• Nenhum resultado encontrado

Imagens do psicólogo para professores de curso pré-vestibular

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2021

Share "Imagens do psicólogo para professores de curso pré-vestibular"

Copied!
161
0
0

Texto

(1)

PEDRO AUGUSTO CROCCE CARLOTTO

IMAGENS DO PSICÓLOGO PARA PROFESSORES DE CURSO PRÉ-VESTIBULAR

Palhoça 2011

(2)

PEDRO AUGUSTO CROCCE CARLOTTO

IMAGENS DO PSICÓLOGO PARA PROFESSORES DE CURSO PRÉ-VESTIBULAR

Trabalho de Conclusão de Curso apresentado ao curso de Psicologia, da Universidade do Sul de Santa Catarina, como requisito parcial para obtenção do título de psicólogo.

Orientador: Prof. Iúri Novaes Luna, Dr.

Palhoça 2011

(3)

Dedico este trabalho aos meus professores, que me inspiraram a ser um psicólogo ético e sério. Também dedico a todos que acreditam na Psicologia como uma profissão necessária e útil à sociedade.

(4)

AGRADECIMENTOS

Enfim, os agradecimentos. Quero agradecer, antes de tudo, a esta entidade – alguns a chamam de Deus, alguns de Deusa, alguns de Espírito, Cosmos, e alguns não acreditam nela. Se é que esta entidade existe, penso-a como uma espécie de inteligência universal, que faz com que as coisas, por mais caóticas que sejam, tenham uma espécie de sentido e organização. Pode ser uma mentira que conto a mim mesmo para me tranquilizar. Porém, agradeço a ela aqui. Sei que, sempre que precisei, esta força universal sempre me deu uma “mãozinha”.

Quero agradecer, em segundo lugar, à minha mãe. Minha querida mãe. Sustentou-me durante todo este tempo. Aguentou todas as minhas exigências, os meus humores negativos, as minhas crises de angústia e as minhas revoltas contra a vida. Também sempre me incentivou, me fez ir para a frente. Soube ser mãe – que, no conceito do psicanalista Winnicott (aqui não vou citar referências, pois estou falando com minhas próprias palavras – pelo menos, aqui, nos agradecimentos, creio que posso me permitir esta liberdade), é saber conter os “ataques” e agressividade do filho e, ainda assim, manter-se estável e coesa. Falando assim, parece assustador o que Winnicott propõe. Na realidade, trata-se simplesmente de dizer, nos piores momentos (nas piores crises de angústia e mal-estar), um “eu te amo” – ainda que com gestos, ou que seja um “eu te amo” implícito. Minha gratidão não poderia ser mais eterna do que essa. Agora, ao me formar psicólogo, é minha vez de retribuir e mostrar: amadureci, cresci, estou maduro. Eu também te amo, mãe, e muito. Obrigado por tudo o que você me deu e o que tem me dado em minha vida. Não existem palavras para expressar esta gratidão. Mas tenho orgulho de ter você como mãe, pois és a pessoa mais maravilhosa que conheço. Sério mesmo.

Quero agradecer também ao meu pai. Meu pai que, desde o início, me apoiou e incentivou a fazer o curso de Psicologia. Meu pai que, durante todos esses anos, batalhou e suou para que eu conquistasse o meu diploma. Também foi meu pai quem me ensinou - e com muito amor – a procurar ser bom no que faço. Graças ao meu pai, tenho me locomovido em minha vida buscando sempre meu aperfeiçoamento e meu desenvolvimento. Acho que o tenho conseguido fazê-lo. Como prova, posso dizer que está aqui, quase em minhas mãos, o diploma de psicólogo. Dizer “obrigado”, nessas horas, é pouco.

(5)

Agradeço aqui à minha avó, Atir Lopes. Minha avó que sempre me ensinou a buscar a independência e a dignidade. Que me ensinou a não me contentar com pouco na vida. A querer e buscar sempre ser o melhor – para que eu possa, também, ter o melhor para mim, e exigi-lo. Muito obrigado, avó.

Agradeço a todos os meus parentes, de um modo geral, pelo apoio indireto ou direto que têm me dado durante todos estes anos. João Roberto Carlotto, meu irmão. Agradeço aqui, em especial, também, à minha tia, Rosaly Lopes – grande exemplo.

Aqui é o espaço para eu agradecer o que eu chamo – sem vergonha nenhuma – de minha “segunda família” na vida. Trata-se do meu grupo e da minha escola de dança. Em primeiro lugar, à minha “segunda mãe”: Athenè Tamisier. Athenè, nestes anos todos em que tem me acompanhado, muitas vezes agiu como uma verdadeira analista – sem ter feito Psicologia ou Psicanálise. Sabia interpretar o que eu estava sentindo – desde os sentimentos bons até os ruins – sabia quando eu estava para “baixo”, sabia quando o meu olho brilhava e até sabia dizer o porquê. Athenè me ensinou, antes de mais nada, a ser comprometido e a ter responsabilidade – valores que vão para muito além de uma mera obrigação moral. Agradeço, aqui, a ela. Aqui também é o momento para eu agradecer a todas as minhas amigas que fiz neste tempo, na dança. Todas. Vocês, todas, têm sido muito especial para mim. Durante todos estes anos, apoiaram-me e me deram todo o suporte emocional do qual eu necessitava – e do qual necessito, ainda. Isabel Barbato Silva, Gabrielli Veras, Flávia Barbosa, Melissa Queiroz, Juliana Leonardi, Gisele Flores, Marina Arienti, Youry Tamisier (não é “amiga”, mas é um dos meus camaradas mais próximos, o qual chamo, sim, de amigo), Serge Tamisier (também!), Marcella Schein, Alinne Volpato, Fernanda Senna, Oriana Bueno Hoeschl, Débora Pitol Maestri. Falo, aqui, das mais próximas. Todas, entretanto, fazem parte da minha vida e por todas eu tenho estima.

Agradecendo aos meus amigos da Psicologia. Alguns se formaram, já. Daniele Linke Fortes, Patrícia Luzia Becker, Luana Menegatti. Meu grande camarada, meu grandíssimo amigo, Wagner Witt. As minhas grandes amigas: Deise Stein, Gislaine Echeverria, Daniela Galdino, Mary Anne Borges (está se formando comigo agora), Mariana Rupp. Não vai ter espaço – e não estou com cabeça agora, pós-TCC, me desculpem – para lembrar de todas. Mas sei que vocês existem. Dedico, a vocês, meus votos de amizade eterna e um grande, um grande beijo no coração de todas(os).

Dedico, aqui, agradecimentos às atuais colegas de curso. Lara de Bruchard Costa, Kariny Louise Moser, Elaine Dias, Elisa Vianna Rossi, Daniele Albino, Girlane

(6)

Peres, Bárbara Torelly, Raquel Favretto. É muito bom contar com o apoio de todas. É muito bom poder ir à aula e ver vocês. É muito gratificante tê-las como amigas e colegas de curso. É extremamente ótimo ter vocês ao meu lado, no curso, compartilhando risadas, dores, dificuldades e os melhores e os piores momentos – e o laço de amizade sempre forte. Quero agradecer muito a vocês. O apoio que têm me dado...não tem dedicatória, não tem agradecimento que expresse a minha gratidão e o meu amor por vocês.

Agradeço aqui, também, ao meu grande orientador, Iuri Novaes Luna. Um abraço especial para Geórgia Neuza e Fernanda Terezinha dos Santos, colegas de TCC. Iuri foi meu professor na sexta fase, e também no Núcleo Orientado do Trabalho. Logo mais, fui monitor (segundo semestre já) das disciplinas referentes à Psicologia das Organizações e do Trabalho, tendo ele como supervisor. Aprendi muito nestes anos com Iuri Luna. Grande parte do sucesso deste trabalho que apresento, aqui, foi pelas ideias e pela garra deste homem. Agradeço, aqui, a ele.

Agradeço também a todos os professores que fizeram parte da minha formação acadêmica. Nádia Kienen é uma das mais significativas, pois fiz estágio com ela e também projeto de iniciação científica. Nádia me influenciou muito com a sua paixão pela ciência e pela Psicologia. Obrigado por tudo, Nádia. Agradeço, aqui, também, ao grande coordenador do curso, Paulo Roberto Sandrini – excelentíssimo homem. Apoiando-me incondicionalmente no que era necessário, sempre. Muito obrigado. Vou agradecer, também, à professora Jacqueline Virmmond Vieira. Jacqueline me ensinou a ter paixão, gosto e respeito – bem como desejo – pela Psicanálise e pela carreira de psicanalista. Agradeço, também, obviamente, à professora Maria do Rosário Stotz. Mesmo tendo perdido um pouco de contato com a professora ao final do curso (pois optei pelo Núcleo Orientado em Psicologia e Trabalho Humano, do qual a professora não faz parte), sempre a adorei e continuo a adorando. Espero ainda tomar uns bons cafés e conversar sobre tudo contigo, Rosário! Vou agradecer, também, aos demais professores que foram muito importantes para mim: Maurício Eugênio Maliska, Carolina Bartilotti, Maria Ângela Machado, Cristiani Peixoto, Anita Bacellar, Ingrid Taís Beltrame Coelho, professora Isabel (da Fisiologia), Marilene Dellagiustina, Ana Maria Pereira Lopes, Zuleica Pretto, Rosana Cunha, Ilma Borges. Com certeza aos queridíssimos Leandro Castro Oltramari (Leandrão!) e Regina Ingrid Bragagnolo. Não vou me recordar de todos, entretanto.

