UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
NUCLEO DE P ´
OS-GRADUAC
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AO EM F´ISICA
DEPARTAMENTO DE F´ISICA
DISSERTAC
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AO DE MESTRADO
S˜ao Crist´ov˜ao - Sergipe 2016
UNIVERSIDADE FEDERAL DE SERGIPE
NUCLEO DE P ´
OS-GRADUAC
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AO EM F´ISICA
DEPARTAMENTO DE F´ISICA
Gera¸
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ao de segundo harmˆ
onico em compostos hidrazˆ
onicos
Raiane Sodr´
e de Ara´
ujo
Orientador
: Prof. Dr. M´
arcio A. R. C. de Alencar
S˜ao Crist´ov˜ao - Sergipe 2016
i
Resumo
No presente trabalho, investigamos o fenˆomeno de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em compostos hidrazˆonicos. A partir de medidas de absor¸c˜ao ´optica, determinamos as bandas de energia correspondentes aos primeiros estados excitados e a energia do gap dos compostos. Usando a difra¸c˜ao de raio-X m´etodo do p´o, verificamos a natureza cristalina das amostras estudadas. O processo de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico exibidos por es-ses compostos foi caracterizado pelo m´etodo do p´o de Kurtz e Perry. Observamos que esses materiais apresentam boa eficiˆencia de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico compar´aveis ao KDP. Os resultados obtidos indicam que esses compostos s˜ao promissores para o de-senvolvimento de aplica¸c˜oes fotˆonicas baseado em efeitos ´opticos n˜ao lineares de segunda ordem.
Palavras chaves: Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico, compostos hidrazˆonicos, absor¸c˜ao ´optica, difra¸c˜ao de raio-X, m´etodo de Kurtz e Perry.
S˜ao Crist´ov˜ao - Sergipe 2016
ii
Abstract
In this work, we investigated the phenomenon of second harmonic generation in hydrazone compounds. Based on optical absorption measurements, we determined the energy bands corresponding to the first excited state and the energy gap of the compound. Using the X-ray powder diffraction method, we verified the crystalline nature of the samples. The process of second harmonic generation exhibited by these compounds was characterized by the Kurtz and Perry powder method. We noted that these materials have good efficiency at second harmonic generation, being comparable to KDP. The results indicate that these are promising compounds for the development of photonic applications based on second-order nonlinear optical effects.
Keywords: Second harmonic generation, hydrazone compounds, optical absorption, x-ray diffraction, Kurtz and Perry method.
S˜ao Crist´ov˜ao - Sergipe 2016
iii
“in memoriam `a minha m˜ae Ildenˆe Sodr´e, in memoriam ao meu irm˜ao ´Edipo Ara´ujo, Minha irm˜a L´ıdia Ara´ujo pelo amor e carinho, Meu cunhado Antˆonio Teod´osio pelo apoio, Meus sobrinhos Gregory e Laura. ”
iv
Confiss˜oes
Onde habitas em minha mem´oria, Senhor, em que lugar dela est´as? Que esconderijo constru´ıste a´ı? Que santu´ario a´ı edificaste para ti?
. . .
Cheguei `a morada que meu pr´oprio esp´ırito possui na mem´oria, porque tamb´em o esp´ırito lembra de si mesmo, mas nem ali estavas. Isso porque n˜ao ´es imagem corp´orea, nem afeto de ser vivo, como a alegria, a tristeza, o desejo, o temor, a lembran¸ca, o esquecimento e outros semelhantes
. . .
Mas, por que perguntar em que lugar da mem´oria habitas, como se a mem´oria tivesse compartimentos?
Certo ´e que habitas nela desde que te conhe¸co, e ´e nela que te encontro, quando penso em ti.
. . .
Santo Agostinho
“Nada te pertube, nada te espante, tudo passa, s´o Deus n˜ao muda, a paciˆencia tudo alcan¸ca, quem tem Deus, nada lhe falta! S´o Deus basta” Santa Teresa D’ ´Avila
“Em alguns instantes Sou pequenina e tamb´em gigante” Marisa Monte
v
Agradecimentos
Agrade¸co primeiramente a Deus o detentor de toda sabedoria existente, aquele que rege todas as for¸cas do universo, por me conceder o dom da vida e a sua divina prote¸c˜ao guardando os meus passos errˆoneos sempre.
• Agrade¸co de forma especial, `a pequena fam´ılia: minha irm˜a L´ıdia, meus sobrinhos Gregory e Laura, meu cunhado Antˆonio, e meu pai Jo˜ao Raimundo, pelo apoio, carinho, compreens˜ao e o enorme amor. A distˆancia somente veio confirmar a grande importˆancia de cada um em minha vida, amo muito vocˆes.
• Ao professor Dr. M´arcio Alencar, pela sua enorme paciˆencia, competˆencia e se-renidade durante est´a orienta¸c˜ao, tens incondicionalmente meu respeito e minha admira¸c˜ao. Sou imensamente grata pelos conselhos, pelas palavras duras quando necess´ario, e mais do que nunca os incentivos a todo instante.
• Aos meus queridos amigos-irm˜aos, que apesar da distˆancia nunca deixaram de me incentivar e apoiar. Dou gra¸cas e louvores a Deus por tˆe-los em minha vida: Johnny, Zalex, J´essica Lima, Jh´essica Pinheiro, Leo Santiago, Raiane Pereira, Regilane, Vi-cente, Hugo Campelo, Carla, Expedito, George, Lia Silva, Rodolfo, Dierly, Dimereis, Talicy Cristina, Patr´ıcia, Bia, Fabiano e Arthur.
• Aos amigos da turma de F´ısica 2009: Favacho J´unior, Sheila Garcia, Iasminne Le-mos, Geanso Miranda, Osmar Machado, Genilson Mello, Ronaldo Santos, Lendel Santos, Alisson Serejo, Wallison, Berg, Eliton Santos e Luis Damasceno, por terem sido sempre t˜ao sol´ıcitos e alegres diante de todas as dificuldades que enfrentamos. Tenho total admira¸c˜ao por todos e plena convicc˜ao¸ que alcan¸caremos nossos obje-tivos pessoais e profissionais.
• A minha querida amiga Sheila Garcia e seu esposo Jhonata Pereira, pela amizade e o carinho de sempre, s˜ao as pessoas mais extraordin´arias que conheci nessa vida (Uma f´ısica e um matem´atico). Agrade¸co pela amizade, pelo aprendizado durante o tempo de convivˆencia saibam que os levarei comigo para sempre.
vi
• Ao meu amigo-irm˜ao Favacho J´unior por todo o carinho, amor, respeito, admira¸c˜ao, alegria e at´e mesmo a chatice de sempre. ´Es um irm˜ao que ganhei para vida toda, Sou grata por sua existˆencia e por nossos caminhos se cruzarem.
• Aos amigos que fiz durante minha estadia em Sergipe. Agrade¸co pelo carinho de todos, pelas horas de descontra¸c˜ao, momentos de afli¸c˜oes e agonias partilhadas du-rante `as disciplinas, com certeza todo esse esfor¸co, dedica¸c˜ao e perseveran¸ca ser˜ao eternizado em minha hist´oria. Do DFI: Ilza Ten´orio (Parceira de sempre), Julyanne Cunha (Amiga chique), Afrˆanio Manoel, Waldeck Sotero, Janaelson Ab´ılio, Jo˜ao Martins, Adolfo Henrique, Samuel Mercena, Ariana, Bruno Ribeiro, Deigivan, Iure Carvalho, Rafael, Jeferson Marques, Jos´e Anselmo, Sabrina, Tarc´ısio. Do P2CEM: Fernanda Sim˜oes, Thamires, Reinan, Givanilson, Tham´asia, Jorge e Jamily. Da Targues: Ricardo (professor de viol˜ao), Bela e sua filha Estefanny (minha parcei-ras), e aos demais por contribuirem com sua amizade e respeito, Ricardo e fam´ılia, Gabryele Moreira, Camila Engler e Jhonatas Rolemberg (pelos sorvetes de a¸ca´ı).
• Aos amigos da rep´ublica dos paraenses : Osmar, Jana´ına, Mylene, Danrley, Ro-naldo, muito obrigada pela companhia de vocˆes. Partilhamos momentos de alegria, dificuldades, e acima de tudo o respeito m´utuo.
• Aos membros do grupo ONL-DFI UFS: M´arcio Alencar, Jos´e Joatan, John Fred, Francisco Santos, Antˆonio Carlos, Luis Miguel, Cleidiane, Marcos e Nazareno pe-los ensinamentos e as muitas discuss˜oes, pois foram de grande valia para minha forma¸c˜ao. De forma especial, agrade¸co ao colega de grupo Francisco Santos pela sua disposi¸c˜ao, paciˆencia, e por indicar os caminhos nas disciplinas e na pesquisa.
• Aos professores que passaram por minha vida acadˆemica, de modo especial, aos que ministraram as disciplinas do mestrado: Dr. Nelson Salazar, Dr. Francisco Assis e Dr. M´ario Ernesto, por transmitirem seu conhecimento, e tamb´em ao meu amigo e orientador durante a gradua¸c˜ao Prof. Dr. Edney Granhen, pelos ensinamentos e incentivos sempre, sou muito grata por cada palavra dirigida.
