• Nenhum resultado encontrado

Mana vol.4 número2

N/A
N/A
Protected

Academic year: 2018

Share "Mana vol.4 número2"

Copied!
28
0
0

Texto

(1)

C on d e n a -se com ra zã o o form a lism o, e sq u e ce n d o-se , p oré m , q u e se u e rro n ã o e stá e m sob re e stim a r a form a , m a s e m su b e stim á la , a p on to d e se p a rá -la d o se n tid o (M e rle a u -Pon ty 1980).

“ A n e g lig ê n cia d a a rte p or p a rte d a m od e rn a a n trop olog ia socia l é n e ce sá ria e in te n cion a l, e d e ve -se a o fa to d e q u e e sta é e sse n cia lm e n te , con s-titu tiva m e n te , an tiarte ” . Eis com o Alfre d G e ll (1992:40) in te rp re ta a d ifícil re la çã o te órica e in stitu cion a l d a a n trop olog ia com a “ a rte ” . Pa ra o a u tor, e ssa re la çã o n ã o re ve la m e ra m e n te u m m od ism o te m á tico, m a s u m a ve r-d a r-d e ira in com p a tib ilir-d a r-d e e n tre os crité rios ce n tra is n a s r-d u a s orr-d e n s r-d e fe n ôm e n os con sid e ra d a s: o re la tivism o cu ltu ra l e o u n ive rsa lism o e sté tico. É in e g á ve l q u e a tra je tória te órica d a a n trop olog ia , e n q u a n to sa b e r e sp e cífico, le vou -a a “ e sq u e ce r” a cu ltu ra m a te ria l d e m od o g e ra l e a s “ a rte s” e m p a rticu la r, con sid e ra n d o-a s com o ob je tos d e p r e se rva çã o m u se ológ ica e re se rva n d o a a m b a s u m lu g a r m e n or n a e stra té g ia te órica d a d iscip lin a . Esse e sq u e cim e n to n ã o é u m fa to e p isód ico d e sp rovid o d e m a iore s im p lica çõe s (cf. Forg e 1973), p ois a p on ta p a ra a re la çã o a u m só te m p o p rob le m á tica e con stitu tiva e n tre a (s) p e rsp e ctiva (s) a n trop ológ i-ca (s) e o d om ín io e sp e cífico d a a r te e d a cu ltu ra m a te ria l (cf. C lifford 1988a ).

Escla re ço, tod a via , q u e o ob je tivo d e ste a rtig o n ã o é o m a p e a m e n to d e tod os os d e sd ob ra m e n tos te óricos e / ou in stitu cion a is d e ssa re la çã o. Ta n g e n cia n d o, in d ire ta m e n te , o lim ite e n tre o e sq u e cim e n to e a in com -p a tib ilid a d e , m e u ob je tivo é in d a g a r -p or q u e a a rte e a cu ltu ra m a te ria l, q u e se rã o con sid e ra d a s d e m a n e ira e p isód ica p e la a n trop olog ia p oste -rior, n ã o só ocu p a m o ce n tr o d a ob ra d e Fra n z Boa s (1858-1942), m a s re ve la m -se e stra té g ica s d o p on to d e vista d e se u p roje to te órico e d e su a tra je tória in stitu cion a l. Tra ta -se , a ssim , d e in ve stig a r, n o â m b ito d a p e

rs-POR UMA SEMÂN TICA PROFUN DA:

ARTE, CULTURA E HISTÓRIA N O

PEN SAMEN TO DE FRAN Z BOAS*

(2)

p e ctiva te óricom e tod ológ ica d o a u tor, o q u e e ssa e xp e riê n cia d a m a te -ria lid a d e a ssocia d a à cu ltu ra , q u e e n con tra e m Prim itiv e A rt1a su a form a

m a is a ca b a d a , su p õe .

C om o p on to d e p a rtid a , p orta n to, é p re ciso e scla re ce r o e sta tu to q u e Boa s a trib u i à a rte , e sp e cifica m e n te à a rte p rim itiva , e n q u a n to te m a te ó-rico. A e sse re sp e ito, d e sta co, in icia lm e n te , o u so n om in alista d a e xp re ssã o “ a rte p rim itiva ” . Esta , lon g e d e con fig u ra r u m ob je to te órico b e m d e -fin id o e / ou u m a ca te g oria a n a lítica , con stitu i u m te rm o e m in e n te m e n te d e scritivo q u e d e lim ita , e m se n tid o a m p lo, a a rte e stiliza d a d a s socie d a -d e s se m e scrita . C om e sse p roce -d im e n to, u m -d os ob je tivos -d e Boa s é , ju s-ta m e n te , d e m on stra r a p lu ra lid a d e d e p roce ssos h istóricos e p sicológ icos a b a rca d os p e lo te rm o. A va ria b ilid a d e cu ltu ra l d o ca m p o a rtístico p e rm ite , a ssim , o e xe rcício d e ssa fu n çã o h e u rística d e scritiva , q u e ite m p or ob je -tivo via b iliza r u m m é tod o e sp e cífico d e in ve stig a çã o.

Alé m d o m a is, com o o “ p roje to” e p iste m ológ ico d e Boa s re solve -se in te g ra lm e n te e m su a d é m arch e h istórico-m e tod ológ ica , torn a -se im p ossíve l n e g lig e n cia r se u n om in a lism o e te n ta r isola r e m su a s a n á lise s con -ce itos p orta d ore s d e va lor su b sta n tivo, já q u e a p rod u tivid a d e te órica d e s-ta s re sid e n a ra d ica liza çã o d a re la çã o e n tre n om in a lism o e h istoricism o, ou se ja , e n tre o d e sm e m b ra m e n to d e e n tid a d e s te órica s con stru íd a s a rtificia lm e n te e a in ve stig a çã o d a d im e n sã o h istórica d os fe n ôm e n os cu ltu -ra is. Isso só é p ossíve l p orq u e o in d u tivism o b oa sia n o e xp lo-ra a te n sã o — se m p re p re se n te — e n tre h istória e te oria n a a b ord a g e m d os fe n ôm e n os cu ltu ra is.

(3)

b iop síq u ica d a h u m a n id a d e e a d ive rsid a d e d e su a s re a liza çõe s h istóri-co-cu ltu ra is.

Essa p e rsp e ctiva , p orta n to, e scla re ce d e m a n e ira e xtre m a m e n te p e rtin e n te os d ile m a s d o re la tivism o e d o u n ive rsa lism o q u e lh e sã o su b ja ce n te s. Isto p orq u e , p or u m la d o, e la con d u z a o re con h e cim e n to d o ca rá te r a b solu to e com u m a tod a a h u m a n id a d e d a e m oçã o e sté tica , a ssocia n -d o o p a -d rã o e sté tico n ã o m a is a u m crité rio p re e sta b e le ci-d o, m a s a o e xe r-cício d e u m a fa cu ld a d e p rim ord ia l h u m a n a . Por ou tro la d o, e la su scita a q u e stã o d a e xistê n cia d e va lore s e stá ve is, vin cu la d a à (im )p ossib ilid a d e d e tra n sm issã o d os p rin cíp ios e sté ticos d e u m g ru p o h u m a n o a ou tro.

De lin e ia se , a ssim , o lu g a r ocu p a d o p e la a r te n o “ p roje to” e p iste -m ológ ico q u e su b ja z a o cu ltu ra lis-m o b oa sia n o: to-m a d a s co-m o fe n ô-m e n os p rim a ria m e n te h u m an os, a rte e cu ltu ra a p a re ce m com o ca te g oria s in d is-sociá ve is (C lifford 1988a ). Ta l con e xã o b a se ia -se e m u m a p e rsp e ctiva a n trop ológ ica q u e se q u e r cu ltu ral — e n ã o socia l —, n o se io d a q u a l a a rte , e q u a cion a d a e n tre cu ltu ra e h istória , re p re se n ta e m si m e sm a u m ca m p o p rivile g ia d o p a ra o e xe rcício d a in ve stig a çã o a n trop ológ ica p orq u e su a h istoricid a d e in trín se ca , a u m só te m p o form a l e se m â n tica , con -d icion a su a e sp e cifici-d a -d e e n q u a n to ob je to -d e “ ciê n cia ” e -d e m a n -d a p r o-ce d im e n tos a n a líticos p róp rios.

Ace ita r e ssa p e rsp e ctiva sig n ifica situ a r a a n trop olog ia com o m e io d e e sta b e le ce r u m a re n ova çã o d a e sté tica , in corp ora n d o-a à e stra té g ia te órica m a is a m p la d e in ve stig a çã o d a cu ltu ra (cf. Fra n ca ste l 1968). Pois se a d m itirm os q u e , a p a rtir d o sé cu lo XIX, a rte e cu ltu ra se e sta b e le ce m com o “ d om ín ios m u tu a m e n te a firm a tivos d e va lor” n a e sca la d o h u m a n o (C lifford 1988b :232), n ã o p od e m os d e ixa r d e a ce ita r ta m b é m q u e é som e n te com a a n trop olog ia b oa sia n a q u e o p rin cíp io d a p lu ra lid a d e d os va lore s torn a p ossíve l p ostu la r a re la tivid a d e ra d ica l d a s cu ltu ra s e , con -se q ü e n te m e n te , d a s form a s d e a rte .

