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Mana vol.5 número1

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Academic year: 2018

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ABREU, Regina. 1998. O Enigma de Os Sertões. Rio de Janeiro: Funarte/ Rocco. 410 pp.

Candice Vidal e Souza

Dou tora n d a , PPG AS-M N -UFRJ

A re p u ta çã o d e O s S e rtõe s com o u m clá ssico n a cion a l a o lon g o d o sé cu lo XX e a con sa g ra çã o d e Eu clid e s d a C u n h a com o a u tor d e u m d os m a iore s re tra tos d a n a cion a lid a d e e stã o n o ce n tro d a in -ve stig a çã o d e Re g in a Ab re u . N a cor-re n te d e cor-re visita çõe s e in ova çõe s n a p e sq u isa sob re os a con te cim e n tos e m torn o d a com u n id a d e d e C a n u d os, e sta ve rsã o d a te se d e d ou tora m e n to, d e fe n -d i-d a e m 1997 n o PPG AS/ M N / UFRJ , é p u b lica d a e m b oa h ora , a te sta n d o q u e os e ve n tos ocorrid os h á ce m a n os e su a s in te rp re ta çõe s con stitu e m a in d a d e sa fios in te le ctu a is con te m p orâ n e os. O tra -b a lh o d e A-b re u a ce rta a o e scolh e r u m a le itu ra d e O s S e rtõe s q u e p rivile g ia su a d im e n sã o d e n a rra tiva d a n a cion a lid a -d e , p ois é e m su a -d im e n sã o -d e p e ça e x-p lica d ora d a b ra silid a d e q u e re sid e se u d e scon ce rta n te p re stíg io e su a p e re n i-d a i-d e n a m e m ória n a cion a l.

O p rim e iro ca p ítu lo, “ O Livro ‘N ú m e ro Um ’” , re cu p e ra u m a oca siã o re ce n te d e re a p re se n ta çã o d a s q u a lid a -d e s -d e O s S e rtõe s n a e sta n te -d os clá sscos re p re se n ta tivos d a cu ltu ra b ra sile i-ra . N a e n q u e te fe ita p e la re vista Ve ja e m 1994, e n tre q u in ze p re stig ia d os in

-te le ctu a is, a ob ra d e Eu clid e s d a C u n h a foi a q u e m a is re ce b e u in d ica çõe s. A a u tora re con h e ce n e sse re su lta d o u m sin tom a d a e ficá cia d a s in ú m e ra s a çõe s con sa g ra d ora s q u e con stru íra m , d e sd e su a p rim e ira e d içã o, u m lu g a r p a ra a ob ra e se u a u tor n o sa crá rio d a n a çã o. Ab re u su g e re q u e a lon g e vid a d e d o va -lor sim b ólico d e O s S e rtõe s se ria u m a p rop rie d a d e d os te xtos q u e re sp on d e m a d e m a n d a s socia is, e q u e sã o ca p a ze s d e re d im e n sion a r se u h orizon te orig i-n a l d e sig i-n ifica çã o. A g ê i-n e se d e u m clá ssico n a cion a l é , p ois, a q u e stã o te ó-rica d e fu n d o p a ra p e n sa r O s S e rtõe s. Pa ra fa zê -lo, a a u tora re corre a o m od e lo con stru íd o p or Bou rd ie u com o a p oio p a ra e lu cid a r os m e ca n ism os in stitu cio-n a is d e p rod u çã o d os clá ssicos e id e cio-n ti-fica r os a g e n te s d e con sa g ra çã o e a s e stra té g ia s e m p re g a d a s. O stra b a lh o cu m p re e sse rote iro a o in d a g a r sob re os a n -te ce d e n -te s d a ob ra e , e m se g u id a , d e d i-ca r-se a p róp ria cria çã o d o te xto e u cli-d ia n o, su a cli-d ifu sã o e g lorifica çã o e n tre os le tra d os n a cion a is.

O ca p ítu lo se g u in te , “ Esp a ço d os Possíve is” , situ a Eu clid e s d a C u n h a n a s re la çõe s fa m ilia re s q u e o e n volvia m e n a socie d a d e im p e ria l on d e o fu tu ro e s-critor e n ca m in h ou su a tra je tória e scola r e form ou se u s va lore s p e ssoa is. Ab re u a p re se n ta , a ssim , “ os ca m in h os p ossí-ve is e a s p e rsp e ctiva s con cre ta s” colo-ca d os d ia n te d o jove m n a scid o e m 1866. A a u tora a cre sce n ta in form a çõe s sob re a s con d içõe s d o ca m p o in te le

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tu a l n a se g u n d a m e ta d e d o sé cu lo XIX, a p re se n ta n d o a s tra je tória s d e J osé d e Ale n ca r e M a ch a d o d e Assis com o con tra ste fa ce à q u e la q u e se d e se n h a va p a ra Eu clid e s d a C u n h a . N e sse p a n ora m a , h á a p e n a s u m e q u ívoco, q u e , se a u xilia a tra ça r o p e rfil con se rva d or d a fa -m ília d e J osé d e Ale n ca r, n ã o corre s-p on d e a os fa tos d a h istória ce a re n se . Ao con trá rio d o q u e se a firm a (:55), a a vó p a te rn a d e Ale n ca r, D. Bá rb a ra , foi p a rtid á ria d os re volu cion á rios d e 1817.

O ca p ítu lo 3, “ Dom ín io d a s O p çõe s” , tra ta d a s a lte rn a tiva s e fe tiva -m e n te se g u id a s p or Eu clid e s d a C u n h a , re ssa lta n d o os sig n ifica d os d e u m a ca r-re ira m ilita r n o con te xto d a form a çã o d a s e lite s im p e ria is, u m a ve z q u e e sco-lh e u cu rsa r e n g e n h a ria n a Escola M ili-ta r. De sse p e ríod o, d e sili-ta ca -se o e p isó-d io isó-d e in su b orisó-d in a çã o isó-d o ca isó-d e te isó-d ia n te d e se u s com a n d a n te s, q u e o le vou a se r e xp u lso d a q u e la in stitu içã o e a se g u ir a ca rre ira jorn a lística . A cola b ora çã o com o jorn a l Prov ín cia d e S ão Pau lo (O Esta-d o Esta-d e S ão Pau lo Esta-d e p ois Esta-d e 1889) p e rm i-tiu a e le e xp re ssa r su a s id é ia s re p u b lica n a s e , m a is ta rd e , o e n via ria a o lica m -p o d e b a ta lh a n os se rtõe s b a ia n os. N e s-se m om e n to, com o e n fa tiza a a u tora , a s e sp e ra n ça s p olítica s d e Eu clid e s d a C u -n h a se co-n ce -n tra va m e m se u tra b a lh o d e e n g e n h e iro. A ta re fa m od e rn iza d ora q u e ca b ia a os e n g e n h e iros d e se u te m -p o re -p re se n ta va ig u a lm e n te a n ova ord e m b a se a ord a n a com p e tê n cia e n o m é -rito q u e se d e ve ria in sta la r n o ce n á rio re p u b lica n o p a ra q u e a n a çã o p u d e sse se r re fe ita .

O se u d u p lo ofício d e e n g e n h e iro e jorn a lista d ia n te d a g u e rra e m C a n u d os é o te m a d o in te re ssa n te q u a rto ca p ítu -lo, q u e a com p a n h a “ Um C ie n tista n o Fron t” . O s p rim e iros re g istros d a op i-n iã o e u clid ia i-n a sob re C a i-n u d os fora m p u b lica d os e m p rim e ira p á g in a d e O Estad o d e S . Pau lo, sob o títu lo d e “ A

N ossa Ve n d é ia ” , a rtig o in a u g u ra l d e 14 d e m a rço d e 1897, q u e se se g u iu à d e rrota d a te rce ira e xp e d içã o con tra C a n u -d os, com a n -d a -d a p or M ore ira C é sa r. N o se g u n d o te xto – p u b lica d o e m 17 d e ju -lh o d e 1897 (:108) ou 18 d e ju -lh o d e 1897 (:116) – o a u tor tra ta d a s “ d ificu l-d a l-d e s e n con tra l-d a s p e lo Exé rcito b ra sile iro p a ra p ôr fim a o con flito d e C a n u -d os” (:116). C om o b e m p e rce b e a a u to-ra , e sse s a rtig os e scla re ce m a s p osiçõe s d e Eu clid e s d a C u n h a a n te s d a e scrita d e O s S e rtõe s, q u a n d o a a u torid a d e d o com e n ta rista e ra re força d a p or se u s co-n h e cim e co-n tos m ilita re s. Estã o a q u i, sob o olh a r d ista n cia d o d o m ilita r cie n tista , a s p rim e ira s ob se rva çõe s sob re o se rtã o e os se rta n e jos.

N a fu n çã o d e corre sp on d e n te d e g u e rra , Eu clid e s d a C u n h a e m p re e n d e a via g e m ru m o a os se rtõe s. A e xp e riê n -cia d o con flito e o con h e cim e n to d ire to d o ce n á rio físico e socia l e m q u e e le se p rod u zia fu n cion ou com o u m a a u te n ti-ca çã o ta n to d o te xto jorn a lístico q u a n to d a re fle xã o a n trop ológ ica d e O s S e r-tõe s. Re g in a Ab re u é h á b il a o e xp lora r os sig n ifica d os, in clu sive m e ta fóricos, d e ssa via g e m . O b om u so d e tre ch os d o “ d iá rio d e u m a e xp e d içã o” , e scrito e n -tre 7 d e a g osto e 3 d e ou tu b ro d e 1897, d e m on stra a o le itor q u e o a u tor re a lizou u m a tra ve ssia p a rticu la r e n tre d ois m u n d os, e n tre d u a s form a s d e p e n sa r o se rtã o e su a g e n te : “ a via g e m va i a os p ou cos h u m a n iza n d o o a rticu lista d e ‘A N ossa Ve n d é ia ’, ob se d a d o p e la a d e sã o id e ológ ica à ca u sa d a Re p ú b lica ” (:128). Da í p orq u e “ a e loq ü ê n cia d e sse p rim e iro olh a r con stitu iria a m a té ria b ru ta p a -ra o fu tu ro livro” (:135).

