CONFERÊNCIAS
P S I C O S E S P S I C Ó G E N A S — P S I C Ó S E S D E R E A Ç Ã O
N E L S O N P I R E S (1)
N ã o só a o v u l g o ocorre responsabilisar a c o n t e c i m e n t o s de alta t e n s ã o afetiva c o m o causadores de loucuras. Apreciados pelo leigo h a v e r á s e m p r e u m ou vários incidentes na vida d o d o e n t e indubitavelmente g e r a d o r e s do distúrbio m e n t a l a p r e s e n t a d o . E m nosso acervo de observações t e m o s
veri-ficado que a t é m e s m o a alienados p o r t a d o r e s de paralisia geral e de alucinóse alcoólica foi atribuida u m a g ê n e s e psíquica. I s s o p o r q u e o acontecim e n t o afetivo, invocado coacontecimo responsável, exigia dos o b s e r v a d o s u acontecim a a d a p t a
-ç ã o , u m a plasticidade, que a moléstia j á n ã o permitia e, assim, o papel d o a c o n t e c i m e n t o , na realidade, era apenas o de d a r relevo às m á s condições psíquicas e a t é aí m a l denunciadas e m pequenos desvios pouco destacados e p o r isso m e s m o excusados pelos familiares. M a s as dificuldades são o u t r a s
q u a n d o ha que a p u r a r a psicogênese eventual de c h a m a d a s psicóses endógenas, onde n ã o h a o socorro dos dados objetivos q u e os pesquisadores busca-r a m a t é a g o busca-r a infbusca-rutifebusca-ramente no labobusca-ratóbusca-rio, n a a n a t o m i a patológica ou na
endocrinologia.
Pretendemos neste trabalho esmiuçar e apontar os elementos que autenticam o diagnóstico de Psicose de reação, também dita reação delirante psicógena ou psicóse psicógena. Conceito — reações verdadeiras, cujo conteúdo está em relação compreensível c o m o acontecimento original, q u e n ã o nasceriam sem este a c o n t e c i m e n t o e cuja evolução depende do a c o n t e c i m e n t o e das relações com ele. Vários elementos individualisam e legitimam a autenticidade das psicóses de r e a ç ã o . P a r a c o r r e t o diagnóstico é imprecindivel a t e n t a r :
1.°) p a r a a personalidade pré-psicótica ; 2.°) para as relações temporais e n t r e os acontecimentos t r a u m á t i c o s e a evolução dos distúrbios; 3.°) para a semiologia dos elementos i n t e g r a n t e s da p r o d u ç ã o m ó r b i d a e para os con-t e ú d o s e e s con-t r u con-t u r a das psicoses; 4.°) p a r a o sencon-tido da p s i c o s e ; 5.°) p a r a a evolução d o episódio e p a r a as ocorrências e circunstâncias ambientais e m
que vive o atual doente.
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Avulta a importância de personalidade p r é - m ó r b i d a . A u t o r e s vários t ê m i n q u e r i d o se r e a ç õ e s psicóticas p o d e m ocorrer e m n o r m a i s . A resposta é positiva p a r a certas modalidades de r e a ç ã o : — t e m sido observadas psicoses de g u e r r a e n t r e n o r m a i s se b e m n ã o m u i t o frequentemente. V i a de regra, m e s m o com o a c ú m u l o de fatores desfavoráveis de toda ordem, n ã o h a v e r á reação psicógena se n ã o houver u m a predisposição psicopática intensa e declarada.
Personalidades paranóides, e m suas múltiplas variedades — sensitivas, querelantes, fanáticas, místicas, etc.; deprimidos constitucionais — a s t ê n i c o s ; p e r s o -nalidades com intensa disposição á explosividade — perso-nalidades histéricas,
hipertímicas, etc., incluem a l g u n s fatores indispensáveis á s reações psicógenas.
Estas apenas parecem representar uma exacerbação daquilo que sempre foi nítido e evidente em seu modo de ser. Não ha solução de continuidade entre o pré-mórbido e o propriamente mórbido mas a fronteira indecisa é
larga-mente ultrapassada atravez uma progressão imperceptível.
Restrições s ã o feitas s o b r e t u d o q u a n t o ás reações esquizofrênicas e p a r a as psicóses m a n i a c a s . O s estudos de K r e t s c h m e r , t e n d e n t e s a i m p u t a r a o s esquizofrênicos u m a a n t e r i o r esquizoidia, e n c o n t r a m serias contestações e m t o d a a p a r t e . N ã o se n e g a a realidade do esquizóide m a s as esquizofrenias são algo mais que a c e n t u a ç ã o de seu feitio caracterológico e t e m p e r a m e n t a l . P e l o m e n o s nas esquizofrenias processuais verifica-se a existência de algo d e novo, de s u p e r - a j u n t a d o a o m o d o de ser anterior. Q u a n t o á existência de esquizofrenias reativas, autores de r e n o m e i m p u g n a m - l h e s t e r m i n a n t e m e n t e a autenticidade. B u m k e n ã o as admite e, em extensa revisão de conceito, o informado e doutrinário psiquiatra francês H e n r y E y considera a " e s q u i z o -frenia r e a t i v a " m e r a hipótese de t r a b a l h o . P a r e c e que, na verdade, escassís-simas publicações legitimam a existência de esquizofrenias reativas d i g n a s l e a l m e n t e desse n o m e .
E n t r e t a n t o , para a escola de Adolf M e y e r a totalidade das esquizofrenias n ã o passa de r e a ç õ e s de personalidade ás injunções do meio. É sabido que, p a r a Bleuler, n a s esquizofrenias h a u m processo de n a t u r e z a orgânica, que, d e v a s t a n d o a o r g a n i s a ç ã o instintiva-afetiva, desperta reações de defesa da p e r s o n a l i d a d e ; estas reações de defeza e x p r i m e m s e na s u p e r e x t r u t u r a p s í quica, na patoplastia dos s i n t o m a s . A p e n a s o p r o d u t o manifesto da d e s a g r e -g a ç ã o ainda poderia ser entendido, u m a ou o u t r a vez, m e d i a n t e i n t e r p r e t a ç ã o por via analítica, h a u r i n d o elementos principalmente nos e n s i n a m e n t o s de F r e u d ; haveria certa semelhança e n t r e o d e t e r m i n i s m o dos sonhos e o d e t e r -minismo de muitos s i n t o m a s esquizofrênicos. Claro está que isso n a d a elu-cida q u a n t o á patogenia das s í n d r o m e s esquizofrênicas. Talvez haja v a r i a s p a t o g e n i a s e isto Bleuler t o r n o u implícito ao dizer que o g r u p o das esquizofrenias deve ser h e t e r o g ê n i o , " a l g o assim c o m o o g r u p o das síndromes o r g â -nicas", que, em psiquiatria, envolvendo moléstias e x t r e m a m e n t e diversas (paralisia geral, demência senil, psicoses t r a u m á t i c a s , etc.) teem todavia a l g u n s sintomas c o m u n s — alterações da memoria, labilidade emotiva, debilidade d e juizo, de raciocínio, etc. Enfim, com B i r n b a u m , a coisa t o r n a - s e clara q u a n d o se distinguir a patogenia dos sintomas e a patoplastia dos m e s m o s . N a s esquizofrenias a p e n a s nos são acessiveis os m e c a n i s m o s patoplásticos. O a r s e nal semiológico m a i s a p t o á identificalos é o analítico. Q u a n t o aos m e c a nismos patogênicos eles c o n t i n u a m insondaveis e nem parece ter sido e n c o n t r a d a metodologia adequada á sua descoberta. Com efeito, a a n a t o m i a p a t o -lógica, a endocrinologia, a psicologia médica, a fisio-patologia ensaiaram s u a s a r m a s neste t e r r e n o em p u r a perda até a g o r a . E s c a p a m n o s s e m p r e as " r e l a -ções de c a u s a l i d a d e " ( J a s p e r s ) .