(7)

Agradeço aqui, também, a Pedro Murara, que me apoiou bastante durante a trajetória da construção deste trabalho. Agradeço ao amigo Guilherme Mayer Amin (“adêvogado”), que também é meu grande chapa e sempre tem me apoiado. Ao amigo Diogo, por todo o apoio que tem me dado durante todo esse tempo – e todo o incentivo também.

Por último, mas não menos importante, quero agradecer a um homem. Este homem foi quem me possibilitou, também, indiretamente, a chegar aqui onde estou. Ainda tenho uma história a percorrer, acredito, com ele. Tem-me sido importantíssimo. Tanto na minha formação profissional quanto na formação pessoal. Sem ele, não teria chegado aqui. Quero agradecer a este homem o qual ouviu e suportou todas as minhas queixas, angústias, dúvidas, mal-estares, desejos, confusões, abstrações, mecanismos de defesa, frustrações, “viagens”, insanidades, loucuras e sentimentos, de forma geral. Quero agradecer a ele que, continuamente, ouve-me e me dá o apoio que preciso – bem como o limite e as pontuações necessárias para que eu “cresça” (“cresça e apareça”). Sem dúvida, é uma das pessoas mais importantes, atualmente, na minha vida. Sei que eu não o sou, na vida dele – e é até melhor que eu nem o seja, considerando a ética da Psicanálise. Entretanto, a carreira de psicanalista pode ser frustrante quando não se tem, às vezes (nem que seja só às vezes) o devido reconhecimento do paciente. Existe como agradecer – e falo de uma forma que vá para além do dinheiro investido toda semana – a alguém que se presta a este papel? Que se presta a ouvir, a suportar, a pontuar, a intervir, a ajudar, a orientar, a “analisar”, a permitir que você, cada vez mais, se expresse e reconheça quem você é, na realidade? A Psicanálise, dizem uns, pode ser uma grande bobagem. Não é comprovada cientificamente, não é uma teoria atual, e “blá blá blá”. Mas não existe nada que se compare ao valor de ter alguém que exerça este papel com você. O papel de ouvir suas fantasias, seus devaneios, suas “bobagens” – sem te julgar ou falar mal de você. Ou te dar conselhos. Sim. Estou falando do meu analista, Juan Carlos Montero. Obrigado por tudo, Juan. Você é especial, para mim, de uma forma que nem imagina. Muito obrigado.

(8)

CARLOTTO, Pedro Augusto Crocce. Imagem do psicólogo para professores de curso pré-vestibular. Trabalho de Conclusão de Curso (Graduação em Psicologia) – Universidade do Sul de Santa Catarina, Palhoça, 2011.

Muito se tem pesquisado sobre a profissão de Psicologia na perspectiva de psicólogos e estudantes de Psicologia. Entretanto, pouco se tem estudado sobre a visão da sociedade sobre esta profissão. Assim sendo, o presente trabalho teve como objetivo verificar a imagem que professores de curso pré-vestibular tem sobre o psicólogo. Trata-se de uma pesquisa qualitativa, delineada como um levantamento. Foram entrevistados vinte e sete professores atuantes no terceiro ano do ensino médio e no ensino pré-vestibular de uma instituição particular de ensino localizada em Florianópolis (SC). Os professores foram escolhidos como sujeitos pelo fato de serem atores centrais em suas redes sociais e estabelecerem uma quantidade significativa de laços fracos. Desta forma, tem-se que estes professores são atores com grande potencial de transmissão de informações na rede. A instituição foi selecionada devido à significativa quantidade de alunos matriculados em relação as demais escolas. Foram realizadas entrevistas estruturadas contendo perguntas a respeito do perfil do psicólogo, locais de atuação, atividades que realiza, objetivo do seu trabalho, remuneração e possibilidades de atuação profissional. Além disso, foram apresentadas figuras (casa, carro, música, atividades de lazer, filme, pessoas, atividades de trabalho) a fim de coletar informações sobre a percepção que os entrevistados têm do psicólogo. A análise destes dados foi realizada mediante análise de conteúdo dos dados, estruturando-se as seguintes categorias a posteriori: contato com psicólogo; trabalho do psicólogo; perfil do psicólogo. Foi realizada também a análise quantitativa da ocorrência de indicações das figuras por categoria. Como resultado, constatou-se que a maioria dos professores tem a imagem do psicólogo como sendo uma pessoa calma, paciente e culta, com hábitos e gostos sofisticados, com elevado capital cultural. Os professores relacionam o trabalho do psicólogo com a área Clínica, não excluindo, entretanto, outras possibilidades. Tem-se que o objetivo principal do psicólogo, apontado pela maioria dos entrevistados, é a compreensão e ajuda ao ser humano na solução de problemas de natureza psicológica. A questão da profissão de psicólogo ser considerada feminina não se destacou em relação à imagem do psicólogo apresentada pelos entrevistados, em contraposição a resultados encontrados em outras pesquisas. Em relação à renda, a maior parte dos entrevistados acredita que o psicólogo recebe má remuneração e deveria ser um profissional mais valorizado pela sociedade. Os professores entrevistados visualizam um campo de atuação amplo para o trabalho do psicólogo; maior, inclusive, do que os próprios psicólogos percebem, de acordo com resultados de outras pesquisas.

Palavras-chave: Psicologia como profissão, imagem do psicólogo, profissão de psicólogo

Núcleo Orientado: Psicologia e Trabalho Humano Orientador: Iuri Novaes Luna

Membros da banca: Paulo Roberto Sandrini e Nádia Kienen Data, hora e local da defesa: 21/11, 19h10min

(9)

SUMÁRIO Sumário ... 9  1 INTRODUÇÃO ... 11  1.1 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA ... 11  1.2 OBJETIVOS ... 18  1.2.1 Objetivo geral ... 18  1.2.1 Objetivos específicos ... 18  2 REFERENCIAL TEÓRICO ... 19  2.1 A PSICOLOGIA BRASILEIRA ... 19 

2.1.1 O problema do objeto de estudo da Psicologia... 19 

2.1.2 O problema do mito do psicólogo clínico ... 22 

2.1.3 O problema sobre o que a sociedade pensa do psicólogo... 25 

2.2 REDES SOCIAIS ... 29 

2.2.1 Introdução ao conceito de redes ... 29 

2.2.2 Conceitos sobre redes sociais ... 30 

2.2.3 Laços fracos e informação ... 35 

2.2.4 Redes sociais e formadores de opinião ... 37 

2.2.5 O professor como ator central ... 41 

3 MÉTODO ... 44 

3.1 TIPO DE PESQUISA ... 44 

3.2 PARTICIPANTES OU FONTES DE INFORMAÇÃO ... 45 

3.3 EQUIPAMENTOS E MATERIAIS ... 46 

3.4 SITUAÇÃO E AMBIENTE ... 46 

3.5 INSTRUMENTO DE COLETA DE DADOS ... 46 

3.6 PROCEDIMENTOs ... 49 

3.6.1 Da seleção dos participantes ou fontes de informação ... 49 

3.6.2 De contato com os participantes ... 50 

3.6.3 De coleta e registro dos dados ... 50 

3.6.4 De organização, tratamento e análise dos dados ... 52 

4 ANÁLISE E INTERPRETAÇÃO DOS RESULTADOS ... 54 

4.1 CONTATO COM O PSICÓLOGO ... 54 

4.2 PERFIL DO PSICÓLOGO ... 54 

4.2.1 Personalidade do psicólogo ... 54 

4.2.2 Gostos e interesses do psicólogo ... 63 

4.3 TRABALHO DO PSICÓLOGO ... 88 

4.3.1 Mercado de trabalho e campo de atuação ... 88 

4.3.2 Público-alvo e objetivo do trabalho do psicólogo ... 98 

4.3.3 Indicações por figuras referentes ao trabalho do psicólogo ... 103 

4.5 A CARA DO PSICÓLOGO ... 119 

5 CONSIDERAÇÕES FINAIS ... 122 

REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ... 127 

ANEXO B – FIGURAS DO ROTEIRO DE ENTREVISTA ... 138 

APÊNDICES ... 146 

APÊNDICE A – Categorização das variáveis de pesquisa e roteiro de entrevista 147  APÊNDICE B – CATEGORIZAÇÃO DAS VARIÁVEIS DE PESQUISA ... 149 

(10)
(11)

1 INTRODUÇÃO

O presente trabalho está vinculado ao curso de graduação em Psicologia da UNISUL (Universidade do Sul de Santa Catarina) – campus Norte, Unidade Pedra Branca. No presente curso, há dois núcleos orientados que visam à uma formação específica – os quais são escolhidos ao aluno chegar à oitava fase do curso. O curso tem formação pluralista e generalista. Contudo, há a formação específica em uma das áreas, denominadas de núcleos orientados (compostos por estágios obrigatórios, disciplinas e trabalho de conclusão de curso). Tais áreas são o Núcleo Orientado em Psicologia e Trabalho Humano e o Núcleo Orientado em Psicologia e Saúde.

