N o G iro do M undo
Eduardo da Cruz (Organizador)
Os periódicos do século XIX
no Real Gabinete Português de Leitura
Rio de Janeiro
Real Gabinete Português de Leitura 2015
Volume III
Copyright © 2015, O REAL EM REVISTA
Todos os direitos reservados. Nenhuma parte deste livro pode ser utilizada ou reproduzida sob quaisquer meios existentes sem autorização por escrito dos editores.
Realização:
Real Gabinete Português de Leitura / Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras Presidente Real Gabinete Português de Leitura:
Antônio Gomes da Costa
Coordenadora-Geral: Prof.ª Dr.ª Gilda Santos (UFRJ) Produção Geral: Ramon Botelho
Consultores de pesquisa:
Prof.ª Dr.ª Ida Alves (UFF/CNPq) Prof. Dr. Sérgio Nazar David (UERJ/CNPq) Prof.ª Dr.ª Tania Bessone (UERJ/CNPq/FAPERJ)
Pesquisadores-orientadores:
Prof.ª Dr.ª Angela Telles (Univ. Estácio de Sá) Prof. Dr. Carlos Eduardo da Cruz (UFRRJ)
Prof.ª Dr.ª Luciana Salles (UERJ) Universitários Monitores/estagiários:
Julianna Bonfim (UERJ) Luiz Felipe Ventura (UERJ) Marlon Augusto Barbosa (UFRJ)
Natasha Mastrangelo (UERJ) Sérgio Luís Silva de Abreu (UFRRJ) Zadig Mariano Figueira Gama (UFRJ)
Programação visual capa e diagramação: Raphael Oliveira ilustração de Angelo Agostini, Revista Illustrada (junho de 1880).
Todos os direitos desta edição reservados por O REAL EM REVISTA
Real Gabinete Português de Leitura Rua Luis de Camões, nº 30 - Centro
20051-020 - Rio de Janeiro - RJ Tel.: (21) 2221-3138 www.realgabinete.com.br
No giro do mundo : os periódicos do século XIX no Real Gabinete Por- tuguês de Leitura / Eduardo da Cruz (organizador). – Rio de Janeiro : Real Gabinete Português de Leitura, 2015.
90 p. : il. ; 21 cm. – (O Real em Revista ; v. 3) ISBN: 978-85-99942-08-6
1. Imprensa periódica portuguesa – Séc. XIX. 2. Imprensa periódica brasileira – Séc. XIX. I. Cruz, Eduardo da. II. Real Gabinete Português de Leitura. III. Série.
CDU: 070(469)
Oferecer ao público a consulta a documentos raros e de difícil acesso representa, para nós da Petrobras, uma boa mostra do que pretendemos ao patrocinar um projeto. A recu- peração, digitalização e disponibilização de material com grande representatividade his- tórica é um bom exemplo de como o trabalho de pesquisa pode incentivar o gosto pela cultura.
Através do Petrobras Cultural, buscamos contribuir para a permanente construção da memória cultural. Ao patrocinar “O Real em Revista”, reafirmamos o objetivo de in- centivar o trabalho de resgate e organização do acervo material e imaterial da nossa cultu- ra, com a intenção fi rme de ampliar a oportunidade de acesso público a variados acervos.
Este projeto foi contemplado na seleção pública do Petrobras Cultural. Em nove edições, patrocinamos mais de 1,4 mil projetos em todas as regiões do país, em diferentes áreas. Buscamos, desta forma, abordar a cultura brasileira em suas mais diversas manifes- tações.
Segundo critérios de mérito, viabilidade de execução, valor histórico e cultural, grau de articulação com parceiros e prioridade regional, a Seleção Pública Petrobras Cultural 2012 escolheu patrocinar 134 projetos, dentre os 4.319 inscritos em diversas categorias e oriundos de todo Brasil. Dos 260 concorrentes ao “Apoio a Museus, Arquivos e Bibliote- cas”, 29 foram pré-selecionados por sua singular importância; 17 foram considerados prio- ritários e apenas 7 contemplados, sendo apenas 1 do Estado do Rio de Janeiro – o Projeto O Real em Revista.
Trata-se de pesquisa no Real Gabinete Português de Leitura (RGPL), liderada por seu Polo de Pesquisas Luso-brasileiras (PPLB), tendo como corpus um conjunto de peri- ódicos – jornais e revistas, brasileiros e portugueses – sobretudo oitocentistas, ainda não estudados de forma sistematizada e pouco ou nada divulgados, alguns em risco de perda pela ação do tempo. Paralelamente, promove-se a digitalização de parte desse acervo e sua divulgação em site, bem como a realização de eventos abertos, publicações com resultados da pesquisa, exposições, inauguração do serviço de visitas guiadas, produção e distribui- ção gratuita de material pedagógico e intercâmbio com pesquisadores de outros estados.
São 20 meses de trabalho, entre pré-produção, produção e pós-produção (janeiro/2014 a julho/2015).
Sem dúvida, este projeto – com o patrocínio da Petrobras em tão rigorosa seleção nacional – ressalta a importância do Real Gabinete Português de Leitura como espaço pro- dutor de conhecimento, e não apenas como belo exemplo da arquitetura neomanuelina a enfeitar o Rio, para encanto dos visitantes.
Equipe O Real em Revista
SUMÁRIO
Apresentação Breve Eduardo da Cruz
A polêmica em torno da emigração chinesa via Macau no Diario do Rio de Ja- neiro (1850-1878)
Julianna Bonfim e Eduardo da Cruz Degustando a oitocentista Annona Luiz Felipe Ventura e Gilda Santos
Harmonias, Lágrimas, Risos e Aplausos: a colaboração de Paulina Campelo no União Portugueza
Sérgio Abreu e Eduardo da Cruz
O Pão de Açúcar em revistas ilustradas: um símbolo de identidade nacional Zadig Gama, Natasha Mastrangelo e Angela Telles
Recortes do Século XIX Falta d’Água
Luciana Salles e Marlon Augusto Barbosa República
Eduardo da Cruz, Julianna Bonfim e Sérgio Abreu 19 de novembro - Dia da Bandeira
Angela Telles, Zadig Gama e Natasha Mastrangelo Oposição
Luciana Salles e Marlon Augusto Barbosa Natal
Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu
Campo da Aclamação [Campo de Santana]
Angela Telles, Zadig Gama e Natasha Mastrangelo Férias
Luciana Salles e Marlon Augusto Barbosa Banhos de Mar
Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu Incêndios!
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo
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Terremoto
Luciana Salles e Marlon Augusto Barbosa Bailes de Máscaras
Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu Rua do Ouvidor
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo São Sebastião / Aniversário do Rio de Janeiro
Gilda Santos, Luiz Felipe Ventura e Marlon Augusto Barbosa Violência Urbana
Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu Niterói
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo Morro do Castelo
Gilda Santos e Luiz Felipe Ventura Prostituição
Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu Largo de São Francisco de Paula
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo Astronomia
Gilda Santos e Luiz Felipe Ventura
Bicentenário do Reino Unido de Portugal, Brasil e Algarves Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu
Candelária
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo Exposições de Café
Angela Telles, Zadig Gama, Natasha Mastrangelo Associações Portuguesas no Rio de Janeiro Eduardo da Cruz e Sérgio Abreu
Luís de Camões
Gilda Santos e Luiz Felipe Ventura Gago Coutinho e Sacadura Cabral Gilda Santos e Luiz Felipe Ventura
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O Real Gabinete Português de Leitura, através do projeto O Real em Revista, tem posto em circulação, ao alcance do público, uma importante parcela de seu acervo. Desde janeiro de 2014, com o início efetivo das ações da equipe de pesquisadores envolvidos com o processo de pesquisa, preservação, digitalização e divulgação do conjunto de periódicos oitocentistas brasileiros e portugueses arquivados nessa biblioteca-museu, muitas páginas impressas desdobraram-se sob novos olhares.
Trabalhando em diversas frentes, professores, pesquisadores e estudantes dedica- ram-se a apresentar possibilidades de leituras e estudos sobre periódicos do oitocentos a um público variado. Além do caráter acadêmico de pesquisa e seminários, sobre aspectos relacionados à imprensa periódica e à cultura oitocentista, revista pela análise desses im- pressos, houve o cuidado de aproximar visitantes, leitores, e demais interessados por essa casa luso-brasileira, da diversidade de jornais e revistas que compõem sua hemeroteca.
