Processo 38/2007-JP Data do documento 11 de setembro de 2021 Relator Angela Cerdeira
JULGADOS DE PAZ | CÍVEL
Sentença
DESCRITORES
Contrato de viagem turística
SUMÁRIO
N.D.
TEXTO INTEGRAL SENTENÇAI. IDENTIFICAÇÃO DAS PARTES
Demandantes: 1 - A e 2 - B Demandada: C
II. OBJECTO DO LITÍGIO
Os Demandantes intentaram contra a Demandada a presente acção declarativa, enquadrável nas alíneas h) e i) do nº 1 do artigo 9º da Lei n.º 78/2001 de 13 de Julho, pedindo a condenação deste a pagar-lhe a quantia de €2.200, a título de prejuízos patrimoniais e não patrimoniais por si sofridos, em consequência do incumprimento parcial de um contrato de viagem organizada pela Demandada.
um pacote turístico de viagem e estadia em Nova York, o “voucher” da C não foi aceite pelo hotel contratado, o qual lhes exigiu o pagamento da estadia, cativando o respectivo valor no saldo do cartão de crédito. Tal operação esgotou o “plafond” do cartão, obrigando os Demandantes a deslocarem-se a D compatíveis com os seus cartões de débito e a efectuar inúmeros telefonemas para a Demandada, acrescendo o dano das férias estragadas derivado dos inconvenientes causados, desilusões e aborrecimentos.
A Demandada apresentou contestação começando por impugnar a qualificação do contrato como “viagem organizada”, considerando-o antes “viagem turística”. Alega que os Demandantes não pagaram nada, pois, a final, quem pagou a estadia foi a Demandada e que esta diligenciou atempadamente o pagamento através do envio da cópia do seu cartão de crédito para o Hotel. Pelas contradições reveladas no requerimento inicial, pede a condenação dos Demandantes como litigantes de má fé em multa condigna e indemnização à Demandada de valor não inferior a €250.
O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, do objecto, do território e do valor.
As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas. Não se verificam quaisquer excepções ou nulidades, nem quaisquer questões prévias que obstem ao conhecimento do mérito da causa.
Procedeu-se à realização da audiência de julgamento com observância do legal formalismo conforme resulta da Acta.
III. FUNDAMENTAÇÃO DE FACTO
Consideraram-se provados os seguintes factos relevantes:
A. Em meados de Agosto, os Demandantes dirigiram-se à aqui Demandada, com intenção de adquirir um pacote turístico do operador TAP Tours que consistia em duas passagens aéreas, ida e volta para Nova York e Estadia no hotel “Pennsylvania” por 5 noites, pelo preço de €2.326,00, mais taxas, que rondavam os €252,00 (cfr. doc. fls. 12 e 13).
B. No dia 1 de Setembro, os Demandantes entregaram como sinal um cheque no montante de € 580.
C. Volvidos poucos dias, os Demandantes foram informados que o hotel incluído no pacote turístico não tinha vagas disponíveis para as datas em questão.
D. A funcionária da C informou que seria melhor optarem por realizar a viagem sem a intervenção de um operador, ou seja, seria a C a organizadora da viagem, tendo nessa altura recomendado o hotel E.
E. Contudo, a opção desse hotel seria mais cara que a opção inicial, em cerca de €300.
F. No seguimento desse contacto, no dia 9 de Setembro de 2006, os Demandantes celebraram um contrato de prestação de serviços com a aqui Demandada, o qual incluía duas passagens de avião, ida e volta, no dia 15 e 20 de Setembro, respectivamente, bem como alojamento nesse período, no hotel E, em Nova York.
G. Nessa data o cheque de €580 foi devolvido aos Demandantes, H. que emitiram novo cheque no montante de €2.887,00.
I. No dia 11 de Setembro, a funcionária entregou aos Demandantes o voucher, as passagens de avião bem como o programa da viagem (cfr. docs. fls. 14 e 15).
J. No dia 13 de Setembro o cheque mencionado em H) foi descontado (cfr. doc. fls. 16).
L. No dia 15 de Setembro os Demandantes dirigiram-se ao hotel E e entregaram o voucher da C.
M. Contudo, foi solicitado pela recepcionista o cartão de crédito dos Demandantes para efectuar o pagamento das 5 noites.
