iva lê n cia n o p e ssim ism o d e H a u ’ofa . Até m e sm o o r e la tório sob re com e rcia liza çã o p or e le com p ila d o p a ra o g ove rn o ton g a n ê s e sta va sa lp ica d o d e d e scriçõe s le ve m e n te irôn ica s, m ostra n d o com o a s in clin açõe s h a b itu a is d a s p e ssoa s con se g u e m sola p a r os m a is va ria d os e sq u e -m a s d e d e se n volvi-m e n to d e in sp ira çã o e stra n g e ira (H a u ’ofa 1979:4-5, 8, 119). De m a n e ira a n á log a , n o te xto “ Sob re a s Im p lica çõe s d e se Se r M u i-to Pe q u e n o” , H a u ’ofa p e r ce b ia o a ssim ch a m a d o d e se n volvim e n i-to — u rb a n iza çã o, e xp a n sã o d o se tor m on e tá rio e tc. — com o u m a am e aça d e e m p ob re cim e n to p e sa n d o sob re a tra d icion a l “ a b u n d â n cia d e m e ios d e su b sistê n cia ” [su b siste n ce afflu e n ce ] ca ra cte rística d a s ilh a s. Em ce rta s p a ssa g e n s d o tra b a lh o, a trá g ica con d içã o d e p e q u e n e z e in su ficiê n cia e ra a n a lisa d a com o u m a “ a r m a çã o” id e ológ ica d e orig e m e stra n g e ira , ve n d id a a os p ovos in su la re s p or a u tod e sig n a d os e sp e cia lista s e m d e se n -volvim e n to e con ôm ico:

“ [...] e m q u a lq u e r p u b lica çã o sob re a ju d a e xte rn a e d e se n volvim e n to n a re g iã o, você s p rova ve lm e n te le rã o q u e som os socie d a d e s m in ú scu la s, d is -p e rsa s, -p ob re s e m re cu rsos e in ca -p a ze s d e fica r d e -p é sozin h a s n o m u n d o m od e rn o. Essa id é ia te m sid o in cu lca d a e m n ós d e m od o tã o con siste n te q u e n osso p ovo e n ossos p róp rios líd e re s e stã o con ve n cid os d e n ossa in sig n ifi-câ n cia e , p orta n to, d e n ossa im p otê n cia ” (1986:7).

Foi, p oré m , e m su a ob ra d e ficçã o, e sp e cia lm e n te e m Tale s of th e Tik on g s (1983), q u e o re sse n tim e n to p op u lista d e H a u ’ofa se e xp rim iu e m su a form a m a is forte e m a is p olin é sia . Eu d isse “ p op u lista ” , m a s o q u e h á d e p olin é sio n e sse h ila ria n te a d e u s a o “ d e se n volvim e n to” é p re cisa m e n -te o fa to d e q u e a s p e ssoa s com u n s n ã o fa la m a p a rtir d e u m a p osiçã o d e d e p e n d ê n cia d e cla sse ; a o con trá rio, e la s se vê e m com o o ve rd a d e iro p ovo d a te rra , e m con tra ste com os ch e fe s g ove rn a n te s e e m op osiçã o a e le s, q u e fa ze m re m on ta r su a s orig e n s a os cé u s e a ou tros lu g a re s e stra n g e i-ros. Assim , os in ú te is b u rocra ta s d a d im in u ta ilh a fictícia d e Tik o e stã o se m p re in d o a con fe rê n cia s e m We llin g ton , se m in á rios e m G e n e b ra e cu rsos d e tre in a m e n to e m Lon d re s, e n q u a n to os con se lh e iros té cn icos e stra n -g e iros e n via d os a Tik o p e la G ra n d e O r-g a n iza çã o In te rn a cion a l se m os-tra m com p le ta m e n te p e rd id os d ia n te d os con h e cim e n tos e su b te rfú g ios n a tivos3. Em “ O u r Se a of Isla n d s” , e le fa la d e

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li-ca s oficia is e a ou tra s ra zõe s se m e lh a n te s, te n d e m a p la n e ja r e a tom a r d e ci-sõe s sob re su a s vid a s d e m a n e ira in d e p e n d e n te , p or ve ze s com re su lta d os su rp re e n d e n te s e d ra m á ticos, q u e p a ssa m d e sp e r ce b id os ou sã o ig n ora d os n a s e sfe ra s su p e riore s d a socie d a d e . Alé m d isso, os e sp e cia lista s a ca d ê m i-cos e con su ltore s e con ôm ii-cos te n d e m a d e sva loriza r ou a in te rp r e ta r e rro-n e a m e rro-n te a s p rá tica s loca is, p orq u e e sta s rro-n ã o se e rro-n q u a d ra m rro-n a s visõe s d om in a n te s sob re a n a tu re za d a socie d a d e e d e se u d e se n volvim e n to. De ssa form a , a s visõe s a ce rca d o Pa cífico tom a d a s d a p e rsp e ctiva d a m a cr oe con o-m ia e d a o-m a crop olítica fre q ü e n te o-m e n te d ife re o-m d e o-m od o n otá ve l d a visã o d a s p e ssoa s com u n s” (1993:2-3).

N ã o é p re ciso a cre d ita r, p orta n to, q u e a con ve rsã o d e H a u ’ofa a u m a p osiçã o d e sa fia d ora d ia n te d o te m a d o in fortú n io in su la r te n h a sid o tã o d ra m á tica q u a n to e le a le g a . Dig o “ con ve rsã o” p orq u e , e m “ O u r Se a of Isla n d s” , H a u ’ofa d e scre ve u m a via g e m q u e fe z, e m 1993, e n tre H ilo e Kon a , n a ilh a p rin cip a l d o a r q u ip é la g o h a va ia n o, com o te n d o sid o se u “ ca m in h o d e Da m a sco” . Su rg in d o d a s p rofu n d e za s in fe rn a is e se d e rra -m a n d o a té o -m a r, a la va d o vu lcã o Kila e u a , sob a é g id e d a d e u sa Pe le , p a re cia lh e u m a m e tá fora m a is a d e q u a d a d o cosm os n a tivo q u e a s fr on te ira s p olítica s e a s “ re se rva s m e n ta is” à s q u a is a s d e te rm in a çõe s ocid e n ta is tin h a m con fin a d o a e xistê n cia d a s socie d a d e s in su la re s h á ta n to te m -p o. N ã o vive m os h oje , e n ã o vive m os n u n ca , d isse e le , a -p rision a d os e m n ossa s “ ilh ota s p e r d id a s e m u m m a r d ista n te ” , com o q u e r p a r e ce r a os e u rop e u s. O m a r é n osso la r, com o o e ra p a ra n ossos a n ce stra is. O m u n -d o -d os a n ce stra is “ e ra tu -d o m e n os a ca n h a -d o. Ele s p e n sa va m e n a rra va m se u s p róp rios fe itos e m te rm os é p icos” (1993:7). Ele s vivia m e m g ra n d e s a ssocia çõe s d e ilh a s lig a d a s p e lo m a r — com o n o a n e l d o k u la, ou n a com u n id a d e r e g ion a l d e Ton g a , Fiji, Uve a , Sa m oa , Rotu m a , Fu tu n a e Tok e la u —; lig ad as, n ote -se b e m , e n ã o se p a ra d a s p e lo m a r.

Ap ós a Se g u n d a G u e rra , con tin u a H a u ’ofa , os p ovos d o Pa cífico con -se g u ira m re tom a r -se u con trole tra d icion a l d o e sp a ço oce â n ico, a in d a q u e p or n ovos m e ios, com n ovos ob je tivos e e m tod a u m a ou tra e sca la . Ele s a g ora e xp a n d e m su a s ilh a s sob form a s n ova s:

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Em con tra ste com a s con ce p çõe s ocid e n ta is sob r e su a p e q u e n e z, os ilh é u s d o Pa cífico e m b a rca ra m e m u m p roce sso in é d ito d e “ a m p lia çã o d o m u n d o” . Em lu g a r d e re cu rsos fixos e in su ficie n te s, e le s g a n h a ra m a ce s-so a os p rod u tos d e u m a d ivisã o d e tra b a lh o in te rn a cion a l, p ois se u s “ la re s a lh u re s” , n a e xp re ssã o d e H a u ’ofa , e stã o u n id os p or la ços d e p a re n te sco e p or u m in te rcâ m b io d e p e ssoa l — se m e sq u e ce r a s com u n ica çõe s p or te le fon e , fa x e cor re io e le trôn ico — à ilh a n a ta l, q u e a in d a é a b a se d e su a id e n tid a d e e se u d e stin o. Ta m p ou co é p re ciso re corre r a o e con om ê s ocid e n ta l e fa la r e m re m ittan ce s [re m e ssa s d e d in h e iro d os m ig ra n te s]. As troca s sã o b ila te ra is, sã o a lg o se m e lh a n te à re cip rocid a d e costu m e ira e n tre p a re n te s, m ostra n d o a sp e ctos d e u m siste m a d e p re sta çõe s tota is q u e a cre sce n ta va lore s socia is d e te rm in a d os à s tra n sa çõe s4. H a u ’ofa n os

fa la d o flu xo d e ob je tos e a lim e n tos q u e se g u e m d e Ton g a p a ra Au ck la n d e H on olu lu , e d o flu xo con trá rio d e d in h e iro e d e ob je tos com o g e la d e i-ra s e m otore s d e p op a . En tre ta n to, a q u ilo q u e a p a re ce com o “ re m e ssa s” e “ p a g a m e n tos” é a p e n a s a d im e n sã o m a te ria l d e u m a circu la çã o d e p e ssoa s, d ire itos e cu id a d os e n tre a s ilh a s n a ta is e os la re s a lh u re s. As fron -te ira s in -te rn a cion a is e a s d istâ n cia s oce â n ica s q u e , n a con ce p çã o ocid e n-ta l d o e sp a ço p la n e tá rio, sig n ifica m d ife re n ça e isola m e n to, sã o a tra ve s-sa d a s p or u m siste m a e sp e cifica m e n te ton g a n ê s d e re la çõe s socia is e cu l-tu ra is. O s ilh é u s d e Ton g a — b e m com o os d e Sa m oa , Tu va la ou d a s ilh a s C ook — vive m e m com u n id a d e s m u ltiloca is d e d im e n sõe s g lob a is. Ele s e xp a n d ira m se u h orizon te e p ote n cia lid a d e s cu ltu ra is d e u m m od o q u e e sca p a tota lm e n te à com p r e e n sã o d a q u e la s te oria s e con om icista s e d e se n volvim e n tista s q u e p ostu la va m su a in sig n ificâ n cia . E a fin a l d e con-ta s, q u e p ovo h a ve ria d e se con ce b e r a si m e sm o com o “ re m oto” ?