No Núcleo Orientado em Psicologia e Trabalho Humano, há dois projetos que visam o aprofundamento em temáticas da área da Psicologia das Organizações e do Trabalho. Estes projetos são o projeto Desenvolvimento Humano no Trabalho (DHT) e o projeto Desenvolvimento Humano nas Organizações (DHO). O Desenvolvimento Humano no Trabalho (DHT) visa a estudar a relação do homem com o trabalho, independente do âmbito das organizações formais do trabalho – diferente do projeto Desenvolvimento Humano nas Organizações (DHO), que estuda o desenvolvimento do homem vinculado a estas organizações.

Propôs-se o estudo da temática Psicologia como profissão para este trabalho de conclusão de curso, vinculado ao projeto DHT. A vinculação estaria na questão do próprio estudo da profissão do psicólogo e de como o trabalho deste profissional se relaciona com a sociedade brasileira.

1.1 PROBLEMÁTICA E JUSTIFICATIVA

A profissão de psicólogo é pesquisada por psicólogos desde sua regulamentação, em 1962. De acordo com Yamamoto e Amorim (2010), um ano após, em 1963, houve publicação de um número especial do Boletim de Psicologia, editado pela Sociedade de Psicologia de São Paulo, no qual questões como a formação acadêmica e a situação da profissão do psicólogo foram abordadas. Em 1975, Sylvia Leser de Mello publicou sua

(12)

pesquisa pioneira acerca da Psicologia como profissão (MELLO, 1989), constituindo um “levantamento exaustivo dos psicólogos formados em São Paulo até 1970” (CARVALHO, 1982, p.6) com amostra de aproximadamente 200 psicólogos. Percebe-se, portanto, que a profissão de psicólogo é estudada desde sua regulamentação.

Em 1982, Carvalho e Kavano realizaram pesquisa novamente com os psicólogos de São Paulo (CARVALHO, 1982; CARVALHO; KAVANO, 1982). Posteriormente, o Conselho Federal de Psicologia, em parceira com os Conselhos Regionais de Psicologia do Brasil, desenvolveu pesquisa em âmbito nacional com os psicólogos brasileiros das diferentes regiões do país, totalizando 2.448 psicólogos (BASTOS; GOMIDE, 1989). Desde então vem sendo realizados estudos acerca do psicólogo brasileiro, investigando estudantes de Psicologia e psicólogos acerca das concepções que têm sobre sua profissão, sua atuação profissional, sua formação acadêmica e motivações para atuar em Psicologia (PICCININI; PESSIN; JOTZ, 1989; LEME; BUSSAB; OTTA; 1989; JAPUR, 1994; WEBER; RICKLI; LIVISKI, 1994; MOTTA et al, 1995; CASTRO; YAMAMOTO, 1998; JAPUR; OSÓRIO, 1998; CAMPOS; LARGURA; JANKOVIC, 1999; MAGALHÃES et al, 2001; BUENO; LEMOS; TOMÉ, 2004). Percebe-se que a preocupação em investigar qual a concepção que os psicólogos têm a respeito de sua profissão é constante e se estende no tempo, sendo, aparentemente, um problema a ser investigado cientificamente.

Também reflexões acerca da formação do psicólogo e da sua atuação profissional foram realizadas por diversos estudiosos na área (FELIPPE, 1993; MELO, 1996; BOCK, 1997; TOURINHO; NETO; NENO, 2004; ELDEIWEIN, 2005; NASCIMENTO; MANZINI; BOCCO, 2006; DANTAS; OLIVEIRA; YAMAMOTO, 2010). Tais reflexões visam a discutir sobre a necessidade de o psicólogo diversificar seu campo de atuação, incentivá-lo a pesquisar (e propor currículos acadêmicos que incentivem a pesquisa científica) e moldar sua atuação profissional em conformidade com as necessidades brasileiras, e não com modelos estereotipados da profissão. Percebe-se que estas reflexões não se deram apenas em um determinado momento da história da profissão de psicólogo no país, pois até hoje elas são realizadas – motivadas, possivelmente, por evidências da prática profissional do psicólogo que ressaltam a necessidade de esta ser cada vez mais pensada, criticada e discutida.

Os estudos atuais sobre a profissão do psicólogo revelam resultados e preocupações semelhantes aos encontrados por volta do final da década de 1980 – e mesmo com dados já evidenciados pela primeira pesquisa de Mello, em 1975 (CARVALHO, 1982). Castro e Yamamoto (1998) evidenciam a Psicologia como uma profissão ocupada, em sua maioria, por pessoas do sexo feminino, bem com uma tendência à atuação concentrada na

(13)

área clínica e índice significativo de remunerações baixas pelo serviço prestado. Sua pesquisa corrobora dados já encontrados por Bastos e Gomide (1989), no tocante à Psicologia tendo um grande contingente de psicólogos atuando na área Clínica e sendo do sexo feminino. Motivações para a Psicologia Clínica também são evidenciadas em outros estudos.(CARVALHO; KAVANO, 1982; CARVALHO; 1982; BASTOS; GOMIDE, 1989; MAGALHÃES ET AL, 2001). Mello (2010) afirma que, mesmo tendo se passado cerca de trinta anos após seu primeiro levantamento de 1975 sobre o perfil profissional do psicólogo, algumas características acerca de preferência por área de atuação e formação acadêmica relativas à Psicologia ainda se mantêm.

Carvalho (1982), ao discutir sobre sua pesquisa, determina três possíveis categorias de fatores que influenciam a identidade profissional do psicólogo: a formação recebida durante a graduação; as motivações, desejos, anseios e características pessoais dos próprios psicólogos e as condições que o mercado de trabalho oferece para este profissional – que reflete, de certo modo, a concepção que a sociedade tem dele. Nas palavras da autora acerca das condições de trabalho do psicólogo, “estas, por sua vez, são determinadas por fatores como o conceito que a sociedade tem do trabalho do psicólogo e as necessidades que a sociedade identifica ou reconhece e que poderiam ser atendidas por este trabalho” (CARVALHO, 1982, p.9, grifo nosso). Estas três categorias se influenciam mutuamente na construção da identidade profissional do psicólogo. Nas palavras da autora, “não é necessária muita reflexão para perceber que nenhum desses fatores pode ser pensado isoladamente” (CARVALHO, 1982, p.9).

Acerca da formação universitária do psicólogo, muito se tem estudado. Piccinini, Pessin e Jotz (1989) estudaram o modo como psicólogos formados no Rio Grande do Sul avaliam sua formação acadêmica. Gomide (1988) aponta falhas na graduação em Psicologia, percebidas por psicólogos. Langenback e Negreiros (1988) discutem a respeito dos psicólogos investirem maciçamente em formações complementares à graduação, como se esta fosse deficitária ou insuficiente. Weber, Rickli e Liviski (1994) basearam-se em estudo feito com estudantes de Psicologia ingressantes entre os anos de 1988 a 1992 para discutir como a formação acadêmica influencia os psicólogos a atuarem de maneira repetitiva, estereotipada e convencional; bem como contribui para manter uma representação social, no imaginário destes estudantes, do psicólogo atuando de formas tradicionais. Moura (1999) analisou as graduações em Psicologia do Brasil e propõe reflexões sobre elas, a partir da análise das Diretrizes Curriculares (MEC/SESU).

(14)

Também sobre a percepção dos estudantes de Psicologia se tem estudado bastante, especialmente no tocante às suas motivações e preferências por atuação na Psicologia e concepção que têm da sua profissão. Carvalho e outros (1988) pesquisaram a respeito dos interesses de psicólogos pela Psicologia – no que diz respeito ao seu campo de atuação. Leme, Bussab e Otta (1989) investigaram a concepção que estudantes de Psicologia têm acerca da imagem social da profissão de psicólogo. Magalhães e outros (2001) investigaram a respeito das motivações pelas quais estudantes de Psicologia optam por esta carreira, e no que esperam trabalhar quando formados. Carvalho (1982) e Carvalho e Kavano (1982) já estudaram a respeito das motivações dos psicólogos de São Paulo em atuar em Psicologia, bem como as concepções que eles fazem de suas atuações. Os estudos sobre as motivações e interesses pessoais dos psicólogos pela sua profissão, assim como os estudos sobre a formação acadêmica em Psicologia, são extensos e dispõem de considerável acervo bibliográfico.

