RevBrasAnestesiol.2017;67(3):314---317
REVISTA
BRASILEIRA
DE
ANESTESIOLOGIA
PublicaçãoOficialdaSociedadeBrasileiradeAnestesiologiawww.sba.com.br
INFORMAC
¸ÃO
CLÍNICA
Cateterizac
¸ão
venosa
central
guiada
por
ultrassom
---abordagem
‘‘Syringe-Free’’
Francisco
Matias
∗,
Edgar
Semedo,
Cláudia
Carreira
e
Paula
Pereira
DepartamentodeAnestesiologia,CentroHospitalareUniversitáriodeCoimbra,Coimbra,Portugal
Recebidoem7desetembrode2014;aceitoem29desetembrode2014 DisponívelnaInternetem17desetembrode2016
PALAVRAS-CHAVE
Ultrassonografia;
Intervenc¸ão;
Veiasjugulares;
Cateterizac¸ão;
Veiacentral;
Canulac¸ãodaveia
jugularinterna;
Abordagemoblíqua
Resumo
Justificativaeobjetivos: A cateterizac¸ão venosacentral da veia jugular interna é um
pro-cedimento invasivo feito frequentemente e associado a morbilidade significativa e até mesmomortalidade.Osmétodosguiadosporultrassonografiatêmdemonstradoumamelhoria dosucessodesseprocedimentoesãorecomendadosporváriassociedadescientíficas,incluindo
aAmericanSocietyofAnesthesiologists.Oobjetivodesteartigoédescreverumaabordagem
inovadoradecateterizac¸ãovenosacentralguiadaporultrassonografianoníveldaveiajugular interna.
Técnica:Osautoresdescrevemtécnicaecoguiadainovadoradecateterizac¸ãovenosacentral
daveiajugularinterna,baseadanumaabordagemoblíqua---aabordagemSyringe-Free.Essa técnicapermiteumaprogressãoimediatadofio-guiaaolongodolúmenvenosoemanteruma visualizac¸ãoecográficaemtemporealecontínua.
Conclusões:Atécnicadescritaacrescentaàtécnicaoblíquatradicionalapossibilidadede,com
umúnicooperador,conseguirumapunc¸ãovenosacentralcomvisualizac¸ãoecográficacontínua eemtemporealassociadaàinserc¸ãodofio-guiasemnecessidadedeafastamentodotransdutor deultrassonografiadocampodepunc¸ão.
©2015SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.PublicadoporElsevierEditoraLtda.Este ´eum artigoOpen Accesssobumalicenc¸aCCBY-NC-ND( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
∗Autorparacorrespondência.
E-mail:[email protected](F.Matias).
http://dx.doi.org/10.1016/j.bjan.2016.08.005
Cateterizac¸ãovenosacentralguiadaporultrassom---abordagem‘‘Syringe-Free’’ 315
KEYWORDS
Ultrasonography; Interventional;
Jugularveins;
Catheterization;
Centralvenous;
Internaljugularvein
cannulation;
Obliqueview
Ultrasound-guidedcentralvenouscatheterization---‘‘Syringe-Free’’approach
Abstract
Backgroundandobjectives: Central venous catheterization ofthe internaljugular veinis a
commonly performed invasive procedure associated with a significant morbidity and even mortality.Ultrasound-guidedmethods haveshowntoimprovesignificantlythesuccessofthe techniqueandarerecommendedbyvariousscientificsocieties,includingtheAmerican Soci-etyofAnesthesiologists.Theaimofthisreportistodescribeaninnovativeultrasound-guided centrallineplacementoftheinternaljugularvein.
Technique: Theauthorsdescribeaninnovativeultrasound-guidedcentrallineplacementofthe
internaljugularveinbasedonanobliqueapproach---the‘‘Syringe-Free’’approach.This tech-niqueallowsimmediateprogressionoftheguidewireinthevenouslumen,whilemaintaining areal-timecontinuousultrasoundimage.
Conclusions: Thedescribedmethodaddstothetraditionaloblique techniquethepossibility
ofachievingacontinuousreal-timeultrasound-guidedvenipunctureandaguidewireinsertion thatdoesnotneedremovingtheprobefromthepuncturefield,whilehavingasingleoperator performingthewholeprocedure.
©2015SociedadeBrasileiradeAnestesiologia.Publishedby ElsevierEditoraLtda.Thisisan openaccessarticleundertheCCBY-NC-NDlicense( http://creativecommons.org/licenses/by-nc-nd/4.0/).