In se rid a n e sse s lim ite s, a p rob le m á tica g e ra l d e Prim itiv e A rt, q u e se a p lica à d iscu ssã o d a a r te d e cora tiva , é se a a r te p rim itiva e xp re ssa d ire ta m e n te id é ia s e / ou e m oçõe s. O d e se n volvim e n to te órico d e ssa p rob le m á tica se in se re , e m g ra n d e m e d id a , n o q u e stion a m e n to — e tn og rá -fico — q u e Boa s d irig e a o p on to n e vrá lg ico d a m e tod olog ia e volu cion is-ta : a n oçã o d e sim ilarid ad e típ ica (Boa s 1974[1904]:27), con d içã o d e p os-sib ilid a d e d o m é tod o com p a ra tivo e d o e sq u e m a tism o cla ssifica tório q u e o e n g e n d ra .

(4)

a e la a trib u íd os. O e sta b e le cim e n to d e sse ca m p o te órico, in se rid o n o m ovim e n to m a is a m p lo d e d issolu çã o d a d istin çã o e n tre a rte s m a iore s e m e n ore s, re p re se n ta çã o e orn a m e n ta çã o, d á se n o cru za m e n to e n tre o d e b a -te vitoria n o a re sp e ito d o orn a m e n to e a s -te oria s g e rm â n ica s d o sé cu lo XIX q u e d iscu te m o p roce ssa m e n to e sp e cífico d os fe n ôm e n os a rtísticos, e n fa tiza n d o a d im e n sã o for m a l. C om o o sig n ifica d o d a ob ra r e b a te -se in te g ralm e n te e m su a form a , d issolve -se a d istin çã o e n tre re p re se n ta çã o e d e cora çã o, o q u e ju stifica a ê n fa se e , p od e r-se -ia m e sm o d ize r, o p rivi-lé g io a trib u íd o p or Boa s a o ca rá te r a rtístico d o orn a m e n to.

Escla re ço, a in d a , q u e , te n d o com o p a râ m e tro a a rte d e cora tiva p ri-m itiva , a crítica ri-m e tod ológ ica q u e Boa s d irig e a o e volu cion isri-m o te r ri-m in a p or d e sm on ta r, p e la b a se , os e sq u e m a s cla ssifica tórios e tip ológ icos n os q u a is e ste d e se m b oca . Isto só se torn a p ossíve l p orq u e , a o con sid e ra r a e xp re ssã o n a a rte , o a u tor a rticu la h istória e sig n ifica çã o e tra n sp õe o lim ite se lim â n tico a o q u a l a s a b ord a g e n s lim orfológ ica s e volu cion ista s, b a -se a d a s e m u m sim b olism o su p e rficia l, e sta va m con fin a d a s. Pa ra ta n to, o “ form a lism o” b oa sia n o con ju g a -se com u m a n ova se m â n tica , p ois a n oçã o d e m e an in g q u e e le m a n ip u la se e n con tra e m u m n íve l m a is p rofu n d o: n a in corp ora çã o con te xtu a liza d a a u m com p le xo cu ltu ra l tra d icion a l.

N e sse s te rm os, m in h a d iscu ssã o visa , ju sta m e n te , a p on ta r o lim ite tra n sp osto p or Boa s, e d e m on stra r com o e le su p e ra e ssa e sp é cie d e se m ân tica su p e rficial im p lícita n o p on to d e vista e volu cion ista , re a firm a o ca rá te r sig n ifica tivo d a a r te e a va n ça su a p e rsp e ctiva cu ltu ra lista e m d ire çã o a u m a se m ân tica p rofu n d a, coe re n te com se u h istoricism o2. C om

ta l ob je tivo, re ssa lta re i, n o d e corre r d o a rtig o, d ois a sp e ctos: p or u m la d o, a ê n fa se b oa sia n a n o e le m e n to form a l n o q u e se re fe re à d e lim ita çã o d o fe n ôm e n o a rtístico, re d im e n sion a n d o o sim b olism o p rim itivo; p or ou tro, a ê n fa se n a p a d r on iza çã o e stilística , com o cor re la ta d os m e ca n ism os d e p roce ssa m e n to d a s sín te se s h istórico-cu ltu ra is, o q u e r e d im e n sion a a q u e stã o d a im ag in ação.

J á e m 1896, a o d iscu tir a s lim ita çõe s d o m é tod o com p a ra tivo n a a n trop olog ia , Boa s forn e ce o p a râ m e tro p a ra o d iá log o com a a rte d e co-ra tiva , e n u m e co-ra n d o a s te oria s re fe re n te s a o d e se n volvim e n to d e p a d rõe s con ve n cion a is: a orig e m re a lista d os m otivos e su a con ve n cion a liza çã o g ra d u a l; a orig e m té cn ica e su a tra n sfe rê n cia d e u m a in d ú stria a ou tra ; o ca rá te r se cu n d á rio d a e xp lica çã o a trib u íd a a m otivos p r ove n ie n te s d e fon te s d istin ta s, e q u e se ria d e cor rê n cia d e a ssocia çã o p oste rior (Boa s 1940[1896]:274).

(5)

-te s. Porta n to, a m e ra “ com p a ra çã o d e form a s” (Boa s 1974[1887]:63) n ã o p od e con d u zir a re su lta d os sa tisfa tórios p orq u e , a n te s d e in fe rir a sim ila -rid a d e , “ a com p a ra b ilid a d e d o m a te ria l d e ve se r p r ova d a ” (Boa s 1940 [1896]:275). De ssa m a n e ira , q u a lq u e r e stu d o con se q ü e n te “ d e ve b a se a r-se n a tra je tória h istórica d e d e r-se n volvim e n to d a form a in d ivid u a l” (Boa s 1974[1887]:63) e , só a ssim , p rod u zir com p a ra çõe s e xte n siva s e g e n e ra li-za n te s.

A id e n tifica çã o d e m ú ltip la s lin h a s d e ca u sa lid a d e — h istórica s — n o e stilo d e cora tivo lin e a rg e om é trico con stitu i o le itm otiv d a a n á lise b oa -sia n a d a a rte p rim itiva , o q u e r om p e com a e q u a çã o e volu cion ista q u e re u n ia d e m od o n e ce ssá rio sim p licid a d e , h om og e n e id a d e e a n tig u id a d e . N o ca so e sp e cífico d e Prim itiv e A rt, p od e -se p e rce b e r q u e Boa s in corp ora p a rcia lm e n te a p rim e iora te oria , fa z u m a crítica con tu n d e n te a o e volu -cion ism o im p lícito n a se g u n d a , e d e se n volve a te rce ira d e m od o coe re n te a u m d e se u s p ostu la d os te óricos m a is fu n d a m e n ta is: a id é ia d e q u e a tra -d içã o p ossu i u m ca rá te r in con scie n te , só a flora n -d o à con sciê n cia sob a form a d e “ in te rp re ta çõe s se cu n d á ria s” .

O q u e im p orta re ssa lta r é q u e n o â m b ito d a a rte d e cora tiva p rim iti-va — se ja e la re p re se n ta tiiti-va , sim b ólica ou g e om é trica —, o d e n om in ad or com u m , e p rin cíp io a tivo d a a n á lise , é o ca rá te r con v e n cion al d o e le m e n -to form a l. C om e fe i-to, a o isola r os p rin cíp ios form a is q u e se m a n ife sta m n a s vá ria s a rte s a n a lisa d a s, Boa s (1955[1927]:348) d e sca r ta a b u sca d e su a s orig e n s, lim ita n d o-se a in ve stig a r a m a n e ira e sp e cífica com o e sse s p rin cíp ios — ê n fa se n a form a , sim e tria e ritm o — se ria m a g e n cia d os n a s a rte s g rá fica s e p lá stica s.

Tod a via , o q u e in te re ssa re te r a g ora d e ssa d iscu ssã o é q u e a p ote n -cia liza çã o d o e le m e n to form a l p or Boa s e ra a ú n ica via p e rtin e n te p a ra o e sta b e le cim e n to d e u m ca m p o te órico com u m q u e a trib u ísse “ con te m p o-ra n e id a d e ” e , a ssim , p e rm itisse o d iá log o e n tre a s p rod u çõe s m ú ltip la s e va ria d a s q u e e le tom a p or ob je to sob a d e sig n a çã o — n om in a lista — d e “ a rte p rim itiva ” . É o form a lism o, p orta n to, q u e con stitu i a con d içã o d e p ossib ilid a d e d e su a a n á lise h istórica e p sicológ ica d a d in â m ica a rtística e forn e ce a b a se d e su a in ve stig a çã o se m â n tica .

(6)

a orig e m te cn icista d e d e te rm in a d os m otivos e su a tra n sfe rê n cia d e u m a in d ú stria à ou tra , e a trib u ir a s tra n sform a çõe s form a is a o e sta b e le cim e n to d e n ovos a g e n cia m e n tos d e té cn ica e m a te ria l d e se n ca d e a d os p or e sse p roce sso. Tra ta -se , sim , d e d e m on stra r com o a té cn ica é u m fator ativ o, e n ã o se cu n d á rio, e m tod a s a s m a n ife sta çõe s a rtística s p rim itiva s.

A m e u ve r, p orta n to, o q u e m a rca o d ista n cia m e n to d a p e rsp e ctiva b oa sia n a e m r e la çã o à le itu ra m or fológ ica q u e o e volu cion ism o fa z d o ob je to a rtístico é a a rticu la çã o p e cu lia r e n tre os n íve is té cn ico e se m â n ti-co. Ba sta ve rifica r, a p rop ósito, q u e o a lca n ce sig n ifica tivo d a ob ra d e a rte , ta l com o e le a con sid e ra , só se a firm a a p a rtir d e su a n a tu re za té cn ica e form a l, on d e e x ce lê n cia e fix id e z con stitu e m os p a d rõe s e sté ticos p rivile -g ia d os.

