Como resultado geral da análise das figuras mais indicadas pelos professores participantes (referentes a boneco, pessoa, atividades de lazer, músicas, filmes, trabalho, casa e carro que mais combinam com o psicólogo), obtém-se o seguinte perfil:
5 CONSIDERAÇÕES FINAIS
Tem-se que o objetivo da pesquisa – caracterizar a imagem que professores de curso pré-vestibular têm sobre o psicólogo – foi alcançado. Foi possível identificar um perfil, na perspectiva deste professores sobre o psicólogo, tanto em relação à personalidade quanto em relação a gostos e interesses. O perfil de personalidade de um psicólogo, para os entrevistados, é mais bem caracterizado como uma pessoa calma, centrada, equilibrada, que inspira confiança e que não é fútil, vaidosa ou superficial. Não foi constatado que o gênero seja uma variável que influenciou significativamente a percepção dos entrevistados sobre quem é o psicólogo.
O psicólogo é visto, pelos entrevistados, como uma pessoa que tem hábitos e gostos sofisticados, ao invés de apreciar futilidades e obras de arte superficiais. É, portanto, alguém com grande capital cultural, que aprecia coisas sofisticadas e refinadas. O psicólogo é visto como alguém que se interessa e se preocupa com o ser humano e com a sociedade. É um grande crítico da sociedade e analista das pessoas. Não houve, conforme pesquisas sobre o tema (CASTRO; YAMAMOTO, 1998), evidências de que os professores atribuem a Psicologia a mulheres, essencialmente. Parece que características de personalidade e caráter influenciam mais do que o gênero em si, para o público entrevistado.
Em relação ao trabalho do psicólogo, tem-se que os professores percebem que o psicólogo pode atuar em uma gama relativamente ampla de espaços sociais. Visualizam que o psicólogo tem um campo de trabalho imenso pela frente, pois, mais do que nunca, a sociedade precisa do serviço e da intervenção deste profissional. Alguns professores, contudo, visualizam este campo de atuação amplo mais na perspectiva de locais de atuação do que em intervenções propriamente ditas.
Percebem o trabalho do psicólogo como uma possibilidade mesmo para situações onde não haja, necessariamente, um contexto de doença instalada. Afirmam, inclusive, que todas as pessoas (cidadãos, e pessoas de diferentes faixas etárias e segmentos da sociedade) deveriam e poderiam usufruir dos serviços de um profissional de Psicologia. Existe uma tendência à associação da imagem do trabalho do psicólogo com a situação da clínica tradicional, a qual, entretanto, não se mostrou limitadora do campo de atuação que estes profissionais imaginam para ele – concebem muitas outras possibilidades para além da clínica como local de trabalho.
Os professores acreditam, entretanto, que a sociedade ainda não reconhece o devido valor do profissional de Psicologia, sendo este mal remunerado e, de certo modo, desvalorizado frente a outras profissões mais socialmente reconhecidas. Percebem que o psicólogo é um profissional que, tal como eles (professores), não é dos mais bem- remunerados na sociedade brasileira. Os professores acreditam que o psicólogo é um profissional que oscila entre a classe média e a classe média alta. Afirmam que é necessário que este trabalhe bastante, a fim de conseguir ganhar uma remuneração alta. Entretanto, dizem que este profissional deveria ser melhor remunerado, pela natureza do trabalho que exerce. Afirmam que o psicólogo é mal reconhecido e mal pago; em contrapartida, faz um trabalho fundamental e extremamente necessário para a sociedade.
Ressalta-se que o caráter da pesquisa foi investigar atores centrais com uma grande quantidade de laços fracos, em virtude do potencial de transmissão de informação que essas pessoas teriam. Esse potencial de transmissão de informação funciona como um centro propulsor de informação, que pode vir a influenciar a opinião de uma gama variada e ampla de pessoas. Neste caso, a imagem social do psicólogo transmitida por estes atores centrais seria transmitida, direta ou indiretamente, para uma grande quantidade de pessoas; influenciando a opinião que muitas outras pessoas teriam sobre o profissional da Psicologia. Entende-se que a concepção sobre um determinado fenômeno passa pelas dimensões da individualidade de cada pessoa. Entretanto, ao optar por pesquisar a imagem que a sociedade faz do psicólogo, optou-se por este público em virtude do seu potencial de transmissão de informação. Seria errado denominá-los de formadores de opinião, pois eles não necessariamente “formam” a opinião dos outros; entretanto, por serem atores centrais, são figuras de referência na rede. Pela grande quantidade de laços fracos, tem-se que as informações transmitidas por eles atingem uma gama maior de pessoas do que o fariam informações transmitidas por pessoas com menor quantidade de laços fracos. O impacto disto é uma imagem acerca do psicólogo que é disseminada, ainda que indiretamente, para uma quantidade maior de pessoas.
