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A Rede Nacional de Treinamento : os Jogos Olímpicos do Rio 2016 e suas promessas de legado

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Academic year: 2021

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UNIVERSIDADE ESTADUAL DE CAMPINAS Faculdade de Educação Física

CARLOS FABRE MIRANDA

A REDE NACIONAL DE TREINAMENTO:

Os Jogos Olímpicos do Rio 2016 e suas promessas de legado

CAMPINAS 2020

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CARLOS FABRE MIRANDA

A REDE NACIONAL DE TREINAMENTO:

Os Jogos Olímpicos do Rio 2016 e suas promessas de legado

Tese, apresentada à Faculdade de Educação Física da Universidade Estadual de Campinas como parte dos requisitos exigidos para a obtenção do título de Doutor em Educação Física, na Área de Educação Física e Sociedade

Orientadora: Prof.ª Dr.ª Silvia Cristina Franco Amaral

ESTE TRABALHO CORRESPONDE À VERSÃO FINAL DA TESE DEFENDIDA PELO ALUNO CARLOS FABRE MIRANDA, E ORIENTADA PELA PROFA DRA. SÍLVIA CRISTINA FRANCO AMARAL.

CAMPINAS 2020

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Biblioteca da Faculdade de Educação Física Dulce Inês Leocádio - CRB 8/4991

Miranda, Carlos Fabre, 1979-

M672r MirA Rede Nacional de Treinamento : os Jogos Olímpicos do Rio 2016 e suas promessas de legado / Carlos Fabre Miranda. – Campinas, SP : [s.n.], 2020.

MirOrientador: Silvia Cristina Franco Amaral.

MirTese (doutorado) – Universidade Estadual de Campinas, Faculdade de Educação Física.

Mir1. Atletismo. 2. Politicas públicas. 3. Olimpíadas. I. Amaral, Silvia Cristina Franco. II. Universidade Estadual de Campinas. Faculdade de Educação

Física. III. Título.

1 Informações para Biblioteca Digital

Título em outro idioma: National Training Network : the Rio 2016 Olympic Games and their legacy promises

Palavras-chave em inglês: Athletics

Public policy Olympics

Área de concentração: Educação Física e Sociedade Titulação: Doutor em Educação Física Banca

examinadora:

Silvia Cristina Franco Amaral [Orientador] Fernando Mascarenhas Alves

Roberto Rodrigues Paes Billy Graeff Bastos Leandro Carlos Mazzei Data de defesa: 28-09-2020

Programa de Pós-Graduação: Educação Física

Identificação e informações acadêmicas do(a) aluno(a)

- ORCID do autor: https://orcid.org/0000-0002-7052-7858 - Currículo Lattes do autor: http://lattes.cnpq.br/8689914808581517

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A Ata da defesa com as respectivas assinaturas dos membros encontra-se no SIGA/Sistema de Fluxo de Dissertação/Tese e na Secretaria do Programa da Unidade.

____________________________________________________________ Profa. Dra. Silvia Cristina Franco Amaral

Presidente da Banca

____________________________________________________________ Prof. Dr. Fernando Mascarenhas Alves

Membro Titular

____________________________________________________________ Prof. Dr. Leandro Carlos Mazzei

Membro Titular

____________________________________________________________ Prof. Dr. Billy Graeff Bastos

Membro Titular

____________________________________________________________ Prof. Dr. Roberto Rodrigues Paes

Membro Titular

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Dedico esta tese para minha filha, Maria Clara, para que possa crescer sem medo, e para minha esposa, Michelle, companheira de todos os momentos e que me dá asas que me permitem alçar voos como este.

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Agradeço a todos aqueles que me inspiram e inspiraram, não só em termos acadêmicos, mas também para buscar uma vida plena e feliz em um mundo mais justo, que ainda está por vir.

Obrigado ao meu pai, Carlos (em memória). A sua perda, em maio de 2016, ocorreu ainda no início desta caminhada, e a dor da tua ausência me torna mais forte, na certeza que segues olhando por nós. Além do nome, levo comigo o exemplo que fostes em vida. A perda de meu pai seguiu a perda de meus avós, Leda e Carlos, em 2017. Obrigado, Bolito e Bolita, pelo amor e carinho e por terem sido o porto seguro de nossa família.

Agradeço à minha mãe, Eleonora, pela vida, pelo amor, pelo exemplo e pelo carinho sempre presentes, mesmo com a distância e ausência neste período.

Obrigado, meu irmão Juan, por partilhar as brincadeiras na infância e as duras responsabilidades da vida adulta. Fostes forte e presente em um momento difícil, e agradeço por estar ao meu lado.

Um agradecimento carinhoso para Michelle, pelo amor, parceria e incentivo. Sou muito feliz de partilhar esta jornada contigo. Fomos para São Paulo em busca de um voo conjunto e voltamos para o Sul com a certeza de que, juntos, todos os desafios que se apresentarem serão superados. Agradeço à minha filha, Maria Clara, uma criança doce, amorosa e inteligente, que torna cada dia único e nos desafia a buscar um mundo melhor. Sou muito grato de ter a responsabilidade de ser teu pai e poder mostrar um mundo que se apresenta como desafiador, cheio de oportunidade e que é seu, minha filha.

Agradeço ao Instituto Federal do Rio Grande do Sul – IFRS, instituição que passei a integrar como servidor em junho de 2017, já com o doutorado em andamento. Aos colegas do Campus Viamão, um reconhecimento pela luta diária pautada na educação pública, gratuita, de qualidade e socialmente referenciada. O afastamento com substituição para qualificação proporcionado em 2018 incentiva e desafia a construção de um texto qualificado. O fomento proporcionado pelo IFRS se apresenta como uma grande oportunidade de qualificação e desenvolvimento individual e que, certamente, contribuirão para o desenvolvimento coletivo após meu retorno.

À Universidade Estadual de Campinas – UNICAMP, em especial aos professores, colegas e funcionários da Faculdade de Educação Física, pela

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aqui.

Gostaria de encerrar agradecendo de forma especial à minha orientadora, Professora Sílvia Amaral, mulher de posicionamento forte, exemplo de caráter e professora que permite que tenhamos a responsabilidade que a autonomia acadêmica impõe. Nossas vidas se cruzaram ainda no período de graduação na UFRGS, e tive a felicidade e o prazer de um reencontro para poder realizar o sonho de continuar minha trajetória acadêmica.

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Esta pesquisa busca analisar uma política de estado que foi apresentada como o Legado Esportivo dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016: a Rede Nacional de Treinamento. Analisamos a elaboração, formulação e implementação desta política, tendo como metodologia a dependência de trajetória (path dependence). Buscou-se problematizar o que, no campo esportivo, é apresentado como “legado”, tendo especial atenção para o Legado Esportivo dos Jogos do Rio 2016. Neste sentido, foram consultadas fontes que compuseram a exitosa candidatura do Rio de Janeiro à sede olímpica em 2016, como documentos elaborados pelo Comitê Olímpico Internacional, pelo Comitê Organizador dos Jogos do Rio 2016, pelo Ministério do Esporte, entre outros. Encontramos referências sobre a formulação da Rede Nacional de Treinamento ainda na III Conferência Nacional de Esporte. Questões que problematizem o esporte enquanto um fenômeno social e suas relações enquanto negócio e consumo foram debatidos com autores que problematizam o neoliberalismo e seus efeitos e relações com o esporte. A modalidade de atletismo é apresentada como modelo de implementação, com diversas estruturas construídas, além de um convênio (n° 813831/2014), oriundo de uma chamada pública em 2013, firmado entre a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt) e o Ministério do Esporte. As legislações que normatizam esta política, foram descritas e analisadas, assim como as recentes mudanças notadas no que diz respeito ao fomento ao esporte brasileiro e seus desdobramentos em período recente. Como resultado, destacamos que, enquanto legado esportivo dos Jogos Olímpicos, a Rede Nacional de Treinamento foi uma resposta a uma demanda do COI para a construção de um legado. Ocorreu uma tentativa de distribuição do legado com a construção de estruturas por todo território brasileiro. No caso do atletismo, a proposta de integração buscando um caminho para o atleta ao circular entre os Centros é confrontada com a lógica concorrencial inerente ao esporte, e assim temos uma grande contradição neste sentido. A tentativa de implementação, iniciando os investimentos por cima das estruturas da pirâmide esportiva, contribuiu para o insucesso desta política pública.

