UNIJUÍ – UNIVERSIDADE REGIONAL DO NOROESTE DO ESTADO DO RIO GRANDE DO SUL
THAÍS OLIVEIRA DOS SANTOS
ASPECTOS DESTACADOS DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS
Ijuí (RS) 2018
THAÍS OLIVEIRA DOS SANTOS
ASPECTOS DESTACADOS DAS MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS
Monografia final do Curso de Graduação em Direito objetivando a aprovação no componente curricular Monografia.
UNIJUÍ – Universidade Regional do Noroeste do Estado do Rio Grande do Sul.
DCJS – Departamento de Ciências Jurídicas e Sociais.
Orientador: MSc. Sérgio Luis Leal Rodrigues
Ijuí (RS) 2018
Dedico este trabalho a todos que de uma forma ou outra me auxiliaram e ampararam-me durante estes anos da minha caminhada acadêmica.
AGRADECIMENTOS
A Deus, acima de tudo, pela vida, força e coragem. A meu orientador tal e tal pela sua dedicação e disponibilidade.
Aos meus pais que nunca mediram esforços para contribuir com meu sucesso e minha trajetória. A todos que colaboraram de uma maneira ou outra durante a trajetória de construção deste trabalho, meu muito obrigada!
“É melhor prevenir os crimes do que ter de puni-los. O meio mais seguro, mas ao mesmo tempo mais difícil de tornar os homens menos inclinados a praticar o mal, é aperfeiçoar a educação”.
RESUMO
O presente trabalho de pesquisa monográfica faz uma análise dos aspectos destacados das medidas socioeducativas. Inicialmente, revela o conceito de criança e adolescente, os princípios, a finalidade e o fundamento das medidas socioeducativas e a evolução histórica das normas, tanto no segmento de âmbito nacional quanto internacional, até chegar na teoria da proteção integral. Busca trazer cada uma das seis medidas socioeducativas, em espécie. Como cada uma dessas medidas podem ser aplicadas na prática e em quais casos. Por fim, foi trazido casos práticos, com o entendimento e interpretação de cada Tribunal, quais sejam: TJRS, STJ e STF.
Palavras-chave: Estatuto da Criança e do Adolescente. Adolescente em Conflito com a Lei. Infrator. Medida Socioeducativa.
ABSTRACT
The present work of monographic research makes an analysis of the highlights of socio-educational measures. Initially, it reveals the concept of child and adolescent, the principles, purpose and foundation of socio-educational measures and the historical evolution of norms, both in the national and international segment, until arriving at the theory of integral protection. It seeks to bring each of the six socio-educational measures in kind. How can each of these measures be applied in practice and in which cases. Finally, practical cases were brought, with the understanding and interpretation of each Court, namely: TJRS, STJ and STF.
Keywords: Statute of the Child and the Adolescent. Adolescent in Conflict with the Law. Offender. Socio-educational Measure.
SUMÁRIO INTRODUÇÃO ... 8 1 PREVISÃO CONCEITUAL ... 9 1.1 Conceito ... 9 1.2 Finalidade e fundamentos ... 10 1.3 Princípios orientadores ... 13
1.4 Evolução legislativa e de atendimento à infância e à juventude no Brasil ... 16
2 ESPÉCIES DE MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS ... 24
2.1 Advertência ... 25
2.2 Obrigação de reparar o dano ... 25
2.3 Prestação de serviço à comunidade ... 26
2.4 Liberdade assistida ... 28
2.5 Inserção em regime de semiliberdade ... 30
2.6 Internação em estabelecimento educacional ... 33
3 VISÃO JURISPRUDENCIAL ... 36
3.1 Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS) ... 36
3.2 Superior Tribunal de Justiça (STJ) ... 40
3.3 Supremo Tribunal Federal (STF) ... 45
CONCLUSÃO ... 49
INTRODUÇÃO
O presente trabalho apresenta um estudo acerca das medidas socioeducativas, a fim de efetuar uma investigação dos aspectos mais importantes na história das crianças e adolescentes, mas principalmente destacar as medidas utilizadas para coibir os atos infracionais praticados por adolescentes. Essa pesquisa é destinada a verificar quais as medidas adequadas para cada caso concreto e ao final, ver se estas são aplicadas na prática.
Para a realização deste trabalho foram efetuadas pesquisas bibliográficas e jurisprudências, analisando desde o conceito até a utilização prática, a fim de enriquecer a coleta de informações e permitir um aprofundamento no estudo da temática.
Inicialmente, no primeiro capítulo, foi feita uma abordagem acerca do conceito de criança e adolescente, suas finalidades, que buscam a prática da ressocialização e os fundamentos das medidas socioeducativas, como forma de esclarecer a maneira adequada para tratar dos atos infracionais, visto que evidência inadequado linchamentos e vinganças privadas, ou seja, o uso da força para tratar dessas questões. Para isso, a lei estabelece limites para tanto. Também, trata sobre os princípios orientadores, que instruem, zelam e dão aplicabilidade à norma, bem como trata da evolução histórica da infância e juventude no Brasil, como forma a demonstrar a trajetória dos infantos juvenis até a condição atual de sujeitos de direitos e de máxima proteção.
No segundo capítulo é analisada mais profundamente as espécies das medidas socioeducativas e sua aplicação. Também são analisados os ambientes em que são cumpridas as medidas e quem fiscaliza os infratores.
No terceiro e último capítulo, são verificadas situações em concreto, através dos casos práticos, que evidenciam todo o procedimento utilizado para aplicar cada medida prevista no art. 112 do Estatuto da Criança e Adolescente (ECA) de 1990. Leva-se em consideração nesta etapa, o art. 122 do ECA, que prevê que a medida deve ser adequada a gravidade do delito, grave ameaça e violência perpetrada contra a vítima.
1 PREVISÃO CONCEITUAL
Durante toda a história, houve profundas modificações no que tange à criança e o adolescente. Ao longo deste período, a criança e o adolescente deixam de serem vistos como objetos e passam a serem sujeitos de direitos com proteção integral. Sem dúvida, foram muitas as transformações, graças à Constituição Federal de 1988, ao Estatuto da Criança e do Adolescente e as normas e declarações internacionais, da qual o Brasil é signatário.
Assim, para chegar na construção atual do conceito de criança e adolescente, passamos por:
Doutrinas jurídicas que, ao longo do tempo, regeram a intervenção estatal, preso, inicialmente, à concepção penal, passando pela visão tutelar do direito, até chegar à proteção integral, onde o Estado, em divisão de responsabilidades com outros segmentos adiante identificados, por suas políticas públicas, conferiu ao público infanto-juvenil a prioridade absoluta (MENESES, 2008, p. 52).
1.1 Conceito
A conceituação de criança e adolescente vem se formando e se estruturando há um longo período na história.
A nova estrutura adveio, dentre outras normas, com o Estatuto da Criança e do Adolescente, que traz em seu artigo 2º que é considerada criança a pessoa com idade inferior a doze anos e adolescente aquela entre doze a dezoito anos incompletos.
No mesmo sentido, reitera Saraiva (apud BARROS, 2014):
Pelo novo ideário norteador do sistema, todos aqueles com menos de 18 anos, independentemente de sua condição social, econômica ou familiar, são crianças (até doze anos incompletos) ou adolescentes (até 18 anos incompletos), nos termos do art. 2º do Estatuto da Criança e do Adolescente, e passam a ostentar a condição de sujeitos de direitos, trazendo no bojo dessa conceituação a superação do paradigma da incapacidade para serem reconhecidos como sujeitos em condição peculiar de desenvolvimento (art. 6º do Estatuto da Criança e do Adolescente). Oportuno lembrar que a implementação da idade se dá a zero hora do dia do correspondente nascimento, de modo que uma criança se faz adolescente a zero do dia em que completará doze anos.
Essa nova estrutura na conceituação de criança e adolescente, traz mudanças que proporcionam dignidade e qualidade de vida àqueles.