(7)

-va m n a u n ive rsid a d e . De n tre os p a re n te s vive n d o n a C a lifórn ia , p or su a ve z, h a via o p r op rie tá rio e op e ra d or d e u m p osto d e g a solin a e d ois e m p re g a d os d o a e r op orto d e Sã o Fra n cisco; e ste ra m o tin h a d u a s p r o-p rie d a d e s r e sid e n cia is. Em Uta h , trê s m e m b r os d a o-p a re n te la e sta va m e m p re g a d os com o tra b a lh a d ore s n ã o q u a lifica d os; u m ou tro e ra p rofe sor. N a N ova Ze lâ n d ia , h a via u m p a re n te tra b a lh a n d o n o se tor d e tra n s-p orte s, d ois e sta va m n a e scola se cu n d á ria e u m n a u n ive rsid a d e . O ra m o n e oze la n d ê s p ossu ía u m a p rop rie d a d e p a ra fin s d e a lu g u e l e ou tra p a ra fin s re sid e n cia is.

C on ta s fe ita s, M a rcu s e sp e cu lou q u e , n o in ício d os a n os 80, ce rca d e 30 m il ton g a n e se s e sta ria m m ora n d o p e rm a n e n te m e n te n o e xte rior, p a ra u m a p op u la çã o d om é stica d e 100 m il. A m a ior con ce n tra çã o d e ton g a n e -se s a lé m -m a r e sta va n a N ova Ze lâ n d ia (e sp e cia lm e n te e m Au ck la n d ), Au strá lia , Fiji e Esta d os Un id os (sob r e tu d o n o H a va í, C a lifórn ia e Uta h ). M a s a s in form a çõe s sob re a d iá sp ora ton g a n e sa n ã o sã o tã o a ce ssíve is q u a n to os m a te ria is r e fe re n te s a se u s vizin h os sa m oa n os; a ssim , se ria in te re ssa n te tom a r e ste ú ltim o ca so p a ra fin s d e ilu stra çã o e d e com p a ra -çã o in te rcu ltu ra l.

Em se u livr o, p e rtin e n te m e n te in titu la d o Th e S am oan s: A G lob al Fam ily (1989), Su tte r ofe re ce -n os u m re la to fa scin a n te sob re a d iá sp ora sa m oa n a , a tra vé s d e fotog ra fia s e te xtos, in clu in d o b re ve s a u tob iog ra fia s d e vá ria s d a s p e ssoa s a p re se n ta d a s. N ote -se q u e , e m m e a d os d a d é ca d a d e 80, a p roxim a d a m e n te u m te rço d a p op u la çã o d e Sa m oa O cid e n ta l e sta va vive n d o n o u ltra m a r; e n q u a n to m a is d e 60% d a p op u la çã o d a Sa m oa a m e rica n a h a via e m ig ra d o p a ra o H a va í e os Esta d os Un id os con -tin e n ta l. O s sa m oa n os ocid e n ta is e sta va m con ce n tra d os e m Au ck la n d e We llin g ton , H on olu lu , Los An g e le s, Sa n Die g o e n a re g iã o d a b a ía d e Sã o Fra n cisco; m a s vivia m ta m b é m e m cid a d e s a m e rica n a s m e n or e s, com o O xn a rd , n a C a lifórn ia , e e sta va m p re se n te s e m cid a d e s tã o a le ste com o N ova Iorq u e e C h a p e l H ill. N o tota l, h a via sa m oa n os e m a p r oxim a d a -m e n te vin te e sta d os a -m e rica n os e trin ta n a çõe s e sp a lh a d a s p e lo -m u n d o.

Em u m a d a s a u tob iog ra fia s d e ssa d iá sp ora re u n id a s p or Su tte r, u m d e te tive e m We llin g ton e scre ve : “ con sid e ro-m e u m sa m oa n o le g ítim o e te n h o m u ito org u lh o d isso [...]. C on sig o visita r m in h a ca sa e m Sa m oa a ca d a d ois a n os. N o m om e n to, e stou d a n d o cu rsos sob re a lín g u a e a cu l-tu ra sa m oa n a n o Roya l N e w Ze a la n d Police C olle g e ” (M isiote le in Su tte r 1989:167)5.

(8)

fa m ília (Alo’ia i in Su tte r 1989:168). Kon ish ik i, p rim e ir o e stra n g e ir o a g a n h a r o títu lo d e ca m p e ã o d e su m ô n o J a p ã o, n a rra a s d ificu ld a d e s q u e te ve com a m íd ia p a ra ve r re con h e cid a su a id e n tid a d e : “ d u ra n te u m b om te m p o, in sistira m e m m e ch a m a r d e h a va ia n o. M a s isso fin a lm e n te e stá m u d a n d o. Ag ora in form a m q u e sou u m sa m oa n o n a scid o n o H a va í, o q u e m e d á m u ito org u lh o” (Alo’ia i in Su tte r 1989:173).

Dive rsos jog a d ore s p rofission a is d e fu te b ol a m e rica n o a p a re ce m n o te xto d e Su tte r, com o, p or e xe m p lo, M osi Ta ta p u , d os N e w En g la n d Pa triots, q u e se d e cla ra “ a b e n çoa d o” p or se r sa m oa n o, e q u e d e d icou su a p a rticip a çã o n o S u p e r Bow l d e 1985 a se u sog ro (Su tte r 1989:194). A sa g a d os sa m oa n os con ta d a p or Su tte r in clu i a in d a : u m p a stor d e ove lh a s e m In ve rca ll (N ova Ze lâ n d ia ); u m su b oficia l d a M a rin h a a m e rica n a se rvin d o n a s Filip in a s; u m p a stor p rote sta n te e m Zâ m b ia ; u m a fre ira e m Rom a ; u m fu n cion á rio d a UN ESC O e m Pa ris, a q u e m De u s con ce d e u “ a g ra ça d e te r n a scid o sa m oa n o, e m corp o, m e n te e a lm a ” ; u m m e stre -ce rve je iro e m M u n iq u e ; u m e n g e n h e iro n a N oru e g a ; u m clé rig o n a J a m a ica ; u m a g e n te d o F.B.I. n a Flórid a ; u m op e rá rio e sp e cia liza d o n a con stru çã o d e a rra -n h a -cé u s e m Atla -n ta ; u m d ire tor d e a tore s e m H ollyw ood ; u m b om b e iro n o C olora d o, q u e a cr e d ita q u e “ os sa m oa n os sã o ca p a ze s d e vive r e m q u a lq u e r socie d a d e e d e con trib u ir p a ra e la ” , e q u e te m “ org u lh o d e se r q u e m sou : u m sa m oa n o” ; e u m e stu d a n te d e d ou tora d o e m te olog ia e m M on tp e llie r, n a Fra n ça , q u e n ã o e sq u e ce o aig a (g ru p o b ila te ra l d e p a re n -te sco): “ e sp e ro q u e o fa to d e e u e scre ve r n a p rim e ira p e ssoa n ã o ve n h a a ob scu re ce r o a p oio cole tivo q u e re ce b i d e m in h a fa m ília , m in h a e sp osa e su a fa m ília , d os a m ig os e d a s p e ssoa s d a a ld e ia . O s ca m in h os d e m in h a vid a fora m tra ça d os sob re u m a a m p la b a se d e a p oio com u n itá rio: Sa m oa ” (Su tte r 1989:181).

(9)

J a n e s d e scre ve o aig a ou re d e d e fa m ília e xte n sa d e Sã o Fra n cisco com o tom a n d o u m a form a fu n cion a l p a rticu la r, a d a p ta d a à s e xig ê n cia s d a d iá s-p ora . O aig a d e u ltra m a r ca ra cte riza -se s-p e la solid a rie d a d e d os s-p a re n te s p róxim os d e m e sm a g e ra çã o — e m con tra ste com a s h ie ra rq u ia s in te rg e -ra cion a is d a te r -ra n a ta l — e p or u m a in te -ra çã o for m a l com os p a re n te s d ista n te s m a is fre q ü e n te q u e a costu m e ira e m Sa m oa . A a ld e ia sa m oa n a ta m b é m se re p rod u z d e m od o a d a p ta tivo, a sa b e r, com o con g re g a çã o d e u m a ig re ja d e u ltra m a r. De fa to, com o ob se rvou M a cp h e rson a ce rca d e com u n id a d e s sa m oa n a s sim ila re s n a N ova Ze lâ n d ia : “ a a lg u é m q u e h a via tra b a lh a d o e m Sa m oa , p a re cia q u e os sa m oa n os h a via m re cria d o Sa m oa n a N ova Ze lâ n d ia , e q u e tu d o a con te cia d e m od o m u ito p a re cid o com o q u e a con te cia e m Sa m oa ” (M a cp h e rson 1978; cf. Kotch e k 1978).