Sum´
ario
1 Introdu¸c˜ao 9
2 Fundamentos preliminares 10
2.1 Estado da arte . . . 12
2.1.1 Derivados de hidrazonas . . . 12
2.1.2 Descri¸c˜ao das propriedades ´opticas n˜ao lineares . . . 14
2.2 Objetivo geral . . . 15
2.2.1 Objetivos espec´ıficos . . . 15
3 Fundamenta¸c˜ao te´orica 16 3.1 Equa¸c˜oes de Maxwell e rela¸c˜oes constitutivas . . . 16
3.1.1 Propaga¸c˜ao de luz em cristais anisotr´opicos . . . 18
3.1.2 Representa¸c˜ao dos ´ındices de refra¸c˜ao: Elips´oide de ´ındice . . . 19
3.2 Polariza¸c˜ao el´etrica . . . 21
3.3 Susceptibilidade el´etrica . . . 23
3.3.1 O modelo cl´assico . . . 24
3.3.2 Meio n˜ao centrossim´etrico . . . 25
3.3.3 Propriedades de simetria de 2a ordem . . . . 30
3.3.4 Elementos de simetria . . . 31
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais . . . 32
3.4.1 Descri¸c˜ao matem´atica . . . 33
3.5 N˜ao linearidade em mol´eculas orgˆanicas . . . 38
4 Materiais estudados e t´ecnicas de caracteriza¸c˜ao 40 4.1 Aspectos gerais dos compostos hidrazˆonicos . . . 40
SUM ´ARIO viii
4.1.1 S´ıntese orgˆanica das mol´eculas de hidrazona . . . 42
4.1.2 Difra¸c˜ao de raio X . . . 43
4.1.3 M´etodo do p´o Debye - Scherrer . . . 43
4.2 T´ecnicas para an´alises das propriedades lineares . . . 44
4.2.1 Absor¸c˜ao ´optica UV-Vis . . . 44
4.2.2 Luminescˆencia . . . 45
4.3 T´ecnica para an´alises das propriedades ´opticas n˜ao lineares . . . 47
4.3.1 O m´etodo de Kurtz e Perry . . . 47
4.3.2 Eficiˆencia GSH em cristais policristalinos . . . 47
4.3.3 Descri¸c˜ao da medida de GSH . . . 49
5 Resultados e discuss˜oes 50 5.1 Padr˜ao de DRX das hidrazonas DBA . . . 50
5.2 Microsc´opia eletrˆonica de varredura - MEV . . . 51
5.3 Medidas de absor¸c˜ao ´optica . . . 53
5.3.1 An´alises da absor¸c˜ao dos compostos hidrazˆonicos . . . 53
5.3.2 C´alculo das bandas de energia . . . 55
5.4 Luminescˆencia excitada por laser . . . 57
5.4.1 Luminescˆencia referente ao composto MSV1 . . . 57
5.4.2 Luminescˆencia referente ao composto MSV2 . . . 58
5.4.3 Luminescˆencia referente ao composto MSV3 . . . 60
5.5 M´etodo comparativo de Kurtz e Perry . . . 61
Lista de Figuras
2.1 Estrutura molecular da benzenofenona hidrazona. . . 13 2.2 Grupo funcional de hidrazona ligado a dois benzenos com um substituinte de nitro (NO2)
na posi¸c˜ao para do segundo benzeno. . . 13 3.1 Elips´oide de ´ındice de cristais anisotr´opicos. Os eixos principais da elips´oide correspondem
aos ´ındices de refra¸c˜ao nas dire¸c˜oes preferˆenciais. . . 21 3.2 Representa¸c˜ao da intera¸c˜ao do n´ucleo e o el´etron atr´aves do sistema massa mola por uma
constante el´astica k. Figura adaptada [28, 32]. . . 24 3.3 O potencial atual representa o meio n˜ao centrossim´etrico e o outro corresponde ao
po-tencial harmˆonico. Figurada adaptada [35]. . . 25 3.4 Os fenˆomenos de dispers˜ao e absor¸c˜ao [18].. . . 27 3.5 Montagem experimental da gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em 1961 [16]. . . 32 3.6 Representa¸c˜ao do diagrama dos n´ıveis de energia da gera¸c˜ao de segundo harmˆonico. . . 33 3.7 Incidencia da luz laser ω sobre um material de comprimento L com simetria adequada e
obedecendo as condi¸c˜oes necess´arias para a obten¸c˜ao 2ω. Adaptada [35]. . . 34 3.8 Casamento de fase em cristais com ´ındices de refra¸c˜ao diferente (1) e o casamento de fase
com ´ındices de refra¸c˜ao iguais (2). Adapatada [53]. . . 36 3.9 Potˆencia relativa do segundo harmˆonico . . . 37 3.10 Sistema de compostos conjugados. . . 38 3.11 Espectro de transi¸c˜oes eletrˆonicas para compostos orgˆanicos. As transi¸c˜oes poss´ıveis em
LISTA DE FIGURAS x
4.1 Representa¸c˜ao estrutural dos compostos hidrazˆonicos. (a) MSV1: Grupo hidrazˆonico ligado por trˆes fen´ois com duas liga¸c˜oes duplas e quatro simples ao longo da cadeira principal. (b) MSV2: Grupo hidrazˆonico ligado a trˆes fen´ois por uma liga¸c˜ao dupla e 3 liga¸c˜oes simples ao longo da cadeia, no fenol 1 h´a dois substituintes nas posi¸c˜oes para e meta, no fenol 3 um substituinte NO2 na posi¸c˜ao para. (c) MSV3: Grupo
hidrazˆonico ligado a trˆes fen´ois por duas liga¸c˜oes duplas e 4 simples ao longo da cadeia e um substituinte NO2no fenol 1 nas posi¸c˜oes nas posi¸c˜oes para e meta. . . 41
4.2 Diagrama de Jablonski.. . . 46 4.3 Adaptada [47] Comportamento das part´ıculas em fun¸c˜ao do tamanho e do comprimento
de coerˆencia para o caso de casamento fase e n˜ao casamento de fase. . . 48 4.4 Montagem experimental do m´etodo do p´o de Kurtz e Perry. . . 49 5.1 Padr˜ao de difra¸c˜ao de raio x das amostra derivadas de hidrazona DBAs. . . 51 5.2 Imagens de microscopia eletrˆonica dos compostos hidrazˆonicos. Amostra MSV1 com
am-plifica¸c˜ao de 150 vezes (a-b), amostra MSV1 com amam-plifica¸c˜ao de 250 vezes (c), amostra MSV2 com amplifica¸c˜ao de 100 vezes (d), amostra MSV2 com amplifica¸c˜ao de 2000 vezes (e-f), amostra MSV3 com amplia¸c˜ao de 180 vezes (g), amostra MSV3 com amplia¸c˜ao de 250 vezes (h-i). . . 52 5.3 Espectros de absor¸c˜ao dos compostos hidrazˆonicos (a) MSV1, (b) MSV2 (c) MSV3. . . . 54 5.4 Ajustes das bandas de energia dos compostos hidrazˆonicos. . . 56 5.5 Espectro de luminescˆencia exictado por laser com comprimento de onda fundamental em
1064nm e sinal gerado com pico caracteristico do processo de GSH em 532nm. . . 58 5.6 Espectro de luminescˆencia exictado por laser com comprimento de onda fundamental em
1064nm e sinal gerado com pico caracteristico do processo de GSH em 532nm (a). . . . 59 5.7 Inclina¸c˜ao n˜ao linear devido a varia¸c˜ao da potˆencia de excita¸c˜ao do laser (b). . . 59 5.8 Espectro de luminescˆencia exictado por laser com comprimento de onda fundamental em
1064nm e sinal gerado com pico caracteristico do processo de GSH em 532nm (a). . . . 60 5.9 Inclina¸c˜ao n˜ao linear devido a varia¸c˜ao da potˆencia de excita¸c˜ao do laser (b). . . 61 5.10 Compara¸c˜ao entre os compostos hidrazˆonicos com o KDP. Detalhadamente nos gr´aficos,
o composto MSV1 apresenta eficiˆencia da ordem do KDP (a), o composto MSV2 ´e da mesma ordem que o KDP (b), o composto MSV3 ´e duas vezes maior que o KDP (c). . 62
Lista de Tabelas
2.1 Comprimento de onda dos espectros de absor¸c˜ao ´optica e eficiˆencia gera¸c˜ao de segundo
harmˆonico em diferentes amostras policristalinas pelo m´etodo do p´o de Kurtz e Perry. . 14
3.1 Efeitos n˜ao lineares de 2aordem . . . . 29
3.2 Classifica¸c˜ao dos cristais atrav´es d(2)ef f . . . 32
3.3 Transi¸c˜oes eletrˆonicas para algumas classes de mol´eculas orgˆanicas . . . 39
5.1 Posi¸c˜oes dos maiores picos relativos e as distˆancias interatˆomicas d. . . 51
5.2 Bandas de energias dos compostos hidrazˆonicos. . . 56
Cap´ıtulo 1
Introdu¸c˜
ao
Os compostos orgˆanicos tˆem sido alvo de intensas pesquisas no campo da ´optica n˜ao linear. As principais motiva¸c˜oes para o estudo das propriedades ´opticas n˜ao lineares de materiais orgˆanicos s˜ao atribu´ıdas `as intera¸c˜oes fracas entre os el´etrons presentes e as liga¸c˜oes σ (simples) e π (duplas) nas estruturas. As alterna¸c˜oes entre as liga¸c˜oes π e σ formam os sistemas conjugados [1]. Em raz˜ao disso, a intera¸c˜ao da radia¸c˜ao laser em materiais conjugados ocasionam o deslocamento de suas nuvens eletrˆonicas e o surgimento das respostas n˜ao lineares [1, 2].
Os materiais orgˆanicos s˜ao bastante flex´ıveis e de f´acil manipula¸c˜ao em s´ıntese orgˆanica, devido `a disponibilidade de aceitar grupos de el´etrons doadores e aceitadores, aumentando o tamanho da cadeia principal [1]. Altera¸c˜oes nas estruturas moleculares possibilitam a cristaliza¸c˜ao desses compostos em meios n˜ao centrossim´etricos, permitindo aplica¸c˜oes em dispositivos eletrˆonicos que envolvem respostas n˜ao lineares de segunda ordem [1, 3].
Uma classe de orgˆanicos que vem sendo especulado como cristais promissores para o estudo em ´optica n˜ao linear (ONL) s˜ao as hidrazonas, por apresentarem liga¸c˜ao dupla com um grupo de amina C=N-NH e tamb´em pela versatilidade orgˆanica [3-10].
Nesta disserta¸c˜ao, investigamos um caso particular dos fenˆomenos n˜ao lineares de 2a ordem, conhecido por gera¸c˜ao de segundo harmˆonico, em trˆes compostos hidrazˆonicos
com estruturas distintas C23H20N2, C21H15N5O6e C23H18N4O4. Estes compostos foram
sintetizados pelo grupo de pesquisa de qu´ımica da Universidade Federal de S˜ao Jo˜ao Del Rei, em parceria com o grupo do Prof. Dr. Marcelo Valle.
Cap´ıtulo 2
Fundamentos preliminares
Os conceitos para emiss˜ao e absor¸c˜ao estimulda de luz introduzidos por Albert Einstein em 1917 [11] foram cruciais para os f´ısicos Nikolay G. Basov e Alexander Prokhorov descreverem o ´ınicio do funcionamento do Maser (Microwave Amplification by Stimulated of Radiation) em 1952, emitindo microndas em vez de luz v´ısivel [12]. Charles H. Townes, J. P. Gordon e H. J. Zeiger em 1954 contru´ıram o primeiro maser [13]. Townes e Arthur Schawlow propuseram a amplifica¸c˜ao por emiss˜ao estimulada da radia¸c˜ao fosse estendida para regi˜ao do v´ısivel e desenvolveram a teoria em torno do Laser (Light Amplification by Stimulated Emission of Radiation) [14].