Ao mesmo tempo em que a legislação atual ampara a infância, ela também traz medidas para que os adolescentes não infrinjam a Lei. Essas medidas são criadas com o intuito de coibir quaisquer atos que causem danos a terceiros ou a sociedade em geral.
O art. 103 do ECA menciona que ato infracional é toda conduta descrita como crime ou contravenção penal praticada por criança (até doze anos incompletos) ou adolescente (de doze anos completos aos dezoito incompletos).
Contudo, as crianças não se aplica as medidas socioeducativas, apenas as medidas protetivas que são guiadas pelas redes de proteção, também mencionadas no ECA, todavia não sendo objeto desse estudo.
Segundo os preceitos do ECA, o adolescente é socialmente responsável pelos seus atos e, ao cometer uma infração, este se encontra sujeito a responder por qualquer ato que caracterize uma infração, por meio das medidas socioeducativas presentes no artigo 112 do referido estatuto, atendendo a todos os procedimentos legais contidos neste.
Dito isto, trataremos no próximo item, da finalidade e dos fundamentos do ECA.
1.2 Finalidade e fundamentos
As medidas socioeducativas possuem finalidade pedagógica, pois nada irá adiantar se o adolescente em conflito com a lei receber a punição sem o objetivo de ressocializar, apenas com caráter sancionatório.
Assim, podemos dizer que “a pena não educa e a medida não tem finalidade educativa”, conforme menciona Meneses (2008), se não tratarmos o ato infracional e a sanção como meio de obtenção de aprendizagem.
A medida socioeducativa é válida e eficaz quando inibe o jovem infrator de cometer novas infrações, caso contrário, deixou falhar seu objetivo principal, a finalidade pedagógica. Para que esta finalidade seja alcançada, é necessário entender que às vezes, por si só, o Direito não resolve toda a questão de fazer com que o infrator entenda o que aconteceu, a “pena” como forma sancionadora e educativa e, por fim, a ressocialização. Por isso, consoante Meneses (2008, p. 87), “a importância de buscar auxílio na sociologia, antropologia, psicologia, psicanálise, já que o ato infracional também poderá estar relacionado com o superego, que exige uma punição interna”.
Dessa forma, para que seja alcançada a finalidade da medida, é necessária a utilização de um trabalho interdisciplinar. Além disso, possui finalidade educativa, “por considerar o menor merecedor de uma postura assistencial haja vista encontrar-se em desenvolvimento e formação de personalidade” (SÁ, 2009).
Ademais, Liberati (apud BARROS, 2014) afirma:
A medida socioeducativa é a manifestação do Estado, em resposta ao ato infracional, praticado por menores de 18 anos, de natureza jurídica impositiva, sancionatória e retributiva, cuja aplicação objetiva inibir a reincidência, desenvolvida com finalidade pedagógica-educativa. Tem caráter impositivo, porque a medida é aplicada independentemente da vontade do infrator- com exceção daquelas aplicadas em sede de remissão, que tem finalidade transacional. Além de impositiva, as medidas socioeducativas têm cunho sancionatório, porque, com sua ação ou omissão, o infrator quebrou a regra de convivência dirigida a todos. E, por fim, ela pode ser considerada uma medida de natureza retributiva, na medida em que é uma resposta do Estado à prática do ato infracional praticado.
Também possui finalidade punitiva, uma vez que tem o condão de evitar novas condutas delitivas. Assim, aduz Silva (apud SÁ, 2009):
Muitos tentam negar o caráter não punitivo, porém como bem observa a doutrina, as medidas apresentam similaridade com as penas previstas no Código Penal, possuindo assim um caráter penal especial, como forma de retribuição ou punição imposta ao menor infrator.
Ademais, possui finalidade profissionalizante, visto que possibilita ao jovem, além da educação básica, uma capacitação profissional, oportunizando ao infrator, um emprego, ou seja, uma nova perspectiva de vida.
Dessa forma, aduz Matos (apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014), “ainda, buscando desenvolver a educação profissional para que possam pleitear oportunidades de emprego, assim ser reinseridos na sociedade de forma que possam sentir pertencentes a ela”.
Existe também a finalidade protetiva, regida pela proteção integral do adolescente em desenvolvimento, que merece toda atenção diante de suas peculiaridades.
Por último, a finalidade preventiva, que procura prevenir novos atos infracionais, através de sua política de atendimento, serviço interdisciplinar e normas.
Sobre os fundamentos das medidas socioeducativas, temos os constitucionais, amparados na Constituição, os legais, nas leis e demais normas e os pedagógicos, que visam a ressocialização e a reeducação como meio de aprendizado para reinserir esses jovens na sociedade.
Leva-se em consideração a justiça restaurativa, para que a finalidade seja alcançada.
O fundamento sociológico orienta que as pessoas e a sociedade, devem manter harmonia com as leis, obedecendo-as. Ao contrário disso, devem ser punidos pelas condutas praticadas em desacordo com a lei.
Esse fundamento exige, que enquanto sociedade, vivamos obedecendo os limites necessários para a boa convivência entre todos.
De tal sorte, se um adulto comete algum delito, será processado e julgado conforme dita as normas do Código Penal, bem como, caso as crianças e os adolescentes venham a cometer condutas ilícitas, também serão punidos na forma estabelecida pelo ECA. A criança deverá ser orientada pelos seus pais ou responsáveis e os adolescentes, os atos infracionais cometidos serão analisados à luz do Estatuto.
Por fim, o fundamento político, refere que o Estado possui autonomia e capacidade de processar atos em desacordo com as leis, utilizando as normas legais como base para uma possível punição, não admitindo outras formas, tais como o uso da força e motins.
No próximo item será analisado alguns dos princípios basilares para a construção das medidas socioeducativas.
1.3 Princípios orientadores
Os princípios dão forma a norma, instruem a sua aplicabilidade e zelam pelos direitos dos infantes. Assim, passamos à análise de alguns princípios informadores das medidas socioeducativas, são eles: desjudicialização, brevidade, excepcionalidade, proporcionalidade, respeito à pessoa do menor, devido processo legal, prioridade restaurativa, legalidade, individualização, igualdade e convivencialidade.
O princípio da desjudicialização é a menor atuação possível do Poder Judiciário nos casos em que se pode resolver as questões dos adolescentes em conflito com a lei, fora deste âmbito, ou seja, resolver os problemas na esfera extrajudicial e/ou administrativa. Esse princípio seleciona os casos que realmente devem estar sob a ótica do Judiciário e, ao mesmo tempo, possibilita que outros problemas, não tão graves, sejam resolvidos de outras formas.
Conforme disposto nas orientações das Regras de Beijing, este princípio orienta o aumento da participação das instâncias administrativas especializadas no atendimento da criança e do adolescente, dando ênfase à utilização preferencial de meios preventivos e educativos. Destarte, “sempre que puder ser evitado, o menor não deve ser exposto a julgamento pelo tribunal juvenil e aos seus meios de tratamento”, consoante mencionado por Maia (2002).
O referido artigo ainda traz os ensinamentos de Lima (apud MAIA, 2002):
Aplicar o princípio da desjudicialização significa buscar novos critérios para compreender e abordar a questão menorista, encarando sob um prisma crítico-dialético as suas razoes sociais, econômicas e políticas; significa redefinir o papel reservado às instituições privadas ou estatais no contato com a criança e o adolescente cuja situação ou conduta exija orientação, acompanhamento, assistência material ou moral, correção, tratamento ou proteção; significa, também, no caso de infratores, esgotar em todos os sentidos os meios não jurisdicionais de recepção e encaminhamento.
Tal princípio remonta a algumas medidas sugeridas pelo Ministério Público, como recurso para àqueles casos menos graves de adolescentes infratores.
O princípio da brevidade por sua vez, é previsto na Constituição Federal de 1988, em seu art. 227, e também no art. 221 do ECA. Trata-se de um princípio que determina que a pena não é perpétua, e, em se tratando do Estatuto da criança e do adolescente, na sua sanção mais grave, a medida de internação, este prevê que o período de sua aplicação não poderá exceder 3 (três) anos.
