Márcio André Lopes Cavalcante
ÍNDICE
DIREITO ADMINISTRATIVO DESAPROPRIAÇÃO
Citação do proprietário dispensa a do cônjuge. IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Princípio do in dubio pro societate. Indisponibilidade de bens.
Dispensabilidade de prova do dano no caso do art. 11 da Lei de Improbidade.
DIREITO CIVIL NASCITURO
Grávida que sofre aborto por causa de acidente de trânsito tem direito de receber do DPVAT indenização pela morte do nascituro.
LOCAÇÃO DE IMÓVEIS URBANOS
Denúncia de contrato de locação de imóvel onde funciona hospital.
DIREITO DO CONSUMIDOR PRÁTICA ABUSIVA
ACP pleiteando nulidade de cláusula abusiva e condenação pelos danos causados.
DIREITO EMPRESARIAL FALÊNCIA
Pedido de falência.
DIREITO PROCESSUAL CIVIL SENTENÇA
Alteração da sentença para correção de erro material. AÇÃO RESCISÓRIA
Início do prazo para a ação rescisória em caso de recursos parciais. Aplicabilidade da Súmula 343 do STF.
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO
Intervenção da Defensoria Pública como amicus curiae em recursos representativos de controvérsia. EXECUÇÃO
EXECUÇÃO FISCAL
Redirecionamento da execução fiscal de dívida ativa não-tributária.
DIREITO PENAL LEI DE DROGAS
Droga transportada em transporte público e causa de aumento do art. 40 da Lei 11.343/2006. Fundamentação na escolha do percentual de diminuição no caso de semi-imputabilidade.
DIREITO PROCESSUAL PENAL AÇÃO PENAL PRIVADA
Queixa-crime deverá demonstrar o elemento subjetivo do agente.
Consequências da proposta de composição civil feita apenas para parte dos querelados. PROVA TESTEMUNHAL
Intimação da autoridade para prestar declarações. RECURSOS
MS para atribuição de efeito suspensivo a RESE.
DIREITO ADMINISTRATIVO
DESAPROPRIAÇÃO
Citação do proprietário dispensa a do cônjuge
Na ação de desapropriação por utilidade pública, a citação do proprietário do imóvel desapropriado dispensa a do respectivo cônjuge.
STJ. 2ª Turma. REsp 1.404.085-CE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 5/8/2014 (Info 547). Desapropriação por utilidade pública
A desapropriação por utilidade pública rege-se pelo Decreto-Lei n. 3.365/41.
A ação de desapropriação é uma ação de natureza real uma vez que tem por objeto (pedido) a propriedade de um bem imóvel.
O CPC determina que, nas ações que versem sobre direitos reais imobiliários, tanto o réu como o seu cônjuge devem ser citados (§ 1º do art. 10).
Essa regra se aplica nas ações de desapropriação por utilidade pública? Se a Fazenda Pública ajuíza ação de desapropriação por utilidade pública contra o proprietário, o seu cônjuge também precisará ser citado? NÃO. Na ação de desapropriação por utilidade pública, a citação do proprietário do imóvel desapropriado dispensa a do respectivo cônjuge. Isso porque o art. 16 do DL 3.365/1941 (Lei das Desapropriações) dispõe que a “citação far-se-á por mandado na pessoa do proprietário dos bens; a do marido dispensa a da mulher”. Logo, não se aplica o § 1º do art. 10 do CPC considerando que esta é norma geral em relação ao art. 16 do DL 3.365/41, que é lei específica.
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Princípio do in dubio pro societate
Após o oferecimento de defesa prévia prevista no § 7º do art. 17 da Lei 8.429/1992 – que ocorre antes do recebimento da petição inicial –, somente é possível a pronta rejeição da pretensão deduzida na ação de improbidade administrativa se houver prova hábil a evidenciar, de plano, a inexistência de ato de improbidade, a improcedência da ação ou a inadequação da via eleita. Isso porque, nesse momento processual das ações de improbidade administrativa, prevalece o princípio in dubio pro societate.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.192.758-MG, Rel. originário Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Sérgio Kukina, julgado em 4/9/2014 (Info 547).
Regramento legal
A improbidade administrativa é regida pela Lei nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa – LIA). Propositura da ação
A ação de improbidade deve ser proposta pelo Ministério Público ou pela pessoa jurídica interessada (art. 17).
Petição inicial
A petição inicial na ação por ato de improbidade administrativa, além dos requisitos do art. 282 do CPC, deve ser instruída com documentos ou justificação que contenham indícios suficientes da existência do ato de improbidade. Assim, diz-se que a ação de improbidade administrativa, além das condições genéricas da ação, exige ainda a presença da justa causa (STJ. 1ª Turma. REsp 952.351-RJ, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 4/10/2012).
Defesa prévia (ou defesa preliminar)
Estando a petição inicial em devida forma, o juiz mandará autuá-la e ordenará a notificação do requerido, para oferecer manifestação por escrito, que poderá ser instruída com documentos e justificações, dentro do prazo de 15 dias (§ 7º do art. 17). Essa manifestação por escrito é chamada por alguns de “defesa prévia” ou “defesa preliminar”.
Juízo de delibação
Recebida a manifestação por escrito (“defesa prévia” ou “defesa preliminar”), o juiz, no prazo de 30 dias, em decisão fundamentada, fará um juízo preliminar (juízo de delibação) sobre o que foi alegado na petição inicial e na defesa e poderá adotar uma das seguintes providências:
rejeitar a ação, se convencido da inexistência do ato de improbidade, da improcedência da ação ou da inadequação da via eleita;
receber a petição inicial, determinando a citação do réu para apresentar contestação.
Repare que, somente após a defesa prévia e o recebimento da inicial, é que haverá a contestação. Princípio do in dubio pro societate
De acordo com a orientação jurisprudencial do STJ, existindo meros indícios de cometimento de atos enquadrados como improbidade administrativa, a petição inicial da ação de improbidade deve ser recebida pelo juiz, pois, na fase inicial prevista no art. 17, §§ 7º, 8º e 9º da Lei nº 8.429/92, vale o princípio do in dubio pro societate, a fim de possibilitar o maior resguardo do interesse público (AgRg no REsp 1.317.127-ES).
Assim, após o oferecimento de defesa prévia, somente é possível a pronta rejeição da pretensão deduzida na ação de improbidade administrativa se houver prova hábil a evidenciar, de plano:
a inexistência de ato de improbidade;
a improcedência da ação; ou
a inadequação da via eleita.
Após o oferecimento da defesa prévia, o magistrado poderá se deparar com três situações: 1) Existem provas ou indícios do ato de improbidade: o juiz deverá receber a ação.
2) Não existem provas ou indícios do ato de improbidade: o juiz mesmo assim deverá receber a ação exatamente para se oportunizar a ampla produção de provas, necessárias ao pleno e efetivo convencimento do julgador (REsp 1.192.758-MG).
3) Existem provas cabais e irretorquíveis de que não houve ato ímprobo: só nessa hipótese a ação deverá ser rejeitada de plano.
Recurso contra a decisão do juiz que recebe a petição inicial: Agravo de instrumento (§ 10 do art. 17 da LIA).
Recurso contra a decisão do juiz que rejeita a petição inicial: Apelação.
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Indisponibilidade de bens
É possível que o juiz decrete, cautelarmente, a indisponibilidade de bens do demandado quando presentes fortes indícios de responsabilidade pela prática de ato ímprobo que cause dano ao Erário.
A medida cautelar de indisponibilidade de bens, prevista no art. 7º da Lei de improbidade administrativa, pode ser decretada mesmo que o requerido não esteja dilapidando seu patrimônio, ou na iminência de fazê-lo, tendo em vista que o periculum in mora encontra-se implícito na lei.
Assim, para que a indisponibilidade seja decretada basta que estejam presentes fortes indícios da prática de atos de improbidade administrativa.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.366.721-BA, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Og Fernandes, julgado em 26/2/2014 (recurso repetitivo) (Info 547).
Indisponibilidade dos bens
Se a pessoa praticar um ato de improbidade administrativa, estará sujeita às sanções previstas no § 4º do art. 37 da CF/88, quais sejam:
suspensão dos direitos políticos; perda da função pública;
indisponibilidade dos bens e ressarcimento ao erário.