O primeiro laser foi construido por Maiman em 1960, utilizando um cristal de Rubi, que emitia λ = 694, 3 nm. Essa grande descoberta revolucionou toda ciˆencia [15]. C. H. Townes, N. Basov, A. Prokhorov foram laureados com o prˆemio nobel em 1964 pela contribui¸c˜ao para os fundamentos do laser.
Desde ent˜ao, v´arios lasers foram desenvolvidos em diferentes comprimentos de onda e com os mais variados meios de ganho. Diversas aplica¸c˜oes s˜ao poss´ıveis devido ao uso da luz laser, como na industria, na farm´arcia, na medicina, pesquisas cient´ıficas, comunica¸c˜ao por fibras ´opticas, chaveamento ´optico e in´umeras aplica¸c˜oes com o objetivo de substituir dispositivos eletrˆonicos, dando origem a uma nova ´area tecnol´ogica denominada fotˆonica, que ´e um ramo da ´optica n˜ao linear (ONL).
11
Surgimento da ´optica n˜ao linear
Com o laser, tornou-se poss´ıvel observar altera¸c˜oes nas propriedades ´opticas de um meio material, por exemplo, o ´ındice de refra¸c˜ao ou coeficiente de absor¸c˜ao, quando esse material interage com um feixe de luz de alta intensidade. O trabalho pioneiro foi desenvolvido por Franken et al. em 1961. Ao excitarem um cristal de quartzo com um feixe intenso de um laser de rubi, constataram a gera¸c˜ao de duas frequˆencias, uma igual a incidente e a outra com o dobro de frequˆencia [16]. Esse fenˆomeno ficou conhecido como gera¸c˜ao de segundo harmˆonico - GSH e marcou o surgimento do novo campo de estudo da ´optica, denominado de ´optica n˜ao linear (ONL). Com a inven¸c˜ao de novos lasers, emitindo em comprimentos de onda diferentes, tornou-se poss´ıvel observar em materiais orgˆanicos e inorgˆanicos diferentes efeitos n˜ao lineares, tais como: gera¸c˜ao de soma de frequˆencia, gera¸c˜ao de diferen¸ca de frequˆencia, retifica¸c˜ao ´optica, absor¸c˜ao de dois fot´ons e gera¸c˜ao de terceiro harmˆonico [17, 42, 47, 50, 51, 53].
Os cristais dihidrogenofosfato de pot´assio (KDP) e o dihidrogenofosfato de amˆonia (ADP) foram os primeiros materiais inorgˆanicos utilizados em dispositivos ´opticos. Uma grande busca por novos materiais com propriedades ´opticas com melhores respostas n˜ao lineares, excelentes transparˆencia nas regi˜oes do v´ısivel e outras propriedades espec´ıficas intensificaram-se e a resposta foi o surgimento de cristais com propriedades ´opticas supe-riores, tais como: LiNbO3, LiIO3, KTP e outros. Algumas classes materiais inorgˆanicos
possuem altas n˜ao linearidades de segunda ordem, mas apresentam desvantagens devido aos elevados ´ındices de refra¸c˜ao, ocasionando perdas quando acoplados com outros dispo-sitivos [17, 43, 51, 54].
Nas ´ultimas trˆes d´ecadas, a classe dos orgˆanicos tem atra´ıdo bastante interesse no estudo de suas propriedades n˜ao lineares. Os cristais orgˆanicos atualmente desenvolvidos para aplica¸c˜oes em ONL s˜ao constru´ıdos a partir de mol´eculas com estruturas conjuga-das e apresentam diversas vantagens em rela¸c˜ao aos inorgˆanicos, pois possuem elevaconjuga-das respostas n˜ao lineares, melhores tempos de respostas e facilidade em alterar a estrutura. Em geral, estas propriedades ´opticas n˜ao lineares otimizadas est˜ao intimamente ligadas `as liga¸c˜oes π presentes na estrutura molecular destes compostos, as quais s˜ao modificadas na presen¸ca de campos intensos, causando assim o deslocamento da nuvem eletrˆonica dessas
2.1 Estado da arte 12
mol´eculas. Dificilmente, materiais com todas as caracter´ısticas desejadas est˜ao dispon´ıveis na natureza. Por esse motivo, muitas vezes ´e necess´ario a sintetiza¸c˜ao de novas mol´eculas que apresentem qualidade adequada. Entre as diferentes classes de mol´eculas orgˆanicas que apresentam caracter´ısticas para o estudo em ONL, os compostos hidrazˆonicos vˆem sendo investigados como materiais promissores devido `a facilidade de cristalizar na forma n˜ao centrossim´etrica, motivo pelo qual apresentam respostas n˜ao lineares de segunda ordem [3-6,24].
2.1
Estado da arte
As m´oleculas de hidrazonas, normalmente s˜ao obtidas atrav´es de uma rea¸c˜ao por condensa¸c˜ao entre um alde´ıdo R-C(=O)-H ou uma cetona R1-(=O)-R2 com hidrazinas
NH2-NH2, fun¸c˜oes nitrogenadas de iminas ou aminas (compostos orgˆanicos formados por
carbono, hidrogˆenio em alguns casos possuem oxigˆenio e tamb´em nitrogˆenio) e DBAs (dibenzalacetona). O grupo funcional de compostos hidrazˆonicos ´e representado por R2C=NNR2, onde os R′s s˜ao radicais livres que permitem substitui¸c˜oes por grupos
eletronegativos, devido a presen¸ca de radicais livres com capacidade de aceitar e doar el´etrons [10]. As primeiras rea¸c˜oes acerca de derivados da hidrazona foram descobertas pelo qu´ımico Emil Fischer em 1883, a partir da rea¸c˜ao da fenil hidrazina com propanona, desde ent˜ao, v´arios compostos tˆem sido sintetizados em larga escala [3-6].
2.1.1
Derivados de hidrazonas
Os compostos derivados de hidrazona apresentam sistemas conjugados com liga¸c˜oes π que os tornam favor´aveis para o estudo em ONL. Os ataques nucleof´ılicos que acontecem durante a forma¸c˜ao deste composto possibilitam a disponibilidade para aceitar e doar de el´etrons da sua cadeia [19, 20, 23].
De acordo com a literatura, compostos hidrazˆonicos tendem a cristalizar em meios n˜ao centrossim´etricos e apresentam alto grau de n˜ao linearidade de segunda ordem, sendo consideradas fortes candidatos para estudo em ONL, devido sua versatibilidade estrutural [3, 24]. Em tratando de elementos com estruturas n˜ao centrossim´etricas, os grupos de an´eis arom´aticos s˜ao sugeridos como melhores estruturas para grupos de doadores e aceitadores
2.1 Estado da arte 13
de el´etrons aplicav´eis a ONL, viabilizando uma boa transparˆencia e eficiˆencia de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico [23].
Um exemplo de estrutura estudada na literatura referente aos derivados dos compos-tos hidrazˆonicos, conforme ilustrado na Fig. 2.1 ´e a Benzenofenona hidrazona, haja vista que os substituintes nessa mol´ecula s˜ao apenas dois benzenos e um par de hidrogˆenio. ´E not´avel a flexibilidade e as in´umeras possibilidades para aderir grupos doadores e acei-tadores de el´etrons para este sistema, al´em de aumentar o n´umero de conjuga¸c˜oes nesta cadeia [5, 21, 22].
Figura 2.1: Estrutura molecular da benzenofenona hidrazona.
Na Fig. 2.2, ´e exibida a representa¸c˜ao estrutural de outra mol´ecula derivada dos compostos hidrazˆonicos conhecida por nitrofenil hidrazona. Segundo a literatura [3, 4] esses derivados possuem respostas n˜ao lineares de 2a ordem bastante satisfat´orias para o
estudo em ONL.
Figura 2.2: Grupo funcional de hidrazona ligado a dois benzenos com um substituinte de nitro (NO2)
na posi¸c˜ao para do segundo benzeno.
De acordo com a literatura [3-4,7-9,24], os principais grupos de substituintes relacio-nados aos derivados dos compostos hidrazˆonicos s˜ao NH2, NO2 Cl, Br, CH3 e F, alem
disso, outros elementos s˜ao compar´aveis com os composto de nitrotolueno e nitroestibe-leno, cristais promissores para ´optica n˜ao linear [3, 5, 26, 27].
2.1 Estado da arte 14
2.1.2
Descri¸c˜
ao das propriedades ´
opticas n˜
ao lineares
Os materiais que resultam da substititui¸c˜ao de elementos e suas propriedades ´opticas sofrem modifica¸c˜oes na presen¸ca de luz laser, tornam-se bastantes promissores no que diz respeito a novas mol´eculas candidatas para estudo em ONL. Para uma descri¸c˜ao minuciosa do estudo das propriedades ´opticas ´e necess´ario realizar an´alises de raios-X, medidas de absor¸c˜ao ´optica (UV-Vis) entre outras medidas [3, 5].
Os compostos hidrazˆonicos vˆem sendo explorados como promissores em aplica¸c˜oes que v˜ao desde novos f´armacos at´e dispositivos eletrˆonicos [3, 7]. De acordo com a literatura [5,21-23], alguns compostos apresentam boas eficiˆencias de GSH ao comparadas com o KDP conforme exibidos na tabela 1.1. As medidas de eficiˆencia s˜ao feitas pelo m´etodo comparativo de Kurtz e Perry.
Tabela 2.1: Comprimento de onda dos espectros de absor¸c˜ao ´optica e eficiˆencia gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em diferentes amostras policristalinas pelo m´etodo do p´o de Kurtz e Perry.
Compostos comparativos Eficiˆencia de GSH (KDP=1) Comprimento de onda (nm) 4-Amino benzenofenona 260 412
di-4-Amino benzenofenona 72 416 4-Amino-4’fluorobenzenofenona 9 418 4-Amino-4’clorobenzenofenona 36 432 4-Amino-4’bromobenzenofenona 36 420 4-Amino metil benzenofenona 21 432 4-Nitro fenil Hidrazona 15.36 241 Benzenofenona Hidrazona 10 350
2.2 Objetivo geral 15
2.2
Objetivo geral
O objetivo desta disserta¸c˜ao ´e realizar um estudo acerca dos efeitos n˜ao lineares de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em composto hidrazˆonicos.
2.2.1
Objetivos espec´ıficos
Caracterizar os processos de absor¸c˜ao da luz por esses materiais, determinando as bandas de energia por absor¸c˜ao ´optica.