A s esquizofrenias psicogenéticas são, p o r t a n t o , hipóteses a p a r e n t e m e n t e verosímeis m a s n ã o d e m o n s t r a d a s com suficiente poder de convicção. S ã o mais c o r r e n t e m e n t e neuroses, reações esquizomórfas ( H . D e l g a d o ) distantes todavia das psicóses esquizofrênicas o que se verifica desde que se utilise b ô a semiologia psiquiátrica. C o m p l e t a r e m o s n o s s o p e n s a m e n t o no decurso deste trabalho. P r o c u r a m - s e , pois, n a s psicóses esquizofrênicas, s i n t o m a s q u e denunciem a origem orgânica processual e a origem psíquica n ã o processual. A p o n t o u - s e e n t r e os p r i m e i r o s : a vivência de a m e a ç a a o E u e á sua u n i d a d e , o s e n t i m e n t o de t r a n s f o r m a ç ã o do E u e do m u n d o . A l e m disso, c o r r o b o r a no m e s m o sentido a aparição d u m s i n t o m a destacado, ilógico, irredutivel, a p a r de lucidez e claridade de conciencia; a d q u i r e m idêntico significado o r o u b o do p e n s a m e n t o , os p e n s a m e n t o s fabricados e impostos e o s e n t i m e n t o
Mas é preciso insistir que quando se diz processual isso não implica em organicidade pura e simples. H a um conceito do " p r o c e s s o " que exime-o da equiva-lência com o orgânico. Quanto á diferenciação do " p r o c e s s o " com " r e a ç ã o "
ouçamos o que diz Jaspers : " Ao lado dos processos cerebrais ha o outro grupo que se opõe a eles por u m caráter — a m u d a n ç a de vida psíquica — que n ã o é acompanhada de nenhuma desagregação da vida mental e nessa mudança entram como elementos, muitas relações de compreensão". Enquanto que nos processos orgânicos os fenômenos mentais estão, do ponto de vista psicológico, em completa confusão, aqui, quanto mais se aprofunda o caso estudado, mais se acham relações concientes. " P o d e - s e então separar aqui tipos de evolução psicológica em opo-sição aos processos orgânicos que, do ponto de vista psicológico, se desenrolam ao acaso e sem escolha. N a s formas menos graves, a evolução do indivíduo prossegue como se num momento dado ocorresse uma descontinuidade brusca do desenvolvimento. N o sujeito normal, ao contrario, a linha é regular e, no caso dum processo orgânico, não se tem uma simples descontinuidade mas uma confusão completa. Chamamos á estes fenômenos processos psíquicos por oposição aos processos orgânicos" ( J a s p e r s ) .
D i g n a de registro é a opinião de B u m k e para quem as esquizofrenias nada mais são do que reações e x ó g e n a s . P r o c u r a nelas, com afinco, os sin-t o m a s corporais aos quais dá vulsin-tosa imporsin-tância. Adolf Meyer inscreve-se entre os que conceituam as esquizofrenias c o m o d e s o r d e n s fundamentais da personalidade. A diversidade poderá c o r r e s p o n d e r á diversidade real d o nivel de o r g a n i z a ç ã o que se vae dissolver. Individualizada a o r g a n i z a ç ã o é indivi-dualizada a psicóse. Enfim, a realidade da esquizofrenia psicógena é o r a combatida "in t o t u m " o r a admitida c o m o " h i p ó t e s e de t r a b a l h o " ; o u t r a s vezes (Adolf M e y e r ) conceitua-se apenas como reação da personalidade e isto significa cem p o r cento de psicpgênese, u m a vez que, aqui, é t o m a d a n o seu aspéto psíquico.
D o p o n t o de vista nosológico, as demais personalidades suscetíveis d e t r a n s i t a r do n o r m a l p a r a o a n o r m a l s ã o s o b r e t u d o as p a r a n ó i d e s , as d e p r e s -sivas, as hipertímicas e as a s t ê n i c a s ; quasi todos os autores insistem em denunciar a frequência dos c o m p o n e n t e s histéricos, p a r a n ó i d e s , depressivos, em qualquer r e a ç ã o psicógena. D e n t r e todas, p o r seu e n o r m e âmbito, a s reações paranóides a s s u m e m importância considerável c o m o v e r e m o s no d e -correr do trabalho. N e l a s está contida a maioria das psicoses p s i c ó g e n a s . Com K r e t s c h m e r v a m o s avistar as reações das personalidades p a r a n ó i d e s .
F r e n t e aos acontecimentos de vida diária os indivíduos situamse s o b r e t u d o das t r ê s m a n e i r a s s e g u i n t e s : a) S e n t i m e n t o de domínio, de poder e n f r e n -ta-los e conduzi-los com superioridade, facilidade de atividade e esforço alegre, sadio. O r g a n i z a m - s e as manifestações estênicas de c o m b a t e e de luta b ) Sen-t i m e n Sen-t o de desencorajamenSen-to, descrença, inferioridade, derroSen-ta. Configuram-se as manifestações astênicas da timidez e insegurança, c ) S e n t i m e n t o de t e m o r , impelindo á fuga d e n t r o de si m e s m o , ao p o r t o s e g u r o e solido da vida inte-rior. Refluem os p o r t a d o r e s p a r a o refugio na " T i b e r i a d e da r e s i g n a ç ã o p u r a m e n t e a u t i s t a " .
A s duas primeiras m a n e i r a s de t o m a r posição frente á vida não se a p r e -s e n t a m -s e m p r e p u r a -s . E m b r i c a m - -s e , com predominância, t r a ç o -s da p r i m e i r a ou da s e g u n d a e resultam então personalidades curiosas que flutuam e n t r e dois pólos antitéticos : a ) expansivos — natureza combativa, de tenacidade
faná-tica, prestes á cólera, inescrupulosos na agressividade, amor próprio provocador, excessivo. Ha nelas, a despeito da couraça aparente, um locus minoris resistente — um sentimento de inferioridade oculto, recalcado, mas dinâmico, b) sensitivos —
O s e r o t o m a n o s o p t a m , em regra, pela terceira modalidade — refugiam-se no sutismo, c o n s t r ó e m u m m o d o cor de rosa, inteiramente m u r a d o contra a realidade e configura-se e n t ã o a definição de erotomania — é a ilusão delirante d e ser a m a d o . D e p a s s a g e m digamos que, n o n a m o r a m e n t o comum, ha traços inumeráveis e frequentes de erotomania.
T a i s são, em síntese, as personalidades p a r a n ó i d e s . A s p é t o s psicológicos sediços — o o r g u l h o , ambição, etc., r e s u l t a n t e s de suas atividades no campo de política, religião, filosofia, etc., são suficientemente conhecidas para que os ventilemos — são reformadores, agitadores, magnicidas, idealistas, passionais d e p a r t i d o s e de ideais do b e m c o m u m , profetas, p r o p a g a n d i s t a s e fundadores de seitas e o r g a n i s a ç õ e s de todos os tipos.
E n t r e as o u t r a s personalidades p r o p e n s a s ás reações psíquicas encontra-m o s os hipertíencontra-micos explosivos coencontra-m g r a n d e aptidão aos distúrbios de con-ciência, ofuscações, estados crepusculares, sujeitos aos assaltos dos mecanis-m o s hiponóicos. N e l a s a claridade da conciência é p e r t u r b a d a , fende-se de subito o poder de reprimir impulsos primitivos e estes estalam sob alta tensão, brutais e n e m sempre com finalidade límpida.