Ta lve z se ja p ossíve l in fe rir, n e sse p la n o, q u e a té cn ica , p a ra Boa s (1955[1927]:10), p ossu i u m va lor e sté tico e m si m e sm a , p ois “ o ju lg a m e n -to d a form a té cn ica é e sse n cia lm e n te u m ju lg a m e n -to e sté tico” . Pa ssa m os, com o se vê , d a té cn ica com o lim ite à té cn ica com o con d içã o d e p ossib ili-d a ili-d e p a ra a cria çã o, ou se ja , ili-d e u m a re la çã o q u a se ili-d e e xclu sã o p a ra u m a re la çã o d e com p le m e n ta rid a d e . N ote -se q u e é a tra vé s d a a n á lise d o v ir-tu osism o in d ivid u a l n o p roce ssa m e n to d e in d ú stria s e sp e cífica s q u e Boa s con ju g a o im p e ra tivo té cn ico e a n oçã o d e cria çã o a r tística , e in d ica , in clu sive , o p la n o in con scie n te n o q u a l e sta op e ra , já q u e a op osiçã o e n tre con ce p çã o e r e a liza çã o n ã o se coloca n e sse con te xto. N ã o é à toa , p or con se g u in te , q u e a im p ortâ n cia d o m a te ria l e d a té cn ica n a a n trop olog ia b oa sia n a e ste ja a ssocia d a à id e n tifica çã o d o locu s d a a rte n o ob je to e d o ca rá te r d ire to e p e ssoa l d a e xp e riê n cia e sté tica , o q u e con d icion a a in ve s-tig a çã o à ob se rva çã o e m p írica d os fe n ôm e n os.

Esta m os, a ssim , d ia n te d e u m a d iscu ssã o q u e p ossu i a lca n ce m a is a m p lo já q u e a té cn ica só p ossu i re le vâ n cia in a lie n á ve l n o q u e se re fe re à e sp e cificid a d e d os fe n ôm e n os a r tísticos, n a m e d id a e m q u e p r od u z re su lta d os form a is e q u a lita tivos. A d im e n sã o té cn ico-se m ân tica q u e Boa s id e n tifica n a ob ra d e a rte su b stitu i, p orta n to, a ê n fa se id e a lista n o su je ito e a re d u çã o m orfológ ica d o ob je to p e la id é ia d e q u e a ob ra , o ob je to a rtís-tico, p orta n to, con stitu i e m si m e sm a u m siste m a d e sig n os irre d u tíve l.

(7)

O “ form a lism o” b oa sia n o, n o e n ta n to, é a p e n a s re la tivo. Ao e xp lici-ta r e torn a r p rod u tivo o d iá log o e n tre os e le m e n tos con stitu tivos d o sig n o a rtístico — o p u ra m e n te for m a l e o sig n ifica tivo —, Boa s n ã o r e p e te o e q u ívoco re corre n te n a s a n á lise s d e n u n cia d a s com o “ form a lista s” : d e s-m e s-m b ra r a u n id a d e d a ob ra an te s d e su b s-m e tê -la à a n á lise , e con sid e ra r ap e n as a form a , p re scin d in d o d o sig n ifica d o (cf. M e rle a u -Pon ty 1980 [1960]:118). Em lu g a r d e rom p e r com a e sté tica , o form a lism o b oa sia n o g a ra n te a ca p a cid a d e d e u m a a b ord a g e m d e sse tip o re ve la r a s ca ra cte -rística s e sp e cífica s d o ob je to a rtístico com o u m ob je to e n ã o com o u m ve í-cu lo d e m e n sa g e n s sim b ólica s e / ou socia is e xtrín se ca s a e le .

Ta lve z se ja n e ste p on to q u e a a titu d e crítica d e Boa s e m re la çã o a o e volu cion ism o e n con tre u m d e se u s p on tos m á xim os d e sofistica çã o. Isto p orq u e — e m b ora Lé vi-Stra u ss (1993:157) a p on te , com p e rtin ê n cia , q u e o form a lism o b oa sia n o m a n té m u m fu n d a m e n to n a tu ra lista e e m p írico e , p od e r-se -ia a cr e sce n ta r, a in d a con fu n d a a for m a com o ob je to e com a té cn ica —, e le já se a p r oxim a d o m od e r n o con ce ito d e for m a : cu ltu ra l, p or d e fin içã o, e au to-re fe re n ciad o. É a té d ifícil, d ig a -se d e p a ssa g e m , e xa g e ra r a re le vâ n cia d e ssa a b ord a g e m q u e a va lia os e le m e n tos a rtísti-cos e m te rm os, sim u lta n e a m e n te , m a te ria is e sim b ólirtísti-cos.

Em ve z d e n e g lig e n cia r o con te ú d o, o ob je tivo d e Boa s (1955[1927]: 13) é , ju sta m e n te , g a ra n tir a au ton om ia d a a rte e n q u a n to siste m a sig n ifi-ca tivo, d e m on stra n d o q u e “ o sig n ifiifi-ca d o d a for m a a rtístiifi-ca n ã o é n e m u n ive rsa l n e m a n te rior à for m a ” . Por isso, n ã o é p ossíve l fu n d a m e n ta r tod a s a s d iscu ssõe s a ce rca d a s m a n ife sta çõe s a rtística s n o p rin cíp io d e q u e “ a e xp re ssã o d e e sta d os e m ocion a is p or form a s sig n ifica tiva s d e ve se r tom a d o com o o com e ço d a a r te ou m e sm o q u e , com o a lin g u a g e m , e sta é u m a form a d e e xp re ssã o” (Boa s 1955[1927]:13). Asse n ta d o n e sse crité rio, o n om in a lism o b oa sia n o se e xe rce rá n o d iá log o crítico com a u tore s q u e lim ita m su a d e fin içã o d e a rte a o tore a lism o, n ã o a d m itin d o o p ra -ze r d e corre n te d e e le m e n tos for m a is q u e n ã o se ria m “ p rim a ria m e n te e xp re ssivos” (Boa s 1955[1927]:14).

(8)

Essa e sp é cie d e d issocia çã o se m â n tica e m p re e n d id a p or Boa s, e n tre u m n íve l “ su p e rficia l” e con scie n te e u m n íve l “ p rofu n d o” e in con scie n te , é e fe tu a d a p or m e io d a a n á lise d a re la çã o e n tre a re p re se n ta çã o e d ois a sp e ctos e sp e cíficos, a té cn ica e o sim b olism o. É a tra vé s d o e stu d o d e sse tip o d e con e xã o q u e Boa s u ltra p a ssa a se m â n tica su p e rficia l e xe m p lifica d a p e la re p re se n ta çã o, e d e m on stra q u e o p rin cíp io a tivo d a s m a n ife sta -çõe s a rtística s d e sse tip o, q u a lq u e r q u e se ja o m é tod o u tiliza d o, con siste e m u m a ê n fa se n o e le m e n to form a l. Pod e -se , p or con se g u in te , d ize r q u e m e sm o o va lor a rtístico d a “ re p re se n ta çã o” p rim itiva “ se m p re d e p e n d e rá d a p re se n ça d e u m p ad rão form al q u e n ã o é id ê n tico à form a e n con -tra d a n a n a tu re za ” (Boa s 1955[1927]:78-79, ê n fa se s m in h a s).

N a ve rd a d e , ta l a b ord a g e m p e rm ite d a r con ta ta m b é m d e u m d u p lo p roce sso, cu ja com p le xid a d e e h istoricid a d e in trín se ca s e xclu e m q u a lq u e r a n á lise ap riorística: p or u m la d o, o p roce sso lq u e va i d o re p re se n ta tivo a o form a l, a tra vé s d a con ve n cion a liza çã o d os e le m e n tos re p re -se n ta tivos, e , p or ou tro, o p roce sso q u e va i d o form a l a o re p re -se n ta tivo, com a im p u ta çã o d e sig n ifica d os a os m otivos form a is. Se g u n d o Boa s, é a rb itrá rio a ssu m ir q u a lq u e r se q ü ê n cia d e m od o u n ila te ra l p ois, tom a n -d o com o p rin cíp io a p lu rali-d a-d e -d e -d im e n sõe s h istórica s e n volvi-d a s n a q u e s t ã o , é fo r ç o s o a d m it ir a o c o rr ê n c ia d ife r e n c ia d a e s im u lt â n e a d e d u a s te n d ê n cia s: a form a lista e a re p re se n ta tiva . N e sse s te rm os, q u a n -d o a p rim e ira p re va le ce , ob tê m -se re su lta -d os a lta m e n te con ve n cion a is e a té m e sm o g e om é tricos; p or ou tro la d o, q u a n d o é a id é ia d e re p re se n -ta çã o q u e p r e d om in a , ob tê m -se r e su l-ta d os m a is r e a lis-ta s. Assin a le -se a in d a q u e o e le m e n to form a l q u e ca ra cte riza o e stilo é p rim e iro e m re la -çã o a am b as a s te n d ê n cia s. C om o a s con d içõe s h istórica s e p sicológ ica s p re se n te s n e ssa s d u a s e xp e riê n cia s cu ltu ra is sã o d istin ta s, a te oria d o d e se n volvim e n to d e m otivos g e om é tricos a p a r tir d e m otivos r e a lista s m e d ia n te a con ve n cion a liza çã o, tom a d a com o p roce sso h istórico g e ra l, é re fu ta d a , e tn og ra fica m e n te , a tra vé s d o e stu d o d os e le m e n tos sim b óli-cos.