1. Utilizando a difra¸c˜ao de raio-X m´etodo do p´o para verificar a natureza cristalina desses compostos;
2. Caracterizar o gera¸c˜ao de segundo harmˆonico desses materiais usando o m´etodo de Kurtz e Perry.
Cap´ıtulo 3
Fundamenta¸c˜
ao te´
orica
A ´optica n˜ao linear (ONL) ´e o campo de estudo que envolve a intera¸c˜ao da luz com a mat´eria na presen¸ca de campos intensos. O in´ıcio da repercuss˜ao sobre a ONL acon-teceu ap´os a inven¸c˜ao do laser em 1960, atrav´es do experimento de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em 1961 por Franken e et al. [16], onde se observou altera¸c˜oes das propriedades do meio com a aplica¸c˜ao de campos com alta intensidade. A partir de ent˜ao in´umeros fenˆomenos foram observados, entre os quais est˜ao a gera¸c˜ao de harmˆonicos, os efeitos de absor¸c˜ao de dois f´otons, absor¸c˜ao multifotˆonica e entre outras.
As propriedades n˜ao lineares de certos materiais tornaram-se de interesse para a co-munidade cient´ıfica, devido `as possibilidades de aplica¸c˜oes tecnol´ogicas, especificamente no que refere aos dispositivos utilizados em comunica¸c˜ao ´optica [17, 28].
Neste cap´ıtulo abordaremos a descri¸c˜ao te´orica dos efeitos n˜ao lineares em particular o fenˆomeno da gera¸c˜ao de segundo harmˆonico que tem como base os princ´ıpios do eletro-magnetismo cl´assico, com a inclus˜ao da susceptibilidade n˜ao linear nas rela¸c˜oes constitu-tivas, relacionando a polariza¸c˜ao el´etrica com as amplitudes dos campos eletromagn´eticos [32, 36, 37, 39, 40].
3.1
Equa¸c˜
oes de Maxwell e rela¸c˜
oes constitutivas
Para descrever a natureza n˜ao linear de um meio material, a radia¸c˜ao eletromagn´etica que interage com o mat´eria deve ser bastante intensa da ordem de 108 V/cm, ou seja,
3.1 Equa¸c˜oes de Maxwell e rela¸c˜oes constitutivas 17
aproximadamente igual ao campo interatˆomico, onde os ´atomos que comp˜oe a mat´eria ir˜ao vibrar de maneira n˜ao harmˆonica, ou seja, proporcionar´a uma perturba¸c˜ao no sistema onde os ´atomos assumem um comportamento semelhantes a osciladores n˜ao harmˆonicos. Para explicar os fenˆomenos ´opticos n˜ao lineares, ´e necess´ario fazer uso das equa¸c˜oes de Maxwell que governam essa intera¸c˜ao da luz com a mat´eria [33].
Considerando o caso do material n˜ao magn´etico M = 0, onde n˜ao h´a cargas ρ = 0 e nem correntes livres J = 0, as equa¸c˜oes de Maxwell s˜ao descritas da seguinte forma:
∇ · D = 0, (3.1) ∇ · B = 0, (3.2) ∇ × E = −∂B ∂t , (3.3) ∇ × H = ∂D ∂t. (3.4)
As grandezas f´ısicas mostradas nas equa¸c˜oes acima s˜ao o campos el´etrico E, o campo magn´etico H, a indu¸c˜ao magn´etica B e o deslocamento el´etrico D. Os vetores D e B originam as respostas dos campos el´etrico E e magn´eticos H e est˜ao relacionadas atrav´es das rela¸c˜oes constitutivas [33, 34, 35].
D = ǫ0E + P (3.5)
B = µ0H + M (3.6)
sendo, ǫ0 a permissibilidade el´etrica no v´acuo e µ0 a permiabilidade magn´etica no v´acuo.
P ´e a polariza¸c˜ao el´etrica e M polariza¸c˜ao magn´etica e representam as respostas de um meio material `a sua intera¸c˜ao com campos el´etricos e magn´eticos.
Como estamos interessados apenas nas respostas com a aplica¸c˜ao do campo el´etrico no meio material que ´e a polariza¸c˜ao el´etrica expressa por:
P = ǫ0χE (3.7)
substituindo a equa¸c˜ao (3.7) em (3.5) tˆem-se o vetor deslocamento el´etrico D:
3.1 Equa¸c˜oes de Maxwell e rela¸c˜oes constitutivas 18
a permissibilidade el´etrico na v´acuo ǫ0 ser´a relacionada com a susceptibilidade el´etrica do
material χ, por meio da permissividade el´etrica relativa do material, dada por:
ǫr = ǫ0(1 + χ), (3.9)
tamb´em conhecida por fun¸c˜ao di´eletrica ǫ, e com isso o vetor deslocamento (3.8) se torna:
D = ǫE (3.10)
A incidˆencia do campo el´etrico em meios isotr´opicos induz uma polariza¸c˜ao que ´e paralela ao campo aplicado e proporcional `a susceptibilidade. O vetor deslocamento (3.10) na sua forma escalar indica que n˜ao h´a altera¸c˜ao das propriedades f´ısicas do sistema.
3.1.1
Propaga¸c˜
ao de luz em cristais anisotr´
opicos
Em meios anisotr´opicos, a polariza¸c˜ao n˜ao est´a necessariamente paralela ao campo aplicado, com dire¸c˜ao e magnitude dependentes da dire¸c˜ao de aplica¸c˜ao do campo, como no caso da maioria dos cristais. A susceptibilidade assume um carater tensorial χijk
apresentando 9 termos e a polariza¸c˜ao passa a depender das componentes do campo el´etrico x, y, z [36, 37, 39, 40]. Px Py Pz = ǫ0 χxx χxy χxz χyx χyy χyz χzx χzy χzz Ex Ey Ez .
E o deslocamento el´etrico na forma tensorial, fica:
Di = 3
X
j=1
ǫijEj. (3.11)
expressando Di em rela¸c˜ao `a dire¸c˜ao do campo, com i, j dado em coordenadas cartesianas,
ent˜ao escrevemos (3.11), como:
Dx Dy Dz = ǫxx ǫxy ǫxz ǫyx ǫyy ǫyz ǫzx ǫzy ǫzz Ex Ey Ez .
3.1 Equa¸c˜oes de Maxwell e rela¸c˜oes constitutivas 19
Em todo sistema ´optico sempre h´a existˆencia de um eixo de propaga¸c˜ao preferencial, conhecidos como eixos diel´etricos principais. Contudo, ´e necess´ario encontr´a-los, para isso, diagonalizamos a matriz acima a fim de obter os termos n˜ao nulos ou iguais entre si. Estes eixos s˜ao respons´aveis pelas propriedades ´opticas do meio que se deseja investigar levando em conta a simetria de cada material, os quais podem serem classificados como isotr´opicos ou anisotr´opicos. Sabe- se que o ´ındice de refra¸c˜ao depende da susceptibilidade el´etrica, e de acordo com a intensidade do campo aplicado pode assumir propriedades ´opticas diferentes.
3.1.2
Representa¸c˜
ao dos ´ındices de refra¸c˜
ao: Elips´
oide de ´ındice
O ´ındice de refra¸c˜ao varia com a dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao, assumindo sua forma tensorial, sendo este diretamente proporcional ao tensor diel´etrico, obedecendo uma rela¸c˜ao de simetria ǫij = ǫji, com isso:
n2ij =
ǫij
ǫ0
. (3.12)
Considerando que o meio em quest˜ao ´e n˜ao magn´etico e vetor deslocamento referenciado em (3.11) ´e sim´etrico. A simetria da permissividade el´etrica ǫ ´e mostrada pela densidade de energia el´etrica, dada em termos de um onda eletromagn´etica:
U = 1 2E · D = ǫ0 2 X ij n2ijEiEj (3.13)
em termos do tensor diel´etrico ǫij =Piǫiδij, o ´ındice de refra¸c˜ao assume nij =Piniδij,
os quais s˜ao conhecidos como eixos diel´etricos principais, a partir disso, a equa¸c˜ao acima torna-se:
2U ǫ0
= n2xE2x+ n2yE2y+ n2zE2z (3.14)
como a permissibidade el´etrica do meio determina o ´ındice de refra¸c˜ao dos materiais, ǫij = n2ijǫ0, podemos escrever a equa¸c˜ao da densidade de energia como:
D2 x n2 x + D 2 y n2 y +D 2 z n2 z = 2U ǫ0 (3.15)
3.1 Equa¸c˜oes de Maxwell e rela¸c˜oes constitutivas 20
o vetor deslocamento D est´a contido num plano em rela¸c˜ao ao vetor posi¸c˜ao r = 2U ǫD0 assim, equa¸c˜ao (3.15) pode ser reescrita da seguinte forma:
x2 n2 x + y 2 n2 y + z 2 n2 z = 1. (3.16)
A equa¸c˜ao acima ´e a equa¸c˜ao do elips´oide de ´ındices que em ´optica dos cristais represen-tam a magnitude dos ´ındices de refra¸c˜ao do cristal, pois quando uma onda eletromagn´etica propaga-se num cristal anisotr´opico, o campo el´etrico passa a depender das dire¸c˜oes de suas componentes, e com isso pode ser decomposto em dois planos de propaga¸c˜ao, um no plano xy (raio ordin´ario) e outro perpendicular a esta e `a dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao da onda (raio extraordin´ario), ambos com velocidades de fases diferentes causando uma diferen¸ca de fase entre as componentes [40, 39].
Na Fig. 3.1 temos a demonstra¸c˜ao geom´etrica da elips´oide de ´ındices em rela¸c˜ao `a magnitude dos ´ındices de refra¸c˜ao para cristais uniaxiais e biaxiais. De acordo com a simetria dos materiais, os cristais s˜ao classificados como: isotr´opicos, uniaxiais e biaxiais.
• Isotr´opicos: Os ´ındices de refra¸c˜ao s˜ao iguais em todas as dire¸c˜oes;
• Uniaxiais: Os ´ındices de refra¸c˜ao coincidem no plano xy, exibindo dupla refra¸c˜ao e o eixo ´optico (onde as velocidades de fases s˜ao iguais) coincide com o plano z, com isso, tˆem-se apenas um eixo ´optico. A se¸c˜ao transversal da elips´oide para estes cristais ´e um c´ırculo dado por: nx = ny = no, devido a propaga¸c˜ao do eixo ordin´ario
e no plano z a propaga¸c˜ao est´a relacionada com o eixo extraordin´ario nz = ne ;
• Biaxiais: Os ´ındices de refra¸c˜ao s˜ao diferentes entre si nx 6= ny 6= nz e apresentam
dois eixos ´opticos localizados no plano xz. A se¸c˜ao transversal da elips´oide em cristais biaxiais ´e uma elipse, contendo o raio extraordin´ario nee nas outras dire¸c˜oes
3.2 Polariza¸c˜ao el´etrica 21
Figura 3.1: Elips´oide de ´ındice de cristais anisotr´opicos. Os eixos principais da elips´oide correspondem aos ´ındices de refra¸c˜ao nas dire¸c˜oes preferˆenciais.