Sobre a representação social do psicólogo na perspectiva da sociedade, contudo, há menos estudos do que sobre motivações dos psicólogos a atuar em Psicologia e formação acadêmica dos psicólogos. Pode-se verificar que os existentes, também, têm menor abrangência, se comparados com os estudos sobre os outros fatores descritos por Carvalho (1982). More, Leiva e Tagliari (2001) pesquisaram, em um posto de saúde de Florianópolis (SC), a concepção que profissionais da área da saúde e usuários do serviço de Psicologia deste tinham acerca do psicólogo. Praça e Novaes (2004) pesquisaram estudantes graduandos do penúltimo ano de uma universidade na cidade do Rio de Janeiro. Estudos sobre a representação social do psicólogo também são encontrados no trabalho de Cenci (2006) e Lahm e Boeckel (2008). Cenci (2006) verificou a concepção de famílias em um bairro pobre de uma cidade do Rio Grande do Sul sobre o psicólogo. Lahm e Boeckel (2008) pesquisaram a concepção que frequentadores de uma clínica-escola tinham a respeito do psicólogo. Souza e Trindade (1990) pesquisaram a concepção de pessoas de classe baixa e média da cidade de Vitória (ES) sobre a representação social do psicólogo para elas.

Contudo, estes estudos a respeito da representação social do psicólogo no Brasil revelam que este é visto como um “médico diferente”, que utiliza primariamente de conversas, orientações e escuta para tratar pessoas com problemas emocionais – por vezes, pessoas estas que não têm grandes ocupações na vida. Em todos os estudos (MORE; LEIVA; TAGLIARI, 2001; PRAÇA; NOVAES, 2004; CENCI, 2006; LAHM; BOECKEL, 2008) a representação social do psicólogo é relativamente parecida. As pessoas percebem o psicólogo como sendo primariamente um profissional que trata de pessoas com angústias, problemas

(15)

emocionais ou outras enfermidades mentais. Não utiliza de medicações, mas intervém através da escuta, da conversa, de orientações.

É perceptível, portanto, que sobre a temática Psicologia como profissão, há mais estudos sobre a concepção dos próprios psicólogos (sejam graduandos em Psicologia ou psicólogos já formados) acerca de sua profissão do que a concepção da sociedade sobre quem é o psicólogo brasileiro. Em outras palavras, pesquisa-se menos o que a sociedade – consumidora dos serviços do psicólogo – pensa a respeito deste profissional do que o que os próprios psicólogos pensam a respeito de si mesmos. Além do quê, os estudos sobre a imagem que a sociedade tem do psicólogo se baseiam em populações específicas; como algumas pessoas freqüentadoras de um posto de saúde, ou algumas famílias de determinada localidade. É diferente dos estudos sobre o que os psicólogos pensam a respeito de si, que costumam ser bastante extensos e pesquisam grandes contingentes populacionais – desde os clássicos estudos de Carvalho e Kavano (1982) até as pesquisas sobre quem é o psicólogo brasileiro (CONSELHO FEDERAL DE PSICOLOGIA, 1988, 1994).

Este estudo presente, então, visa a contribuir cientificamente com a produção bibliográfica sobre a representação social do psicólogo. Ao invés de pesquisar populações específicas demais e limitadas, procurar-se-á investigar a concepção de pessoas que são capazes de disseminar suas opiniões para muitas outras. Pessoas, estas, dotadas de grande quantidade de relacionamentos interpessoais; e que ocupam uma posição em seu grupo social que lhes permita não só serem identificadas como figuras de referência, mas também capazes de estabelecer muitas relações com diferentes pessoas – ainda que relações superficiais. Tem-se que estas pessoas são grandes veiculadoras de informação. Ao Tem-se investigar a concepção que estas pessoas têm acerca do psicólogo, aproxima-se de descobrir qual possível imagem do psicólogo estas pessoas possam, porventura, estar divulgando frente à sociedade.

Descobrir como a imagem do psicólogo é difundida e propagada pode permitir verificar qual possível concepção a sociedade tem do psicólogo. Isso inclui não apenas quem ele é, mas principalmente com que tipo de fenômenos trabalha e de que modo pode contribuir para a sociedade com o seu trabalho – se é que esta sociedade percebe alguma relevância social no trabalho do psicólogo. Isto ajudaria a repensar as práticas e concepções que se tem acerca da Psicologia na perspectiva dos próprios psicólogos. Isto é, o que este profissional está fazendo de útil para o meio social no qual vive? Como ele pode contribuir para promover saúde?

A pesquisa com estudantes de Psicologia e psicólogos tende a tornar a Psicologia uma profissão “autofágica”, uma vez que é um sistema onde os próprios profissionais (futuros

(16)

e atuais profissionais, em virtude de se tratarem de estudantes e psicólogos já graduados) pesquisam a respeito de si mesmos. Isto é, o que eles próprios pensam sobre sua profissão, sua atuação profissional, e de que modo podem melhorá-la. Japiassú (1979, p. 89) afirma que:

talvez fosse correto dizer que um psicólogo obcecado pelas medidas e pelas técnicas assemelha-se a um marceneiro que, ao preocupar-se excessivamente com a limpeza de suas ferramentas, termina por esquecer-se de trabalhar a madeira; ou a um açougueiro que, de tanto amolar suas facas, não se dá mais conta de que elas são feitas para cortar a carne.

Pode-se pensar que o autor critica, de certo modo, essa “autofagia” da Psicologia em continuamente pesquisar a si própria, sem pesquisar, contudo, o que a sociedade – consumidora e público-alvo do seu serviço – imagina que é este profissional e o que demanda dele. O fato de haver poucos estudos sobre a concepção da sociedade acerca do trabalho do psicólogo não reflete apenas uma carência científica. Reflete, também, uma necessidade social a ser pesquisada. Isto é, quem é este psicólogo para a sociedade?

A relevância – e também o impacto disto – vai para além da ciência. Tem-se que uma profissão, de acordo com Botomé e Rebellato (1999), deve não apenas se ater às demandas já estruturadas da sociedade (denominadas pelos autores de “mercado de trabalho”). De acordo com os autores, uma profissão – e em específico, profissões de ensino superior – deve buscar atender necessidades sociais. Nesta perspectiva, é importante pesquisar o que a sociedade necessita. Como o psicólogo poderia ajudar a atender esta demanda? O que essa sociedade espera e do que ela precisa em relação a este profissional?

Tem-se que a sociedade, aqui, não ocupa um espaço meramente como centro demandante dos serviços do psicólogo. Na perspectiva apontada por Carvalho e Kavano (1982), a imagem que a sociedade tem sobre o psicólogo é um dos três pilares que influenciam na construção da atuação psicológica. Portanto, além de a imagem social do psicólogo ser influenciada pela atuação que ele exerce na sociedade, ela também influencia este modelo de atuação. Neste circuito que se retroalimenta, tem-se que os espaços que a sociedade disponibiliza para o psicólogo poder atuar (bem como quais tipos de trabalho ele pode realizar ou não) é influenciada pela imagem que ela tem dele. Essa imagem, por sua vez, influencia os próprios psicólogos em sua atuação com esta sociedade. Em virtude de se requerer uma profissão cada vez mais comprometida com a sociedade e atuando em consonância com ela (com suas necessidades e demandas), é necessário que seja descoberto o que esta sociedade pensa, afinal, sobre quem é o psicólogo brasileiro.

(17)

Será investigada uma parte desta sociedade, que são professores de um curso pré-vestibular de notoriedade em Florianópolis (SC). A razão por pesquisar estes professores é pelo recorte de um segmento da sociedade. Segmento este, no caso, relevante pela quantidade de pessoas que têm relações com este público-pesquisado – são atores centrais com grande quantidade de ligações fracas. Isto é, pessoas que são figura de referência e popularidade (gozam de prestígio social importante, neste caso, possuindo liderança do tipo carismática muitas vezes) e que se relacionam com muitas pessoas (grande quantidade de estudantes no curso pré-vestibular). O problema de pesquisa, neste caso, é: qual a imagem que professores de um curso pré-vestibular de Florianópolis (SC) têm a respeito do psicólogo?

(18)

1.2 OBJETIVOS

1.2.1 Objetivo geral

Caracterizar a imagem que professores de curso pré-vestibular têm a respeito do psicólogo.

1.2.1 Objetivos específicos

Caracterizar a imagem que professores de curso pré-vestibular têm a respeito do perfil do profissional de Psicologia;

Caracterizar a imagem que os sujeitos investigados têm quanto ao campo de atuação profissional do psicólogo;

Caracterizar a imagem que os sujeitos investigados têm a respeito do mercado de trabalho disponível para o psicólogo;

Caracterizar a imagem que os sujeitos investigados têm a respeito do tipo de público com o qual o psicólogo trabalha;

Caracterizar a imagem que os sujeitos investigados têm a respeito dos objetivos do trabalho do psicólogo.