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This research seeks to analyze a state policy that was presented as the Sports Legacy of the Rio de Janeiro 2016 Olympic Games, the National Training Network. The elaboration, formulation and implementation of this policy were analyzed, using the path dependence as a methodology (path dependence). We sought to problematize what in the sports field is presented as a “legacy”, paying special attention to the Sports Legacy of the Rio 2016 Games. In this sense, sources that made up Rio de Janeiro's successful candidacy for the Olympic headquarters in 2016 were consulted, as documents prepared by the International Olympic Committee, the Rio 2016 Games Organizing Committee, the Ministry of Sport, among others. We found reference on the formulation of the National Training Network still in the III National Sports Conference. Issues that problematize sport as a social phenomenon and its relations as business and consumption were discussed with authors who problematize neoliberalism and its effects and relations with sport. The athletics modality is presented as an implementation model, with several structures built, in addition to an agreement (n ° 813831/2014) arising from a public call in 2013 signed between the Brazilian Athletics Confederation (CBAt) and the Ministry of Sports. The laws that regulate this policy have been described and analyzed, as well as the recent changes noted with regard to the promotion of Brazilian sport and its developments in the recent period. As a result, we highlight that as a sporting legacy of the Olympic Games, the National Training Network was a response to a demand by the IOC to build a legacy. An attempt was made to nationalize the legacy with the construction of structures throughout Brazilian territory. In the case of athletics, the proposal of integration seeking a path for the athlete to circulate between the Centers is confronted with the competitive logic inherent in the sport and thus we have a great contradiction in this sense. The attempt at implementation by starting investments over the structures of the sports pyramid contributed to the failure of this public policy.

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Figura 1 – Integrantes da candidatura do Rio de Janeiro fazendo campanha em

Londres, Reino Unido ... 36

Figura 2 – Logomarca da ODESUR ... 44

Figura 3 – Mudança de logomarca e nome de ODEPA para PANAM SPORTS ... 45

Figura 4 – Logomarca dos VII Jogos Sul-Americanos de 2002... 46

Figura 5 – Logomarca dos XV Jogos Pan-Americanos de 2007 ... 48

Figura 6 – Os 4 clusters dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 ... 51

Figura 7 – Diagrama para entendimento a filosofia das Experiências dos Jogos Olímpicos ... 60

Figura 8 – Captura da tela que retrata a notícia sobre a visita de Marina Silva ao COB ... 70

Figura 9 – Captura da tela que retrata a notícia sobre a visita de José Serra ao COB ... 71

Figura 10 – Captura da tela que retrata a notícia sobre a visita de Dilma Rousseff ao COB ... 71

Figura 11 – Mudança da Identidade visual do “Time Brasil” ... 80

Nota: criada em 2008 (esquerda) e alterada em 2015 (direita) ... 80

Figura 12 – Alteração na identidade visual do COB ... 81

Figura 13 – Campanha da Petrobras com o atleta Darlan Romani ... 81

Figura14 – Campanha da Petrobras com o atleta Almir Junior ... 82

Figura 15 – Logomarca da III CNE ... 82

Figura 16 – Pirâmide da Rede Nacional de Treinamento (Ministério do Esporte) ... 88

Figura 17 – Rede das infraestruturas esportivas da RNT ... 93

Figura 18 – Rede de atores envolvidos na RNT ... 93

Figura 19 – Foto da fachada da Estação Cidadania em Canoas/RS ... 96

Figura 20 – Foto da placa da Estação Cidadania em Canoas/RS ... 96

Figura 21 – Foto da placa da obra da Estação Cidadania/CIE em Canoas ... 97

Figura 22 – Mapa da Rede Nacional de Treinamento ... 99

Figura 23 – Imagem ilustrativa das Estruturas de Atletismo ... 100

Figura 24 – Mapa das pistas de atletismo concluídas e em construção no país ... 102

Figura 25 – Identificação visual central da Arena Caixa utilizada no período de sua inauguração. ... 103

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... 104 Figura 28 – Inauguração do Centro Nacional de Desenvolvimento do Handebol ... 106 Figura 29 – Inauguração do Laboratório de Performance em Ambiente Simulado (Lapas) ... 107 Figura 30 – Desenvolvimento do fluxo Geral de trabalho da RNTA ... 116 Figura 31 – Modelo de funcionamento dos Centros da RNTA ... 117

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Quadro 1 – Linha estratégica 6 - que trata do esporte de Alto Rendimento, contida na ação 3 ... 78 Quadro 2 – Infraestrutura esportiva e atores para a Rede Nacional de Treinamento ... 91

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ADAB – Associação Desportiva Atletismo Brasil AGLO – Autoridade Governança de Legado Olímpico APO – Autoridade Pública Olímpica

CBAt – Confederação Brasileira de Atletismo CBC – Comitê Brasileiro de Clubes

CBCE – Colégio Brasileiro de Ciências do Esporte CBD – Confederação Brasileira de Desportes CBF – Confederação Brasileira de Futebol CDA – Comissão de Desporto da Aeronáutica CETAN – Centro de Treinamento de Alto Nível CIE – Centro de Iniciação Esportiva

CNDA – Centro Nacional de Desenvolvimento de Atletismo CNE – Conferência Nacional de Esporte

CNTA – Centro Nacional de Treinamento de Atletismo

COB – Comitê Olímpico Brasileiro, renomeado para Comitê Olímpico do Brasil

COI – Comitê Olímpico Internacional

CONFEF – Conselho Federal de Educação Física CORIO 2016 – Comitê Organizador Rio 2016

COT – Centros Olímpicos de Treinamento CPI – Comissão Parlamentar de Inquérito CPB – Comitê Paralímpico Brasileiro

EBE – Empresa Brasileira de Excelência Esportiva FIFA – Federação Internacional de Futebol Associado FISU – Federação Internacional de Esporte Universitários IAAF – Associação Internacional de Federações de Atletismo IFRS – Instituto Federal do Rio Grande do Sul

ISL – International Sports Leisure

IPEA – Instituto de Pesquisa Econômica Aplicada

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MP – Medida Provisória

ODERSUL – Organização Desportiva Sul-Americana ODEPA – Organização Desportiva Pan-americana PAC – Programa de Aceleração do Crescimento PANAM

SPORTS

– Organização Desportiva Pan-americana

PELC – Programa Esporte e Lazer na Cidade

PMDB – Partido do Movimento Democrático Brasileiro PSB – Partido Socialista Brasileiro

PSDB – Partido da Social democracia Brasileira PST – Programa Segundo Tempo

PT – Partido dos Trabalhadores

PV – Partido Verde

RNT – Rede Nacional de Treinamento

RNTA – Rede Nacional de Treinamento de Atletismo SESC – Serviço Social do Comércio

SESI – Serviço Social da Industria

SICONV – Sistema de Gestão de Convênios e Contratos de Repasse do Governo Federal

SME – Secretaria Municipal de Esporte Recreação e Lazer da Prefeitura de Porto Alegre

SNEAR – Secretaria Nacional de Esporte de Alto Rendimento SNEL – Sistema Nacional de Esporte e Lazer

SOGIPA – Sociedade Ginástica Porto Alegre TCU – Tribunal de Contas da União

UFRGS – Universidade Federal do rio Grande do Sul UFSM – Universidade Federal de Santa Maria ULBRA – Universidade Luterana do Brasil UNICAMP – Universidade Estadual de Campinas