Braz (apud MAIA, 2002) aduz sobre o tema, “se a legislação brasileira sabiamente repeliu o ergástulo no que diz respeito às penas, não haveria lógica em admitir a perpetuidade da medida socioeducativa que se desnaturaria, tornando-se fonte de desesperança e descrença no sistema”.
O princípio da excepcionalidade, também previsto na Constituição, é aquele elencado no processo, em fase de sentença, que as medidas restritivas de liberdade só poderão ser adotadas em casos que realmente requerem tal medida, ou seja, de caráter excepcional. Em seu artigo 122, §2° do ECA, menciona que em nenhuma hipótese será aplicada a internação, havendo outra medida adequada.
Braz (apud MAIA, 2002) aduziu que “havendo possibilidade de ser imposta medida menos onerosa ao direito de liberdade do adolescente, será esta imposta em detrimento da internação”.
Dessa forma, para que a medida mais gravosa seja determinada pela autoridade judicial, a internação, esta deve ser fundamentada e obedecido os requisitos autorizadores desta medida.
O princípio da proporcionalidade está ligado a infração cometida pelo infrator juntamente com a medida imposta, pois deve-se ter harmonia na decisão. A medida deve ser proporcional ao ato praticado.
Por sua vez, o princípio do respeito, está ligado aos direitos fundamentais garantidos a criança e aos adolescentes, previstos na Constituição e no ECA.
Por estarmos diante de sujeitos de direito e de proteção integral, é importante que estes sejam tratados com respeito, diante da sua condição, e não como objetos, como acontecia durante o Código de Menores.
O princípio do devido processo legal, descrito no artigo 5°, inciso LIV da CF, aduz que ninguém será privado da liberdade ou de seus bens sem o devido processo legal. Esse princípio dá o direito a defesa, apresentação de provas e que o juiz seja imparcial.
O princípio da prioridade restaurativa, descrito no art. 35, III, da Lei 12.594/2012, trata da possibilidade de sempre que possível, o infrator reparar os danos à vítima, obedecendo seus direitos fundamentais.
O princípio da legalidade é dito como constitucional fundamental, no Estado democrático de direito em que vivemos, que cria as leis e dita a aplicabilidade das normas.
No caso em apreço, o princípio da legalidade orientará que os adolescentes em conflito com a lei sejam enquadrados em sua legislação própria e que o cumprimento dessas medidas se deem de acordo com proteção integral.
O princípio da individualização aduz sobre a capacidade do cumprimento da medida socioeducativa. Assim, leva em consideração, além dos fatores jurídico-legais, a idade do adolescente, capacidade e circunstâncias pessoais, conforme art. 35, VI, da Lei 12.594/2012.
A capacidade do cumprimento da medida, diz respeito as condições inerentes aos infratores para o cumprimento da medida imposta.
As circunstâncias pessoais tratam das condições pessoais, sociais e familiares de cada adolescente.
A idade do adolescente também é circunstância relevante, pois cada um possui condições peculiares e única para o desenvolvimento e cumprimento da medida.
A adequação e o sucesso do cumprimento da medida imposta ao infrator depende desses fatores expostos acima.
Assim, segundo Ramidoff (2012, p. 82):
As identidades pessoal, familiar, sexual, religiosa, cultural, musical, artística, dentre outras devem ser consideradas individualmente no acompanhamento de cada adolescente, “caso a caso”, com o objetivo de integralmente atendê-lo, haja vista que se encontra na condição humana peculiar de desenvolvimento (art. 6° da Lei n° 8.069/90).
O princípio da igualdade, assegurado constitucionalmente, garante ao adolescente que este não sofra qualquer violação ou discriminação, diante da sua qualidade de infrator.
Dessa forma, Ramidoff (2012, p. 84) aduz que:
(...) não será admitida toda e qualquer forma de discriminação acerca de etnia, gênero, nacionalidade, classe social, orientação religiosa, política ou sexual, ou associação ou pertencimento a qualquer minoria ou status social, conforme preconiza o inciso VIII do art. 35 da Lei nº 12.594/2012.
O princípio da convivencialidade, previsto no art. 113 do ECA, prevê que o cumprimento da medida deve ser cumprida com o apoio da família, principalmente.
Assim, esse princípio reitera a importância da família para a eficácia, ressocialização e reeducação da medida socioeducativa aplicada.
Até mesmo nos casos de privação de liberdade, o adolescente tem direito a atividades externas e convivência familiar. Por fim, além da convivência familiar, a comunitária, a escolarização e a capacitação profissional devem ser proporcionados aos adolescentes em conflito com a lei.
Em seguida, veremos a evolução legislativa no tocante as normas infanto juvenis e seus avanços.
1.4 Evolução legislativa e de atendimento à infância e à juventude no Brasil
Na maioria dos povos, tanto do Ocidente como Oriente, os filhos, durante a menoridade, eram sujeitos sem direito, por isso, na imagem da autoridade paterna, serviam-se
como servos, assim podendo aliená-los, até mesmo matá-los. Sendo coisa de sua propriedade, significando mais poder do que paternidade, meros objetos de direito e não sujeitos de direito (TAVARES apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Esse modelo de sociedade vivenciada na época era comumente aceita devido ser impositiva a família trabalhar com o chefe do lar, a criança não era reconhecida, pois o ofício era a principal atividade desenvolvida, e que trazia gratificações perante a sociedade. Não tínhamos a figura da criança tampouco da família, apenas a figura do chefe da família, como sendo o principal colaborador.
A figura do paternalismo surge para angariar os demais componentes da família para o trabalho, enaltecido pela sociedade da época, na qual os direitos sociais não existiam.
A partir do século XVI, ao utilizar o critério biológico, a maioridade civil passaria a ser fixada aos 25 anos na maioria dos povos europeus, logo após, passaram a fixar como capacidade núbil as mulheres com 12 anos e homens aos 15 anos. Com isso, a criança passou a ser o centro da família, mas continuava o respeito aos ditames sociais proclamadas pela igreja (TAVARES apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Note que no século XVI, a Igreja detinha o poder e tentava através deste, dominar a sociedade da época, muito embora, houvesse tentativas de reformas na doutrina Católica.
Versando sobre o Direito penal, as rígidas Ordenações Filipinas regeram quase todo período da Colônia. A lei recepcionada após a Independência, pelo Estado brasileiro, somente foi revogada com o Código Criminal em 1832, que se destinava em punir adultos, alcançando adolescentes e crianças sem observar o critério de desenvolvimento humano (TAVARES apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Conforme pode se observar até o presente momento da evolução legislativa, as normas existentes estão muito ligadas ao punitivismo, a repressão, a autotutela e toda a espécie do gênero.
O Livro V das Ordenações do Reino o conhecido Código Filipino, tinha práticas severas tão quanto como toda a legislação penal de sua época. A pena de morte era muito
comum para os adultos e muitas vezes executada com extrema crueldade, sem observar o mínimo de proporção entre as penas e os delitos (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Em consonância com a punição, percebe-se que as penas eram extremamente exageradas no sentido de não respeitar o grau da infração cometida, indo ao encontro com a utilização da força e dos castigos severos.