(10)

g ra d u a lm e n te se a filia m a ou tra s lin h a g e n s e m form a çã o” (G ifford 1929:30). Ep e li H a u ’ofa , se m d ú vid a , e sta va ce rto a o a firm a r q u e os p olin é sios tin h a m su a p róp ria e stru tu ra d e a m p lia çã o d o m u n d o d e sd e m u ito a n te s d e os e u rop e u s te n ta r e m e xilá -los e m p e q u e n a s ilh a s p e r d id a s e m u m m a r d ista n te .

Alé m d isso, d e sd e o sé cu lo XIX, cu ltu ra s tra n sloca is sim ila re s à s d e Ton g a e d e Sa m oa vê m se d e se n volve n d o p or tod o o Te rce iro M u n d o, e n tre p ovos su p osta m e n te e n ca rce ra d os p e lo im p e ria lism o e se m n e n h u -m a e sp e ra n ça d e “ d e se n volvi-m e n to”6. Tom a n d o fre q ü e n te m e n te a form a

d e p ostos a va n ça d os d e b a se s ru ra is “ trib a is” , ta is form a çõe s é tn icou rb a -n a s si-n té tica s p a ssa ra m d e sp e rce b id a s com o ta is, d u ra -n te m u ito te m p o, p e los cie n tista s socia is ocid e n ta is. O u m e lh or, a o e stu d a r os p roce ssos d e u rb a n iza çã o, m ig ra çã o, re cru ta m e n to d e m ã o-d e -ob ra ou form a çã o é tn i-ca , os p e sq u isa d ore s ocid e n ta is p a re cia m re p e tir a p a rá b ola d os ce g os e d o e le fa n te , com ca d a u m sa tisfa ze n d o-se e m d e scr e ve r a tota lid a d e tra n sloca l e m te r m os d e a p e n a s e ste ou a q u e le d e se u s a sp e ctos. E n o e n ta n to, d e sd e os a n os 50, e ssa s com u n id a d e s e sp a cia lm e n te d e scon tí-n u a s vití-n h a m su rg ití-n d o p or tod a p a rte : e m J a va , Su m a tra , Ka lim a tí-n ta tí-n , tí-n a s Filip in a s, n a Ta ilâ n d ia e e m ou tra s p a rte s d o Su d e ste Asiá tico; e m ilh a s e sp a lh a d a s p e lo Pa cífico; n a s Am é rica s C e n tra l e d o Su l; n o C a rib e ; n a África O rie n ta l, O cid e n ta l, C e n tra l e M e rid ion a l; n o Eg ito, n a J ord â n ia , n a Tu rq u ia , e a té m e sm o e m Portu g a l7.

O s a n tolh os p ostos n a im a g in a çã o a n trop ológ ica p e la h istória e u ro-p é ia fora m u m a d a s ro-p rin ciro-p a is ra zõe s ro-p e la s q u a is e ssa n ova e stru tu ra cu l-tu ra l d a m od e r n id a d e p e r m a n e ce u p or ta n to te m p o con ce il-tu a lm e n te in d e te rm in a d a . O p re ssu p osto g e ra l d a s ciê n cia s socia is ocid e n ta is e ra o d e q u e a u rb a n iza çã o n e ce ssa ria m e n te d á fim à “ id iotia d a vid a ru ra l” , com o te ria ocorrid o n o in ício d a Eu rop a m od e rn a . Pe la p róp ria n a tu re za d a cid a d e e n q u a n to org a n ism o socia l com p le xo, a s re la çõe s e n tre a s p e s-soa s d e ve ria m se torn a r im p e ss-soa is, u tilitá ria s, se cu la riza d a s, in d ivid u a li-za d a s, e va ria m e n te d e se n ca n ta d a s e d e strib a lili-za d a s. Assim e ra o p r og re sso; e ssa e ra a te n d ê n cia d o fa m oso “ con tin u u m folk u rb a n o” d e Re d -fie ld . O ca m p o e a cid a d e , e stá g ios re sp e ctiva m e n te in icia l e fin a l d e u m a m u d a n ça q u a lita tiva , re p re se n ta va m m od os d e vid a e stru tu ra lm e n te d is-tin tos e op ostos.

(11)

-re n te s d a q u ilo q u e h a via m sid o a n te s” —, m ostra n d o a s con tin u id a d e s d e id e n tid a d e , costu m e e p a re n te sco e n tre os Tob a Ba ta k d a s a ld e ia s d a s Te rra s Alta s e se u s p a re n te s u rb a n os e m M e d a n (Su m a tra ). A d e scriçã o fe ita p or Br u n e r d a u n id a d e b a ta k le m b ra o q u e já vim os a ce r ca d os sa m oa n os; n a ve rd a d e , e ssa d e scriçã o e sta va d e stin a d a a se re p e tir e m tod o o m u n d o: “ e xa m in a d a s d e u m p on to d e vista e stru tu ra l, a s com u n id a id e s tob a b a ta k n a s a lid e ia s e n a s ciid a id e s sã o p a rte s id e u m ú n ico siste -m a socia l e ce ri-m on ia l” (Bru n e r 1961:515; ve r, ta -m b é -m , Bru n e r 1959)8.

M e sm o a ssim , o d og m a d a a n títe se h istórica e n tre a ld e ia e cid a d e d ifi-cu ltou u m a m u d a n ça d e G e stalt q u e p e rm itisse p e rce b e r a p ossib ilid a d e d e e xistê n cia d e u m a p op u la çã o tra n sloca l ca p a z d e h a b ita r a m b os os m u n d os, m a n te n d o-os com o p a rte s in te rd e p e n d e n te s d e u m a tota lid a d e sociocu ltu ra l.

A a n trop olog ia socia l b ritâ n ica n a África p e rm a n e ce u p or m u ito te m -p o ca tiva d o m e sm o a -p riori d u a lista . Em 1960, e m u m in flu e n te a r tig o q u e re su m ia vin te a n os d e p e sq u isa d o Rh od e s-Livin g ston e In stitu te , M a x G lu ck m a n fa zia d a d istin çã o e n tre “ g e n te d a cid a d e ” [tow n sm e n ] e “ g e n -te d a trib o” [trib e sm e n ] u m a q u e stã o d e p rin cíp io -te órico. “ Um a frica n o d a cid a d e é u m cita d in o, u m m in e iro a frica n o é u m m in e iro; só se cu n d a -ria m e n te e le é u m m e m b r o d e u m a trib o” (1960:57). G lu ck m a n e se u s cole g a s e sta va m se m p re p ron tos a con te sta r o p re con ce ito colon ia lista se g u n d o o q u a l os cita d in os a frica n os e ra m n e ce ssa ria m e n te “ d e strib a li-za d os” (cf. M itch e ll 1956; Ep ste in 1958)9. M a s a s “ cla ssifica çõe s” trib a is

ob se rva d a s n a s cid a d e s e ra m d istin ta s, e m su a fu n çã o e im p lica çã o com p orta m e n ta l, d a s d o trib a lism o ru ra l — d istin çã o q u e re fle tia d ois siste -m a s socia is d ife r e n te s. “ O a frica n o n a á r e a ru ra l e n a cid a d e ” , d isse G lu ck m a n , “ sã o d ois h om e n s d ife re n te s” (1960:69).

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Be m b a . En tre ta n to, p od e -se a va lia r o p e so con ce itu a l con ce d id o a ta is ob se rva çõe s q u a n d o a s ve m os re le g a d a s a u m a n ota d e rod a p é d o e n sa io crítico d e C lyd e M itch e ll (1967) sob re a s “ Th e ore tica l O rie n ta tion s in Afri-ca n Urb a n Stu d ie s” . M itch e ll d iz: “ Estou a q u i e xclu in d o os e stu d os sob re m ig ra çã o q u e vê e m a cid a d e e o ca m p o com o p a rte s in te g ra is d e u m m e sm o siste sm a socia l e sm q u e h osm e n s d a cid a d e e h osm e n s d a trib o e stã o lig a -d os p or re -d e s -d e re la çõe s e sta b e le ci-d a s n a ci-d a -d e , n a s á r e a s ru ra is, e e n tre a s d u a s” (1967:161).