(19)

2 REFERENCIAL TEÓRICO

2.1 A PSICOLOGIA BRASILEIRA

2.1.1 O problema do objeto de estudo da Psicologia

No Brasil, antes da regulamentação da profissão de psicólogo, as atividades em Psicologia poderiam ser exercidas por qualquer profissional sem necessariamente este ter uma formação nesta área. Pessotti (1988) discorre que, mesmo antes da regulamentação, estudos e práticas em Psicologia eram exercidos no Brasil. A Faculdade de Medicina do Rio de Janeiro e a Faculdade da Bahia são exemplos de instituições de ensino que realizavam estudos e experimentos na área de Psicologia, conduzidos essencialmente por profissionais da área da Medicina. Em 1934, ainda de acordo com o autor (PESSOTTI, 1988), a Psicologia passou a ser disciplina obrigatória nos cursos de ensino superior em Filosofia, Ciências Sociais e Pedagogia; bem como em todos os cursos de licenciatura do país. Portanto, antes da regulamentação da profissão de psicólogo, atividades relacionadas à Psicologia e ao trato com o fenômeno psicológico eram exercidas por profissionais de outras áreas; como Medicina, Filosofia e Pedagogia (ROSAS, ROSAS, XAVIER, 1988). Isto ocorreu devido ao fato de, simplesmente, a profissão de psicólogo no Brasil ainda não ser regulamentada – e, portanto, ainda não existir, de certa forma.

A regulamentação da profissão de psicólogo no Brasil, em 1962, repercutiu em sua legalização – que implicou no fato de que apenas pessoas com diploma de psicólogo poderiam exercer atividades específicas desta profissão. De acordo com Becker (2010, p.16), “o exercício da profissão ficou condicionado à obtenção de um título formal, ou seja, passaram a ser considerados Psicólogos aqueles que possuem ensino superior em Psicologia”. Isso gerou também, de acordo com Mello (1989), a criação do curso superior em Psicologia, oferecido em São Paulo na USP e na PUC. É perceptível, portanto, que a profissão regulamentada de psicólogo no Brasil é recente; sendo que, antes desta regulamentação, pessoas de outras áreas do conhecimento exerciam práticas específicas do campo de atuação da Psicologia. Portanto, a identidade profissional do psicólogo no Brasil é recente, uma vez

(20)

que, até então, outros profissionais poderiam atuar como psicólogos sem necessariamente terem obtido esta titulação específica.

A questão do objeto de estudo da Psicologia é polêmica. Na perspectiva de Bock, Furtado e Teixeira (2002), a Psicologia é uma ciência recente, cujo objeto de estudo não encontra uma unicidade de definição em vista das várias teorias que compõem a Psicologia. Este pensamento é corroborado por autores como Doron e Parot (1998), Davidoff (2001), Gazzaniga e Heatherton (2005) e VandenBos (2010). Na perspectiva destes autores, a Psicologia é uma ciência composta por várias sub-áreas – todas dentro de uma grande área do conhecimento denominada Psicologia, porém, com enfoques, estudos e fenômenos observados diferentes. Na perspectiva de Davidoff (2001, p.8):

É desnecessário dizer que nenhum ser humano poderia dominar toda a psicologia. É duvidoso até que uma pessoa possa dominar completamente uma única subárea. De fato, há tanta informação, que os psicólogos tendem a se especializar no que se poderia chamar de subáreas. Um psicólogo social tenderá a se especializar em uma área secundária: talvez agressividade ou preconceito. Um psicólogo clínico poderá especializar-se em uma técnica terapêutica específica ou em um único distúrbio.

Entretanto, esta diversidade de sub-áreas não tem uma implicação apenas no sentido de que o campo onde o psicólogo pode atuar é vasto. Traduz-se, também, em uma discussão sobre a diversidade de objetos de estudo científicos. Afinal, a Psicologia seria uma ciência com diversas teorias que estudam o mesmo fenômeno, ou essas diferentes teorias estudariam fenômenos diferentes? Bock, Teixeira e Furtado (2002) afirmam que a Psicologia se constituiu como área do conhecimento no final do século XIX. Davidoff (2001, p.12) afirma que “o início do século XX testemunhou o surgimento e desenvolvimento de movimentos rivais na psicologia. Todos eles ajudaram a modelar nossa atual e ainda desagregada área”. Portanto, percebe-se que a diversidade de teorias psicológicas traz, também, divergências sobre o objeto de estudo desta grande área do conhecimento chamada Psicologia. Figueiredo (1989 p.195), a este respeito, afirma que “a pluralidade de enfoques metodológicos, de tentativas de fundamentação epistemológica e, principalmente, de doutrinas é um fato reconhecido, e freqüentemente lastimado, por todo aquele que se dedica ao estudo da Psicologia”.

Autores como Davidoff (2001), Bock, Furtado e Teixeira (2002), Gazzaniga e Heatherton (2005) e VandenBos (2010) têm um consenso de que, de todo modo, a Psicologia caracteriza-se como uma ciência. Entretanto, Figueiredo (2000) critica a noção da Psicologia como uma ciência “como outra qualquer”. Para o autor, um dos grandes problemas da

(21)

Psicologia como ciência, além da diversidade de teorias psicológicas (cada qual com uma visão de homem, orientada por pressupostos teóricos e metodológicos específicos) é a questão da objetividade desta ciência. Para o autor, a questão da Psicologia estudar o ser humano traz a polêmica entre a não-separação do cientista-observador (que também é um ser humano) em relação ao fenômeno estudado.

Acerca da situação da diversidade de objetos de estudo da Psicologia, de acordo com Figueireido (2000), ainda não se chegou a uma conclusão. Há uma tentativa, de acordo com ele, de que a Psicologia cada vez mais se unifique como área do conhecimento (respeitando a multiplicidade de abordagens teóricas, ainda assim), ao invés de tornar cada diferente teoria psicológica uma espécie de ciência independente que, provavelmente, seria incorporada a outras áreas do conhecimento (como a Biologia, a Sociologia). Entretanto, ele afirma que:

A situação da psicologia científica, portanto, é curiosa. Por um lado, reivindica um lugar à parte entre as ciências (e para isso criam-se faculdades e institutos de pesquisa em psicologia); ao mesmo tempo o psicólogo prático exige que sua competência específica seja reconhecida (e para isso existem órgãos como os conselhos de psicologia que excluem a presença de outros profissionais nas áreas de atuação legalmente reservadas ao psicólogo). Por outro lado, não conseguiu se desenvolver sem estabelecer relações cada vez mais estreitas com as ciências biológicas e com as da sociedade (FIGUEIREIDO, 2000, p.16).

Isto corrobora o pensamento de Japiassú (1979), ao afirmar que “torna-se impossível à psicologia assegurar-se uma unidade metodológica”. Para este autor, é uma tarefa impossível determinar uma unidade de objeto de estudo, considerando-se as diferentes teorias em Psicologia. A conseqüência disto, para a prática profissional do psicólogo, é uma crise de identidade. Carvalho e Kavano (1982) já apontaram que, possivelmente, a falta de uma unidade teórica e metodológica em Psicologia é um fator que enfraquece a identidade profissional do psicólogo. Figueiredo (2000) afirma, a este respeito, que o psicólogo muitas vezes é visto – pela sociedade e também pelos próprios psicólogos – sem muita clareza a respeito de quem ele é e o que ele faz, precisamente. Fato, este, já apontado por Carvalho e Kavano (1982), uma vez que estas autoras descobriram que os psicólogos tinham pouca clareza sobre o que era, de fato, o objeto de estudo da Psicologia – o que fazia estes psicólogos identificarem-se muito mais com técnicas do que com estratégias de intervenção. Um destes exemplos é a psicoterapia individual – cristalizada nos moldes tradicionais para estes psicólogos. Para Figueiredo (2000) o mito e imagem social mais comum é realmente a do psicólogo clínico – imagem, esta, que muitas vezes está carregada de fantasias e

(22)

preconceitos; muitos, inclusive, de caráter que põe o psicólogo em uma posição na qual ele exerce a psicoterapia sem questionar, cientificamente, sua atividade e intervenções.

2.1.2 O problema do mito do psicólogo clínico

As pesquisas realizadas sobre o psicólogo brasileiro demonstram que, embora as décadas avancem, alguns resultados permanecem relativamente constantes. Os dados que foram confirmados desde 1975 por Mello, evidenciando saturação na área da Psicologia Clínica no mercado de trabalho, também se tornaram evidentes com mais ênfase na pesquisa de Carvalho e Kavano, poucos anos depois (CARVALHO, 1982). Nas palavras da autora:

Com base em seus dados de 1970, Mello previu que, com o aumento da oferta de profissionais, e conseqüente saturação das áreas mais procuradas por eles, o caminho da Psicologia seria diversificar sua atuação nas áreas pouco exploradas ou não exploradas de aplicação, principalmente Psicologia Industrial e Psicologia Escolar. [...] essas previsões não se confirmam: a retração previsível em Psicologia Clínica não é visível, ao contrário, ela parece tender ainda a absorver uma parcela progressivamente maior de profissionais recém-formados (CARVALHO, 1982, p.7).