A doutrina civil brasileira instituiu o pátrio poder na Consolidação das Leis Civis. O jurista Teixeira de Freitas encadeou normas que regulavam o assunto e, assim, consagrou o princípio da supremacia paternal que passou ao Código de Clóvis Bevilaqua, sendo aprovados todos os projetos de Código Civil que o emanaram (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Na carta constitucional de 1824, já havia grandes avanços na legislação penal, inovando ao estabelecer a idade para a responsabilidade penal, como não permitindo passar a pena da pessoa do delinquente, nem a confiscação de bens, sem transmissão da pena do réu aos parentes em qualquer que seja o grau. Como também, abolidos os açoites, a tortura, a marca de ferro quente e todas as penas mais cruéis. Revolucionou ao estabelecer uma idade para a responsabilidade penal, menores de quatorze anos não poderiam ser julgados como criminosos, salvo agido com discernimento no consentimento do crime (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
No entanto, embora o Estado brasileiro quisesse cumprir com a legislação, com seus avanços indo ao encontro com os direitos humanos, e, deixando de lado as práticas cruéis exercidas, não possuía meios de fazê-la, pois desde a época havia enorme dificuldade de executar a lei, principalmente para os adolescentes que descumpriam o ordenamento jurídico. A lei previa direitos, mas, na prática, não havia meios necessários para cumpri-los, como a falta das casas de correção para os menores, sendo estes apreendidos na mesma prisão que os adultos.
As Câmaras Municipais, desde o Alvará 1775, eximiam da responsabilidade financeira com as crianças desamparadas, sendo que somente em 1921, por meio de uma lei
orçamentaria, passou a regular as relações entre o poder público e a infância no Brasil (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
A doutrina civil brasileira adotou o instituto do pátrio poder com a Consolidação das Leis Civis e o princípio da supremacia paternal. Assim, qualquer filho, enquanto menor, estava sob o regime da lei pátria, assim pais teriam o poder como também dever com os filhos (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014). A partir do princípio da supremacia paternal, temos a figura do menor ainda subordinado ao chefe do lar, contudo, começou a gerar além do poder o dever, ou seja, o menor deve ser cuidado como ser que necessita de proteção, aflorando a ideia dos direitos da criança.
O Código Civil de 1916 discutia sobre os sujeitos hipossuficientes no ramo do Direito de Família, adotava a família clássica fundada no casamento, passa para uma sociedade civil, eram tidos como referência de uma sociedade juridicamente organizada (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
No final do século XIX e início do século XX, a revolução industrial começou a surgir no Brasil, trazendo para as indústrias mais máquinas, empregos e desenvolvimento. Para tanto, precisavam de pessoas qualificadas para trabalhar no mercado de trabalho, sendo que foi aperfeiçoado o ensino e a formação profissional. Desta sorte, o capitalismo traz um mecanismo de consumo excessivo para suprir investimentos e gerar cada vez mais lucros. Assim, as crianças e adolescentes possuem uma nova função: servir como fontes de exploração de consumo.
Com a evolução da sociedade, vários povos começaram a tratar com maior importância os direitos das crianças e dos adolescentes, proporcionando o mínimo de proteção.
Em 1923, pelo Decreto nº 16.273, foi fixada a idade da responsabilidade penal em quatorze anos, eliminando o critério do discernimento como pressuposto à retribuição ao infrator. No ano seguinte, surgiu o primeiro juizado de Menores no Brasil, situado no Distrito Federal, juntamente com o juizado criou-se abrigos destinados a recolher e educar os infratores e os abandonados (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Entende Sandrini (apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014) que esse desenvolvimento: “Marca o reconhecimento da necessidade da retirada da questão do menor de um tratamento meramente penitenciário, sustentado pela necessidade de implantar um modelo pedagógico-tutelar, no qual a educação substituísse a punição”.
Com o desenvolvimento da legislação juvenil, o menor começou a ser amparado pela lei que o protegia, de tal modo como pelo Estado que sentiu a necessidade de educar a parte mais vulnerável, e assim deixa de ter tratamento meramente punitivo em situações insalubres em penitenciárias.
Ainda, apesar de se verificar na prática o tratamento punitivo aos adolescentes cometendo ato ilícito, o início do século XX foi marcado pelos debates acerca da delinquência juvenil e da criança e dos adolescentes abandonados. Dessa forma, em 1926, originou o Código de Menores, conhecido como Código Mello Mattos, o qual foi consolidado em 1927 (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
A Lei nº 4.242/21 servia como base ao Código de Menores brasileiro. O advento do Decreto nº 17.943, de 12 de outubro de 1927 veio para consolidar os esforços dos especialistas que lutavam por uma legislação específica, tal como o juiz José Cândido Albuquerque Mello Mattos, conhecido como apóstolo da infância, merecidamente homenageado pelo diploma legal (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
O Código de Menores apresentava que o menor abandonado ou delinquente, de ambos sexos, menor de 18 anos, serão regidos pelas medidas de assistência e proteção do Código.
Um dos primeiros capítulos do Código versava sobre a regulamentação do trabalho infanto-juvenil, prevendo que nenhum desses menores transcorresse nas ruas, lugares públicos ou trabalho noturno. Previa, também, sobre o pátrio poder, a suspensão aos pais, por abuso de autoridade, negligência ou incapacidade de exercer seu poder dos deveres paternos (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
A sociedade, ao observar os erros contidos no Código de Menores, na busca de satisfazer as lacunas e aperfeiçoar a lei conforme as necessidade, foi marcada por debates em busca de mudanças. Enfatiza Jesus (apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014) que:
A década de 50 foi marcada pelos debates que visavam a reformulação da legislação infanto-juvenil. O desejo de normas mais democráticas cresceu com a Declaração Universal dos Direitos da Criança, aprovada pela Assembleia Geral das Nações Unidas, a 20 de novembro de 1959, mas foi interrompida pelo golpe militar de 1964. Nesse ano, foi criada a Funabem, Fundação Nacional do Bem-estar do Menor. [...] A Funabem, na prática, aumentou o problema que deveria remediar. A história da instituição é repleta de notícias de desmando, castigos cruéis e motins. Ao contrário do que pretendia, a Funabem ficou conhecida como um instrumento de ameaça e escola do crime.
A legislação infanto-juvenil presente até o momento, mostrava ineficácia, na medida que não conseguia proteger e dar a assistência necessária ao menor. Dessa forma, a única maneira de tentar encontrar uma solução era adotar um novo sistema, que fosse mais eficaz. Nessa diapasão, o novo sistema/fundação visava assegurar aos programas direcionados à integração do menor na comunidade, valorizar a família e criar maior proximidade com o convívio familiar.
Em 1979, foi promulgado o novo Código de Menores, substituindo o Código de Mello Mattos. A nova legislação foi muito criticada pela apressada elaboração, devido o Ano Internacional da Criança (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Por volta de 1980, o Brasil e boa parte do mundo passava por uma crise mundial, que afetou de forma significativa a América Latina, reduzindo gastos, e, a parte mais afetada foi os direitos sociais. O que tornou as pessoas pobres, ainda mais pobres, jovens na miserabilidade, o conglomerado nas favelas. Cita Jesus (apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014) que os adolescentes que já foram crianças em situação irregular misturaram-se com novas crianças, desceram o morro e tomaram a rua, nomeando-os como os meninos de rua.
O Código Penal de 1980 regia a inimputabilidade aos menores de nove anos, aqueles entre nove e quatorze anos, agindo sem discernimento, não seriam considerados criminosos. Todavia, agir com discernimento na prática de delitos, eram recolhidos em estabelecimento disciplinar. Aos maiores de quatorze e menores de dezessete anos a pena de cumplicidade passou a ser obrigatória. Por outro lado, novamente a aplicação da lei passaria por impedimentos devido à falta de estrutura pública (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
O I Seminário Latino-Americano de Alternativas Comunitárias de Atendimento a Meninos e Meninas de Rua, realizado em 1984, veio com princípio de idealizar o movimento e conclamar a sociedade e as crianças excluídas para participarem da construção de alternativas para garantir seus plenos direitos (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
O Movimento Nacional de Meninos e Meninas de Rua contou com uma forte interação que possibilitou transformar em norma constitucional as ideias tratadas na Convenção Internacional dos Direitos da Criança, prevendo em seu artigo 227 da Constituição Federal do Brasil de 1988, que:
É dever da família, da sociedade e do Estado assegurar à criança, ao adolescente e ao jovem, com absoluta prioridade, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, ao lazer, à profissionalização, à cultura, à dignidade, ao respeito, à liberdade e à convivência familiar e comunitária, além de colocá-los a salvo de toda forma de negligência, discriminação, exploração, violência, crueldade e opressão (Art. 227 do Título VIII, Capítulo VII da Constituição da República Federativa do Brasil).