(9)

d a a rte p rim itiva : a d isp osiçã o se q ü e n cia l e cla ssifica tória d e m otivos e m fu n çã o d e se u g ra u d e n a tu ra lism o.

J u lg o q u e e sse fe n ôm e n o, a p e n a s a p on ta d o p or Boa s n a oca siã o, for-n e ce o a rg u m e for-n to p a ra a e la b ora çã o d e u m a crítica m e tod ológ ica a os e stu d os d e d ive rg ê n cia , a p a rtir d a a firm a çã o d e q u e n ã o e xiste n e n h u m a g a ra n tia d e q u e a s sé rie s se le cion a d a s d e a cord o com a s sim ila rid a -d e s “ re a lm e n te r e p re se n ta m se q ü ê n cia s h istórica s” (Boa s 1940[1908]: 589). N ã o é à toa , p orta n to, q u e , d e a cord o com Boa s, se ja p ossíve l in ve rte r e re in rte rp re ta r, e m se n tid o op osto, a s m e sm a s sé rie s, com o se o con -te ú d o re a lista tive sse sid o a trib u íd o a e la s, p os-te riorm e n -te , p or u m p ro-ce sso d e im p u ta çã o d e sig n ifica d os [re ad in ]. C on fig u ra -se , a ssim , u m a e sp é cie d e e volu çã o con ve rg e n te q u e , “ com e ça n d o a p a rtir d e fon te s d is-tin ta s p od e te r p rod u zid o os m e sm os re su lta d os” (Boa s 1938a [1911]:170).

Essa p ossib ilid a d e d e in ve rsã o, p or su a ve z, e stá con d icion a d a a o re con h e cim e n to d e q u e , com o a s d u a s te n d ê n cia s — “ d ive r g ê n cia ” e “ con ve rg ê n cia ” — p od e m se r e n con tra d a s, sim u lta n e a m e n te , n a s m a n i-fe sta çõe s a r tística s p rim itiva s, é m a is p la u síve l p ostu la r q u e a m b os os p roce ssos sã o h istorica m e n te p ossív e is, e q u e , p orta n to, n e n h u m a d a s te oria s cor re sp on d e a o d e se n volvim e n to h istórico e fe tivo d o d e se n h o d e cora tivo. De fa to, e m ou tra oca siã o, Boa s (1938a [1911]:171) e xp licita q u e a se m e lh an ça d os fe n ôm e n os é tn icos — b a se d a s a n á lise s m orfológ ica s e se q ü e n cia is com o a “ d ive rg ê n cia ” — “ é m a is su p e rficia l q u e e sse n -cia l, m a is a p a re n te q u e re a l” .

É à lu z d e ssa crítica q u e o a u tor e xe rcita m a is u m a ve z se u n om in a -lism o, vin cu la n d o-o a u m a d a s ca ra cte rística s m a is n otá ve is d a cu ltu ra p rim itiva : o “ a ssocia cion ism o” , ou se ja , o e sta b e le cim e n to d e r e la çõe s e stre ita s e n tre a tivid a d e s m e n ta is a p a re n te m e n te d istin ta s. Re ve la -se , d e sse m od o — com o a le itu ra sim b ólico-re a lista d e p a d rõe s con ve n cio-n a is d e m ocio-n stra , d e m a cio-n e ira p e cu lia r — q u e a u cio-n ificação d e fe cio-n ôm e cio-n os h e te rog ê n e os ta m b é m é p ra tica d a p e lo n a tivo, sob a in flu ê n cia d e u m a “ id é ia d om in a n te ” . Se g u n d o Boa s (1940[1916]:322), é p ossíve l ch a m a r d e “ con ve rg ê n cia ” e sse d e se n volvim e n to a p a rtir d e d ife re n te s fon te s, n ã o im p orta n d o, p a ra isso, q u e a a ssim ila çã o se ja d e corre n te d e ca u sa s in te rn a s e p síq u ica s e / ou e xte rn a s e h istórica s.

(10)

m e sm a form a . Ta l m é tod o, n a ve rd a d e , é u m a va ria çã o d o m é tod o g e o-g rá fico d e in ve stio-g a çã o d a d istrib u içã o d e fe n ôm e n os “ é tn icos” — p a ra Boa s, o ú n ico d isp on íve l p a ra cu ltu ra s q u e n ã o p ossu e m re g istros h istóri-cos e / ou a rq u e ológ iistóri-cos.

C om p rova -se , p or e ssa via , q u e a p e rsistê n cia d o e le m e n to for m a l con tra sta com a fa lta d e e sta b ilid a d e d a s e xp lica çõe s, p or u m la d o, e com a a u sê n cia d e coe rê n cia n os sím b olos, p or ou tro. Isso d e m on stra q u e “ o p roce sso d e re ad in g in e xiste e re sp on d e p e lo sig n ifica d o d e vá ria s for-m a s g e ofor-m é trica s; e q u e n ã o é n e ce ssá rio a ssu for-m ir e for-m tod os os ca sos q u e o orn a m e n to g e om é trico é d e riva d o d e re p re se n ta çõe s re a lista s” (Boa s 1955[1927]:127).

Um a q u e stã o, n o e n ta n to, p e rm a n e ce la te n te : p or q u e e ssa te n d ê n cia a e sta b e le ce r a ssocia çõe s e n tr e d e te rm in a d a s id é ia s e m otivos con -ve n cion a is é tã o m a rca d a n a s cu ltu ra s p rim itiva s? De a cord o com Boa s (1940[1903]:562), a re sp osta d e ve se r b u sca d a n a con ce p çã o p e cu lia r d e re p re se n ta çã o q u e a í se m a n ife sta : com o a re p re se n ta çã o p rim itiva é m a is in te le ctu a l q u e in tu itiva , “ o a r tista p rim itivo n ã o te n ta d e se n h a r o q u e e le vê , m a s com b in a r o q u e con stitu i os tra ços ca ra cte rísticos q u e sã o tom a d os com o sím b olos d o ob je to e , a ssim , a ssocia r form a s e ob je tos d e m a n e ira , a n osso ve r, in u sita d a ” . De ve m os, con tu d o, r e ssa lta r q u e e ssa s a ssocia çõe s n ã o sã o a le a tória s, p ois com o a a rte p rim itiva é u m siste m a sig n ifica tivo q u e fu n cion a n a e sca la d o g ru p o e xiste m associaçõe s típ icas e n tre id é ia s e form a s q u e sã o e sta b e le cid a s e m a n ip u la d a s n a e xp re ssã o a rtística . De tod o m od o, Boa s su b lin h a a n ão-coin cid ê n cia e n tre a e xp li-ca çã o p sicológ ili-ca d e u m costu m e e se u d e se n volvim e n to h istórico.

Pod e ría m os, p or con se g u in te , r e a va lia r o “ for m a lism o” b oa sia n o, vin cu la n d oo a se u n om in a lism o, ou se ja , à fra g m e n ta çã o op e ra d a n o con -te ú d o a p a re n -te d os fe n ôm e n os cu ltu ra is, com o ob je tivo d e p rova r a d ive r-sid a d e e sse n cia l d e p roce ssos h istóricos d e d e se n volvim e n to. É n e ssa d i-re çã o q u e d e ve m os in te rp r e ta r a op in iã o d e Boa s (1955[1927]:128), d e q u e a p rin cip a l con clu sã o d e se u s e stu d os a ce rca d a a rte d e cora tiva p ri-m itiva é q u e “ a ri-m e sri-m a forri-m a p od e re ce b e r d ife re n te s sig n ifica d os, q u e a form a é con stan te , a in te rp re tação v ariáv e l, n ã o a p e n a s trib a lm e n te , m a s ta m b é m in d ivid u a lm e n te ” , con clu sã o e sta q u e re ve la u m a te n d ê n cia vá li-d a p a ra ou tra s li-d im e n sõe s cu ltu ra is.

(11)

d o m otivo e m re la çã o à v ariab ilid ad e d e in te rp re ta çõe s a e le a trib u íd os, d e n u n cia a e xistê n cia — e o cr u za m e n to — d e d u a s sé rie s e stilística s e x trín se cas. Isto ocorre p orq u e “ a e xp lica çã o n ã o p ossu i m e n os e stilo d o q u e a p róp ria a rte ” (Boa s 1940[1903]:555). Boa s d issocia , a ssim , os d ois a sp e ctos d o sig n o visu a l, g rá fico ou p lá stico — o p u ra m e n te for m a l e o sig n ifica tivo —, su b lin h a n d o a p rim a zia d o p rim e iro e m te rm os d e a n te -riorid a d e e p e rm a n ê n cia .

N ã o se d e ve su p or, tod a via , q u e e ssa d issocia çã o se e sta b e le ça e m d e trim e n to d a d im e n sã o se m â n tica d a a rte . N a ve rd a d e , ocorre ju sta m e n -te o con trá rio, p ois o “ form a lism o” b oa sia n o p e rm i-te q u e a sig n ifica çã o d a a rte d e cora tiva se ja a m p lia d a , a lca n ça n d o d ois n íve is se m â n ticos. Esse “ form a lism o” , p orta n to, n ã o re sva la p a ra o e q u ívoco re corre n te n a s a b or-d a g e n s or-d e sse tip o, q u e re sior-d e n o or-d e scon h e cim e n to or-d a com p le m e n tarior-d a-d e e n tre form a e con te ú a-d o, sig n ifica n te e sig n ifica a-d o. Isso é p ossíve l p or-q u e Boa s n ã o só m a n té m com o a p r ofu n d a a d im e n sã o se m â n tica d os fe n ôm e n os cu ltu ra is, u tiliza n d o ca te g oria s q u e p e r m a n e ce m n a ord e m d o vivid o.