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APRESENTAÇÃO ... 16

1 INTRODUÇÃO ... 19

1.1 Metodologia ... 21

2 PROJETO OLÍMPICO BRASILEIRO ... 30

2.1 O pacto do Brasil com a Família Olímpica ... 36

2.2 Sul-Americano de 2002, Pan-Americano de 2007 e Rio 2016 e a pauta de financiamento dos atletas ... 43

2.3 Os Jogos do Rio 2016 e as exigências de legados pelo COI ... 50

2.4 Legado esportivo na escolha do Rio de Janeiro para os Jogos Olímpicos ... 58

3 A REDE NACIONAL DE TREINAMENTO: ELABORAÇÃO, FORMULAÇÃO E SUAS DISPUTAS ... 67

3.1 III Conferência Nacional de Esporte (CNE) ... 75

3.2 Quadro normativo ... 84

3.3 Caminho do atleta a pirâmide esportiva ... 87

4 A REDE NACIONAL DE TREINAMENTO DE ATLETISMO ... 109

4.1 O atletismo como modelo a ser seguido ... 110

4.2 Campings de Campo Mourão e Lavras, conhecendo os Centros ... 120

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 131

REFERÊNCIAS ... 136

ANEXO A – Autorização CBAt ... 149

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APRESENTAÇÃO

Esta pesquisa busca investigar uma Política Pública de Esporte, elaborada pelo Ministério do Esporte, em 2010, e que se apresentou como o principal “Legado Esportivo” dos Jogos Olímpicos realizados em 2016 no Rio de Janeiro: a Rede Nacional de Treinamento. Buscou-se entender e identificar a formulação, planejamento e o processo de implementação da Rede Nacional de Treinamento e as possíveis relações desta com o fomento ao esporte e seu lugar na política esportiva brasileira, assim como as relações com os Jogos Olímpicos. O foco foi a observação e análise do atletismo, modelo para a implementação desta política em um convênio firmado entre o Ministério do Esporte e a Confederação Brasileira de Atletismo (CBAt). Algumas das motivações desta pesquisa envolvem minha trajetória de vida. Esta possui dois caminhos articulados: uma sobre minha formação esportiva, a qual me levou a ser professor de Educação de Física, e outra acadêmica, considerando estudos feitos no período do mestrado e que contribuíram para a elaboração desta proposta. Na minha trajetória esportiva, em minha juventude, fui praticante de atletismo na Sociedade Ginástica Porto Alegre (SOGIPA), clube tradicional da cidade de Porto Alegre. O apartamento em que me criei ficava, literalmente, do outro lado da rua de uma das entradas do clube. Entre as experiências que tive, destaco a participação em um camping de treinamento, ou período de “base”, como é chamado pelos esportistas. Este ocorreu em Manaus, que na época era a sede da CBAt, e com uma perspectiva de buscar sucesso esportivo na prova do arremesso de peso. O período também era particular, ocorreu em uma transição entre a conclusão escolar e ingresso na universidade.

Essa base feita nesse Centro de Treinamento, na época era conhecido como CETAN (Centro de Treinamento de Alto Nível), foi uma das primeiras experiências desse formato, ocorrendo logo após os Jogos Olímpicos de Atlanta, em 1996. Fiquei em Manaus durante quase dois meses com acompanhamento de treinadores estrangeiros e compartilhando os treinos com atletas de todo o Brasil e países da América Latina. Os objetivos dos que estavam ali eram comuns, de buscar melhorar seus resultados esportivos. A minha prova1 era o arremesso de peso,

modalidade que o Brasil possuía pouca tradição na época, final dos anos 1990.

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Foi depois desse período de treinamento que ingressei na universidade, e algumas questões relacionadas à “política” interna do esporte já se apresentavam. Com os resultados esportivos obtidos na época, fui bolsista do Estado do Rio Grande do Sul, e algumas pessoas do clube ao qual eu estava vinculado ocupavam postos de decisão não só na modalidade do atletismo, mas em questões mais abrangentes envolvendo o esporte, tanto em cargos relevantes na CBAt, como em órgãos de gestão do Governo do Estado do Rio Grande do Sul.

No final de minha formação universitária, se apresentaram questões que envolviam oportunidades profissionais e um descontentamento com a situação em si que envolvia não só questões esportivas, mas aspectos que poderíamos tratar como “de bastidores”. Entre estes estavam elementos que constituem o esporte como poder e influência. Nesse período, em uma daquelas decisões difíceis que temos que tomar, decidi fazer uma mudança e fui para a recém formada equipe da Universidade Luterana do Brasil (ULBRA).

Assim, percorrendo um caminho, que poderia se dizer esperado quando atletas seguem na área do esporte, tinha a expectativa de me tornar treinador de atletismo. Entre os anos 2000 e 2006, meu envolvimento com o atletismo se intensificou, muito devido ao sucesso dos atletas que orientava. Por diversas ocasiões, fui treinador de Seleções Estaduais e, no ano de 2005, fui convocado para ser treinador da Seleção Brasileira na categoria Juvenil (até 19 anos). Neste contexto, foi escrita minha dissertação de mestrado, que teve como título: “Como se vive de atletismo, relações entre amadorismo e profissionalismo com um olhar para as configurações esportivas”. Ela foi finalizada no ano dos Jogos Pan-Americanos, em 2007, e quando as aspirações de realizar uma Olimpíada no Brasil eram crescentes.

Após atuar como treinador de atletismo, tive importantes experiências relacionadas com a educação física escolar e com o esporte como atividade de lazer, atuando como servidor público em esfera municipal, em diferentes cidades. O atletismo, por diversas vezes, se apresentou como conteúdo das aulas, na organização de eventos, mas com outros interesses e outras abordagens daquela considerada oficial, relacionadas com equipes, com a federação, campeonatos, etc. De certa forma, se iniciava um interesse e aproximação com propostas e funcionamento das Políticas Públicas relacionadas com o Esporte, Lazer e Educação Física, com um envolvimento “por dentro” desse universo. Destaco a experiência ocorrida enquanto estava na Gerência de Eventos da extinta Secretaria Municipal de

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Esporte Recreação e Lazer da Prefeitura de Porto Alegre (SME), em que, dentre outras ações, participei do Grupo de Trabalho que constituiu o Comitê Organizador Local dos Campeonatos Mundiais de Atletismo Master (conhecido como WMA), que foram realizados em 2013. Tal evento já constituía parte das expectativas para a realização de Jogos da Copa do Mundo de 2014, na cidade de Porto Alegre, e compunha um cenário que abrangia a realização dos Jogos Olímpicos do Rio. O WMA compunha a agenda do Megaeventos Esportivos deste período recente brasileiro. Tal experiência foi apresentada no 15º Congresso Mundial de Lazer2.

Destaco também, nessa relação entre prática profissional e interesses acadêmicos, o período em que estive como coordenador do projeto de turno integral na Escola Municipal de Ensino Fundamental Gabriel Obino, que abrangia o Programa Mais Educação, em um convênio firmado entre a Secretaria Municipal de Educação (SMED) e o Ministério da Educação. Este movimento de afastamento da relação direta com os alunos, participando da gestão da escola, buscando dar conta das burocracias necessárias para viabilizar os projetos e suas complexidades, foi também uma experiência significativa.

Exposto algumas das motivações oriundas da minha formação esportiva e trajetória acadêmica e profissional, é importante destacar que esta proposta de tese tem forte influência do esporte, em especial do atletismo. É importante serem consideradas as particularidades deste período, com recente realização dos Jogos Olímpicos no Brasil, e seus posteriores desdobramentos que serão investigados.

2 O trabalho intitulado: Lazer, esporte e política no Mundial de Atletismo Master está disponível em:

https://2018wlcongress.sescsp.org.br/wp-content/uploads/2019/07/anais-congresso-de-lazer-2018-geatg-din-pro.pdf.

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2 INTRODUÇÃO

A realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro, no ano de 2016, foi algo inédito e grandioso para o Brasil. Outros Megaeventos esportivos como a Copa do Mundo de Futebol Masculino, Jogos Pan-Americanos e a Universíade (Jogos Mundiais Universitários) já haviam sido realizados anteriormente em nosso país. A aparente grandiosidade de organizar a Copa e os Jogos Olímpicos se sucedeu a um período conturbado nos aspectos políticos e econômicos em particular. Seus efeitos também são presentes no esporte e, de forma específica, na modalidade de atletismo.

Nesse sentido, a escolha de um país para sediar estes eventos, em especial os Jogos Olímpicos, se apresenta como um processo complexo e que envolve diferentes fatores, de distintas esferas. Fatos recentes demonstram como este processo é conflituoso, com determinantes que superam a uma mera análise técnica do que possa ter influenciado aqueles que votaram, no Comitê Olímpico Internacional (COI), a escolher o Rio de Janeiro como sede olímpica. Questões que envolvem interesses públicos de esferas municipais, estaduais e federais, que se articulam com interesses privados, envolvendo entidades de organização esportiva locais e mundiais, assim como empresas de diferentes áreas e abrangências, se apresentam como relevantes para analisar e compreender a importância deste pleito para um país, assim como seus impactos e efeitos.