Kretschmer batizou duas modalidades de reações inhêrentes a estes tipos : a ) Reações explosivas que não são mais que as " a b - r e a ç õ e s " das neuroses
freu-dianas t r a n s p o s t a s p a r a o m u n d o exterior. Súbitas descargas liberam impulsos l o n g a m e n t e r e p r e s a d o s : a embriaguez patológica (se b e m n ã o seja psicógena) será o p a d r ã o . E s t a d o s crepusculares epilépticos ou originados por estados afetivos de g r a n d e potencial a c u m u l a d o a c a b a m i r r o m p e n d o n u m a t o de inau-dita violência. A " c h ô m a g e " , a " d e b a c l e " financeira provocam, em certos p r e d i s p o s t o s explosivos, u m estado conhecido c o m o de " r a p t u s de conciência" e m que o d o e n t e e x t e r m i n a a família inteira e suicida-se apóz para p o r fim á s privações m a l s u p o r t a d a s e intermináveis. O " a m o k " dos malaios — fuga cega e assassina — é a p o n t a d a como crise epileptoide deste tipo explosivo, b) Reações de circuito, em que os atos não são singelos e diretos mas complicados e até subtis sem que, e n t r e t a n t o , intervenha neles a instância crítica superior, o S u p e r - E g o freudiano; o ato, o crime, é cometido, p e r c o r r e n d o um circuito que vae do m u n d o instintivo — s u b t e r r â n e o do inconcjente — a o exterior, e s c o t o m i z a n d o a censura m e d i a n t e u m v e r d a d e i r o " e s t a d o s e g u n d o " d u r a n t e o qual só falam os desejos a satisfazer em linha quebrada, e n q u a n t o dura a narcóse do S u p e r E g o , escamoteado. S o b r e t u d o a nostalgia é que tem p r o -p o r c i o n a d o e x e m -p l o deste t i -p o : R u d e s aldeãs, t r a n s -p l a n t a d a s -para a cidade como amas ou creadas de servir, experimentam o progressivo crescimento da nostalgia, o desejo de r e t o r n a r ao seu t o r r ã o . Si a casa dos p a t r õ e s fosse suprimida cessava a impossibilidade, E este objetivo é a t i n g i d o ; u m dia r o m p e u m incêndio n a h a b i t a ç ã o , ou a creança p a g e a d a é trucidada. Aos olhos c o m u n s é incompreensível a b r u t a l ocorrência. A libertação poderia ser obtida
Mais curioso ainda — os suicídios dos púberes — f r e q u e n t e m e n t e d o m é s -ticas m a l avindas com caprichos do a m o r ou colegiais r e p r o v a d o s nos exames e t e m e r o s o s a n t e pais e m e s t r e s .
O infanticídio cometido p o r m ã o s solteiras é o u t r o exemplo. E , no meio militar, a v u l t a m as deserções dos recem-incorporados. A m i ú d e d e s e r t a m a p ó s
u m a p e r m i s s ã o de visitar a família. L á a nostalgia não se dessedenta mais e impulsiona o r e c r u t a a efetivar o desejo cego de r e t o r n a r ao lar.
F i n a l m e n t e , apezar do q u a n t o se disse a respeito, K r e t s c h m e r capitula ainda como possiveis reações de circuito os casos de cleptomania, ao c o n t r á r i o d o celebre legista parisiense Antheaume que julga que a cleptomania é mera r a t o n i c e de ladra. E n t r e os ciclotímicos as reações mais frequentes são n a t u
-r a l m e n t e as dep-ressivas. B u m k e n e g a a b e -r t a m e n t e a existência de manias reativas. D e p r e s s õ e s reativas são vulgares — m o t i v a m - n a s os desastres eco-nômicos, as decepções sentimentais, a m o r t e de parentes, as preocupações com a saúde própria e dos familiares, a solidão, etc. E n t r e indivíduos deste tipo ha u m que gosa da popularidade literária: " é o " c a f a r d " , celebrado pela literatura e n t r e os r e n e g a d o s da L e g i ã o dos E s t r a n g e i r o s . O suicídio é o p o n t o final a que s ã o conduzidos. Gruhle, no e n t r e t a n t o , capitula o " c a f a r d " ainda e n t r e as reações epilépticas. R e a l m e n t e , a explosividade, as alterações de conciência, o prólogo nostálgico, t o r n a m - s e a p a r e n t a d o s e afins.
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P o n t o de referencia i m p o r t a n t e nas psicóses de r e a ç ã o é a relação e n t r e o que se poderia c h a m a r o a n t e c e d e n t e e o c o n s e q u e n t e : t r a u m a s reais e a i r r u p ç ã o do distúrbio. Cada tipo de personalidade t e m suas afinidades m ó r b i d a s e, p o r t a n t o , u m acontecimento que é psicógeno p a r a u m tipo de p e r s o -nalidade é inócuo p a r a o u t r o e vice-versa, m e s m o que este o u t r o seja t a m b é m a n o r m a l . O s sucessos g e r a d o r e s da psicose p o d e m se constituir " e x - a b r u t o " e configurar u m t r a u m a — a psicose estala de m o d o a g u d o — imediato ou não. Ás vezes não ventila os t e m a s a p a r e n t e m e n t e desencadeadores, n ã o a p r e s e n t a relações de c o m p r e e n s ã o c o m os a c o n t e c i m e n t o s : — p . ex.: m o r r e o pai do doente e este t e m u m acesso de m a n i a — O s t r a u m a s são ocasionais e a psicóse n ã o é reativa apezar da r e l a ç ã o cronológica com as ocurrencias, pois que ela apareceria m e s m o sem estas. O u t r a s vezes os acontecimentos s ã o necessariamente causaes, incluem-se na psicose que apresenta i n ú m e r a s relações de c o m p r e e n s ã o com as ocurrências. S e m estas n a d a sobreviria, as c a u s a s s ã o " s u f i c i e n t e s " para a reação. S ã o as psicoses de r e a ç ã o verdadeiras. M a s , ao lado dos t r a u m a s e fatos causais, constituídos de m a n e i r a aguda, há os que se o r g a n i z a m em continuidade, e favorecem a estabilisação de con-dições nocivas, que se cronificam e só apóz m u i t o t e m p o , aparece a reação — p s i c ó s e de situação. A l g u m a s das causas a p o n t a d a s c o m o " s u f i c i e n t e s " para d e s p e r t a r e m reações, s e r i a m : preocupações de o r d e m econômica, preocupa-ç õ e s com a saúde p r o p r i a e de outros, deceppreocupa-ções afetivas, guerra, fracassos profissionais, situação de expetativa — na prisão preventiva, nas g u e r r a s de n e r v o s — nostalgias, t r a u m a t i z a d o s que b u s c a m indenização, conflitos sociais, pleitos judiciários, situações dúbias, solidão m o r a l . M a s c o m o estes a c o n t e c i m e n t o s só se m o s t r a m patogênicos q u a n d o a c o m e t e m d e t e r m i n a d a s p e r s o -nalidades, v a m o s relata-las s u c i n t a m e n t e n u m e o u t r o aspéto. U m a estatística
americana, levantada entre os afetados de psicóse maníaca depressiva, mostrou, em 100 doentes, as causas seguintes responsáveis pela origem da psicóse: Atrito e discórdia na família (25 casos, sendo 21 maníacos e 4 depressivos);
E m 1934, p o r ocasião das greves de P a r i s , u m g r u p o de grevistas p s i c ó ticos foi selecionado e observado. Neles verificouse que a maioria d e m o n s -trava o a s p é t o depressivo, p a r a n o i d e ou confusional. I m p o r t a saber que 8, isto é, a maioria era c o m p o s t a de simples operários elevados á categoria d e delegados dos grevistas e, p o r t a n t o , a s s o b e r b a d o s do p o n t o de vista da r e s p o n -sabilidade para a qual n ã o estavam p r e p a r a d o s ( L e c o n t e ) . A leitura do livro de L e c o n t e é útil p o r q u e focalisa u m aspéto psicológico palpitante e a t u a l : a relação dos conflitos sociais com os distúrbios psíquicos. N ã o eram e x t r a -nhos aos episódios delirantes, o alcoolismo, o c h ô m a g e , alem das greves, con-flitos de conciencia profissional e m o r a l . A s situações de expectativa t e m sido s e m p r e celebradas c o m o nocivas. Constituem m e s m o p o r inteiro u m novo m é t o d o de estratégia — a " g u e r r a de n e r v o s " . N ã o a d m i r a que já fosse conhecida de h á m u i t o pela psiquiatria. N a situação dos presos q u e a g u a r d a m sentença, as reações delirantes teem indisfarçavel e específico matiz — elas t r a d u z e m m e d o a o que está p a r a vir, exprimem tentativa sorrateira de p r o c l a m a r loucura e, por aí, a irresponsabilidade, e, a l é m disso, ás vezes ainda, há u m a auto-afirmação, " o u t r a n c e " , atra vez de r a s g o s histéricos desta-cados. T a i s reações diferem a b e r t a m e n t e de outras psicóses de presos, e s t e s já n o u t r a situação — os velhos sentenciados o p t a m a n t e s pelo delírio de indulto ou de p e r d ã o . S e m p r e se s u p õ e m agraciados com a quitação da pena. A m b o s d e m o n s t r a m b e m o relevo da situação que, em tais casos, é quasi tudo. A tonalidade é sempre mixta, p a r a n ó i d e e depressiva. O s fra-cassos de o r d e m profissional c o n d u z e m electivamente os sensitivos ao delírio de relação — s e n t e m - s e a p o n t a d o s e c o m e n t a d o s a t é p o r acenos e em t u d o vêm a l u s ã o a o desastre.