A Lei nº 8.429/92 (Lei de Improbidade Administrativa) regulamenta as consequências no caso da prática de atos de improbidade administrativa.
A LIA traz, em seus arts. 9º, 10 e 11, um rol exemplificativo de atos que caracterizam improbidade administrativa.
Art. 9º: atos de improbidade que importam enriquecimento ilícito do agente público. Art. 10: atos de improbidade que causam prejuízo ao erário.
Art. 11: atos de improbidade que atentam contra princípios da administração pública.
Para garantir que a pessoa que praticou ato de improbidade responda pelas sanções do § 4º do art. 37 da CF, o art. 7º da Lei nº 8.429/92 prevê a possibilidade de ser decretada a indisponibilidade dos seus bens. Veja o que preleciona a Lei:
Art. 7° Quando o ato de improbidade causar lesão ao patrimônio público ou ensejar enriquecimento ilícito, caberá à autoridade administrativa responsável pelo inquérito representar ao Ministério Público, para a indisponibilidade dos bens do indiciado.
Parágrafo único. A indisponibilidade a que se refere o caput deste artigo recairá sobre bens que assegurem o integral ressarcimento do dano, ou sobre o acréscimo patrimonial resultante do enriquecimento ilícito. Quem decreta essa indisponibilidade?
O juiz, a requerimento do Ministério Público.
A redação do art. 7º não é muito clara, mas o que a lei quer dizer é que a autoridade administrativa irá comunicar a suposta prática de improbidade ao MP e este irá analisar as informações recebidas e, com base em seu juízo, irá requerer (ou não) a indisponibilidade dos bens do suspeito ao juiz, antes ou durante o curso da ação principal (ação de improbidade). Em outras palavras, a indisponibilidade pode ser requerida como medida preparatória ou incidental.
Quando o art. 7º fala em “inquérito”, está se referindo a inquérito administrativo, mas essa representação pode ocorrer também no bojo de um processo administrativo ou de um processo judicial.
Além disso, o MP poderá requerer a indisponibilidade ainda que não tenha sido provocado por nenhuma autoridade administrativa, desde que, por algum outro modo, tenha tido notícia da suposta prática do ato de improbidade (ex: reportagem divulgada em jornal).
De qualquer forma, muito cuidado com a redação dos arts. 7º e 16, porque muitas vezes é cobrada nas provas a sua mera transcrição, devendo este item ser assinalado, então, como correto.
Essa indisponibilidade dos bens pode ser decretada sem ouvir o réu?
SIM. É admissível a concessão de liminar inaudita altera parte para a decretação de indisponibilidade e sequestro de bens, visando assegurar o resultado útil da tutela jurisdicional, qual seja, o ressarcimento ao Erário.
Desse modo, o STJ entende que, ante sua natureza acautelatória, a medida de indisponibilidade de bens em ação de improbidade administrativa pode ser deferida nos autos da ação principal sem audiência da parte adversa e, portanto, antes da notificação para defesa prévia (art. 17, § 7º da LIA).
Para que seja decretada a indisponibilidade dos bens da pessoa suspeita de ter praticado ato de improbidade exige-se a demonstração de fumus boni iuris e periculum in mora?
NÃO. Basta que se prove o fumus boni iuris, sendo o periculum in mora presumido (implícito). Assim, é desnecessária a prova do periculum in mora concreto, ou seja, de que os réus estejam dilapidando seu patrimônio, ou na iminência de fazê-lo, exigindo-se apenas a demonstração de fumus boni iuris, consistente em fundados indícios da prática de atos de improbidade.
A medida cautelar de indisponibilidade de bens, prevista na LIA, consiste em uma tutela de evidência, de forma que basta a comprovação da verossimilhança das alegações, pois pela própria natureza do bem protegido, o legislador dispensou o requisito do perigo da demora.
Conforme explica o Ministro Mauro Campbell Marques, em trechos de seu brilhante voto:
“as medidas cautelares, em regra, como tutelas emergenciais, exigem, para a sua concessão, o cumprimento de dois requisitos: o fumus boni juris (plausibilidade do direito alegado) e o periculum in
mora (fundado receio de que a outra parte, antes do julgamento da lide, cause ao seu direito lesão grave
No entanto, no caso da medida cautelar de indisponibilidade, prevista no art. 7º da LIA, não se vislumbra uma típica tutela de urgência, como descrito acima, mas sim uma tutela de evidência, uma vez que o
periculum in mora não é oriundo da intenção do agente dilapidar seu patrimônio e, sim, da gravidade dos
fatos e do montante do prejuízo causado ao erário, o que atinge toda a coletividade. O próprio legislador dispensa a demonstração do perigo de dano, em vista da redação imperativa da Constituição Federal (art. 37, §4º) e da própria Lei de Improbidade (art. 7º). (...)
O periculum in mora, em verdade, milita em favor da sociedade, representada pelo requerente da medida de bloqueio de bens, porquanto esta Corte Superior já apontou pelo entendimento segundo o qual, em casos de indisponibilidade patrimonial por imputação de conduta ímproba lesiva ao erário, esse requisito é implícito ao comando normativo do art. 7º da Lei n. 8.429/92. (...)
A Lei de Improbidade Administrativa, diante dos velozes tráfegos, ocultamento ou dilapidação patrimoniais, possibilitados por instrumentos tecnológicos de comunicação de dados que tornaria irreversível o ressarcimento ao erário e devolução do produto do enriquecimento ilícito por prática de ato ímprobo, buscou dar efetividade à norma afastando o requisito da demonstração do periculum in mora (art. 823 do CPC), este, intrínseco a toda medida cautelar sumária (art.789 do CPC), admitindo que tal requisito seja presumido à preambular garantia de recuperação do patrimônio do público, da coletividade, bem assim do acréscimo patrimonial ilegalmente auferido (REsp 1319515/ES, Rel. p/ Acórdão Min. Mauro Campbell Marques, 1ª Seção, julgado em 22/08/2012).
Então, pode ser decretada a indisponibilidade dos bens ainda que o acusado não esteja se desfazendo de seus bens?
SIM. É desnecessária a prova de que que o réu esteja dilapidando efetivamente seu patrimônio ou de que eles estariam na iminência de fazê-lo (prova de periculum in mora concreto).
O requisito do periculum in mora está implícito no referido art. 7º, parágrafo único, da Lei n. 8.429/1992, que visa assegurar “o integral ressarcimento” de eventual prejuízo ao erário, o que, inclusive, atende à determinação contida no art. 37, § 4º, da CF/88.
Como a indisponibilidade dos bens visa evitar que ocorra a dilapidação patrimonial, o STJ entende que não é razoável aguardar atos concretos direcionados à sua diminuição ou dissipação, na medida em que exigir a comprovação de que esse fato estaria ocorrendo ou prestes a ocorrer tornaria difícil a efetivação da medida cautelar em análise.
Além do mais, o disposto no referido art. 7º em nenhum momento exige o requisito da urgência, reclamando apenas a demonstração, numa cognição sumária, de que o ato de improbidade causou lesão ao patrimônio público ou ensejou enriquecimento ilícito.
Vale ressaltar, no entanto, que a decretação da indisponibilidade de bens, apesar da excepcionalidade legal expressa da desnecessidade da demonstração do risco de dilapidação do patrimônio, não é uma medida de adoção automática, devendo ser adequadamente fundamentada pelo magistrado, sob pena de nulidade (art. 93, IX, da Constituição Federal), sobretudo por se tratar de constrição patrimonial (REsp 1319515/ES).
IMPROBIDADE ADMINISTRATIVA
Dispensabilidade de prova do dano no caso do art. 11 da Lei de Improbidade
Para a configuração dos atos de improbidade administrativa que atentam contra os princípios da administração pública (art. 11 da Lei 8.429/1992), é DISPENSÁVEL a comprovação de efetivo prejuízo aos cofres públicos.
STJ. 1ª Turma. REsp 1.192.758-MG, Rel. originário Min. Napoleão Nunes Maia Filho, Rel. para acórdão Min. Sérgio Kukina, julgado em 4/9/2014 (Info 547).