Algumas questões iniciais sobre os Jogos do Rio 2016 estão no fato que, das 31 edições dos Jogos Olímpicos, considerando os países localizados no hemisfério sul, somente o Rio e as cidades australianas de Melbourne (1956) e Sidnei (2000) sediaram o evento. O continente europeu realizou 16 edições, e o continente asiático teve três cidades sedes. Os Estados Unidos realizaram por quatro vezes, em três diferentes cidades. Cabe destacar que somente a cidade de Londres realizou três edições dos Jogos Olímpicos.

Esses aspectos iniciais apresentam uma reflexão de que os Jogos do Rio fazem parte do que poderíamos denominar um movimento de rendição tardia do país ao neoliberalismo. Nesse sentido, estabelecemos como proposta de embasamento teórico autores que apresentam relações entre esporte e neoliberalismo, entre os quais destacamos Alain Ehrenberg (2010) que, em seu livro “Culto da Performance”, apresenta a centralidade do esporte na construção do novo sujeito neoliberal.

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Neste processo apresentamos para o debate o ponto de que o Projeto Olímpico no Brasil se materializou por meio de quatro candidaturas: Brasília 2000, Rio 2004, Rio 2012 e Rio 2016. Nesse contexto, é importante destacar também a realização dos Jogos Pan-Americanos de 2007, que frequentemente é apresentado como um evento fundamental para os planos de sediar os Jogos Olímpicos. Entre os autores que destacam tal afirmação apresentamos Mascarenhas (2010), Oliveira e Gaffney (2010) e Gonçalves (2010). Além disso, houve também os Jogos Sul-Americanos de 2002, um evento aparentemente de pouca expressão, mas que iniciou um processo de diagnóstico das complexas estruturas necessárias para um evento multimodalidades da magnitude dos Jogos Olímpicos.

Uma das palavras mais celebradas antes, durante e após os Jogos Olímpicos e que, de certa forma, procura justificar sua realização, assim como de outros megaeventos esportivos, é o dito legado. Este se apresenta como uma materialização das expectativas que, na maioria dos casos, é considerada como sendo positiva para a organização dos Jogos. Os legados podem ser relacionados a distintas áreas, como mobilidade urbana, meio ambiente, infraestrutura (esportiva e da cidade), de conhecimento, governança, relacionados com a imagem do país ou com o esporte em si. Cabe destacar que nos atentamos às relações que dialogam com o esporte, área da qual sou oriundo, que tenham implicações neste contexto.

Dialogamos com o conceito de legado, aparentemente elaborado pelo COI e presente na Carta Olímpica, para buscar dar conta das expectativas em relação à organização dos Jogos. O foco foi no caso do Rio de Janeiro 2016 e suas relações envolvendo a formulação e implementação da Rede Nacional de Treinamento. O problema de pesquisa se concentra em buscar compreender como foi o processo de formulação e implementação do Legado Esportivo dos Jogos Olímpicos que se materializou na Rede Nacional de Treinamento de Atletismo.

Assim apresentamos as seguintes questões que norteiam esta pesquisa:

a) O que levou o Estado Brasileiro (Ministério do Esporte) a criar a Rede Nacional de Treinamento?

b) A Rede Nacional de Treinamento é um Legado Esportivo dos Jogos Olímpicos?

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Estas duas questões mais abrangentes apontam para buscar descrever e analisar o caso específico do atletismo:

a) Como foi a implementação do convênio celebrado entre a CBAt e o Ministério do Esporte?

b) Quais desdobramentos trouxe para o esporte, em particular para o atletismo brasileiro?

Como objeto de pesquisa temos então o processo de implementação da Rede Nacional de Treinamento, enquanto política pública, com atenção para o atletismo neste processo.

Para melhor compreender e analisar o Esporte, buscamos o aporte teórico na Sociologia. Dardot e Laval (2016, p. 353), ao tratar da fabricação do sujeito neoliberal, afirmam que “O novo sujeito é o homem da competição e do desempenho” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 353). Estes autores apresentam que o esporte de competição é importante no entendimento desse sujeito.

Dardot e Laval se ancoram no que denominam de dispositivo de “desempenho/gozo” (DARDOT; LAVAL, 2016, p.353) e suas estreitas relações com o esporte, conceito desenvolvido por outro sociólogo francês, Alain Ehrenberg (2010), que em seu livro, “Culto da Performance”, estabelece relações com três discursos: o esportivo, o de consumo e o empresarial.

As relações entre neoliberalismo e o esporte são de suma importância para este estudo, especialmente considerando a tentativa do Estado em orientar uma mediação que envolve sujeitos como atletas e treinadores, instituições esportivas (compreendendo os clubes, as federações, as confederações), Comitê Olímpico do Brasil (COB) e Comitê Olímpico Internacional (COI) e demais agentes públicos como prefeituras, estados e união, em especial o Ministério do Esporte. Realizamos uma análise com centralidade nas instituições que participam desse processo de implementação da Rede Nacional de Treinamento. Tal aspecto se apresenta especialmente inquietante ao considerar a realização dos Jogos Olímpicos e a busca do Brasil em se tornar uma potência olímpica e o momento que passa o esporte, em especial o atletismo, em período recente.

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2.1 Metodologia

A metodologia utilizada na análise dessa política pública é a dependência de trajetória (path dependence), buscando aprofundar conceitos que embasem e sustentem o entendimento e descrição da formulação e implementação da Rede Nacional de Treinamento. Observou-se os atores e, principalmente, as instituições envolvidas. Buscou-se também compreender as disputas que se fazem presentes nesse contexto, com desdobramentos importantes que constituem uma grande crise que se observa no atletismo, envolvendo a CBAt, a Federação Paulista de Atletismo, o surgimento da ADAB (Associação Desportiva Atletismo Brasil) e uma grande mobilização em uma modalidade central para os Jogos do Rio de Janeiro 2016.

Considerando que os Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro 2016 foram o principal megaevento esportivo já organizado em nosso país, sua realização trouxe desdobramentos que ocasionaram profundas mudanças, observadas no cenário esportivo em escala nacional e global.

Para a contextualização da dependência de trajetória, enquanto escolha metodológica, algumas considerações iniciais são importantes. Esta “ferramenta analítica (é usada) para se entender a importância de sequências temporais e do desenvolvimento no tempo de eventos e processos sociais”, como definido por Bernardi (2012 p. 138), e pertence ao institucionalismo histórico e ao neo-institucionalismo. Nesse sentido, Fernandes (2002) apresenta que a análise institucionalista histórica, na ciência política, dá início à utilização do conceito de dependência de trajetória, oriundo da disciplina da economia, em especial no campo da economia da tecnologia.

Fernandes (2002) ainda aponta que, na ciência política, a corrente chamada de novo institucionalismo, também denominado de neo-institucionalismo, “é ampla e dividida em subcorrentes que possuem um único aspecto em comum, o fato de encarar o estudo dos processos políticos tendo como variável independente as instituições” (FERNANDES, 2002, p. 80). Dentre as correntes que compõem o neo-institucionalismo, temos uma distinção entre os que utilizam o individualismo metodológico e que são adeptos da escolha racional e aqueles que não utilizam o individualismo metodológico e que são considerados institucionalistas históricos e sociológicos.

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Entendendo que a dependência de trajetória como proposta de análise está inserida no institucionalismo histórico, parece importante esclarecer que:

O institucionalismo histórico visa construir teorias de alcance médio que se preocupem em explicar o desenvolvimento político e econômico, entre países ou outras unidades de análise (Estados, regiões, cidades), tendo como variável independente as instituições intermediárias, tais como a burocracia, o eleitorado, as redes estabelecidas entre empresariado e governo, a relação Estado-sociedade, o processo político decisório e/ou de elaboração de políticas públicas. A evolução da estrutura social, bem como a trilha de escolha e decisão política dos atores ao longo do tempo, moldam a arena política e definem as instituições. (FERNANDES, 2002, p. 82).