Organizaram-se exposições, concebeu-se um filme institucional educativo, ofereceram-se visitas guiadas, houve apresentações de poesia, música e cinema relacionadas com a cul- tura portuguesa.
No Giro do Mundo é uma coleção editada pela equipe O Real em Revista que lançou luz sobre o alcance do trabalho de pesquisa realizado no Real Gabinete Português de Lei- tura. No primeiro volume, além da apresentação da hemeroteca dessa instituição, há a explicação dos critérios de seleção de títulos e a descrição dos periódicos digitalizados pelo projeto. O segundo volume trouxe os primeiros resultados da pesquisa realizada pelos pes- quisadores envolvidos no projeto. Em toda a coleção, Recortes do Século XIX.
Nas páginas deste terceiro volume No Giro do Mundo, estão os resultados do trabalho dos jovens pesquisadores da equipe. Apesar da pouca idade e limitada experiência acadê- mica quando ingressaram no grupo, entusiasmados com a ideia de contato direto com pe- riódicos e sob a orientação dedicada dos pesquisadores do projeto, realizaram pesquisa de qualidade e produziram ensaios finais que mostram diversos olhares sobre a imprensa do século XIX. Seguindo metodologia interdisciplinar, cada um desenvolvendo sua própria forma de abordagem dos impressos, esses jovens apresentam agora quatro estudos sobre temas importantes para melhor conhecermos a cultura luso-brasileira.
As folhas volantes, com Recortes do Século XIX, têm apresentado aos visitantes do Real Gabinete, três vezes por mês, breves incursões pelos periódicos oitocentistas, a partir de diversos temas que o leitor pode facilmente relacionar com a atualidade. São formas de instigar os frequentadores da instituição a solicitarem alguns desses impressos para folhea- rem e descortinarem aspectos do cotidiano, da cultura e da história ali presentes, voltando a se encantar com o material preservado. Espera-se ainda que tenham despertada a curio-
apresentação breve
sidade sobre determinado assunto, levando-os a buscar mais informações em outras fontes e mesmo bibliotecas. Essa seleção de textos e imagens da imprensa oitocentista tem sido regularmente republicada nos volumes No Giro do Mundo. Neste, encontram-se as últimas criações dos grupos de orientadores e jovens-pesquisadores, apresentadas entre novembro de 2014 e julho de 2015, com pequenas contextualizações. Os temas são bem diversos, ressaltando datas importantes no calendário nacional, como a proclamação da república, o dia da bandeira, o Natal, o aniversário do Rio de Janeiro e seu santo padroeiro, além de outros aspectos envolvendo essa cidade, seus topônimos, sua História e aspectos de seu cotidiano, incluindo sua relação com os portugueses, suas personalidades e associações.
Boa leitura!
Eduardo da Cruz Julho de 2015
“A notícia que vem de longe”, de Wilhelm Amberg (1822-1899) Artes e Letras, 3ª Série, n. 7. Lisboa, 1874, p. 97
Disponível em: www.orealemrevista.com.br
Os periódicos são fonte de grande importância não só na área das Letras, mas em estudos interdisciplinares. Por meio deles, é possível recuperar momentos históricos sob perspectiva dos coetâneos, quase que simultaneamente aos acontecimentos, e perceber como os autores influíam nos assuntos sobre os quais publicavam. O trabalho com esse gênero de fontes primárias permite compreender como esses impressos apresentavam e discutiam ideias importantes na formação da sociedade brasileira.
O Real Gabinete Português de Leitura tem sido, nesse sentido, manancial de pesquisas, dada a grandeza (em quantidade e em qualidade) de seu acervo. Eduardo da Cruz comenta essa importância, ao afirmar que
a hemeroteca do Real Gabinete tem sido, cada vez mais, alvo de interesse dos pesqui- sadores. Longe dos antigos pressupostos de que a imprensa apresentava a ‘verdade’
sobre um fato, ou de que era mero registro fugaz de ideias ou faits divers, importantes historiadores, sobretudo da Nova História, passaram a se ocupar dos jornais e revistas de uma época como portadores de visões distintas sobre um mesmo acontecimento, além de analisá-los como veículos que intervinham nos processos e episódios de seu tempo (CRUZ, 2014, p. 7).
Partindo dessa premissa, debruçamo-nos sobre alguns temas por vezes esquecidos no século XIX, trazendo-os à tona. Podemos, assim, recuperar informações sobre o período em vários as- pectos, sobretudo os político-sociais.
A emigração de chineses para as Américas, no século XIX, teve grande repercussão nos jor- nais e revistas cariocas da época. O deslocamento desse grupo para o continente americano ocor- reu tanto por ações individuais como por ações dos governos locais que os receberiam. No Brasil, entre a vinda experimental de chineses para o cultivo de chá, durante o governo de D. João VI, e a efetivação da imigração, promoveram-se debates na imprensa, que, em grande parte, entendia esse trâmite como um novo modelo de escravidão. Principalmente a partir da década de 1850, o assunto tomava as pautas brasileiras, e os fazendeiros das áreas cafeeiras começavam a se conven- cer da inevitabilidade da abolição após as diversas ações da Inglaterra em prol da erradicação do tráfico negreiro. Esse fato, juntamente com o temor da miscigenação entre brasileiros e orientais – assim como a diferença cultural entre esses povos – constituiu-se uma polêmica nos jornais da época. São reconhecidas as opiniões de literatos brasileiros e portugueses que trataram do tema, sobretudo a partir da década de 1870, como Visconde de Taunay, Eça de Queirós, Joaquim Nabu-
* Pesquisadora-júnior no projeto O Real em Revista; bolsista do Instituto Internacional de Macau / RGPL; doutoranda em Literatura Comparada (UERJ).
** Pesquisador-orientador no projeto O Real em Revista; professor adjunto de Literatura Portuguesa na UFRRJ, Departamento de Letras e Co- municação - Instituto de Ciências Humanas e Sociais.
A polêmica em torno da emigração chinesa via Macau no Diario do Rio de Janeiro (1850-1878)
Julianna Bonfim* e Eduardo da Cruz**
co e Machado de Assis1.
A polêmica em torno da emigração revela-se de grande valor na atualidade, sobretudo por retomar um importante aspecto das relações históricas entre Brasil e China, tanto pela questão político-econômica quanto pela cultural, destacando-se o papel de Macau como ponto de partida, posto que as transações para a vinda dos trabalhadores chineses passavam pelo porto macaense, conforme se verifica em trecho do Diario do Rio de Janeiro:
A emigração chinesa feita pelo porto de Macau continua a dar motivo a cenas horríveis, demasiadamente repetidas... A última catástrofe de que em Lisboa há noticia, é a do navio D. Juan saído de Macau a 4 de Maio com um carregamento de mais de 650 emi- grantes chins, chuchaes, coolies, ou escravos brancos, que por todos esses nomes vão ali conhecidos estes emigrantes livres, os quais lançaram fogo à embarcação, sendo vítimas quase todos do seu desespero2.
Não obstante a emigração de trabalhadores da China ter sido feita, à época, de forma legali- zada e esses trabalhadores serem considerados livres, as condições a que esses colonos – chamados à época de coolies – eram submetidos podem ser consideradas análogas ao tráfico de escravos ne- gros, prática comum à época, porém já em vias de extinção. Além disso, alguns deles eram força- dos a emigrarem contra a vontade, outros muitos enganados por falsas promessas, e havia enorme preconceito da sociedade branca em relação aos asiáticos.
A partir das palavras dos colaboradores do Diario, foi possível recompor os discursos da épo- ca a respeito dessas questões que atravessam aquele momento histórico, com base em verdadeiros testemunhos sobre sociedade e cultura no Rio de Janeiro encontrados nesse material3.
O periódico
O Diario do Rio de Janeiro é um periódico carioca, com circulação entre 1821 e 1878. Foi fundado pelo português Zeferino Vitor de Meireles que, no primeiro momento, foi também seu redator. Foi o primeiro jornal informativo do país, pioneiro também na frequência diária de sua tiragem e na publicação de anúncios de toda a sorte. Todavia, a historiografia conta que o diário se mantinha longe de tomar posições em questões que pudessem criar dissabores políticos: segundo Nelson Werneck Sodré, “a folha era deliberadamente omissa nas questões políticas” (1998, p. 50).