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-la tos d e a n á lise d a g u e rra . M a is d o q u e isso, p e rm ite a p re e n d e r, sob re tu d o, o ca m p o lite rá rio e m q u e viria a circu la r O s S e rtõe s e a a p roxim a çã o d e Eu clid e s d a C u n h a a u m a tra d içã o d e e scrita so-b re o se rtã o. Aso-b re u in clu i o a u tor e n tre os “ e scritore s se rta n e jos” , d e fin id os co-m o “ e scritore s n a scid os n o in te rior, e co-m d ife re n te s p rovín cia s e re g iõe s d o p a ís, e m op osiçã o à q u e le s q u e n a sce ra m n a s p rin cip a is cid a d e s, e sp e cia lm e n te n a ca p ita l fe d e ra l” (:176), com p rod u çã o q u e p rivile g ia va o u n ive rso se rta n e jo e m op osiçã o à re a lid a d e u rb a n a . A a u -tora e xp lora a n oçã o d e ca m p o lite rá rio p a ra com p re e n d e r o e sforço d e a sce n sã o d e sse g ru p o e m u m m e rca d o lite rá -rio d e fra ca a u ton om ia . A p re fe rê n cia te m á tica é com p re e n d id a com o e stra té -g ia , n a m e d id a e m q u e “ a s h istória s e le n d a s ‘se rta n e ja s’” fora m p e rce b id a s com o u m ca p ita l d ife re n cia l n o m u n d o d a s le tra s (:180).

Ab re u a cre sce n ta , a in d a , q u e se -ria m a m p los os sig n ifica d os d a ca te g o-ria se rtã o n e ssa lite ra tu ra , e q u e O s S e r-tõe s te ria con trib u íd o d e cisiva m e n te p a ra u m a e sta b iliza çã o se m â n tica d a ca te g oria , q u a n d o “ se rta n e jo e se rtã o p a ssa ra m a se r u sa d os p a ra se re fe rir a u m a re g iã o g e og rá fica e sp e cífica , re g iã o á rid a e d e sé rtica , com o a q u e Eu -clid e s p isou com o corre sp on d e n te d e g u e rra ” (:193). Essa e sta b iliza çã o p e r-m a n e ce , con tu d o, d u vid osa , u r-m a ve z q u e e ste u so n ã o corre sp on d e à tota lid a lid e se m â n tica lid a p a la vra , se n lid o e n -g a n oso su p or u m a fixa çã o d a re fe rê n cia g e og rá fica d a ca te g oria . Se rtã o, a n te s e d e p ois d e Eu clid e s d a C u n h a , é u m a ca te g oria p olissê m ica , e m p re g a d a ta m -b é m n a d e sig n a çã o d e e sp a ços físicos n e m á rid os n e m d e sé rticos (os ce rra d os m in e iros e g oia n os, a s ca m p in a s d o m e in orte , p or e xe m p lo), q u e só p o-d e m se r a ssim o-d e scritos n o se n tio-d o o-d a va stid ã o, d a lib e rd a d e d e m ovim e n to e

d o ra re a m e n to d a s p ovoa çõe s – se n ti-d os tã o fre q ü e n te s e m n a rra tiva s q u e te m a tiza m se rtõe s e u clid ia n os e n ã o-e u clid ia n os.

O se xto ca p ítu lo, “ Um En g e n h e iro Fa z Lite ra tu ra ” , tra ta d a re ce p çã o d o li-vro e scrito e m Sã o J osé d o Rio Pa rd o – e n q u a n to se u a u tor tra b a lh a va n a re -con stru çã o d e u m a p on te – e p u b lica d o e m 1902. A a u tora con ce n tra -se n a s crítica s d os e scritore s J osé Ve ríssim o, Ara -rip e J ú n ior e Sílvio Rom e ro, q u e se ria m os p rim e iros re sp on sá ve is p e la con sa -g ra çã o d e O s S e rtõe s. Esse ju l-g a m e n to d a ob ra e u clid ia n a forta le cia a ta re fa crítica e in stitu ía a op in iã o a u toriza d a com o m e ca n ism o a d icion a l d e re con h e -cim e n to d e u m e scritor; re força va ig u a lm e n te a lite ra tu ra re g ion a lista e se rta -n e ja -n o ca m p o d a s d isp u ta s i-n te le ctu a is d o p e ríod o. Eu clid e s d a C u n h a p a ssa va a se r u m e scritor re q u isita d o e e sg ota -va m -se a s e d içõe s d e se u livro. O p re s-tíg io ob tid o le vou -o a o In stitu to H istóri-co e G e og rá fiistóri-co Bra sile iro e à Aca d e m ia Bra sile ira d e Le tra s, d ois m om e n tos d e g lória d e ta lh a d os p or Ab re u .

Em “ O Id e a l Ba n d e ira n te ” , a a u tora d e sta ca a p rod u çã o p oste rior a O s S e r-tõe s, in clu in d o se u va lioso e p istolá rio. N e sse ca p ítu lo, ve m os o a u tor a d e rir a u m a re p re se n ta çã o te rritoria l d a n a çã o, te n ta n d o fa ze r d o id e a l b a n d e ira n te u m a m issã o d o in te le ctu a l n a cion a l. C om a m orte d o e scritor e m 1909, in i-cia -se ou tra fa se d a fa b rica çã o d e su a n otorie d a d e . C om o ob se rva Ab re u “ é com Eu clid e s d a C u n h a q u e te m in ício o cu lto d o e scritor com o m á rtir n a cion a l, u m cu lto org a n iza d o e d e lon g a d u ra -çã o” (:281), n o q u a l o re la to b iog rá fico p a ssa a com p or a p róp ria ob ra e u clid ia -n a , re força -n d o su a a u ra e xce p cio-n a l.

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Ab re u d e n om in a “ A Sa n tifica çã o d o Ecritor” . C om a a b solviçã o d e se u a ssa s-sin o, a d m ira d ore s d o e scritor fu n d a m o G rê m io Eu clid e s d a C u n h a . Em 1918, in te le ctu a is p a u lista s a d e re m a o m ovi-m e n to e u clid ia n o. N o e n ta n to, d e sd e 1912, a cid a d e p a u lista d e Sã o J osé d o Rio Pa rd o in stitu iu , p or in icia tiva d e in -te le ctu a is re g ion a is, o cu lto a Eu clid e s d a C u n h a com a tivid a d e s com o a s Se -m a n a s e M a ra ton a s Eu clid ia n a s. Ab re u a p re se n ta u m a e tn og ra fia d e sse e u clid ia n ism o riop a rclid e n se , cu jos clid a clid os im -p re ssion a m -p e lo q u e re ve la m d o circu ito d e p rod u çã o e re p rod u çã o d e u m sa -b e r so-b re Eu clid e s d a C u n h a , n e sse ca m p o in te le ctu a l d e e sp e cia lista s n ã o-a co-a d ê m icos. O u tro-a p re ocu p o-a çã o d e sso-a se çã o é m ostra r o p a p e l d o Esta d o N ovo n a con sa g ra çã o d e O s S e rtõe s e d e se u a u tor. É re ssa lta d a a a p rop ria çã o q u e C a ssia n o Rica rd o fa z d a s id é ia s e u clid ia n a s, e m e sp e cia l a con ce p çã o clid e n a -cion a lid a d e e te rritório, e m M arch a p ara O e ste . N ã o ob sta n te , o le itor con h e -ce d or d e Rica rd o se n tirá fa lta d e u m a com p re e n sã o m a is a m p la d e su a con -ce p çã o d e se rtã o, a ssocia d a p or Ab re u e xclu siva m e n te à ru ra lid a d e .

A a u tora con clu i se u tra b a lh o com o ca p ítu lo q u e su g e re se r O s S e rtõe s “ Um C lá ssico p a ra Pe n sa r o Bra sil” . Ate n ta à s le itu ra s p or ve ze s con tra d itória s d e Eu clid e s d a C u n h a p or p a rte d e se u s con sa g ra d ore s, Ab re u isola os va lore s fu n d a m e n ta is p or e la s re tid os. Ao fim d e ssa e xte n sa p e sq u isa , p od e -se a fir-m a r q u e a ta re fa d e d e sn a tu ra liza çã o d a n oçã o d e “ clá ssico” – n o ca so, a d e “ clá ssico n a cion a l” – foi p le n a m e n te cu m p rid a .

BOURDIEU, Pierre. 1997. Sobre a Tele-visão – Seguido de A Inf luência do Jornalismo e Os Jogos Olímpicos (tra-dução de M aria Lúcia M achado). Rio de Janeiro: Jorge Zahar Editor. 143 pp.

Silvia Nogueira

M e stre , PPG AS-M N -UFRJ

A le itu ra d e S ob re a Te le v isão p e rm ite com p re e n d e r os m otivos q u e le va ra m o orig in a l a ocu p a r, sim u lta n e a m e n te , d u a s lista s n a Fra n ça : u m a , a d os b e st-se lle rs; ou tra , a d os livros m a is p olê m icos e com e n ta d os p e la im p re n sa fra n -ce sa e m 1997. Un in d o u m e stilo crítico a g u d o, e m q u e q u e stõe s sã o a b ord a d a s d e u m a form a d ire ta e p rofu n d a , a u m m é tod o cla ro d e e xp osiçã o d os a rg u -m e n tos, o a u tor fa z u -m a a n á lise d os d i-ve rsos m e ca n ism os d e ce n su ra e con s-tra n g im e n tos p róp rios a o q u e e le d e n o-m in a ca o-m p o jorn a lístico.

Ao lon g o d o livro, p a rticu la rm e n te n o te xto q u e d á títu lo à ob ra e e m “ A In flu ê n cia d o J orn a lism o” , Bou rd ie u a b ord a q u e stõe s e sse n cia is p a ra a q u e le s q u e e stu d a m a im p re n sa , os jorn a -lista s ou o p róp rio ca m p o p rofission a l. Su a a n á lise a b a n d on a a e xp lica çã o cor-re n te d e q u e u m a d e te rm in a d a id e olog ia d os d iriolog e n te s d os m e ios d e com u -n ica çã o é a p ri-n cip a l re sp o-n sá ve l p e lo q u e é p rod u zid o p e la im p re n sa . Ao con trá rio, p rocu ra m ostra r a s d ive rsa s va riá ve is q u e in flu e n cia m o ca m p o jorn a -lístico e os e le m e n tos e re g ra s p róp rios a e sse m e io p rofission a l.

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-m e n to p olítico d o q u e é ve icu la d o, e a con se q ü e n te d e sp olitiza çã o d os con su -m id ore s d e in for-m a çõe s (te le sp e cta d o-re s ou le itoo-re s).