Art. 11 da Lei de Improbidade
O art. 11 da Lei n. 8.492/92 elenca condutas que configuram atos de improbidade administrativa em razão de violarem os princípios da administração pública. Confira o que diz o caput:
Art. 11. Constitui ato de improbidade administrativa que atenta contra os princípios da administração pública qualquer ação ou omissão que viole os deveres de honestidade, imparcialidade, legalidade, e lealdade às instituições, e notadamente:
I - praticar ato visando fim proibido em lei ou regulamento ou diverso daquele previsto, na regra de competência;
II - retardar ou deixar de praticar, indevidamente, ato de ofício;
III - revelar fato ou circunstância de que tem ciência em razão das atribuições e que deva permanecer em segredo;
IV - negar publicidade aos atos oficiais; V - frustrar a licitude de concurso público;
VI - deixar de prestar contas quando esteja obrigado a fazê-lo;
VII - revelar ou permitir que chegue ao conhecimento de terceiro, antes da respectiva divulgação oficial, teor de medida política ou econômica capaz de afetar o preço de mercadoria, bem ou serviço.
Requisitos
Para a configuração dos atos de improbidade tipificados no art. 11 da Lei n. 8.429/92, exige-se que a conduta seja praticada por agente público (ou a ele equiparado), atuando no exercício de seu munus
público, havendo, ainda, a necessidade do preenchimento dos seguintes requisitos:
a) conduta ilícita;
b) improbidade do ato, configurada pela tipicidade do comportamento, ajustado em algum dos incisos do 11 da LIA;
c) elemento volitivo, consubstanciado no DOLO de cometer a ilicitude e causar prejuízo ao Erário; d) ofensa aos princípios da Administração Pública.
Nesse sentido: STJ. 1ª Turma. AgRg no REsp 1306817/AC, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 06/05/2014 (não divulgado em Info).
Elemento subjetivo
A configuração do ato de improbidade por ofensa a princípio da administração depende da demonstração do chamado dolo genérico ou lato sensu (STJ. 2ª Turma. REsp 1383649/SE, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 05/09/2013).
Ressalte-se que não se exige dolo específico (elemento subjetivo específico) para sua tipificação (STJ. 2ª Turma. AgRg no AREsp 307.583/RN, Rel. Min. Castro Meira, julgado em 18/06/2013).
Dispensabilidade de prova do dano ou de enriquecimento ilícito do agente
O STJ entende que é DISPENSÁVEL a prova de dano para a configuração do ato de improbidade previsto no art. 11 da Lei n. 8.249/1992 (STJ. 2ª Turma. REsp 1286466/RS, Rel. Min. Eliana Calmon, julgado em 03/09/2013).
DIREITO CIVIL
NASCITURO
Grávida que sofre aborto por causa de acidente de trânsito tem direito de receber do DPVAT
indenização pela morte do nascituro
Importante!!!
O DPVAT é um seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas, transportadas ou não. Em outras palavras, qualquer pessoa que sofrer danos pessoais causados por um veículo automotor, ou por sua carga, em vias terrestres, tem direito a receber a indenização do DPVAT. Isso abrange os motoristas, os passageiros, os pedestres ou, em caso de morte, os seus respectivos herdeiros.
O art. 3º, I, da Lei 6.194/74 afirma que deverá ser paga indenização do DPVAT aos herdeiros do falecido no caso de morte no trânsito.
O STJ decidiu que, se uma gestante envolve-se em acidente de carro e, em virtude disso, sofre um aborto, ela terá direito de receber a indenização por morte do DPVAT, nos termos do art. 3º, I, da Lei 6.194/74.
O Ministro Relator afirmou expressamente que, em sua opinião, “o ordenamento jurídico como um todo – e não apenas o Código Civil de 2002 – alinhou-se mais à teoria concepcionista para a construção da situação jurídica do nascituro, conclusão enfaticamente sufragada pela majoritária doutrina contemporânea”.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.415.727-SC, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 4/9/2014 (Info 547). Em que consiste o DPVAT?
O DPVAT é um seguro obrigatório de danos pessoais causados por veículos automotores de via terrestre, ou por sua carga, a pessoas, transportadas ou não.
Em outras palavras, qualquer pessoa que sofrer danos pessoais causados por um veículo automotor, ou por sua carga, em vias terrestres, tem direito a receber a indenização do DPVAT. Isso abrange os motoristas, os passageiros, os pedestres ou, em caso de morte, os seus respectivos herdeiros.
Ex: dois carros batem e, em decorrência da batida, acertam também um pedestre que passava no local. No carro 1, havia apenas o motorista. No carro 2, havia o motorista e mais um passageiro. Os dois motoristas morreram. O passageiro do carro 2 e o pedestre ficaram inválidos. Os herdeiros dos motoristas receberão indenização de DPVAT no valor correspondente à morte. O passageiro do carro 2 e o pedestre receberão indenização de DPVAT por invalidez.
Para receber indenização, não importa quem foi o culpado. Ainda que o carro 2 tenha sido o culpado, os herdeiros dos motoristas, o passageiro e o pedestre sobreviventes receberão a indenização normalmente. O DPVAT não paga indenização por prejuízos decorrentes de danos patrimoniais, somente danos pessoais. Qual é o valor da indenização de DPVAT prevista na Lei?
no caso de morte: R$ 13.500,00 (por vítima)
no caso de invalidez permanente: até R$ 13.500,00 (por vítima)
no caso de despesas de assistência médica e suplementares: até R$ 2.700,00 como reembolso à cada vítima.
Desse modo, a Lei nº 6.194/74 (Lei do DVAT) afirma que somente deverão ser pagas indenizações nas situações de morte, invalidez permanente e despesas de assistência médica e suplementares.
Em se tratando de morte, quem receberá a indenização serão os herdeiros do falecido, na forma do art. 792 do Código Civil:
Art. 792. Na falta de indicação da pessoa ou beneficiário, ou se por qualquer motivo não prevalecer a que for feita, o capital segurado será pago por metade ao cônjuge não separado judicialmente, e o restante aos herdeiros do segurado, obedecida a ordem da vocação hereditária.
Morte de nascituro
Imagine que Maria estava dirigindo seu carro quando se envolveu em um acidente que ocasionou o aborto do feto de 4 meses que estava esperando. Maria terá direito de receber a indenização do DPVAT pela morte do nascituro?
SIM. O STJ decidiu que a beneficiária legal de seguro DPVAT que teve a sua gestação interrompida em razão de acidente de trânsito tem direito ao recebimento da indenização prevista no art. 3º, I, da Lei 6.194/1974, devida no caso de morte.
A resposta a essa indagação passa pela discussão sobre a natureza jurídica do nascituro. O art. 2º do CC/2002 estabelece o seguinte:
Art. 2º A personalidade civil da pessoa começa do nascimento com vida; mas a lei põe a salvo, desde a concepção, os direitos do nascituro.
Podemos destacar três teorias principais que tentam explicar esse dispositivo:
NATALISTA PERSONALIDADE CONDICIONAL CONCEPCIONISTA
A personalidade jurídica só se inicia com o nascimento.
O nascituro não pode ser considerado pessoa. Só será pessoa quando nascer com vida.
A personalidade civil começa com o nascimento com vida, mas o nascituro titulariza direitos submetidos à condição suspensiva (ou direitos eventuais).
A personalidade jurídica se inicia com a concepção, muito embora alguns direitos só possam ser plenamente exercitáveis com o nascimento.
O nascituro é pessoa desde o momento em que ele é concebido (o nascituro é um sujeito de direitos).
O nascituro tem apenas expectativa de direitos.
O nascituro possui direitos sob condição suspensiva.
O nascituro possui direitos. Sílvio Rodrigues, Caio Mário,
Sílvio Venosa.
Washington de Barros Monteiro, Arnaldo Rizzardo.
Silmara Chinellato e a grande maioria da doutrina.
Neste julgado, o Min. Relator Luis Felipe Salomão (sempre genial) afirmou expressamente que, em sua opinião, “o ordenamento jurídico como um todo – e não apenas o Código Civil de 2002 – alinhou-se mais à teoria concepcionista para a construção da situação jurídica do nascituro, conclusão enfaticamente sufragada pela majoritária doutrina contemporânea”.
