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J. bras. pneumol. vol.42 número3

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Academic year: 2018

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ISSN 1806-3713 © 2016 Sociedade Brasileira de Pneumologia e Tisiologia

http://dx.doi.org/10.1590/S1806-37562016000000152

Escolhendo sabiamente entre ensaios clínicos

randomizados e desenhos observacionais em

estudos sobre intervenções

Juliana Carvalho Ferreira1,2, Cecilia Maria Patino2,3

1. Divisão de Pneumologia, Instituto do Coração – InCor – Hospital das Clínicas, Faculdade de Medicina, Universidade de São Paulo, São Paulo (SP) Brasil. 2. Methods in Epidemiologic, Clinical and Operations Research–MECOR–program, American Thoracic Society/Asociación Latinoamericana del Tórax.

3. Department of Preventive Medicine, Keck School of Medicine, University of Southern California, Los Angeles (CA) USA. Ensaios clínicos randomizados (ECR) são o padrão

ouro para avaliar a eicácia de intervenções, pois evitam as principais fontes de viés por meio da randomização dos participantes para tratamento ou controle. Essa característica do desenho do estudo faz dos ECR o tipo mais bem classiicado de estudo dentro do sistema de avaliação cuja estrutura é a Medicina Baseada em Evidências. No entanto, nem todas as perguntas sobre intervenções relativas à saúde podem ser respondidas por meio de um ECR. Estudos observacionais podem ser mais apropriados para estudar certos aspectos das intervenções e, assim, complementar os ECR.

Em algumas situações, não é viável ou ético randomizar pacientes para receber um tratamento — uma intervenção cirúrgica, por exemplo — se os cirurgiões estiverem se sentindo desconfortáveis em realizar um procedimento com o qual não estejam familiarizados. Além disso, estudos observacionais são mais adequados para avaliar a incidência de eventos adversos de intervenções, pois seus critérios de inclusão e exclusão são menos rigorosos, o que permite a inclusão de um espectro mais amplo da população-alvo. Embora os ECR geralmente sejam a melhor opção para testar a eicácia (o efeito da intervenção em condições ideais), os estudos observacionais constituem uma opção valiosa para avaliar a efetividade (o efeito de uma intervenção na vida real).

Algumas das vantagens dos estudos observacionais são: eles são geralmente menos caros que os ECR, não apresentam os obstáculos éticos dos ECR relacionados a divisão dos participantes em grupos tratamento ou controle e raramente envolvem o uso de placebos (Tabela 1).

ESCOLHENDO SABIAMENTE

A escolha entre um estudo observacional e um ECR deve se basear na pergunta especíica do estudo. Desenhos observacionais são apropriados quando é razoável supor que as características que inluenciam o clínico a escolher uma determinada intervenção não estão relacionadas com o desfecho do estudo. Por exemplo, em uma comparação entre radiocirurgia e resseção pulmonar cirúrgica quanto ao impacto na sobrevida de pacientes com câncer de pulmão, um estudo observacional não seria apropriado, pois a escolha entre radiocirurgia e resseção pulmonar é inluenciada pelo tamanho do tumor e performance status do paciente, que

também inluenciam a sobrevida independentemente da opção de tratamento. Em contraste, estudos observacionais são frequentemente usados para estudar a efetividade da

vacinação para proteger contra doenças infecciosas, pois as características que inluenciam a decisão de se vacinar não são os principais determinantes do risco de ser infectado.

MINIMIZANDO O VIÉS

Ao realizar estudos observacionais para testar inter-venções, o investigador tem de delinear estratégias para minimizar o viés resultante de desequilíbrios entre os grupos intervenção e controle no tocante a fatores de risco conlitantes (fatores de confusão). Na fase de desenho do estudo, uma estratégia típica é medir fatores de confusão conhecidos no início e depois fazer ajustes relativos a esses fatores durante a fase de análise por meio de modelos multivariados. Outra estratégia é combinar variáveis de confusão relacionadas com a intervenção e criar uma nova variável, chamada escore de propensão, que pode ser usada, por exemplo, para parear os participantes no início do estudo ou fazer ajustes relativos aos fatores de confusão durante a análise. No entanto, a eiciência desses métodos é limitada a fatores de confusão conhecidos e medidos de forma adequada.

INDO ALÉM DO DESENHO DO ESTUDO

Ao avaliar a literatura médica, os clínicos devem considerar não só o desenho (ECR ou observacional), mas também a qualidade de um determinado estudo. Tanto os ECR como os estudos observacionais contribuem para o avanço do conhecimento na área da saúde, o que pode orientar a tomada de decisão clínica e políticas de saúde pública.

Tabela 1. Comparação entre ensaios clínicos randomizados e estudos observacionais.

Aspecto ECR Estudos

observacionais

Randomização Sim Não

Risco de viés de seleção Baixo Pode ser alto Risco de desequilíbrio de

fatores de risco basais

Baixo Alto

Custo ++++ ++

Complexidade ++++ ++

Duração ++ ++++

Apropriado para avaliar a

eicácia

++++ ++ a +++

Apropriado para avaliar a efetividade

+ ++++

Apropriado para identiicar

eventos adversos

++ a +++ ++++

ECR: ensaios clínicos randomizados.

LEITURA RECOMENDADA

1. Concato, J, Shah N, Horwitz RI. Randomized, controlled trials, observational studies, and the hierarchy of research designs. N Engl J Med. 2000:342(25):1887-92. http://dx.doi.org/10.1056/ NEJM200006223422507

2. Black N. Why we need observational studies to evaluate the effectiveness of health care. BMJ. 1996;312(7040):1215-8. http://dx.doi. org/10.1136/bmj.312.7040.1215

J Bras Pneumol. 2016;42(3):165-165

165

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Tabela 1.  Comparação entre ensaios clínicos randomizados  e estudos observacionais.

Referências

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