T e m o s em n o s s o acervo de experiência clínica c o m p r o v a d o que, n o meio militar, a situação do oficial convocado e a do s a r g e n t o o b r i g a d o p o r função especial, radiotelegrafista, por exemplo, ao convívio com oficiais é vivida p o r a l g u n s c o m o suficientemente dinâmica p a r a impelir a t é as manifestações sensitivas, excitandolhes a sensibilidade para o s e n t i m e n t o de inferioridade. S i -tuações dúbias s ã o t a m b é m as d a s g o v e r n a n t e s , dos professores primários, dos assistentes eternos, dos suspeitos como delatores, das solteironas, etc. A situação em que m o v e m os acidentados á cata de indenização, os que b u s c a m reformas e aposentadorias vantajosas, e t c , servem i g u a l m e n t e de catalizadores de distúrbios psíquicos.
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P a r a t r a t a r m o s dos conteúdos e e s t r u t u r a das psicoses reativas é indis-pensável o apuro semiológico e r e p u t a m o s que esse a p u r o é tão capital que n e n h u m o u t r o a s p e c t o do diagnóstico o excede em importância. A bôa semiologia psiquiátrica irá impedir muitas surpresas p r o g n ó s t i c a s e t e r a p ê u -ticas d e s e n c o n t r a d a s e inoperantes, alem de limpar c u i d a d o s a m e n t e o c a m p o em que se acha o problema das esquizofrenias.
Depois de J a s p e r s e s t a m o s habilitados a aferir a fenomenologia das idéias delirantes. Sobreleva distinguir a n t e s de t u d o as idéias delirantes p r o p r i a -m e n t e ditas ( W a h n I d e e n ) de o u t r o g r u p o que entre nós t a -m b é -m recebe a d e n o m i n a ç ã o da delirante, m a s que s ã o muito diferentes do p o n t o de vista
fenomenológico — idéias delirantes e r r ô n e a s e n t r e as quais as idéias super-valentes ( U e b e r w e r t i g e I d e e n ) . A o passo que as primeiras supõem u m a alteração fundamental da personalidade, u m a t r a n s f o r m a ç ã o inacessível a
nossa psicologia comum, as o u t r a s se explicam pela personalidade, pela vida anterior do doente, pela profissão, gênero de existência, etc. E x e m p l o das p r i m e i r a s : o delírio de t r a n s f o r m a ç ã o do m u n d o e do eu. H a aqui u m a experiência inexplicável, irredutível, que se processa na m e n t e esquizofrênica.
E x e m p l o das s e g u n d a s : as idéias dos fanáticos, dos místicos, dos doutrinadores etc. O s n o r m a i s p o d e m ter idéias supervalentes quasi em condições delirantes — os e n a m o r a d o s , os sábios que se e n c a r n i ç a m em descobertas,
a c a b a n d o por p r o c l a m a r c o m o v e r d a d e s definitivas e inatacáveis, concepções p r o v i s ó r i a s ; os religiosos e seus d o g m a s , os preconceitos sociais etc. O trânsito do n o r m a l para o a n o r m a l é questão de intensidade, de convicção, mas não de qualidade como nas Wahn Ideen. Nas psicógenas o esqueleto do delirio (que comporta um magma de idéias, conhecimentos, lembranças etc., normais e patológicas) é representado pelas idéias supervalentes. N ã o ha lugar para as outras que, á falta de denominação portugueza apropriada, citámos em alemão, as Wahn Ideen. J á se está a vêr uma decorrente: tais idéias super-valentes exigem o alento da catatimia, da fé, da convicção. Elas se organisam em delírios catatímicos.
A s dúvidas de B u m k e sobre a q u e s t ã o das m a n i a s reativas (ele nega-as) explicam-se desde que se atente n a diversidade de f u n d a m e n t o s dos delírios catatímicos e holotímicos ou sintímicos. E s t e s derivam d u m a elevação ou depressão total do h u m o r : n ã o ha electividade n e m complexos afetivos. A hipertimia maníaca ou a depressão melancólica a b a r c a m t o d o o psiquismo e, se nelas incidem idéias delirantes, são m e r a s fórmulas inconsistentes, sem fixidez, p u r a s expressões do estado afetivo, que se e x p r e s s a r á imperiosamente de mil m a n e i r a s sem d e m o r a r - s e electivamente nesta ou naquela idéia. O h u m o r holotímico é fundamental e não h a idéia que n ã o lhe veicule o matiz,
t o d o o psiquismo está s u b m e r s o nele. As fórmulas verbais dos maníacos-depressivos e dos paralíticos gerais, por exemplo, t ê m o simples papel de traduzir o que é invariável — o estado de h u m o r . T a i s fórmulas p o d e m
variar m a s n ã o o h u m o r , que é fundamental. A o contrario, nos delirios catatímicos ha apenas setores psíquicos anormais. O delirio fundamenta-se em idéias bem precisas, que d e t e r m i n a m a afetividade.
A s depressões reativas s ã o t ã o freqüentes que a c r e d i t a m o s m e s m o serem as que mais a m e ú d o incidem. T e m o s poucos elementos p a r a distingui-las das depressões ciclotímicas. A inibição que, s e g u n d o Dreyfus, seria apanagio
dos ciclotímicos (1) no consenso de todos os autores é característica constante de toda depressão. O elemento maïs seguro para a distinção reside no que dissemos acima a propósito de catatimia e holotimia. As depressões
ciclotímicas fundamentam-se numa alteração total, endogena, do humor (holotimia) e as depressões reativas fazem-se em consequência a aconteci-mentos precisos, que prolongam sua ação específica, determinando um estado de humor que passa a depender destes acontecimentos — as idéias depres-sivas são decorrentes pois da catatimia. A semiologia irá deparar, frequente-mente, nas psicoses reativas, com certas dificuldades no que toca ás altera-ções da conciência. Não raro, aparecem turvaaltera-ções e este é um dos sinais, no entanto, quasi obrigatório das reações exogenas. Nas psicoses psicógenas, a alteração quando vem é acompanhada de estupor ou de estado crepuscular. No estupor a inibição psíquica atinge tal fastígio que ha lentificação extrema do pensamento, hesitação a propósito de tudo até de movimentos, alteração da capacidade de notação de estímulos e acometimento decorrente da memória. Indicios de flexibidade cerea e de catatonia podem aparecer. No estado crepuscular ha um grande estreitamento no campo da conciência ás vezes com falseamento da realidade, elementos alucinatórios; é sobretudo visível a exclusão total ou parcial da vida presente.