Para o Ministro, mesmo que se diga que a personalidade jurídica se inicia com o nascimento, ainda assim é forço concluir que o nascituro já deve ser considerado como pessoa. Caso contrário, não se vislumbraria nenhum sentido lógico na fórmula “a personalidade civil da pessoa começa” (art. 2º), se ambas – pessoa e personalidade civil – tivessem como começo o mesmo acontecimento.
Portanto, o aborto causado pelo acidente de trânsito subsume-se ao comando normativo do art. 3º, I, da Lei 6.194/74, haja vista que outra coisa não ocorreu, senão a morte do nascituro, ou o perecimento de uma vida intrauterina.
LOCAÇÃO DE IMÓVEIS URBANOS
Denúncia de contrato de locação de imóvel onde funciona hospital
O art. 53 da Lei 8.245/91 estabelece que o locador de imóvel utilizado por hospitais somente poderá fazer a denúncia do contrato se houver uma dos motivos elencados na lei. É a chamada “denúncia cheia”.
O STJ confere interpretação restritiva ao art. 53 e afirma que ele não protege o local em que são desempenhadas as atividades administrativas de estabelecimentos de saúde.
Assim, pode haver denúncia vazia de contrato de locação de imóvel não residencial ocupado por instituição de saúde apenas para o desempenho de atividades administrativas, como marcação de consultas e captação de clientes, não se aplicando o benefício legal previsto no art. 53 da Lei de Locações.
STJ. 3ª Turma. REsp 1.310.960-SP, Rel. Min. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 4/9/2014 (Info 547). Contrato de locação de imóveis e sua abrangência
A locação de prédios urbanos rege-se pela Lei n. 8.245/91. A locação de prédios rústicos é regulada pelo Estatuto da Terra. Locação de imóvel para funcionar como hospital
A Lei n. 8.245/91 prevê que, se o imóvel for alugado para servir como hospital, o proprietário não poderá pedir a retomada do bem, salvo se houver uma justa causa para tanto (exigência de uma denúncia cheia). Obs: quando estamos tratando sobre contratos, a palavra “denúncia” significa comunicar ao outro contratante o fim do pacto. Denúncia vazia: é a comunicação do fim do contrato sem a indicação de um motivo. Denúncia cheia: ocorre quando é exposta uma justa causa para a extinção do ajuste.
Veja o que diz a Lei do Inquilinato:
Art. 53. Nas locações de imóveis utilizados por hospitais, unidades sanitárias oficiais, asilos, estabelecimentos de saúde e de ensino autorizados e fiscalizados pelo Poder Público, bem como por entidades religiosas devidamente registradas, o contrato somente poderá ser rescindido.
I - nas hipóteses do art. 9º;
II - se o proprietário, promissário comprador ou promissário cessionário, em caráter irrevogável e imitido na posse, com título registrado, que haja quitado o preço da promessa ou que, não o tendo feito, seja autorizado pelo proprietário, pedir o imóvel para demolição, edificação, licenciada ou reforma que venha a resultar em aumento mínimo de cinqüenta por cento da área útil.
Assim, segundo o art. 53 da Lei n. 8.245/91, o locador de imóvel utilizado por hospitais somente poderá fazer a denúncia do contrato nas seguintes hipóteses:
a) mútuo acordo;
b) prática de infração legal ou contratual;
c) falta de pagamento do aluguel e demais encargos;
d) realização de reparações urgentes determinadas pelo Poder Público;
e) pedido do proprietário para demolição do imóvel locado, edificação, ou reforma que venha a resultar em aumento mínimo de 50% da área útil.
Imagine que a rede de Hospitais “XXX” tem um prédio alugado que é utilizado somente para marcação de consultas, autorização de exames e contratação de novos planos de saúde. Esse local também receberá a proteção do art. 53? Em ouras palavras, se o imóvel locado é utilizado pela rede de hospitais apenas para atividades administrativas ele também estará sujeito à regra do art. 53?
NÃO. O art. 53 da Lei de Locações não alcança o local em que são desempenhadas as atividades administrativas de estabelecimentos de saúde.
Assim, pode haver denúncia vazia de contrato de locação de imóvel não residencial ocupado por instituição de saúde apenas para o desempenho de atividades administrativas, como marcação de consultas e captação de clientes, não se aplicando o benefício legal previsto no art. 53 da Lei de Locações. Segundo o Min. Sanseverino, o objetivo do legislador ao editar o referido artigo fora retirar do âmbito de discricionariedade do locador o despejo do locatário que preste efetivos serviços de saúde no local objeto do contrato de locação, estabelecendo determinadas situações especiais em que o contrato poderia vir a ser denunciado motivadamente. Buscou-se privilegiar o interesse social patente no desempenho das atividades fins ligadas à saúde, visto que não podem sofrer dissolução de continuidade ao mero alvedrio do locador. Justamente por isso, o STJ confere interpretação restritiva ao dispositivo, não estendendo as suas normas à locação de espaço voltado aos serviços administrativos do hospital.
DIREITO DO CONSUMIDOR
PRÁTICA ABUSIVA
ACP pleiteando nulidade de cláusula abusiva e condenação pelos danos causados
I – Em uma mesma ação coletiva, o autor pode formular pedidos relacionados com direitos individuais homogêneo, direitos coletivos em sentido estrito e direitos difusos. As tutelas pleiteadas em ações civis públicas não são necessariamente puras e estanques. Não é preciso que se peça, de cada vez, uma tutela referente a direito individual homogêneo, em outra ação uma de direitos coletivos em sentido estrito e, em outra, uma de direitos difusos, especialmente em se tratando de ação manejada pelo Ministério Público, que detém legitimidade ampla no processo coletivo.
II – Havendo violação a direitos transindividuais, é cabível, em tese, a condenação por dano moral coletivo que se caracteriza como uma categoria autônoma de dano e que não está relacionado necessariamente com os tradicionais atributos da pessoa humana (dor, sofrimento ou abalo psíquico).
III – No caso concreto julgado, o STJ entendeu que não cabia condenação por dano moral coletivo. Os usuários do Plano de Saúde “ZZZ” que precisassem de próteses para cirurgias de angioplastia precisavam pagar um valor extra considerando que determinada cláusula excluía da cobertura o implante de próteses cardíacas. Essa cláusula é abusiva e ilegal, no entanto, ela não gerou danos difusos ou coletivos, mas apenas individuais homogêneos.
STJ. 4ª Turma. REsp 1.293.606-MG, Rel. Min. Luis Felipe Salomão, julgado em 2/9/2014 (Info 547). Imagine a seguinte situação adaptada:
Os usuários do Plano de Saúde “ZZZ” que precisassem de próteses para cirurgias de angioplastia precisavam pagar o valor extra de R$ 2.500,00 considerando que a cláusula 3.6 das do contrato padrão excluía da cobertura do plano o implante de próteses cardíacas.
O Ministério Público estadual ajuizou ação civil pública contra o plano de saúde alegando que a cobrança configurava prática abusiva e requereu:
1. o pagamento de indenização aos consumidores pelos danos resultantes da negativa de cobertura da prótese cardíaca, cujo montante deveria ser liquidado em procedimento próprio;
2. a condenação do réu em obrigação de fazer consistente na retirada da citada cláusula excludente; 3. a condenação do réu ao pagamento de R$ 100.000,00 como dano moral coletivo, valor que deveria ser
Repare que o primeiro requerimento diz respeito a direitos individuais homogêneos, o segundo poderia ser classificado como integrante dos direitos coletivos em sentido estrito e o terceiro abrange direitos difusos. É possível que esses três pedidos sejam formulados em uma mesma ação coletiva?
SIM. O STJ decidiu que, em uma mesma ação coletiva, podem ser discutidos os interesses dos consumidores que possam ter tido tratamento de saúde embaraçado com base em determinada cláusula de contrato de plano de saúde, a ilegalidade em abstrato dessa cláusula e a necessidade de sua alteração em consideração a futuros consumidores do plano de saúde.