Em relação à escolha do periódico, além de o Diario do Rio de Janeiro ter sido um dos mais importantes jornais brasileiros, foi um dos que maior relevância deu à questão da emigração chi- nesa em seus primórdios, debatendo o tema já a partir da década de 1850. A questão migratória tomava espaço no periódico tanto quando se tratava de chineses vindo para o Brasil quanto da ida desses para outros países americanos.
O assunto foi pauta do Diario do Rio de Janeiro desde pelo menos a edição de 8 de junho de 1852, em que se comenta a notícia de uma leva de oito mil chineses para Cuba: “Não há dúvida que esta experiência pode dar em todos os sentidos muito importantes resultados”4, em que se nota certa expectativa de que os colonos chineses fossem uma alternativa para quando ocorresse a abolição da escravatura.
1 Cf. OLIVA, 2008.
2 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 07 ago. 1871, p. 3. Itálicos do original.
3 Informamos que, em casos de citação direta, optou-se pela modernização do português empregado no século XIX, quando a modernização não gere alteração fonética. Mantiveram-se as grafias de nomes próprios, para facilitar consultas posteriores em bancos de dados. Alertamos de ante- mão que muitas das seções não trazem indicação de autoria, a qual será feita, sempre que houver.
4 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 8 jun. 1852, p.1.
O Diario trazia seções que tratavam de assuntos vários, dentre os quais destacamos a seção Exterior, na qual se concentravam grande parte das referências à imigração chinesa para o Brasil.
O tema não se limitava, porém, a essa seção; é possível encontrá-lo em seções como Agricultu- ra, Variedades e Publicações a pedido. Na década de 1850, houve, inclusive, uma seção especial denominada Notícias de Macau, o que, mais uma vez, sublinha a importância desta província portuguesa para o Brasil. Contudo essa seção pouco ou nada dá conta da emigração, voltando-se exclusivamente para notícias dos muitos conflitos que ocorriam em Macau.
A situação dos macaenses
A década de 1840 foi uma época de grandes mudanças e insatisfações em Macau. A inclusão daquela cidade como um província ultramarina de Portugal trouxe alterações pouco satisfatórias aos nativos. Não bastasse a perda de poder de seu porto, com a ascensão do porto de Hong Kong – então colônia britânica –, Macau foi declarado por Portugal um porto franco, teve seus impostos reduzidos e a abolição de sua alfândega. Acrescenta-se a isso a morte do governador João Ferrei- ra do Amaral, em 1849, pelos chineses. É possível
entrever-se a crise que ali se instalava.
No Diario, expunham-se as relações sociais e de trabalho dos chineses, não só em Portugal como nas Américas, crimes cometidos devido a hostilidades ocorridas envolvendo os chineses, bem como toda a sorte de notícias que dava conta desses trabalhadores. É possível encontrar, na se- ção de anúncios, alguns que davam conta de fugas (fig. 1), que em nada se diferem dos que procura- vam escravos negros fugidos, o que corrobora a ideia de que os chamados coolies eram, apesar de tratados por “trabalhadores”, na verdade, escra- vos, conforme analisaremos adiante neste traba- lho.
Com o fim do tráfico negreiro cada vez mais iminente no Brasil, pensava-se em novas fontes de
mão de obra, e os chineses foram os primeiros trabalhadores estrangeiros trazidos para trabalhar na agricultura, ainda no início do século XIX, com intervenção do Governo Real Português, para cultivar chá em terras brasileiras.
Devido às crises internas que ocorriam em Macau à época, alguns chineses viram na emigra- ção uma oportunidade de melhoria de vida. No entanto, o cenário que encontravam na chegada ao Brasil era bastante diferente de uma terra prometida: tratados como escravos – provavelmente única relação de trabalho conhecida pelos donos de fazenda brasileiros – os colonos não aceitaram as condições assim que percebiam sua situação e, como consequência desse desacordo, houve fugas e mortes.
Os asiáticos eram comparados aos negros no que tange aos estereótipos raciais e, da mesma forma, por suas diferenças em relação aos ocidentais. Sofreram preconceitos, sendo também acu- sados de preguiçosos e propensos a vícios e crimes. Assim como os escravos negros, os chamados coolies5 recebiam nomes portugueses, sendo obrigados, logo de partida, a abandonar sua identi-
5 A palavra coolie, utilizada para designar esses trabalhadores chineses, atualmente é um termo pejorativo, posto que empregado nesse contexto tão preconceituoso do século XIX.
Fig. 1 - Diario do Rio de Janeiro, 6 abr. 1857, p.3.
dade nacional. Alguns, no entanto, permaneciam atendendo por seus nomes de origem, mas sem a distinção de nome de família, como cabia a cidadãos livres.
Houve, por parte da imprensa, uma tentativa de encarar a vinda dos chineses como uma migração espontânea, posto que empregavam termos como “colonos”6 ou “trabalhadores para a lavoura”7, mas, em alguns (não raros) momentos, fala-se em “importação”8 e em “fuga” (fig. 1).
Como importação é um termo empregado para mercadorias, o discurso de “trabalhadores livres”
não se sustenta. Como prova da afirmação de equiparação dos chineses com os escravos africanos, podemos citar um anúncio do Diario do Rio de Janeiro destacando a grande circulação deste – ou seja, nada havia de errado em “caçar” coolies, dando recompensas por isso.
As muitas notícias de prisões de chineses dão conta de um tratamento semelhante ao em- pregado contra negros. Essas capturas ocorriam, em geral, por “desordem” ou “ferimentos”, le- vando-nos a crer que havia resistência. Por vezes, havia a ocorrência do termo “escravos” para se referir aos chineses, assumindo-se que, na verdade, eles de fato não eram trabalhadores livres como se queria fazer parecer nos textos que discutiam sua vinda como colonos. Um exemplo do emprego de “escravo” referindo-se a trabalhadores chineses encontra-se na edição de 29 de maio de 1862, seção Estatísticas da corte – fixa no jornal –, que trazia diariamente uma lista com as pri- sões ocorridas por aqueles dias: “Foram presos à ordem das respectivas autoridades no dia 27 do corrente, [...] dous chins, Vicente e Rosa, escravos, por desordem” (grifo nosso)9.
Ressalta-se também que outros periódicos de grande notoriedade trataram com destaque o tema da imigração chinesa, como a Revista Illustrada, que trazia o assunto como matéria de capa em uma de suas edições, com ilustração de página inteira10. A Revista, porém, só passa a tratar desse assunto já no fim da polêmica, na década de 1880, quando o Diario do Rio de Janeiro não es- tava mais em circulação (lembremos de que sua última edição saiu em 1878). A Revista Illustrada mantinha-se sempre contrária ao trabalho chinês, apresentando uma perspectiva sobre os asiá- ticos semelhante à que a sociedade tinha sobre os escravos negros, inclusive baseada nos mesmos preconceitos: a diferença de cor da pele e traços fisionômicos distintos dos europeus.
Contraditoriamente, os mesmos que bradavam contra a vinda dos chineses eram totalmente favoráveis à colonização europeia: italianos, alemães e holandeses, com sua pele clara, cabelos loiros e olhos azuis eram bem-vindos. O problema, então, não residia no fato de o governo acabar com a escravidão ou na qualidade do trabalho, nem em adotar mão de obra estrangeira. A questão era a procedência desse estrangeiro, mormente a cor de sua pele, apesar de alguns articulistas já parecerem conformados com a solução, já que as condições do país não eram favoráveis para atrair a colonização europeia, conforme assevera Seyfert:
A inquietude com a situação do país expressa a dificuldade de atrair a imigração es- pontânea de europeus e, principalmente, a falta de mobilização do poder público para a questão indígena e algumas posições favoráveis à vinda dos coolies, claramente in- fluenciadas pela presunção da inferioridade dos asiáticos, incluídos no mesmo tipo ra- cial dos índios. Insinua-se, aí, a imagem negativa de um aumento da população a ser civilizada à maneira ocidental-cristã, tornando a serventia futura dos chineses uma dissimulação apensa à maior regularidade de entrada de gente da Europa (2002, p.
124).
6 “Entrou ontem de Singapura, com 81 dias de viagem, a barca americana Eliza Ann, trazendo a seu bordo 303 colonos chins” (grifo nosso). Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 10 fev. 1855, p. 3.
7 “Trabalhadores para a lavoura” foi o nome dado a um artigo publicado na edição de 24 de maio de 1878 do Diario do Rio de Janeiro, p. 3.
