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2.2 REDES SOCIAIS 29

2.2.2 Conceitos sobre redes sociais 30

Os indivíduos que compõem uma rede são denominados atores. De acordo com Silva (2003), o conceito de ator também pode significar não necessariamente indivíduos, mas também corporações ou unidades sociais coletivas. Este ponto de vista é corroborado por Marteleto, quando diz que uma rede “é composta de indivíduos, grupos ou organizações (...)” (MARTELETO, 2001, p.73).

Estes atores serão os que atuarão dentro da rede, em relação com os outros indivíduos; e fora dela também, conectando-se a outros atores de outras redes. O nome que se dá às relações estabelecidas entre os atores chama-se ligações – nas palavras de Silva (2003, p.55), “ligações conectam um ator a outro”.

Deve-se ressaltar que, de acordo com Marteleto (2001), as redes sociais não se focam tanto em estruturas de relações hierárquicas, formais e institucionalizadas; mas sim nos elos informais entre os participantes (atores) da rede. Portanto, as posições que um ator ocupa na rede e as ligações que ele estabelece dependem pouco de posições hierárquicas e institucionalizadas que ele porventura ocupe, senão de outros fatores.

De acordo com Silva (2003), o foco de estudo das redes pode ser sobre a sua estrutura (ou enfoque analítico-formal) ou sobre a sua morfologia (enfoque metafórico). Os estudos sobre a estrutura da rede, de acordo com o autor, se dividem em duas abordagens. Uma estuda a estrutura da rede como um todo, e a outra estuda mais especificamente os atores desta rede e as ligações que eles estabelecem. Nas palavras do autor, é como se o primeiro enfoque (que estuda a estrutura da rede como um todo) fosse semelhante à lente grande-angular de uma máquina fotográfica; e o segundo enfoque fosse como a lente zoom, examinando mais criteriosamente os atores que compõem esta rede, os papéis que eles exercem nela e as ligações que estabelecem entre si.

Figura 1: Abordagens possíveis para análise de redes sociais FONTE: SILVA, 2003, p.56

O autor afirma que, dentro da abordagem do tipo lente grande-angular, existem três vertentes de estudo: a estrutural, que foca seu estudo em conceitos da estrutura da rede como tamanho, densidade, distância geodésica e diâmetro; a relacional, que estuda a coesão da rede social (subgrupos dentro da rede); e a posicional, que estuda as equivalências

estruturais. Este foco de estudo, portanto, é mais voltado para a rede social em si e seus aspectos; as figuras dos atores não são estudadas neste foco.

A abordagem estrutural estudará os aspectos estruturais da rede, no molde da teoria dos grafos. Esta teoria, proposta por Cartwright e Harary em 1956, é oriunda da sociometria de Moreno, à qual os autores acresceram conceitos como nodos ou nós e arcos. Portanto, na teoria dos grafos, uma rede social é composta por nós (ou nodos) que se conectam através de ligações (arcos), que tem sinais e direções; e utiliza-se, em grande parte, de métodos matemáticos para seu estudo (SILVA, 2003; SANTOS, 2004). Sob a ótica da abordagem estrutural, as redes possuem tamanho, densidade, distância geodésica e diâmetro (SILVA, 2003). O tamanho de uma rede mede o total de ligações efetivadas entre os atores de uma rede – sejam estas as ligações reais (as que efetivamente ocorrem) ou as potenciais (latentes, isto é, as que têm probabilidade de ocorrer, porém não necessariamente ocorrem). A densidade verifica, através de um cálculo matemático (quociente entre o total de ligações reais e o total de ligações latentes), o potencial do fluxo de comunicação entre os indivíduos de uma rede (que não necessariamente é o fluxo real de informação da rede). A distância geodésica verifica o caminho mais curto entre dois atores de uma rede; ou, ainda, a intermediação da ligação entre estes dois atores por outros atores. O diâmetro se refere à maior distância geodésica entre estes dois atores.

A abordagem relacional estuda a coesão entre os membros de uma rede. Coesão é o fator que verifica a existência de subgrupos dentro de uma rede social. Parte-se do princípio que as pessoas, em uma rede, escolhem-se umas as outras para formar subgrupos, ou “panelinhas” (SILVA, 2003). Estes subgrupos podem ser denominados, também, de cliques. Há três possibilidades de análise da coesão de um grupo: o foco na reciprocidade das ligações, o foco na acessibilidade do ator e o na adjacência entre os atores de um subgrupo. A reciprocidade das ligações verifica o quanto as escolhas entre os indivíduos de um clique são feitas par a par, isto é, o quanto os membros de um clique se escolhem mutuamente entre si. De acordo com Silva (2003), esta abordagem tem um problema, visto que, caso falte uma ligação entre um ator e outro, não se pode considerar o subgrupo como clique (uma vez que, no clique, todos os membros têm de ter ligações uns com os outros). Portanto, o conceito de acessibilidade flexibiliza esta problemática, propondo, através dos conceitos de distância geodésica e de diâmetro, que pode haver atores intermediários entre um membro e outro em um clique. O conceito de n-clique vem a partir daí: n seria o número de atores intermediários entre os membros de um clique. A abordagem que verifica a adjacência entre os atores de um subgrupo também permite uma ampliação do conceito de clique, propondo que quase todos os

nodos de um subgrupo desse tipo têm relações uns com os outros, com algumas exceções; onde k seria o número de exceções. Em suma, a abordagem relacional procura verificar o quanto os membros de uma rede social estão conectados uns com os outros, formando a existência de subgrupos fechados dentro da rede.

