R e v is ta d a S o c ie d a d e B r a s ile ir a d e M e d ic in a T r o p ic a l 2 3 ( 2 ) : 1 2 1 , a b r-ju n , 1 9 9 0
N O T A P R É V IA
OCORRÊNCIA D E CALAZAR EM ÁREA URBANA D A
GRANDE BELO HORIZONTE, MG
O. Genaro, C. A. da Costa, P. Williams, J.E. Silva, N.M. Rocha, S.L. Lima e W. Mayrink.
Em março de 1989 veio a óbito, a menor K.A.S., 2 anos, no Hospital Salvio Nunes em Belo Horizonte, M G, acometida por calazar. O fato de ser a criança residente no Bairro Alvorada, município de Sabará e localizado na Grande Belo Horizonte, levou- nos a realizar, por solicitação da SUCAM, levanta mento epidemiológico no local para verificar a possi bilidade de ser este um caso autóctone.
Foi realizado um inquérito sorológico canino utilizando amostras de sangue dessecadas em papel de filtro, através da Reação de Fixação do Complemento (R FC ’) e Reação de Imunofluorescência Indireta (RIFI), sendo os testes realizados em paralelo. Após a detecção de cães positivos, estes foram autopsiados para confirmação do diagnóstico sendo realizada a pesquisa do parasito através de impressão em lâmina, inóculo em hamsters e cultura de baço, fígado, medula óssea e pele para posterior caracterização da espécie
de L e is h m a n ia isolada. A busca do vetor foi realizada
em toda área residencial e em mata próxima através de armadilhas do tipo Shanon, Falcão, Chaniotis, CDC e captura manual.
Foram visitadas 973 casas da área próxima a residência de K.A.S., sendo processadas amostras de 289 cães. A sorologia revelou 16 casos positivos. N a autópsia 8 animais foram positivos p a ra L e is h m a n ia ,
cuja caracterização isoenzimática mostrou tratar-se de
L e is h m a n ia (L .) ch a g a si, resultando em uma prevalên cia de calazar canino de 2,76%. A Tabela 1 mostra os flebotomíneos coletados nos quintais das casas, par ticularmente em galinheiros e em mata próxima. O encontro de L u t z o m y i o lo n g ip a lp is nas residências, particularmente onde havia cães positivos e em área adjacente à residência de K.A.S., vem reforçar a hipótese da ocorrência de transmissão de leishmaniose visceral nesta área. Os dados levantados, através de contactos com líderes comunitários, levam-nos a admitir que a doença foi aí introduzida por migrantes
provenientes de zona endêmica no norte de Minas Gerais, por meio de cães infectados. Medidas profilá ticas foram aplicadas pela SUCAM visando controle da endemia, cujos trabalhos foram estendidos para áreas adjacentes ao Bairro Alvorada. É de suma importância que seja realizado com urgência um inquérito sorológico na população humana com o intuito de localizar possíveis casos novos da doença.
Tabela 1 - F le b o to m ín e o s c a p tu r a d o s d u r a n te c o le ta s n o
tu rn a s, n a p r im e ir a s e m a n a d e ju n h o d e 1 9 8 9 , no B a ir r o A lv o r a d a , S a b a r á , M G .
Tipo de
Armadilha M ata do Inferno* Casas (Galinheiros)**
CDC - L u . lo n g ip a lp is (2)
Chaniotis - L u . lo n g ip a lp is (3)
Falcão -
-Shanon L u . lu tz ia n a (1)
-L u . w h i t m a n i ( l ) -L u . p a u l w i ll i a m s i (1) -L u . lo n g ip a lp is (1)
-Coleta - L u . lo n g ip a lp is (2 0 )+
Manual L u . c o r te le z z ii (1)
* Localizada aos fundos do Bairro Alvorada, distante 200 metros das habitações humanas.
** Casas onde foram encontrados cães infectados. + Galinheiro localizado ao lado da residência do caso de
calazar humano, ocorrido.
Universidade Federal de Ouro Preto, Ouro Preto, M G. Universidade Federal de Minas Gerais, Belo Horizonte, MG.
SU CA M -M G.
Recebido para publicação em 0 4 /0 6 /9 0 .