Esses dados aparentemente se mantêm como concepção principal acerca do que é ser psicólogo, ou do que é exercer uma atuação psicológica: é seguir a carreira em Psicologia Clínica. Esta concepção é tão forte nos psicólogos que chega a existir crises de identidade com a profissão quando estes se vêem realizando outras atividades, ainda que no âmbito da Psicologia, que não no campo da Psicologia Clínica tradicional, em consultório privado. (CARVALHO, 1984). Estudos como os de Carvalho (1982) e Carvalho e Kavano (1982) demonstraram que a preferência hegemônica para atuação profissional em Psicologia é a Psicologia Clínica, de fato. Outras pesquisas corroboram estes dados, demonstrando que a área Clínica exerce grande fascínio nos psicólogos, ainda que esta dê indícios de saturação no mercado (WEBER; RICKLI; LIVISKI, 1994; CAMPOS; LARGURA; JANKOVIC, 1999; MAGALHÃES et al, 2001).

Bohoslavsky (1998) define que a atuação clínica é um modo de intervenção profissional do psicólogo. Isto, de acordo com o autor, é diferente da atuação na área clínica. A área clínica está condicionada a um determinado local, a um determinado espaço, com uma configuração específica – que se aproxima da Psicologia Clínica tradicional (CARVALHO,

(23)

1982), que é a psicoterapia individual realizada em consultório. O autor afirma que o que se chama, tradicionalmente, de Psicologia Clínica; não é um ramo da Psicologia, não é uma tarefa e também não é um local de atuação (BOHOSLAVSKY, 1998). De acordo com o autor, a estratégia clínica é uma “estratégia de abordagem do objeto de estudo, que é o comportamento dos seres humanos” (BOHOSLAVSKY, 1998, p. 6). Esta estratégia caracteriza-se mais por um modo de entender e intervir com o ser humano (independente do local, do ramo da Psicologia, do público-alvo e dos objetivos da intervenção do psicólogo) do que por uma modalidade específica de atuação, um ramo da Psicologia como ciência ou uma dentre várias possibilidades de atuação profissional do psicólogo.

Entretanto, não é com este olhar de Bohoslavsky (1998) que Carvalho e Kavano (1982) situam a psicoterapia de consultório particular como modo de atuação profissional preferida pelos estudantes pesquisados. Ainda que, de acordo com Weber, Rickli e Liviski (1994, p. 82), “a realidade tem mostrado que há um campo de atuação, hoje, muito mais amplo para o psicólogo do que há 30 anos trás”, a preferência por este modo de atuação permanece ainda nos dias de hoje. Bastos, Gondim e Borges-Andrade (2010) afirmam que, mesmo que o mercado em Psicologia tenha se diversificado, a quantidade de profissionais que atuam como psicólogos clínicos ainda se constitui como maioria dentro da categoria profissional. De acordo com os autores, embora tenha ocorrido expansão dos psicólogos em outras áreas (como na das organizações e do trabalho, sendo a terceira área onde há mais atuação; e a área da saúde como a segunda área), a área da Psicologia Clínica ainda é o campo de atuação onde há mais psicólogos atuantes. O contexto social e econômico brasileiro se modificou desde as primeiras pesquisas sobre a profissão do psicólogo. Mesmo com essa diversificação, a Psicologia Clínica ainda é alvo da preferência da maior parte dos psicólogos brasileiros.

O fato de a maioria dos psicólogos brasileiros preferir a Psicologia Clínica como área de atuação não é, necessariamente, um indício ruim. Preocupante é a possível concepção do porquê a maioria dos psicólogos se dirige para esta área – motivado por quais aspectos e quais concepções da Psicologia? Há consenso em pesquisas feitas sobre o tema. Carvalho (1982) e Carvalho e Kavano (1982), por exemplo, discutem que o que motiva os psicólogos a atuarem na clínica é a possibilidade de estar em uma relação íntima e direta com outra pessoa. Existe, também, a questão de a área da Psicologia Clínica ser vista como a mais gratificante por estes profissionais, de acordo com as autoras. Justificativas utilizadas para a preferência pela Clínica são: poder atuar como autônomo, sem estar subordinado a um patrão (diferente de outras áreas, como na Organizacional, por exemplo); poder “ajudar” as pessoas; a de

(24)

“trabalhar com pessoas” (CARVALHO, KAVANO, 1982). As autoras criticam estas visões, afirmando que se trata de uma espécie de ideia equivocada ou idealizada acerca do que é a Clínica; e também, de uma ideia que desqualifica outras áreas da Psicologia, como a Organizacional e a Social, por exemplo. Resultados semelhantes foram encontrados por Magalhães e outros (2001) no tocante ao desejo dos estudantes de Psicologia em atuar em consultório particular, com psicoterapia individual e expressam as mesmas motivações a respeito de ajudar pessoas e conhecê-las “profundamente”; bem como descaso com outras áreas de atuação da Psicologia.

Assim, na opção por clínica, os psicólogos são atraídos pelo fato desse trabalho ser percebido como uma relação direta e íntima com pessoas, e uma relação de ajuda. Parece-nos bastante evidente o que estas justificativas expressam a respeito da imagem que os psicólogos têm sobre suas formas de atuação profissional: por um lado, o modelo de atuação que estas justificativas subentendem é a atuação terapêutica, principalmente no modelo de psicoterapia individual prolongada; por outro lado, é curioso que a palavra ‘ajuda’ raramente seja utilizada em relação a outras áreas, como se, nelas, o psicólogo não pudesse “ajudar”. [...] É interesse apontar também o fato de frequentemente se justificar a opção por Clínica pelo fato de “querer trabalhar com pessoas”, como se, novamente, em outras áreas da Psicologia (e, de resto, muitas outras profissões) isso não ocorresse. (CARVALHO, KAVANO, 1982, p.10-11).

Carvalho (1984) desenvolve ainda mais a discussão sobre a preferência pela Psicologia Clínica ao pontuar que ocorre uma espécie de insegurança no profissional de Psicologia que não trabalha diretamente com esta área. A autora discute que existe uma insegurança profissional do psicólogo que atua em outras áreas da Psicologia (como a Organizacional, por exemplo), porque este se sente “menos psicólogo”. Portanto, parece que a identidade profissional do psicólogo está fortemente atrelada à imagem de psicólogo clínico; não apenas sua identidade a respeito do que sabe fazer, mas, também, do que quer realmente fazer em Psicologia. Gondim, Bastos e Peixoto (2010) discutem esta questão da identidade profissional do psicólogo estar vinculada ao modelo clínico e sugere que isto pode não estar em consonância com demandas da sociedade.

Que fatores direcionam tão fortemente o interesse do psicólogo pela atuação na área clínica? É na clínica que o profissional se percebe realizando mais plenamente o ideal de atuação psicológica e isso é construído durante o processo de formação profissional [...]. Estudantes de psicologia ignoram situações e contextos de atuação prática para além do modelo clínico, e isso repercute nos horizontes de inserção profissional futuros, limitando a visualização de onde o psicólogo poderia ou deveria atuar para cumprir a contento o seu papel. [...] Qual seria a conseqüência de um predomínio de uma área sobre as demais? A limitação de outras possibilidades de atuação repercute na identidade profissional e também contribui para fortalecer um modelo teórico-prático de atuação percebido como elitista. O continuísmo de um

(25)

modelo de atuação considerado elitista não é decorrente apenas da [...] mas também da ação profissional dos próprios psicólogos que reproduzem de modo acrítico os modelos de atuação incorporados desde o processo de formação, restringindo suas possibilidades de inserção nesses contextos (GONDIM; BASTOS; PEIXOTO, 2010, p.182).

Portanto, um modelo clínico estereotipado de atuação não sugere, apenas, que seja necessária uma crítica para que a profissão diversifique sua atuação. O problema está caracterizado por suas possíveis causas. Causas, estas, que podem ser a vinculação da atuação psicológica a um modelo estereotipado de psicólogo clínico, já citado por Figueiredo (2000). Isto limita a atuação profissional e não permite, também, que a Psicologia (e os próprios psicólogos) pensem criticamente sua atuação, de modo a ter como objetivo trabalhar demandas sociais. Botomé e Rebelatto (1999) afirmam que o objetivo de um profissional deve ser o de descobrir demandas sociais e atendê-las; nas palavras dos autores, trata-se “da necessidade, cada vez maior, de descobrir e propor alternativas de atuação profissional socialmente relevantes” (BOTOMÉ; REBELATTO, 1999, p.219).