As tutelas pleiteadas em ações civis públicas não são necessariamente puras e estanques. Não é preciso que se peça, de cada vez, uma tutela referente a direito individual homogêneo, em outra ação uma de direitos coletivos em sentido estrito e, em outra, uma de direitos difusos, notadamente em se tratando de ação manejada pelo Ministério Público, que detém legitimidade ampla no processo coletivo. Isso porque embora determinado direito não possa pertencer, a um só tempo, a mais de uma categoria, isso não implica dizer que, no mesmo cenário fático ou jurídico conflituoso, violações simultâneas de direitos de mais de uma espécie não possam ocorrer.
No caso concreto, trata-se de ação civil pública de tutela híbrida. Percebe-se que há:
a) direitos individuais homogêneos referentes aos eventuais danos experimentados por aqueles contratantes que tiveram tratamento de saúde embaraçado por força da cláusula restritiva tida por ilegal; b) direitos coletivos resultantes da ilegalidade em abstrato da cláusula contratual em foco, a qual atinge igualmente e de forma indivisível o grupo de contratantes atuais do plano de saúde;
c) direitos difusos, relacionados aos consumidores futuros do plano de saúde, coletividade essa formada por pessoas indeterminadas e indetermináveis.
Havendo múltiplos fatos ou múltiplos danos, nada impede que se reconheça, ao lado do dano individual, também aquele de natureza coletiva.
Em tese, é possível a condenação por danos morais coletivos?
SIM. Havendo violação a direitos transindividuais, é cabível, em tese, a condenação por dano moral coletivo que se caracteriza como uma categoria autônoma de dano e que não está relacionado necessariamente com os tradicionais atributos da pessoa humana (dor, sofrimento ou abalo psíquico). Ressalte-se que a condenação em danos morais coletivos é, em tese, possível não apenas no campo do Direito do Consumidor, mas também no Direito Ambiental (STJ. 2ª Turma. REsp 1.328.753-MG, Rel. Min. Herman Benjamin, julgado em 28/5/2013. Info 526).
No caso concreto, era cabível a condenação do plano de saúde por danos morais coletivos?
NÃO. O STJ entendeu que não cabia condenação por dano moral coletivo porque a cláusula do contrato que excluía da cobertura as próteses cardíacas não gerou outros prejuízos além daqueles experimentados por quem, concretamente, teve o tratamento embaraçado ou teve de desembolsar os valores ilicitamente sonegados pelo plano. Em outras palavras, a referida cláusula abusiva somente causou danos individuais homogêneos.
Na verdade, a cláusula contratual restritiva permanece inoperante até que algum contratante venha a pleitear o serviço por ela excluído. Antes disso, é mera previsão contratual abstrata, incapaz de gerar qualquer efeito fora da idealização normativa avençada.
A responsabilidade civil requer, em regra, ilegalidade da conduta (salvo exceções de responsabilização por ato lícito), dano e nexo causal. A cláusula contratual em apreço é ilegal, no entanto, não gerou danos difusos ou coletivos, mas apenas individuais.
DIREITO EMPRESARIAL
FALÊNCIA
Pedido de falência
A falência do devedor poderá ser decretada quando ele, sem relevante razão de direito, não pagar, no vencimento, obrigação líquida materializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 salários-mínimos na data do pedido de falência (art. 94, I, da Lei 11.101/2005).
Para pedir a falência com base neste inciso não é necessário que o requerente tenha tentado executar o título. Não se revela como exigência para a decretação da quebra a execução prévia. Assim, é desnecessário o prévio ajuizamento de execução forçada para se requerer falência com fundamento na impontualidade do devedor.
A duplicata virtual protestada por indicação é título executivo apto a instruir pedido de falência com base na impontualidade do devedor. Logo, se o devedor não pagar uma duplicata virtual em valor superior a 40 salários-mínimos é possível que seja decretada a sua falência STJ. 3ª Turma. REsp 1.354.776-MG, Min. Rel. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 26/8/2014 (Info 547). Conceito
Falência é o processo coletivo de execução forçada de um empresário ou sociedade empresária cuja recuperação mostra-se inviável.
Finalidade
A falência tem como objetivo reunir os credores e arrecadar os bens, ativos e recursos do falido a fim de que, com os recursos obtidos pela alienação de tais bens, possam os credores ser pagos, obedecendo a uma ordem de prioridade estabelecida na lei.
Legislação aplicável
Atualmente, a falência do empresário e da sociedade empresária é regida pela Lei n. 11.101/05. Procedimento:
I – PROCEDIMENTO PRÉ-FALIMENTAR II – PROCESSO FALIMENTAR O procedimento pré-falimentar vai do pedido
de falência até a sentença do juiz.
Engloba, resumidamente, três atos principais: 1) pedido de falência;
2) resposta do devedor; 3) sentença.
Ao final desta fase, a sentença pode ser: • Denegatória: o processo se extingue sem a instauração da falência.
• Declaratória: hipótese em que se iniciará o processo falimentar propriamente dito.
O processo falimentar vai da sentença declaratória de falência até a sentença de encerramento.
É no processo falimentar propriamente dito que ocorre a verificação e habilitação dos créditos e o pagamento dos credores.
Quem pode requerer a falência do empresário ou da sociedade empresária?
A pessoa que requer a falência é chamada de “sujeito ativo” da falência (deve-se lembrar que a falência acarreta um processo judicial).
I – o próprio devedor.
Obs: é a chamada autofalência.
II – o cônjuge sobrevivente, qualquer herdeiro do devedor ou o inventariante.
Obs: isso ocorre no caso de empresário individual que morre e os seus herdeiros percebem que o falecido estava em situação de insolvência, razão pela qual optam por requerer a falência.
III – o cotista ou o acionista do devedor.
Obs: isso ocorre quando o sócio da sociedade empresária (seja ele cotista ou acionista) entende que a empresa está insolvente e que o único caminho é a falência.
IV – qualquer credor.
Obs: é a hipótese que ocorre em 99% dos casos. Hipóteses nas quais pode ser requerida a falência:
O art. 94 prevê que a falência poderá ser requerida em três hipóteses: I – Impontualidade injustificada:
Quando o devedor, sem relevante razão de direito, não paga, no vencimento, obrigação líquida materializada em título ou títulos executivos protestados cuja soma ultrapasse o equivalente a 40 salários-mínimos na data do pedido de falência.
Adotou-se neste inciso o critério da impontualidade injustificada.
Obs1: para pedir a falência com base neste inciso não é necessário que o requerente tenha tentado executar o título. Não se revela como exigência para a decretação da quebra a execução prévia. Assim, é desnecessário o prévio ajuizamento de execução forçada para se requerer falência com fundamento na impontualidade do devedor (STJ. 3ª Turma. REsp 1.354.776-MG, Min. Rel. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 26/8/2014).
Obs2: a duplicata virtual protestada por indicação é título executivo apto a instruir pedido de falência com base na impontualidade do devedor. Logo, se o devedor não pagar uma duplicata virtual em valor superior a 40 salários-mínimos é possível que seja decretada a sua falência (STJ. 3ª Turma. REsp 1.354.776-MG, Min. Rel. Paulo de Tarso Sanseverino, julgado em 26/8/2014).
II – Execução frustrada:
Quando o devedor é executado por qualquer quantia líquida, mas não paga, não deposita e não nomeia à penhora bens suficientes dentro do prazo legal.
A lei presume que o devedor, ao adotar esse comportamento na execução contra si proposta, é porque está insolvente. Para o legislador, o devedor praticou um “ato de falência”, ou seja, um ato de quem está em falência. Adotou-se neste inciso o chamado critério da enumeração legal.
III – Atos de falência:
Quando o devedor pratica uma série de atos listados nas alíneas do inciso III do art. 94 da Lei n. 11.101/2005.
Aqui a lei também presumiu que o devedor está falido pelo fato de ter praticado algum dos comportamentos descritos na lei. Assim, também se adotou neste inciso o chamado critério da enumeração legal.
DIREITO PROCESSUAL CIVIL
SENTENÇA
Alteração da sentença para correção de erro material
O magistrado pode corrigir de ofício, mesmo após o trânsito em julgado, erro material consistente no desacordo entre o dispositivo da sentença que julga procedente o pedido e a fundamentação no sentido da improcedência da ação.