Em seu bojo, elenca como indispensável para a formação do indivíduo, o direito à vida, à saúde, à alimentação, à educação, entre outros já citados, como direitos fundamentais à criança e ao adolescente. Evidencia que é dever da família, da sociedade e do Estado garantir esses direitos.
A Constituição Federal de 1988 trouxe para dentro da norma a prioridade de proteger a criança e o adolescente, sendo dever da família, da comunidade e da sociedade em geral, além do Estado zelar pelo bem estar destes. Em 1990 foi elaborado o Estatuto da Criança e do Adolescente substituindo o Código de Menores de 1979, ratificando os termos da Constituição e enfatizando ser um dever e direito o bem estra dos menores, como sendo sujeitos de direitos.
O novo texto infraconstitucional reafirma à criança e ao adolescente como sujeitos de direitos e sua condição própria de pessoas em desenvolvimento. Essa mudança de paradigmas representa uma opção pela abrangência social do adolescente em conflito com a lei, e não apenas mais um objeto de intervenção e castigos como no passado (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
Após a promulgação do Estatuto, foi criado o Conselho Nacional dos Direitos da Criança – CONANDA, onde compete elaborar as normas gerais da política nacional de atendimento à criança e ao adolescente. Em 1996, a Resolução nº 50 do CONANDA apoiou a implementação e fundação do SIPIA – Sistema de Informação para a Infância e Adolescentes em todos os municípios brasileiros. Sendo também regulamentada a Resolução de n.º 75, de 22 de outubro de 2001, que traça parâmetros para a criação e funcionamento dos Conselhos Tutelares (art. 131 do ECA), que são órgãos autônomos, não jurisdicionais e de competência municipal, designados em zelar pelo cumprimento dos direitos das crianças e dos adolescentes. Todas essas ampliações foram decorrentes do art. 88 do Estatuto (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
No ano de 2006, visando a concretizar os progressos da nova legislação e colaborar para a eficaz da cidadania dos adolescentes em conflito com a lei, a Secretaria Especial dos Direitos Humanos da Presidência da República – SEDH e o Conselho Nacional dos Direitos da Criança e do Adolescente – CONANDA, elaboraram e organizaram a proposta do Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo – SINASE, com objetivo de desenvolver uma ação socioeducativa baseada nos princípios dos direitos humanos (JESUS apud MONOGRAFIAS BRASIL ESCOLA, 2014).
O SINASE foi recentemente aprovado pela Lei nº 12.594, de 18 de janeiro de 2012, que apresenta inovações à aplicação e execução de medidas socioeducativas aos adolescentes autores de ato infracional, como também implementar as políticas públicas específicas destinadas ao combate na violência infanto-juvenil.
Nota-se que a evolução foi árdua e batalhada para chegarmos no patamar que estamos. Contudo, é necessário analisar que não foi tão somente pela legislação brasileira e pelas lutas sociais do Estado que conseguimos esse progresso. As normas de caráter internacional impulsionaram o Estado brasileiro a rever seus conceitos sobre o menor. Havia uma conscientização muito grande pela ONU no sentido de que a criança e o adolescente precisavam de proteção, assistência, terem seus direitos adquiridos e colocar na família a responsabilidade de educação. A partir desse momento vamos analisar como se deu essa evolução.
2 ESPÉCIES DE MEDIDAS SOCIOEDUCATIVAS
As medidas socioeducativas são subdivididas em 6 (seis) espécies, quais sejam: advertência, obrigação de reparar o dano, prestação de serviço à comunidade, liberdade assistida, inserção ao regime de semiliberdade e internação em estabelecimento educativo, as quais estão descritas no art. 112 do ECA. Dentre essas 6 (seis) medidas, 4 (quatro) poderão ser cumpridas em regime aberto, sendo a semiliberdade e a internação em regime fechado.
Essas medidas podem ser utilizadas individualmente ou cumulativamente, dependendo da medida adotada em sentença. Também, cada medida deve ser adotada conforme a conduta praticada pelo adolescente infrator, levando em consideração a gravidade do delito e a prática de grave ameaça e violência contra a pessoa.
Quando o adolescente é pego em flagrante cometendo o ato infracional, ele é levado à Delegacia de Polícia especializada para a realização da lavratura do boletim de ocorrência, o qual não é incluído nos seus antecedentes criminais e pode ficar até 45 dias, internado provisoriamente, até a decisão judicial. Se internado, medida mais grave, pode ficar até 3 (três) anos em instituição especializada para receber os jovens infratores.
Importante frisar que a Lei n° 12.594, de 18 de janeiro de 2012, que trata do SINASE (Sistema Nacional de Atendimento Socioeducativo), veio para auxiliar no acompanhamento do cumprimento das medidas. Das medidas que o Sinase acompanha em meio aberto, temos prestação de serviço à comunidade (PSC) e liberdade assistida. O Sinase se preocupa em “selecionar e credenciar entidades assistenciais, hospitais, escolas ou outros estabelecimentos congêneres, com o intuito de que o cumprimento da medida socioeducativa de PSC possa ser adequado ao perfil do adolescente”, conforme aduz Ramidoff (2012, p. 39).
Em relação às medidas de privação de liberdade, o Sinase institui a semiliberdade e a internação para acompanhamento, sendo que os programas de atendimento dessas modalidades de medidas atendem, as garantias individuais e de proteção as quais estão estabelecidas no ECA.
2.1 Advertência
Estabelecida no art. 115 do ECA, a advertência é uma medida prevista para infrações leves, que busca reparar o ato infracional através de advertência verbal que será reduzida a termo e assinada, como forma de comprometimento de que o infrator não irá mais praticar atos em desconformidade com a Lei.
Esta medida, segundo Meneses (2008, p. 100) “adverte-se o adolescente que o ato não está de acordo com a norma e que sua reincidência poderá implicar sanções. Então, a sanção está no ato de autoridade, de poder. Como antigamente eram as advertências familiares”.
Importante ressaltar que a advertência deve ser entendida e levada a sério pelo adolescente infrator e também pela sua base, ou seja, sua família, para que o caráter ressocializador tenha eficácia e sua finalidade atendida.
Também, segundo Martins (2010, p. 166), “a medida socioeducativa de advertência constitui-se num caráter informador, por buscar apresentar a esse adolescente, seus direitos e deveres no contexto da sociedade em que vive”.
Além disso, conforme Liberati (apud MARTINS, 2010, p. 166):
A advertência também possui caráter conselheiro, na medida em que o representante do Judiciário ou Ministério Público, respeitando sua condição de adolescente, acaba também fazendo papel de conselheiro, ao apresentar as desvantagens que o mundo da infração oferece. A medida apresenta um caráter imediato, uma vez que é desburocratizada, realizada no âmbito verbal.
Assim, a medida de advertência parece proporcionar a finalidade educativa e pedagógica. Apenas aqueles jovens violentos, geralmente a medida não traz efeito algum.
2.2 Obrigação de reparar o dano
Estabelece o caput do artigo 116 do Estatuto “em se tratando de ato infracional com reflexos patrimoniais, a autoridade poderá determinar, se for o caso, que o adolescente restitua a coisa, promova o ressarcimento do dano, ou, por outra forma, compense o prejuízo da
vítima”. Ocorre, por vezes, a impossibilidade do infrator em reparar o dano, sendo que a “pena” não passará da pessoa condenada, conforme aduz o princípio constitucional e penal da intranscendência.
Konzen (2005, p. 46) menciona:
Independente dos eventuais reflexos cíveis dessa medida e de sua importância pedagógica, enquanto instrumento destinado à percepção pelo adolescente das consequências notadamente econômicas de seus atos, a imposição unilateral não só da restituição, mas especialmente das formas de ressarcimento do prejuízo do ofendido ou a instalação de qualquer outra providência de compensação, significa, para o adolescente, o reconhecimento público da inadequação do ato praticado.