2.1.3 O problema sobre o que a sociedade pensa do psicólogo

As pesquisas sobre a imagem que as pessoas – que não são psicólogas ou estudantes de Psicologia - têm a respeito do psicólogo demonstram que este é normalmente visto como psicólogo clínico; possivelmente a concepção que os psicólogos têm a respeito de si e de sua profissão (com preferência majoritária pela Clínica) interfere, também, em sua atuação e, consequentemente, na visão que as pessoas consumidoras do seu serviço têm dele. Leme, Bussab e Otta (1989) verificaram que estudantes ingressantes em um curso de Psicologia (portanto, ainda refletindo uma concepção bastante parecida à da sociedade, em geral, sobre o psicólogo) tendem a perceber o psicólogo como um “bruxo” ou “guia espiritual” que consegue penetrar no interior das pessoas e descobrir suas verdades. Outros estudos, como o de Praça e Novaes (2004), demonstram que existe uma tendência, mesmo tratando-se de um público, em tese, mais esclarecido (as autoras investigaram estudantes universitários de diferentes cursos; em sua maioria, cursos relacionados à área da Saúde e Biológicas), a perceber o psicólogo como um profissional parecido com o médico – algo como um “médico de loucos”. Dos estudantes pesquisados, cerca de 40% afirmam, a respeito

(26)

da imagem que têm do psicólogo, que “de médico, psicólogo e louco, todo mundo tem um pouco”; demonstrando que existe uma associação do psicólogo às temáticas da loucura e da postura médica. Outros estudos, como os de Lahm e Boeckel (2008) e os de More, Leiva e Taglari (2001), evidenciaram também o caráter do psicólogo associado a um profissional como de Medicina, porém com algumas diferenças. Entre essas diferenças, estaria a de que o psicólogo não receita remédios, porém, utiliza-se de conversas e orientações para “curar” as pessoas.

Existe, ainda, na concepção da sociedade acerca do trabalho do psicólogo, a visão não apenas do psicólogo pelo viés clínico, mas também pelo viés assistencialista. Seja pelo viés do psicólogo como um “ser abençoado” ou “anjo” que ajuda magicamente as pessoas (LAHM; BOECKEL, 2008), ou pela imagem do psicólogo como alguém que orienta as pessoas e diz a elas o que deve ser feito, ajudando-as (MORE; LEIVA; TAGLIARI, 2001), o caráter assistencialista evidencia-se na imagem que as pessoas têm desta profissão. Este caráter assistencialista pode ter relação com a concepção que muitos estudantes fazem da Psicologia Clínica, como uma área na qual podem “curar” as pessoas de seus males, através de uma relação de cuidado e escuta; bem como de ser uma profissão de “ajuda”, que “ajuda as pessoas” (CARVALHO; 1982; CARVALHO; KAVANO, 1982; MAGALHÃES et al, 2001). Carvalho (1982) propõe um modelo no qual a concepção que o psicólogo tem a respeito de sua própria atuação é influenciada por três fatores: a formação acadêmica, as motivações individuais e o mercado de trabalho. A autora explica que a formação acadêmica pode influenciar a concepção do psicólogo não apenas por meio das disciplinas obrigatórias, mas por todo o contexto acadêmico: congressos, contatos extra-aula com professores, formações complementares, etc.. As motivações individuais refletem o que os estudantes de Psicologia almejam, em princípio, ao atuar em Psicologia; o que reflete sua própria concepção do que é ser psicólogo, somada as suas expectativas, opiniões e desejos. O mercado de trabalho é o espaço que a sociedade oferece ao psicólogo para trabalho. Este fator reflete, na opinião da autora, a concepção que a sociedade tem do psicólogo e as demandas que ela acredita que possam ser supridas com o trabalho deste profissional. A autora afirma que estes três fatores se influenciam mutuamente e se retroalimentam, não sendo possível pensá-los isoladamente.

Logo, tem-se que, ao se estudar a concepção que o psicólogo tem a respeito de si próprio, os três fatores devem ser levados em conta (motivações pessoais, formação acadêmica e mercado de trabalho); um fator apenas não pode ser “responsabilizado” por determinada concepção de atuação profissional em Psicologia. Pode-se presumir, portanto,

(27)

que o que os psicólogos fazem, de fato, em relação à sua atuação profissional, influencia, ainda que indiretamente, a concepção que a sociedade tem do psicólogo. Nesta perspectiva, os espaços que a sociedade oferece – formalmente – para o psicólogo trabalhar é determinado, em parte, pelo próprio fazer do psicólogo, que reflete a concepção que ele tem de sua própria atuação.

A este respeito, Botomé e Rebelatto (1999) conceituam uma diferenciação entre mercado de trabalho e campo de atuação profissional. Na perspectiva dos autores, mercado de trabalho são os espaços para trabalho previamente determinados, com demanda já estabelecida. O campo de atuação é um conceito que se refere às necessidades sociais mais amplas – isto é, aquelas não formalmente determinadas ou explicitadas, ainda não reconhecidas, de certo modo – que podem constituir objeto de intervenção profissional. Refletindo sobre estes conceitos para a atuação psicológica, tem-se que existe uma diferença, então, entre o mercado de trabalho para o psicólogo e o campo de atuação – sendo um representando ofertas de emprego formais e espaços sociais onde se concebe que o psicólogo atue; e o outro, possibilidades de atuação, ainda não descobertas ou investigadas.

Neste contexto, é discutida a capacidade de o psicólogo inovar sua atuação e permitir que a sociedade perceba-o como útil e competente em outras formas de atuação, que não nas tradicionais. Na perspectiva de Carvalho (1984, p.13):

[...] ampliar a atuação profissional do psicólogo não envolve apenas um movimento da sociedade no sentido de abrir espaços para a Psicologia, mas também um movimento dos próprios psicólogos no sentido de ampliar o conceito de “atuação psicológica”.

Portanto, é de responsabilidade do psicólogo, também, modificar a imagem social que a sociedade tem dele – e, consequentemente, os espaços que ela formalmente estabelece (através do mercado de trabalho) para que ele trabalhe.

Alguns dados acerca de quem é o psicólogo brasileiro podem explicitar o porquê da atuação ainda ser pautada em moldes tradicionais – como os já descritos em relação à Psicologia Clínica. De acordo com Castro e Yamamoto (1998), a Psicologia é uma carreira eminentemente feminina – isto é, grande parte das pessoas que a cursam é do sexo feminino. Paradoxalmente, os poucos homens que fazem Psicologia, de acordo com esta pesquisa, são os que mais ganham em termos de remuneração financeira com a carreira. A maior parte das mulheres investigadas nesta pesquisa (49%) ganha de um a seis salários mínimos; ao passo que 60% dos homens ganham treze ou mais salários mínimos. É nas mulheres que, inclusive,

(28)

aparece a categoria de atividade não-remunerada (inexistente nos homens). Nos homens, também, aparece o maior abandono da Psicologia – isto é, atuam em outras áreas não ligadas à Psicologia. Este percentual é de 29%, contra 12% das mulheres. Isto pode ser interpretado do seguinte modo: grande parte da atuação do psicólogo brasileiro se caracteriza por ser realizada por um público feminino e mal-remunerado. Já pontuavam Bastos e Gomide (1989, p.8) que:

Considerando-se os níveis salariais conhecidos de outras categorias profissionais, de nível superior, podemos verificar que nos situamos em patamares mais baixos do que o nível inicial de muitas outras profissões (por exemplo, Engenharia, Direito, Administração etc). Mesmo o fato de o contingente expressivo de psicólogos ser autônomo não faz com que a média salarial se eleve significativamente, o que não nos distancia, sobremaneira, das demais profissões da área social, especialmente daquelas em que há o predomínio da força de trabalho feminina (fatores de menor valorização em termos de mercado).

Percebe-se, portanto, que o psicólogo atua em uma sociedade e é percebido por esta de um determinado modo. O modo como este psicólogo é percebido reflete o seu próprio fazer, o seu próprio modo de atuar profissionalmente. Neste modo, estão implícitas suas crenças e valores acerca de sua profissão. Isto influencia a concepção que a sociedade tem do psicólogo que, porventura, influencia, também, os espaços nos quais ela permitirá que este psicólogo atue. Para criar novos espaços e atingir novas demandas, cabe ao psicólogo repensar e refazer sua atuação.

Porém, os estudos sobre o que os psicólogos pensam de sua profissão são abundantes. Já os estudos sobre o que outras pessoas pensam sobre o psicólogo, não são tão numerosos. Tem-se, então, que a Psicologia, nesta perspectiva, pode se evidenciar como uma profissão “autofágica”, isto é, uma profissão na qual os próprios psicólogos estudam a si próprios – chegando a conclusões relativamente semelhantes e já bastante discutidas. É interessante, inclusive do ponto de vista da ciência, pesquisar a concepção da sociedade a respeito do psicólogo – para que possa se ampliar os estudos sobre a temática e, deste modo, descobrir novos dados que permitam aos psicólogos uma reflexão sobre sua prática profissional – e de que modo seu próprio fazer profissional influencia o modo como ele é percebido pela sociedade, público consumidor dos seus serviços.