A s psicoses psicógenas a p r e s e n t a m c o n t e ú d o com manifestas relações de c o m p r e e n s ã o . A o m e n o s a maioria delas p o r q u e , como v e r e m o s , ha u m g r u p o e m que as alterações da conciência dificultam a acessibilidade psicológica. O conceito de "fuga n a d o e n ç a " j á facilita de c e r t o m o d o g r a n d e p a r t e das relações de c o m p r e e n s ã o . Mas "refúgio na d o e n ç a " t e m dois a s p e c t o s : as v a n t a g e n s objetivas a auferir com a psicose (psicose de prisão, psicose de guerra, de indenisação etc.) e as v a n t a g e n s subjetivas que sobrevêm com o
e n c a s t e l a m e n t o n a t o r r e de marfim das " r e v e r i e s " m ó r b i d a s — psicoses erotomanas, r e a ç õ e s esquizomórfas, delírio de p e r d ã o dos velhos sentenciados.
N a s primeiras, as v a n t a g e n s objetivas por intermédio da psicose, t r a n s i -t a m desde a doença obje-tivada pelo a u -t o m a -t i s m o de repe-tição a -t é a simu-lação e constituem n ó s górdios p a r a as perícias psiquiátricas. K r e t s c h m e r , com seus estudos sobre histeria, desferiu poderosos golpes para destrui-los. N e l a s as relações de c o m p r e e n s ã o b r o t a m n a t u r a l m e n t e p o r q u e as v a n t a g e n s da doença explicam quasi t u d o . N a s o u t r a s , q u a n d o o paciente realisa o "refugio na d o e n ç a " , com o que c o n s t r o e m u n d o melhores, são mais dificil-m e n t e abordaveis pela p e n e t r a ç ã o psicológica.
U m soldado, n a s vésperas de carnaval, i n e s p e r a d a m e n t e vê seu noivado r o m p i d o e p a r a afogar seus pezares t o m a ostensiva p a r t e nos folguedos e fa-lo t ã o " i n p e t t o " que esquece de precaver-se e, p o r n ã o se haver conve-n i e conve-n t e m e conve-n t e conve-neles, v e m a ser preso e recolhido a o xadrez. Iconve-niciam-se reações delirantes, d u r a n t e as quais o doente julgase e m relação com altas p e r s o n a -lidades do m u n d o político, confabula com Hitler, Stalin, e n t r a em conchavos com o n o s s o P r e s i d e n t e , etc. C o m os oficiais t o m a atitude de franca incon-veniência, t r o c a opiniões intempestivas, etc. Afirma que b r e v e casar-se-á com a ex-noiva. N o m u n d o delirante que habita, n ã o h a logar p a r a pessimismo. R e a ç ã o de tipo maníaco, m a s sem os característicos da verdadeira mania. A q u i os conteúdos são a l t a m e n t e t e m á t i c o s . O b e d e c e m a u m a direção c l a r a : corrigir a realidade, c o m p e n s a n d o as decepções sentimentais e as punições militares, m e d i a n t e as realisações dos desejos e auto-afirmações a t é de o r d e m política. T ã o clara é a significação dos conteúdos que n ã o só seus c o m p a -nheiros, m a s seu c o m a n d a n t e , t a m b é m j u l g a v a m t u d o u m a farça. A evo-lução a r r a s t a d a d o episódio, a fixidez dos t e m a s , a pálida permanência do
delírio, m e s m o n o hospital psiquiátrico, d e m o n s t r a m - l h e a inexatidão do pre-suposto. N e s t e caso, as v a n t a g e n s subjetivas s ã o parciais. A punição que cumpriria no xadrez era infinitamente inferior a estadia no Hospital de Psicopatas, finda a qual seria, como foi, excluído do Exercito e entregue ao
"chômage". Este caso típico não oferece dificuldades do ponto de vista da compreensão. Mas já não se dá o mesmo com as relações causais. A exclu-são total da realidade ou a onipotência da catatimia encontra-nos apenas armados de circunlóquios: personalidades esquizóides, com grande vida inte-rior, enérgica tentativa de preservar os embates da realidade etc. Mas já não ha a limpidez causal que é apanágio dos observados de Kretschmer os quais pretendem, com a psicose, proveitos efetivos: indenisações, liberdade, afastamento do campo de batalha etc. Estes intensificam reflexos ancorados profundamente no instinto de conservação — temores, reações de pavor, pâ-nico, tempestades de movimentos etc. Mais tarde os fixam com a repetição e, depois, os objetivam. Nosso soldado não conta com o substrato de reflexos
vegetativos, não lhe apontamos claras bases biológicas confirmadas por atavismos filogenéticos. É verdade que Krestschmer recorre aos mecanismos hiponóicos em que a mente humana reedita aspectos do psiquismo primitivo
O positivo é que a " m e n t a l i d a d e p r i m i t i v a " de L e v y B r u h l encontra, nas psicoses, confirmações apenas aqui e ali. Parciais em certas esquizofrenias, j a m a i s são p l e n a m e n t e convincentes e nunca repetidas c o m o organisações atávicas "in t o t u m " D a í j u s t a m e n t e a dúvida sobre aspectos fundamentais das esquizofrenias. A s escolas psicológicas que p r e t e n d e m have-la esclarecido n ã o nos forneceram a chave que abre os segredos d o diagnóstico e m e n o s ainda a psicologia dos s i n t o m a s isolados. Como admitir as hipóteses psico-lógicas escolásticas que só se ajustam a u m a ou o u t r a faceta d o problema, m a s que exigem, n o entanto, u m a aceitação totalitária? A p e s a r do que se disse n ã o ha a t é hoje seguras bases para o d i a g n ó s t i c o das esquizofrenias reativas. Mauz descrimina o complexo de angústia, o c o m p l e x o do pai e o da insuficiência como conteúdos quasi p a t o g n o m ô n i c o s das esquizofrenias rea-tivas. Elas, alem disso, seriam floridas e jamais acutilariam o psiquismo c o m o " r a i o em céu s e r e n o " m a s seriam a c o m p a n h a d a s p o r multiforme s i n t o m a t o -logia s e m p r e redutivel á c o m p r e e n s ã o . P o r e m , M a u z nega-lhe o p r o g n ó s t i c o benigno e com isso a m p u t a u m dos característicos cardeais das reações deli-rantes. T e m o s , pois, que é de valor o alto t e m a t i s m o dos conteúdos psi-cóticos, isto é, o alto significado que o individuo a n t e s da doença e m p r e s t a v a aos t e m a s que depois ventilou n o delírio. E s t a regra, todavia, tem r e p a r o s ; vimos pre-psicóticos, i m e d i a t a m e n t e a n t e s do s u r t o delirante atribuir g r a n d e valia a u m tema principal e m e n o s valor a o u t r o s u b o r d i n a d o . O delírio era constituído, no e n t a n t o , pelo m e n o s i m p o r t a n t e e as manifestações mais g r a -ves, c o m o tentativa d e assassinato, decorriam dele. T a m b é m aqui existia o " d e s l o c a m e n t o afetivo", g e n i a l m e n t e descoberto por F r e u d . T r a t a v a - s e de u m perseguido político, n a época da revolta comunista, que delirou mais t a r d e com t e m a s de ciúme e só s e c u n d a r i a m e n t e de perseguição e n q u a n t o que, a n t e s do surto, os valores eram inversos. O s conteúdos das r e a ç õ e s delirantes são, portanto, conteúdos determinados e não conteúdos quaisquer.