Introduc
¸ão
A inserc¸ão de cateter venoso central (CVC) é um pro-cedimento invasivo comumente feito não apenas em anestesiologia,mastambémemváriasespecialidades,que variamdaoncologiaàemergênciamédica.1
A técnica tradicional de referência anatômica para a colocac¸ãodecatetervenosocentral,embora valiosa,tem sido associada a uma série de complicac¸ões relacionadas aoprocedimento,taiscomopunc¸ãooucanulac¸ãoarterial, lesão venosa, pneumotórax e hemotórax.2,3 Comparativa-mente, os métodos guiados por ultrassom têm mostrado algumas vantagens; por exemplo, reduc¸ão do número de punc¸ão oucanulac¸ão arterial acidental, menor incidência de pneumotórax, taxas mais altas de sucesso e relac¸ões custo-benefício favoráveis.1,4---6 Seu usoé, portanto, reco-mendado por diversas sociedades científicas, incluindo a SociedadeAmericanadeAnestesiologistas.6---9
Entre os anestesiologistas, o local selecionado com mais frequência para o acesso central é a veia jugular interna (VJI).Astécnicasdescritasincluemasabordagens ultrassonográficastransversaiselongitudinaistradicionais, bemcomo aabordagemoblíqua opcional,10---13 paraa qual diferentes variantes foram ilustradas, especialmente as técnicas: oblíqua medial, oblíqua lateral e transversal medial.13---15 Osmétodos guiados por ultrassom menciona-doscompartilhamofatodequeooperadorpodeconfirmar a localizac¸ão do vaso pela aspirac¸ão de sangue. Porém, posteriormente,o operador precisadesconectar a seringa parapassarofio-guiaatravésdaagulhaoupassá-loatravés deumdispositivodeseringaefio-guia.Independentemente dométodo usado,essaexigência aumentaa possibilidade dedeslocamentodaagulha(comtodasasimplicac¸ões asso-ciadas, como punc¸ão arterial, exteriorizac¸ão da ponta da agulhadolúmenvenosoelesãodonervo).Alémdisso,esse procedimentorequera presenc¸adeumsegundooperador
paraaobtenc¸ãodeumaimagemultrassonográficacontínua desdeapunc¸ãodapeleatéainserc¸ãocompletadofio-guia. Este artigo descreve uma inovadora colocac¸ão de CVC guiada por ultrassom em VJI, com base na abordagem oblíqua,masquerequerapenasumúnico operadore for-neceimagem ultrassonográficacontínuaeem temporeal. Esseprocedimentoéviável comousodaabordagem vari-antemedial-lateralcomofio-guiaadaptadoparaaagulha desdeoiníciodoprocedimento.
Técnica
Opacienteécolocadoemposic¸ãodeTrendelenburga15◦
comumaligeirarotac¸ãodacabec¸aparaoladoopostoaodo operador.Recomendamoscolocarateladoultrassomdesse lado,demodoqueooperadorpossaolhardiretamentepara ateladentrodomesmocampodevisãousadoparaavanc¸ara agulha.Atécnicaassépticaparaapreparac¸ãoéobrigatória. Alémdisso,asondalineardealtafrequênciaeorespectivo cabodevemserisoladoscomumaluvaestérilapropriada. O fio-guia é adaptado à agulha de punc¸ão antes de se iniciaroprocedimento(fig.1).
ComodescritoporPhelaneHagerty,13 paraquea arté-riacarótidae aveiajugularinterna sejamvisualizadas, a sondaé colocada em umplanotransversal ao pescoc¸o no níveldoesternoe dacabec¸aclavicular domúsculo ester-nocleidomastóideo(ECM).Quandocomparadacomaartéria carótida,aVJIgeralmenteparecenãoserpulsátil,émaior e mais superficial, tem uma parede mais fina e é mais facilmente comprimida. É imperativo posicionar correta-menteasonda,demodoaqueasestruturasdoladodireito daimagemultrassonográficacorrespondamaomesmolado dopaciente. Quandoa imagemdescrita éobtida,a sonda devesergirada 45◦ em sentidohorárioouanti-horário(se
316 F.Matiasetal.
Figura1 Fio-guiaadaptadoàagulhadepunc¸ãodesdeoinício doprocedimento.
paraconseguirumaorientac¸ão oblíqua. Acateterizac¸ão é executadanessaposic¸ão, naqualosvasosemergemcomo estruturashiperecoicasovoidescobertaspelomúsculoECM. Apeleéperfuradacomaagulha(adaptadaaofio-guia)na bordacefálicalateraldasondaeéavanc¸adaemplanoem direc¸ãoàVJI.Issopermiteumaobservac¸ãocompletada tra-jetóriadaagulha.Alémdisso,aorientac¸ãocéfalo-caudalda agulhavaibeneficiaraprogressãosubsequentedofio-guia. Assimqueaagulhapenetranolúmendovaso,ofio-guiaé introduzidosobvisualizac¸ãoultrassonográficadiretae con-tínua(fig.2).Quandoaintroduc¸ãoeaprogressãocorretas dofioforemconfirmadas,aagulhaéremovidaeo procedi-mentocompletadodeformatradicional.