STJ. 2ª Turma. RMS 43.956-MG, Rel. Min. Og Fernandes, julgado em 9/9/2014 (Info 547). O Código de Processo Civil prevê, em seu art. 463:
Art. 463. Publicada a sentença, o juiz só poderá alterá-la:
I - para lhe corrigir, de ofício ou a requerimento da parte, inexatidões materiais, ou lhe retificar erros de cálculo;
II - por meio de embargos de declaração.
Mas, o que se entende por “inexatidão material”?
Trata-se do “erro evidente, reconhecido primu ictu oculi, consistente em equívocos materiais, sem conteúdo decisório propriamente dito. Como exemplo, mencionem-se os erros de grafia, de nome, valor, etc.” (STJ. 3ª Turma. REsp 1.151.982-ES, Rel. Min. Nancy Andrighi, julgado em 23/10/2012).
Primu ictu oculi é uma expressão em latim e que significa “num primeiro golpe de vista” ou, de maneira
simplificada, “à primeira vista”.
Desacordo entre o dispositivo e a fundamentação
Segundo decidiu o STJ, se o dispositivo da sentença julga procedente o pedido, mas a fundamentação foi toda no sentido da improcedência da ação, temos aí um desacordo que pode ser classificado como erro material, podendo ser corrigido de ofício pelo magistrado mesmo após o trânsito em jugado.
AÇÃO RESCISÓRIA
Início do prazo para a ação rescisória em caso de recursos parciais
Importante!!!
Impugnada parcialmente a sentença, os capítulos não impugnados transitam em julgado desde logo ou deve-se aguardar o julgamento do recurso quanto ao restante da sentença?
Em outras palavras, o prazo para a ação rescisória se iniciará para cada capítulo ou deve-se aguardar que não haja mais a possibilidade de se interpor qualquer recurso?
STJ: deve-se aguardar o julgamento do recurso quanto ao restante da sentença. Somente quando não for cabível qualquer recurso, terá início o prazo para a ação rescisória.
STF e doutrina: os capítulos não impugnados transitam em julgado desde logo. O prazo da ação rescisória se iniciará para cada capítulo, à medida que ele transitar em julgado. Assim, o prazo decadencial da ação rescisória, nos casos de existência de capítulos autônomos, deve ser contado do trânsito em julgado de cada decisão (cada capítulo).
STJ. Corte Especial. REsp 736.650-MT, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 20/8/2014 (Info 546). STF. 1ª Turma. RE 666589/DF, rel. Min. Marco Aurélio, julgado em 25/3/2014 (Info 740).
CAPÍTULOS DE SENTENÇA Elementos da sentença
A sentença é dividida em três elementos, que o CPC chama de “requisitos”: relatório, fundamentação e dispositivo.
Art. 458. São requisitos essenciais da sentença:
I - o relatório, que conterá os nomes das partes, a suma do pedido e da resposta do réu, bem como o registro das principais ocorrências havidas no andamento do processo;
II - os fundamentos, em que o juiz analisará as questões de fato e de direito;
III - o dispositivo, em que o juiz resolverá as questões, que as partes lhe submeterem. No dispositivo existem os capítulos da sentença
No dispositivo da sentença, o julgador irá decidir as questões que a ele foram apresentadas para serem examinadas. Em outras palavras, no dispositivo o magistrado apresentará as conclusões sobre os pedidos que foram feitos.
Em regra, no dispositivo o julgador irá decidir mais de uma questão, tendo em vista que as partes fazem variados pedidos, havendo ainda os temas que o magistrado tem que decidir de ofício, como a condenação em custas processuais etc.
Essas várias questões decididas pelo julgador no dispositivo da decisão judicial são chamadas pela doutrina de “capítulos de sentença”.
Conceito de capítulos de sentença
Quem melhor teorizou sobre isso, sendo repetido por todos, foi Cândido Rangel Dinamarco. Para o autor, capítulos de sentença são “as partes em que ideologicamente se decompõe o decisório de uma sentença ou acórdão, cada uma delas contendo o julgamento a uma pretensão distinta” (Instituições de direito
processual civil. Vol. III. São Paulo: Malheiros, 2001, p. 200).
Obs: apesar de o nome ser capítulos de “sentença”, esse mesmo raciocínio vale também para acórdãos, conforme se pode constatar pelo conceito fornecido por Dinamarco.
Exemplo:
Em uma ação de indenização, o autor pede a condenação do réu por danos materiais, morais e estéticos. Quanto aos danos patrimoniais, requereu a condenação por danos emergentes e lucros cessantes. Na contestação, o requerido invoca a ilegitimidade de parte e refuta os pedidos formulados.
Repare que, no dispositivo, o juiz terá que resolver inúmeras questões que lhe foram submetidas. Para cada uma delas, podemos dizer que haverá um diferente capítulo de sentença.
No caso, teremos, no mínimo, sete capítulos de sentença: 1) ilegitimidade de parte; 2) danos emergentes; 3) lucros cessantes; 4) danos morais; 5) danos estéticos; 6) honorários advocatícios; 7) custas processuais.
AÇÃO RESCISÓRIA Conceito
Ação rescisória é uma ação que tem por objetivo desconstituir uma decisão judicial transitada em julgado. Natureza jurídica
A ação rescisória é uma espécie de ação autônoma de impugnação (sucedâneo recursal externo). Atenção: a ação rescisória NÃO é um recurso.
O recurso é uma forma de impugnar a decisão na pendência do processo, enquanto a ação rescisória somente pode ser proposta quando há trânsito em julgado, ou seja, quando o processo já se encerrou.
Competência
A ação rescisória é sempre julgada por um tribunal (nunca por um juiz singular).
Quem julga a rescisória é sempre o próprio tribunal que proferiu a decisão rescindenda. Prazo
A ação rescisória possui prazo de dois anos, contados do trânsito em julgado da decisão.
CPC/Art. 495. O direito de propor ação rescisória se extingue em 2 (dois) anos, contados do trânsito em julgado da decisão.
Imagine agora a seguinte situação adaptada:
A empresa “ABC” ajuizou uma ação de indenização contra a empresa “XYZ” cobrando danos emergentes e lucros cessantes.
O juiz julgou procedente o pedido quanto aos danos emergentes e improcedente no que tange aos lucros cessantes.
Ambas as partes apelaram. A autora recorreu contra o capítulo sobre os “lucros cessantes” e a ré impugnou o capítulo dos “danos emergentes”.
O Tribunal manteve integralmente a sentença.
A empresa/ré não recorreu contra o acórdão do TJ. Já a empresa/autora apresentou recurso especial impugnando novamente o capítulo sobre “lucros cessantes”.
Desse modo, houve trânsito em julgado para a ré em 02/02/2010.
Depois de três anos de tramitação, o STJ julgou improvido o recurso especial interposto pela autora, mantendo o acórdão.
A autora conformou-se, não apresentou mais nenhum recurso e, em 03/03/2013, houve o trânsito em julgado para ela.
Ação rescisória proposta pela empresa/ré
No dia 04/03/2013, a empresa “XYZ” ajuizou ação rescisória afirmando que a sua condenação em “danos emergentes” violou literal disposição de lei (art. 485, V, do CPC).
A empresa “XYZ” ajuizou a ação rescisória dentro do prazo? Depende:
Para o STJ: SIM.
Para o STJ a contagem do prazo decadencial para a propositura de ação rescisória se inicia com o trânsito em julgado da última decisão proferida no processo, ainda que algum dos capítulos da sentença ou do acórdão tenha se tornado irrecorrível em momento anterior. Existe até um enunciado que espelha esse entendimento:
Súmula 401-STJ: O prazo decadencial da ação rescisória só se inicia quando não for cabível qualquer recurso do último pronunciamento judicial.
Para o STF: NÃO.
Para o STF teria havido decadência.
Segundo decidiu a 1ª Turma do STF, o prazo decadencial da ação rescisória, nos casos de existência de capítulos autônomos, deve ser contado do trânsito em julgado de cada decisão (cada capítulo).
O capítulo sobre “danos emergentes” transitou em julgado em 02/02/2010, momento em que as partes não mais discutiram essa decisão. No STJ, o que ficou sendo debatido foi o capítulo sobre “lucros cessantes”.
Ao ocorrer, em datas diversas, o trânsito em julgado de capítulos autônomos da sentença ou do acórdão, surge a viabilidade de ações rescisórias distintas, com fundamentos próprios.