En tre ta n to, com o se os e n con tra va ca d a ve z m a is fr e q ü e n te m e n te , os siste m a s tra n sloca is log o se torn a ria m d ifíce is d e ig n ora r10. A e scola

d o Rh od e s-Livin g ston e foi ob je to d e crítica s e xp lícita s — a n á log a s à s ob je çõe s e m p írica s a n te riorm e n te fe ita s a o con ce ito d e con tin u u m folk -u rb a n o — p or se -u d -u a lism o e n tre h om e n s cita d in os e h om e n s trib a is (Ross e We isn e r 1977; H a rt 1971; M a ye r 1961; 1962)11. En tre ou tros p rob le m a s,

a a n títe se e n tr e cita d in os e trib a is n ã o e ra n or m a lm e n te r e con h e cid a p e la s p e ssoa s e m ca u sa — se q u e r p e los q u e já re sid ia m h á m u ito te m p o n a cid a d e , e q u e e ra m m e m b ros d e sin d ica tos tra b a lh ista s ou ou tra s a sso-cia çõe s u rb a n a s; e le s n ã o a b a n d on a va m su a s a filia çõe s trib a is ou su a s re la çõe s com a b a se ru ra l. Assim , u m e stu d o a p ós o ou tro (e n ã o a p e n a s n a África ) com e ça ra m a tra ta r d a u n iã o d os h a b ita n te s d a s a ld e ia s com se u s p a re n te s d a cid a d e e m “ u m a socie d a d e b iloca l” , “ u m ca m p o socia l com u m ” , “ u m siste m a socia l e e con ôm ico com u m ” , “ u m a a ld e ia socia l e sp a lh a d a p or m ilh a re s d e q u ilôm e tros” , “ u m a re d e com u n itá ria n ã o-te r-ritoria l” , u m a “ e str u tu ra socia l q u e a b a r ca os p ólos d e e m ig ra çã o e d e im ig ra çã o” , ou a lg u m a coisa d o g ê n e ro (Rya n 1993:326; Ross e We isn e r 1977:361; Tra g e r 1988:194; Uzze ll 1979:343; Wh ite ford 1979:127; Ba rtle 1981:105)12. De fa to, vá rios p e sq u isa d or e s p e rce b e ra m q u e os se tor e s

m e trop olita n o e in te riora n o d e sse siste m a u n ifica d o m ostra va m u m a te n -d ê n cia a se torn a r ca -d a ve z m a is se m e lh a n te s e n tre si, e isso n ã o a p e n a s p orq u e o flu xo d e id é ia s e d e m e rca d oria s p rove n ie n te s d a cid a d e e sta ria tra n sform a n d o o ca m p o.

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d os p a re n te s —, “ e stim u la va m a tiva m e n te os va lore s tra d icion a is d e su a socie d a d e ru ra l” (1960:278)13. Pa ra os Ton g a a frica n os, com o p a ra os p

oli-n é sios d e Tooli-n g a , o p a re oli-n te sco é , fre q ü e oli-n te m e oli-n te , a oli-n te s u m b e oli-n e ficiá rio q u e u m a vítim a d a m od e rn iza çã o — e m con tra ste , m a is u m a ve z, com a e xp e riê n cia d os e u rop e u s e com su a ciê n cia socia l n orm a l. A riq u e za d a cid a d e su b sid ia a s re la çõe s n a a ld e ia , a o m e sm o te m p o q u e os p a re n te s n a cid a d e org a n iza m a e m ig ra çã o d a a ld e ia . Em p e sq u isa s p ion e ira s q u e , re a liza d a s n os a n os 60, a n te cip a va m m u ito d o q u e se ve rifica ria m a is ta r-d e , Ke ith H a r t m ostra va q u e a in te g ra çã o r-d os Fra fra (Ta lle n si e p ovos con g ê n e re s d e G a n a ) ru ra is e u rb a n os se fe z e m g ra n d e p a rte p or m e io d e se u siste m a clá ssico d e lin h a g e n s. H a rt con clu ía d a í q u e e ra n e ce ssá -ria u m a n ova p e rsp e ctiva a n trop ológ ica , ca p a z d e tra n sce n d e r a s op osi-çõe s corre la tiva s e n tre o m od e rn o e o tra d icion a l, o h om e m cita d in o e o h om e m trib a l, o u rb a n o e o ru ra l. Em troca , e la p rop u n h a a id é ia d e u m a “ e xp a n sã o d os h orizon te s d a com u n id a d e ” :

“ Essa e xp a n sã o d os h orizon te s d a com u n id a d e , e m te rm os d a d istrib u içã o física d os in d ivíd u os q u e se con ce b e m com o m e m b ros d e u m a g re g a d o socia lm e n te d e fin id o, ta l com o u m a lin h a g e m , fa z com q u e n ã o m a is se ja tã o sim p le s e sta b e le ce r u m a d icotom ia , p e lo m e n os e sp a cia l, e n tre os a sp e ctos tra d icion a l e m od e rn o, ou m e sm o ru ra l e u rb a n o, d a vid a a tu a l d os Fra fra . O m u n d o d o im ig ra n te e o d a te r ra n a ta l n ã o sã o e n tid a d e s se p a rá ve is [...]. A d ificu ld a d e d e se d istin g u ir o a n tig o d o n ovo n a socie d a d e Fra fra con te m p o-râ n e a , se ja n o con te xto n a cion a l d a G a n a m od e rn a , se ja n o con te xto loca l d a á re a trib a l d e orig e m , é ilu stra d a p e la p a rticip a çã o sim u ltâ n e a d a m a ior p a r-te d os Fra fra e m a m b a s a s cu ltu ra s, p e la troca m ú tu a d e p e ssoa l e n tre a a ld e ia n a ta l e a cid a d e su lista , p e la u rb a n iza çã o in te rn a d o p róp rio d istrito fra fra , p e lo ca rá te r g e n e ra liza d o d a e con om ia d e m e r ca d o, e e sp e cia lm e n te p e la fa cilid a d e d e com u n ica çã o e n tre tod a s a s p a rte s d o p a ís. C om a d im i-n u içã o d a s d e scoi-n tii-n u id a d e s e i-n tre a vid a i-n a cid a d e e a vid a i-n a a ld e ia , q u e se n tid o p od e m os a trib u ir a tip os com o ‘h om e n s d a cid a d e ’ e ‘h om e n s d o ca m p o’?” (1971:26)14.

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a p a rtir d e ssa id e n tifica çã o q u e se a ssocia m tra n sitiva m e n te e n tre si n o e stra n g e iro. Esse s h a b ita n te s d a cid a d e e d o m u n d o e xte rior p e rm a n e ce m lig a d os a se u s p a re n te s n a te rra n a ta l, e sp e cia lm e n te p or e n te n d e -re m q u e se u p róp rio fu tu r o d e p e n d e d os d ir e itos q u e m a n tê m e m se u lu g a r d e orig e m . Assim , o flu xo d e b e n s m a te ria is fa vore ce e m g e ra l os q u e fica ra m e m ca sa : e ste s se b e n e ficia m d os g a n h os ob tid os e d a s m e r-ca d oria s a d q u irid a s p or se u s p a re n te s n a e con om ia com e rcia l e xte rn a . N a s p a la vra s d e u m p e sq u isa d or, a a ld e ia con se g u e re ve rte r “ a fu n çã o p a ra sita tra d icion a lm e n te a trib u íd a à s cid a d e s” (H u g o 1978:264). Sob e sse a sp e cto, p orta n to, a ord e m in d íg e n a e n g lob a a m od e rn a .

En fa tizo q u e a s socie d a d e s tra n scu ltu ra is tê m se u foco n a te rra n a ta l, e q u e su a form a d e vid a p ossu i u m ca rá te r e sp a cia lm e n te ce n tra d o, p a ra m e con tra p or a u m a te n d ê n cia a se fa la r e m “ d e ste rritoria liza çã o” e e m u m a lig a çã o “ m e ra m e n te sim b ólica ” ou “ im a g in á ria ” d os p ovos d a d iá s-p ora com se u s lu g a r e s d e orig e m . A con d içã o orig in ária d a te rra n a ta l ta m b é m é p e r tin e n te : a e str u tu ra te m d im e n sõe s te m p ora is b e m com o e sp a cia is. Em con tra ste com e ssa id é ia , vá rios a n tr op ólog os, n os ú ltim os a n os, im p re ssion a d os p e lo m od o com o e ssa s com u n id a d e s m u ltiloca is sã o ca p a ze s d e tra n sce n d e r a te r ritoria lid a d e , m u ita s ve ze s u ltra p a ssa n d o fron te ira s n a cion a is, a rg u m e n ta ra m q u e e la s se ria m m e lh or com p re e n d i-d a s com o ori-d e n s n ã o-e sp a cia is, e q u e é n isso p re cisa m e n te q u e re sii-d iria su a n ovid a d e . Rog e r Rou se (1989) a va n çou , a ssim , a in te r e ssa n te su g e s-tã o d e q u e a com u n id a d e , n o ca so d os im ig ra n te s m e xica n os n os Esta d os Un id os, n ã o a p e n a s se e xp rim e , m a s se con stitu i n a p róp ria circu la çã o — n a q u ilo q u e e le ch a m a d e u m “ cir cu ito d e m ig ra çã o tra n sn a cion a l” . O u tros, com o Arju n Ap p a d u ra i, visa n d o à re a lid a d e d o a m p lo m ovim e n -to d a s p op u la çõe s, d e sva loriza ra m a p e rm a n ê n cia d a id e n tifica çã o com a te rra n a ta l. Esta , e scre ve Ap p a d u ra i, “ é e m p a rte in ve n ta d a , e xiste n te a p e n a s n a im a g in a çã o d os g ru p os d e ste rritoria liza d os, e à s ve ze s se tor-n a tã o fa tor-n tá stica e sim p lifica d a q u e ch e g a a d e se tor-n ca d e a r tor-n ovos cotor-n flitos é tn icos” (1991:193). Ta l ob se rva çã o é p e lo m e n os sa lu ta r, a o in ve rte r a s costu m e ira s liçõe s d e m ora l d o ob je tivism o, p or su g e rir q u e u m d a d o fa to socia l ou id e n tid a d e p od e m se r re a is o b a sta n te p a ra q u e a s p e ssoa s m or-ra m p or su a ca u sa (cf. Ash m ore , Ed w a rd s e Potte r 1994)15. O u tro e xe m

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“ A iron ia d os te m p os q u e corre m [...] é q u e , con form e os lu g a re s e loca lid a -d e s re a is vã o se torn a n -d o ca -d a ve z m a is va g os e in -d e te rm in a -d os, a s i-d é ia s d e lu g a re s cu ltu ra l e e tn ica m e n te d istin tos se torn a m ta lve z m a is con sp ícu a s [...]. A ‘te rra n a ta l’, d e sse m od o, p e rm a n e ce com o u m d os m a is p od e rosos sím b olos u n ifica d ore s p a ra p e ssoa s m óve is e d e sloca d a s [...]. Pre cisa m os a b rir m ã o d a s id é ia s in g ê n u a s d a com u n id a d e e n te n d id a com o u m a e n tid a -d e lite ra l, m a s con tin u a r se n síve is à p rofu n -d a ‘b ifoca li-d a -d e ’ q u e ca ra cte riza a s vid a s vivid a s loca lm e n te e m u m m u n d o g lob a lm e n te in te rcon e cta d o” (1992:1-17).