3.2
Polariza¸c˜
ao el´
etrica
A polariza¸c˜ao el´etrica ´e observada com a incidˆencia de um campo el´etrico sobre um material diel´etrico, o qual produz um deslocamento dos el´etrons que comp˜oe a mat´eria na dire¸c˜ao do campo aplicado, ocasionando a separa¸c˜ao das cargas sob a forma de dipolos el´etricos induzidos, e com isso, o surgimento de µ momento de dipolo el´etrico [34]. Para N momentos de dipolos el´etricos por unidade de volume tˆem-se a polariza¸c˜ao macrosc´opica no material:
P = N µ (3.17)
De modo geral, a polariza¸c˜ao ´e uma fun¸c˜ao do campo el´etrico que descreve a resposta do meio com a aplica¸c˜ao deste campo, ou seja, dependendo da intensidade do campo aplicado tˆem-se um comportamento linear e/ou n˜ao linear.
Polariza¸c˜ao linear
Quando um campo el´etrico de baixa intensidade incide sobre um meio material tˆem-se como resposta do meio uma polariza¸c˜ao induzida que varia linearmente com o campo. Os el´etrons que constituem o material comportam-se como osciladores harmˆonicos
amor-3.2 Polariza¸c˜ao el´etrica 22
tecidos, uma vez que a for¸ca de atua¸c˜ao ´e a pr´opria for¸ca eletromagn´etica e neste caso podemos escrever:
P(r, t) = ǫ0χE(r, t) (3.18)
onde P(r,t) ´e a polariza¸c˜ao linear, ǫ0 permissividade do meio e χ susceptibilidade linear,
sendo estes respons´aveis pelos surgimento dos efeitos ´opticos lineares, como por exemplo: refra¸c˜ao e absor¸c˜ao dos materiais.
Polariza¸c˜ao n˜ao linear
Quando o campo incidente no material ´e de alta intensidade (como por exemplo a radia¸c˜ao laser) a resposta do meio torna-se n˜ao linear devido ao campo aplicado pos-suir valores pr´oximos ao campo interatˆomico 108 [V/cm], com isso, os el´etrons do meio
s˜ao perturbados ao sentirem o campo aplicado havendo um deslocamento das cargas em rela¸c˜ao suas posi¸c˜oes de equil´ıbrio, em raz˜ao disso, ocasiona o surgimento dos efeitos n˜ao lineares. De modo geral, a polariza¸c˜ao n˜ao linear ´e expressa como uma expans˜ao em s´erie em fun¸c˜ao do campo [18, 39, 42]:
P(r, t) = ǫ0χ(1)E(r, t) + χ(2)E2(r, t) + χ(3)E3(r, t) + ... (3.19)
Para que essa s´erie seja convergente ´e necess´ario que cada termo seja menor que o pre-cedente. Os termos das susceptibilidades de segunda e terceira ordem respectivamente, χ2 e χ3 descritas na (3.19) s˜ao respons´aveis pela n˜ao linearidade do meio, com isso a
polariza¸c˜ao pode ser escrita da seguinte forma:
P(r, t) = P(1)(r, t) + P(2)(r, t) + P(3)(r, t) + ... (3.20) o primeiro termo depois da igualdade ´e a polariza¸c˜ao linear, o segundo corresponde o termo da polariza¸c˜ao n˜ao linear de segunda ordem devido `a dependˆencia quadr´atica com o campo el´etrico e o terceiro ´e o termo de terceira ordem com dependˆencia c´ubica e as demais ordens n˜ao ser˜ao levadas em conta, com isso, podemos expressar a equa¸c˜ao (3.20) como:
3.3 Susceptibilidade el´etrica 23
Considerando um meio diel´etrico, n˜ao magn´etico e que n˜ao possue cargas e nem cor-rentes livres e levando em conta a parte n˜ao linear da polariza¸c˜ao da (3.21), temos a equa¸c˜ao de onda da seguinte forma:
∇2E(r, t) − n 2 c2 ∂2E(r, t) ∂t = 1 ǫ0c2 ∂PNL(r, t) ∂t2 (3.22) onde, n = c
v ´e o ´ındice de refra¸c˜ao e c =
q
1
µ0ǫ0 ´e a velocidade da luz no v´acuo. Neste
caso, a equa¸c˜ao da onda ´e n˜ao homogˆenea e a polariza¸c˜ao n˜ao linear assume o papel de gerar novas frequˆencias e na ausˆencia deste termo n˜ao linear a equa¸c˜ao admite solu¸c˜ao de ondas oscilantes livres.
As rela¸c˜oes entre a polariza¸c˜ao e o campo el´etrico at´e o momento foram descritas como fun¸c˜oes do tempo. Podemos ainda, fazer uso da transformada de Fourier para descrever a (3.22) no dom´ınio das frequˆencias, usando a seguinte rela¸c˜ao:
E(r, t) = Z ∞
−∞
dωE(r, ω)eiωt (3.23)
uma vez que E(r, ω) ´e a transformada de Fourier de E(r, t) onde:
E(r, ω) = 1 2π
Z ∞ −∞
dτE(r, τ )eiωτ (3.24)
sendo assim, cada componente do campo e da polariza¸c˜ao n˜ao linear podem ser descrita no dom´ınio da frequˆencia obecendo as condi¸c˜oes de causalidade [35, 39, 42]. A equa¸c˜ao da onda no dom´ınio da frequˆencia pode ser escrita como:
∇2E(r, ω) −n 2 ωω2 c2 E(r, ω) = − ω2 ǫ0c2 PNL(r, ω) (3.25)
Torna-se conveniente expressar a polariza¸c˜ao n˜ao linear em fun¸c˜ao da frequˆencia para fazer o uso das rela¸c˜oes de simetria do tensor susceptibilidade [35, 36].
3.3
Susceptibilidade el´
etrica
A susceptibilidade el´etrica ´e uma grandeza f´ısica intr´ıseca dos materiais que possuem propriedades ´opticas. A depender do campo aplicado e da simetria dos materiais, tˆem-se uma dependˆencia linear ou n˜ao linear, a qual pode ser obtida por diversos modelos ma-tem´aticos, tais como: modelo cl´assico; a posi¸c˜ao do el´etron e o campo eletromagn´etico
3.3 Susceptibilidade el´etrica 24
s˜ao tratados como vari´aveis cl´assicas. modelo semi-cl´assico; o ´atomo ´e tratato como uma vari´avel quˆantica e o campo eletromagn´etico como cl´assico. modelo quˆantico; ambos s˜ao vari´aveis quˆanticas [32].
Neste trabalho ser´a adotada a abordagem cl´assica, visto que este, apresenta resultados lineares satisfat´orios. O modelo cl´assico foi proposto por Lorentz para descrever o ´atomo como um oscilador harmˆonico cl´assico [28].
3.3.1
O modelo cl´
assico
A representa¸c˜ao do modelo cl´assico ´e apresentado na Fig. 3.2, a qual prop˜oe tanto o ´atomo quanto o campo el´etrico como sendo cl´assicos. Neste sistema o el´etron est´a fortemente ligado ao n´ucleo por meio de uma constante k similar ao sistema massa mola regido por uma for¸ca restauradora. Considerando a massa do n´ucleo muito maior que a massa do el´etron e ao aplicar um campo el´etrico sobre ´atomo os el´etrons passam a oscilar em determinadas frequˆencias.
A melhor descri¸c˜ao para explicar a oscila¸c˜ao do el´etron em torno do n´ucleo ´e modelando-o cmodelando-ommodelando-o um modelando-osciladmodelando-or harmˆmodelando-onicmodelando-o ammodelando-ortecidmodelando-o permitindmodelando-o modelando-observar as prmodelando-opriedades ´modelando-optica lineares atrav´es da solu¸c˜ao da amplitude do campo el´etrico. Entretanto se o campo apli-cado for forte suficiente a for¸ca restauradora passa a assumir uma comportamento n˜ao harmˆonico ocasionando o surgimento dos efeitos n˜ao lineares.
Figura 3.2: Representa¸c˜ao da intera¸c˜ao do n´ucleo e o el´etron atr´aves do sistema massa mola por uma constante el´astica k. Figura adaptada [28, 32].
O ´atomo no modelo harmˆonico ´e necess´ario acrescentar um termo de corre¸c˜ao no modelo n˜ao harmˆonico para explicar o aparecimento dos efeitos no regime n˜ao linear.
3.3 Susceptibilidade el´etrica 25
3.3.2
Meio n˜
ao centrossim´
etrico
H´a situa¸c˜oes f´ısicas em que devemos considerar a simetria dos materiais. Para um meio n˜ao centrossim´etrico o primeiro termo de corre¸c˜ao da for¸ca deve ser proporcional ao quadrado do deslocamento [35] adicionando-se ao termo linear da for¸ca de restauradora uma corre¸c˜ao −max2, onde a ´e o parˆametro que caracteriza a n˜ao linearidade para termos
de ordem par.
Frest(x) = −mω02x− max2. (3.26)
Onde a energia potencial ´e dada por:
U(x) = − Z
Frest(x)dx. (3.27)
Integrando (3.27), temos a energia potencial necess´aria para obter pertuba¸c˜oes no sistema, tal que: U(x) = 1 2mω 2 0x2+ 1 3max 3 (3.28)
Na Fig.3.3, expressamos o comportamento do el´etron mediante ao campo aplicado e tamb´em ao termo de corre¸c˜ao que causa uma distor¸c˜ao na par´abola denominado de po-tencial atual comportando de maneira n˜ao harmˆonica:
Figura 3.3: O potencial atual representa o meio n˜ao centrossim´etrico e o outro corresponde ao potencial harmˆonico. Figurada adaptada [35].