As partes do julgado que resolvem questões autônomas formam sentenças independentes entre si, passíveis de serem mantidas ou reformadas sem prejuízo para as demais. Em outras palavras, cada
capítulo de sentença é como se fosse uma sentença independente, apesar de estar em um mesmo documento. Tanto isso é verdade, que existem os recursos parciais, ou seja, que impugnam apenas uma parte (um capítulo) do dispositivo.
O Min. Marco Aurélio destacou que o entendimento acima está contido no Enunciado 514 do STF:
Súmula 514-STF: Admite-se ação rescisória contra sentença transitada em julgado, ainda que contra ela não se tenham esgotado todos os recursos.
Mencionou, ainda, como reforço de argumentação, que o TST possui igualmente essa posição, conforme se observa pelo inciso II da sua Súmula n. 100:
AÇÃO RESCISÓRIA. DECADÊNCIA
II - Havendo recurso parcial no processo principal, o trânsito em julgado dá-se em momentos e em tribunais diferentes, contando-se o prazo decadencial para a ação rescisória do trânsito em julgado de cada decisão, salvo se o recurso tratar de preliminar ou prejudicial que possa tornar insubsistente a decisão recorrida, hipótese em que flui a decadência, a partir do trânsito em julgado da decisão que julgar o recurso parcial.
Vale ressaltar que o entendimento do STF é aplaudido por boa parte da doutrina, sendo a posição acolhida pelo projeto do novo Código de Processo Civil que tramita no Senado Federal e adota a coisa julgada progressiva.
Capítulos de sentença no acordão do Mensalão
Recentemente, o STF já havia reconhecido a autonomia substancial dos capítulos de sentença no processo do Mensalão.
O Plenário decidiu que as penas impostas aos réus da AP 470 que não foram objeto de embargos infringentes deveriam ser executadas imediatamente (AP 470 Décima Primeira-QO/MG, Rel. Min. Joaquim Barbosa, julgado em 13/11/2013 – Info 728).
Por exemplo: segundo o STF, a parte que condenou determinado réu ao art. 317 do CP era um capítulo de sentença autônomo em relação à condenação do art. 288 do CP.
Assim, foi decretado o trânsito em julgado e determinou-se a executoriedade imediata dos capítulos autônomos do acórdão condenatório que não foram impugnados por embargos infringentes.
Como a condenação do art. 317 do CP já é definitiva (não tem possibilidade de ser alterada pelos embargos infringentes), não havia fundamento legítimo que justificasse o retardamento da execução. Coisa julgada progressiva
Assim, o STF admite a coisa julgada progressiva, ou seja, aquela que vai ocorrendo em momentos distintos porque a sentença foi fragmentada em partes (capítulos) autônomas.
A coisa julgada progressiva é aquela que vai se formando ao longo do processo, em razão de existência de recursos parciais.
É como se a coisa julgada fosse sendo paulatinamente formada a medida que os capítulos da sentença não são impugnados.
Resumindo:
Impugnada parcialmente a sentença, os capítulos não impugnados transitam em julgado desde logo ou deve-se aguardar o julgamento do recurso quanto ao restante da sentença?
O prazo para a ação rescisória se iniciará para cada capítulo ou deve-se aguardar que não haja mais a possibilidade de se interpor qualquer recurso?
STJ: deve-se aguardar o julgamento do recurso quanto ao restante da sentença. Somente quando não for cabível qualquer recurso, terá início o prazo para a ação rescisória.
STF e doutrina: os capítulos não impugnados transitam em julgado desde logo. O prazo da ação rescisória se iniciará para cada capítulo à medida que ele transitar em julgado.
Essa divisão de entendimentos pode refletir em problemas tanto na prática forense como também na hora das provas. Veja essa questão recentemente cobrada no concurso da PGM/SP:
(PGM/SP VUNESP 2014) O termo inicial do prazo para propositura de ação rescisória corresponde à data em que
(A) decorrer o prazo para recurso do capítulo da sentença ou do acórdão de mérito que será objeto de impugnação, não importando a existência de recurso parcial referente a outros capítulos.
(B) não for mais cabível recurso do pronunciamento judicial rescindendo, mesmo que se trate de decisão interlocutória.
(C) não for mais cabível recurso do último pronunciamento judicial ocorrido no processo.
(D) ocorrido o último pronunciamento judicial de mérito no processo, desde que não interposto recurso ou que este não tenha sido conhecido.
(E) não for mais cabível, perante as instâncias ordinárias, nenhum recurso do pronunciamento judicial rescindendo.
O gabarito apontou como correta a alternativa “C”. Realmente ela está correta de acordo com o entendimento do STJ (Súmula 401). Ocorre que a letra “A” também está certa, se levarmos em consideração a posição da 1ª Turma do STF acima explicada.
AÇÃO RESCISÓRIA
Aplicabilidade da Súmula 343 do STF
Importante!!!
O inciso V do art. 485 do CPC prevê que é cabível a ação rescisória quando a sentença de mérito transitada em julgado “violar literal disposição de lei”.
A jurisprudência entende que, se na época em que a sentença rescindenda transitou em julgado havia divergência jurisprudencial a respeito da interpretação da lei, não se pode dizer que a decisão proferida tenha tido um vício. Logo, não caberá ação rescisória. Isso está em um enunciado do STF:
Súmula 343-STF: Não cabe ação rescisória por ofensa a literal dispositivo de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais.
Imagine o seguinte exemplo: havia divergência na jurisprudência se o índice de correção índice de correção monetária a ser aplicado em determinada situação deveria ser o BNTf ou o INPC. Em 2003, o STJ pacificou que o índice seria o INPC.
Se o acórdão do TJ transitou em julgado em 2002 aplicando o BNTf, não caberá ação rescisória porque na época havia divergência. Aplica-se a Súmula 343-STJ.
Se o acórdão do TJ transitou em julgado em 2004 aplicando o BNTf, caberá ação rescisória porque na época não mais havia divergência. Não se aplica a Súmula 343-STJ.
STJ. Corte Especial. REsp 736.650-MT, Rel. Min. Antonio Carlos Ferreira, julgado em 20/8/2014 (Info 547). Conceito
Ação rescisória é uma ação que tem por objetivo desconstituir uma decisão judicial transitada em julgado. Natureza jurídica
Atenção: a ação rescisória NÃO é um recurso. O recurso é uma forma de impugnar a decisão na pendência do processo (este ainda não acabou). A ação rescisória, por sua vez, somente pode ser proposta quando há trânsito em julgado, ou seja, quando o processo já se encerrou.
Competência
A ação rescisória é sempre julgada por um tribunal (nunca por um juiz singular).
Quem julga a rescisória é sempre o próprio tribunal que proferiu a decisão rescindenda. Prazo
A ação rescisória possui prazo de dois anos, contados do trânsito em julgado da decisão.
CPC/Art. 495. O direito de propor ação rescisória se extingue em 2 (dois) anos, contados do trânsito em julgado da decisão.
Hipóteses
O CPC prevê as hipóteses em que a ação rescisória é cabível:
Art. 485. A sentença de mérito, transitada em julgado, pode ser rescindida quando: I - se verificar que foi dada por prevaricação, concussão ou corrupção do juiz; II - proferida por juiz impedido ou absolutamente incompetente;
III - resultar de dolo da parte vencedora em detrimento da parte vencida, ou de colusão entre as partes, a fim de fraudar a lei;
IV - ofender a coisa julgada; V - violar literal disposição de lei;
VI - se fundar em prova, cuja falsidade tenha sido apurada em processo criminal ou seja provada na própria ação rescisória;
VII - depois da sentença, o autor obtiver documento novo, cuja existência ignorava, ou de que não pôde fazer uso, capaz, por si só, de lhe assegurar pronunciamento favorável;
VIII - houver fundamento para invalidar confissão, desistência ou transação, em que se baseou a sentença; IX - fundada em erro de fato, resultante de atos ou de documentos da causa;
§ 1º Há erro, quando a sentença admitir um fato inexistente, ou quando considerar inexistente um fato efetivamente ocorrido.
§ 2º É indispensável, num como noutro caso, que não tenha havido controvérsia, nem pronunciamento judicial sobre o fato.