N e ssa e d içã o b ra sile ira , u m a tra d u -çã o d a 6ae d içã o fra n ce sa a cre scid a d e

m a is d ois te xtos, e n con tra -se “ Sob re a Te le visã o” (u m a tra n scriçã o re vista e corrig id a d a g ra va çã o d e d ois p rog ra m a s re a liza d os e m m a rço d e 1996 d u ra n te a lg u n s cu rsos d o C ollè g e d e Fra n -ce e d ifu n d id a p e la te le visã o, e m m a io, n a Fra n ça ) e “ A In flu ê n cia d o J orn a lis-m o” (p u b lica d o in icia llis-m e n te e lis-m A cte s d e la Re ch e rch e e n S cie n ce s S ociale s, 101102, sob re jorn a lism o) – a m b os p re -se n te s n o orig in a l; a lé m d e ste s, fora m a n e xa d os “ O s J og os O lím p icos” (u m a form a re su m id a d e u m a com u n ica çã o a p re se n ta d a e m Be rlim d u ra n te o e n con tro a n u a l d a Socie d a d e Filosófica p a -ra o Estu d o d o Esp orte , e m 1992) e u m “ Posfá cio” , in titu la d o “ O J orn a lism o e a Política ” . N e ste , Bou rd ie u re sp on d e a os com e n tá rios g e ra d os p or se u livro n a Fra n ça , a lim e n ta n d o a in d a m a is o d e -b a te so-b re jorn a lista s, o ca m p o jorn a lístico e , d e ce rta form a , a re la çã o d os con -su m id ore s d e in form a çõe s m e d ia tiza d a s com os p róp rios m e ios d e com u n ica çã o. A p olê m ica e m torn o d o livro le va a p e n sa r q u e a d ivu lg a çã o d e se u con te ú -d o p e lo a u tor é u m a a çã o e stra té g ica -d e p rovoca çã o a os p rofission a is d e im p re n sa e à q u e le s q u e p rod u ze m a s in form a çõe s, com o in tu ito m e sm o d e g e ra r d iscu ssã o e p rovoca r m u d a n ça s d e n -tro d o p róp rio ca m p o jorn a lístico. N e sse se n tid o, o im p a cto ca u sa d o p or e sse li-vro fa z le m b ra r – e e le m e n cion a isso – u m a ou tra p olê m ica e n volve n d o u m a ob ra su a : a d o la n ça m e n to d e La M isè re d u M on d e (1993), org a n iza d o p or e le e con te n d o a rtig os se u s, d e n tre ou tros a u -tore s, q u e ta m b é m se torn ou u m b e st-se lle r e foi a m p la m e n te critica d o p e la im p re sa fra n ce sa .

Ao fa la r sob re te le visã o n a te le vi-sã o, com u m d iscu rso p olítico e e m p a r-te p a n fle tá rio – a p e sa r d e o a u tor n e g a r isso –, Bou rd ie u m ostra q u e é p ossíve l p a ra e sse ve ícu lo d e com u n ica çã o se torn a r “ u m in stru m e n to d e d e m ocra cia d ire ta ” , e m ve z d e con ve rte r-se e m u m “ in stru m e n to d e op re ssã o sim b ólica ” (:13). A e xp lica çã o p a ra os jorn a lista s con trib u íre m p a ra e sse q u a d ro foi b e m e xp licita d a e m u m a e n tre vista con ce d i-d a p or e le a o jorn a l O G lob o (14/ 10/ 97), p or oca siã o d o la n ça m e n to d a e d içã o b ra sile ira : os jorn a lista s vive ria m e m u m e sta d o d e “ d u p la con sciê n cia ” , com -p a rtilh a n d o a o m e sm o te m -p o u m a vi-sã o p rá tica (m u ita s ve ze s cín ica ), e m q u e os p rofission a is tira m o m á xim o d e p rove ito d a s p ossib ilid a d e s q u e a m íd ia ofe re ce ; e u m a visã o te órica , “ m ora li-za n te e ca rre g a d a d e in d u lg ê n cia p or e le s m e sm os” .

Log o n o in ício d o livro, Bou rd ie u a p on ta a im p ortâ n cia d e se fa la r n a te -le visã o, d e sd e q u e “ sob ce rtas con d içõe s” . Em se u ca so, con d iiçõe s “ e xce p cion a is” ofe re cid a s p e lo se rviço d e a u -d iovisu a l -d o C ollè g e -d e Fra n ce : te m p o ilim ita d o p a ra d ize r o q u e q u ise r; a s-su n to e m od o d e a b ord a g e m livre s. Em su a s p a la vra s: “ d om ín io d os in stru m e n -tos d e p rod u çã o” (:16). O a u tor a visa a se u s in te rlocu tore s q u e a o fa la r d e ssa s con d içõe s e xce p cion a is já d iz a lg o sob re a s p róp ria s con d içõe s e m q u e se fa -la n a te le visã o. A p a rtir d a í, critica n ã o som e n te a q u e le s q u e faz e m a te le visã o, m a s a q u e le s q u e ace itam p articip ar d e -la , com o cie n tista s, p e sq u isa d ore s, e s-critore s e os p róp rios jorn a lista s. Pa ra e le , tra ta -se d e “ se fa ze r ve r e se r visto” n a te le visã o, “ u m a e sp é cie d e e sp e lh o d e N a rciso” .

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d os m e ios d e com u n ica çã o –, Bou rd ie u n a ve rd a d e d iscu te “ u m a ce n su ra in vi-síve l” q u e p e rm e ia a a tivid a d e jorn a lís-tica . Essa ce n su ra , d o p on to d e vista e xte rn o, é op e ra d a p e la con corrê n cia , p e -la s le is d e m e rca d o e p e los ín d ice s d e a u d iê n cia , e n fim , con stitu i u m a ce n su ra e con ôm ica , q u e é ta m b é m p olítica . In -te rn a m e n -te , com o u m a a u toce n su ra , o e fe ito d e ssa s p re ssõe s in flu e n cia o com -p orta m e n to d os -p ró-p rios jorn a lista s, q u e se lê e m u n s a os ou tros, tê m orig e n s socia is se m e lh a n te s, visõe s d e m u n d o p a re cid a s e b u sca m a te n d e r a e xp e cta tiva s d e u m (su p osto) d e te rm in a d o p ú -b lico. O re su lta d o d isso é a p rod u çã o d e in form a çõe s e a b ord a g e n s h om og ê -n e a s. O “ e sp e lh o d e N a rciso” tor-n a -se , a ssim , u m in stru m e n to “ p ou co a u tôn o-m o” , lio-m ita d o p e la s “ re la çõe s socia is e n tre os jorn a lista s, re laçõe s d e con corrê n cia e n ca rn iça d a [...], q u e sã o ta m -b é m re laçõe s d e con iv ê n cia, d e cu m p li-cid a d e ob je tiva ” (:50-51).

A d ifu sã o d e in form a çõe s e m g ra n -d e e sca la p e la te le visã o, Bou r-d ie u a tri-b u i, d e u m la d o, à a tri-b ord a g e m d e “ a s-su n tos-ôn ib u s” – te m a s s-su p e rficia is q u e te n ta m a g ra d a r a tod os com o in tu ito d e p re n d e r a a te n çã o d o e sp e cta d or e a u -m e n ta r os ín d ice s d e a u d iê n cia – e , d e ou tro, a o a ce sso à “ n otorie d a d e p ú b li-ca ” , “ u m p rê m io li-ca p ita l” p a ra p olíticos e ce rtos in te le ctu a is. Bou rd ie u a le rta p a ra a te n d ê n cia d a te le visã o e m d o-m in a r e con ôo-m ica e sio-m b olica o-m e n te o ca m p o jorn a lístico, fa ze n d o com q u e os jorn a is im p re ssos te n h a m d e lu ta r p or su a sob re vivê n cia . De sse m od o, forn e ce u m a “ a g e n d a ” p a ra ou tros ve ícu los d e com u n ica çã o, u m a ve z q u e u m a ssu n to só se torn a im p orta n te q u a n d o a b ord a -d o p e la te le visã o. Vê -se ocorre r, e n tã o, u m a “ circu la çã o circu la r d a in form a -çã o” (:73).

Bou rd ie u d iscu te ta m b é m q u e , se d e u m p on to d e vista , o ca m p o jorn a

lís-tico é u m d os q u e m a is sofre in flu ê n cia e xte rn a (p re ssã o e con ôm ica e d os ín d i-ce s d e a u d iê n cia ), d e ou tro, e xe ri-ce p re ssã o sob re ou tros ca m p os cu ltu ra is. C om o ca m p o “ d om in a d o p e la lóg ica com e rcia l” (:81) im p õe , ca d a ve z m a is, su a s lim ita çõe s p a ra ou tra s e sfe ra s. C o-m o e o-m u o-m e fe ito ca sca ta , “ a tra vé s d a p re ssã o d o ín d ice d e a u d iê n cia , o p e so d a e con om ia se e xe rce sob re a te le vi-sã o, e , a tra vé s d o p e so d a te le vivi-sã o so-b re os ou tros jorn a is, [...] o jorn a lism o [...], os jorn a lista s, q u e p ou co a p ou co d e ixa m q u e p rob le m a s d e te le visã o se im p on h a m a e le s” (:81).

Pa ra fa la r d a p ossib ilid a d e d e re sistê n cia a os e fe itos p rod u zid os p e lo ca m -p o jorn a lístico, Bou rd ie u e voca o q u e e le ch a m a d e le i d e Jd an ov . De a cord o com e la , q u a n to m a is re strito o p rod u tor cu ltu ra l a se u s clie n te s, p e lo a u tor e n -te n d id o com o se u s con corre n -te s, m a is a u tôn om o e ca p a z d e re sistir à cola b o-ra çã o com os “ p od e re s e xte rn os” , i.e ., “ Esta d o, Ig re ja , p a rtid o e , h oje , jorn a -lism o e te le visã o” (:90).

A in flu ê n cia d o ca m p o jorn a lístico e m ou tros ca m p os cu ltu ra is é a n a lisa d a m a is d e ta lh a d a e te cn ica m e n te e m “ A In flu ê n cia d o J orn a lism o” . O a u tor d e fi-n e o ca m p o jorfi-n a lístico com o o lu g a r d e u m a lóg ica e sp e cífica , con stitu íd a p or d ois p rin cíp ios d e le g itim a çã o: o d o re con h e cim e n to d os jorn a lista s p e los p a -re s (p or in te rm é d io d o con h e cim e n to d os p rin cíp ios in te rn os a o ca m p o) e o d a m a ioria (m a te ria liza d a n o n ú m e ro d e le itore s, ou vin te s ou e sp e cta d ore s, i.e ., n a s ve n d a s e se u s lu cros).