De acordo com a segunda lei de Newton, devido a aplica¸c˜ao do campo el´etrico E a derivada temporal do momento linear do deslocamento do el´etron ´e igual a for¸ca resultante sobre ele mesmo, dada pela soma da for¸ca restauradora e da for¸ca do campo el´etrico, logo:
3.3 Susceptibilidade el´etrica 26
A equa¸c˜ao de movimento para este sistema ´e dada por:
¨
x+ 2γ ˙x + ω20x+ ax2 = −eE(t)
m (3.30)
onde os termos m e e da equa¸c˜ao (3.30), s˜ao respectivamente a massa e a magnitude da carga do el´etron, γ o coeficiente de amortecimento e ω2
0 est´a relacionada com k que ´e
a constante da mola. No caso em que o ´atomo interage com duas ondas de frequˆencias diferentes, temos:
E(t) = E1e
−iω1t+ E
2e
−iω2t+ c.c (3.31)
sendo, c.c o complexo conjugado do campo el´etrico. A equa¸c˜ao (3.30) pode ser resolvida, supondo que o termo n˜ao harmˆonico ´e suficientemente pequeno e podemos trat´a-lo como uma pertuba¸c˜ao cl´assica, de forma an´aloga ao que ´e feito em teoria de pertuba¸c˜ao da mecˆanica quˆantica:
¨
x+ 2γ ˙x + ω02x+ ax2 = −λeE(t)
m (3.32)
em que λ ´e o parˆametro de corre¸c˜ao. A solu¸c˜ao para a equa¸c˜ao (3.32) ´e dada pela devida soma das solu¸c˜oes particulares, as quais s˜ao expressas em s´erie de potˆencia:
x= λx(1)+ λ2x(2)+ λ3x(3)+ . . . (3.33) substituindo (3.33) em (3.32) considerando apenas os termos at´e 3a ordem, temos um
sistema com trˆes equa¸c˜oes:
¨ x(1)+ 2γ ˙x(1)+ ω02x(1) = −eE(t) m , (3.34) ¨ x(2)+ 2γ ˙x(2)+ ω20x(2)+ a[x(1)]2 = 0, (3.35) ¨ x(3)+ 2γ ˙x(3)+ ω20x(3)+ 2ax2x(1) = 0. (3.36) As equa¸c˜oes acima s˜ao equa¸c˜oes diferenciais de 1a, 2a e 3a ordem e sua interpreta¸c˜ao
f´ısica permite observar os efeitos lineares e n˜ao lineares dos processos ´opticos na presen¸ca de radia¸c˜ao eletromagn´etica. Resolvendo primeiramente a equa¸c˜ao(3.34), supondo como solu¸c˜ao:
x1(t) = x(1)(ω1)e
−iω1t+ x(2)(ω
2)e
−iω2t+ c.c (3.37)
a amplitude referente ao deslocamento do el´etron ´e dado por:
x(1)(ω1) = − e m E D(ω1) com, D(ω1) = ω20− ω2− 2iω1γ. (3.38)
3.3 Susceptibilidade el´etrica 27
´
E sabido que a polariza¸c˜ao depende da amplitude do campo el´etrico aplicado, dessa forma:
P(ω1) =
N e2 mD(ω1)
E (3.39)
A equa¸c˜ao (3.39) ´e equivalente a (3.18) e est˜ao relacionados atrav´es da solu¸c˜ao amplitude do campo, da seguinte forma:
χ= N e 2 mǫ0 1 D(ω1) . (3.40)
As propriedades ´opticas lineares para um meio isotr´opico est˜ao relacionadas atrav´es da permissividade relativa com a susceptibilidade el´etrica na forma escalar ǫr = 1 + χ.
O ´ındice de refra¸c˜ao ´e proporcional `a fun¸c˜ao diel´etrica assumindo a forma complexa, tal que:
¯
n=p1 + χ ≈ 1 +1
2χ+ ... = n + iκ (3.41)
a parte real da susceptibilidade est´a relacionada com o ´ındice de refra¸c˜ao,
n(ω) = 1 + N e 2 2mǫ0 (ω0− ω2) (ω2 0 − ω2) 2 + (2ωγ)2 (3.42)
e a rela¸c˜ao com a parte imagin´aria da susceptibilidade ´e κ conhecido como coeficiente de extin¸c˜ao e pode ser obtido atrav´es do coefiente de absor¸c˜ao (α = 2κωc ), ent˜ao:
α(ω) = N e 2 mcǫ0 2ω2γ (ω2 0− ω2) 2 + (2ωγ)2 (3.43)
Na Fig. 3.4, ´e mostrada o gr´afico das equa¸c˜oes (3.42) e (3.43), e nota-se que quando a frequˆencia de oscila¸c˜ao se aproxima da frequˆencia de ressonˆancia tem-se a dispers˜ao normal, entretanto na regi˜ao pr´oximo `a frequˆencia de ressonˆancia ω0 ocorre a absor¸c˜ao
de f´otons e regi˜ao ap´os ω0 a dispers˜ao anomˆola.
3.3 Susceptibilidade el´etrica 28
A equa¸c˜ao (3.35) ´e respons´avel pelos fenˆomenos ´opticos n˜ao lineares de 2a ordem. Note que essa equa¸c˜ao depende explicitamente do produto entre o resultado da equa¸c˜ao (3.38), elevado ao quadrado e do parˆametro de n˜ao linearidade e considerando os termos das duas frequˆencias do campo incidente, obtemos:
x(1)2 = e 2 m2 E1 D(ω1) e−iω1t+ E ∗ 1 D(ω1) eiω1t+ E2 D(ω2) e−iω2t+ E ∗ 2 D(ω2) eiω2t × E1 D(ω1) eiω1t+ E ∗ 1 D(ω1) e−iω1t+ E2 D(ω2) eiω2t+ E ∗ 2 D(ω2) e−iω2t . (3.44)
Manipulando a equa¸c˜ao acima obtemos combina¸c˜oes de frequˆencias relacionadas as oscila¸c˜oes de: segundo harmˆonico, soma de frequˆencia, diferen¸ca de frequˆencia e retifica¸c˜ao ´optica respons´aveis pelos efeitos n˜ao lineares de segunda ordem.
±2ω1, ±2ω2, ±(ω1+ ω2), ±(ω1− ω2) e 0.
Essas frequˆencias surgem devido `a intera¸c˜ao do campo el´etrico com o meio, uma vez que cada termo apresenta uma solu¸c˜ao diferente. A partir da solu¸c˜ao da amplitude do campo el´etrico expresso pela equa¸c˜ao (3.35) podemos encontrar a susceptibilidade segunda ordem. Restrigiremos nosso estudo apenas no efeito relacionado a oscila¸c˜ao com frequˆencia de segundo harmˆonico.
• Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico - GSH: (2ωi) com i = 1, 2.
A equa¸c˜ao de movimento que rege a oscila¸c˜ao com frequˆencia de segundo harmˆonico ´e:
¨ x2+ 2γ ˙x + ω2 0x= − ae2Ei2e−2iωit m2D2(ω i) (3.45)
supondo como solu¸c˜ao geral:
x(2)(t) = x2(2ωi)e −2iωit
(3.46)
resolvendo a amplitude do campo para GSH e substituindo em (3.45) obtemos:
x2(2ωi) = −
ae2 m2D(2ω
i)D2(ω)
Ei2 (3.47)
A gera¸c˜ao de segundo harmˆonico ´e um caso espec´ıfico de efeito n˜ao linear de segunda ordem, onde as ondas que geram a polariza¸c˜ao dentro de um material tem a mesma frequˆencia ω dos dipolos criados e com isso emitem uma frequˆencia 2ω
3.3 Susceptibilidade el´etrica 29
sendo que P(2)(2ωi) ´e a amplitude da componente da polariza¸c˜ao n˜ao linear oscilando na
frequˆencia 2ωi definido pela seguinte rela¸c˜ao:
P(2)(2ωi) = −N ex(2)(2ωi) (3.49)
com isso, a polariza¸c˜ao n˜ao linear de segunda ordem fica:
P(2)(2ωi) =
N e3a m2D(2ω
i)D2(ωi)
Ei2 (3.50)
e a susceptibilidade em termos da amplitude do campo el´etrico:
χ(2)(2ωi, ωi, ωi) =
N e3a
ǫ0m2D(2ωi)D2(ωi)
. (3.51)
podemos ainda reescrever a susceptibilidade n˜ao linear de 2a ordem em termos da
suspec-tibilidade linear, onde:
χ(2)(2ωi, ωi, ωi) = ǫ0m2a N e3 χ (1)(2ω i)χ(1)(ωi) 2 (3.52)
Na tabela 3.1, mostramos resumidamente os efeitos n˜ao lineares de segunda:
Tabela 3.1: Efeitos n˜ao lineares de 2a ordem
Resposta χ(2) Combina¸c˜oes de frequˆencias
Retifica¸c˜ao ´optica (0; ω1,−ω2)
Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico (2ω3; ω1, ω2)
Soma de frequˆencia (ω3; ω1+ ω2)
3.3 Susceptibilidade el´etrica 30
3.3.3
Propriedades de simetria de 2
aordem
Para o estudo dos efeitos n˜ao lineares de 2a ordem se faz necess´ario a averigua¸c˜ao
das propriedades de simetria que envolve a intera¸c˜ao de trˆes ondas ω3 = ω1 + ω2. A
polariza¸c˜ao n˜ao linear de segunda ordem gerada em um material de modo geral acontece quando h´a a propaga¸c˜ao de duas ondas com frequˆencias ωm e ωn, nas coordenadas i, j e
k [35]–[39], com isso: Pi(ωr) = ǫ0 X jk X nm χ2ijk(−ωr = ωn+ ωm, ωm, ωn) [Ej(ωm) × Ek(ωn)] (3.53)
No caso espec´ıfico da gera¸c˜ao de segundo harmˆonico, temos:
P(2)(2ω) = ǫ0χ(2)ijk(−2ω, ω, ω)E(ω)
2 (3.54)
podemos escrever o tensor de susceptibilidade χ(2)ijk como um tensor contra´ıdo, conhecido como tensor efetivo dos coeficientes ´opticos n˜ao lineares:
def f(−2ω, ω, ω) = 1 2χ (2) ijk(−2ω, ω, ω) (3.55) ou ainda, dijk = 1 2χ (2) ijk (3.56)
Esta condi¸c˜ao ´e v´alida sempre que a simetria de Kleinman for satisfeira, al´em disso, na equa¸c˜ao (3.53) for o caso espec´ıfico de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em que podemos assumir que ωm e ωn s˜ao iguais, com isso:
P(2)(2ω) = ǫ02dijkE(ω)2 (3.57)
Contudo, a regra de comuta¸c˜ao permite escrever o tensor 3 × 3 × 3 como uma matriz 3 × 6 da seguinte forma dijk→ dil, onde jk = l:
i: x 1 jk: xx 1 y 2 yy 2 z 3 zz 3 yz=zy 4 xz=zx 5 xy=yx 6
3.3 Susceptibilidade el´etrica 31
Podemos escrever dxyz = dxzy = d14 resssaltando que a simetria ´e mantida somente
quando se troca as frequˆencias junto com os ´ındices ijk, pois a susceptibilidade permanece inalterada com a mudan¸ca. De modo geral, a polariza¸c˜ao n˜ao linear de GSH (3.54) passa a ser escrita como:
Px(2) Py(2) Pz(2) = 2ǫ0 d11 d12 d13 d14 d15 d16 d21 d22 d23 d24 d25 d26 d31 d32 d33 d34 d35 d36 Ex2 E2 y Ez2 2EzEy 2EzEx 2ExEy .