Pod e -se ve r q u e o re con h e cim e n to d a socie d a d e tra n scu ltu ra l cu s-tou a lg u m e sforço à im a g in a çã o a n trop ológ ica . Se m e n tra r n a m e ta física d a s e n tid a d e s e d a s e sp a cia lid a d e s, d e ve -se n ota r q u e a com u n id a d e a m p lia d a ta m b é m p ossu i a q u a lid a d e n e ce ssá ria d a te m p ora lid a d e , q u e é d e on d e e xtra i su a con sistê n cia cu ltu ra l. É p re cisa m e n te e n q u a n to lu g a r d e orig e m q u e a te rra n a ta l p e rm a n e ce com o foco d e u m a m p lo e sp e ctro d e re la çõe s cu ltu ra is. Fon te d e va lore s e id e n tid a d e s h e rd a d a s, a com u -n id a d e -n a ta l tra -n sce -n d e ou tra s fro-n te ira s cu ltu ra is, co-n form a -n d o a s a çõe s e a titu d e s d a p a rce la d e se u p ovo q u e vive e m con te xtos u rb a n os e / ou e stra n g e iros. C om e n ta n d o u m e stu d o d os Sia n e e m Por t M ore sb y (N ova G u in é ), Rich a r d e M a ry Sa lisb u r y ob se rva ra m q u e , con tra ria m e n te à s id é ia s corre n te s sob re a “ u rb a n iza çã o” d e im ig ra n te s, m u itos d os Sia n e , p rove n ie n te s d a s Te rra s Alta s, a d a p ta ra m -se com su ce sso à cid a d e se m p e rd e r o ca m p o d e vista : “ se u s ob je tivos p e r m a n e ce m os m e sm os d e a n te s. Q u a n d o n a cid a d e , su a s e stra té g ia s d e e scolh a e n tr e com p orta -m e n tos a lte rn a tivos con tin u a -m a te r co-m o -m e ta o -m á xi-m o d e su ce sso p os-síve l n o con te xto ru ra l, e sã o con d icion a d a s p e la s op çõe s d isp on íve is n a s a ld e ia s” (1972:59). As p e ssoa s, com o d e scob rira m os Sa lisb u ry, p e rce b e m o va lor d a vid a n a a ld e ia , e q u e re m re torn a r p a ra lá , “ le va n d o con sig o a s va n ta g e n s d a cid a d e ” .

Essa s “ va n ta g e n s d a cid a d e ” e xp rim e m a a ssim e tria com p le m e n ta r p re se n te n a socie d a d e tra n scu ltu ra l, im p lica n d o u m a ce rta su p e riorid a d e d o se tor m od e rn o e e xte rn o. Alé m d a s virtu d e s m a te ria is d os b e n s e stra n -g e iros, os ob je tos e e xp e riê n cia s d o m u n d o e xte rior sã o in corp ora d os n a s com u n id a d e s n a ta is com o p od e r e s cu ltu ra is. Ele s e xe r ce m in flu ê n cia p ositiva sob re a s re la çõe s loca is, d e se m p e n h a n d o p a p é is críticos p a ra a re p rod u çã o d a s socie d a d e s n a ta is16. As m ig ra çõe s e stra n g e ira s a r ticu

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in siste se r e ssa a corre ta com p re e n sã o d e ta is tra n sa çõe s). Pois, se os b e n s d e fora e voca m re cip roca m e n te d ire itos e a te n çõe s e m ca sa , p a ra a lé m d e q u a lq u e r b e m ou h osp ita lid a d e in d íg e n a ofe re cid o e m re torn o, é p orq u e a s con trib u içõe s d os e m ig ra n te s tê m e fe itos p od e rosos sob re a s re la -çõe s loca is. Fu n -çõe s-ch a ve tra d icion a is, ta is com o tr oca s m a trim on ia is e m ortu á ria s, fe sta s e ritu a is d e vá rios tip os, tra n sm issõe s d e d e sce n d ê n cia e d e títu los sã o su b sid ia d a s p e los re n d im e n tos ob tid os n o se tor com e rcia l e xte rn o. Assim , o ce n tro in d íg e n a torn a -se d e p e n d e n te , p a ra su a re p ro-d u çã o cu ltu ra l — ou , ta lve z, p a ra u m ce rto ro-d e v e lop -m an —, ro-d a s p e ssoa s q u e m ora m n o e xte rior17.

Va lore s d e p re stíg io e p od e r re sid e m n a e sfe ra e stra n g e ira : e m se u s se re s, se u s ob je tos e n a s coisa s q u e lá se fa ze m . O d e se n volvim e n to d a s socie d a d e s tra n scu ltu ra is, p orta n to, p a re ce te r u m a re la çã o sig n ifica tiva com o fa to d e q u e m u itos p ovos con ce d ia m ta is vir tu d e s à s e sfe ra s e m od os d e e xistê n cia e stra n g e iros m u ito a n te s d o colon ia lism o a p re se n tá -los a ve rsõe s m a is d ra con ia n a s. Vá rios e tn óg ra fos m od e rn os, tra b a lh a n d o e m lu g a re s tã o d ista n te s e n tre si com o o M é xico, a Am a zôn ia , a In d on é -sia , a N ova G u in é e Va n u a tu , fize ra m in te re ssa n te s a ssocia çõe s e n tre a s m ig ra çõe s circu la re s a n tig a s e m od e rn a s. Tra d icion a lm e n te , a s e xp e d i-çõe s p od e m te r sid o ritos d e in icia çã o — ob se r va çã o fe ita e m 1947 p or Sch a p e ra , a p rop ósito d a África d o Su l (M a cp h e rson 1985:242)18. Re

torn a torn d o d e p roe za s q u e tra torn sce torn d ia m a s frotorn te ira s cu ltu ra is e com u torn itá -ria s, os h om e n s tra zia m tr ofé u s d e g u e r ra ou d e ca ça : b e n s g a n h os e m p ilh a g e n s ou n a s troca s, visõe s, ca n çõe s, d a n ça s, a m u le tos, cu ra s e cu l-tos, ob je tos fa m ilia re s ou in sólitos q u e p u d e sse m se r con su m id os, sa crifi-ca d os, trocrifi-ca d os ou va ria m e n te d istrib u íd os p a ra re n ova r e d e se n volve r a s form a s in d íg e n a s d e vid a . C e r ta s d isp osiçõe s p a ra o e n g lob a m e n to cu ltu ra l q u e h oje sã o con h e cid a s com o “ im p e ria lism o” n ã o n a sce ra m on te m ; a s socie d a d e s n ã o-ocid e n ta is ta m p ou co e ra m tã o lim ita d a s e a u to-con tid a s com o o p ós-m od e rn ism o su p õe q u e o m od e rn ism o su p õe .

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p a ra te rra s e stra n g e ira s e m b u sca d e e d u ca çã o, e m p r e g o e a ve n tu ra se rã o, d e m a n e ira a lg o se m e lh a n te à s od issé ia s d os a n tig os, fon te s d e in ova çã o e tra n sfor m a çã o d a e xistê n cia in d íg e n a19. Assim ta m b é m , n a

In d on é sia , o costu m e d o m e ran tu con tin u a com a im p ortâ n cia d e se m p re . O s jove n s a in d a e m p re e n d e m lon g a s via g e n s, com o ob je tivo d e p a ssa r p e la s e xp e riê n cia s q u e os torn a rã o m e re ce d ore s d o statu s d e a d u lto (Pro-ve n ch e r 1976). Em O a xa ca (M é xico), p or su a (Pro-ve z, a m ig ra çã o p a ra os Esta d os Un id os e o re torn o à te rra d e orig e m re e n ce n a m ce rta s “ h istória s p op u la re s su b ve rsiva s” , cu jos h e róis “ fre q ü e n te m e n te e ra m la d rõe s d e g a d o, con tra b a n d ista s e a m a n te s a rd ilosos, tod os cé le b re s p or su a a stú -cia e h a b ilid a d e e m tra n sg re d ir os lim ite s e sta b e le cid os p e los p od e rosos” (Rou se 1989:124).

E a ssim n ossa p róp ria d iscu ssã o fe ch a o círcu lo, re torn a n d o a os im i-g ra n te s d e Ton i-g a d e scritos p or Ep e li H a u ’ofa , q u e , com o se u s d e u se s e h e róis a n ce stra is, vê m e vã o a tra vé s d e se u m a r d e ilh a s, cru za n d o ob sti-n a d a m e sti-n te a s frosti-n te ira s isti-n te rsti-n a ciosti-n a is e a s b a rre ira s id e ológ ica s a se u “ d e se n volvim e n to” e rg u id a s p e los p od e re s g lob a is con stitu íd os.