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(cie n tífico, lite rá rio, e tc.)” – sã o os m a is in flu e n cia d os p e lo ca m p o jorn a lístico. O p rod u tor cu ltu ra l se ria , e n tã o, o p rin cip a l re sp on sá ve l p or ta is in te rfe rê n -cia s, u m a ve z q u e circu la e n tre o ca m p o jorn a lístico e ou tro ca m p o e sp e cífico.

Em u m “ Pe q u e n o Post-Scrip tu m N orm a tivo” , Bou rd ie u ju stifica su a in te n çã o com a p u b lica çã o d e “ A In flu ê n -cia ...” : p rop or u m “ p rog ra m a d e a çã o” e n tre “ a rtista s, e scritore s, cie n tista s e jorn a lista s” , p a ra os “ d e te n tore s d o (q u a se ) m on op ólio d os in stru m e n tos d e d ifu sã o” , a fim d e q u e a u m e n te a d ivu l-g a çã o d a s “ con trib u içõe s m a is u n ive rsa is d a p e sq u irsa ” e o a ce sso a e sse s d a -d os (:117).

C h e g a n d o a o fin a l d e S ob re a Te le -v isão, te m os “ J og os O lím p icos” e “ Posfá cio” . O p rim e iro, u m a b re víssim a a n á -lise d os J og os O lím p icos e n q u a n to u m e ve n to m u n d ia l, con stitu in d o m a is u m rote iro p re lim in a r com p ista s p a ra a q u e -le q u e e scolh e o te m a com o ob je to. Su a in clu sã o n o livro ju stifica -se d e vid o à re la çã o q u e o a u tor e sta b e le ce e n tre os J og os O lím p icos e a im p re n sa m u n d ia l, q u e tra n sform a u m a con te cim e n to e s-p ortivo e m u m e ss-p e tá cu lo. Pa ra o le itor, p oré m , fica a se n sa çã o d e fru stra çã o, q u a n d o se fa z u m a com p a ra çã o e n tre a s ou tra s p a rte s d o livro e e sta su p e rficia l com u n ica çã o d e 1992.

J á o “ Pósfa cio” fu n cion a com o u m a re sp osta à crítica d os jorn a lista s a o livro orig in a l, on d e a p a re n te m e n te te n ta e scla re ce r se u s ob je tivos com a d ivu lg a -çã o d e su a a n á lise . E e xp rim in d o u m a fa lsa su rp re sa , p e rg u n ta : “ C om o e xp li-ca r a e xtre m a violê n cia d a s re a çõe s q u e a a n á lise q u e se a ca b a d e le r p rovocou n os jorn a lista s fra n ce se s m a is d e sta ca -d os?” (:131). A e sta in -d a g a çã o, Bou rd ie u re sp on rd e q u e os jorn a lista s sofre -ra m o “ e fe ito d a t-ra n scriçã o” – p róp rio a e sse s p rofission a is –, e m q u e a e scrita d a s p a la vra s fa z d e sa p a re ce r a rtifícios

u sa d os p a ra com p re e n d e r e con ve n ce r (le m b re -se q u e S ob re a Te le v isão fe z p a rte d e u m a com u n ica çã o orig in a lm e n te ora l, fillm a d a ). Alé lm d isso, o a u -tor d e sta ca a te n d ê n cia d os jorn a lista s a se in te re ssa re m m a is p e la s su p osta s “ con clu sõe s” d o q u e p e lo ca m in h o a q u e se ch e g a a e la s.

O “ Posfá cio” tra z a in d a , e ta lve z p or se e sp e ra r isso d o a u tor, ou tra s crítica s. De n tre e la s, a d e q u e a im p re n sa , com su a lóg ica d e va loriza r o n ovo e o im -p orta n te , e m d e trim e n to d a s -p e q u e n a s m u d a n ça s cotid ia n a s, con trib u iria p a ra con stru ir u m a “ visã o d e s-h istoriciza d a e d e s-h istoriciza n te ” (:140) d o m u n d o. O lim ite d isso re sid iria n o e n con tro e n -tre o cin ism o d os p rod u tore s d e te le vi-sã o e o d os e sp e cta d ore s.

ERIKSON, Philippe. 1996. La Griffe des Aieux: M arquage du Corps et Demar-quage Ethniques chez les M atis d’Ama-zonie.Paris/ Leuven: Peet ers. 365 pp. Series: Languages et Societ es d’Ame-rique, 5.

Elvira Belaunde

Profad e An trop olog ia , Un ive rsity of Du rh a m

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-d o, m a s -d in â m ico e p roce ssu a l, com o a fe rm e n ta çã o. O q u e te m os a q u i é u m a lóg ica d e d ife re n cia çã o visa n d o u m a m istu ra a p rop ria d a d e op ostos, q u e fa -vore ce o cre scim e n to e o con trole sob re os e xtre m os a -socia is. Fa ze r ce rve ja for-n e ce u m a m e tá fora -b a se a tod os os p ro-ce ssos d e m a tu ra çã o, in clu in d o o cre scim e n to d e m e n in os e m e n in a s, a a cu m u la çã o d e “ p od e r m ístico” sh o e o d e clín io d a m orte . Fla g e la çõe s ritu a is, d e -cora çõe s corp ora is e o e scu re cim e n to d a p e le com ta tu a g e n s, e m p a rticu la r, sã o m e ios cu ltu ra is d e torn a r o corp o “ a m a rg o” , p orta n to, vig oroso e ca p a z d e tra b a lh o d u ro, e m op osiçã o a u m corp o p re g u içoso e xce ssiva m e n te “ d oce ” . Se o “ a m a rg o” é b u sca d o a tiva -m e n te , se u e xce sso é le ta l, p ois se o con ce b e com o con d u zin d o à p e rd a d e con trole sob re os “ p od e re s m ísticos” e à fe itiça ria . C om o a b oa ce rve ja forte q u e é “ a m a rg a ” e ta m b é m le ve m e n te “ d o-ce ” , a id é ia m a tis d o socia l é a d e u m a p rop orçã o a d e q u a d a d e sa b or.

O tra b a lh o d e Erik son tra ta d e te -m a s ce n tra is à s socie d a d e s Pa n o, d a s q u a is e le a firm a q u e os M a tis con sttu e m u m ca so típ ico. Em b ora n ã o re i-vin d iq u e te r toca d o e m u m p rin cíp io p a n -a m a zôn ico, se u s a ch a d os e coa m vá ria s e tn og ra fia s d a re g iã o e forn e ce m in e stim á ve l a lim e n to p a ra o p e n sa m e n -to. Se u e stu d o p õe u m fim à p op u la ri-d a ri-d e ou trora ri-d e sfru ta ri-d a p e la h ip óte se d e Sisk in d d e q u e a troca d e ca rn e p or se xo e ra a b a se d a socie d a d e Sh a ra n a h u a (ta m b é m u m g ru p o Pa n o), e , d e fa -to, d a s socie d a d e s ca ça d ora s d a flore sta trop ica l e m g e ra l.

Erik son m ostra q u e n ã o é se xo, m a s ce rve ja , a con tra p a rtid a fe m in in a d a com id a , p ois fa ze r ce rve ja é u m a a tivid a tivid e m istica m e n te tã o p otivid e rosa q u a n -to m a ta r a n im a is (e os ca ça d ore s sã o v e r d a d e ir a m e n t e s e d e n t o s d e c e r v e -ja ). Alé m d o m a is, a p a ixã o m a tis p e lo

“ a m a rg o” e p e lo tra b a lh o p e sa d o su s-te n ta a in s-te rd e p e n d ê n cia d in â m ica e a m istu ra d os g ê n e ros. H om e n s tra b a lh a m p a ra m a n te r a s m u lh e re s, e vice -ve rsa . N e n h u m d e le s p od e fa ze r su a p a rte se m a con trib u içã o d o ou tro. Isto n ã o q u e r d ize r q u e h om e n s e m u lh e re s te n h a m statu s ig u a is; m u lh e re s sã o con -ce b id a s com o “ m a is d ce s” q u e os h om e n s, p e lo om e n os a té a lca n ça re om a om e -n op a u sa . M a s a tra vé s d e se u s ciclos d e vid a e d e se u s tra b a lh os, a m b os os g ê n e ros cre sce m “ a m a rg os” e a m a d u re ce m à su a p róp ria m a n e ira . C om o Erik -son a firm a , a d ife re n cia çã o d os g ê n e ros é u m m e io cu ltu ra l d e torn á -los m a is p róxim os p or m e io d a coop e ra çã o.

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e ta tu a g e n s p e los in d ivíd u os, d e m od o a fre a r o fa rd o d o “ a m a rg o” e n tre e le s. O le itor p od e e rron e a m e n te p e n sa r q u e , p or se tra ta r d e u m a e tn og ra fia e s-p e cia liza d a , e la é d e s-p ou co in te re sse p a ra u m a a u d iê n cia a n trop ológ ica m a is a m p la . Lon g e d isso, a n ovid a d e te órica e a a rg u m e n ta çã o p e rsu a siva d a a n á li-se d e Erik son d e riva m d e li-se u sólid o fu n d a m e n to e tn og rá fico, m a s sã o in sp i-ra d oi-ra s p a i-ra u m con te xto a m a zôn ico m a is e xte n so, a ssim com o p a ra m u ita s ou tra s socie d a d e s e sp a lh a d a s p e lo m u n -d o in te iro, on -d e p rin cíp ios cu ltu ra is sã o in corp ora d os [e m b od ie d ] e m d e cora -çõe s, g ostos e ca p a cid a d e s d e tra b a lh o. Em b ora e vid e n te m e n te trib u tá ria d o e stru tu ra lism o fra n cê s, a a b ord a g e m d e Erik son e vita com su ce sso a s a rm a d lh a s d e p ola riza çõe s a b stra ta s e ca m isa sd e força d u a lista s. C om o a fe rm e n ta çã o, se u tra b a lh o n os le m b ra o b orb u -lh a r d a vid a .

Tra d u çã o: Silvia N og u e ira Re visã o té cn ica : C a rlos Fa u sto

KULICK, Don. 1998. Travesti: Sex, Gen-der and Culture among Brazilian Trans-gendered Prost it ut es. Chicago: The University of Chicago Press.