Te m os, p or u m la d o, a id e n tifica çã o d e u m n íve l se m â n tico su p e rfi-cia l q u e re sp on d e p e lo v alor e m ocion al d a a rte n o p la n o con scie n te d a s “ in te rp re ta çõe s se cu n d á ria s” . N e sse se n tid o, Boa s (1955[1927]:350) e n fa -tiza “ o fa to d e q u e a a rte p u ra m e n te form a l, ou m e lh or, a a rte q u e é n a a p a rê n cia p u ra m e n te form a l, re ce b e u m va lor e m ocion a l q u e n ã o d iz re s-p e ito à b e le za d a s-p rós-p ria form a ” . Re g istre -se , a in d a , q u e e ssa e xs-p re ssã o e m ocion a l, re corre n te n o d om ín io d a a rte p rim itiva , só se e fe tiva “ p orq u e n a m e n te d os m e m b ros d e ssa s trib os ce rta s form a s sã o sím b olos d e u m con ju n to lim ita d o d e id é ia s” (Boa s 1955[1927]:350).

(12)

o-lu n tária à q u a l se r e fe re a icon olog ia d e Pa n ofsk y (1976b [1940]:33). A e xp lora çã o d e ssa su g e stã o, é ób vio, d e ve se r fe ita com o m á xim o cu id a-d o, in clu sive p orq u e , se g u n a-d o Boa s (1955[1927]:350), u m a a b or a-d a g e m d e sse tip o re q u e r u m “ b ack g rou n d cu ltu ra l firm e , d o tip o q u e é e n con -tra d o n os p ovos d e e stru tu ra socia l sim p le s” . Ta l ocorre p orq u e , com o o ca so d a a rte d e cora tiva g e om é trica d e m on stra d e m a n e ira e sp e cia lm e n te re ve la d ora , “ u m a re a çã o u n iform e à form a é in d isp e n sá ve l p a ra q u e u m a a rte e xp re ssion ista torn e -se e fe tiva ” (Boa s 1955[1927]:350). Som e n te n o n íve l d e ssa “ se m â n tica p rofu n d a ” , a ob ra d e a rte se ria “ p le n a m e n te re ve -la d ora d e se u ‘p róp rio’ con te ú d o e sig n ifica d o” , p a ra u tiliza r u m a e xp re s-sã o d e Arg a n (1988[1984]:145).

Pois b e m : con cord o p le n a m e n te q u e e ssa se m â n tica u ltra p a ssa o p la -n o su p e rficia l e co-n scie -n te d a s “ i-n te rp re ta çõe s se cu -n d á ria s” . Acre d ito, n o e n ta n to, q u e e sta s d e fin e m u m a icon og ra fia p e cu lia r, n a q u a l, e m b ora o d e se n volvim e n to d a form a se e n con tre lig a d o, m e sm o q u e su p e rficia l-m e n te , a o se u con te ú d o n a rra tivo, e le já forn e ce u l-m a via d e a ce sso p rivle g ia d a a o se u con te ú d o cu ltu ra l im a n e n te , con fig u ra n d o u m a ve r d a d e ira “ te oria n a tiva d a a rte ” . Isso só é p ossíve l p orq u e , a o e sta b e le ce r re la çõe s e n tre a s form a s a rtística s e d e te rm in a d os g ru p os d e id é ia s e n fa tiza d a s cu ltu ra lm e n te , a se m â n tica su p e rficia l e se cu n d á ria e xp licita o m e ca -n ism o — h istórico — d e tra-n sm issão e tra-n sform ação d e sig -n ifica d os e m con te xtos h istórico-cu ltu ra is e sp e cíficos. N e sse s te rm os, a m a n ip u la çã o form a l te m com o con tra p a rtid a a m a n ip u la çã o se m â n tica .

N a m e sm a d ire çã o, Pa n ofsk y (1976b [1940]:33) d e sta ca a re le vâ n cia d os e stu d os d e icon og ra fia , e a firm a q u e , “ q u a n to m a is a p rop orçã o d e ê n fa se n a ‘id é ia ’ ou ‘form a ’ se a p roxim a d e u m e sta d o d e e q u ilíb rio, m a is a ob ra re ve la rá o q u e se ch a m a ‘con te ú d o’” . De fa to, e m se n tid o a n á log o, Boa s (1955[1927]:350) a sse ve ra q u e “ q u a n to m a is fir m e a a ssocia çã o e n tre u m a form a e u m a id é ia d e fin id a , m a is e stre ita m e n te se e sta b e le ce o ca rá te r e xp re ssion ista d a a rte ” .

N ote -se , a in d a , q u e e ssa d iscu ssã o e scla re ce u m d os a sp e ctos m a is p rob le m á ticos d a ob ra d e Boa s: o p a p e l d e se m p e n h a d o p e la s “ in te rp re -ta çõe s se cu n d á ria s” n a in ve stig a çã o d a cu ltu ra p rim itiva . Su a re le vâ n cia te órica é d u p la : p or u m la d o, r e ve la m u m m e ca n ism o q u e p e r m ite d a r con ta d o va lor e m ocion a l q u e re ve ste os fe n ôm e n os cu ltu ra is; p or ou tro, forn e ce m u m a p on te e n tre os fe n ôm e n os a rtísticos p a rticu la re s e o p a d rã o cu ltu ra l n o q u a l se in se re m .

(13)

n e ce ssa ria m e n te a m b íg u o d e su a d im e n sã o sim b ólica . É n ova m e n te Pa n ofsk y (1976b [1940]) q u e m ch a m a a a te n çã o p a ra a p e cu lia rid a d e d a a rte com o siste m a sim b ólico. De a cord o com se u p e n sa m e n to, e m ou tros siste m a s, com o a lin g u a g e m a rticu la d a , p or e xe m p lo, a in te n ção sig n ifi-cativ a e n con tra -se d e fin itiv am e n te fixa d a n a id é ia d a ob ra . N o ca so d a a rte , tod a via , o in te re sse p e la id é ia e n con tra r-se -ia se m p re con d icion a d o e a té m e sm o “ e clip sa d o” p e la ê n fa se n a form a .

En ca ra r a a rte com o u m siste m a sig n ifica tivo, n e sse s te rm os, a ca rre -ta m u d a n ça s ra d ica is n a form a tra d icion a l d e tra -ta r e sse fe n ôm e n o, p ois a p e rd a d o statu s su p e rior d a re p re se n ta çã o n a tu ra lista e a con se q ü e n te su p e ra çã o d a s ab ord ag e n s m orfológ ica s, d e m on stra m q u e , e m q u a lq u e r form a d e a rte , o fu n d a m e n ta l sã o os com p on e n te s e sté ticos e le m e n ta re s e a s re la çõe s q u a lita tiva s q u e m a n tê m e n tre si. Esse s e le m e n tos p ossu e m d u a s ca ra cte rística s e sse n cia is: sã o in trin se ca m e n te e xp re ssivos e te n -d e m a con stitu ir u m a tota li-d a -d e coe re n te . Porta n to, a in ve stig a çã o a u m só te m p o form a l e se m â n tica le va d a a e fe ito p or Boa s, e m lu g a r d e rom -p e r com a e x-p e riê n cia e sté tica , re ve la q u e e sta -p od e se r e la b ora d a a -p a r-tir d e q u a lq u e r te m a ou e stilo, p ois o e stilo, a ssim com o a lin g u a g e m , é p orta d or d e ord e m e e xp re ssivid a d e in te rn a s. Essa a b ord a g e m , p orta n to, se tra d u z e m u m re la tivism o q u e , e m ve z d e e xclu ir ju lg a m e n tos a b solu -tos d e va lor, torn a e sse s ju lg a m e n -tos p ossíve is n o in te rior d e q u a lq u e r con fig u ra çã o e stilística e sp e cífica , m e d ia n te a re fu ta çã o d e crité rios a b so-lu tos (Sh a p iro 1953:282A).

Assim , se a sim ila rid a d e fu n d a m e n ta l d os p roce ssos m e n ta is é o p a n o d e fu n d o p a ra a p ote n cia liza çã o d a form a n o n íve l d e g e n e ra lid a d e e m q u e Boa s a coloca , é n o p la n o d e se u h istoricism o — a tra vé s d a in ve sti-g a çã o d a m a n e ira com o se e sta b e le ce m e se tra n sm ite m os n e x os h istóricos n o d om ín io d a cu ltu ra — q u e d e ve m os b u sca r se u sig n ifica d o, n o se n -tid o in d ica d o p e lo “ con te ú d o” d e Pa n ofsk y.

(14)

tra l, a e xp re ssã o n a a rte p rim itiva , à d in â m ica in te ra tiva , sim u lta n e a m e n -te h istórica e p sicológ ica , e sp e cia lm e n -te e vid e n -te n os p roce ssos d e p a d ro-n iza çã o e stilística .

De ve -se sa lie n ta r, a in d a , q u e a d u p la fa ce d e ssa d in â m ica se re ve la n o m a p e a m e n to d e u m p roce sso d e te rm in a d o, a acu ltu ração, a p a rtir d e u m crité rio e sp e cífico, a au te n ticid ad e . N o lim ite e n tre a h istória e a p si-colog ia , ta is a sp e ctos sã o in d issociá ve is e con ju g a m u m d u p lo ob je tivo q u e , se g u n d o Boa s, se ria e xte n sivo a q u a lq u e r in ve stig a çã o q u e tive sse com o fim ú ltim o a “ com p re e n sã o in te lig e n te ” d os fe n ôm e n os cu ltu ra is: “ con h e ce r n ã o a p e n a s a d in â m ica d a s socie d a d e s e xiste n te s, m a s ta m -b é m com o e la s ch e g a ra m a se r o q u e sã o” (Boa s 1940[1932]:255).