Vantagens
Essa técnica inclui asvantagens reconhecidas da aborda-gemoblíqua(visualizac¸ãotantodaartériaquantodaveia,
bemcomodaagulhainteira)e,aomesmotempo,permite umavisualizac¸ãocontínua detodoo procedimento,o que aumenta potencialmente suaseguranc¸a. Além disso, essa visualizac¸ão contínua é obtida sem a necessidade de um segundooperador,poisnãoprecisaquealguémdesconecte aseringaantesqueainserc¸ãodofio-guiaestejaconcluída. Todasasoutrasdiferentestécnicasdescritasanteriormente feitaspor umúnicooperador exigiamesseperíodocrítico deinterrupc¸ãodaimagemultrassonográficaporqueo ope-radorprecisavalargarasondadoultrassomparaficarcom umadasmãoslivre paradesconectaraseringa einserir o fio-guiasubsequentemente.ComaabordagemSyringe-Free isso nãoacontece, porqueo fio-guia é adaptado àagulha depunc¸ãodesdeoinício.Alémdisso,omédicoestáno con-trole de todo o processo e pode corrigir em temporeal, conformenecessário,aposic¸ãodapontadaagulha,o alinha-mentoeaprogressãodofio.Ascomplicac¸õesassociadascom aessaetapa,comoaprogressãocefálicadofioouperfurac¸ão da parede posterior ou medial da VJI, são, portanto, reduzidas.
O cateterismo deVJI com essemétodo foi usado com sucessonoanopassado.Foifeitopelosautores,queusam regularmente oultrassom em anestesiaregionale catete-rismovenosocentral.
Limitac¸ões
Essatécnicatemalgumaslimitac¸ões.Namaioriadoscasos, aartériacarótidaestálocalizadana mesmatrajetóriaque aagulha,oquepoderialevaràideiadequeexisteumrisco maiordepuncionara artériacarótida.Noentanto,a agu-lhaéinseridaemplanoeemumnívelsuperficialque,em teoria,permiterastrearfacilmenteaagulha.Noentanto,é obrigatórioqueessatécnicasejaexecutadaporum opera-dorexperiente compráticanomanejoe nainterpretac¸ão dasimagensultrassonográficasparaobterumaobservac¸ão contínua da ponta da agulha. Se essas condic¸ões forem respeitadas,o riscode punc¸ãodaartériacarótidaé mini-mizado e aconfirmac¸ãopor aspirac¸ão desangue torna-se desnecessária, pois o operador será capaz de visualizar a entrada da agulha no lúmen da VJI. Além disso, com base em sua experiência, os autores descobriram que o lúmendaagulhaseenchedesangueapósapunc¸ãovenosa.
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Cateterizac¸ãovenosacentralguiadaporultrassom---abordagem‘‘Syringe-Free’’ 317
Deve-se notar que, em pacientes com hipovolemia, a execuc¸ão da técnica é maisdesafiadora devido ao menor diâmetrodaVJI. Paraosusuáriosnovatosounão especia-listasemultrassom,oaparelhodeultrassompodedaruma falsasensac¸ãodeseguranc¸aeavisualizac¸ãoconstanteda agulhaedesuapontapodenãoacontecer.Portanto,a prin-cipallimitac¸ãodoprocedimentodescritoestáassociadaao níveldeexperiênciadooperadornomanejodoutrassom.
Os autores descobriram outro desafio na implantac¸ão dessatécnicaquedizrespeitoaofatodequenemtodosos conjuntos de cateterizac¸ão venosa central fornecem uma conexãoestávelentreocanhãodaagulhaea unidadede distribuic¸ãodofio-guia. Osautorescostumam usar o con-juntodecateterismovenosocentralCertofix®Duo(B-Braun,
MelsungenAG,Alemanha),cujodistribuidordofio-guiapode ser conectado adequadamenteà agulha. Assim, atécnica podeseraplicadasemdificuldade.Porém,seessaconexão nãofor segura,aabordagemSyringe-Freenãoé recomen-dada.
Conclusões
Os autores sugerem a abordagem Syringe-Free para a colocac¸ãodeCVCguiadoporultrassom,quesuperaas vanta-gensjádescritasdatécnicaoblíqua,13poispermiteimagem ultrassonográficacontínuaemtemporealeumúnico opera-dorparaasuaexecuc¸ão.Agora,éimperativoqueevidências sejamfornecidasatravésdeestudosprospectivos randomi-zadossobre o benefício dessa técnica, principalmente no quedizrespeitoàseguranc¸a,àtaxadesucessoeaotempo deexecuc¸ão.
Conflitos
de
interesse
Osautoresdeclaramnãohaverconflitosdeinteresse.
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