Cecília M cCallum

ProfaVisita n te d e C iê n cia s Socia is, UFBA

Esse e stu d o d os tra ve stis d e Sa lva d or d a Ba h ia p od e se r lid o sob vá ria s p e rs-p e ctiva s: com o u m a e tn og ra fia lírica e e xtre m a m e n te b e m e scrita , u m e n sa io te órico sob re a re la çã o e n tre re p re se n -ta çã o corp ora l e su b je tivid a d e ou u m a con trib u içã o im p orta n te à a n trop olog ia d e g ê n e ro. De sd e o m om e n to e m q u e o le itor p e g a o livro e com e ça a le r a s p rim e ira s fra se s, e xp e ririm e n ta u rim a se n sa

-çã o ra ra n a a n trop olog ia . Torn a -se d ifí-cil p a ra r, com o u m rom a n ce p olicia l b e m fe ito ou u m a h istória d e h orror. Ku -lick te m je ito com a s p a la vra s, su g a o le itor p a ra d e n tro d o im a g in á rio e d a vi-d a vi-d iá ria vi-d os tra ve stis, q u e fa ze m p a rte d e tod a s a s p á g in a s d o livro. O a u tor te -ve a ce sso a e sse im a g in á rio p or in te rm é d io d e u rm a p e sq u isa d e ca rm p o d u -ra n te a q u a l con vive u com u m g ru p o d e tra ve stis. M orou ju n to com e le s, ficou n a ru a e sp e ra n d o clie n te s com e le s, e fe z p a rte d a s su a s vid a s d u ra n te u m a n o. Ta l con vívio re su ltou e m u m a visã o in u sita d a d e ssa s p e ssoa s, p ois re ú -n e u m co-n h e cim e -n to d e a sp e ctos p a rti-cu la re s d a s su a s vid a s com u m a forte e m p a tia e n tre p e sq u isa d or e p e sq u isa -d os q u e m a rca forte m e n te o livro. A com b in a çã o d e con h e cim e n to e a fe to su ste n ta a q u a lid a d e lite rá ria d a ob ra q u e , n o e n ta n to, n ã o d isp e n sa u m a a cu id a d e te órica e u m a d iscu ssã o b e m tra va d a com te m a s ce n tra is n a a n trop o-log ia cu ltu ra l.

Alé m d o e fe ito p ositivo d o m é tod o clá ssico d e ob se rva çã o p a rticip a n te , Ku lick fe z u so d e té cn ica s d e se n volvd a s n a a n trop olog ia lin g ü ística , a p e rfe i-çoa d a s n a su a m on og ra fia b a se a d a e m p e sq u isa d e ca m p o n a Pa p u a N ova G u in é (p u b lica d a p e la C h ica g o Un ive r-siy Pre ss). O te xto in corp ora e d iscu te tre ch os d e d e ze sse is e n tre vista s e m p ro-fu n d id a d e e vin te h ora s d e in te ra çõe s e sp on tâ n e a s cu id a d osa m e n te tra n scri-ta s e tra d u zid a s, d a n d o voz a u m g ru p o d e tra ve stis d e u m a form a q u e o le itor ta m b é m p od e a n a lisa r os se u s d iscu rsos e a e tn og ra fia q u e os con te xtu a liza .

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-ve sti, d e sd e os p rim e iros con ta tos h o-m osse xu a is q u a n d o a in d a o-m e n in os, a té a e n tra d a n a p rostitu içã o n a a d ole scê n -cia . Fa z u m a d e scriçã o d e ta lh a d a d a s m od ifica çõe s corp ora is com h orm ôn ios e silicon e , e a p róp ria p rá tica d a p rosti-tu içã o q u e p od e le vá -los a té a Eu rop a . De scre ve a vid a a m orosa d os tra ve stis, se u s ca sos e ca sa m e n tos com h om e n s, a s re la çõe s socia is com ou tros tra ve stis e com se u s vizin h os, a ru p tu ra com a fa -m ília d e n a sci-m e n to e a re la çã o co-m a m ã e . De ta lh a , n a s p a la vra s d os in for-m a n te s, o p ra ze r se xu a l q u e se n te for-m com clie n te s e ou tros, e o p ra ze r d e re p re se n ta re m com ê xito o p a p e l d e m u -lh e re s e , a ssim , se se n tire m “ m u -lh e rís-sim a s” . Ku lick n ã o d e ixa d e la d o os jo-g os d e p od e r d os tra ve stis, e n tre e le s e os clie n te s, d e u m la d o, e os n a m ora d os, d e ou tro, fa ze n d o u m a a n á lise su til d a d in â m ica d a vid a p riva d a e p rofission a l d e le s. O ca p ítu lo fin a l tra ta d a q u e stã o d a su b je tivid a d e “ e n g e n e ra d a ” (g e n -d e re -d su b je ctiv ity ) e -d e fe n -d e a p rop os-ta a n a lítica ce n tra l d o livro, q u e a b ord a o siste m a d e g ê n e ro b ra sile iro.

Ku lick e n fa tiza a p e rsp e ctiva e tn o-m e tod ológ ica , te n ta n d o p rivile g ia r a con stru çã o cole tiva d e u m a re a lid a d e e n tre os tra ve stis, e m re la çã o à q u a l e le s se orie n ta m n o cu rso d a su a a çã o. N e sse se n tid o, o livro é b a sica m e n te o e stu d o d e u m p e q u e n o e b a sta n te sin -g u la r -g ru p o d e a d ole sce n te s e jove n s (e a lg u m a s p e ssoa s m a is ve lh a s) e d a su a cu ltu ra , a u tocon ce b id a com o “ in d i-vid u a lista ” e p ou co orie n ta d a p a ra a con stru çã o d e la ços socia is (ca p ítu lo 1). N o e n ta n to, o livro p re te n d e se r m u ito m a is d o q u e a p e n a s u m e stu d o d e ca so. Am b icion a o “ e xp licita r a lóg ica n ã oe xp re ssa q u e su ste n ta in te ra -çõe s con te xtu a lm e n te situ a d a s” (:17). Pa ra Ku lick , e ssa lóg ica é , n o se u â m a g o, cu ltu ra l. Fa z p a rte d o siste m a d e g ê -n e ro b ra sile iro, q u e se b a se ia e m u m a

visã o n ã o-e sse n cia lista e d in â m ica d a p e ssoa e d o corp o. O a u tor d e fe n d e a p rop osta q u e n o siste m a b ra sile iro a con stru çã o d e g ê n e ro é tra va d a n a p rá -tica d a se xu a lid a d e e q u e o g ê n e ro n ão é tid o com o u m a trib u to in e re n te d e corp os vistos com o b iolog ica m e n te d i-fe re n te s. A d istin çã o e n tre p e ssoa s com e se m órg ã os g e n ita is m a scu lin os e n tra n o d iscu rso d os tra ve stis, m a s, se g u n d o a rg u m e n ta Ku lick , a d istin çã o d e g ê n e -ro p rin cip a l e stá b a se a d a n a p osiçã o a d ota d a n o a to se xu a l, e n ã o e m u m a n oçã o cu ltu ra l d o se xo d o corp o. Assim , a d istin çã o b á sica se rá e n tre h om e n s (q u e p e n e tra m ) e n ã o-h om e n s (q u e sã o p e n e tra d os), e n ã o e n tre h om e n s e m u -lh e re s. O g ê n e ro p od e m u d a r d a n oite p a ra o d ia , se u m “ h om e m ve rd a d e iro” ce d e à te n ta çã o d e a ssu m ir a p osiçã o p a ssiva . Assim , vira u m “ via d o” e p od e e n tã o se r rotu la d o com os te rm os d o g ê -n e ro fe m i-n i-n o – “ e la , m e -n i-n a , b ich a ” e tc. O s corp os m a scu lin os p od e m se r tra n sform a d os e m corp os a lta m e n te fe -m in in os, -m e d ia n te -m a n ip u la çõe s cirú rg ica s, b ioq u ím ica s e e sté tica s, u tiliza n -d o to-d o o re p e rtório -d a re p re se n ta çã o d a fe m in ilid a d e e m q u e os tra ve stis sã o m e stre s.

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p od e r d o a rg u m e n to, d e se n volvid o se m tré g u a e m u m te xto tã o com p le to e d e a g ra d á ve l le itu ra , é forte . Poré m , va le coloca r a lg u m a s re ssa lva s.

Esse e stu d o é u m a e tn og ra fia m o-d e rn a . Lon g e o-d os e xce ssos o-d o e stilo p ós-m od e rn ista , in corp ora a va n ços e críti-ca s d e re ce n te s tra b a lh os te óricos q u e fa ze m p a rte ou se in sp ira m n e sse m o-vim e n to. G ê n e ro visto com o p roce sso, con stru íd o n a s p rá tica s e n os d iscu rsos, é fru to d e sse e n foq u e , com o ta m b é m é a in corp ora çã o, d e n tro d a a n á lise cu ltu -ra lista , d a d iscu ssã o d a su b je tivid a d e . A cu ltu ra , n e sse livro, n ã o a p a re ce co-m o u co-m a re d e g e e rtzia n a d e sig n ifica d os ou sím b olos, flu tu a n d o a cim a d os su je i-tos q u e a con stroe m , e sim com o g e ra d a e m ca d a m om e n to d a s su a s vid a s d iá ria s. N e sse se n tid o, n ã o h á com o re b a -te r a -te se d e q u e e sse s tra ve stis-p ros-t iros-tu ros-ta s fa ze m u m a sín ros-te se d o sisros-te m a cu ltu ra l b ra sile iro d e g ê n e ro, p ois tod o g ru p o socia l n o p a ís q u e p a rticip e d os m e sm os d iscu rsos h e g e m ôn icos e d a m e sm a h istória n a cion a l d e q u a lq u e r ti-p o ti-p od e fa zê -lo ta m b é m . A a n troti-p olo-g ia vive b u sca n d o a s lóolo-g ica s n ã o-e x-p re ssa s a trá s d a s x-p rá tica s. M a s se rá q u e e sse é u m siste m a g lob a l, n o se n tid o d e q u e tod os fa ria m a m e sm a sín te se ? Um g ru p o d e m u lh e re s d e b a ixa re n d a e m Sa lva d or, p or e xe m p lo? Até q u e p on to u m e stu d o d e u m g ru p o p e q u e n o e sin g u la r d e h om e n s p od e re p re se n ta r sig -n ifica d os cu ltu ra is g e ra d os p or m ilh õe s d e p e ssoa s? De fa to, Ku lick re con h e -c e p le n a m e n te e ssa -críti-ca , e -ch a m a a a te n çã o d o le itor p a ra a n e ce ssid a d e d e m a is e tn og ra fia s d e ou tra s su b je tivid a -d e s “ e n g e n e ra -d a s” , e sp e cia lm e n te -d a s m u lh e re s. De sse m od o, su a te se a g e com o u com d e sa fio a os e stu d iosos d e g ê n e ro, e u m p on to d e p a rtid a p a ra u m d e -b a te re n ova d o.