N. Após questionarem tal facto, foram informados que o voucher da C não seria aceite por falta de pagamento.
O. Assim sendo, o hotel procedeu ao pagamento da primeira noite através do cartão de crédito dos Demandantes.
P. Angustiados com a situação, os Demandantes entraram em contacto com a agência por SMS para o nº de telemóvel de emergência indicado no programa da viagem: “F. E não recebeu pagamento de 5 noites. Agradeço rapidez pois já tive pagar 1ª noite. A”.
Q. Contactaram, igualmente, a sua filha, G, que se encontrava em Portugal para no dia seguinte, Sábado, se deslocar à agência informando o que tinha sucedido e comunicando que os Demandantes não possuíam capacidade financeira para suportar os encargos das restantes noites no hotel, e que tal situação iria prejudicar as suas férias há muito planeadas e desejadas.
R. Sábado, G dirigiu-se à agência e falou com a funcionária que procedeu à organização das presentes férias, F, tendo esta informado que a situação seria resolvida, sem falta, nesse mesmo dia.
S. No dia 16 é enviado um sms aos Demandantes com a seguinte informação: “As minhas desculpas. O hotel tem um fax nosso desde o dia 13 a autorizar o pagamento com o cartão de crédito da C”.
T. Sucede que no dia 17 o hotel continuava a afirmar que não tinha recepcionado o pagamento, apenas a reserva do quarto por aquele período, exigindo aos Demandantes, mais uma vez, o pagamento do quarto.
U. Nessa sequência os Demandantes enviaram nova sms para a agência: “E (fax x) continua a insistir não ter ordem paga v/ obrigando-me a pagar. Suposição td pago estar causar-me embaraços. Apressem solução. A p F”.
V. No dia 18 receberam uma mensagem da F: “Lamento esta situação. Ainda não percebo qual o problema do hotel. Dou-lhe a minha palavra que tudo ficará resolvido brevemente”.
X. Nesse mesmo dia, e conforme já tinha sido previamente planeado, os Demandantes solicitaram uma excursão para Washington, para o dia seguinte, pelo que forneceram o número do cartão de crédito para ser debitada a mesma, único meio de pagamento aceite para esse fim.
poderiam ir na excursão, porque o cartão de crédito não tinha saldo para efectuar mais nenhum pagamento, em virtude do saldo ter ficado cativado para o pagamento da estadia das 5 noites.
AA. Angustiados com toda a situação, é enviada nova sms à C a/c da F: “F. E insiste q só s/ fax (x) ou tel (x) servem p receber ordem pagamento q ainda não têm. Cativaram valor 5 noites m/ crt crd que já invalidou tour washin. Desiludido c/ v/ acta preocupado c/ final estadia. A”.
BB. No dia 20, último dia de férias, a situação ainda não estava resolvida pelo que foram efectuados vários telefonemas quer pelos Demandantes quer pelas suas filhas, que se encontravam em Portugal, para a agência, que só nesse momento logrou contactar telefonicamente para o hotel.
CC. Após esse contacto, a duas horas da saída do hotel, os Demandantes foram informados que o pagamento da estadia era da responsabilidade da agência. DD. Nessa mesma data foi solicitado pelos Demandantes o comprovativo do pagamento das noites, tendo o funcionário do hotel entregue ao Demandante as ordens de pagamento efectuadas, informando-os que as mesmas foram canceladas, nessa data, facto que se veio posteriormente a confirmar (cfr. Doc. Fls. 21).
EE. Os Demandantes não aproveitaram as férias como pretendiam.
FF. Durante os cinco dias, não puderam fruir as férias como ambicionavam, sempre a “fazer contas à vida”.
GG. Ao longo da semana tiveram que percorrer as ruas de Nova York para encontrarem D compatíveis com os seus cartões de débito,
HH. Sempre angustiados com o facto de poderem ficar em Nova York sem qualquer meio de pagamento.
II. As expectativas dos Demandantes foram lesadas, pois em vez de fugirem ao stress da vida quotidiana, de obter repouso e despreocupação, obtiveram uma semana cheia de momentos de preocupação, angústia, stress e desgastes emocionais.