8 “Em consequência do bom resultado que têm dado os trabalhadores chins, vindos há três ou quatro anos, efetuou-se um contrato por uma casa inglesa desta cidade para a importação de 8.000 chins” (grifo nosso). Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 8 jun. 1862, p.2.
9 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 29 mai. 1862, p. 3.
10 Revista Illustrada, Rio de Janeiro: jul. 1881, p.1.
Para a elaboração deste trabalho, após identificar os textos referentes à emigração chinesa publicados no Diario do Rio de Janeiro (em torno de 50 artigos) tomamos por base para nossa dis- cussão aqueles que representavam mais claramente os pontos da polêmica em relação à temática da imigração chinesa. Chegamos, desse modo, a um total de 25 textos do Diario para um estudo mais minucioso. Por meio desses, intencionamos compor um panorama geral do tratamento, no Brasil, da emigração chinesa no século XIX, sob a perspectiva do periódico eleito.
A imigração dos coolies: uma questão controversa
A ideia da imigração chinesa, de início, desagradou bastante a sociedade e os políticos bra- sileiros. Imbuídos de preconceitos de raça, sonhava-se com a vinda de imigrantes europeus. Ao mesmo tempo, admitiam que o país não estivesse pronto para receber aquele povo, que considera- vam muito civilizado e, portanto, exigente em relação às condições de trabalho, à locomoção (não havia ainda muitas estradas) e aos valores – já que nada se pagava aos escravos negros.
Destacamos que, na década de 1850, não havia ainda a ocorrência do termo coolie no Dia- rio do Rio de Janeiro; os colonos chineses eram referidos sempre como “chins”. Já havia grande resistência da sociedade em relação à imigração desses trabalhadores para o Brasil, mas a opinião do periódico, de modo geral, era favorável à contribuição de mão de obra chinesa. O jornal, que já acompanhava a experiência da emigração para outros países – sobretudo Cuba e Estados Uni- dos – pensava o trabalho dos orientais na lavoura como boa alternativa em falta da mão de obra escrava negra.
A edição de 08 de junho de 1862 traz uma tradução de artigo do jornal inglês, chamando de Constitucional pelo Diario, com notícias de Havana, que relata:
Em consequência do bom resultado que têm dado os trabalhadores chins, vindos há três ou quatro anos, efetuou-se um contrato por uma casa inglesa desta cidade para a importação de 8.000 chins. Já se acham todos contratados para a sua chegada, ao preço de 125 pesos: vêm justos para trabalharem por 5 anos, recebendo o jornal de 7 pesos fortes por mês. Se este ensaio provar bem, como aconteceu com o primeiro, será sem dúvida repetido11.
Já em 1867, o Diario noticiava o endurecimento das leis antiescravistas em vigor nos Esta- dos Unidos para combater a exploração de mão de obra, iniciativa que certamente amedrontava mais os fazendeiros brasileiros, que já esperavam o fim do trabalho escravo:
Os Chins nos Estados Unidos – Por circular da repartição de fazenda, em Washington, ordenou-se aos inspetores das alfândegas, no Atlântico e no Pacífico, que tratem de averiguar todos os casos de violação das leis relativamente no tráfico de coolies (chins) e deem imediatamente conta à referida repartição, notificando ao mesmo tempo o juiz mais próximo do distrito acerca de tal violação.
Terá por origem este aumento de vigilância os projetos dos puritanos de New England para introduzir coolies no serviço de suas fábricas, que protegidas pelas tarifas quase proibitivas que estão em vigor nas alfândegas, não querem todavia pagar os salários que pede a gente branca que nelas trabalha, e procuram no trabalho desses coolies o aumento dos dividendos, como no tempo da guerra procuraram remédio contra a cons- crição importando alemães?12
11 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 8 jun. de 1862, p.2.
12 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 1 nov. 1867, p.2.
Ainda na década de 1860, encontramos um relatório de Teófilo Ottoni, que demonstra sa- tisfação com sua experiência de alguns anos no emprego de chineses em sua empreitada no Vale do Mucuri, em Minas Gerais, contrariando o que afirmava o senso comum da época. Apesar de um discurso ainda carregado de preconceitos, Ottoni demonstrava preocupação em pagar pelo trabalho e em dar – sobretudo se considerados os padrões da época – um mínimo de dignidade aos colonos:
Contratei o serviço de cerca de 100 chins há três para quatro anos. Foi uma excelente aquisição, de que tenho tirado vantagem. O segredo que dá este resultado é simples, – pontualidade no pagamento do salário estipulado e exatidão no fornecimento dos víveres, na forma de contrato13.
São da década de 1860, quando o Diario do Rio de Janeiro ainda mantinha sua linha avessa à política, a maioria dos textos instrucionais a respeito do cultivo de chá, café, algodão e outros produtos da lavoura, que tinham os chins como seus (potenciais) cultivadores. Cabe aqui destacar, pelo teor desses textos, como era incipiente o conhecimento a respeito desses gêneros de plantio.
Por vezes, aparecia no jornal a seção Agricultura, com informações bastante detalhadas e descri- tivas, mas, ainda assim, superficiais.
F. A. de Varnhagen foi enviado a outros países latino-americanos a fim de avaliar os proven- tos da imigração chinesa naqueles lugares. O diplomata e historiador escreve, em carta ao Minis- tro das Obras Públicas publicada no Diario do Rio de Janeiro, recomendações, reconhecendo que o emprego do trabalho chinês é efetivamente uma boa opção, mormente em vista da falta da mão de obra que acometia certos locais:
Pouco a pouco [...] me abalava a lembrança de que em Lima escasseariam demasiado os criados [...] e ao entrar na ilha de Cuba, em vários engenhos, e ao ver tantos [chins]
trabalhando ativamente não só no campo, como ainda melhor na casa das caldeiras, etc., tinha momentos de chegar a desejar, à custa de quaisquer sacrifícios, ver as cida- des e os engenhos do Brasil povoados de tais entes de raça malaio-mongólica14.
Já em 1868, na seção Exterior, o correspondente do Porto, em Portugal, dava conta de que a questão da emigração dos coolies, pela colônia de Macau, não oferece já aos man- darins a antiga repugnância, em face dos regulamentos ultimamente adotados, e que regem a saída daquela gente do seu país para procurar trabalho no estrangeiro, por meio de contratos de locação15
e prossegue, informando que medidas já são tomadas em caso de coolies enganados com falsas promessas, pois “os emigrados iludidos pelos especuladores são restituídos aos seus lares pelo su- perintendente da emigração dos colonos”16.
Em 1869, em artigo chamado “Trabalhadores para a lavoura”, na seção Colaboração, lou- va-se o trabalho “chin” como única salvação possível para o problema da falta de mão de obra, antecipando, inclusive, que os filhos dos chineses consolidados no Brasil seriam de muito proveito futuramente para o plantio de algodão. O correspondente do Jornal do Comércio em Nova Ior- que defende a mão de obra chinesa, mais barata que a usual, argumentando que “na Califórnia, o europeu americano ganhava de quatro a cinco dollars em ouro por dia, pelo mesmo trabalho
13 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 26 mai. 1860, p.2.
14 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 7 set. 1863, p.2.
15 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 22 out. 1868, p.1.
16 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 22 out. 1868, p.1.
executado pelo chim, com igual perfeição, por um a dous dollars”17. Mais uma vez, destacamos a importância da influência estrangeira nesses trâmites emigratórios. O papel dos correspondentes foi de grande relevo para a formação das opiniões internas, que, como podemos observar, começa a ser ainda mais favorável à vinda de chineses.
Na década de 1870, sobretudo do meio para o fim, o jornal reforça sua postura positiva em relação à adoção do trabalho chinês na lavoura. A pressão para a abolição da escravatura aumen- tava e, na mesma medida, aumentava a pressa em substituir os escravos negros nas plantações.
O subtítulo do Diario do Rio de Janeiro na década de 1870 – “Folha política, literária e co- mercial” – nega, então, que essa folha seja isenta de política. Das três décadas em análise, esta é, indubitavelmente, aquela em que o jornal se debruça mais sobre os aspectos políticos. O periódico passa a ter, inclusive, uma seção dedicada à Câmara dos Deputados, com transcrição de discur- sos. “Comercial” justifica a prevalência dos assuntos de produção e comércio em suas páginas. A preocupação com a questão chinesa era marcadamente voltada para esses aspectos, sobretudo em relação aos processos de comercialização e produção de chá.