M a s a socie d a d e tra n scu ltu ra l m od e rn a ta m b é m g e ra su a s p róp ria s força s id e ológ ica s, se u s p róp rios folclore s d o in te rior e d o e xte rior, com u m a ca p a cid a d e se m e lh a n te d e d istrib u ir p e ssoa s e b e n s e n tr e e sse s p ólos. Ta n to a cid a d e com o o ca m p o con h e ce m su a s con tra d içõe s — a s te n sõe s socia is e xa ce rb a d a s p or su a in te r d e p e n d ê n cia — e , e m con se -q ü ê n cia d isso, a trib u e m va lore s p ositivos com p le m e n ta re s a o m od o d e vid a a lte rn a tivo. A re p rod u çã o d a socie d a d e d om é stica a tra vé s d a e m i-g ra çã o fre q ü e n te m e n te se fa z a com p a n h a r d e te n sõe s in te ri-g e ra cion a is. O s jove n s d e ixa m a ca sa e sa e m p a ra o m u n d o. Alé m d os a tra tivos d a m od e rn id a d e , a cid a d e é p e rce b id a n o ca m p o com o u m lu g a r d e lib e rd a -d e — e m e sp e cia l, lib e r-d a -d e -d ia n te -d os m a is ve lh os e -d a s lim ita çõe s -d o costu m e . E con tu d o, os e fe itos sociocu ltu ra is ce n trífu g os p r ova ve lm e n te se rã o re fre a d os p e la e xp e riê n cia u rb a n a : vítim a d a d iscrim in a çã o, d a p ro-le ta riza çã o e d a p a u p e riza çã o, u m a p a rce la sig n ifica tiva d o com p on e n te d e orig e m “ trib a l” d o se tor m od e rn o d e se n volve u m a visã o n ostá lg ica d e se u s lu g a re s a n ce stra is. Vista d a p e rsp e ctiva d a m e tróp ole e stra n g e ira , a te rra n a ta l é id e a liza d a com o o lu g a r d e u m e stilo d e vid a “ tra d icion a l” , on d e tod os com p a rtilh a m se u s b e n s, on d e n in g u é m m orre d e fom e , on d e n u n ca se p re cisa d e d in h e iro. Prod u tos id e ológ icos d o siste m a in te rcu ltu -ra l, a s visõe s re sp e ctiva s q u e os se tore s m od e rn o e t-ra d icion a l tê m u m d o ou tro m a n tê m a circu la çã o e n tre e le s20.

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tra n scu ltu ra l n ã o te ria u m a e sp é cie d e m e ia vid a g e ra cion a l, com a s lig a -çõe s com a te rra n a ta l p rog re ssiva m e n te se d issolve n d o a ca d a g e ra çã o n a scid a n a cid a d e ou n o e stra n g e ir o? A a cu ltu ra çã o d os q u e m ora m n o e xte rior n ã o torn a ria , m a is ce d o ou m a is ta rd e , a d iá sp ora irre ve rsíve l, p a rtin d o e m p e d a ços a socie d a d e tra n sloca l? É p rová ve l q u e isso a con te ça com a lg u m a fre q ü ê n cia , m a s ta lve z n ã o tã o rá p id a ou fa cilm e n te q u a n -to te n d e m os a a cre d ita r.

Em J a va , a m ig ra çã o circu la r p a re ce te r e sta d o n a m od a d e sd e 1860; u m e stu d ioso h ola n d ê s, Ra n n e ft, q u e p e sq u isou o fe n ôm e n o e m 1916, con-sid e rou q u e e le im p e d ia a form a çã o d e u m p role ta ria d o loca l e stá ve l, u m a ve z q u e os m ig ra n te s in trod u zid os n o m od o d e p rod u çã o ca p ita lista p e rm a n e cia rm se n d o “ h orm e n s tra d icion a is” , rm a n te n d o u rm forte e n volvirm e n -to com su a s a ld e ia s d e orig e m (C h a p m a n e Proth e ro 1985:6; ve r H u g o 1982: 72). Em u m a rtig o in titu la d o “ Is a Prole ta ria t Em e rg in g in N a irob i?” , W. Elk a n (1985) ch e g ou a con clu sõe s m u ito se m e lh a n te s sob re a África m a is d e u m sé cu lo d e p ois. M u ita s d a s ord e n s trib a is ru ra l-u rb a n a s d o con tin e n-te , n-te n d o se e sta b e le cid o n os a n os 20 ou m e sm o a n n-te s, já e sta va m e m su a se g u n d a ou te rce ira g e ra çã o q u a n d o d e sp e rta ra m a a te n çã o d os p e sq u i-sa d ore s ocid e n ta is. E e m b ora , re ce n te m e n te , “ h om e n s d e trib o” te n h a m tra b a lh a d o n a s cid a d e s p or p e ríod os m a is lon g os, à s ve ze s d u ra n te tod a a su a vid a a tiva , e le s p e rm a n e ce m tã o e n volvid os — socia l, m ora l e e con o-m ica o-m e n te — coo-m se u s lu g a re s d e orig e o-m q u a n to a n te s (G u g le r 1969:146). O q u e os e stu d os sob re os Lu o e os Kik u yu e m N a irob i m ostra m , sob re tu -d o, é q u e o in te re sse e o in ve stim e n to n a te rra n a ta l é -d ire ta m e n te p ro-p orcion a l a o statu s, à e sta b ilid a d e e à re m u n e ra çã o re ce b id os n o e m ro-p re g o u rb a n o. As p e ssoa s m a is b e m -su ce d id a s n a cid a d e sã o a s m a is e n volvid a s n a ord e m tra d icion a l d o ca m p o, p ois sã o a s q u e tê m m a is con d içõe s fin a n-ce ira s p a ra isso (Pa rk in 1975a ; 1975b ; Elk a n 1985; Ross e We isn e r 1977)21.

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tê m se p role ta riza d o e m n e n h u m se n tid o id e ológ ico p rofu n d o” (Ke a rn e y 1986:352).

Acre d ito q u e o se g r e d o d o a p a r e n te fra ca sso d a u rb a n iza çã o d os m ig ra n te s é q u e n ã o h ou ve u m e stiola m e n to p rog re ssivo e con com ita n te d a vid a a ld e ã . A socie d a d e tra n sloca l p od e p e r fe ita m e n te p e rsistir e n q u a n to h ou ve r u m d ife re n cia l cu ltu ra l e n tre o ru ra l e o u rb a n o, ou , d e m od o m a is g e ra l, e n tre a te rra n a ta l in d íg e n a e os la re s m e trop olita n os n o e xte rior. O s d ois se tore s p e rm a n e ce rã o e n tã o in te rd e p e n d e n te s e cu l-tu ra lm e n te ce n tra d os n a te rra n a ta l. É b e m ve rd a d e q u e u m a fra çã o d a p op u la çã o m ig ra n te p od e d iste n d e r su a s con e xõe s com a com u n id a d e d e orig e m . M a s e la se rá su b stitu íd a p or n ovos g ru p os vin d os d a a ld e ia , e , e m troca , u m a p a rte d os q u e m ora m n a cid a d e ou n o u ltra m a r, d e silu d i-d os p e la i-d iscrim in a çã o ou p e lo i-d e se m p re g o, ou e n tã o p re ste s a se a p o-se n ta r, p e n sa rã o e m “ volta r à s orig e n s” (ve r a d ia n te ). C on ta s fe ita s, o sis-te m a tra n sloca l p od e ria se a u to-re p rod u zir p or u m p e ríod o con sid e rá ve l d e te m p o. A h istória d a u rb a n iza çã o ocid e n ta l n ã o n e ce ssa ria m e n te se re p e te , sob re tu d o se con sid e ra rm os q u e , d e sd e a An tig u id a d e , e ssa h is-tória ve m se n d o e scrita a p a rtir d e u m a d istin çã o d iscrim in a is-tória e n tre o b á rb a ro e o civil(iza d o) q u e p ra tica m e n te in ve rte o va lor cu ltu ra l d o m u n -d o ru ra l ou in te riora n o vig e n te n a s com u n i-d a -d e s tra n sloca is m o-d e rn a s.

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-re n te s à p rod u çã o ca p ita lista . Da d a s tod a s e ssa s fra tu ra s, a cu ltu ra tra n s-loca l, e n q u a n to form a d e vid a d istin tiva d a m od e rn id a d e , p od e a in d a te r u m a lon g a h istória p e la fre n te .