Definir um público de atores centrais com grande quantidade de laços fracos, entretanto, é uma tarefa difícil. Sem um grande conhecimento de redes sociológicas, os critérios para definição deste público são relativos e não seguros. Optou-se, nesta pesquisa, pelos professores de um curso pré-vestibular localizado na cidade de Florianópolis (SC) devido ao grande público de alunos para os quais eles dão aula (quantidade de laços fracos) e ao fato de serem professores reconhecidos, estimados e famosos, quase “celebridades”; não
apenas no colégio onde atuam, mas na cidade de um modo geral, em função da intensa participação destes professores em veículos midiáticos.
Entretanto, há vários outros públicos de atores centrais que poderiam ser pesquisados. Nesta perspectiva, tem-se que padres de igrejas, em geral, poderiam caracterizar um público deste tipo. Jornalistas – que se comunicam com uma grande quantidade de pessoas, e são figuras famosas, de referência – também o seriam. Aqui se incluem também apresentadores de televisão, empresários – depende da rede social que se estuda. Próximas pesquisas, obedecendo aos critérios de atores centrais com grande quantidade de laços fracos, poderiam ser com estes públicos. De todo modo, considera-se que esta pesquisa contribui com o conhecimento científico sobre a imagem que a sociedade tem da Psicologia e do psicólogo, em virtude de não haver muitos estudos dessa natureza.
Diversos segmentos da sociedade, nesta perspectiva, poderiam ser pesquisados, a fim de investigar mais o que a sociedade pensa do psicólogo e o que ela espera deste profissional. Isto é fundamental para se qualificar a profissão de psicólogo e propiciar reflexão sobre como o psicólogo pode atuar mais em consonância com os problemas e necessidades da sociedade, e não somente conforme as possibilidades de atuação conhecidas, ensinadas e existentes. Botomé (2010) ressalta que, ainda hoje, os serviços de um psicólogo não são ainda acessíveis à maioria da população brasileira, mesmo tendo ocorrido mudanças nas áreas de atuação e inserção do psicólogo. De acordo com o autor, é necessário que os psicólogos ampliem sua atuação e façam-na mais abrangente, de modo a atingir um maior número de pessoas e intervir, também, em demandas mais significativas.
O colégio no qual se realizou a pesquisa foi um facilitador da mesma. Os professores foram todos bastante cordiais, cooperativos e respeitosos com o pesquisador. A equipe técnica do colégio viabilizou de forma ágil e eficiente o acesso do pesquisador aos professores (sujeitos da pesquisa) e demonstrou cooperação e interesse pelo desenvolvimento da mesma. A realidade do professor de pré-vestibular – em específico, dos que atuam na instituição pesquisada – se constitui em uma rotina com bastantes aulas e pouco tempo livre. Não é um público cuja disponibilidade de tempo é grande. Ainda assim, foi possível realizar a pesquisa. Obteve-se um número significativo de professores pesquisados na instituição (vinte e oito, de trinta e dois professores) e um grau de aceitação e cooperação com a pesquisa que não eram esperados deste público – em virtude de serem profissionais bastante ocupados.
Em relação ao instrumento de coleta de dados, percebe-se algumas falhas, após a realização da pesquisa. Constatou-se que não houve influência significativa do gênero (feminino/masculino) como variável componente da imagem que a maior parte dos
professores entrevistados retrataram acerca do psicólogo. Entretanto, o instrumento imaginado como o que evidenciaria se esta variável era significativa ou não era a dupla de figuras dos bonecos (boneco masculino e feminino). Os professores, contudo, responderam, frente à necessidade de escolher por um dos bonecos, a outros critérios que não a gênero – características de personalidade atribuídas aos bonecos, por exemplo. Isto se deveu ao fato de ter-se utilizado uma dupla de bonecos bastante conhecida (Barbie e Ken). O critério pelos quais os professores escolheram, em sua maioria, o boneco Ken e não a boneca Barbie foi devido a considerarem a boneca Barbie fútil e frívola – devido à imagem social que esta boneca tem. Outra falha foi constatada no grande índice de ocorrências de escolha pelo filme “O Sexto Sentido”. Grande parte das justificativas atribuídas foi devido ao fato de o filme ter um psicólogo como um dos personagens principais. O critério de escolha, portanto, deveu-se menos a outras características do filme (gênero do filme, valor cultural associado ao filme) do que a esta.