Esse tensor tem 27 componentes, por´em levando em conta quest˜oes de simetria do sistema pode-se ter diversos elementos nulos nesse tensor. Materiais que apresentam simetria n˜ao centrossim´etrica χ2 6= 0, como no caso da maioria dos cristais classificados de acordo com
sua estrutura cristalina obedecendo a simetria pontual dos ´atomos [35, 39].
Os cristais s˜ao distribuidos em 32 classes estruturais, formados a partir dos sete siste-mas cristalinos, dessas classes de cristais 10 s˜ao centrossim´etricos, 21 n˜ao centrossim´etricos e uma n˜ao apresenta simetria [38-41,48,56]. Ao serem irradiados com campos intensos ´e poss´ıvel observar as propriedades ´opticas n˜ao lineares de 2a ordem inerentes a simetria do
cristal.
3.3.4
Elementos de simetria
Quando um cristal ´e classificado como n˜ao centrossim´etrico a n˜ao linearidade ´e de-terminada pelo tensor d(2)ef f. Portanto, para o estudo do processo de GSH a simetria cristalina apresenta grande uma contribui¸c˜ao no sinal [35,37-39]. De acordo com a tabela 3.2 observa-se a simetria dos cristais isotr´opicos e anisotr´opicos e suas devidas classes pontuais.
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 32
Tabela 3.2: Classifica¸c˜ao dos cristais atrav´es d(2)ef f
Simetria Cristal Simetria ´optica Grupo Pontual d(2)ef f Isotr´opico C´ubico 43m; 432; m3; 23; m3m
d11 0 0 0 d11 0 0 0 d11 Uniaxial Tetragonal 4; 4; 4/m; 422; 4mm; 42m; 4mmm d11 0 0 0 d11 0 0 0 d33 Hexagonal 6; 6; 6/m; 622; 6mm; 6m2 Trigonal 3; 3; 32; 3m; 3m Biaxial Tricl´ınico 1; 1 d11 0 0 0 d22 0 0 0 d33 Monocl´ınico 2; m; 2/m Ortorrˆombico 222; 2mm; mmm
3.4
Gera¸c˜
ao de segundo harmˆ
onico em cristais
Na Fig.3.5, est´a esquematizada o experimento de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico re-alizado por Franken em 1961 et.al [16]. Ao incidir um laser de Ruby com comprimento de onda em 694 nm sobre um cristal de quartzo, que possui propriedades n˜ao lineares de 2a ordem, foi detectado um sinal em 347 nm, constatando um sinal com o dobro da
frequˆencia fundamental, e apartir da´ı diversos fenˆomenos observados, intensificando uma grande repercus˜ao da ´optica n˜ao linear.
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 33
A origem de χ(2) ´e melhor descrita pela mecˆanica quˆantica, mas suas propriedades qualitativas podem ser obtidas usando o modelo cl´assico [18]. Na Fig. 3.6, temos o diagrama de energia exemplificando a convers˜ao de frequˆencia fundamental em frequˆencia do segundo harmˆonico, ou seja, dois f´otons de frequˆencias ω s˜ao aniquilados e um f´oton de frequˆencia 2ω ´e simultaneamente criado em um processo pr´oprio da mecˆanica quˆantica. A linha s´olida na figura representa o estado fundamental e as linhas pontilhadas representam os chamados n´ıveis virtuais. O surgimento da n˜ao linearidade ´e induzido por campos onde as frequˆencias est˜ao fora de ressonˆancia com as transi¸c˜oes permitidas, logo, o meio n˜ao absorve energia e a luz ´e convertida sem haver troca de energia com o material estabelecendo a conserva¸c˜ao de energia E = ~ω na cria¸c˜ao de um ´unico f´oton com o dobro da frequˆencia incidente e conserva¸c˜ao do momento p = ~k devido a condi¸c˜ao de casamento de fase.
Figura 3.6: Representa¸c˜ao do diagrama dos n´ıveis de energia da gera¸c˜ao de segundo harmˆonico.
3.4.1
Descri¸c˜
ao matem´
atica
Para a descri¸c˜ao mat´ematica do processo de GSH podemos considerar um feixe de luz laser monocromatico, o qual podemos expressar a componente do campo em fun¸c˜ao da amplitude complexa mais seu complexo conjugado, dado por:
E(t) = En(z)e
−iωt+ c.c (3.58)
podemos definir o vetor amplitude do campo el´etrico como An(z), o qual varia lentamente
e apresenta uma dependˆencia espacial z com o campo el´etrico e ainda cont´em os termos da constante de propaga¸c˜ao da onda eletromagn´etica e o ind´ıce de refra¸c˜ao, com isso:
En(z) = An(z)eikz, k =
nωω
c , nω =
p
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 34
Como ilustrado na Fig. 3.7, ao aplicar um campo ao longo de um material com propri-edades χ(2) em que o comprimento deste material ´e L apresentando dependˆencia tanto
espacial z quanto temporal t. Por exemplo o laser Nd: YAG com comprimento de onda de 1064 nm ´e utizado para converter o comprimento de onda de segundo harmˆonico em 532 nm [35].
Figura 3.7: Incidencia da luz laser ω sobre um material de comprimento L com simetria adequada e obedecendo as condi¸c˜oes necess´arias para a obten¸c˜ao 2ω. Adaptada [35].
Pela equa¸c˜ao da onda n˜ao linear, temos a componente do campo el´etrico em termos da polariza¸c˜ao n˜ao linear, onde:
∂2E ∂z2 − ǫ(ω) c2 ∂2E ∂t2 = 1 ǫ0c2 ∂2PN L(2) ∂t2 . (3.60)
Considerando as condi¸c˜oes de simetria de um meio que n˜ao apresenta perdas tanto da frequˆencia fundamental, quanto do segundo harmˆonico, entretanto a intera¸c˜ao das ondas ω1 e ω2 s˜ao iguais, com isso, ω3 = 2ω1. Sendo assim, a polariza¸c˜ao n˜ao linear de segunda
ordem sujeita `a duas ondas com frequˆencias diferentes fica:
PN L(2) = P
1(z)e−iω1t+ P3(z)e−iω3t+ c.c. (3.61)
Reescrevendo em termos da amplitude da polariza¸c˜ao n˜ao linear de segunda ordem, fica:
PN L(2) = ǫ0χ2E21(ω1)e
−iω1t+ ǫ
0χ2E23(ω3)e
−iω3t+ c.c (3.62)
Na referˆencia [35] as express˜oes para as amplitudes respons´aveis pela gera¸c˜ao de segundo harmˆonico s˜ao definidas de acordo com a simetria do tensor def f de tal forma que:
P(2)(ω3) = 4ǫ0def fE2(ω2)E ∗ 1(ω1) = 4ǫ0def fA2A ∗ 1ei(k2 −2k1)z (3.63)
de forma an´aloga, tˆem-se o segundo harmˆonico:
P(2)(2ω1) = 2ǫ0def fE21(ω1) = 2ǫ0def fA21ei(k2 −2k1)z
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 35
pelas equa¸c˜oes (3.63) e (3.64) tem se a equa¸c˜ao da polariza¸c˜ao de segunda ordem para o processo de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico na representa¸c˜ao tensor χ(2), dada por:
PN L(2) = 2ǫ0χ2A2(ω2)A ∗ 1(ω1)ei(k2 −2k1)z + ǫ0χ2A21(ω1)ei(k2 −2k1)z + c.c. (3.65)
no primeiro termo da equa¸c˜ao (3.65) n˜ao h´a gera¸c˜ao de novas frequˆencias e o segundo termo ´e referente a gera¸c˜ao da nova frequˆencia do segundo harmˆonico. Retomando a equa¸c˜ao da onda n˜ao linear (3.60) substituindo a polariza¸c˜ao obtida em (3.65) obtˆem-se as equa¸c˜oes acopladas de GSH, onde:
dA1 dz = 2iω2 1χ2 k1c2 A2(ω2)A ∗ 1(ω1)ei(k2 −2k1)z (3.66) dA2 dz = iω2 2χ2 k2c2 A21(ω1)ei(k2 −2k1)z . (3.67)
Na (3.66) observa-se que n˜ao h´a gera¸c˜ao de novas frequˆencias, logo, ser´a considerada como uma constante e resolveremos somente a equa¸c˜ao (3.67). Considerando que as ondas se propagem paralelamente ao longo do eixo z e a intensidade da onda de bombeio na entrada do meio n˜ao linear ´e z = 0 e na sa´ıda z = L, uma vez que as ondas s˜ao determinadas no final do meio n˜ao linear e sempre que houver a condi¸c˜ao de casamento de fase. Integrando (3.67) em rela¸c˜ao ao comprimento do cristal, temos:
E2ω = − iω22χ2 2n2c E2ω Z z=L z=0 ei∆kzdz (3.68)
resolvendo a integral acima, obtemos:
E2ω = −ie ∆kL 2 ω 2 2χ(2) 2n2 2c E2ωsenc ∆kL 2 L (3.69)
como ´e sabido que a intensidade do feixe incidente ´e proporcional ao quadrado do campo el´etrico I(ω,L) = 12ǫ0nωc|Eω|2, com isso, a intensidade do segundo harmˆonico torna-se:
I(2ω,L)= − (ω2 χ(2))2 8ǫ0n2ωn2ωc3 E4ω senc2 ∆kL2 2 ∆kL 2 2 L 2 (3.70)
para medir a eficiˆencia da convers˜ao de frequˆencias ´e necess´ario realizar a raz˜ao entre as duas intensidades medidas:
η2ω =
I(2ω,L)
I(ω,L)
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 36
Para que ocorra o processo de GSH ´e necess´ario que a onda incidente ω e a onda gerada do segundo harmˆonico 2ω apresentem condi¸c˜oes de casamento de fase, as velocidades de fases e ´ındices de refra¸c˜ao coincidam em algum ponto do espa¸co, sendo assim:
∆k = k2ω − 2kω = 0 (3.72)
A varia¸c˜ao dos k’s, pode ser tratado em termos dos n´umeros de ondas kω = 2πnλ11 e
k2ω = 2πnλ22, que s˜ao proporcionais a frequˆencia e a energia do f´oton, com isso:
∆k = 4π(n2− n1)
λ = 0. (3.73)
Entretanto, devido `a dispers˜ao do meio e `a diferen¸ca de fase, a condi¸c˜ao de casamento de fase nem sempre ´e satisfeita ∆k 6= 0 e o sinal de GSH n˜ao ser´a gerado no mesmo plano de propaga¸c˜ao e o feixe que interage com o material come¸ca a sofrer interferˆencia destrutiva. A conserva¸c˜ao do momento ´e preservada ao longo do comprimento de coerˆencia lc dado
por: lc = 2π ∆k = λ 2(n2− n1) (3.74)
A Fig. 3.8 representa a configura¸c˜ao das ondas interagindo dentro do cristal n˜ao linear de simetria χ(2) e comprimento L, uma vez que os ´ındices de refra¸c˜ao do fundamental e
do segundo harmˆonico ir˜ao coincidir somente se houve o casamento de fase ao longo do cristal n˜ao linear.