A abordagem posicional das redes sociais verifica equivalências estruturais na rede, ainda de acordo com Silva (2003). As equivalências estruturais referem-se à similaridade das posições ocupadas pelos atores em uma rede social. É necessário diferenciar posição de papel. O papel se foca mais no desempenho dos atores em específico, e pode ser melhor abordado dentro da abordagem redes centradas em egos. A posição de um ator reflete sua função sociológica dentro da rede, isto é, sua posição social nela. Por exemplo, dois pais, ainda que tenham filhos diferentes e estejam situados em outras redes sociais, compartilham da mesma posição: a de pai. Logo, espera-se que tenham papel similar no exercício desta função. Silva (2003) diz que o conceito de similaridade é relativamente complicado de ser definido com precisão, uma vez que é difícil encontrar indivíduos que exerçam funções idênticas em termos estruturais. O que se faz, contudo, são cálculos matemáticos visando buscar uma similaridade aproximada nas posições ocupadas por diferentes atores sociais. Percebe-se, de todo modo, que ainda que a abordagem de equivalências estruturais estude mais especificamente os atores de uma rede (por meio das posições ocupadas por eles), ela ainda se foca na estrutura da rede social em si, e não nos atores.

As equivalências estruturais em senso estrito, onde os atores de um conjunto detêm

exatamente as mesmas posições são sociologicamente difíceis de serem encontradas.

Assim sendo, os métodos de análise posicional baseados em equivalências estruturais buscam identificar subgrupos de atores que sejam aproximadamente estruturalmente equivalentes (SILVA, 2003, p.65).

Já a abordagem de lente zoom – ou de redes centradas em egos – se foca mais nos atores componentes de uma rede social do que na rede social em si (como estrutura e como grupo de pessoas). Esta abordagem estudará mais aprofundadamente os papéis desempenhados pelos atores dentro da rede social. Nas palavras do autor:

Nesta abordagem a análise deixa de ser feita sobre a rede social e passa a ser feita sobre redes centradas em egos, ou seja, o zoom passa a focar determinados atores. O objetivo principal ao se centrar uma análise estrutural de rede sobre alguns atores é encontrar o papel que os mesmos desempenham na manutenção e expansão da estrutura da rede, bem como analisar os atores que, se deixarem o grupo ou do grupo foram retirados, causam um corte no fluxo de transações dentro, para dentro e para fora da rede (SILVA, 2003, p.57).

De acordo com o autor, neste campo se estuda mais especificamente o conceito de centralidade de um ator dentro da rede. O conceito de centralidade remete ao quão influente é um ator na rede social em que está inserido (MARTELETO, 2001). Em outras palavras, determina a quantidade de ligações que perpassam um ator dentro da rede (SILVA, 2003). Na perspectiva deste autor, o conceito de centralidade pode ser analisado pelas perspectivas de centralidade de grau, centralidade de proximidade, centralidade de intermediação e centralidade de Bonacich.

A respeito da centralidade de grau, o autor afirma que existe a centralidade de grau de saída, referente ao “número de ligações que um determinado ator estabelece com outros atores de um grupo”; e a centralidade de grau de entrada, que mensura “o número de ligações que um ator recebe de outros atores” (SILVA, 2003, p.68). De acordo com o autor, a centralidade de grau de saída mede a expansividade do ator dentro de uma rede. A centralidade do grau de entrada mensura o prestígio ou a popularidade deste ator na rede.

Figura 2 – Centralidade do grau de saída em atores sociais Fonte: Elaboração do autor, 2011.

Figura 3 – Centralidade do grau de entrada em atores sociais Fonte: Elaboração do autor, 2011.

Marteleto (2001) afirma ainda que, embora esta centralidade não esteja imbuída de um poder hierárquico e nem formalmente estabelecido, uma posição de centralidade confere poder ao ator. Logo, tem-se que um ator central é um ator que estabelece ligações com muitos outros atores de uma rede, e que tem influência sobre estas pessoas. Esta centralidade advém do fato de a maioria das ligações da rede perpassarem pelo ator. Nas palavras da autora: “quanto mais central é um indivíduo, mais bem posicionado ele está em relação às trocas e à comunicação, o que aumenta seu poder na rede” (MARTELETO, 2001, p.76).

Quanto maior a centralidade de um ator na rede, provavelmente maior é o poder que ele detém sobre o fluxo de informações circulantes na rede (MARTELETO, 2001; SILVA, 2003). Um ator central tem a tendência de fazer com que as informações sejam transmitidas na rede mediadas por ele. Isto o põe numa posição de poder em relação à informação. Uma rede onde os seus membros estabeleçam poucas relações entre si favorece que este ator central tenha este tipo de poder. Já uma rede na qual os atores estabelecem também grande quantidades de laços entre si – ainda que não sejam atores centrais – diminui ou tende a diminuir o poder que o ator central tem sobre a informação na rede.