U m soldado h o m o s e x u a l é impedido de divertir-se certa noite, por estar de serviço. S a b i a m - n o ás voltas com a nostalgia de sua g e n t e e decepcionado por se h a v e r e m frustado certos projetos sobre sua caderneta militar tão a n -d a -d a . A noite é a c o r -d a -d o para suce-der a u m c a m a r a -d a -de sentinela. Mal acordado, de posse do fusil vae a u m baile que se realizava nas imediações e detona a a r m a contra os convivas. E m seguida apoia o maxilar inferior sobre o fuzil e detona-o n o v a m e n t e . Cae ferido g r a v i s s i m a m e n t e e, com a voz abafada pelos retalhos de carne pendentes e dilacerados, modula u m s a m b a e esconde n u m papel qualquer coisa que pretendia ser u m a auto-acusação. Havia, n o passado, duas crises epileptiformes. A s contrariedades imediatas (impedido de divertir-se) as outras mais serias ( n ã o obteria sua caderneta militar) n ã o explicam c o m p r e e n s i v a m e n t e porque atirou p a r a o a g l o m e r a d o do baile. K r e t s c h m e r conceitua-lo-ia c o m o a g e n t e d u m a r e a ç ã o primitiva de de tipo explosivo. N o u t r a s palavras u m a descarga cega de impulsos r e p r e -s a d o -s ; m a -s já -se percebe a preci-são m e n o r do conteúdo.
E m suma, a preexistência ou n ã o dos m e c a n i s m o s e esboços estruturais que v ã o receber os conteúdos precisos ou não de certo m o d o foi avistada p o r
Kleist ao batizar os p r o d u t o s m ó r b i d o s de reações h o m ô n i m a s ou heterônimas, conforme se achassem preformadas ou n ã o taes tipos de reação na psique n o r m a l pre-psicótica. E os conteúdos psicóticos v ã o p e r d e n d o cada vez mais
o caráter de " d e t e r m i n a d o s " , precisos, compreensíveis á medida que se ajuntam fatores nociceptivos exógenos. T o d o psiquiatra conhece exemplos de indivíduos que fazem delírios fortemente temáticos com elementos alucinatórios raros, fenômenos de a u t o m a t i s m o m e n t a l do tipo de Clerambeault que
já foram conceituados pela escola franceza c o m o confusão m e n t a l delirante, designação imerecida porque n ã o ha p r o p r i a m e n t e o q u a d r o amencial, caben-do-lhes m e l h o r o crisma alemão de alucinose, que focalisa o aspecto de
cla-ridade de conciência e alucinação. N a genese desses episódios o fator exóneno é, ás vezes, t ã o m í n i m o que eles evoluem sem que d e m a r q u e m o s a exata etiologia; s u p o m o s então auto-intoxicações de origem intestinal,
hepá-tica, metabólica enfim m a s n ã o a isolamos com precisão. A predisposição é quasi tudo, o t e m a t i s m o d o m i n a o q u a d r o e só elementos esparsos como a subitaneidade, a concomitância de leves alterações somáticas, e, sobretudo, os dados negativos q u a n t o a choques afetivos e situações de tensão, v ê m incriminar os fatores exógenos. N u m caso n o s s o t r a t a v a - s e de oficial que iniciou seus distúrbios psíquicos com fenômenos de adivinhação do pensa-m e n t o sobre assuntos que realpensa-mente o p r e o c u p a v a pensa-m , reações u pensa-m pouco exa-g e r a d a s de cólera, preciência de e n c o n t r o s com parentes, m e r a a c e n t u a ç ã o de seu estado n o r m a l e que passou desapercebido á sua família até que, em pleno j a n t a r , duas ejaculações incoerciveis, tirando-lhes t o d o o socego, despistaram os p a r e n t e s . À seguir, estado de a g i t a ç ã o pronunciado e i n t e r n a m e n t o em hospital no qual não p u d e m o s , m á o g r a d o t o d a s as pesquizas, identificar com absoluta certeza a etiologia, p r e s u m i d a m e n t e hepática ( u m a cirrose suspei-tada em inicio e sub-ictericia). Mas q u a n t o s cirróticos e ictéricos g r a v e s dei-x a m de delirar? Assim, o t e m a t i s m o vae se impurificando a medida que se a j u n t a m fatores exógenos.
D i s c o r r e n d o sobre as reações h o m ô n i m a s e h e t e r ô n i m a s de Kleist, Bumke conclue: a r e a ç ã o será d u m ou d o u t r o tipo conforme o g r á o de participa-ção exógena. E esta nós nunca p o d e m o s afastar de todo. O exemplo que
citei esclarece-nos: conteúdos temáticos existem t a m b é m em reações e x ó g e n a s , onde a participação tóxica ou infecciosa é leve. N ã o é pois critério definitivo e decisivo, c o n q u a n t o seja dos mais i m p o r t a n t e s nas psicoses psicógenas. O corolário inverso, s e g u n d o o qual sinais somáticos invalidam o d i a g n ó s t i c o de
psicose psicógena é ainda menos verídico porque não é lógico esperar que meros acontecimentos levem ao delirio sem antes assinalar em sua passagem: insônias, anorexia, distúrbios endócrino-vegetativos etc. e, por aí, alteração de
todo o balanço metabólico. As psicoses post-operatórias são nitido exemplo
E n t ã o o a c o m e t i m e n t o exogeno decapita a síntese psíquica superior; Bonnhoeffer e S t e r t z p r e t e n d e m bi-partir a sintomatologia das r e a ç õ e s e x ó g e n a s e m sinais fundamentais e sinais accessórios O s primeiros dariam os quadros
a m e n d a i s e os o u t r o s os q u a d r o s p a r a n o i d e s , catatônicos, de alucinoses. esquizomorfos, maníacos, e t c . Aqui e n t r a a q u e s t ã o da e s t r u t u r a psicótica. Ao passo que as r e a ç õ e s e x ó g e n a s t ê m , nos casos típicos, c o m o cardeal, as"
síndromes a m e n d a i s , as picoses psicógenas teriam s í n d r o m e s flóridas oriundas das personalidades e da constiuição psíquica I s t o cabe p o r inteiro n a s idéias
de H u g h l i n g s K a c k s o n , que p r o c u r o u esmiuçar o que c h a m a de "nivel de organisação". O a c o n t e c i m e n t o que p r o m o v e a dissolução das funções psíquicas superiores acaba liberando o que se organisou em niveis mais baixos e e n t ã o
c a d a u m reage individuailmente s e g u n d o sua fórmula pessoal. Q u e esse a c o n -tecimento seja somático ou psíquico n ã o i m p o r t a t a n t o p a r a a sintomatologia; i m p o r t a m u i t o mais a hierarquia dos níveis psíquicos que m o d e l a m as e s t r u -t u r a s psicológicas que r e a g e m . N u m a -ten-ta-tiva de -t r a z e r o con-tingen-te da clinica á s especulações de J a c k s o n , H e n r y E y delineou as g r a d a ç õ e s h i e r á r
-quicas das e s t r u t u r a s psicológicas; t r a ç o u estas e s t r u t u r a s em g r u p o s sindrômicos que p a r t e m daquelas, onde é m í n i m a a anomalia, a t é ás o u t r a s , em que as anomalias são consideráveis. E discriminou as seguintes e s t r u t u r a s :
neu-r ó t i c a s ; p a neu-r a n o i d e s ; onineu-róides; disestésicas; maniaco-melancolicas; confusoe s t u p o r o s a s ; confusoesquizofrênicas; dconfusoemconfusoenciaconfusoes. A s psicosconfusoes psicógconfusoenas p confusoe r c o r r confusoe -r i a m toda essa escala com exceção das e s t -r u t u -r a s demenciais. E n t -r e as duas p r i m e i r a s se incluiriam os q u a d r o s c h a m a d o s , ás vezes, "psicastenias deli-r a n t e s " , acentuação de neudeli-rose obsessiva até á condição delideli-rante p a deli-r a n ó i d e
sensitiva. Mixto das 4.ª e 5.ª são a s í n d r o m e de Cotard e o delírio de n e g a ç ã o .