Ao apontar que a história importa, Bernardi (2012) salienta que as escolhas tomadas na formação das instituições e das políticas exercem um efeito de constrangimento sobre o seu futuro desenvolvimento. As mudanças subsequentes seriam dificultadas por uma tendência inercial das instituições que bloqueariam e dificultariam essas alternativas. Este autor aponta algumas controvérsias que tratam do conceito de dependência de trajetória. Essas divergências estariam na definição de mecanismos explicativos, na importância concedida ao tema da contingência e na especificação dos tipos de sequências de eventos que poderiam ser consideradas como dependentes da trajetória.

Uma das divergências observadas nesse sentido seria sobre a centralidade dos retornos crescentes ao se realizar uma análise através da dependência de trajetória. Bernardi (2012) apresenta que os autores Brian Arthur e Paul David popularizaram o conceito de dependência de trajetória e que estes autores se notabilizaram pelas críticas às premissas de eficiência da teoria econômica neoclássica. Nesse contexto, os setores da economia que são intensivos em conhecimento estariam sujeitos, em grande medida, a retornos crescentes (increasing returns) que produziriam processos de feedback positivo ou autorreforço (self-reinforcing processes), os quais teriam uma rigidez estrutural a uma alternativa em detrimento de outras.

Elementos apresentados por Pavarina (2015) em relação à dependência de trajetória e os custos de reversão de uma escolha tomada, assim como os altos custos de instalação (set up) de uma nova proposta, podem contribuir no entendimento da política esportiva aqui analisada. O autor também salienta que os processos dependentes à trajetória frequentemente serão os mais poderosos, não no

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nível de organizações ou instituições individuais, mas em um nível mais macro que envolve configurações complementares das organizações e instituições.

Buscamos, através da utilização da dependência de trajetória, entender de que maneira alguns padrões específicos de tempo (timing) e sequência (sequence) importam na sustentação de pontos importantes relacionados com questões semelhantes. Algumas características típicas dos processos sociais sujeitos ao que os economistas chamam de retornos crescentes, processos auto reforçados e processos com feedback positivo, como apresenta Pavarina (2015), podem auxiliar na busca de uma melhor compreensão sobre os legados esportivos dos Jogos Olímpicos do Rio 2016.

Encontramos relações com a proposta desta pesquisa em um estudo que aborda relações entre a agenda internacional e políticas nacionais em programas de erradicação da malária e da varíola no Brasil.

Discutir e comparar padrões de interação entre instituições e seus efeitos nas políticas nacionais, em termos de continuidade e mudança, significa uma adesão aos supostos do institucionalismo de tipo histórico – instituições como regras do jogo ou como limites estruturantes da ação e da interação humana (Pierson, 2004) – e às noções correlatas de policy feedback e de dependência de trajetória (Mahoney, 2000, 2001; Mahoney e Schensul, 2006). Também implica identificar conjunturas críticas nas quais, segundo Mahoney (2001), são feitas escolhas depois das quais diminuem as possibilidades de trajetórias alternativas em políticas, mas podem ser identificadas, ao inverso, conjunturas que são ‘críticas’ ao possibilitarem mudanças de trajetória das políticas. Outro elemento importante para esta comparação são as arenas políticas relevantes em que esses programas são formulados, decididos e desenvolvidos (Immergut, 1992), as quais são modificadas de acordo com contextos políticos mais ou menos pluralistas. (HOCHMAN, 2007, p. 370-371).

A trajetória pretendida para a análise se inicia na busca das origens da Rede Nacional de Treinamento, abordando os fatos ocorridos no tempo e no contexto apresentado. O que denominamos de Projeto Olímpico, compreendendo um período que abrange inicialmente os anos de 1993 a 2019, pretende estabelecer relações com a aspiração do Brasil em se tornar sede olímpica e passar a se tornar uma potência esportiva mundial, o que leva a desdobramentos desta política pública. Cabe salientar que as candidaturas anteriores a do Rio 2016 não serão aprofundadas, mas acreditamos que o período posterior ao ano de 2007, com a realização do Pan-Americano, e, em especial, posterior ao ano de 2009, com a escolha do Rio, trazem

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elementos que podem apontar para importantes reflexões nos desdobramentos dessa política.

Foi realizada uma análise de documentos identificados como relevantes no processo de escolha do Rio como sede dos Jogos Olímpicos, buscando estabelecer conexões com os legados olímpicos. Em especial, aprofundamos o estudo no denominado legado esportivo e que se relaciona com a Rede Nacional de Treinamento. É importante frisar, inclusive, que os dois (Rede Nacional de Treinamento e Legado Esportivo) são tratados como sinônimos. Entre os documentos analisados estão a Carta Olímpica (COI, 2003; COI, 2015b); o Dossiê Rio 2016, formado por três volumes (COMITÊ ORGANIZADOR RIO 2016, 2009), o Questionário de Candidatura 2016 (Candidature Procedure and Questionare; COI, 2008), o Relatório da Comissão de Avaliação do COI 2016 (Report of the 2016 IOC Evaluation Commission) (COI, 2009) e os Cadernos de Legados, formados por três Volumes (BRASIL, 2009). Os documentos utilizados foram selecionados conforme o andamento da pesquisa.

Sobre as publicações legais, fundamentais em uma análise de Política Pública, apontamos a edição de uma Medida Provisória, de setembro de 2010, convertida na Lei 12.395, de 16 de março de 2011 (BRASIL, 2011a), que cria Rede Nacional de Treinamento (fazendo alterações na Lei 10.891 de julho de 2004, que trata do Bolsa Atleta). Duas portarias também fazem parte deste quadro normativo, a Portaria 248, de 20 julho 2016 (BRASIL, 2016b), assinada pelo Ministro do Esporte, que estabelece os objetivos da Rede Nacional de Treinamento, e a Portaria nº1, de 1º de agosto de 2016 (BRASIL, 2016a), que estabelece as diretrizes da Rede Nacional de Treinamento. Estas portarias chamam a atenção pela proximidade de sua publicação com a realização do Jogos Olímpicos.

Nesse ponto, identificamos como o principal objeto de análise desta pesquisa o Convênio nº 813831/2014 (BRASIL, 2014a), estabelecido entre o Ministério do Esporte e a CBAt. Encontramos elementos que apontam que este convênio é um desdobramento da Chamada Pública 6/2013, do Ministério do Esporte (BRASIL, 2013). Ela estaria dentro do Programa 2035 – Esporte e Grandes Eventos Esportivos do Governo Federal. A duração desse convênio tinha uma previsão inicial para vigorar de 21/12/2015 até 31/01/2018, porém, com alterações em prazos, seria estendido até 2019. Tivemos acesso ao processo cadastrado no SICONV e documentos que foram gentilmente cedidos pela ADAB.

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No entendimento sobre como foi a implementação da Rede, na modalidade de atletismo, analisamos documentos oficiais da CBAt, dentre os quais destacamos atas de assembleias gerais, que compreendem o período de 2013 até 2018; a Revista Podium (CBAt, 2020), uma das publicações oficiais da CBAt, na qual atentamos para matérias específicas relacionadas com a Rede Nacional de Treinamento, tratada, no caso específico do atletismo, como Rede Nacional de Atletismo ou também como Rede Nacional de Treinamento de Atletismo. Para esta pesquisa, utilizamos no caso específico do atletismo como Rede Nacional de Atletismo, entendendo esta como sendo o piloto da Rede Nacional de Treinamento. Também dispomos para a análise de relatórios da confederação elaborados e publicados e que tratam deste período de implementação.

Outras fontes relevantes relacionadas ao Ministério do Esporte são os anais e documentos preparatórios da III Conferência Nacional de Esporte, uma publicação chamada de Revista da Rede Nacional de Treinamento (BRASIL, 2016e), materiais de divulgação diversos e peças publicitárias relacionadas ao tema.

Os desdobramentos políticos – internos ao atletismo e, em parte, consequências deste período de realização dos Jogos Olímpicos – são significativos. Entre os fatos marcantes do período, destacamos que o presidente da CBAt, José Antônio Martins Fernandes, conhecido como Toninho, assumiu a CBAt em março de 2013 (CBAt, 20133), sucedendo a Roberto Gesta de Melo, que ficou à frente da

confederação por 26 anos, desde janeiro de 1987. No entanto, em março de 2018, em meio à sua segunda gestão, após uma série de denúncias envolvendo superfaturamento de alimentação e hospedagem em competições (VECCHIOLI, 20174), somado ao encerramento do convênio para a implementação da Rede

Nacional de Treinamento, José Antônio renunciou à presidência da instituição (GLOBO ESPORTE, 20185). Os desdobramentos dessa situação levaram também à

intervenção na Federação Paulista de Atletismo e um contingenciamento de recursos por parte do Ministério do Esporte e do Comitê Olímpico destinados para o atletismo, fatos que apresentaram a fragilidade das instituições nesse contexto e uma grande crise na gestão da modalidade.