Em 1870, ainda, na seção de Publicações a pedido, um leitor discorre longamente sobre a necessidade de empregar mão de obra chinesa no Brasil, apesar de seu descontentamento a res- peito do assunto, chamando os coolies de “classe mais inferior da China” e, ao contrário do que defendem os correspondentes nos países servidos pelos colonos chineses, afirma que eles “para nada prestaram nos países onde os especuladores os têm trazido”18. Esse tipo de colocação apenas reforça a ideia de que não havia argumentos racionais que se sustentassem contra a imigração, mas somente argumentos baseados no racismo e na xenofobia.
Em artigo do mesmo mês de janeiro do ano de 1870, extraído do The Brazil and River Plate Mail publicado na seção “Imprensa Europeia” do Diario do Rio de Janeiro, lamenta-se a postura do Ministro da Agricultura, o Visconde de Cavalcanti, que, dias antes, havia se declarado contrá- rio à imigração chinesa:
Lastimamos ter sabido que [...] o ministro da agricultura do Império do Brasil decla- rou-se em oposição à emigração, se esta não fosse espontânea, considerando que as somas de dinheiro despendidas, todas as vezes que foi preciso para a promover tinham sido gastas inutilmente. [...]
Pelo contrário, deveríamos ter suposto que o primeiro dever do governo era por todos os meio animar e favorecer a emigração19.
O texto segue com o que é quase uma provocação: “A extinção da escravatura nos Estados do Sul da União Americana não pode deixar de ser um bom conselho para o Brasil, e mostra o quão precário é persistir no sistema de trabalho forçado”20. O artigo transcrito procura justificar a escolha dos chineses como trabalhadores ideais para o Brasil em detrimento dos europeus: “gran- de parte do território brasileiro está situada dentro dos trópicos, e é mais apropriada a uma raça como a dos chins”. Por outro lado, o articulista aponta como preocupante e dispendiosa a imigra- ção chinesa, “por causa da distância; além de que, os chins têm sempre em vista voltar a seu país quando terminados os seus contratos”.
Com a libertação dos escravos negros aproximando-se – já se pensava na Lei do Ventre Livre, que seria promulgada no mesmo ano – e a pressão externa contra o tráfico negreiro, aumentam
17 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 27 set. 1869, p.1.
18 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 10 jan. 1870, p.2.
19 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 19 jan. 1870, p. 3.
20 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 19 jan. de 1870, p. 3.
as preocupações com o destino de escravos negros libertos em contato com chineses, classes novas que passariam a fazer parte daquela sociedade. Na transcrição de uma sessão da câmara, um ho- mem identificado como “Sr. Pompeia” teria perguntado ao Ministro da Marinha se
ele pretende aproveitar-se desses asiáticos para contratá-los para a esquadra; e então lembraria a S. Ex. que, em vez de contratar asiáticos, principalmente os coolies que, como S. Ex. sabe, pertencem à classe ínfima dos chins [...], em vez de chamar essa gen- te que tão maus resultados deram entre nós, antes aplicasse estes prêmios e gratifica- ções em alforriar escravos, engajando-os para a marinha, com o que conseguir-se-iam duas vantagens: primeiramente adiantava o empenho em que o governo está na obra de libertação, e em segundo lugar, chamava para o serviço, e dava destino a esses liber- tos, que, na minha opinião, são superiores aos chins, além de dar serviço a essa nova classe que se vai aumentar no país21.
Na seção denominada “Emancipação”, da edição de 7 de agosto de 1871, Cristiano Benedito Ottoni traz notícias sobre um navio incendiado com mais de 650 emigrantes chineses saídos de Macau, ao que o texto segue dizendo que “os escravos amarelos (grifo do original) que escaparem virão desenvolver medonhamente a corrupção dos costumes, a abastardar a raça”22. Cristiano Ot- toni acusa ainda as autoridades de pretenderem substituir escravos negros por escravos amarelos e afirma:
É com efeito a imposição de uma vontade esta tristíssima tentativa de introduzir no Brasil a raça abastardada dos chineses. É uma teima do poder, de fato absoluto, que entre nós amesquinha as inteligências, estraga os caracteres, e dispõe de tudo e de to- dos. É um ato de despotismo vandálico23.
Em 1873, com a Lei do Ventre Livre já em vigor e, portanto, com a escravidão em vias de terminar de fato, na seção “Publicações a pedido”, um artigo assinado por “Um agricultor” apre- senta ainda muitos cálculos financeiros e opinião favorável ao trabalho dos chineses. A essa altura, o discurso em prol da vinda de chineses ganha ainda mais força:
esses colonos têm apresentado grande aptidão à lavoura nas colônias inglesas, fran- cesas, espanholas e nos Estados Unidos da América do Norte. Têm a vantagem de contratar os seus serviços por alguns anos, de alimentar-se de gêneros de produção do país ou em geral de fácil aquisição, de não exigir salários muito elevados, nem grande conforto em suas habitações.
Parece que com tais condições seriam os auxiliares mais idôneos para a nossa lavoura.
Há, porém, prevenção contra a sua introdução; e embora a lavoura não deva consultar senão o seu interesse, uma vez que não ofenda as leis do seu país, deve todavia estar acautelada contra este preconceito24.
Em seu último ano de publicação, 1878, o Diario publica, sob o título “Trabalhadores para a lavoura”, na seção “Agricultura”, um artigo (não assinado) em que se assume a importação de orientais como única solução para cobrir a falta de escravos negros: “A importação de trabalhado- res asiáticos (grifo nosso) é alvitre suscitado pela necessidade incontrastável, que para satisfazer-se
21 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 29 jul. 1871, p. 1.
22 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 7 ago. 1871, p. 3.
23 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 7 ago. 1871, p. 3. - É curioso notar que Cristiano Ottoni, irmão de Teófilo Ottoni, posiciona-se tão fer- renhamente contra a imigração chinesa, enquanto o segundo defendia-a, como vimos em artigo de 1860 (v. nota 13).
24 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 19 nov. 1873, p.2.
não depara outro remédio. Não é dado escolher. Não há ensejo para apurar a preferência”25. Destacamos o tratamento dado aos imigrantes chineses: agora, nem chins, nem coolies, mas trabalhadores asiáticos. Essa mudança de nomenclatura talvez se justifique pela assunção da verdadeira dependência dos grandes agricultores em relação aos chineses e, em decorrência disso, algum respeito tenha começado a surgir.
No Diario do Rio de Janeiro, a questão para em 1878, já que o jornal deixa de ser publicado nesse ano, mas a polêmica continuou em pauta no Brasil. Durante as três décadas analisadas, esse periódico manteve uma postura por vezes contraditória, porém, em sua maioria, favorável à emi- gração chinesa tanto para o Brasil quanto para outros países na América, baseada, muitas vezes, nos relatos da experiência nesses países vizinhos.
A emigração chinesa para as Américas foi, portanto, questão fundamental no debate sobre desenvolvimento da agricultura brasileira no século XIX, formado o impasse do fim da escravidão africana. Com a pressão externa para a abolição da escravatura, era necessário pensar em medidas alternativas que mitigassem os prejuízos e ocupassem a lacuna de mão de obra que seria deixada pelos escravos negros.
Sem bases fundamentadas na razão, os opositores dessa causa agiam movidos pelo preconcei- to. O Diario foi importante mediador desse debate, levantando outras questões – como as publica- ções sobre cultura chinesa – bem como os depoimentos do resultado da experiência da emigração em países vizinhos, como forma de comprovar que os chineses eram, de fato, uma alternativa de mão de obra para a lavoura. Ainda assim, essa polêmica se arrastou por mais algumas décadas26.
Destacamos, por fim, que a função de um jornal de grande influência, como foi o Diario do Rio de Janeiro no século XIX, é, mais do que transmitir informações, ser formador de opinião, sus- citar e alimentar debates, trazendo diversos pontos de vista. Apesar de se pretender, de início, não político, o papel desempenhado pelo Diario foi certamente de grande relevância para a formação do pensamento da sociedade oitocentista a respeito da questão da imigração chinesa no Brasil.
Referências
Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 1850-1878.
CRUZ, Eduardo da. “A Hemeroteca Oitocentista do Real Gabinete Português de Leitura”. in: ____ (org.).