(29)

2.2 REDES SOCIAIS

2.2.1 Introdução ao conceito de redes

A respeito das redes sociais, tem-se que é um assunto bastante estudado na atualidade. De acordo com Meneses e Sarriera (2005), redes sociais é um termo utilizado por uma gama de áreas do conhecimento, entre elas: física, biologia, antropologia, psicologia, educação, sociologia, entre outras áreas1. Podem ser encontradas pesquisas e discussões sobre redes sociais na família, na escola, no trabalho, na saúde, na religião, na comunidade e também na migração. Cada uma dessas pesquisas traz determinados autores de referência, que trabalham com determinados conceitos e perspectivas acerca de redes sociais. Portanto, não existe uma uniformidade nos estudos sobre redes sociais, uma vez que, dependendo do contexto onde se pesquisam redes sociais, determinados conceitos, olhares e perspectiva são adotados.

A discussão sobre redes sociais é vasta. Atualmente, essa discussão tem sido expandida em função de que as redes sociais estão sendo utilizadas nos mais variados campos das ciências, como uma forma interdisciplinar de compreender como se organizam e funcionam as redes sociais em diversas áreas da vida. Já não basta um olhar unidirecional, mas sim uma diversidade de visões e posicionamentos que contribuem para a configuração das redes sociais em uma aproximação, cada vez maior, à realidade (MENESES; SARRIERA, 2005, p.54)

Santos (2004) afirma que o campo de estudos das redes sociais vem se desenvolvendo desde a década de 1930, aproximadamente, quando o psicólogo Jacob Moreno começou a propor estudos do que ele denominou de redes sociométricas. Desde então, o conceito de redes sociais vem se desenvolvendo e adquirindo novas perspectivas e métodos. Depois de Moreno, pesquisadores como Lewin e Heider estudaram também os fenômenos de

1

Sabe-se que, hoje, redes sociais é um termo utilizado para definir páginas da internet que visam promover interação e relacionamento entre as pessoas. Salienta-se que não é neste sentido que o termo é utilizado neste trabalho.

(30)

grupos de pessoas e comportamento coletivo. A partir da década de 1980, os estudos que se utilizavam de métodos matemáticos para verificar como se estabeleciam as relações dentro de uma rede social tornaram-se mais fortes. Também a tendência de estudar pequenos agrupamentos de pessoas e comunidades foi sendo substituída por análises de fenômenos sociais e urbanos complexos, a partir das teorias das redes sociais. Hoje, ainda de acordo com Santos (2004), há muito que se desenvolver nos estudos sobre redes sociais. A autora que “a pesquisa em redes sociais possui escopo bastante amplo” (SANTOS, 2004, p.50). A autora também estabelece que os estudos sobre redes possam ser nas dimensões intra-organizacionais (as relações estabelecidas por atores dentro de cada rede), inter-organizacionais (estudando a relação de diferentes redes entre si, ou de atores de redes sociais diferentes) e, ainda, utilizar-se de métodos estatísticos para estes estudos. Na perspectiva de Marteleto (2001), os estudos sobre redes sociais são antigos, porém, recentemente, houve um despertar para estudar as relações entre os comportamentos individuais e os processos de grupo – isto é, como um indivíduo afeta o grupo (rede) e vice-versa. Ainda, na perspectiva da autora:

Desde os estudos clássicos de redes sociais até os mais recentes, concorda-se que não existe uma “teoria de redes sociais” e que o conceito pode ser empregado com diversas teorias sociais. [...] A análise de redes pode ser aplicada no estudo de diferentes situações e questões sociais (MARTELETO, 2001, p.72).

2.2.2 Conceitos sobre redes sociais

Os indivíduos que compõem uma rede são denominados atores. De acordo com Silva (2003), o conceito de ator também pode significar não necessariamente indivíduos, mas também corporações ou unidades sociais coletivas. Este ponto de vista é corroborado por Marteleto, quando diz que uma rede “é composta de indivíduos, grupos ou organizações (...)” (MARTELETO, 2001, p.73).

Estes atores serão os que atuarão dentro da rede, em relação com os outros indivíduos; e fora dela também, conectando-se a outros atores de outras redes. O nome que se dá às relações estabelecidas entre os atores chama-se ligações – nas palavras de Silva (2003, p.55), “ligações conectam um ator a outro”.

(31)

Deve-se ressaltar que, de acordo com Marteleto (2001), as redes sociais não se focam tanto em estruturas de relações hierárquicas, formais e institucionalizadas; mas sim nos elos informais entre os participantes (atores) da rede. Portanto, as posições que um ator ocupa na rede e as ligações que ele estabelece dependem pouco de posições hierárquicas e institucionalizadas que ele porventura ocupe, senão de outros fatores.

De acordo com Silva (2003), o foco de estudo das redes pode ser sobre a sua estrutura (ou enfoque analítico-formal) ou sobre a sua morfologia (enfoque metafórico). Os estudos sobre a estrutura da rede, de acordo com o autor, se dividem em duas abordagens. Uma estuda a estrutura da rede como um todo, e a outra estuda mais especificamente os atores desta rede e as ligações que eles estabelecem. Nas palavras do autor, é como se o primeiro enfoque (que estuda a estrutura da rede como um todo) fosse semelhante à lente grande-angular de uma máquina fotográfica; e o segundo enfoque fosse como a lente zoom, examinando mais criteriosamente os atores que compõem esta rede, os papéis que eles exercem nela e as ligações que estabelecem entre si.

Figura 1: Abordagens possíveis para análise de redes sociais FONTE: SILVA, 2003, p.56

O autor afirma que, dentro da abordagem do tipo lente grande-angular, existem três vertentes de estudo: a estrutural, que foca seu estudo em conceitos da estrutura da rede como tamanho, densidade, distância geodésica e diâmetro; a relacional, que estuda a coesão da rede social (subgrupos dentro da rede); e a posicional, que estuda as equivalências

(32)

estruturais. Este foco de estudo, portanto, é mais voltado para a rede social em si e seus aspectos; as figuras dos atores não são estudadas neste foco.

A abordagem estrutural estudará os aspectos estruturais da rede, no molde da teoria dos grafos. Esta teoria, proposta por Cartwright e Harary em 1956, é oriunda da sociometria de Moreno, à qual os autores acresceram conceitos como nodos ou nós e arcos. Portanto, na teoria dos grafos, uma rede social é composta por nós (ou nodos) que se conectam através de ligações (arcos), que tem sinais e direções; e utiliza-se, em grande parte, de métodos matemáticos para seu estudo (SILVA, 2003; SANTOS, 2004). Sob a ótica da abordagem estrutural, as redes possuem tamanho, densidade, distância geodésica e diâmetro (SILVA, 2003). O tamanho de uma rede mede o total de ligações efetivadas entre os atores de uma rede – sejam estas as ligações reais (as que efetivamente ocorrem) ou as potenciais (latentes, isto é, as que têm probabilidade de ocorrer, porém não necessariamente ocorrem). A densidade verifica, através de um cálculo matemático (quociente entre o total de ligações reais e o total de ligações latentes), o potencial do fluxo de comunicação entre os indivíduos de uma rede (que não necessariamente é o fluxo real de informação da rede). A distância geodésica verifica o caminho mais curto entre dois atores de uma rede; ou, ainda, a intermediação da ligação entre estes dois atores por outros atores. O diâmetro se refere à maior distância geodésica entre estes dois atores.

A abordagem relacional estuda a coesão entre os membros de uma rede. Coesão é o fator que verifica a existência de subgrupos dentro de uma rede social. Parte-se do princípio que as pessoas, em uma rede, escolhem-se umas as outras para formar subgrupos, ou “panelinhas” (SILVA, 2003). Estes subgrupos podem ser denominados, também, de cliques. Há três possibilidades de análise da coesão de um grupo: o foco na reciprocidade das ligações, o foco na acessibilidade do ator e o na adjacência entre os atores de um subgrupo. A reciprocidade das ligações verifica o quanto as escolhas entre os indivíduos de um clique são feitas par a par, isto é, o quanto os membros de um clique se escolhem mutuamente entre si. De acordo com Silva (2003), esta abordagem tem um problema, visto que, caso falte uma ligação entre um ator e outro, não se pode considerar o subgrupo como clique (uma vez que, no clique, todos os membros têm de ter ligações uns com os outros). Portanto, o conceito de acessibilidade flexibiliza esta problemática, propondo, através dos conceitos de distância geodésica e de diâmetro, que pode haver atores intermediários entre um membro e outro em um clique. O conceito de n-clique vem a partir daí: n seria o número de atores intermediários entre os membros de um clique. A abordagem que verifica a adjacência entre os atores de um subgrupo também permite uma ampliação do conceito de clique, propondo que quase todos os

Referências

Documentos relacionados