3 Disponível em: http://www.cbat.org.br/noticias/noticia.asp?news=6145. Acesso em: 21 out. 2018. 4 Disponível em:

https://olharolimpico.blogosfera.uol.com.br/2017/12/20/cbat-usou-nomes-de-atletas-para-forjar-nota-e-justificar-gasto-inexistente/. Acesso em: 19 out. 2018.

5 Disponível em:

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Para a construção de um diálogo com o campo, realizamos entrevistas semiestruturadas. Inicialmente, tínhamos a previsão de realizar sete entrevistas. Com a pandemia de COVID-19, tivemos uma interrupção abrupta nesta etapa de coleta de dados e realizamos somente duas entrevistas. A escolha dos sujeitos foi intencional, buscando depoentes que tivessem relação com o objeto de pesquisa. Selecionamos um agente que teve protagonismo na formulação da Rede Nacional de Treinamento, que poderíamos colocar em uma categoria de gestor público, e outro que tinha aspirações de trabalhar na Rede Nacional de Treinamento, que participou de processo seletivo e se enquadra na categoria de treinador.

As entrevistas seguiram um roteiro semiestruturado, foram gravadas, transcritas e retornadas para os participantes da pesquisa. Os entrevistados assinaram Termo de Consentimento Livre e Esclarecido (TCLE), e a cópia digital dos arquivos das gravações permanecerão com o pesquisador pelo período de 5 (cinco) anos, conforme art.28 da Resolução nº 510 do Conselho Nacional de Saúde (BRASIL, 2016d).

O Projeto de Pesquisa foi aprovado pelo Comitê de Ética em Pesquisa (CEP) da UNICAMP, devidamente inscrito na Plataforma Brasil, sendo o seu CAAE nº. 20451119.0.0000.5404, e parecer nº. 3.644.811. Os nomes dos depoentes foram alterados, buscando manter a confidencialidade dos entrevistados.

Nominamos um dos entrevistados por Miguel. Miguel é treinador de atletismo e tem como formação a Educação Física. Sua relação com a Rede Nacional de Treinamento foi de buscar compor o quadro pessoal da mesma como treinador. Miguel fez o processo seletivo para ser treinador em um dos Centros que estavam previstos para uma segunda etapa de implementação por parte da CBAt. O resultado de seu processo seletivo não chegou a ser divulgado, mas Miguel tinha participação importante atuando como treinador em um dos locais que receberiam um dos Centros. Paulo, nosso segundo entrevistado, pode ser caracterizado como um dos gestores que participou da formulação da Rede Nacional de Treinamento, atuando no Ministério do Esporte em Brasília. Sua presença no Ministério ocorreu durante praticamente todo o processo que envolveu a candidatura olímpica do Rio 2016 até a realização dos Jogos Olímpicos. Sua formação é em Administração e Gestão Pública.

Além das entrevistas, foram realizadas três incursões em campo. Uma primeira participação – ainda quando estava sendo finalizado o projeto, buscando uma aproximação inicial ao campo em janeiro de 2019 – ocorreu quando participamos do

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XI Camping de Atletismo de Lavras/MG. Após aprovação no Comitê de Ética, novos alinhamentos da pesquisa foram realizados devido a mudanças no campo e por sugestão da banca no exame de qualificação. Participamos do III Camping de Atletismo de Campo Mourão/PR, de 04 a 08 de dezembro de 2019, e do XII Camping de Atletismo de Lavras/MG, durante o período de 13 a 18 de janeiro de 2020. A escolha em participar destas atividades deve-se à cidade de Campo Mourão ser o local que sediaria um dos Centros Locais, e a cidade de Lavras seria sede de um dos Centros Regionais da Rede Nacional de Treinamento de Atletismo. Trechos dos diários de campo destas atividades compõem o material empírico desta pesquisa.

Durante a elaboração do projeto, participamos também de algumas atividades pontuais que compõem as observações desta pesquisa. Entre elas, destacamos o Campeonato Estadual Adulto do Rio Grande do Sul de 2019, realizado em Porto Alegre, o Campeonato Brasileiro Sub-20, realizado em Bragança Paulista, e o Congresso Olímpico Brasileiro, realizado em São Paulo. Todos ocorreram ao longo do ano de 2019. Estas atividades foram importantes para obter acesso às pessoas e compreender as relações presentes no mundo do atletismo na atualidade. Acreditamos que meu ingresso no Campo foi facilitado devido às experiências anteriores como treinador, podendo, assim, interagir com muitos treinadores e dirigentes de maneira próxima.

Com os dados construídos nessas atividades (Campings e Campeonatos), com as conversas com agentes do atletismo, assim como com os depoimentos das entrevistas, junto com os documentos citados, buscamos analisar como foi esse processo de implementação da política pública foco deste estudo. Nossa intenção é ampliar as possibilidades de análise com a utilização de entrevistas e observações.

A CBAt autorizou a coleta de dados de maneira formal, e estavam previstas idas para Bragança Paulista, assim como a observação em competições agendadas para o início do ano de 2020. Devido à pandemia de COVID-19, todas as atividades foram suspensas e certamente comprometem a abrangência inicial esperada da pesquisa.

O capítulo 2 apresenta o Projeto Olímpico Brasileiro como uma proposta que perpassou diferentes governos e se apresenta como uma união de interesses que se articularam em um pacto firmado entre o Estado e a Família Olímpica. Apresentamos que o recorrente denominado de década esportiva, a nosso ver, se apresenta como um período de quase 30 anos abrangendo as candidaturas olímpicas

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e a realização de eventos satélites, como Sul-Americano de 2002, que criaram as condições para que os Jogos Olímpicos desembarcassem no Brasil. A descrição e problematização do conceito de Legado, em especial do Legado Esportivo, nos documentos que legitimaram a escolha do Rio de Janeiro foram apresentados nesse capítulo.

O terceiro capítulo descreve o processo de elaboração e formulação da Rede Nacional de Treinamento. Dados sobre as primeiras menções a esta política surgiram ainda na campanha eleitoral de 2010, com visita dos então candidatos à Presidente da República ao Comitê Olímpico do Brasil (COB). A III Conferência Nacional de Esporte apresenta elementos sobre como foi a formulação dessa política, suas expectativas e propostas significativas. O quadro normativo com considerações sobre a lei 12395/2011 e demais portarias referentes à Rede Nacional de Treinamento estão nesse tópico. Abordamos questões que tratam do modelo da pirâmide esportiva, demonstrando como se tentou construir um caminho para o atleta pautado nessa premissa. A distribuição do legado esportivo pelo território nacional, assim como a forma que algumas estruturas foram nominadas como integrantes da Rede Nacional de Treinamento, encerram este capítulo.

O quarto capítulo apresenta o processo de implementação da Rede Nacional de Treinamento de Atletismo, apresentando elementos de como foi a implementação, especificamente no atletismo. Neste ponto que trata da implementação, buscamos dados observados no convênio firmado entre a CBAt e o Ministério do Esporte (813831/2014). Também apresentamos algumas considerações sobre a participações nos dois Campings de Atletismo, de Campo Mourão e Lavras, buscando analisar estes locais como lugares que receberiam Centros de Treinamentos de abrangência local e regional. Para finalizar, estabelecemos relações que descrevam esta política pública, com diálogo nas referências que problematizem o esporte, com elementos do consumo e relações com o neoliberalismo.

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3 PROJETO OLÍMPICO BRASILEIRO

A realização dos Jogos Olímpicos na cidade do Rio de Janeiro em 2016 apresenta implicações que se relacionam com distintos aspectos, dentre os quais destacamos, inicialmente, a visibilidade que os Jogos Olímpicos proporcionaram para a cidade e para o país, além da busca de um protagonismo na geopolítica mundial, questões que são de ordem econômica, social e política. Nesse sentido, os potenciais desdobramentos sociais, em particular aqueles que se relacionam diretamente com a promoção do esporte (e que de certa forma dialogam e podem influenciar outras áreas, como o lazer, por exemplo), estão no centro desta análise da Rede Nacional de Treinamento enquanto proposta de política pública.