No giro do mundo: os periódicos do Real Gabinete Português de Leitura no século XIX. Rio de Janeiro: Real Gabinete Português de Leitura, 2014.
LIMA, Fernando. Macau: as duas transições. Macau: Fundação Macau, 1999.
MENDONÇA, Salvador de. Trabalhadores Asiaticos. Nova Iorque: Typographia Novo Mundo, 1879.
OLIVA, Osmar Pereira. “Machado de Assis, Joaquim Nabuco, Eça de Queirós e a Imigração Chinesa – qual medo?”. In: Revista da Anpoll. Vol. 2. N. 24. 2008.
SEYFERTH, Giralda. “Colonização, imigração e a questão racial no Brasil”. REVISTA USP. n.53. São Paulo: USP, 2002.
SODRÉ, Nelson Werneck. História da imprensa no Brasil. Rio de Janeiro: Mauad, 1998.
25 Diario do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro: 24 mai. 1878, p.3.
26 Na Revista Illustrada, pelo menos até a década de 1890, esse assunto é debatido.
Festeja a companhia Lusitana, Com banquetes, manjares desusados, Com frutas, aves, carnes e pescados1 Os versos acima, do Canto VI d’Os Lusíadas, que materializam a admiração do Rei de Me- linde pelos nautas lusos, inevitavelmente evocam imagens similares das mais variadas obras lite- rárias, além de possíveis lembranças individuais em quem tenha experimentado refeições fartas e variadas. Esses versos surgem constantemente repetidos, como requintada e sugestiva epígrafe, na obra primordialmente voltada para o preparo de deliciosas iguarias que passamos agora a fo- calizar.
Annona, ou Mixto-Curioso – Folheto Semanal que ensina o methodo de cosinha e copa, com um artigo de re- creação foi um periódico hebdomadário do Portugal oi- tocentista, editado mais precisamente nos anos de 1836 e 1837. A publicação, cujo título homenageia a deusa romana da abundância, das provisões da boca e da co- lheita, via de regra representada com uma cornucópia, teve 36 números, compilados em três tomos, e, em seu conteúdo, além da variedade de receitas culinárias que abrangem o simples e o complexo, encontramos dife- rentes formas de entretenimento.
À primeira vista, pode causar estranheza a in- clusão de folhetos de culinária no projeto O Real em Revista, que visa a preservar digitalmente periódicos raros e importantes do acervo do Real Gabinete Portu- guês de Leitura, sendo a maioria deles de cunho literá- rio. Porém, ao examinarmos atentamente a coleção da Annona, que se encontra completa, encadernada e em bom estado no acervo da casa, as justificativas ultra- passam o simples registro dos hábitos alimentares da sociedade oitocentista portuguesa (e talvez não só).
Degustando a Oitocentista Annona
Luiz Felipe Ventura* e Gilda Santos**
*Pesquisador-júnior do projeto O Real em Revista; licenciando em Letras pela UERJ.
** Coordenadora-geral e orientadora de pesquisa no projeto O Real em Revista; Professora da UFRJ; Vice-Presidente do Real Gabinete Portu- guês de Leitura (Centro de Estudos), onde é a Coordenadora-Geral do Polo de Pesquisas Luso-Brasileiras
1 CAMÕES, Luís de. Os Lusíadas. Lisboa: Instituto Camões, 2000. Canto VI, Est. 2, p. 305
A culinária
Os responsáveis pela lisboeta Annona, queciosamente preservaram o anonimato, bem per- ceberam que a necessidade elementar do ato de comer cedo foi associada pelo homem ao exercício da sociabilidade e explicitam tal percepção logo no texto de abertura do primeiro fascículo, “Ao leitor”:
Nada ha, e se tem mostrado mais necessário, que o comer, sem elle a humana natureza não se pode conservar. O Sábio, e o Ignorante, o Rei, e o Subdito, o Grande, e o Peque- no, todos vivem sujeitos ao império desta Lei, da qual o tempo, e o luxo veio a formar um objecto de passadio, de divertimento, de grandeza e de sociabilidade.2
No trecho citado, argumenta-se que o “comer” é o ato mais necessário da à natureza huma- na, e que nenhum credo ou classe social a isenta desta lei. Aí também se afirma que, ao longo das eras, o que antes era a simples “ação do comer”, evoluiu e adentrou novos âmbitos socioculturais.
Preconizando o “saber de tudo”, que obviamente incluía o “comer”, a Annona reconhece ainda a importância da política, da moda e da diversão... Mas, enquanto esses temas poderiam não agra- dar a todos, nunca se encontraria ser humano a quem não agradasse um saboroso alimento – daí a primazia concedida nas suas páginas ao preparo dos mais variados pratos.
Com tal desígnio, a Annona, nesse mesmo prefácio, sublinha seu pioneirismo:
[...] Eis o motivo que deu logar ao lembrar-nos, que na ocasião em que appareciam Jornaes de Modas, de Musica, e de Recreio, devia tambem aparecer um que tratasse do objecto mais necessário, e mais conveniente, qual é o recreio do paladar, e a conserva- ção satisfatoria da existencia.3
Se pensarmos no romano Apicius, livros de culinária já circulavam pela Europa desde antes de Cristo. Em Portugal, há o registro de um manuscrito do séc. XV e outro do século XVI, sendo este o famoso Livro de Cozinha da Infanta D. Maria, neta do rei D. Manuel. Já o primeiro livro impresso em Portugal, Arte de Cozinha, data de 1680 e tem como autor Domingos Rodrigues, mestre de cozinhas da Casa Real no tempo de D. Pedro II. Consta que um exemplar foi trazido na bagagem de D. João VI, e foi incansavelmente utilizado pela corte instalada no Rio de Janeiro.
Mas tudo indica que, ratificando o que propala na sua introdução4, é Annona o primeiro periódico em língua portuguesa a focalizar detidamente a prazerosa arte. Abalizado estudioso da imprensa periódica, o Professor Ernesto Rodrigues, da Faculdade de Letras da Universidade de Lisboa, declara que, estando incompleto o fundo da Biblioteca Nacional de Portugal e havendo a possibi- lidade de existir alguma não-datada publicação anterior, podemos acatar, com grande margem de acerto, o título de “primeira publicação” que a Annona a si mesma se dá. Pelo que hoje se sabe, a publicação mais próxima, e na mesma trilha, seria “O Cozinheiro. Jornal de Instrucção e Recreio que ensina o methodo de cozinha e copa, com um artigo de variedades”5, que surge dois anos depois, em 1839.
Tudo leva a crer que Annona logo tenha obtido grande sucesso, uma vez que a indicação presente na capa dos fascículos registra seu alcance além de Lisboa (atinge as “Províncias”) e o
2Annona, “Ao Leitor”, Tomo I, nº1, Lisboa, 1836, p. 3
3Annona, “Ao Leitor”, Tomo I, nº1, Lisboa, 1836, p. 4
4Texto completo no Apêndice (com ortografia e pontuação atualizadas)
5Porto: Typographia de Vasconcellos, 1839
aumento de seus postos de venda. Ao fim do nº 13 lê-se o anúncio: “Este Folheto Semanal também se vende no Livreiro d’Alcântara, junto à Igreja do Livramento”6. E em número posterior:
Assigna-se nas lojas de João Henriques, Rua Augusta Nº1, José Joaquim Nepomuce- no, dita rua Nº137, onde se recebe a correspondencia das Provincias, franca de porte.
Assigna-se também e se vende nas mais do costume.7
Procurando cativar, e talvez aumentar, seu público, veja-se, por exemplo, a estratégia implí- cita no anúncio que finaliza o nº 11:
Com o seguinte Nº, acaba a primeira assignatura deste Folheto Semanal: assim,pre- vinem-se os Srs. Assignantes, tanto de Lisboa, como das Províncias, para renovarem as suas assignaturas, a fim de não soffrerem alteração na pontual entrega deste Jor- nal, o qual tem demonstrado credito e probidade, e firme nos mesmos principios, está prompto a continuar, enriquecido de obras novíssimas nos seus artigos, para o que se encomendaram livros de França, donde deve vir o Novo Diccionario de cozinha, publi- cado este anno em Paris, que deve merecer a geral aceitação; assim como tambem os que tocam ao artigo de Recreação, o que melhor se explicará no Prospecto que se vai a publicar. Os preços da assignatura são os mesmos.8
As receitas da Annona usam incontável número de ingredientes, de várias procedências e custos, e abrangem todas as especialidades – carnes, peixes, aves, massas, doces... Os pratos deno- tam preferências de gosto que ainda hoje identificamos como acentuadamente portuguesas e euro- peias. De fato, os nomes dados aos pratos não ultrapassam as fronteiras do continente: “Ponta da alcatra à inglesa”, “Peito de vaca à alemôa”, “Lombo de vaca com enchovas à holandesa”, “Rabos de carneiro à prussiana”, “Crema à suíça”, “Pá de vitela à italiana”, “Massa à espanhola”...