A presença de alucinações n ã o invalida o diagnóstico da psicose de reação. N a " b o u f f é e " delirante dos degenerados, nas formações delirantes de B i r n b a u m ou n o " s o i d i s a n t " delírio espírita de R o x o , ha multiplicidade de alucinações. A l i á s a semiologia de alucinação é a s p e r r i m a e do i n t e r r o g a t ó r i o do doente, b e m a p u r a d a s as coisas, resulta que n ã o sabemos se, p o r exemplo, as vozes o u v i d a s são de fato vozes com característicos sensoriais ou se são como se fossem vozes ou ainda se s ã o p u r a s interpretações ou ilusões. A s visões dos fanático já s ã o clássicas e servem de r e s p o s t a s àqueles a u t o r e s que p r e t e n d e m a d m i t i r a alucinação c o m o elemento decisivo, que afirma a organicidade do •
distúrbio .
* * *
A perfeita identificação das r e a ç õ e s psicógenas exige, alem do a p u r o semiológico, dados d e m o n s t r a t i v o s de u m a elaboração psicopatológica. I m p o r -t a n -t e é, por exemplo, aferir aquilo que se c h a m a " s e n -t i d o dos s i n -t o m a s "
( F r e u d ) . T o d o sintoma n e u r ó t i c o t e m u m a finalidade n e m s e m p r e compreensivel à primeira vista. O m e s m o ocorre com frequência c o m as psicoses d e r e a ç ã o . O r a o doente ancóra-se n a psicóse c o m o n u m paraiso recuperado,
n u m refugio c o n t r a os embates duros da realidade: a m o r o s o s decepcionados imerjem na ilusão e r o t o m a n a ; óra, e m vez disso, a psicóse veicula u m a intenção, serve p a r a obter a l g u m a coisa de p r á t i c o e v e r d a d e i r o : as psicóses de g u e r r a visam a r e m o ç ã o das linhas de frente, as de indenização, cuja sintomatologia p o d e r á ter u m a mescla de sinais autênticos sobre os quais se e n x e r t a m u m a infinidade de adicionais e ilegítimos, visam o seguro, a
reforma, a recompensa. Outras vezes ainda parecerá dificil admitir que haja satisfação de desejos quando o sofrimento é tão patente e a natureza dos sintomas não deixa supor qualquer parcela de prazer — por exemplo,
E s t e " s e n t i d o de p s i c ó s e " , pode t o m a r feições mais difíceis de s e r e m decifradas s e m p r e que e n t r a em j o g o u m forte s e n t i m e n t o de culpa, a deter-m i n a r u deter-m a necessidade de punição. A l e x a n d e r estabeleceu codeter-m s e g u r a n ç a que h á crimes que se c o m e t e m p a r a saciar esta sede de punição, a culpa precede o delito que é cometido p a r a ensejar castigo. Desloca-se a tônica afetiva da culpa neurótica, p a r a culpa positiva e concreta do crime. A p u n i -ção consecutiva aplaca t u d o . C o m certas psicóses ocorre o m e s m o . J á s e a p o n t o u que o s e n t i m e n t o de intolerância é, p o r vezes, u m a defesa c o n t r a o r e c o n h e c i m e n t o de culpas proprias. N a s psicóses de prisão a história se repete, h a o desejo de parecer d i g n o de d ó , isento de culpa m e d i a n t e a loucura, o m e d o real da vida carcerária, o isolamento forçado, etc., t u d o isto o s u s t e n t a r o delírio. N o s episódios delirantes místicos, nos delírios d o s fanáticos etc., h a s e m p r e u m m e c a n i s m o d i r e t o — a fuga na ficção, onde os elementos oníricos já estão a t e s t a r o p a r e n t e s c o com os sonhos e devaneios analisados p o r F r e u d . N a s personalidades p a r a n ó i d e s o s e n t i m e n t o de infe-rioridade é c o m p e n s a d o delirantemente, como já vimos, c o m os querelantes e sensitivos. O s ciumentos preferem reconhecer culpas no objeto a a d m i t i r " d e f i c i t s " p r ó p r i o s , verdadeiros m o t i v a d o r e s de desconfiança. U m a aptidão constitucional a c e n t u a d a p a r a os m e c a n i s m o s de p r o j e ç ã o é indispensável, m a s a r e s u l t a n t e psicótica ainda é u m " p i s a l l e r " aliviador, senão u m a realisação p a t e n t e de desejos c o m o nos c i u m e n t o s h o m o s e x u a i s . G r a n d e p a r t e dos alcoolistas que a t r i b u e m à m u l h e r desejos eróticos n a d a m a i s fazem do que p r o j e t a r nelas os seus p r ó p r i o s desejos. N o delírio de p e r s e g u i ç ã o erótica das solteironas, a psicóse é defesa delirante c o n t r a os assaltos i n t e r n o s d a
libido. O impulso sexual veemente — uma ultima vez exprime-se sob forma falsificada — transforma-se na fórmula: "querem assalta-la sexualmente", A fórmula é mais aceitável para estas personalidades adultas e em vias de
N o s delírios de culpa da m e n o p a u s a t e m o s visto fato i d ê n t i c o : o crime, os conteúdos sexuais e de culpabilidade são expressões de s e n t i m e n t o s reais contra os a s s o m o s paroxísticos do " r e t o u r d ' a g e " , que se a u t e n t i c a m g r a ç a s a realidade subjetiva do inconciente, que F r e u d crismou com o n o m e d e
" A l l m a c h t der G e d a n k e n " , que t r a d u z i m o s : onipotência das i d a d e s : devaneios, idéias prevalentes, impulsos inconcientes, que a r r a s t a m g r a n d e força de convicção c o m o se fossem reais e objetivos. M e s m o n a d e p r e s s ã o reativa
é possível assinalar, vez p o r outra, realisações de desejos. F r e u d vê, e m
casos de melancolia, u m a vitoria do super-ego e x p r o b a d o r a despejar recriminações sobre o ego culpado, incapaz de defender-se. I s t o verifica-se n a s depressões que o leigo c h a m a r i a de a r r e p e n d i m e n t o . N e m se diga que o fato
é r a r o : aí estão as m ã e s solteiras, os criminosos i m p u n e s e, sobretudo, os defloradores. Conhecemos o c a s o de u m aviador que levou a a m a n t e i l u s t r e á prisão por ser c o n t r a v e n t o r a de certificados de e x a m e . A a m a n t e suici-dou-se e o oficial estabilisou u m a conduta em que se sobrelevam o h o r r o r á solidão, os sobressaltos á noite, inquietações p e r m a n e n t e s . I s t o acabou n a envelhecimento precoce. O u t r a s vezes o sofrimento é p r o c u r a d o p a r a p r o vocar quitação de culpas. T a l adúltera o b t é m r e p r e e n ç õ e s e censuras m e -diante r e c u r s o s artificiais semi-concientes. O s ralhos e c e n s u r a s v ã o c o m o que justificar a incompatibilidade de gênios e o adultério. T a l é muitas v e z e s a g ê n e s e das c h a m a d a s "mesalliances p s y c h i q u e s " e das sinistroses conjugais de Mlle. P a s c a l . E s t a a u t o r a creou o conceito de " m a r i d o p s i c ó g e n o " , o m a r i d o que, pela inhabilidade e i n c o m p r e e n s ã o , impeliria a esposa aos " c h a -grins d ' a m o u r " e daí à psicóse.