Motivação dos factos provados:
Porquanto não foram objecto de impugnação especificada, consideraram-se admitidos por acordo, nos termos do n.º 2 do artigo 490º do C.P.C., os factos descritos nas seguintes alíneas: A a L, P a S, U e V, AA e BB.
Os restantes factos resultaram demonstrados pela conjugação dos documentos juntos aos autos, supra identificados, com os depoimentos isentos e credíveis das testemunhas H e G, filhas dos Demandantes, que relataram as dificuldades sentidas e os sentimentos experimentados pelos pais durante as férias, em consonância, aliás, com o próprio depoimento da testemunha F, funcionária da Demandada, que por várias vezes aludiu à “angústia dos clientes”.
Factos não provados:
1. Na noite do dia 18, a Demandante passou mal, tinha ao longo do ano planeado a viagem aos EUA, escolhendo o que iria visitar, tendo tudo ido por água abaixo.
2. No dia 13 de Setembro, a Demandada remeteu um fax ao E com cópia do cartão de crédito em que deveria ser debitado o pagamento, encontrando-se, assim, o hotel na posse dos elementos necessários para proceder ao pagamento.
Motivação dos factos não provados:
1. Nenhuma das testemunhas inquiridas relatou tal situação de mal-estar da Demandante.
2. A testemunha F, funcionária da Demandada que atendeu os Demandantes, explicou que o hotel não aceitou a ordem de pagamento remetida por fax no dia 13 de Setembro, em virtude de não estar instruída com a cópia do cartão de crédito da agência, acrescentando que desconhecia tal exigência dos hotéis norte-americanos, não sendo procedimento normal, designadamente, nos hotéis europeus. Disse ainda que tentou ligar para o hotel logo no dia 16 de Setembro, mas não conseguiu, e que apenas no dia 19, devidamente elucidada, remeteu a cópia do cartão de crédito.
IV. ENQUADRAMENTO JURÍDICO
Segundo o artigo 17.º, 1 do D.L. 209/97, de 13 de Agosto (redacção introduzida pelo DL 12/99, de 11 de Janeiro), são viagens turísticas as que “combinem dois dos serviços seguintes: a) transporte; b) alojamento; serviços turísticos não subsidiários do transporte”. Para que estejamos na presença de uma viagem turística basta, por isso, que haja combinação de, pelo menos, dois daqueles serviços.
Considera o nosso legislador que as viagens turísticas em sentido amplo podem ser de três tipos: as viagens organizadas, as viagens por medida e as que não se incluam num tipo nem noutro, que se denominam viagens turísticas em sentido estrito.
As viagens por medida encontram-se definidas no artigo 17.º, n.º 3 como “as viagens turísticas preparadas a pedido do cliente para satisfação das solicitações por este definidas”, por contraponto às viagens organizadas, cuja iniciativa parte da agência de viagens e são elaboradas para grupos indeterminados de pessoas.
Assim, atenta a factualidade provada, o contrato em apreço deve ser qualificado como viagem por medida, pois foi elaborado a partir da iniciativa dos clientes, aqui Demandantes, e especialmente para eles.
O contrato de viagem por medida é objecto de um regime legal distinto da viagem organizada, menos exigente em sede de responsabilidade civil da agência de viagens, mas com algumas regras comuns.
É o caso da obrigação de entrega de documentos, prevista no artigo 19.º, n.º1, aplicável à generalidade dos contratos celebrados entre agências de viagens e clientes. Para que o cliente possa aceder a determinados serviços incluídos na viagem turística, deve a agência organizadora tomar as providências necessárias à obtenção dos documentos indispensáveis à prestação de tais serviços, bem como proceder à entrega dos mesmos ao cliente. Os exemplos mais comuns são, como enumera MIGUEL MIRANDA, “os bilhetes de transporte,
os vauchers de alojamento ou os bilhetes de espectáculos culturais ou desportivos”.
Quando é a própria agência a emitir o documento, explica o mesmo Autor, incumbe à agência não só entregá-lo ao cliente, mas também garantir a sua eficácia.
No âmbito da responsabilidade das agências de viagens, determina o n.º 5 do artigo 39.º, que estas “respondem pela correcta emissão dos títulos de alojamento e de transporte (…)”.