Ta lve z m u ita lon g a m e sm o, p ois a s socie d a d e s tra n sloca is e stã o se a ssocia n d o com o p od e roso m ovim e n to d e a u tocon sciê n cia q u e va rre h oje o p la n e ta . Tod os os p a ra d oxos d a h istória m u n d ia l con te m p orâ n e a , tod a s a s op osiçõe s q u e a cre d itá va m os se re m e xclu d e n te s, com o a q u e la s e n tre tra d içã o e m od e r n id a d e , ou e n tr e m ob ilid a d e e con tin u id a d e , e stã o se fu n d in d o e m n ova s sín te se s cu ltu ra is. C on sid e re m os e sta ob se rva çã o fe i-ta p or u m e stu d ioso d a s socie d a d e s m e la n é sia s:

“ H oje a id e n tid a d e d os p ovos m e la n é sios n ã o e m e rg e com o u m a ru p tu ra com o p a ssa d o, m a s com o u m a con tin u id a d e . N o e n ta n to, n ã o se tra ta d e u m a m e ra re p e tiçã o d o p a ssa d o; a m ob ilid a d e , m e sm o a circu la r, a m p liou h orizon te s. N ova s solid a rie d a d e s su rg ira m [...] a s socie d a d e s in su la re s [...] fora m p e n e tra d a s p e la e con om ia m on e tá ria in te r n a cion a l e p a ssa ra m a se in scre ve r e m e sp a ços m a is va stos [...]. O d e b a te a tu a l n ã o m a is d iz re sp e ito à re sistê n cia d a socie d a d e m e la n é sia d ia n te d a s in flu ê n cia s d o O cid e n te , te m a a n te s d om in a n te , m a s sim à s e scolh a s a se re m fe ita s e m vista s d o d e se n volvim e n to socioe con ôm ico e à s form a s p e la s q u a is e le re ve rte p a ra a socie d a d e . A g ra n d e su rp re sa p a ra os q u e a vê e m d e fora , se m d ú vid a , é a ca p a cid a d e d e e sta socie d a d e se re cria r à su a p róp ria im a g e m a p a rtir d e u m com p le xo d e d ive rsos p a d rõe s con ce itu a is e re a lid a d e s p olítico-e con ôm i-ca s” (Bon n e m a ison 1985:60-61)22.

Terence Turner: o “cult uralismo” cont emporâneo

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iron ia s d o d iscu rso h oje e m vog a sob re a a lte rid a d e , ob se rva Tu rn e r, “ é q u e e le te n d e a e xa g e ra r o p od e r q u e te ria m a s re p re se n ta çõe s ocid e n -ta is d e se im p or a os ‘ou tros’, d issolve n d o su a s su b je tivid a d e s e ob je tiva n-d o-os com o m e ra s p roje çõe s n-d o olh a r n-d e se ja n te n-d o ocin-d e n te n-d om in a n-d or” . M a is a in d a , ta l p e ssim ism o a n trop ológ ico m ostra a m e sm a d istâ n cia d a a çã o e a m e sm a ig n orâ n cia d a h istória q u e tê m tã o fre q ü e n te m e n te m a rca d o os con ce itos d e cu ltu ra d e n ossa d iscip lin a . A a n trop olog ia re ve la se , a ssim , in ca p a z d e d a r con ta d o q u e e la p róp ria ta n ta s ve ze s con sta -tou , a sa b e r, q u e

“ [...] e m virtu a lm e n te tod a s a s situ a çõe s d e con ta to e n tre p ovos trib a is e socie d a d e s n a cion a is ocid e n ta liza d a s, u m a p a rte sig n ifica tiva d a s tra n sfor-m a çõe s socia is e cu ltu ra is d a socie d a d e n a tiva n ã o é sfor-m e ro re su lta d o d a op re ssã o e xe rcid a a b e rta e d e lib e ra d a m e n te p e la socie d a d e n a cion a l ou d a e xp lora çã o le va d a a ca b o p e los re p re se n ta n te s d o ca p ita l in te rn a cion a l, m a s é , a o con trá rio, ob je to d e u m con se n tim e n to a tivo, isto q u a n d o n ã o é e sp on-ta n e a m e n te d e se n ca d e a d a p e los p róp rios p ovos in d íg e n a s” (Tu rn e r 1979:8).

Du ra n te u m ce rto te m p o, Tu rn e r ta m b é m in sistiu n o fa to d e q u e a “ sob re vivê n cia cu ltu ra l” * n o m u n d o m od e rn o con siste n a te n ta tiva d os p ovos se a p rop ria re m d e sse m u n d o e m se u s p róp rios te rm os. N ã o se tra -ta , com o m u itos su p u se ra m , d e u m d e se jo n ostá lg ico d e te e p e e s e tom ah aw k s ou d e q u a lq u e r ou tra e n ca rn a çã o fe ticah iza d a d o se n tid o d a cu ltu -ra . Ta l su p osiçã o, q u e t-ra d u z “ u m a te n ta tiva in g ê n u a d e m a n te r os p ovos in d íg e n a s com o re fé n s d e u m m om e n to d e su a p róp ria h istória ” , re d u n d a ju sta m e n te , ob se rva Tu rn e r, e m p rivá -los d a h istória (1987:7).

C om o a m a ioria d e n ós, e n tre ta n to, Te re n ce Tu rn e r a ca b ou ch e g a n -d o a u m a con ce p çã o m a is sofistica -d a -d e cu ltu ra a p a rtir -d e u m a crítica -d e se u p róp rio p a ssa d o. Q u a n d o foi p e la p rim e ira ve z à Am a zôn ia , e m 1962 — con form e re la ta e m u m a rtig o re ce n te cu jo su b títu lo é “ Tra n sform a -çõe s H istórica s d a C u ltu ra Ka ya p ó e d a C on sciê n cia An trop ológ ica ” —, n e m e le n e m os ín d ios e n te n d ia m su a “ cu ltu ra ” ou su a situ a çã o h istórica d o m od o com o o fa ze m a g ora (Tu rn e r 1991). Em 1962, os Ka ya p ó d a a ld e ia G orotire p a re cia m vive r u m a vid a d u p la , u m a ve rd a d e ira e sq u izo-fre n ia e n tre o in d íg e n a e o m od e rn o. Se u m od o d e e xistê n cia tra d icion a l, su a in scriçã o e sp a çote m p ora l e se u con ce ito d e p e ssoa e sta va m re le g a

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d os a os e xíg u os lim ite s tra ça d os p e la s e xig ê n cia s “ civiliza tória s” d a socie -d a -d e b ra sile ira e n volve n te . De p e n -d e n -d o -d os fu n cion á rios -d a a g ê n cia ofi-cia l d e p rote çã o a os ín d ios e d e m ission á rios cristã os p a ra a ob te n çã o d e re m é d ios, a rm a s, m u n içã o e ou tra s m e rca d oria s vita is, e le s p a re cia m n ã o te r d isp osiçã o a lg u m a p a ra a g ir d e ou tr o m od o; p or in icia tiva p róp ria , tira va m se u s e stojos p e n ia n os e b a toq u e s la b ia is e ve stia m r ou p a s oci-d e n ta is se m p re q u e isso p a re cia a p rop ria oci-d o; ig u a lm e n te , a oci-d a p ta va m su a s ce rim ôn ia s à s r e striçõe s e sp a cia is e cosm ológ ica s im p osta s p e la n ova a ld e ia d e tip o b ra sile iro on d e h a via m sid o ob rig a d os a se e sta b e le ce r*. M a s a s d u a s cu ltu ra s q u e e le s a ssim vivia m n ã o p a re cia m te r q u a lq u e r re la çã o e n tre si; com o ta m p ou co, a liá s, se g u n d o a cosm olog ia tra d icion a l, os b ra n cos e se u m od o d e vid a a b su rd o p od e ria m se r e q u ip a ra d os à h u m a n id a d e “ b e la ” e “ com p le ta ” d os Ka ya p ó. De sse m od o, a cu ltu ra oriu n d a d a s e sfe ra s n a cion a l e in te rn a cion a l a sse m e lh a va se a “ u m ve rn iz a lie -n íg e -n a sob o q u a l a a u tê -n tica cu ltu ra k a ya p ó a i-n d a p e rsistia ” (Tu r-n e r 1991:291). As form a s in d íg e n a s p e rsistia m ap e sar d o con ta to in te ré tn ico, “ e n ã o d e vid o a u m a a com od a çã o e stá ve l e h a r m on iosa a e le ” (Tu rn e r 1991:291). E, ce rta m e n te , a situ a çã o ca ra cte riza va -se p e la su b ord in a çã o d os Ka ya p ó, se n ã o p or su a h u m ilh a çã o.

Assim , e m 1962, a e tn og ra fia m im e tiza va -se e m a rq u e olog ia , d e sca rta n d o a s sca m a d a s su p e rficia is, m od e rn a s e re volta s, d o solo d a a cu ltu -ra çã o e m b u sca d os ve stíg ios m a is p rofu n d os d o ín d io a u tê n tico. Tu rn e r sa lie n ta a p e cu lia r cu m p licid a d e e n tre e sse tip o d e a n trop olog ia e o q u e e la tin h a p or se u ob je to d e e stu d o. C om o a cu ltu ra k a ya p ó, a a n trop olo-g ia d a q u e le p e ríod o se d e fin ia “ fa ze n d o a b stra çã o d a ‘situ a çã o d e con ta to’, p e n sa n d o-se com o a a n títe se d a ‘tra n sform a çã o’ e com o a in im i-g a d a ‘h istória ’” (Tu rn e r 1991:292). As con ce p çõe s e stá tica s d e cu ltu ra q u e a a n trop olog ia h a via h e rd a d o d e se u s a n ce stra is e stru tu ra lfu n cion a -lista s e con g ê n e r e s só e n con tra va m sim ila r n a a p a r e n te in ca p a cid a d e k a ya p ó d e tom a r con sciê n cia d e su a cu ltu ra — isto é , d e ssa cu ltu ra com o p rod u to socia l d os p róp rios Ka ya p ó — e d e u sá -la re fle xiva m e n te com o a rm a con tra a s força s e in stitu içõe s e xte rn a s q u e os op rim ia m . Se m con se g u ir ob je tiva r su a cu ltu ra e con fe rirlh e u m va lor in stru m e n ta l, os Ka ya -p ó ta m -p ou co -p od ia m fa ze r d e su a id e n tid a d e é tn ica u m a a firm a çã o d e a u ton om ia .