Ta lve z ve n h a a se r n a s re la çõe s e n -tre os siste m a s d o tip o q u e os tra ve stis

crista liza m q u e u m a lóg ica m a ior se re -ve la rá . Por e xe m p lo, a con stru çã o d e g ê n e ro n a vid a d iá ria d a s p e ssoa s p le n a m e n te e n volvid a s n o p roje to d e re -p rod u çã o e -p a re n te sco (com o a m a ioria d a s m u lh e re s d e b a ixa re n d a , e m u itos h om e n s ta m b é m ), a o se r re la cion a d a com a a n á lise e fe tu a d a p or Ku lick , p od e ria p rofe rir u m a od im e n sã o od e g e n e -ra lid a d e m a is d ig n a d e se r ch a m a d a d e “ siste m a d e g ê n e ro b ra sile iro” . Assim , p od e r-se -ia a firm a r q u e os tra ve stis crista liza m m u ito b e m u m a p a rte ; u m a a n á lise q u e te rm in a com a su a su b je tivid a d e , n o e n ta n to, n ã o d e ixa p ista s p a -ra ou t-ra s d ive rsa s su b je tivid a d e s n o m e sm o m e io a m b ie n te cu ltu ra l. Ta lve z Ku lick d e ve sse e vita r a e xp re ssã o “ siste m a d e g ê n e ro b ra sile iro” , su b stitu in -d o-a p or ou tra , m e n os re strita e m a is a b e rta a ou tra s su b je tivid a d e s.

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NOGUEIRA, Oracy. 1998. Preconceit o de M arca. As Relações Raciais em Ita-pet ininga (apresent ação e edição de M aria Laura Viveiros de Castro Caval-canti). São Paulo: Edusp. 245 pp.

Giralda Seyferth

Profad e An trop olog ia , PPG AS-M N -UFRJ

Em 1954, n o XXXI C on g re sso In te rn a -cion a l d e Am e rica n ista s, re a liza d o e m Sã o Pa u lo, O ra cy N og u e ira a p re se n tou u m b re ve e stu d o com p a ra tivo d a “ situ a çã o ra cia l” b ra sile ira com a d e ou -tros p a íse s, e m e sp e cia l os Esta d os Un i-d os, n o q u a l e xp licitou u m a tip olog ia d icotôm ica d o p re con ce ito ra cia l, p rop osta com o m od e lo id e a l. Afirm ou , e n -tã o, a e xistê n cia d e d ois p a d rõe s d e d is-crim in a çã o: “ p re con ce ito ra cia l d e m a r-ca ” e “ p re con ce ito ra cia l d e orig e m ” . Alg u n s d os crité rios cla ssifica tórios d e -m a rca d ore s d a d istin çã o sã o d iscu tíve is p e la ca rg a d e su b je tivid a d e q u e p os-su e m , sob re tu d o a q u e le s re la cion a d os à d im e n sã o a fe tiva d a s re la çõe s in te r-p e ssoa is, id e olog ia , e tiq u e ta e a sce n sã o socia l. À p a rte a s crítica s re la tiva s a o fa -to d e N og u e ira e sta r tra b a lh a n d o com tip os ou m od e los id e a is, p e sa ra m n a con stru çã o te órica d a s d u a s form a s d e p re con ce ito, p rin cip a lm e n te , o m od o d e a tu a çã o e a d e fin içã o d e m e m b ro d o g ru p o d iscrim in a d o: e sta b e le ce u , e m p rim e iro lu g a r, q u e o p re con ce ito d e m a rca d e te rm in a u m a p re te riçã o, e o d e orig e m u m a e xclu sã o d os m e m b ros d o g ru p o a tin g id o; e m se g u n d o, q u e o fe -n ótip o ou a p a rê -n cia ra cia l d e fi-n e o m e m b ro d o g ru p o d iscrim in a d o on d e o p re con ce ito é d e m a rca , e a a sce n d ê n -cia p re va le ce n e ssa d e fin içã o on d e o p re con ce ito é d e orig e m .

Ap a rê n cia e d e sce n d ê n cia sã o, a s-sim , ce n tra is n a d e fin içã o d os re sp e cti-vos tip os. M a s d e ve se r re ssa lta d o q u e ,

e m 1954, N og u e ira te n ta va re form u la r a n oçã o d e p re con ce ito d e cor, vig e n te n a lite ra tu ra sob re re la çõe s ra cia is, p a ra d istin g u ir u m a va ria n te b ra sile ira d e p re con ce ito ra cia l. Afa stou -se , e n tã o, d e a lg u m a s e xp lica çõe s p re d om in a n te s à é p oca – ig u a lm e n te in flu e n cia d a s p e lo con tra ste com p a ra tivo com os Es-ta d os Un id os –, q u e su b e stim a va m a q u e stã o ra cia l p a ra re d u zi-la a u m p ro-b le m a d e cla sse . A con triro-b u içã o d e sse tra b a lh o e stá ju sta m e n te n o d e lin e a m e n to d a e sp e cificid a d e d a d iscrim in a -çã o e d o p re con ce ito ra cia l n o Bra sil, e su a re la çã o com o q u e ch a m a d e “ m a r-ca ” e se u s p re ssu p ostos fe n otíp icos.

A b a se e m p írica d a form u la çã o d e s-se m od e lo ve io d o tra b a lh o d e ca m p o q u e N og u e ira re a lizou e m Ita p e tin in g a (SP), n o â m b ito d o p rog ra m a d e p e sq u i-sa p a trocin a d o p e la UN ESC O . C om o re la tório d e p e sq u isa , o te xto “ Re la çõe s Ra cia is n o M u n icíp io d e Ita p e tin in g a ” foi p u b lica d o d u a s ve ze s, e m 1954 e 1955 (p rim e iro e m p a rte s, n a re vista A n h e m b i; d e p o is e m v o lu m e o r g a n i-z a d o p o r Ro g e r Ba s t id e e F lo r e s t a n F e r n a n d e s). A re e d içã o d o te xto p e la Ed u sp , a p ós tra b a lh o d e e d içã o re a liza -d o p or M a ria La u ra Vive iros -d e C a stro C a va lca n ti, p e rm ite re tom a r a d iscu ssã o sob re o m od e lo a n a lítico d a s re la çõe s ra cia is p rop osto p e la n oçã o d e p re -con ce ito d e m a rca . Em b ora orie n ta d o, e m p a rte , p e la p e rsp e ctiva d os e stu d os d e com u n id a d e – con form e a ssin a la d o n a “ Ap re se n ta çã o” –, o e stu d o sob re Ita -p e tin in g a con té m a rg u m e n ta çã o q u e con d u z a o d e lin e a m e n to d a n oçã o d e p re con ce ito d e m a rca , p or op osiçã o a p re con ce ito d e orig e m , se m q u a lq u e r p re ocu p a çã o com p a ra tiva m a is siste -m á tica co-m a “ situ a çã o ra cia l” (e xp re s-sã o q u e o a u tor u sa e n tre a sp a s) a m e ri-ca n a .

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m od a lid a d e b ra sile ira d e re la çõe s ra -cia is p a rtiu d a con sid e ra çã o d e Ita p e ti-n iti-n g a com o u m m icrocosm os d o p a ís. Assim , o m od e lo id e a l n ã o e stá circu n scrito a os lim ite s d e u m e stu d o d e com u -n id a d e , a trib u i-n d o-se a e le u m a lca -n ce e xp lica tivo q u e a b a rca a re a lid a d e b ra -sile ira .

A p a rte m a is su b sta n tiva d os d a d os re fle te a s p e cu lia rid a d e s loca is. A d itrib u içã o d a p op u la çã o se g u n d o a s e s-ta tística s ce n sitá ria s d e 1940 é u m e xe m p lo: p re tos e p a rd os som a m a p e -n a s 9,2% d o tota l, o q u e ce rta m e -n te e s-tá lon g e d e re p re se n ta r a re a lid a d e “ n a cion a l” . N o e n ta n to, e sse fa to, b e m com o a a n á lise re la tiva m e n te su cin ta , e m u ita s ve ze s in com p le ta , d a s re la çõe s ra cia is n ã o ob scu re ce ra m o a rg u m e n to ce n tra l d a d e fin içã o d o p re con ce ito à b ra sile ira , re fe rid o a o p rin cíp io a ssim i-la cion ista d o b ra n q u e a m e n to.

O te m a d o b ra n q u e a m e n to, com se u corolá rio d e a sce n sã o socia l, é a b ord a d o d e sd e o p rim e iro ca p ítu lo – u m b re -ve e stu d o sob re o p a p e l d o e scra vo n a e con om ia loca l. N og u e ira tra b a lh ou , sob re tu d o, com os in ve n tá rios d e p rop rie -tá rios – tip o d e d ocu m e n to a m p la m e n te u tiliza d o p or h istoria d ore s – p a ra m ostra r q u e os e scra vos e ra m a form a p re -fe re n cia l d e e m p re g o d e ca p ita l, con stitu in d o, n a m a ioria d os ca sos, o p rin cip a l e le m e n to d o p a trim ôn io d os se -n h ore s.