6Annona, Tomo II, nº13, Lisboa, 1836, p. 24.
7Annona, Tomo III, nº25, Lisboa, 1837, p. 1
8Annona, Tomo I, nº11, Lisboa, 1836, p. 264
As exceções são duas receitas carregadas de açúcar: “Doce do Brasil” e “Fatias da China”.
Da transcrição da primeira, abaixo, sublinhe-se o cauteloso comentário final (com grafia e pontu- ação aqui atualizadas): “Esta receita nunca pode ser má. Experimente-se. Porém não é afiançada sem que se lhe tire a prova”. Comentário que é retomado no fascículo seguinte, quase como pali- nódia: “N.B. O doce do Brasil, anunciado no folheto antecedente, se certifica ser bom, e tem nome próprio, o qual é o seguinte = Cangica”9. Assim corretamente rebatizada, possivelmente é esta uma das primeiras aparições da receita em obras estrangeiras de culinária10),
O segundo, que pede “quatro dúzias de gemas de ovos”, encerra as receitas do último fas- cículo e, à guisa de epílogo, é seguido deste dístico: “D’Annona o doce deo aqui seu fim./ Chorai, Golosos, que gostais de mim.”11
Nas páginas finais de cada tomo (com 12 fascículos em cada) encontramos um útil índice geral do volume. Eis um esquemático resumo dos três:
Recreação: O “Mixto-Curioso” e o destaque da poesia.
Os idealizadores do periódico reconhecem a importância do “Recreio”, e definem a Annona como um “novo modo de divertimento”12. Isto porque, além das receitas (que, por si mesmas, já são consideradas por muitos como forma de lazer), a Annona oferece diversas opções práticas e criativas de diversão, acessíveis a várias camadas de público. Justifica-se, pois, o título comple- mentar e optativo da Annona: “ou Mixto-Curioso”, que se refere precisamente ao fato de o perió- dico “envolver diversos objetos recreativos em um mesmo lugar”.
À seção de receitas de cada fascículo, seguia-se outra nomeada de “Recreação”, que, apesar de não obedecer a uma ordem, ou layout, “padrão”, sempre trazia textos de vários gêneros, sobre variados assuntos, incluindo alguns de cunho histórico-literário. As primeiras edições, e mais al- gumas do Tomo II, por exemplo, estamparam a Descrição Topográfica, e Histórica da Cidade do Porto13, um apanhado dos relatos de diversos autores sobre as origens da cidade. Nos mesmos mol-
Iºtomo
“Cosinha”: sopas e técnicas de dissecação de diferentes carnes
“Peixe”: receitas com vários tipos de peixes
“Doce”: biscoitos, “Cangica do Brasil”, doces de ovos, compotas, marmelada...
IIº tomo
“Cosinha gorda”: carnes de porco, caça, cabrito, cordeiro...
“Cosinha magra”: peixes, bacalhau, tartaruga...
“Mariscos”: lagosta, ostra, mexilhões, camarão...
“Especialidades”: massa de pão, de empada, molhos...
“Doce”: bolos, biscoitos, manjares, sonhos, aletria, geléia...
IIIºtomo “Cosinha”: aves, ragús, legumes, raízes e sementes...
“Doce”: pudim, pastéis, tortas, doce em calda...
9Annona, Tomo I, nº6, Lisboa, 1836, p. 130
10Annona, Tomo I, nº5, Lisboa, 1836, p. 104
11Annona, Tomo III, nº36, Lisboa, 1837, p. 268
12Annona, “Ao Leitor”, Tomo I, nº1, Lisboa, 1836, pag. 5.
13Annona, Tomo I, nº1, Lisboa, 1836, p. 17
des, “Da História de Braga”, no Tomo III. Ainda em termos de narrativa, a seção de “Contos” e a seção de “Fábulas”figuram em todos os tomos. Na primeira, histórias sérias ou engraçadas, fan- tasiosas ou realistas, mais curtas ou mais longas, mas que raramente ultrapassavam um número, como foi o caso de O Franciscano – Lembranças de uma jornada em Portugal, publicado nas edições 12 e 13. Na segunda, com título algo camoniano, proliferam as peripécias dos deuses e heróis da mitologia greco-latina: Europa, Hércules, Andrômeda, Éolo, Enéas, Proserpina, Plutão...
Fora do âmbito das narrativas, não faltavam passatempos, como as “Sortes” que a Annona publicou três vezes – a “loteria das flores”14, “loteria amorosa”15 e “para as noites de fogueiras”16 –, que consistiam em elaborados jogos de salão, a requererem grupos de participantes e o uso de objetos simples, como flores ou pedaços de papel, tudo em nome do convívio prazeroso.
Mas, depois das receitas, talvez seja a poesia o gênero textual a ocupar mais espaço nas páginas do periódico. Além de possuir sua própria seção em quase todos os números da Annona, por vezes podemos encontrar textos em versos nas demais, como na das “Fábulas”. Contudo, a seção especificamente intitulada de “Poesia” não contém apenas poesia. Geralmente inicia-se pe- las “variedades”, que abrigam logogrifos, anedotas (por vezes em forma de poesia), “bons ditos”
(citações de frases célebres ou edificantes, provérbios ou ditados populares) enigmas, charadas e adivinhações, tais como as que ainda figuram hoje nas páginas de nossos jornais e revistas (inclu- sive com o artifício de só revelar as respostas corretas na edição seguinte. Enfim, várias formas de distrair os leitores, mesmo solitários.
Se, como vimos, todos os números da publicação têm, no verso da capa (sendo a capa si- multaneamente página de rosto), a referida citação d’Os Lusíadas, é válido supor que ela indicie apreço a esse gênero literário. E assim é. Buscando uma síntese tipológica, podemos destacar:
• poemas de nomes consagrados: Ganha a primazia o poeta árcade Bocage. O folheto nº 15 teve sua seção de poesia, “dedicada” ao poeta, reproduzindo dois sonetos que, segundo a tradição, foram escritos por ele no leito de morte17, – os conhecidos “Meu ser evaporei na lida insana” e “Já Bocage não sou” –, seguindo-se outro, “Em louvor do Soneto antecedente”, assinadopor um M.
P. de A. Ribeiro. E, antes dessa sequência, versos de Bocage são tomados como epígrafe para a
“Fábula” de “Leandro, e Hero”18
• poemas de contemporâneos ilustres: Sem dúvida, é Antonio Feliciano de Castilho o mais aquinhoado. Nome em profícua atividade e de muito prestígio no tempo da Annona, é presença que nobilita a publicação. Talvez por isso, seus poemas são sempre precedidos de algum elogio.
Leia-se o preâmbulo à sua estreia no periódico, com o poema “A sesta”:
“Não deixará de ser agradavel aos nossos Leitores a seguinte linda Poesia do Sr. An- tonio Feliciano de Castilho, bem conhecido, e acreditado, e a cujo merecimento nada accrescentariam ainda os mais facundos elogios.”19
A este, sucedem-se, todos no Tomo I: “Desejo Inutil” (nº6) , “A Feiticeira” (nº8), “A Visita Imaginaria” (nº10) e “O Amor Perfeito “(nº12).
14Annona, Tomo I, nº4, Lisboa, 1836, p. 85
15Annona, Tomo II, nº21, Lisboa, 1837, p. 199
16Annona, Tomo III, nº34, Lisboa, 1836, p. 238
17Annona, Tomo II, nº15, Lisboa, 1836, p. 65-66
18Annona, Tomo II, nº15, Lisboa, 1836, p. 63
19Annona,Tomo I, nº4, Lisboa, 1836, p. 83
• poemas e excertos traduzidos: Fazendo par com artigos publicados em outras seções da Annona traduzidos do hebdomadário francês Le Magasinpittoresque (alguns deles biografando monarcas e figuras de relevo, como a Rainha da Inglaterra Joana Grey20 e John Milton21), esta seção nos traz poemas e fragmentos poéticos traduzidos do Francês, como a série “As Quatro Par- tes do Dia”, publicada da edição 33 à 36, sendo o tradutor identificado apenas por suas iniciais, J.X.P. da S..