No caso em apreço, a C emitiu o voucher de alojamento no hotel E, mas não diligenciou atempadamente pela recepção do pagamento da estadia por parte do hotel. Na verdade, enviou um fax no dia 13 de Setembro com a ordem de pagamento através de cartão de crédito da agência, aí identificado, mas sem cópia do mesmo, elemento considerado imprescindível pelo hotel para proceder ao pagamento.
Carecia, assim, de eficácia o voucher da C, cuja falta é imputável a título de culpa à Demandada, por lhe ser exigível, como profissional de turismo, que conhecesse os procedimentos exigidos pelos empreendimentos turísticos norte-americanos para garantia do pagamento.
A falta de diligência da Demandada no cumprimento das suas obrigações acessórias acarretou danos para os Demandantes que são imputáveis àquela, em termos de causalidade adequada.
Assim, resultou provado que a cativação do saldo do cartão de crédito pelo Hotel obrigou os Demandantes a procurarem Caixas Automáticos Multibanco e a realizarem chamadas telefónicas para a Demandada. No entanto, tais danos patrimoniais não foram concretamente demonstrados (podendo sê-lo, com bilhetes ou recibos de transporte, ou extracto da operadora de telemóvel), pelo que, recaindo o ónus da prova sobre os Demandantes, o pedido indemnizatório dos mesmos não pode proceder, sob pena de ser proferida condenação “à toa”. Quanto ao dano das “férias estragadas”, não restam dúvidas de que as
expectativas dos Demandantes em passarem umas férias descontraídas e sem preocupações saíram lesadas.
Como explica MIGUEL MIRANDA, “parece adquirir autonomia o dano resultante da frustração da viagem, dos inconvenientes, preocupações, desilusões e aborrecimentos resultantes da não realização da viagem organizada ou da sua execução em modo diverso daquele que foi contratado” .
E seguindo de perto o mesmo Autor, consideramos o dano das “férias estragadas” um dano não patrimonial, susceptível, face ao disposto no nosso ordenamento jurídico, de ser reparado. A nossa lei admite, no artigo 496.º do Código Civil, um princípio geral de ressarcibilidade dos danos não patrimoniais, desde que a sua gravidade e relevância jurídica permitam qualificá-los como indemnizáveis. Por outro lado, ainda que não o seja de forma unânime, tem-se admitido o ressarcimento dos danos não patrimoniais resultantes da responsabilidade contratual.
Conclui-se, assim, que a Demandada deve ressarcir tal dano não patrimonial resultante do cumprimento defeituoso das suas obrigações contratuais.
Quanto ao cálculo da indemnização a atribuir, o seu valor deve compensar os Demandante da frustração e experiência desagradável vivida. Assim, condena-se a Demandada a pagar aos Demandantes a quantia de €1000,00.
Do pedido de indemnização por litigância de má fé.
Nos termos do artigo 456º do C.P.C. deve ser condenado como litigante de má fé todo aquele que, com dolo ou negligência grave, deduz pretensão ou oposição cuja falta de fundamento não podia ignorar, devendo ainda ser condenado como tal quem tiver alterado a verdade dos factos ou omitido factos relevantes para a decisão da causa ou aquele que tiver violado gravemente os deveres de cooperação ou tiver feito do processo ou dos meios processuais um uso manifestamente reprovável, com o fim de conseguir um objectivo ilegal, impedir a descoberta da verdade, entorpecer a acção da justiça ou protelar, sem fundamento sério, o trânsito em julgado da decisão – als. a) a d) do nº 2.
Nos presentes autos, os Demandantes lograram provar a essencialidade da sua versão, não se vislumbrando um comportamento, susceptível de ser considerado, como litigantes de má-fé, pelo que improcede este pedido.
V. DECISÃO:
Face a quanto antecede, julgo parcialmente procedente a presente acção e, por consequência, condeno a Demandada a pagar aos Demandantes a quantia de € 1000,00 (mil euros), absolvendo-a do demais peticionado.
Custas na proporção de metade para cada parte, atento o decaimento no pedido.
Porto, 05 de Dezembro de 2007 A Juíza de Paz
(Ângela Cerdeira)
Processado por computador Art.º 138º/5 do C.P.C. VERSO EM BRANCO
Julgado de Paz do Porto