A com p osiçã o d a p op u la çã o se g u n -d o cla sse e cor – -d o sé cu lo XVIII a té a a b oliçã o – é o te m a d o se g u n d o ca p ítu lo. A p a rtir d a h ie ra rq u iza çã o d a p op u la çã o livre p or cor e ocu p a çã o, e sta b e -le ce u m a corre sp on d ê n cia e n tre cor e e stra tifica çã o socia l, id e n tifica n d o u m a cla sse d om in a n te d e p rop rie tá rios b ra n -cos e m u m e xtre m o, a m a ssa d e ca tivos com p osta m a jorita ria m e n te d e “ p re tos criou los” e “ p re tos a frica n os” ou “ d e n a çã o” , n o ou tro, e u m a p op u la çã o

livre d e b ra n cos e m e stiços p ob re s com -p e tin d o -p e los ofícios d e m a ior -p re stíg io. Esse s d a d os se rã o o p on to d e p a rtid a p a ra a id e n tifica çã o d os e le m e n tos d e fi-n id ore s d o p re cofi-n ce ito d e m a rca : b a sica m e n te , u m p roce sso d e b ra n q u e a -m e n to d a p op u la çã o livre , n o q u a l a cor b ra n ca é con d içã o e sse n cia l (e m b ora n ã o e xclu siva ) d e a sce n sã o socia l, e a con se q ü e n te p re te riçã o d os in d ivíd u os p orta d ore s d e tra ços n e g róid e s fa cil-m e n te id e n tificá ve is. De sta ca , e n tã o, o fe n ôm e n o d a “ in corp ora çã o m a ciça d os m e s t iç o s m a is c la r o s a o g r u p o b r a n -co” e d a “ p re fe rê n cia e sté tica p e lo tip o ‘m ore n o’, isto é , p e los in d ivíd u os d e tra -ços ca u ca sóid e s a ssocia d os à cor q u e i-m a d a d a p e le e scu ra e d os ca b e los” (:67), con clu in d o q u e a a sce n sã o d e cla sse e o b ra n q u e a m e n to sã o a sp e ctos d e u m m e sm o p roce sso. Por ou tro la d o, a firm a q u e ta l fe n ôm e n o e stá a u se n te n a cla sse d om in a n te – e xclu siva m e n te con stitu íd a p or b ra n cos e e n d og â m ica – q u e ju stifica se u statu s p e la cor d a p e le . N os d ois ú ltim os ca p ítu los d a p a rte d o livro d e d ica d a a o te m p o d a e scra vid ã o, e sse te m a é in te rm ite n te m e n te re -tom a d o m e d ia n te re fe rê n cia s a o a flu xo d e p op u la çã o d e ou tra s á re a s d a p rovín cia e d e im ig ra n te s – com a form a -çã o d e u m a n ova e lite d e a b a sta d os q u e n ã o p e rte n ce m à s fa m ília s tra d icion a is – e a o e m p ob re cim e n to d e u m a p a rce la d e d e sce n d e n te s d a cla sse d om in a n te loca l, q u e e n g rossou u m n ú cle o d e p rofission a is u rb a n os, m a jorita ria m e n te re p u b lica n os e fa vorá ve is à Ab oliçã o. En fim , a o a ssin a la r a s m u d a n ça s n a e stru tu ra socia l ocorrid a s n a s ú ltim a s d é ca d a s d o Im p é rio, o a u tor re g istra u m a u -m e n to n o n ú -m e ro d e b ra n cos q u e a tri-b u i à m ig ra çã o e à m e stiça g e m .

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u m a b re ve d iscu ssã o d o siste m a d e cla ssifica çã o ra cia l e se u s crité rios, re la tiviza n d o os d a d os ce n sitá rios. Ele p on -d e ra q u e os -d a -d os -d o ce n so p rovê m -d e d e cla ra çõe s d os p róp rios re ce n se a d ore s (ou d e se u s fa m ilia re s), fa to q u e im p lica a e xa g e ra çã o d a p rop orçã o d e b ra n cos (89,7% ) e su b e stim a çã o d a s ca te g oria s d e cor (ju n tos, p re tos e p a rd os com -p õe m 9,2% d a -p o-p u la çã o). De -p ois, -p e la ob se rva çã o d ire ta , o a u tor e stim ou o g ru p o m e stiço n ã o in corp ora d o a o con -tin g e n te b ra n co e m 20% ; som a d os a os 5,2% d e p re tos re g istra d os p e lo ce n so, Ita p e tin in g a te ria 1/ 4 d e su a p op u la çã o cla ssifica d a com o “ g e n te d e cor” . In d e p e n d e n te d isso e d a s in ú m e ra s g ra d a -çõe s q u e m a rca m os in d ivíd u os cla ssifi-ca d os com o b ra n cos e m e stiços, fissifi-ca e vid e n te o p a p e l d a “ a p a rê n cia ra cia l” n a a trib u içã o d e ca te g oria s d e id e n tifi-ca çã o e a s m u ita s p ossib ilid a d e s d e “ b ra n q u e a m e n to” . De ssa p e rsp e ctiva , “ a va rie d a d e d e com b in a çã o d e tra ços, q u e p od e m ir d o p re to ‘re tin to’ [...] a o b ra n co d e ca b e los fin os [...], u m a ve z p osto d e la d o o crité rio d e orig e m e con -sid e ra d o a p e n a s o fe n ótip o, fe z com q u e os lim ite s e n tre a s d ive rsa s ca te g oria s [...] se ja in d e fin id o, p ossib ilita n -d o o a p a re cim e n to -d e ca sos -d e i-d e n tifi-ca çã o con trove rsa , p od e n d o, a lé m d is-so, a id e n tifica çã o d o in d ivíd u o q u a n to à cor, se r in flu e n cia d a p e la a ssocia çã o com ou tros ca ra cte rísticos d e statu s [...] com te n d ê n cia a se a te n u a r a cor d e in -d iví-d u os socia lm e n te b e m -su ce -d i-d os” (:146-147).

Essa m e n çã o à m a le a b ilid a d e d os crité rios d e cla ssifica çã o, a d ificu ld a d e d e d e fin ir u m a lin h a d e cor, ou m e sm o a visu a liza çã o d o b ra n q u e a m e n to com o u m d os m e ca n ism os d e a sce n sã o socia l, sã o a lg u n s d os e le m e n tos q u e le va ra m à form u la çã o d e u m tip o e sp e cífico d e p re con ce ito ra cia l (q u e N og u e ira n ã o con sid e ra u m m e ro p re con ce ito e sté tico

b a se a d o n a a p a rê n cia , con form e a lg u n s d os se u s críticos).

Evid e n cia m se n a p e sq u isa a s a m b ig ü id a d e s d o siste m a cla ssifica tório ra -cia l n o Bra sil, in stru íd o p e lo re con h e ci-m e n to h istórico d e u ci-m p roce sso d e ci-m e s-tiça g e m q u e p ossib ilita a in corp ora çã o d os m e stiços m a is cla ros a o g ru p o b ra n -co. As d ificu ld a d e s d e sse p roce sso sã o e xp licita d a s p a ra m ostra r com o o p re -con ce ito ra cia l se m a n ife sta . Assin a la r o b ra n q u e a m e n to com o con d içã o d e a s-ce n sã o e q u iva le , n o ca so, a d e sve n d a r a p róp ria n a tu re za d o p re con ce ito ra cia l n o Bra sil e su a id e olog ia .

A id e olog ia b ra sile ira d e re la çõe s ra cia is, d e fin id a com o “ oste n siva m e n te m iscig e n a cion ista e ig u a litá ria ” (:196), é o ob je tivo d o q u a rto ca p ítu lo. Ap e sa r d e d a r p e so e xce ssivo a o p a ssa d o e s-cra vista com o fu n d a m e n to e xp lica tivo d a e xistê n cia d e d iscrim in a çã o ra cia l, a a n á lise d os d a d os d e m on stra q u e a id e olog ia ig u a litá ria e n cob re “ u m ti-p o su til e su b -re ti-p tício d e ti-p re con ce ito” (:196), q u e in te g ra o siste m a d e re p re -se n ta çõe s cole tiva s d o g ru p o b ra n co. A socie d a d e im p õe , a ssim , re striçõe s à m ob ilid a d e socia l d e p re tos e m u la tos e “ lh e re se rva h u m ilh a çõe s e d issa b ore s d e q u e os b ra n cos e m ig u a ld a d e d e con d içõe s e stã o ise n tos” (:196). Sã o m e n -cion a d a s a s m a n ife sta çõe s m a is ób via s d e p re con ce ito – p rové rb ios, e ste re ótip os, a titu d e s d e m e n osótip re zo à cor e scu -ra e tc. – p a -ra d istin g u ir o m od e lo b -ra si-le iro d o a m e rica n o p e la a u sê n cia , n o p rim e iro, d e se g re g a çã o ra cia l. Essa a p a re n te visã o a m e n iza d a d o p re con -ce ito n o Bra sil, n a ve rd a d e , a p on ta p a ra p rin cíp ios socia lm e n te p ou co e xp licita -d os, m a s e fica ze s, -d e -d iscrim in a çã o.

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olo-g ia b ra sile ira p ossu i e le m e n tos q u e a s p e ssoa s d e cor p od e m u sa r p a ra fa ze r re ivin d ica çõe s (m a s n ã o d iz q u a is), p ois n ã o e xiste se p a ra çã o a b solu ta e n tre b ra n cos e p re tos, e a situ a çã o é d e aco-m od ação e n ã o d e te n sã o. A d e scriçã o d e re p re se n ta çõe s te a tra is e os m a te ria is e m a p ê n d ice , con tu d o, d e ixa m e n tre ve r u m a “ lin h a d e cor” q u e e stá lon -g e d e e vid e n cia r a com od a çã o, e sp e cia l-m e n te se for con sid e ra d o q u e b ra n cos e n e g ros (a “ g e n te d e cor” ) fre q ü e n ta m clu b e s d ife re n te s.

In d e p e n d e n te m e n te d a s fa lh a s e li-m ita çõe s e ve n tu a is n a in te rp re ta çã o d a s re la çõe s ra cia is, a re e d içã o d o livro é op ortu n a p orq u e p rop õe u m m od e lo a n a lítico m a is g e ra l p a ra p e n sa r a re a li-d a li-d e b ra sile ira a p a rtir li-d e u m ca so e xe m p la r. Alé m d isso, o form a to d o te x-to – in clu in d o, e m a p ê n d ice , u m g ra n d e n ú m e ro d e d ocu m e n tos e d a d os ob tid os n a p e sq u isa d e ca m p o – m ostra o cu id a -d o -d o p e sq u isa -d or com su a s fon te s. N ã o ob sta n te a d ificu ld a d e d e p e n sa r a n o-çã o d e m arca d icotom ica m e n te – com o se os p re ssu p ostos d e a sce n d ê n cia ou orig e m e stive sse m a u se n te s –, o e stu d o sob re Ita p e tin in g a d e m on stra q u e a cor d a p e le e ou tros a trib u tos fe n otíp icos si-n a liza d ore s d e m iscig e si-n a çã o, m a is d o q u e sím b olos d e p osiçã o socia l e in d ica d ore s d e cla sse , re p re se n ta m a n a tu re -za d o p re con ce ito ra cia l n o Bra sil, p e r-ce b id a d e form a m a is d ra m á tica p e la s n ova s g e ra çõe s.

OLIVEIRA, João Pacheco de (org.). 1998. Indigenismo e Territorialização: Poderes, Rot inas e Saberes Coloniais no Brasil Cont emporâneo. Rio de Ja-neiro: Contra Capa Livraria. 310 pp.