• poemas “de uma Senhora”: Numa publicação cujo público-alvo prioritário seria o femi- nino, não podia faltar espaço a uma voz de “Senhora” (ainda que, oculta pela forma indefinida, o não fosse...). Com melodia fácil, temática amorosa e sentimentalismo singelo, bem traduzia o estereótipo feminino da época. Como exemplos, podemos mencionar: “Uma Lição d’Amor”22 e
“Na Face d’Amor”23
• poemas anônimos: deste conjunto, que talvez seja o mais numeroso de todos, e em ab- soluto contraste com o precedente, vale destacar, pela surpresa causada no contexto da publica- ção, a poesia burlesca e satírica, certamente calcada na proverbial escatologia bocageana, que ocupa as páginas “poéticas”24 do folheto 21. Os títulos, ou primeiros versos, dispensam maiores comentários: “Bôca, e mais bôca de letrinea casta!...”, “Qualidades do Peido” (soneto seguido de um completo ABC do peido), “Excellencias, e prerrogativas do Piano Cú, sobre o Piano, e mais Instrumentos: demonstradas até a ultima evidencia nas seguintes [20!] Décimas”.
• poemas autorreferenciais: Em três ocasiões, os responsáveis pela Annona inseriram na publicação poemas próprios, direcionados aos seus assinantes, que, com diferentes modulações, tematizam a própria obra. A primeira delas ocorre logo após o texto de abertura, o citado “Ao leitor”, e, figurando uma espécie de ementa, ou menu, leva o singelo título de “Prólogo”. Ei-lo transcrito25, com grafia e pontuação atualizadas:
20Annona, Tomo III, nº33, Lisboa, 1837, p. 213
21Annona, Tomo II, nº20, Lisboa, 1837, p. 188
22Annona, Tomo III, nº28, Lisboa, 1837, p. 89
23Annona, Tomo III, nº31, Lisboa, 1837, p. 164
24Annona, Tomo II, nº21, Lisboa, 1837, p. 205-221
25Annona, Tomo I, nº1, Lisboa, 1836, p. 6
Do que serve, Leitor, hajam manjares, Bons doces, bons pitéus, bem singulares, Altos recreios, que o prazer dedica
Para a boca tornar mais sábia e rica?
Coisas, sim, de sabor, mas a quem come Conhecidas por boas pelo nome.
Verdade é que a comer não se precisa Mais que dente aprontar, que o bucho guisa Cosidos, fricassés, doces, assados,
Sem diferença fazer entre bocados.
Porém, justo não é, não é bonito, Estar comendo Cabra por Cabrito, Ou gorda Ratazana por Coelho, E só, por molho ter muito vermelho.
Gosto, cheiro suave, desta forma O paladar co’ a vista se transforma.
Eis, pois, razão bastante que me anima A oferecer-te um misto coisa prima,
No método que tem na boa escolha Dum jantar se dispor mesmo sem ôlha.
Também na sobremesa, com fartura Comer tu saberás muita doçura.
Enfim tais coisas tem este Livrinho, Que somente lhe falta o belo vinho.
É parecer d’amigo, proveitoso, Dizer que o tenha quem for desejoso.
Quanto ao preço, por certo mais barato, Tu não podes ornar com aparato A mesa das funções aniversárias, Onde a pança se vê com luminárias.
E para divertir-te com mais graça, Tens na Recreação muita negaça:
Fábulas, contos, sortes, historietas, Poesia, enigmas, ditos, muitas pêtas.
Agora à Musa eu mando que se cale, Pois quem mais quer saber, compre, que Vale.
Como se vê, neste trailer, com jocosa enumeração de “delícias”, o leitor é chamado a comprar o “livrinho”, para que facilmente aprenda a distinguir um coelho de uma “gorda ratazana” e, apurando sua percepção alimentar, não seja ludibriado. Sem dúvida, os dois versos finais – “Agora à Musa eu mando que se cale, /Pois quem mais quer saber, compre, que Vale” –surpreendem pelo excelente achado cômico: subvertendo a tradição épica, mandar que a musa se cale (desconvocan- do-a de sua função para que não mais revele tudo de extraordinário que o livro contém) é a ma- neira mais eficaz de impelir o leitor à compra, pois esta efetivamente vale. Eis o anti-uso do tópico clássico a serviço da propaganda...
A segunda ocasião, dá-se no fascículo 26 e é um soneto26 dirigido “A todos os Senhores Assig- nantes”, que leva um J como autor:
A Deusa da Abundância, a grata Annona, Aquela que não pode ser mesquinha, Que muito saboreia na cozinha E na copa é também boa Patroa.
Dos gostosos pitéus Senhora, e Dona.
Que dos seus assinantes é Madrinha:
Por folar vos of ’rece uma galinha, Um leitão, um cabrito, uma azeitona, Bom carneiro, perus, bolos com leite, E outras mais ninharias assim destas, Que mui fácil se crê ninguém rejeite.
Porém não consintais nas vossas festas Penetre o vago, imaginário enfeite, Que busquei para dar-vos Boas Festas
Apesar do enigmático final, ficam claras as dadivosas e comemorativas intenções do poema, espécie de porta-voz da própria obra.
Por fim, o terceiro desses casos ocorre na última edição do periódico, quando Annona, sem qualquer esclarecimentos ou justificativa, anuncia seu fim e, num soneto “Do R”, faz a “Despedi- da aos Senhores Assignantes”27:
Annona, a Deusa Annona Generosa, Que em Lysia apareceu já fez um ano, Que nunca se valeu do negro engano, Sendo sempre mui doce, e saborosa;
Histórica, poética famosa,
Cumprindo em tudo exata todo o plano, Séria, e risonha d’atrativo lhano,
E por imensas vezes fabulosa:
Recebendo do Olimpo alto Decreto,
Para que o campo deixe aos mais feirantes, A executá-lo parte com afeto.
26Annona, Tomo III, nº26, Lisboa, 1837, p. 42
27Annona, Tomo III, nº36, Lisboa, 1837, p. 277
E se aos Polos passar os mais distantes Lá mesmo espalhará com valor reto, Quanto aos Lusos deveu seus Assinantes.
Deusa e obra se confundem. Do Olimpo veio “alto Decreto” que obriga a Deusa a ascender, deixando o cam- po livre “aos mais feirantes” (outros periódicos?). Con- tudo, certa e enorme é sua gratidão pelos Lusos, que ela
“espalhará” mesmo nos mais distantes Polos por onde passe...
Partindo Annona, ficamos cheios de dúvidas: por que findou essa publicação que aparentava sucesso? Por que jamais nos dá pistas sobre seus editores?
Conclusão
Tendo em vista o que acabamos de expor, podemos assegurar que foi certeira a escolha da Annona como um dos periódicos a serem digitalizados pelo Projeto O Real em Revista (disponível em www.orealemrevista.com.br).
Além do retrato da época, traçado a partir da cozinha e dos salões oitocentistas, a diversidade de matérias que reúne permite infinitos diálogos com inúmeras outras pu- blicações, de várias épocas, quer privilegiem o histórico, o literário, o social, o antropológico etc., sem esquecer, obviamente, o culinário. Nesse sentido, apetece particularmente confrontar este primeiro perió- dico em língua portuguesa voltado para as artes gastronômicas com os incontáveis impressos que vemos nestes tempos superlativos exibidos nas bancas de jornais, ou nas livrarias, ou nos super- mercados, ou nas delicatessens. E por que não arriscar a busca de elos com outras mídias, como os programas de TV pilotados por Chefs que angariam grande audiência, para não se sabe quantos canais?... Enfim, Annona, fazendo jus ao nome, propicia, a quem dela se aproximar, fartura ines- gotável de projetos.
Referências
ANNONA OU MIXTO-CURIOSO – FOLHETO SEMANAL QUE ENSINA O METHODO DE COSI- NHA E COPA. Lisboa: Tipografia da Viúva Silva e Filhos. 1836-1837.
CAMÕES, Luis de. Os Lusíadas. 4ª ed. Lisboa: Instituto Camões, 2000.