Por fim, tem-se que os resultados desta pesquisa demonstram que é importante verificar a concepção do que a sociedade pensa sobre a profissão de psicólogo. Os professores entrevistados visualizaram, em sua maioria, um amplo campo de atuação para o psicólogo. Afirmam que “onde há ser humano, há possibilidade de trabalho para o psicólogo. Isto dá margem a uma gama enorme de lugares e contextos onde o psicólogo pode estar inserido e trabalhando, intervindo para melhorar a qualidade de vida das pessoas e promover saúde. Porém, fica a pergunta: se é assim, se em todo lugar onde há ser humano pode haver trabalho para o psicólogo, por que ele não trabalha? Por que o campo de atuação em Psicologia ainda não é tão amplo quando promete?
Os dados pesquisados por Gondim, Bastos e Peixoto (2010) demonstram que, hoje, a Psicologia tem uma inserção maior em diferentes áreas e contextos de trabalho. Há uma diversificação maior na atuação do psicólogo do que a encontrada por Carvalho e Kavano (1982), ou pelo Conselho Federal de Psicologia (1980) na década de 1980. Entretanto, tem-se que resultados encontrados nesta década ainda permanecem. A preferência pela área clínica por uma concepção não da clínica como estratégia de abordagem do fenômeno psicológico (BOHOSLAVSKY, 1998), mas por uma concepção voltada à concepção tradicional da clínica como modelo de atuação psicológica idealizado, ainda existe – não deixou de existir mesmo décadas tendo se passado após o estudo e a crítica de Carvalho e Kavano (1982) sobre o assunto.
Isto, em princípio, pode não ser algo necessariamente ruim, pois a clínica psicológica tem função importante na sociedade. Entretanto, esta preferência pode estar
significando, conforme afirmam Gondim, Bastos e Peixoto (2010), que a concepção sobre o que é ser psicólogo ainda não está nem consonante com a sociedade atual, e nem clara para os psicólogos. Afinal, Carvalho (1984) já afirmou que esta preferência pela clínica pode revelar, na verdade, uma profunda insegurança do psicólogo quanto a quem ele é e o que ele faz. Inclusive em relação a com quê, precisamente, ele trabalha. Isto pode dificultar que o psicólogo perceba, também, como ele pode contribuir com a sociedade. Quais as outras possibilidades de atuação psicológica que não a clínica?
Uma resposta fácil a esta pergunta não existe. O problema, conforme Figueiredo (2000) aponta, é muito mais complexo. Remete a uma discussão epistemológica sobre a construção da própria Psicologia como ciência. Remete às diferentes teorias em Psicologia e ao modo como ainda é incerto sobre se elas contribuem para uma melhor compreensão do fenômeno psicológico ou se elas discordam e confundem na definição do que é este fenômeno e atrapalham o estabelecimento da Psicologia como uma ciência. Ou, ainda, se a saída para a Psicologia seria, conforme discute Figueiredo (2000), abandonar a ideia de propô-la como uma grande área do conhecimento e aceitar que, de fato, o que existe, na realidade, são várias “psicologias” que discutem, cada qual ao seu modo, qual é a visão de homem e quais os procedimentos a serem adotados a fim de que este se torne saudável.
O que se sabe, entretanto, é que não se pode abandonar a discussão ou fingir que ela não existe. Tampouco este debate deve estar alheio à sociedade, que é a consumidora final do serviço do psicólogo. É necessário que a sociedade conheça e saiba quem é este psicólogo. É necessário que o psicólogo, de um modo ou de outro, se posicione frente a ela. Pela presente pesquisa, constata-se que a sociedade, de certo modo, espera algo do profissional de Psicologia. Esta sociedade não espera, apenas, que este profissional discuta sobre suas diferentes teorias e sobre sua identidade profissional em um circuito fechado, onde só participam psicólogos. Esta sociedade espera que o psicólogo contribua para que ela própria reconheça fraquezas, necessidades e carências; espera que o psicólogo, também, nesta perspectiva, possa atendê-las.
Não foi estudado o impacto que a imagem do psicólogo, na perspectiva destes professores, teria para estudantes pré-vestibulandos – em termos de escolha profissional, por exemplo. Considera-se, aqui, que o objetivo da pesquisa foi estudar os professores como atores centrais com grande quantidade de laços fracos, em virtude de seu poder de transmissão de informações na sociedade. As influências que isto teria na escolha profissional de estudantes não foram abordadas, aqui, neste estudo. Sugere-se, no entanto, que tal temática possa ser abordada em estudos científicos futuros.
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