Assim, a maneira como o adolescente em conflito com a Lei é exposto ao público, deixa de lado a finalidade educativa e pedagógica e acaba por evidenciar que a sanção e a punição é que valem, ou seja, reparar o dano sem se preocupar com o adolescente que precisa se reeducar e se ressocializar.
Contudo, para Liberati (apud MARTINS, 2010, p. 166), “tal medida, antes de ser punitiva, pretende de forma pedagógica, orientar o adolescente a respeitar os bens e patrimônios de seus semelhantes”.
No contexto de Liberati (apud MARTINS, 2010), essa medida tem caráter sancionatório-punitivo, mas com conteúdo pedagógico, objetivando que o infrator restitua ou cumpra de alguma forma a medida, pessoalmente e intransferivelmente.
Dessa forma, cada autor possui seu posicionamento quanto à medida em questão, mas ao certo é que se imposta pelo Juiz, deve ser cumprida de alguma forma, em consonância com seus verbos nucleares.
2.3 Prestação de serviço à comunidade
A medida de PSC está prevista no artigo 117 do ECA. É aquela que prestada de forma gratuita a terceiros e aplicada unilateralmente pelo juiz. Não poderá ser realizada por período superior a 6 (seis) meses.
O cumprimento da medida não poderá exceder 8 (oito) horas semanais, a qual poderá ser cumprida em sábados, domingos, feriados e dias úteis. Também, a PSC não poderá atrapalhar no desenvolvimento escolar do infrator.
Dessa forma, Veronese, Quandt e Oliveira (apud GOBBO; MULLER, p. 179) aduzem que “o tempo de vigência da medida é limitado em dois sentidos: não pode exceder a seis meses e terá jornada semanal máxima de oito horas, sem prejuízo do horário escolar ou profissional”.
Para Bergalli (apud KONZEN, 2005, p. 47), a prestação de serviço à comunidade:
É uma das “medidas socioeducativas” que encobrem forte natureza punitiva... com o que adquire a categoria de consequência jurídica prevista para o cometimento de um ato punível, necessário a ser demostrado jurisdicionalmente e imputado à culpabilidade de seu autor.
Assim, muito embora a PSC seja realizada em lugares e ambientes adequados ao jovem infrator, essa medida traz consigo o caráter punitivista e sancionatório, e aos olhos das pessoas, estar cumprindo tal medida é, ter descumprido normas, o que gera um estigma social.
Por outro lado, esta é uma medida que atinge a pessoa do infrator e a sociedade, ao ponto que Bitencourt (apud GOBBO; MULLER, p. 179) afirma que “o sucesso na aplicação da prestação de serviço à comunidade dependerá do apoio que a própria comunidade der à autoridade jurídica”.
Frisa-se, a importância da medida ser cumprida em conformidade com a dignidade da pessoa humana, a cidadania e os preceitos fundamentais, visando sempre, o respeito ao adolescente que está comprometido, cumprindo a medida e ajudando-o na ressocialização.
Para tanto, menciona Saraiva (apud GOBBO; MULLER, p. 180):
Tão importante quanto preparar o adolescente para este tipo de atividade, será a preparação e qualificação do órgão onde este serviço será prestado, de modo que tal tarefa redunde em um processo de crescimento e aprendizagem, significando um lugar de conhecimento.
Sobre a importância da participação da comunidade nesse processo de reeducação e ressocialização, Mendez e Fernandes (apud GOBBO; MULLER, p. 180) refletem:
O adolescente não poderá cumprir a medida aplicada se não tiver onde fazê-lo, se a comunidade não participar. Assim, quando uma instituição aceita receber adolescentes para a execução de tarefas caracterizadoras do cumprimento da medida de PSC, está se juntando a toda a sociedade participativa no seu papel de corresponsável, juntamente com o Estado e a família, no tratamento a ser dispensado à criança e ao adolescente.
Nesse sentido, importante que todos os segmentos da sociedade, família, Estado, estejam empenhados na recuperação desses adolescentes, assim como, fundamental que os executores da medida, bem como a rede protecional, estejam aptos a trabalhar e avaliar esses jovens em conflito com a Lei.
Por fim, se estabeleceu que a medida deve ser cumprida pela pessoa do infrator e não pelo seus pais ou responsáveis. Também, conforme D’Andrea (apud GOBBO; MULLER, p. 180), “não é possível a sua conversão em multa, sendo mantida a natureza da medida, que consiste na realização efetiva de alguma atividade”.
2.4 Liberdade assistida
Prevista no artigo 118 do ECA, essa medida não é novidade e exclusividade do atual Estatuto, uma vez que advém do Código Mello Mattos, porém com o nome de liberdade vigiada e também estava presente no Código de Menores.
Essa medida deve ser utilizada por 6 (seis) meses no mínimo e é imposta a aqueles adolescentes que as medidas mais brandas, como advertência, por exemplo, não surtiu efeito. Todavia, esta é uma boa medida para aqueles infratores que não cometeram atos graves, evitando a semiliberdade e a internação.
Para Violante (apud MARTINS, 2010, p. 167) essa medida é tomada, pois:
A marginalidade não seria, pois, um traço de personalidade, pois ela se desenvolve a partir de um conjunto disponibilizado pela própria sociedade: por meio da família, da escola e do mundo do trabalho. Quando os pais e/ou responsáveis falham no
encaminhamento para esses mundos de apropriação de cultura e produção econômica, é necessário que entrem em cena outras intervenções institucionais.
É uma medida utilizada em meio aberto e segundo Pereira (apud MENESES, 2008, p. 105), “é a melhor medida para recuperação do adolescente, sobretudo se ele puder permanecer com a própria família”.
Ressaltando o posicionamento anterior, Fernandes (apud MENESES, 2008, p. 105) afirma sobre a liberdade assistida:
(...) uma das modalidades de tratamento em meio livre, como medida alternativa no tratamento institucional. É uma sanção penal, limitando a liberdade do adolescente e alguns de seus direitos segundo as condições impostas, com vista aos fins socioeducativos, para assegurar a reeducação do adolescente e impedir a reincidência.
Essa medida trata de um regime de acompanhamento, auxílio e orientação, o que torna a liberdade assistida mais propensa ao sucesso na reeducação. Não apenas orienta o infrator na execução da medida, mas auxilia-o no desenvolvimento de suas atividades e amadurecimento ao longo de sua formação como ser humano e novas perspectivas de vida.
Para Carranza (apud KONZEN, 2005, p. 49):
Os arts. 118 e 119 do Estatuto põem ênfase à palavra “assistida”, entendendo os adolescentes já não como objetos de vigilância e controle – caso da liberdade vigiada – senão sujeitos livres e em desenvolvimento, que requerem apoio ou assistência no exercício de sua liberdade, para se desenvolverem à plenitude.
No entanto, caso o adolescente descumpra a medida, o juiz poderá converter esta medida em outra, inclusive, em privação de liberdade, no caso a internação, conforme artigo 122, III, do ECA.
A Lei 12.594/2012, que instituiu o SINASE, trouxe algumas melhorias no que se refere a esta medida, senão vejamos o que diz Ramidoff (2012, p. 38):
O órgão julgador deverá designar pessoa capacitada para realizar o acompanhamento do caso concreto (legal), a qual, inclusive, poderá ser recomendada por entidade ou programa de atendimento (§1º do artigo 118 da Lei 8.069/90).
Entretanto, agora, com o advento da Lei 12.594/2012, impõem-se à direção do programa de atendimento a seleção e o credenciamento de orientadores, os quais deverão ser designados, de forma individualizada, “caso a caso”, para acompanhamento e avaliação do cumprimento das medidas legais que forem judicialmente determinadas ao adolescente (inciso I do artigo 13).