E , d e r r a p a n d o do t e r r e n o das psicóses psicógenas, v e m o s o sentido d o s s i n t o m a s subtilisar-se ainda m a i s : — ha casais que necessitam p a r a subsistirem j u n t o s , daquilo que L a f o r g u e c h a m o u " b a r r e i r a s c o n j u g a i s " que podem ser v a r i a s : b a r r e i r a s das disputas, a dos divertimentos freneticamente b u s c a d o s , a disputa d o a m o r aos filhos ou a luta em t o r n o do filho predileto, etc. E s t a s b a r r e i r a s t ê m o efeito p a r a d o x a l de serem indispensáveis á u n i ã o : sem elas instalar-se-iam o tédio e a saciedade. O u t r a s vezes elas exprimem, u m a feroz luta pela supremacia da qual F i n o t t r a t o u no " P r e j u j é des s e x e s " . N e m sempre, porem, n a s psicóses p s i c ó g e n a s se p o d e r á isolar o sentido do sintoma. Q u a n d o F r e u d p r e t e n d e u d o g m a t i c a m e n t e afirma-lo deparou c o m aqueles neuróticos que sofrem r e a l m e n t e e que desejam livrar-se dos sintomas. F r e u d lançou m ã o de intermináveis teorismos a p r o p ó s i t o do m a s o q u i s m o
p r i m á r i o e secundário m a s n ã o explicou c o n v i n c e n t e m e n t e os fatos. Elecubrações geniais, m a s p u r a m e n t e especulativas. Se isto o c o r r e com neuroses, q u e dizer-se de psicoses, onde os elementos causais s ã o i g n o r a d o s in t o t u m ?
A s influencias catatímicas a p a r e c e m em m u i t a s o u t r a s psicoses, dando-lhes sentido de pureza cristalina: na loucura indusida, nos delírios coletivos, como naquelas aparições ocorridas n a Bélgica e estudadas p o r A u g u s t o L a d o n
( U n e épidémie m e n t a l e c o n t e m p o r a i n e ) e aqueles similares habituais do n o s s o n o r d e s t e : os fanáticos de A n t o n i o Conselheiro e de J o s é L o u r e n ç o . L á e s t á v a m o s q u a n d o soubemos que c o m p a n h e i r o n o s s o detivéra p a r a e s t u d o s u m a dessas famílias de sertanejos toda ela fanatisada e delirante. T r a t a v a - s e de u m a maioria de débeis mentais indusida a o delírio pelo chefe psicopata fanático acometido do episódio delirante místico.
E s t e f e n ô m e n o familiar que citamos pode ser o b s e r v a d o em p o n t o m a i o r t r a n s p o s t o p a r a â m b i t o s nacionais. É dos nossos dias u m p o v o inteiro ser galvanisado pelo que se c h a m a mística. Q u e r coletiva, quer individualmente
as tecituras de valores morais organisam-se e dinamisam grandes atos, mercê da implantação destas idéias supervalentes. Não é necessário, está claro, uma debilidade mental para que esses delírios se instalem. Tão fundo como
no indivíduo, ha, nos povos, arraigados recentimentos de derrotas, de infe-rioridade, de vingança, recentimentos que os líderes se incumbem de
com-pensar e dirigir, inoculando-lhes por todos os meios de propaganda as estentóricas auto-afirmações ortopédicas de superioridade de raça, invencibilidade, anceios de domínio universal, exaltando os instintos de defesa com o apregoar
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O p r o g n ó s t i c o é bom, constituindo m e s m o u m dos característicos das psicoses reativas. A p e s a r disso K r e t s c h m e r já os vio com seis anos de d u r a ç ã o . Única vóz dissonante, Mauz, n ã o aceita a g ê n e s e psíquica c o m o g a r a n t i a de bôa evolução nas esquizofrenias reativas. M a s todos temos visto episódios delirantes d u r a r e m dias, semanas, no m á x i m o alguns meses. Cada episódio isolado t e m desfecho favorável. Repetem-se, n o entanto, e s e m p r e
com a m e s m a e s t r u t u r a se b e m n e m s e m p r e com os m e s m o s conteúdos psicó-ticos. A o contrario das esquizofrenias genuínas, o s u r t o psicótico n ã o deixa seqüelas, as c h a m a d a s cicatrizes psíquicas. I n t e r e s s a n t e é notar, com K a s a -nin, o fato singular que e n q u a n t o d u r a m os episódios reativos, o doente n ã o registra quais os sucessos geradores, lndentifica-se " a p o s t e r i o r e " , vencido o s u r t o . É t a m b é m possível a reincidência que caminha p a r a a esquizofrenia declarada. A s vivências m ó r b i d a s são, nos que remitem, situadas e exami-n a d a s sob âexami-ngulos diversos dos do período mórbido e t e exami-n d e m a perder a virulência sob o d e s g a s t e do t e m p o . Confirma-se aqui o preceito terapêutico de F r a n c k Bezzola que pretende o r e t o r n o do doente á normalidade, m e d i a n t e a repetição, por palavras, dos t r a u m a s ocasionadores e a segurança de serem eles superaveis, p r o c u r a n d o que o doente renuncie a o m u n d o irreal e volte a integrar-se na realidade apesar de hostil. A r t u r R a m o s conta-nos um caso seu bem sucedido com esta técnica de F r a n c k Bezzola.
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Q u a n t o á terapêutica q u e r e m o s apenas a p o n t a r dois ou t r ê s fatos básicos. K r e t s c h m e r m o s t r o u que os seus paranóicos sensitivos são, mais do que o indivíduo n o r m a l , sensíveis a m u d a n ç a s de a m b i e n t e ; p o r o u t r o lado, t o d o s s a b e m o s da precariedade das t e r a p ê u t i c a s psíquicas nas neuroses. U m a s vezes m o s t r a m - s e rebeldes a t u d o , o u t r a s vezes revelam-se curas m a r a v i l h o s a s e x p o n t â n e a s ou súbitas. Períodos de saúde e períodos de doença interca-lam-se sem que saibamos r i g o r o s a m e n t e porque. É notório ainda c o m o m u i t o s psicopátas t e m vultosa produtividade. A história a p o n t a - n o s centenas
e ha no livro de Grasset "Os semi-loucos e semi-responsaveis" exemplos a fartar de bizarrias e anomalias de altas personalidades compatíveis, no entre-tanto, com produções inestimáveis. Necessitaram, para viver, de certa
N o t e r r e n o prático, s u b t r a i r e m o s o doente do meio nocivo, onde floreceu
a psicóse. É este u m recurso que equivale á cirurgia. Processo.s psicoterápicos de toda o r d e m s ã o valiosos adjuvantes, m a s , q u e r e m o s insistir nisso, são meras medidas preparatórias. Depois de conhecer amplamente o doente e
seus problemas, c o m o os vive, suas debilidades, desejos, t e m o r e s e aptidões, depois disso é que vae iniciar-se a terapêutica. Consiste em o r g a n i z a r o tipo de vida individual p a r a cada doente. H a u m a minoria deles que deve i g n o r a r suas p r ó p r i a s fragilidades. Mas n ã o deve ignora-las o b o m médico. P a r a o r g a n i z a r taes tipos de vida é indispensável o conhecimento amplo e exato de seus doentes. P o r ex., exigir dum instável a vida de burocrata é erro que se repete a m i u d e e o fracasso terapêutico c o m p r o v a a inanidade, nesses indivíduos, das famosas curas de repouso. U m sensitivo será m e l h o r a p r o -veitado em tarefas objetivas e de r e n d i m e n t o d o que se lhe i m p u z e r m o s u m a luta de frente contra suas r u m i n a ç õ e s , exigindo dele que supere suas ten-dências que são inamoviveis, p o r q u e constitucionaes. A u m epileptoide deve-m o s r e c o deve-m e n d a r tarefas ativas deve-m a s que n ã o d e deve-m a n d a deve-m controvérsias e con-flitos. É inutil t r a t a r u m fanático pela p e r s u a s ã o e exigir d u m inseguro constitucional a revelação de seus motivos íntimos e impor-lhe u m a conduta o p o s t a de auto-afirmação ortopédica que lhe causará danos e sofrimentos. A p r o v e i t a r e m o s suas aptidões à meticulosidade, à exatidão e o r g a n i z a r e m o s u m a vida que p e r m i t a o p r ê m i o a essas qualidades.