Pa ra u m a p rim e ira a p r oxim a çã o d o a sp e cto h istórico d a d in â m ica cu ltu ra l, p od e -se e voca r u m d os p rin cíp ios te órico-m e tod ológ icos g e ra is q u e p e rm e ia m Prim itiv e A rt: a con sid e ra çã o d a cu ltu ra p rim itiva com o re su lta n te d e a con te cim e n tos h istóricos. C om o já sa lie n te i, p oré m , e ssa p osiçã o h istoricista é ta m b é m n om in a lista , p ois, n o q u e se re fe re à a n á li-se h istórica , d e ve -li-se tra ta r ca d a p rob le m a p a rticu la r p rim e ira m e n te com o u m a u n id a d e e , só a ssim , te n ta r d e se n re d a r “ os fios q u e p od e m se r tra -ça d os n o d e se n volvim e n to d e su a for m a a tu a l” (Boa s 1955[1927]:155). Torn a -se , a ssim , com p re e n síve l a im p ortâ n cia q u e a d q u ire m os e stu d os d e d istrib u içã o p a ra a via b iliza çã o d a a b ord a g e m b oa sia n a .

A p a rtir d e sse p on to d e vista , Boa s d e sca rta a p ossib ilid a d e d e com e ça r a p e sq u isa com a te se d o d e se n volvim e n to sin g u la r e u n ilin e a r d e tra -ços cu ltu ra is, p ois n ã o h a ve ria d a d os d isp on íve is p a ra fu n d a m e n tá -la . C om e fe ito, a ê n fa se d a su a in ve stig a çã o re ca i sob re os p roce ssos d e d is-se m in a çã o e d e a cu ltu ra çã o, n os q u a is e le m e n tos e xtrín is-se cos sã o re m o-d e la o-d os o-d e a coro-d o com os p a o-d rõe s ca ra cte rísticos o-d e con fig u ra çõe s h istó-rica s loca is (Boa s 1940[1920]:284).

(15)

Prim itiv e A rt p rop õe , n a ve rd a d e , u m “ m od e lo” a n á log o, con d icio-n a icio-n d o a te m á tica d a im ag iicio-n ação, icio-n o d om íicio-n io d a a rte p rim itiva , à d iicio-n â m i-ca h istórii-ca r e ve la d a p e lo m a p e a m e n to d os p r oce ssos d e acu ltu ração. Esse m a p e a m e n to forn e ce o con tra p on to m e tod ológ ico à b u sca e volu cion ista p e la s orig e cion s d a s icion stitu içõe s e cocion stitu i o re cu rso h e u rístico fu cion d a m e n ta l e m su b stitu içã o a o p a r e volu cion ista in ve n çã o in d e p e n d e n te / so -b re vivê n cia s.

É n e ce ssá rio ob se rva r q u e e sse d e sloca m e n to só é p ossíve l p orq u e , d e a cord o com a con ce p çã o b oa sia n a d e cu ltu ra , a orig in alid ad e d a p ro-d u çã o a rtística p rim itiva e stá con ro-d icion a ro-d a à m an ip u lação criativ a e n ã o à in ve n çã o a b solu ta . De fa to, Boa s (1940[1888]:633) a trib u i o m e sm o e sta -tu to a os e le m e n tos p rove n ie n te s d a in ve n çã o e d o e m p ré stim o, e d e sta ca q u e o fu n d a m e n ta l é p e rce b e r q u e “ a in ve n çã o n ã o é d ifícil. A d ificu ld a -d e e stá n a m a n u te n çã o e p oste rior -d e se n volvim e n to” . Esse p roce -d im e n to d e te rm in a a u ltra p a ssa g e m d a n oçã o d e m e n ta lid a d e — a cion a d a a p e n a s n o p la n o g e n é rico d a sim ila rid a d e d os p roce ssos m e n ta is d a h u m a n id a d e — p e la d e trad ição, q u e vin cu la a in te lig ib ilid a d e d os fe n ôm e n os cu ltu -ra is p a rticu la re s à su a con form a çã o h istórica . De ssa form a , a in te lig ib ili-d a ili-d e ili-d a a rte , e n q u a n to fe n ôm e n o cu ltu ra l, n ã o é sim p le sm e n te re m e tiili-d a p or Boa s a o se u p a ssa d o, m a s re b a tid a n a tota lid a d e cu ltu ra l ta l com o e la se a p re se n ta sin cron ica m e n te .

Aq u i, p oré m , u m a q u e stã o se im p õe : d e q u e m a n e ira o “ m od e lo” a p a re n te m e n te a tom ista d os “ u n ive rsos fra g m e n ta d os” se a rticu la com a ê n fa se h olista q u e p e rm a n e ce la te n te n a con ce p çã o b oa sia n a d e cu ltu ra ? Essa q u e stã o se re ve ste d e e sp e cia l im p ortâ n cia n o q u e d iz re sp e ito a Pri-m itiv e A rt. Q u a n d o Boa s d issocia os d ois a sp e ctos d o sig n o a rtístico — o p u ra m e n te form a l e o sig n ifica tivo — e a firm a a a n te riorid a d e e p e rm a -n ê -n cia d o p rim e iro, e le já i-n d ica , -n o p la -n o d a s “ co-n e xõe s e xte r-n a s” e -n tre a s cu ltu ra s, q u e o p roce sso d e d isse m in a çã o d e “ tra ços cu ltu ra is” se d á a tra vé s d e e le m e n tos form a is. C om o e le n ã o fa la e m u m a a ssim ila çã o p a ssiva e sim e m u m a m a n ip u la çã o a tiva , é n o p la n o d a s “ con e xõe s in te r -n a s” a ca d a form a çã o cu ltu ra l p a rticu la r q u e e sse s e le m e -n tos p e rsiste m e a d q u ire m sig n ifica çã o (cf. Lé viStra u ss 1975[194445]). M e tod olog ica -m e n te , isso d e -m on stra q u e , -m e s-m o q u e se ja p ossíve l in ve stig a r u -m a cu l-tu ra a tra vé s d a a n á lise d e se u s e le m e n tos, n e n h u m fa to isola d o é sig n ifica tivo: a s re la çõe s fu n d a m e n ta is e n con tra m se n o â m b ito d e ifica d a cu ltu -ra p a rticu la r su p osta, a u m só te m p o, com o tota lid a d e e com o “ m ôn a d a ” .

(16)

con stitu i, p a ra Boa s, u m a ch a ve p a ra o e stu d o d a a rte p rim itiva . Re ve la -se , a ssim , q u e a h istoricid a d e d a a rte e stá e stre ita m e n te re la cion a d a a os m e ca n ism os d e e x clu são e in clu são q u e se e n con tra m n a b a se d e tod a cu ltu ra (Da m isch 1984[1977]:26) e à su a m od a lid a d e e sp e cífica d e e xis-tê n cia h istórica .

N a m e d id a e m q u e ta m b é m n a s socie d a d e s p rim itiva s o con ta to e n tre a s cu ltu ra s d e se m p e n h a u m p a p e l p re d om in a n te , p od e r-se -ia d e fin ir o e stilo a rtístico e / ou cu ltu ra l com o u m e x e rcício criativ o d e re sistê fin cia , o q u e re ve la q u e os p roce ssos d e p a d ron iza çã o e stilística tê m n a fra g -m e n ta çã o e n a d isse -m in a çã o su a con d içã o d e p ossib ilid a d e . Acon te ce , q u e n e n h u m e stilo a r tístico p od e se r com p le ta m e n te com p r e e n d id o “ com o u m d e se n volvim e n to in te rn o e u m a e xp re ssã o irre d u tíve l d a vid a cu ltu ra l d e u m g ru p o e sp e cífico” (Boa s 1955[1927]:176), o q u e sig n ifica q u e a ê n fa se re ca i sob re a m a n e ira com o os va lore s a rtísticos e cu ltu ra is sã o d ife re n te m e n te p e rsp e ctiva d os.

Ao con trá rio, a e sp e cificid a d e d os e stilos a rtísticos p rim itivos corre s-p on d e ju sta m e n te a o “ a fa sta m e n to d ife r e n cia l” e n tre a s cu ltu ra s. Lon g e d e re su lta r, p or ou tro la d o, e m u m a ssim ila cion ism o e m p ob re ce d or, e ssa e x p e riê n cia e sté tica é p a rtilh a d a n o â m b ito d e u m com p le xo h istórico-cu ltu ra l p a rtiistórico-cu la r, n o q u a l ocorre m , sim u lta n e a m e n te , te n d ê n cia s à u n i-fica çã o e à d ive rsii-fica çã o cu ltu ra l. N e sse s te rm os, a fixid e z d o e stilo n ã o con tra d iz a h istoricid a d e d a cu ltu ra , p ois, a ssim com o os d e m a is e le m e n -tos, os e stilos a rtísticos e n con tra m -se e m u m “ con sta n te e sta d o d e flu xo” (Boa s 1955[1927]:7), o q u e re ve la o re b a tim e n to b oa sia n o d a h istória n a g e og ra fia e a d e lim ita çã o d os e stilos com o ca m p os d e p ossib ilid a d e q u e e sta b e le ce m o lim ite d e re e n g e n d ra m e n to d a s cu ltu ra s.