Stephen G. Baines

Prof. d e An trop olog ia , Un B

O livro con stitu i-se e m u m a cole tâ n e a d e te xtos e scritos e n tre 1983 e 1994 e m q u e se b u sca d e scre ve r os a p a re lh os d e p od e r colon ia is q u e tê m p a p e l d e te rm i-n a i-n te i-n a g e ra çã o d e te rra s ii-n d íg e i-n a s. Ap a re lh os d e p od e r q u e “ ob e d e ce m a lóg ica s e in te re sse s e sp e cíficos, q u e n ã o p od e m d e m a n e ira a lg u m a se r con fu n -d i-d os com a s ra zõe s e m otiva çõe s -d a s p op u la çõe s q u e le g a lm e n te p re te n d e m re p re se n ta r” (:8). Tod os os te xtos e stã o re la cion a d os a o Proje to Estu d o sob re Te rra s In d íg e n a s n o Bra sil: In va sõe s, Uso d o Solo e Re cu rsos N a tu ra is (PETI), d o M u se u N a cion a l, e coord e n a d o p or J oã o Pa ch e co d e O live ira . Se u ob je tivo, a o lid a r com FUN AI, SPI, IN C RA e trib u n a is d e ju stiça , foi re a liza r u m a a n á -lise p roce ssu a l d o p od e r. O p roce sso d e cria çã o d e te rra s in d íg e n a s, o in d ig e n is-m o e a a çã o in d ig e n ista sã o foca liza d os com o u m a form a d e te rritoria liza çã o, p a ra rom p e r com p e rsp e ctiva s n a tu ra li-za n te s e a -h istórica s (:9).

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-d ig e n ista a p a rtir -d e u m a p re ocu p a çã o tota liza n te e h istórica d e n tro d a tra d i-çã o d a a n trop olog ia b ra sile ira . Ap ós e s-cla re ce r q u e o te rm o “ te rra in d íg e n a ” é u m a ca te g oria ju ríd ica d e fin id a p e lo Es-ta tu to d o Ín d io d e 1973, e com e n Es-ta r e sEs-ta le i, a p re se n ta va liosos d a d os e sta tísti-cos, se g u in d o a cla ssifica çã o d e te rra s in d íg e n a s fe ita p e la FUN AI, q u e re ve -la m o h istórico d o p roce sso d e d e m a r-ca çã o. De sm itifir-ca a “ id a d e d e ou ro” d o a n tig o SPI a o re ve la r q u e a s 54 á re a s d e m a rca d a s p or e ste órg ã o a b ra n g e m u m a e xte n sã o tota l d e m e n os d e 300 m il h a , isto é , a p e n a s 2,4% d o tota l d e te r-ra s in d íg e n a s já d e m a rca d a s. Fica e vi-d e n te a e stra té g ia vi-d e a çã o vi-d o SPI vi-d e cria r á re a s re d u zid a s p a ra os ín d ios, li-vra n d o a ssim o re sta n te d a s su a s te rra s p a ra ocu p a çã o d os b ra n cos. Afirm a o a u tor q u e e m m u itos ca sos a s á re a s d e -m a rca d a s p e lo SPI sã o -m u ito “ -m e n os u m a re se rv a te rritorial d o q u e u m a re -se rv a d e m ão-d e -ob ra” (:34) a ssocia d a s a form a s te m p orá ria s d e tra b a lh o a ssa -la ria d o. O a rtig o in clu i ta m b é m u m a crítica à s fon te s sob re d e m a rca çã o e u m a com p a ra çã o d os d a d os d e fon te s d ife re n te s, re fle tin d o sob re a s q u a tro e sfe ra s d e d e cisã o n a d e m a rca çã o d e te rra s in d íg e n a s, e a p on ta n d o u m ca m in h o p a ra a e tin og ra fia d os p roce d im e in -tos a d m in istra tivos e u m a a n á lise p olíti-ca d o p roce sso d e d e m a rolíti-ca çã o d a s te r-ra s in d íg e n a s.

O se g u n d o a rtig o, “ Te rra s In d íg e -n a s, Eco-n om ia d e M e rca d o e De se -n vol-vim e n to Ru ra l” , foi e scrito a títu lo d e a p re se n ta çã o d a Lista g e m d a s Te rra s In d íg e n a s, org a n iza d a p e lo PETIM u -se u N a cion a l e p e lo C EDI, e m 1987. O te xto m ostra d a d os sob re a situ a çã o ju ríd icoa d m in istra tiva d a s te rra s in d íg e -n a s -n o Bra sil, a p oia d o e m q u a d ros e g rá ficos, e n e le o a u tor re b a te , com d a d os e sta tísticos, a lg u n s d os a rg u m e n -tos m a is com u m e n te u sa d os p or se tore s

a n tiin d íg e n a s n o p a ís. Re ve la -se q u e é “ n o â m b ito d a s m icrorre g iõe s e d os m u n icíp ios q u e tra n sp a re ce m a is n itid a m e n te a p re se n ça in d íg e n a , q u e se con -ce n tra d e m od o p rivile g ia d o e m -ce rta s á re a s d os e sta d os” (:57). O a u tor m ostra q u e e m m u ita s u n id a d e s d a Fe d e ra çã o a m é d ia d e ocu p a çã o p or h a b ita n te d e ca d a h e cta re d e u m im óve l ru ra l é in clu siv e in fe rior à re la çã o h a / ín d io ve -r ifica d a n a s te -r-ra s in d íg e n a s, e q u e a a cu sa çã o d e q u e a s te rra s in d íg e n a s sã o d e m a sia d o e xte n sa s e m re la çã o à su a p e q u e n a p op u la çã o é com p le ta m e n te fa lsa (:61). As e sta tística s re ve la m q u e o re con h e cim e n to d a s te rra s in d íg e n a s n a Am a zôn ia n ã o con stitu i e m p e cilh o p a ra os p rog ra m a s g ove rn a m e n ta is d e co-lo n iza çã o e re form a a g rá ria e q u e n a m a ior p a rte d a Am a zôn ia a s te rra s in d í-g e n a s form a m á re a s d e e xte n sã o m e n or d o q u e a s te rra s a p rove itá ve is n ã o e x-p lora d a s d os im óve is ru ra is e xiste n te s. Ab ra n g e n d o tod o o Bra sil, a p rop orçã o d a s te rra s in d íg e n a s v is-à-v is a s á re a s d e la tifú n d io se ria som e n te d e 18% (:68). O a u tor con clu i q u e o re con h e ci-m e n to d a s te rra s in d íg e n a s n ã o coloca e m risco, d e m a n e ira a lg u m a , o d e se n -volvim e n to ru ra l.

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d iscu ssã o d e ob stá cu los d e tra b a lh o e crité rios d e ca ra cte riza çã o. De sta ca -se a d iscre p â n cia e n tre a a çã o e a s id e olo-g ia s in d iolo-g e n ista s. O te xto tra z p a ra os a tore s d o in d ig e n ism o u m a p e rce p çã o crítica d o siste m a d e cre n ça s e d e p rá ti-ca s q u e orie n ta m o p roce sso d e d e m a r-ca çã o d a s te rra s in d íg e n a s, a o re fle tir sob re os a tos a d m in istra tivos, con sid e -r a n d o - o s c o m o fe n ô m e n o s s o c ia is e p olíticos.

O q u a rto a rtig o, “ Açã o Discrim in a tória : Te rra s In d íg e n a s com o Te rra s Pú b lica s” , d e Lu cy Pa ixã o Lin h a re s, é b a -se a d o e m u m a p e sq u isa re a liza d a e m 1986 n os a rq u ivos d a Divisã o d e Proje -tos Fu n d iá rios d o IN C RA (M IRAD) e n a Divisã o d e Re g u la riza çã o Fu n d iá ria d a FUN AI. A a u tora tra ça a h istória d a s te rra s in d íg e n a s n o Bra sil. A a n á lise d a s re la çõe s e n tre o IN C RA e a FUN AI d e -m on stra q u e a coop e ra çã o cria d a p e la le i n ã o e xistia n a p rá tica , o q u e p re ju d i-cou os in te re sse s d os ín d ios. Du ra n te os a n os 60 e 70, com a in te n sifica çã o d a ocu p a çã o d os e sp a ços va zios n o in te rior d o p a ís, h ou ve u m p roce sso a ce le ra d o d e tra n sfe rê n cia d e te rra s p ú b lica s p a ra a s m ã os d e p a rticu la re s. A a u tora a fir-m a q u e “ o p roce sso d iscrifir-m in a tório, q u e p od e ria te r o ob je tivo d e p rom ove r a re g u la riza çã o fu n d iá ria e d istrib u ir te rra s p ú b lica s à p op u la çã o se m te rra , te m sid o u tiliza d o d e form a in ve rsa , re força n d o e in cre m e n ta n d o a con ce n tra -çã o fu n d iá ria [...]” (:146). Ao id e n tifica r e a rre ca d a r a s te rra s d e volu ta s, o p roce sso te m re p rod u zid o a e stru tu ra fu n -d iá ria con ce n tra -d ora .

O q u in to a rtig o, “ A Pa rticip a çã o d o Pod e r J u d iciá rio n a De fin içã o d a Te rra In d íg e n a ” , d e An a Lú cia Lob a to d e Aze ve d o, re su lta d o d a su a d isse rta çã o d e m e stra d o, e n foca a d in â m ica d a le i, te n d o com o ob je to a s te rra s d os Poti-g u a ra n a Pa ra íb a . A a u tora tom a o Po-d e r J u Po-d iciá rio com o p a rte Po-d e u m ca m p o

p olítico m a is a m p lo com o q u a l se a rticu la , in flu e n cia n d o e se n d o in flu e n cia -d o p e los p roce ssos socia is q u e n e le ocorre m , re ve la n d o su a s ca ra cte rística s con tra d itória s q u e a ce n tu a m ta n to a ju stiça q u a n to a corru p çã o.

O se xto a rtig o, “ A ‘Id e n tifica çã o’ co-m o C a te g oria H istórica ” , d e An ton io C a rlos d e Sou za Lim a , visa con sid e ra r a h istoricid a d e d a id e n tificação d e te rra s in d íg e n a s, tra b a lh o q u e p rop õe u m d iá log o d ire to com o ca p ítu lo 3 d a cole tâ -n e a , com p a ra -n d o a a tu a çã o fu -n d iá ria d a FUN AI com a a çã o in d ig e n ista d o Esta d o d u ra n te o p e ríod o d e vig ê n cia d o SPI, p on tu a n d o a s id é ia s b á sica s q u e n orte ia m a con stitu içã o d a p rá tica d e id e n tifica çã o. O a u tor tra ça a h istória d a ca te g oria “ id e n tifica çã o” , m ostra n d o se u a p a re cim e n to re ce n te n o in d ig e -n ism o b ra sile iro a p a rtir d a Porta ria -no

255/ N , d e 2 d e ju n h o d e 1975.

Referências

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