(...) a direção do programa de atendimento, juntamente com o orientador, deverá avaliar a evolução do cumprimento da medida judicialmente determinada; e, inclusive, poderá propor à Autoridade Judiciária a substituição, suspensão ou extinção da medida legal que se encontra em cumprimento pelo adolescente. (...) a comentada previsão legal, por óbvio, possibilita a fiscalização e, mesmo, a eventual impugnação do orientador selecionado e/ou credenciado junto ao programa de atendimento, inclusive a realização de investigação e apuração de eventuais irregularidades ou de violação às normas de proteção dos direitos e garantias do adolescente em conflito com a lei.
Assim, além da importância do adolescente permanecer junto à família no cumprimento da medida, o orientador também possui papel crucial e fundamental no sucesso da medida, uma vez que a ele cabe a condução da medida, o desenvolvimento do infrator na atividade realização, sua profissionalização e frequência escolar.
2.5 Inserção em regime de semiliberdade
Esta medida está prevista no artigo 120 do ECA, e, é uma modalidade de privação de liberdade. A semiliberdade pode ser determinada desde o início, para cumprimento, ou, esperar até a sentença judicial.
Segundo D’Andrea (apud GOBBO; MULLER, p. 180):
Os autores são quase unânimes ao afirmar que a inserção em regime de semiliberdade se caracteriza simplesmente por atividades externas durante o dia e recolhimento à entidade de atendimento à noite, onde ocorre o acompanhamento de técnicos no desenvolvimento do adolescente.
Pode haver a transição da medida para o meio aberto, no decorrer das atividades. Também, essa medida obriga o adolescente na escolarização e profissionalização. Nesse aspecto, revela-se interessantes aqueles adolescentes em conflito com a lei, tendo a chance de, muitas vezes, voltar a estudar ou estudar frequentemente e profissionalizar-se naquilo que deseja, para que retorne a sociedade com uma perspectiva melhor e com possibilidades de emprego.
Ramidoff (2012, p. 41-42) aduz sobre a escolarização e profissionalização:
A educação, capacitação, aprendizagem e todas as outras atividades que se destinam à formação da personalidade do adolescente devem ser preferencialmente desenvolvidas fora da entidade de atendimento, com o intuito de se evitarem os efeitos deletérios da institucionalização, ainda que adequada ao perfil sociopedagógico.
Importante, que as regras da instituição onde o adolescente esteja cumprindo a medida, proporcione uma reflexão acerca do seu potencial e desperte nesse jovem uma perspectiva de conhecimento e aprendizagem, fazendo com que este tenha interesse de prosperar. Assim, mencionam Borges e Carvalho (apud RAMIDOFF, 2012, p. 42):
O protagonismo do adolescente, o desenvolvimento de suas potencialidades, a tomada de decisões e a consideração pelos interesses do coletivo além dos individuais, a construção de projetos de vida a curto, médio e longo prazo.
Importante frisar que esta medida não possui prazo determinado para cumprimento, aplicando-se, no que couber, a medida de internação.
A semiliberdade é determinada em casos mais graves e demonstra um impacto negativo, pois o adolescente é privado de estar com a família e fazendo aquilo que gostaria naquele momento. O adolescente pode mudar com a imposição da medida ou revoltar-se ainda mais, pois a privação de liberdade soa um tanto quanto punitiva e sancionatória.
Nesse sentido, relata Konzen (2005, p. 50):
Todas as instituições, das piores à melhor, todas, indistintamente, tendem a fazer prevalecer, nesse regime, assim como em qualquer outro, as regras da instituição sobre a vontade do institucionalizado. O modo de vida institucional equivale à perda da individualidade, porque as crenças e valores de cada um passam a ser substituídos pela ética ditada pela instituição. Constitui-se a institucionalização em fenômeno oficial e proposital de exclusão, tudo em nome da paz social e da segurança da sociedade.
Assim, a liberdade que é muito valiosa por todos, constitui-se em verdadeiro bem essencial. Desse modo, as medidas que restringem a liberdade, semiliberdade e internação, devem ser de caráter excepcional e transitória. Conclui-se que a privação de liberdade é medida que causa extremo sofrimento aos infratores.
Ademais, para que a semiliberdade tenha os efeitos desejados, necessário que o Estado e as instituições estejam prontos para receber os jovens, com boa infraestrutura, equipe interdisciplinar adequada e tratamento acolhedor, para que se tenha bons resultados.
Ocorre, segundo D’Andrea (apud GOBBO; MULLER, p. 180), que é uma medida com pouca aplicabilidade no teor da norma, senão vejamos: “É uma medida benéfica, mas de pouca aplicação, haja vista a falta de estabelecimentos adequados para execução da referida medida. Quando aplicada é feita normalmente por estabelecimento responsável pela internação”.
Superada as questões pertinentes a medida de semiliberdade, tem-se outra modalidade da mesma medida, qual seja: semiliberdade invertida.
Esta modalidade de medida é concedida a adolescentes que possuem bom desempenho nas atividades de escolarização, profissionalização, reinserção e comprometimento na medida de semiliberdade. Quando a equipe técnica percebe que esses fatores foram alcançados, é possibilitado ao jovem a semiliberdade invertida.
Para Ramidoff (2012, p. 42), a semiliberdade invertida:
Realiza-se pela inversão do período de permanência do adolescente na unidade de atendimento socioeducativo, facultando-se, assim, a adequação do cumprimento da medida socioeducativa às suas reais necessidades pessoais, familiares e comunitárias.
Outrossim, a semiliberdade invertida pode ser aplicada quando facilita ao adolescente no cumprimento de suas tarefas, tais como na capacitação da escolarização e cursos técnicos.
Essa medida pode resultar em bons avanços, se o adolescente se compromete com a finalidade desta e ainda possui a oportunidade de ficar mais próximo da família, nesse momento de readequação de conceitos.
Para que esta medida seja possível, é necessário que a família do infrator tenha uma residência fixa, para que, caso os orientadores da medida precisem entrar em contato com o adolescente, sabem onde encontrá-lo.
Assim, caso o adolescente esteja apresentando bom comportamento, atendendo aos requisitos legais do programa e se ressocializando, poderá ser concedida a semiliberdade invertida, pelos orientadores da instituição, pais ou responsáveis, Defensor ou pelo Ministério Público, podendo pernoitar com sua família, ou, progredir para uma medida em meio aberto.
Contudo, caso o adolescente descumpra reiteradamente e injustificadamente os requisitos da semiliberdade invertida, poderá perder essa modalidade de medida ou ir para outra medida ainda mais rigorosa. Com tudo, durante todo esse processo de adequação da medida, são feitos atendimentos com equipes interdisciplinares, para acompanhamento da evolução do infrator.
Nesse viés, Ramidoff (2012, p. 44) aduz que:
É o que se encontra disposto no art. 43 da Lei 12.594/2012 (SINASE), o qual, mutatis mutandis, determina que, a qualquer tempo, a (re)avaliação da manutenção, da substituição ou da suspensão da medida socioeducativa e do plano individual de atendimento poderá ser requerida.
De outro modo, caso a semiliberdade invertida surta seus efeitos, dará possibilidades de outros jovens serem atendidos pelo programa, já que há poucas instituições para essa medida.
2.6 Internação em estabelecimento educacional
Prevista no artigo 121 do ECA, que preconiza que a internação é medida de privação da liberdade, que deve ser de caráter excepcional e respeitar os princípios da brevidade, excepcionalidade e respeito, tendo em vista a condição peculiar do adolescente, em desenvolvimento e proteção integral, condição esta, que já foi amplamente discutida nas declarações internacionais.
Sobre tais princípios, Mendez (apud MENESES, 2008, p. 95) refere que:
O caráter breve e excepcional da medida surge, também, do reconhecimento dos provados efeitos negativos da privação da liberdade, principalmente no caso da pessoa humana em condição peculiar de desenvolvimento.