Essa p ostu ra rom p e , p orta n to, com o p re ssu p osto d e a p a re n te e sta b ilid a d e d a cu ltu ra p rim itiva q u e , se g u n d o Boa s, n ã o e sta ria fu n d a m e n -ta d o e m d a d os e m p íricos, e sim n a fa l-ta d e p e rsp e ctiva h istórica com a q u a l e ssa cu ltu ra é a b ord a d a . De q u a lq u e r form a , a q u e stã o d e com o con ju g a r h istoricam e n te a re la çã o e n tre fra g m e n ta çã o e tota liza çã o p e rm a -n e ce e m a b e rto. C om o o “ a ssocia cio-n ism o” d a cu ltu ra p rim itiva re ve la d e m od o p a rticu la r, a re la çã o e n tre fra g m e n tos e tota lid a d e re solve -se e m u m a e q u a çã o q u e te m com o te rm os “ o con se rva d orism o d a cu ltu ra p rim itiva e o ca rá te r m u tá ve l d os tra ços d e civiliza çã o” (Boa s 1938b [1911]:223).

(17)

“ [...] on d e q u e r q u e te n h a m os in form a çõe s d e ta lh a d a s, e n con tra m os form as d e ob je tos e costu m e s e m flu x o con stan te , à s ve ze s e stá ve is p or ce rto p e río-d o e , e n tã o, su je ita s a rá p irío-d a s m u río-d a n ça s. Atra vé s río-d e sse p roce sso, e le m e n tos q u e se e n con tra va m a g ru p a d os com o u n id a d e s cu ltu ra is se se p a ra m . Alg u n s sob re vive m , ou tros m orre m , e n o q u e con ce rn e a os tra ços ob je tivos, a form a

cu ltu ral torn a -se u m q u ad ro cale id oscóp ico d e u m a m isce lâ n e a d e tra ços

q u e , tod a via , sã o re m od e la d os d e a cord o com o b ack g rou n d e sp iritu a l m u tá -ve l q u e a tra -ve ssa a cu ltu ra e q u e tra n sform a o m osaico e m u m tod o org â n i-co. Q u a n to m e lh or a in te g ra çã o d e e le m e n tos, m a is va liosa p a re ce p a ra n ós a cu ltu ra ” (1955[1927]:7, ê n fa se s m in h a s).

De ssa form a , a m e tá fora b oa sia n a id e n tifica n os p roce ssos d e a cu l-tu ra çã o o e xe rcício d e u m d om sin té tico q u e te rm in a ria p or com p or u m a tota lid a d e q u e , n o e n ta n to, com o o in d ica m a s fig u ra s d o ca le id oscóp io e d o m osa ico, p e rm a n e ce ria se m p re fra g m e n ta d a . E é e ssa sín te se q u e for-n e ce “ u m a ifor-n tu içã o p rofu for-n d a ” a ce rca d a for-n a tu re za d a cu ltu ra p rim itiva (Boa s 1940[1930]:265). A e sta a ltu ra , é p ossíve l r e tom a r e re d im e n sion a r u m d os p rin cíp ios m a is ca ra cte rísticos d a a n trop olog ia b oa sia n a . Tra ta -se d a id é ia d e q u e a sín te se (circu la r e a u to-re fe re n cia d a ) p rod u zid a p e la d in â m ica cu ltu ra l p rim itiva é p rob le m ática e a p oste riori e re su lta d a se d i-m e n ta çã o d a e xp e riê n cia h istórica .

A loca liza çã o d a d in â m ica cu ltu ra l, e m su a d im e n sã o h istórica , n o ca m p o d e ssa s troca s e sté tica s, te m im p ortâ n cia e stra té g ica , p ois re ve la a ce n tra lid a d e d a re la çã o e n tre fra g m e n ta çã o e tota lid a d e q u e p e rm e ia a p rob le m á tica le va n ta d a n e ste a rtig o. De fa to, a h ip óte se q u e g osta ria d e su ste n ta r é a d e q u e a p e rsp e ctiva e xp licita d a n o “ m od e lo” d os “ u n ive r-sos fra g m e n ta d os” d á o “ tom ” a o cu ltu ra lism o b oa sia n o e ta lve z te n h a forn e cid o o a n tíd oto q u e im p e d iu q u e e ste cu ltu ra lism o d o p a d rã o e d o e stilo se tra n sform a sse e m u m fu n cion a lism o d o siste m a — n a m e d id a e m q u e a e xig ê n cia d e tota liza çã o q u e con stitu irá o fu n d a m e n to d o p e n sa -m e n to a n trop ológ ico p oste rior já se a p re se n ta a q u i d e for-m a i-m p e riosa .

(18)

d a tota lid a d e . Assim , o a u tor n ã o p a ssa d o e stu d o d os e le m e n tos p a ra o e stu d o d a tota lid a d e . C om o a cu ltu ra p rim itiva é u m “ m osa ico” , os p roce ssos d e fra g m e n ta çã o e tota liza çã o ocorre m sim u lta n e a m e n te e se re b a -te m n a in -te g ra çã o e n tre in d ivíd u o e cu ltu ra .

J á sa b e m os, é ve r d a d e , q u e Prim itiv e A rt su p e ra a d ificu ld a d e d e a rticu la çã o e n tre e ssa s d u a s d im e n sõe s a o coloca r a tra d içã o, ou se ja , a e xp e riê n cia h istórica se d im e n ta d a , com o in stâ n cia d e te rm in a n te n os p ro-ce ssos d e p rod u çã o e re ro-ce p çã o a rtísticos. O q u e im p orta re ssa lta r, a g ora , se g u in d o a s re fle xõe s b oa sia n a s a ce rca d a d in â m ica cu ltu ra l, é a ê n fa se sim u ltâ n e a n o ca rá te r p sicológ ico d e sse s p roce ssos e su a loca liza çã o n o p la n o in d iv id u al. Em te rm os m e tod ológ icos, isso se tra d u z n a n e ce ssid a -d e -d e in ve stig a r “ o p roce -d im e n to -d o a rtista n a tivo, a s con -d içõe s sob a s q u a is e le p rod u z e a e xte n sã o d a su a orig in a lid a d e ” (Boa s 1940[1936]: 542).

J á a o fa la r d o v irtu osism o, ou se ja , d a vin cu la çã o d o re su lta d o e sté -tico à otim iza çã o d a s p ote n cia lid a d e s d a té cn ica e d o m a te ria l e n ã o à in te n çã o con scie n te d o a rtista , Boa s p e rce b e q u e , n o d om ín io d a a rte , e m e sm o d a a rte p rim itiva , é n o in d ivíd u o q u e se e n con tra o fu n d a m e n to irre d u tíve l. C on tu d o, e le a d m ite q u e in ve stig a çõe s d e sse tip o p e rm a n e -ce m ra ra s e in sa tisfa tória s p orq u e d e m a n d a m u m con h e cim e n to ín tim o d a cu ltu ra e m q u e stã o a fim d e q u e se ja p ossíve l te r a ce sso a os p e n sa -m e n tos, se n ti-m e n tos e a titu d e s d o a rtista . Dificu ld a d e e sta a g ra va d a p e lo fa to d e q u e os p roce ssos m e n ta is e n volvid os e sca p a m , e m g ra n d e p a rte , à con sciê n cia .

(19)

N ote -se , in icia lm e n te , q u e o p a p e l ce n tra l a trib u íd o p or Boa s a o in d i-víd u o a ssocia -se a o fa to d e e le se r o locu s p rivile g ia d o p a ra a s sín te se s cu ltu ra is, n ã o h a ve n d o tra n sce n d ê n cia d a cu ltu ra e m re la çã o a e le . N ã o é d e e stra n h a r, p orta n to, q u e Boa s vin cu le a p ossib ilid a d e d e a p re e n d e r a tota lid a d e d e u m a cu ltu ra à ob se r va çã o d o m od o com o o in d ivíd u o a sin te tiza . N e sse se n tid o, a re la çã o e n tre os p la n os p sicológ ico e cu ltu ra l n a su a ob ra d e ve se r tom a d a e m te rm os d e sim u lta n e id a d e e im a n ê n cia , n ã o e m te rm os d e tra n sp osiçã o.

Essa m a triz con ce itu a l e xp licita a lg u n s d os p r e ssu p ostos te óricos g e ra is d a a b ord a g e m b oa sia n a e , p rin cip a lm e n te , e vita os e q u ívocos re la -tivos a o se n tid o m e tod ológ ico d o se u in d ivid u a lism o. Isso sig n ifica q u e , e m b ora a d in â m ica cu ltu ra l p rim itiva só se m a n ife ste n o p la n o d o in d iví-d u o, e la n ã o se re iví-d u z a o se u p roce ssa m e n to con scie n te .

Pe rce b e se , d e sse m od o, a se n sib ilid a d e q u e a a n tr op olog ia b oa sia -n a re ve la e m re la çã o à s e xp e riê -n cia s cu ltu ra is p rim itiva s, d e m o-n stra -n d o q u e a u n id a d e q u e e la b u sca a tin g ir é in te rn a à form a çã o cu ltu ra l sin g u -la r tom a d a com o ob je to. É a p e n a s com e sse p r oce d im e n to, q u e r om p e com a id é ia d e u m a “ tota lid a d e e xp r e ssiva ” e xte rior a o in d ivíd u o, q u e é p ossíve l a te n d e r à d e m a n d a p or u m a “ com p re e n sã o ín tim a ” q u e , com o vim os, é con d içã o d e p ossib ilid a d e p a ra le va r a te rm o e stu d os ce n tra d os n a p sicolog ia in d ivid u a l.