Observando a temporalidade dos Jogos, estamos nos atentando para um evento que se realizou durante 19 dias (de 3 a 21 de agosto de 2016, considerando as partidas de futebol que ocorreram antes da Cerimônia de Abertura). No entanto, tomando como data de referência o dia 2 de outubro de 2009, dia da escolha do Rio de Janeiro como sede dos Jogos Olímpicos, o recorte temporal a ser analisado se amplia consideravelmente. Diversos autores, dentre os quais destacamos Giglio et al. (2018), apresentam que o período virtuoso dos megaeventos esportivos no Brasil durou 10 anos, e se convencionou denominar este momento como a “década esportiva”.

Esse período teve seu início em 2007, com a realização dos Jogos Pan-Americanos e Parapan-Pan-Americanos, se encerrando no ano de 2016 com a realização dos Jogos Olímpicos e Paralímpicos. A frase “De 2007 a 2016 passaram pelo Brasil os maiores eventos esportivos do planeta” (GIGLIO et al., 2018, p. 7) resume a relevância do período. Pretendemos, no final deste capítulo, apontar para questões que sinalizam para uma ampliação necessária neste entendimento. Ressalta-se, com isso, a importância para a realização dos Jogos Sul-Americanos em 2002 e uma inter-relação importante entre as instituições que administram os esportes e suas ligações com o “universo olímpico”. Os Jogos Sul-Americanos de 2002 foram realizados em diferentes cidades do Brasil e minimamente apontaram para um diagnóstico das estruturas necessárias frente às pretensões olímpicas. É importante citar entre os eventos deste período a realização dos V Jogos Mundiais Militares em 2011.6

6 Guirra (2014) apresenta que a realização dos V Jogos Mundiais Militares foi uma das estratégias para

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Também é relevante apresentar uma intenção inicial para a realização, em 2019, dos Jogos Mundiais Universitários, conhecidos como Universíade, que ocorreriam na cidade de Brasília, mas foram abandonados em janeiro de 2015 (ETCHELLS, 20157).

As postulações anteriores de realização dos Jogos Olímpicos, com destaque para as candidaturas de Brasília (2000) e Rio (2004 e 2012) fazem parte deste contexto. Se o período virtuoso dos megaeventos durou aparentemente 10 anos, a intencionalidade de sediar os Jogos Olímpicos, em especial, teve abrangência temporal de aproximadamente 30 anos.

Queremos, com isso, apresentar que as relações entre a criação da Rede Nacional de Treinamento, objeto desta pesquisa, e a realização dos Jogos Olímpicos do Rio 2016 são estreitas, diretas e aparentemente dependentes. Compreender essa aproximação entre a organização do grande evento esportivo planetário e desdobramentos que levam o estado a propor políticas públicas na agenda do país é o que fazemos aqui. Para tanto, nos reportamos ao sociólogo francês Pierre Bourdieu, que apresenta em um texto escrito logo após a realização dos Jogos Olímpicos de Barcelona 1992:

Seria preciso enfim analisar os diferentes efeitos da intensificação da competição entre as nações que a televisão através da planetarização do espetáculo olímpico, como o aparecimento de uma política esportiva dos Estados orientada para os sucessos internacionais, a exploração simbólica e econômica das vitórias e a industrialização da produção esportiva que implica o recurso ao doping e a formas autoritárias de treinamento. (BOURDIEU, 1997, p.12).

Tal afirmação feita às luzes dos Jogos Olímpicos de Barcelona, em 1992, toma proporções ainda mais intensas no ano de 2016, e isto pode ser notado na afirmação de Thomas Bach, presidente do COI: “Com metade da população mundial assistindo os Jogos, o Rio 2016 foram os Jogos Olímpicos mais consumidos de todos os tempos” (COI, 2016, p. 23, tradução nossa). Timmo Lume, Diretor de Marketing do COI, aponta que: “A cobertura digital recorde do Rio 2016 mostra que assistir aos Jogos Olímpicos não significa mais simplesmente ligar sua TV, com cada vez mais

7 A cidade de Brasília havia sido escolhida em novembro de 2013 como sede da 30º Universíade e no

início do ano de 2015. O govenador Rodrigo Rollemberg, que sucedeu Agnelo Queiroz, abandonou a proposta de organização (ETCHELLS, 2015). Disponível em:

https://www.insidethegames.biz/articles/1024662/brasilia-pull-out-of-hosting-2019-summer-universiade. Acesso em: 15 nov. 2018.

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fãs escolhendo transmitir conteúdo em seus dispositivos conectados onde e quando quiserem” (COI, 2016, p. 24, tradução nossa) 8.

No caso brasileiro, tal afirmação se apresenta em um contexto de sucessivas postulações para sediar os Jogos Olímpicos. Desde o final dos anos de 1980 até a realização dos Jogos Olímpicos em 2016, o Brasil indicou cidades postulantes para sediar os Jogos Olímpicos nos anos de 2000, 2004, 2012 e 2016. Considerando, como apresenta Bourdieu (1997), que temos efeitos da intensificação da competição entre as nações que se apresentam no espetáculo olímpico, ao sediar os Jogos Olímpicos, acreditamos que estes se potencializam. Pensando ainda sobre o aparecimento de uma “política esportiva” dos Estados orientada para os sucessos internacionais, vemos na criação da Rede Nacional de Treinamento um caso que se enquadra nessa relação.

Buscando olhar para o esporte, estabelecendo relações mais ampliadas, Ehrenberg (2010) apresenta que o esporte de competição traduz uma lógica concorrencial planetária, trazendo relações entre universo esportivo, de consumo e empresarial. O autor escreve que:

[...] o esporte está a tal ponto ancorado no cotidiano que ele não constitui apenas uma forma de lazer ou uma atividade corporal específica pensada e organizada em vista de performances a se alcançar, mas a manifestação de uma relação generalizada com a existência: empregado na qualidade de referente, de metáfora ou de princípio de ação em registros cada vez mais vastos de nossa realidade contemporânea, o esporte saiu dos estádios e ginásios; ele abandonou o contexto restrito das práticas e dos espetáculos esportivos: é um sistema de condutas de si que consiste em implicar o indivíduo na formação de sua autonomia e de sua responsabilidade. (EHRENBERG, 2010, p. 18, grifo do autor).

Assim, ao olharmos para este longo Projeto Olímpico, estamos também olhando para as relações dessa pretensão com esse sistema de condutas de si, que implicam na formação da autonomia dos indivíduos e com relações estreitas com a fabricação do sujeito neoliberal, apresentado por Dardot e Laval (2016). Os autores apresentam que a grande virada do neoliberalismo se deu com a intensificação da concorrência, com centralidade em uma lógica do confronto. Essa centralidade na

8 COMITÊ OLÍMPICO INTERNATIONAL (COI). Marketing report Rio 2016. Lausanne: International

Olympic Committee, 2016. Disponível em:

https://stillmed.olympic.org/media/Document%20Library/OlympicOrg/Games/Summer- Games/Games-Rio-2016-Olympic-Games/Media-Guide-for-Rio-2016/IOC-Marketing-Report-Rio-2016.pdf. Acesso em: 02 dez. 2018.

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concorrência se apresenta internalizada no sistema de condutas de si e na ação pública: “Se a ação pública deve ser uma ‘política da concorrência’, o Estado deve ser um ator concorrendo com outros atores, em particular no plano mundial” (DARDOT; LAVAL, 2016, p. 205). Este processo em que o estado busca ser um ator, em um mercado global baseado em uma ação pública, mostra a importância de uma candidatura olímpica de sucesso.

É importante considerar que a escolha para sede de uma Olimpíada ocorre sete anos antes da realização dos Jogos. São necessárias diferentes iniciativas envolvendo o poder público e instituições ligadas ao esporte para que os Jogos Olímpicos sejam realizados. Temos assim, no Brasil, um período que compreende praticamente todos os governos após a redemocratização de 1989, que tinham pretensões de realizar os Jogos Olímpicos.