Essa medida, que não poderá exceder o prazo de 3 anos, e poderá ser substituída a qualquer tempo, orientada e fiscalizada pelo SINASE, segundo Ramidoff (2012, p. 45-46) aduz que:
(...) observa-se que, para o cumprimento da medida socioeducativa de internação, os dirigentes, prepostos, educadores e a equipe técnica interprofissional deverão obedecer à rigorosa separação dos adolescentes por critério de idade, compleição física e gravidade da ação conflitante com a lei. Até porque os adolescentes que se encontram em cumprimento da medida socioeducativa de internação poderão realizar atividades externas, a critério da equipe técnica interprofissional da entidade de atendimento, ressalvando-se, pois, eventual e expressa determinação judicial em contrário.
Caso, o adolescente tenha atividades externas, estas deverão ser supervisionadas e sob acompanhamento.
A medida socioeducativa de internação do ponto de vista metodológico é a mais punitiva e sancionatória, pois representa privação de liberdade e não traz efeitos educativos e pedagógicos aos jovens, uma vez que, em regra, não possuem contato com a família, ficam expostos ao ato infracional cometido e são repreendidos por isso. Dessa forma, a ineficácia da medida é evidente.
Nesse sentido, menciona Frasseto (apud MENESES, 2008, p. 95-96):
Ao reservar para casos excepcionais a aplicação desta medida, em verdade, o legislador estava partindo da ideia de que a institucionalização total, com a segregação do infrator do meio social, é instrumento totalmente fracassado de controle da chamada delinquência juvenil. Pior: além de ineficaz, tal sistema tem se mostrado reprodutor e reforçador desta mesma delinquência.
Talvez, devamos nos perguntar se os resultados obtidos pela aplicação da internação, estão sendo realmente satisfatórios. Se, os jovens conseguem sair desse processo melhores que entraram. Se, as instituições estão preparadas o suficiente para reeducar e ressocializar. Se, a execução da medida está sendo executada corretamente. Diante disso, acredita-se que a internação, embora prevista para crimes, com previsão no art. 122 do ECA, que ocorram grave ameaça ou violência à pessoa, reiteração de infrações graves ou descumprimento, deve prosperar diante desse cenário.
Assim, a delinquência juvenil, a partir desse panorama de resultados insatisfatórios e lacunosos, é para Mészáros (apud MARTINS, 2010, p. 168), “o fenômeno surge para denunciar parte da crise estrutural da sociedade capitalista”.
No próximo capítulo, faremos uma abordagem nos casos práticos das medidas socioeducativas.
3 VISÃO JURISPRUDENCIAL
Nesse capítulo, faremos uma retrospectiva do capítulo anterior, contudo, com casos práticos, evidenciando a aplicação da medida, conforme as circunstâncias do ato infracional, como menciona o art. 122 do ECA.
Para conhecermos e termos plena dimensão dos casos, será abordado três casos práticos de cada tribunal, TJRS, STJ e STF.
3.1 Tribunal de Justiça do Rio Grande do Sul (TJRS)
Nesse sentido, começaremos nossa abordagem, pelo Tribunal de Justiça do Estado (TJRS).
Ementa: APELAÇÃO CÍVEL. ECA. ATO INFRACIONAL. TRÁFICO DE ENTORPECENTES. PORTE ILEGAL DE MUNIÇÃO DE ARMA DE FOGO. PRELIMINARES. NULIDADE DA SENTENÇA PELA ILEGALIDADE DA PROVA. PERDA DE INTERESSE NA PRETENSÃO SOCIOEDUCATIVA. REJEIÇÃO. MÉRITO. AUTORIA E MATERIALIDADE CONFIRMADAS. DESCABÍVEL A APLICAÇÃO DE MEDIDA SOCIOEDUCATIVA DE INTERNAÇÃO. AUSÊNCIA DE ANTECEDENTES. DESPROPOR-CIONALIDADE ENTRE O ATO INFRACIONAL E A MEDIDA IMPOSTA. REFORMA PARCIAL DA SENTENÇA PARA APLICAR MEDIDA EM MEIO ABERTO. PRELIMINARES Nulidade da sentença pela ilegalidade da prova. Caso em que não merece ser acolhida a preliminar de nulidade da sentença, pela ilegalidade da prova, consistente na apreensão em flagrante do adolescente, dentro de sua residência, tendo em vista que a entrada dos policiais na residência foi permitida pela avó do representado, que reside no mesmo terreno e estava presente no momento da apreensão. Perda de interesse na pretensão socioeducativa. Hipótese em que não há falar em perda do interesse na pretensão socioeducativa, porquanto, apesar do tempo decorrido entre o fato e a possível aplicação de medida socioeducativa, inexistindo decurso do prazo prescricional, é de rigor processamento do feito em busca da ressocialização do adolescente. MÉRITO Materialidade Boletim de ocorrência, auto de apreensão, laudo pericial e prova oral colhida em juízo que provam a respeito da materialidade do fato praticado. Autoria A autoria do ato infracional foi comprovada pela prova oral colhida em juízo. Medida Socioeducativa Certa a autoria e a materialidade, inexistindo causa ou fatores para a improcedência da representação, a aplicação da medida socioeducativa é de rigor. A prática de tráfico de entorpecentes, por si só, não autoriza a aplicação da medida extrema de internação, porquanto não estariam configuradas as estritas hipóteses legais que autorizam a privação de liberdade do adolescente, com base no art. 122, incisos I, II e III, do ECA. Entendimento pacificado pela Súmula 492 do STJ. Parcial provimento ao apelo para aplicar ao adolescente a medida de prestação de serviços à comunidade, cumulada com liberdade assistida, pelo fato tipificado no art. 33, caput , da Lei 11.343/06 e art. 14, caput , da Lei nº 10.826/03. REJEITARAM AS PRELIMINARES. NO MÉRITO, DERAM PARCIAL PROVIMENTO.
(Apelação Cível Nº 70076292796, Oitava Câmara Cível, Tribunal de Justiça do RS, Relator: Rui Portanova, Julgado em 10/05/2018).
Esse primeiro caso, trata-se de uma apelação cível, da oitava câmara cível, oriunda da Comarca de Igrejinha. O apelante é L. F. F. R. e o apelado é o Ministério Público. O fato jurídico gerador é sobre um adolescente, L. F. F. R., que foi autuado pela prática dos atos infracionais referentes ao tráfico de entorpecentes e porte ilegal de munição de arma de fogo.
A decisão de primeiro grau julgou procedente a representação e aplicou medida de internação ao representado, sem possibilidade de atividades externas, levando em consideração a gravidade do delito, fulcro os artigos 33, caput, da Lei 11.343/06 e artigo 14,
caput, da Lei 10.826/03.
A defesa do representado recorreu da decisão de primeiro grau, alegando em síntese, preliminarmente a nulidade a sentença pela ilegalidade da prova e a perda de interesse na pretensão socioeducativa. No mérito, contestou a materialidade, a autoria e a medida socioeducativa aplicada. O MP apresentou contrarrazões.
O Desembargador e relator, Rui Portanova, rebateu cada item da defesa, e, embora, o tráfico de drogas seja equiparado a crime hediondo, os requisitos do art. 122 do ECA não estão presentes para alicerçar a medida de internação. Insta salientar que o representado é primário e não se está diante de fato praticado mediante grave ameaça ou violência à pessoa.
Com base na Súmula 492 do STJ e entendimento sumulado no STF, que o crime de tráfico de drogas, por si só, não é passível de internação, o Desembargador relator, o Des. Luiz Felipe Brasil Santos e o Des. Alexandre Kreutz deram parcial provimento ao apelo para aplicar ao adolescente a medida de prestação de serviços à comunidade, pelo prazo de 06 (seis) meses, durante 08 (oito) horas semanais, cumulada com liberdade assistida pelo período mínimo de 06 (seis) meses.
Os Desembargadores Ricardo Moreira Lins Pastl e José Antônio Daltoé Cezar, divergiram sobre o tema, e, negaram provimento ao apelo, por entenderem que, se trata de crime grave, merece medidas mais rígidas.