Figura 3.8: Casamento de fase em cristais com ´ındices de refra¸c˜ao diferente (1) e o casamento de fase com ´ındices de refra¸c˜ao iguais (2). Adapatada [53].
3.4 Gera¸c˜ao de segundo harmˆonico em cristais 37
Para atingir o processo de casamento de fase os ´ındices de refra¸c˜ao do feixe fundamental deve ser igual o segundo harmˆonico ao longo da dire¸c˜ao de propaga¸c˜ao dentro do cristal. Uma das t´ecnicas para satisfazer a eficiˆencia no casamento de fase ´e fazer o uso de cristais birrefringentes [18, 35, 39, 51, 52].
Quando o cristal est´a sob as condi¸c˜oes de ∆k > 0 ou ∆k < 0, conforme exibido na Fig. 3.9, a potˆencia do laser diminue quando atinge a condi¸c˜ao de casamento de fase e nessa situa¸c˜ao a potˆencia come¸ca a retornar ao fundamental. O comportamento dessa diminui¸c˜ao pode ser visto de acordo com a fun¸c˜ao senc mostrada na equa¸c˜ao (3.70) que estar relacionada com o comprimento do cristal n˜ao linear.
3.5 N˜ao linearidade em mol´eculas orgˆanicas 38
3.5
N˜
ao linearidade em mol´
eculas orgˆ
anicas
Os compostos orgˆanicos s˜ao constitu´ıdos por ´atomos de carbonos, que pertencem a fam´ılia IV-A da tabela peri´odica e apresentam valˆencia quatro e podem formar quatro liga¸c˜oes qu´ımicas covalentes envolvendo os orbitais 2s e 2p. Estes orbitais quando combi-nados formam orbitais h´ıbridos, sendo sua hibridiza¸c˜ao mais comum a sp3. O ´atomo de
carbono pode fazer quatro liga¸c˜oes simples com outros ´atomos numa geometria tetraedro [29, 48, 50]. Ao se ligarem com outros elementos para formar uma mol´ecula surgem os orbitais σ e π, devido a superposi¸c˜ao dos orbitais s e p.
Os compostos que cont´em as liga¸c˜oes do tipo π s˜ao chamados de insaturadas e as liga¸c˜oes σ s˜ao chamados de saturados. A alterna¸c˜ao dessas liga¸c˜oes ao longo de uma ca-deira estrutural formam os sistemas conjugados. A n˜ao linearidade em mol´eculas orgˆanicas ´e devido `as conjuga¸c˜oes presentes nas estruturas.
Quando uma mol´ecula ´e submetida a campos de radia¸c˜oes ocorre `a transferˆencia de el´etrons ao longo do sistema conjugado. Em vista disso, ocorre a gera¸c˜ao de um momento de dipolo induzido respons´avel pelo deslocamento dos el´etrons ao longo do comprimento do sistema conjugado [1, 48, 50]. De acordo com a Fig. 3.10, em ambas as extremidades do sistema conjugado π h´a grupos doadores e aceitadores de el´etrons adequados que pode melhorar a distribui¸c˜ao eletrˆonica devido a deslocaliza¸c˜ao dos el´etrons.
Figura 3.10: Sistema de compostos conjugados.
Na Fig. 3.11, exibimos as poss´ıveis transi¸c˜oes entre os n´ıveis eletrˆonicos de energia, sendo resultados da absor¸c˜ao de radia¸c˜ao eletromagn´etica na regi˜ao do UV-Vis [54]. As liga¸c˜oes π s˜ao mais fraca em rela¸c˜ao as transi¸c˜oes σ devido `a sobreposi¸c˜ao de orbital p e as deslocaliza¸c˜oes dos el´etrons das densidades eletrˆonicas. Geralmente, as transi¸c˜oes mais prov´aveis em orgˆanicos acontecem da transi¸c˜ao entre os estados ligantes π e n˜ao ligantes π∗
3.5 N˜ao linearidade em mol´eculas orgˆanicas 39
Figura 3.11: Espectro de transi¸c˜oes eletrˆonicas para compostos orgˆanicos. As transi¸c˜oes poss´ıveis em mol´eculas orgˆanicas est˜ao destacada em vermelho.
Na tabela 3.3 mostramos as ordens das transi¸c˜oes exemplificamos algumas classes de compostos orgˆanicos.
Tabela 3.3: Transi¸c˜oes eletrˆonicas para algumas classes de mol´eculas orgˆanicas
Transi¸c˜oes eletrˆonicas Classes de compostos
n→ σ∗ Oxigˆenio, Nitrogˆenio, Enxofre, Halogˆenios
n→ π∗ Compostos Carbon´ılicos
π→ π∗ Alcenos, Alcinos, Iminas, Carbon´ılicos e azo compostos
σ→ π∗ Compostos Carbon´ılicos
Cap´ıtulo 4
Materiais estudados e t´
ecnicas de
caracteriza¸c˜
ao
Neste cap´ıtulo ser˜ao descritas as t´ecnicas de an´alise utilizadas com o objetivo de carac-terizar as mol´eculas orgˆanicas estudadas nesta disserta¸c˜ao. Para obtermos a informa¸c˜ao sobre a estrutura cristalina, utilizamos a t´ecnica de difra¸c˜ao de raio-X m´etodo do p´o. As propriedades ´opticas lineares foram investigadas atrav´es das medidas de absor¸c˜ao linear. Para as propriedades ´opticas n˜ao lineares foram realizadas medidas de luminescˆenca exci-tada por laser, para identificar e caracterizar o processo de gera¸c˜ao de segundo harmˆonico e o uso t´ecnica do p´o de Kurtz e Perry para comparar os sinais obtidos.
4.1
Aspectos gerais dos compostos hidrazˆ
onicos
Os compostos hidrazˆonicos estudados nesta disserta¸c˜ao foram sintetizados pelo grupo de qu´ımica da Universidade Federal de S˜ao Jo˜ao Del Rei que obtiveram trˆes compostos distintos derivados de hidrazonas DBAs, os quais s˜ao candidatos a apresentarem n˜ao line-aridade de 2a ordem. Na figura 4.1, est˜ao esquematizadas as estruturas moleculares desses
compostos conhecidos na base de Claisen-Schmidt, seus respectivos nomes cient´ıficos se-gundo a IUPAC (Uni˜ao Internacional de Qu´ımica Pura e Aplicada) s˜ao expressos abaixo:
4.1 Aspectos gerais dos compostos hidrazˆonicos 41 • MSV1:[C23H20N2] → 1-(1E-4E)-(1,5-difenilpenta)-1,4-dien-3-ilideno -2- fenilhidra-zina. • MSV2:[C21H15N5O6] → (Z)-1-(2-4-dinitrofenil)-2-((E)-3-(4-nitrofenil)-1-fenilalilideno) hidrazina. • MSV3:[C23H18N4O4] → (Z)-1-(2-4-dinitrofenil)-2-((2E-4E)-1,5-dinitrofenilpenta-2,4-dien-1-ilideno) hidrazina. (a) MSV1 (b) MSV2 (c) MSV3
Figura 4.1: Representa¸c˜ao estrutural dos compostos hidrazˆonicos. (a) MSV1: Grupo hidrazˆonico ligado por trˆes fen´ois com duas liga¸c˜oes duplas e quatro simples ao longo da cadeira principal. (b) MSV2: Grupo hidrazˆonico ligado a trˆes fen´ois por uma liga¸c˜ao dupla e 3 liga¸c˜oes simples ao longo da cadeia, no fenol 1 h´a dois substituintes nas posi¸c˜oes para e meta, no fenol 3 um substituinte NO2 na
posi¸c˜ao para. (c) MSV3: Grupo hidrazˆonico ligado a trˆes fen´ois por duas liga¸c˜oes duplas e 4 simples ao longo da cadeia e um substituinte NO2 no fenol 1 nas posi¸c˜oes nas posi¸c˜oes para e meta.
4.1 Aspectos gerais dos compostos hidrazˆonicos 42
4.1.1
S´ıntese orgˆ
anica das mol´
eculas de hidrazona
A sintetiza¸c˜ao das mol´eculas estudadas, foram realizadas pelo grupo de qu´ımica da Universidade de S˜ao Jo˜ao del Rei, atrav´es de rea¸c˜ao por condensa¸c˜ao, sendo derivados de DBA dibenzalacetona e chalcona.
Hidrazona MSV1
O composto hidrazˆonico MSV1 ´e classificado como derivado de DBA e a descri¸c˜ao sua forma¸c˜ao segue abaixo:
• Em um bal˜ao de fundo redondo de 50mL em banho de gelo adicionou-se 3mL de etanol, 0,79mL (3 mmol) de acetona e 0,894g (6 mmol) de benzalde´ıdo. Em um b´equer de 50mL dissolveu-se 0,12g (3 mmol) de NaOH em uma solu¸c˜ao de 5mL de ´agua e 2mL de etanol. Ap´os a completa dissolu¸c˜ao do NaOH na solu¸c˜ao esta foi transferida ao bal˜ao sob agita¸c˜ao. A rea¸c˜ao foi acompanhada por CCD. Ap´os o t´ermino da rea¸c˜ao ( 24 horas) adicionou-se gelo `a solu¸c˜ao. Filtrou-se ent˜ao o s´olido formado e lavou-se com ´agua gelada. O produto foi obtido como sendo um s´olido com rendimento de ”93%”.
Hidrazona MSV2 e MSV3
Os compostos hidrazˆonicos MSV2 e MSV3 s˜ao classificados como derivados de chal-conas e a descri¸c˜ao da forma¸c˜ao segue abaixo:
• Em um bal˜ao de fundo redondo de 100mL contendo uma solu¸c˜ao de 0,4g (10 mmol) de NaOH e 1,17mL de acetofenona (10 mmol) em 15mL de etanol e 5mL de ´agua sob banho de gelo adicionou-se 1,51g (10 mmol) de benzalde´ıdo sob agita¸c˜ao. A rea¸c˜ao foi acompanhada por CCD. Ap´os o t´ermino da rea¸c˜ao (1 hora) adicionou-se gelo `a solu¸c˜ao. Filtrou-se ent˜ao o s´olido formado e lavou-se com ´agua gelada. O produto foi obtido como sendo um s´olido com rendimento de ”91%”.