Análise do inciso V
O inciso V do art. 485 prevê que é cabível a ação rescisória quando a sentença de mérito transitada em julgado “violar literal disposição de lei”.
Importante ressaltar que, para incidir essa hipótese, a violação deve se mostrar aberrante, cristalina, observada primo ictu oculi (STJ. 1ª Turma. REsp 1458607/SC, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 23/10/2014).
Quando o inciso fala em “lei”, abrange também as normas constitucionais?
SIM. A palavra “lei”, nesse caso, deverá ser interpretada em sentido amplo, abrangendo lei ordinária, lei complementar, medida provisória, norma constitucional, decreto, resolução e qualquer outro ato normativo. Assim, se a sentença violar literal disposição de lei, de norma constitucional ou de qualquer outra norma jurídica, caberá, em tese, ação rescisória.
Se a sentença violar um princípio, caberá ação rescisória?
SIM. A jurisprudência do STJ possui precedentes reconhecendo o cabimento de ação rescisória por conta de violação a princípios. Vale lembrar que a doutrina atual considera que o princípio é uma espécie de norma jurídica. Nesse sentido: STJ. 1ª Turma. REsp 1458607/SC, Rel. Min. Napoleão Nunes Maia Filho, julgado em 23/10/2014.
Se a sentença violar literal disposição de súmula (comum ou vinculante), caberá ação rescisória?
NÃO. Não cabe ação rescisória contra violação de súmula. O inciso V não abrange a contrariedade à súmula porque não se trata de ato normativo.
Conforme prevê o art. 485, V, do CPC, a sentença pode ser rescindida quando violar literal disposição de lei, hipótese que não abrange a contrariedade à súmula. Logo, não há previsão legislativa para o ajuizamento de ação rescisória sob o argumento de violação de súmula (STJ. 3ª Seção. AR 4.112-SC, Min. Rel. Marco Aurélio Bellizze, julgada em 28/11/2012).
Súmula 343 do STF
Não é raro que uma mesma lei gere interpretações completamente diferentes, inclusive dentro de um único Tribunal.
Imaginemos, por exemplo, que a 1ª Turma do STJ afirme que o art. XX da Lei n. 8.112/90 confere determinado direito ao servidor. A 2ª Turma do STJ, por sua vez, interpreta o dispositivo de forma oposta e entende que a Lei não confere esse direito.
O juiz “A” decidiu com base na intepretação dada pela 1ª Turma do STJ e esta sentença transitou em julgado. Ocorre que, um ano depois, a 1ª Turma modificou seu entendimento, curvando-se à posição da 2ª Turma. Nesse caso, seria possível ajuizar ação rescisória contra a sentença proferida pelo juiz “A” alegando que ela violou literal disposição do art. XX Lei n. 8.112/90?
NÃO. A jurisprudência entende que, se na época em que a sentença rescindenda transitou em julgado havia divergência jurisprudencial a respeito da interpretação da lei, não se pode dizer que a decisão proferida tenha tido um vício. Logo, não caberá ação rescisória. Isso está expresso na súmula 343 do STF: Súmula 343-STF: Não cabe ação rescisória por ofensa a literal dispositivo de lei, quando a decisão rescindenda se tiver baseado em texto legal de interpretação controvertida nos tribunais.
O raciocínio que inspirou essa súmula é o seguinte: se há nos tribunais divergência sobre um mesmo preceito normativo, é porque ele comporta mais de uma interpretação, significando que não se pode qualificar qualquer dessas interpretações, mesmo a que não seja a melhor, como ofensiva ao teor literal da norma interpretada. Trata-se da chamada “doutrina da tolerância da razoável interpretação da norma” (Voto do Ministro Teoria Zavascki no RE 590809/RS).
Explicando melhor com outro exemplo:
O acórdão do TJMT reconheceu que o índice de correção monetária a ser aplicado em determinada situação deveria ser o BNTf. Esse acórdão transitou em julgado em 2002.
Na época havia divergência nos Tribunais se o indexador a ser aplicado seria o BNTf ou o INPC.
Tal divergência somente veio a ser pacificada pelo STJ em abril de 2003 quando o STJ afirmou que seria o INPC. Logo, não cabe ação rescisória contra esse julgado do TJMT, com base no art. 485, V, do CPC, considerando que o acórdão foi prolatado ANTES da pacificação da jurisprudência em sentido contrário. Aplica-se, portanto, o raciocínio da Súmula 343 do STF.
Agora vejamos o contrário: se o acórdão do TJMT tivesse sido prolatado em 2004, ou seja, APÓS a pacificação, nesse caso seria cabível a ação rescisória. Não se aplicaria a Súmula 343 do STF.
Tema era controvertido e foi pacificado. CABE AÇÃO RESCISÓRIA? Se o acórdão contrário à jurisprudência do STJ foi
prolatado ANTES da pacificação: NÃO cabe ação rescisória.
Aplica-se a Súmula 343 do STF.
Se o acórdão contrário à jurisprudência do STJ foi prolatado APÓS a pacificação: CABE a ação rescisória.
RECURSO ESPECIAL REPETITIVO
Intervenção da Defensoria Pública como amicus curiae
em recursos representativos de controvérsia
Atenção! DPU
A DPU e as Defensorias Públicas estaduais podem atuar como amicus curiae em recursos especiais repetitivos e recursos extraordinários submetidos à repercussão geral, assim como em processos de controle concentrado de constitucionalidade. Para isso, deverão demonstrar que possuem legítimo interesse e representatividade para essa atuação como amigo da Corte. A mera afirmação de que a Defensoria Pública atua em vários processos que tratam do mesmo tema versado no recurso representativo da controvérsia a ser julgado não é suficiente para caracterizar-lhe a condição de amicus curiae.
Dois exemplos em que o STJ não admitiu a intervenção da instituição como amicus curiae:
Recurso especial repetitivo em que se discutia encargos de crédito rural;
Recurso especial repetitivo em que se debatia a possibilidade de redirecionamento de execução fiscal em caso de dívidas não-tributárias.
STJ. 1ª Seção. REsp 1.371.128-RS, Rel. Min. Mauro Campbell Marques, julgado em 10/9/2014 (Info 547). STJ. 2ª Seção. REsp 1.333.977-MT, Rel. Min. Maria Isabel Gallotti, julgado em 26/2/2014 (Info 537). Multiplicidade de recursos extraordinários tratando sobre o mesmo tema
O legislador percebeu que havia no STF e no STJ milhares de recursos que tratavam sobre os mesmos temas jurídicos.
Diante disso, a fim de otimizar a análise desses recursos, a Lei nº 11.672/2008 acrescentou os arts. B e 543-C ao 543-CP543-C, prevendo uma espécie de “julgamento por amostragem” dos recursos extraordinários e recursos especiais que tiverem sido interpostos com fundamento em idêntica controvérsia ou questão de direito. Julgamento por amostragem
O art. 543-B estabelece o procedimento a ser adotado pelo STF no caso de múltiplos recursos extraordinários tratando sobre o mesmo tema.
O art. 543-C, por sua vez, prevê o rito no caso de múltiplos recursos especiais em tramitação no STJ. Julgamento por amostragem e recursos especiais repetitivos
O julgamento por amostragem no caso dos recursos especiais repetitivos é previsto no art. 543-C do CPC: Art. 543-C. Quando houver multiplicidade de recursos com fundamento em idêntica questão de direito, o recurso especial será processado nos termos deste artigo.
Previsão da intervenção de amicus curiae na repercussão geral e no recurso especial repetitivo
O CPC prevê que, antes de julgar o recurso extraordinário submetido à repercussão geral e o recurso especial sob a sistemática dos recursos repetitivos, o STF e o STJ poderão colher a manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia, que se pronunciarão sobre a causa na qualidade de amicus curiae. Veja:
Art. 543-A (...)
§ 6º O Relator poderá admitir, na análise da repercussão geral, a manifestação de terceiros, subscrita por procurador habilitado, nos termos do Regimento Interno do Supremo Tribunal Federal.
Art. 543-C (...)
§ 4º O relator, conforme dispuser o regimento interno do Superior Tribunal de Justiça e considerando a relevância da matéria, poderá admitir manifestação de pessoas, órgãos ou entidades com interesse na controvérsia.