Nesse sentido, Rúbio (2010) apresenta que embora os eventos (Jogos Olímpicos) “sejam iniciativas privadas o que se observa é o intenso envolvimento do poder público com um nível de transparência que varia conforme o momento histórico e o governo no poder” (RUBIO, 2010, p. 1). O momento recente que resultou na organização dos Jogos Olímpicos do Rio de Janeiro em 2016 aponta para um grande investimento do poder público nas três instâncias: municipal, estadual e federal, com especial destaque para investimentos e iniciativas por parte do governo federal. Tal iniciativa foi destacada pelo Comitê Olímpico Interacionai (COI) no relatório exitoso da campanha de 2009 para os Jogos de 2016.

Como a nossa pretensão, neste capítulo, é compreender melhor o que denominamos de “Projeto Olímpico”, tendo claro que nesse projeto estão inseridas ações que resultaram na realização dos Jogos Olímpicos de 2016, voltamos nossa atenção agora para este processo. O recorte que pretendemos descrever está centrado na realização dos principais eventos multiesportivos (que envolvem mais de uma modalidade esportiva) deste período. Assim, o processo de escolha para que um país ganhe como sede dos Jogos Olímpicos é apresentado por Curi (2013) como sendo um ritual com diferentes etapas. Este autor afirma que:

(...) podemos observar os rituais, principalmente, no processo da escolha das sedes. Todos os candidatos têm de preencher um questionário de candidatura padronizado, que deve criar condições igualitárias. Com base nesse questionário um colégio eleitoral vota em sessões fechadas ao público para eleger o escolhido. (CURI, 2013, p.72).

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Esse processo de escolha, em particular, é regido pela Carta Olímpica (COI, 2015b) e está descrito no seu Capítulo 5. O item 33 trata da Eleição da cidade anfitriã (Election of the host city). Nesse item, é apresentado que a escolha da próxima sede se dará sete anos antes da realização dos Jogos pretendidos. Também existe uma orientação para que as autoridades públicas nacionais estejam comprometidas e apresentem garantias para a realização exitosa dos Jogos. Fica evidente uma relação de dependência necessária com as autoridades públicas nacionais, em que, como veremos, faz do Governo Federal o grande protagonista desse pleito, estabelecendo relações em especial com as entidades esportivas. A definição da sede ocorre em uma seção oficial do COI.

É importante considerar que o processo está dividido em dois momentos. Ao se passar da primeira para uma segunda e definidora etapa é que podemos dizer que efetivamente a cidade está “na disputa” oficial. Nesse sentido, a nomenclatura se altera, e a cidade postulante passa a ser cidade candidata. Estes termos em inglês apontam essa passagem de Aplicant city (cidade candidata / postulante) para Host city (cidade sede / anfitriã). A passagem de aplicant city para host city permite, entre outras coisas, o uso dos anéis olímpicos nas marcas criadas provisoriamente para cada uma das cidades candidatas e utilizadas durante o processo de escolha. Esse uso restrito dos anéis olímpicos9 é aparentemente recente, pois encontramos nas

logomarcas das candidaturas de Brasília 2000 e Rio 2004 o uso dos anéis olímpicos indistintamente, diferente das candidaturas do Rio em 2012 e 2016. Cabe salientar que o processo de escolha para 2016 foi a única vez que uma candidatura brasileira seguiu para segunda etapa.

As cidades que passam para a segunda etapa são avaliadas com critérios descritos em normativas do COI, através da elaboração de um relatório, e recebem uma visita técnica. Após esse momento, a análise das propostas passa por um processo de votação secreta, em que ocorre o anúncio da próxima sede olímpica. Para a seleção de 2016, a Comissão de Avaliação do COI visitou as candidatas nos seguintes períodos em 2009: Chicago (de 4 a 7 de abril), Tóquio (de 16 a 19 de abril),

9 Os anéis olímpicos são marcas registradas do COI, assim como os Jogos Olímpicos são o seu

principal produto. Como exemplo, temos o ato olímpico assinado em 1º de outubro de 2009, apresentando garantias legais ao COI caso o Brasil fosse eleito, inclusive sobre a publicidade nos aeroportos brasileiros.

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Rio de Janeiro (de 29 de abril a 2 de maio) e Madri (de 5 a 8 de maio). Sobre a forma como a sede olímpica é apresentada, temos que:

[...] O anúncio acontece numa forma bem ritualizada. O nome do vencedor consta num envelope, ou seja, está sigiloso e escondido até o momento do anúncio, quando o envelope é aberto. Fica nítido que o ritual deve enfatizar algumas mensagens, como por exemplo, que a sede escolhida acaba de ter seu status mudado. (CURI, 2013, p. 72).

Ao receber os Jogos e entrar para um seleto grupo de cidades que organizaram os Jogos Olímpicos, a cidade e o país passam a ter uma visibilidade ampliada em escala planetária, “entrando na vitrine global”. Fazendo uma analogia com os shoppings centers, Padilha (2006) apresenta o shopping como:

[...] Como um espaço privado que se trasveste de público para dar a ilusão aos consumidores de que se trata de uma “nova cidade”, mais bonita, mais limpa e mais segura que a “cidade real”, que pertence ao mundo de fora, o shopping center é tomado aqui como um importante complexo comercial que pretende fabricar um “novo homem”, a fim de adaptá-lo à obsessão capitalista pelo lucro. (PADILHA, 2006, p. 25).

Os Jogos Olímpicos não se apresentam como um espaço físico, ou uma “catedral das mercadorias”, como apresentado por Padilha (2006) no título de sua obra, mas considerá-lo como uma grande vitrine que trará benefícios públicos ao país e seus cidadãos parece ser pertinente. É um grande anúncio de alguns dias, que será retomado a cada quatro anos com abrangência global. Essa vitrine não é somente física, para os espectadores que vão aos estádios e ginásios, ela é virtual, transmitida por meios digitais dos mais diversos; e, com o seu conteúdo, apela para as emoções humanas disponíveis posteriormente. Ela também se apresenta como itinerante, em busca de novos mercados a serem explorados. Além disso, ela se apresenta como interativa, sendo que, através de redes sociais e aplicativos, nos permite que a experiência olímpica possa ser acessada, curtida, compartilhada e consumida. O deslizar dos dedos na tela do celular possibilita acessar as marcas que se associam aos atletas nesse grande shopping center, ou melhor, nessa grande vitrine. Essa descrição de espaço privado, travestido de público, parece ser importante, principalmente considerando as relações institucionais que se consolidam nesse processo.

Harvey (2005) apresenta que, com a globalização, a cultura pode ser considerada como uma commoditie, e que os Jogos Olímpicos de Barcelona foram

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uma experiência estética que colaboram nesse entendimento. A cidade passou por grandes transformações com acumulação de capital simbólico e marcos de distinções. Salienta o autor que: “Todo esse processo ainda recebeu ajuda dos Jogos Olímpicos de 1992, que proporcionou grandes oportunidades para acumulação de rendas monopolistas” (HARVEY, 2005, p. 234).

Apresentadas as relações entre Jogos Olímpicos e a importância que esse evento pode trazer para a cidade, trataremos agora como foi o pacto que levou ao sucesso da candidatura do Rio 2016.

3.1 O pacto do Brasil com a Família Olímpica

A candidatura exitosa apresentada em 2009 é resultado de um pacto que é cercado de escândalos e investigações que ainda estão em curso. A figura 1 é uma boa representação disso, pois apresenta um aperto de mãos entre atores do poder público da época e o principal dirigente esportivo do processo. A foto dá destaque a Orlando Silva (Ministro do Esporte), Eduardo Paes (Prefeito do Rio de Janeiro), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Brasil), Sérgio Cabral (Governador do Estado do Rio de Janeiro) e Carlos Artur Nuzman (Presidente do COB e do Comitê Organizador Rio 2016).

Figura 1 – Integrantes da candidatura do Rio de Janeiro fazendo campanha em Londres, Reino Unido

Nota: Da esquerda para a direita: Orlando Silva (Ministro dos Esportes), Eduardo Paes (Prefeito do Rio de Janeiro), Luiz Inácio Lula da Silva (Presidente do Brasil), Sergio Cabral (Governador do Rio de Janeiro) e Carlos Arthur Nuzman (Presidente do Comitê de Candidatura).

Fonte: Agência Brasil (2009)10

10 Foto disponível em: https://pt.wikipedia.org/wiki/Ficheiro:ROCOG_in_London.jpg. Acesso em: 10

Referências

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