Em b ora n o fin a l n os a n os 70 Te re n ce Tu rn e r já a firm a sse q u e u m con -ce ito con scie n te d e cu ltu ra se ria u m re cu rso p od e roso n a lu ta d os p ovos

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in d íg e n a s p e la “ sob re vivê n cia cu ltu ra l” , e m m e a d os d os a n os 80 e le a in -d a se m ostra va p e ssim ista q u a n to à s ch a n ce s -d e os Ka ya p ó a -d q u irire m a n e ce ssá ria a u tocon sciê n cia . De fa to, e m 1976, e le h a via te n ta d o e xp licita -m e n te tra n s-m itir a os Ka ya p ó u -m a con ce p çã o in stru -m e n ta l d e cu ltu ra — m a s e le s n ã o h a via m ca p ta d o a id é ia . Esta va m m u ito lon g e d e a p r e e n d ê -la e d e p od e r a p licá --la à su a situ a çã o, con sta ta va Tu rn e r e m u m te xto e scri-to e m 1986. “ N ã o e sscri-tou d ize n d o q u e isso se ria im p ossíve l” , con tin u ou , “ m a s a p e n a s q u e , p a ra u m p ovo com o os Ka ya p ó, q u e n ã o tê m n e n h u m a con ce p çã o crítica d e su a p róp ria cu ltu ra , isso n ã o se ria n a d a fá cil” .

N o e n ta n to, a o re torn a r a G orotire e m 1987, a p roxim a d a m e n te 25 a n os d e p ois d e se u p rim e iro tra b a lh o d e ca m p o, tu d o h a via m u d a d o. A p a la vra “ cu ltu ra ” * a g ora e ra ou vid a com fre q ü ê n cia . Ela e sta va a ssocia -d a a u m a re la çã o in te ira m e n te n ova com os ou tros p ovos in -d íg e n a s, com a socie d a d e n a cion a l e o siste m a in te r n a cion a l. O s Ka ya p ó e sta va m e n volvid os a tiva e cria tiva m e n te n o ca m p o in te ré tn ico, com os olh os p ostos n a a p rop ria çã o d e se u s p od e re s e p rod u ostos te n d o e m vista a re p rod u çã o d e su a p róp ria “ cu ltu ra ” . Ele s a g ora e n te n d ia m su a cu ltu ra — in clu in -d o a s té cn ica s -d e su b sistê n cia , a -d ie ta a lim e n ta r, a s ce rim ôn ia s, a s in sti-tu içõe s socia is, o a ce rvo d e sa b e re s e cossti-tu m e s — com o n e ce ssá ria à su a “ vid a ” , “ força ” e “ fe licid a d e ” . Era com u m , Tu rn e r e scre ve ,

“ [...] ou vir líd e re s k a ya p ó, b e m com o h om e n s e m u lh e re s com u n s, d ize n d o te r com o m otiva çã o fu n d a m e n ta l d e su a lu ta p olítica a m a n u te n çã o d e se u m od o d e vid a cu ltu ra l e a d e fe sa d e ste con tra p re ssõe s d e a ssim ila çã o e d e d e stru içã o p or p a rte d a socie d a d e n a cion a l. M u itos, in clu sive in d ivíd u os m on olín g ü e s, h a via m com e ça d o a u sa r a p a la vra p ortu g u e sa ‘cu ltu ra ’ p a ra se re fe rir a o se u m od o d e su b sistê n cia m a te ria l, a o a m b ie n te n a tu ra l a o q u a l e stá e sse n cia lm e n te lig a d o, b e m com o à s su a s in stitu içõe s socia is e a o se u siste m a ce rim on ia l tra d icion a l. O te rm o n a tivo p a ra o con ju n to d e sa b e re s e costu m e s, k u k ràd jà [q u e sig n ifica a lg o q u e se le va m u ito te m p o p a ra con -ta r], e ra a g ora -ta m b é m com u m e n te e m p re g a d o d a m e sm a form a , isto é , p a ra se re fe rir à s p rá tica s e sa b e re s tra d icion a is com o a lg o q u e e xig ia u m e sforço con scie n te p or p a rte d a com u n id a d e p a ra su a p re se rva çã o e re p rod u çã o” (1991:304).

M a is u m a ve z, isso n ã o sig n ifica u m a volta a o e sta d o d e n a tu r e za (ou d e u m a cu ltu ra p rim ord ia l). A re p rod u çã o d a cu ltu ra k a ya p ó a g ora

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d e p e n d e d a ca p a cid a d e d e se d om e stica r e m os m e ios e con trola re m a s força s d e su a tra n sform a çã o h istórica . O s Ka ya p ó n ã o re cu sa m a h istória : e le s se p rop õe m a re sp on d e r p or e la ; p re te n d e m orq u e strá -la se g u n d o a lóg ica d e se u s p róp rios e sq u e m a s. Va le a p e n a re p e tir: n a lu ta con tra o Le via tã m od e r n o, a con tin u id ad e d as cu ltu ras in d íg e n as con siste n os m od os e sp e cíficos p e los q u ais e las se tran sform am .

Tu rn e r (1992) forn e ce u m b om e xe m p lo d isso e m su a b rilh a n te a n á lise d o u so q u e os Ka ya p ó fa ze m d o víd e o. Por u m la d o, os Ka ya p ó volta m a câ m e ra p a ra a s força s e xte rn a s q u e os a m e a ça m , d ocu m e n ta n d o a s a tivid a d e s d os fu n cion á rios d o g ove rn o e con g ê n e re s — e cu id a n -d o, a o m e sm o te m p o, p a ra q u e e ssa -d ocu m e n ta çã o se ja e la m e sm a re g is-tra d a e m d ocu m e n tá rios d irig id os a o p ú b lico in te r n a cion a l. Por ou tr o, cria n d o u m a rq u ivo e m víd e o d e su a s p róp ria s ce rim ôn ia s, e le s lh e s con fe re m m a te ria lid a d e e p e rm a n ê n cia h istórica s. N e ssa p rod u çã o p a ra con -su m o in te rn o, Tu rn e r m ostra d e ta lh a d a m e n te com o o tra b a lh o d e câ m e ra e d e e d içã o d os Ka ya p ó re sp on d e à su a n oçã o tra d icion a l d e “ b e le za ” — q u e é p re cisa m e n te a tra n sform a çã o d a n a tu re za e m cu ltu ra . O m e io, p or-ta n to, é a m e n sa g e m : a d e p e n d ê n cia d os Ka ya p ó e m re la çã o à socie d a d e b ra sile ira se vê a g ora con tra b a la n ça d a p or u m a op osiçã o vig orosa a e sta socie d a d e — e m n om e d a “ cu ltu ra ” in d íg e n a k a ya p ó24.

(25)

d ois g ra n d e s g a rim p os d e ou ro n a á re a , re g u la n d o a q u a n tid a d e d e m e ta l e xtra íd o com o ob je tivo d e p rote g e r os roy altie s q u e ob tê m com a e xp lo-ra çã o. “ Em su m a , d u lo-ra n te e sta ú ltim a d é ca d a , os Ka ya p ó d e G or otire a ssu m ira m siste m a tica m e n te o con trole d e tod os os focos in stitu cion a is e te cn ológ icos d e d e p e n d ê n cia e m re la çã o à socie d a d e b ra sile ira e xiste n -te s d e n tro d e su a com u n id a d e e se u -te rritório” (Tu rn e r 1993:5).

As in icia tiva s p olítico-cu ltu ra is d os Ka ya p ó n ã o sã o e xclu siva s d e sse ou d e ou tros p ovos d a Am a zôn ia . Sã o a n te s e xp re ssõe s loca is d e u m fe n ô-m e n o ô-m u n d ia l. Ava lia n d o a s lu ta s p e los d ire itos in d íg e n a s n a Au strá lia , C a n a d á e N ova Ze lâ n d ia , Da vid Pe a rson fa z re fle xõe s q u e se h a rm on i-za m p e rfe ita m e n te com a s p a la vra s d e Tu rn e r sob re os Ka ya p ó:

“ Em tod os os trê s p a íse s, a lu ta p e la a u tod e te rm in a çã o in d íg e n a m ostra u m e sforço p a ra a ssu m ir o con trole d a a d m in istra çã o oficia l d a s re se rva s, b a n -d os ou trib os, tra n sform a n -d o-a e m fon te -d e re cu rsos p olíticos p a ra os p ovos n a tivos. Essa lu ta in clu i a su b stitu içã o d e a d m in istra d ore s ‘b ra n cos’ p or p e s-soa l n a tivo, a b u sca d e m a ior con trole p olítico e e con ôm ico sob re a te rra e os re cu rsos n a tu ra is, e a in ve n çã o d e u m n ovo lu g a r sim b ólico d e n tro d a s e stru -tu ra s e sta ta is, con fe rin d o a os n a tivos o e sta -tu to e sp e cia l d e ‘cid a d ã os com d ire itos a d icion a is’ [‘citiz e n s p lu s’]. O s p ovos in d íg e n a s d e se ja m te r p le n o a ce sso a tod a s a s á re a s d a socie d a d e , a o a b rig o d e p re con ce itos e d iscrim i-n a çõe s, com o os d e m a is cid a d ã os. M a s e le s ta m b é m re cla m a m u m e sta tu to e sp e cia l d e orig in a rie d a d e ou a b orig in a lid a d e , com se u p róp rio con ju n to d e d ire itos e ob rig a çõe s” (1994:137-138).

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