A re sp e ito d e ssa d in â m ica p sicológ ica , q u e se m a n ife sta n a re la çã o e n tre “ u m a form a d a d a e a cria tivid a d e in d ivid u a l” , H e rsk ovits (1955: 148) a firm a q u e , a o re d u zir a s form a s a rtística s p rim itiva s “ à d im e n sã o d e a rtista s in d ivid u a is tra b a lh a n d o n os lim ite s d e su a p róp ria cu ltu ra ” , Boa s te ria a b e r to o ca m in h o “ p a ra a lca n ça r n íve is d e com p r e e n sã o d o p roce sso a rtístico e d a re sp osta e sté tica q u e d ificilm e n te tê m sid o ig u a la -d os -d e s-d e q u e e le e scre ve u ” (H e rsk ovits 1955:93).

(20)

N o e n ta n to, o p rin cip a l é ve rifica r com o isso se p r oce ssa . Q u a n d o Boa s d iz q u e , “ e m b ora o a r te sã o tra b a lh e se m cop ia r, su a im a g in a çã o n u n ca e xtra p ola o p la n o d a cóp ia ” (1955[1927]:157), e le p a re ce in d ica r q u e “ a in flu ê n cia d e te rm in a n te d o p a d rã o” n a a rte p rim itiva se b a se ia e m u m a “ ca u sa lid a d e su b je tiva ” (1955[1927]:83) e q u e a s ca te g oria s n e la m a n ip u la d a s se ria m a p riori h istórica s e n ã o-lóg ica s. N e sse s te r m os, a p rob le m á tica d a im a g in a çã o e n con tra -se d e sloca d a : a a ssocia çã o e n tre form a e sig n ifica d o e xp lícito é u m re cu rso a p oste riori q u e corre sp on d e a o p roce ssa m e n to con scie n te d a s in te rp re ta çõe s se cu n d á ria s.

É n e sse se n tid o q u e a se m â n tica a cion a d a p or Boa s é p rofu n d a — e a u tê n tica , d iría m os — e re sid e n a in scriçã o d o e le m e n to a rtístico a va lia -d o (ob ra , té cn ica , m otivo) e m u m a form a çã o cu ltu ra l sin g u la r q u e con stitu i, n o p la n o in d ivid u a l, u m a tota lid a d e sig n ifica tiva . Som e n te con sid e ra d o n e sse s te rm os, o d ocu m e n to e sté tico é ca p a z d e se u ltra p a ssa r, re ve -la n d o a con tin u id a d e e n tre o e stilo a rtístico e sp e cífico e o e stilo cu ltu ra l q u e o con d icion a .

Essa p osiçã o, n o e n ta n to, d e lin e ia u m a n ova a m b ig ü id a d e n a a n á li-se b oa sia n a d o e stilo. Por u m la d o, e sta é con d icion a d a p e la e sté tica a n tii-d e a lista tii-d o im p e ra tivo té cn ico, já q u e Boa s, com o vim os, e stá e n tr e os a u tore s q u e e n fa tiza m , n o fim d o sé cu lo XIX, a in flu ê n cia d os fa tore s té cn icom a te ria is cn o p roce ssa m e cn to e sp e cífico d a a rte . Por ou tro la d o, tod a -via , h á a e sté tica id e a lista , ta m b é m e m vog a n e sse p e ríod o, q u e a ssocia o e stilo a rtístico à s tota lid a d e s e xp re ssiva s. C re io, d e fa to, q u e a con ce p çã o b oa sia n a d e tota lid a d e cu ltu ra l situ a -se n o h iato e n tre o m a te ria lism o d o im p e ra tivo té cn ico e o id e a lism o d o e stilo. Em lu g a r d e con d u zir a u m re su lta d o p a ra lisa n te , é p re cisa m e n te e ssa lig a çã o q u e p rod u z a riq u e za e a a tu a lid a d e d a su a con ce p çã o d e e stilo. Ta l riq u e za só é a lca n ça d a p or-q u e a tota lid a d e d a or-q u a l Boa s fa la , sim u lta n e a m e n te fra g m e n ta d a e e x-p re ssiva , é in te rn a a o in d ivíd u o. N e sse s te rm os, o e stilo n ã o é a re a lid a d e e m p írica im e d ia ta já q u e e sta é re p re se n ta d a p e lo ob je to e p e los p roce s-sos d e p rod u çã o e re ce p çã o a rtísticos, m a s p e rm a n e ce im a n e n te a e le s.

Esta n ã o é , tod a via , a ú n ica con clu sã o q u e se p od e tira r d a s con sid era çõe s a n te riore s. Esp e ro q u e te n h a fica d o cla ro, ta m b é m , q u e a p re ocu -p a çã o b oa sia n a com a tota lid a d e n ã o re -p re se n ta u m e n fra q u e cim e n to d o h istoricism o e m d ire çã o a u m a visã o a -h istórica d a cu ltu ra . Ao con trá rio, e la corrob ora q u e é a p e n a s n o â m b ito d e ssa tota lid a d e q u e se torn a viá -ve l a b u sca p e la sig n ifica çã o h istórica d os fe n ôm e n os.

(21)

a sp e cto m a te ria l d a for m a e d os p roce ssos p sicológ icos d e p r od u çã o e re ce p çã o, te n d o com o d e n om in a d or com u m a q u e stã o d a sig n ifica çã o. E é e ssa le itu ra , in form a d a p e los p rin cíp ios p rofu n d os d a a n trop olog ia b oa -sia n a q u e é con d içã o d e p ossib ilid a d e p a ra u m a a b e r tu ra te órica q u e in ve stig u e se u s d e sd ob ra m e n tos p ossíve is n o ca m p o d a te oria d a a rte .

A q u e stã o le va n ta d a a q u i, p oré m , va i m a is a lé m . Em re la çã o à a titu -d e m e n ta l -d os p ovos p rim itivos, Prim itiv e A rt con té m u m a crítica à i-d é ia d e q u e h a ve ria a lg o com o u m a m e n ta lid a d e p rim itiva ou p ré -lóg ica . Boa s tom a a form u la çã o d e ssa h ip óte se com o re su lta d o d a d e b ilid a d e d o ra cion a lism o im p lícito cion o p ocion to d e vista e volu ciocion ista , q u e te r m icion a p or cocion -tra p or u m a ca u sa çã o ob je tiva a q u a lq u e r in flu ê n cia d e fa tore s m e n ta is su b je tivos. A ca u sa lid a d e id e n tifica d a p or Boa s (1955[1927]:83) n o â m b i-to d a d iscu ssã o d o e stilo e stá con d icion a d a p or u m cru za m e n i-to orig in a l com a su b je tivid a d e , já q u e , com o e le e scla re ce d e m a n e ira e sp e cia lm e n -te re ve la d ora , e m ve z d e p e n sa r o p a d rã o a p a r tir d e u m a ca u sa lid a d e ob je tiva e m a te ria l, o h om e m p rim itivo p e n sa o p a d rã o e m te rm os d e u m a cau salid ad e su b je tiv a.

Assim , a o in corp ora r o p rin cíp io d a ca u sa lid a d e n a re fle xã o sob re a a rte , Boa s a trib u i cie n tificid a d e à su a a n trop olog ia . N ã o se tra ta , p oré m , d a tra n sp osiçã o a o ca m p o d a a n trop olog ia d os crité rios d e cie n tificid a d e e sta b e le cid os e m ou tros d om ín ios. C om o e le p róp rio a d m ite , q u a n to m a is com p le xo o fe n ôm e n o m a is “ e sp e cia is” se rã o a s le is p or e le m a n ife sta -d a s. A q u e stã o a q u i le va n ta -d a te m ou tro se n ti-d o, e con siste e m in -d a g a r com o o h istoricism o b oa sia n o p od e se r com p a tíve l com e sse cie n tificism o e , m a is a in d a , com o e ste é con d icion a d o p or a q u e le .

(22)

Fra n ca ste l ilu stra , a ssim , com e xtre m a p rop rie d a d e , a m u d a n ça d e p e rsp e ctiva q u e a a n á lise b oa sia n a d a a rte p rim itiva re p re se n ta e m re la çã o à s te se s e volu cion ista s. N e sse s te rm os, n ã o a cre d ito q u e se ja d e sca -b id o su g e rir q u e é n o â m -b ito d a re la çã o a u tê n tica e n tre in d ivíd u o e cu l-tu ra q u e a “ ca u sa lid a d e su b je tiva ” q u e d á con ta d a d in â m ica a r tística p rim itiva se m a n ife sta . Pa ra d oxa lm e n te , p orta n to, Boa s con clu i q u e a ú n i-ca re g u la rid a d e p a ssíve l d e se r d e fin id a n o u n ive rso cu ltu ra l p rim itivo é a “ a fe tiva ” e , com o ta l, p e rm a n e ce im a n e n te a os fa tos.

N a ve rd a d e , com a d iscu ssã o d o e stilo, a in ve stig a çã o h istórica d e Boa s a d q u ir e a lca n ce cie n tífico se m u ltra p a ssa r o n íve l fe n om ê n ico. É n e ssa d ire çã o q u e d e ve se r situ a d o o p la n o n o q u a l a tu a e ssa ca u sa lid a -d e e stilística e su b je tiva : a q u e stã o é sa b e r com o se e sta b e le ce m e se tra n sm ite m os n e xos h istóricos sig n ifica tivos n o d om ín io d a cu ltu ra . Pod e -se d ize r, p orta n to, q u e o e stilo, ta l com o Boa s o con ce b e , r e p orta --se à s con d içõe s d e p ossib ilid a d e d a con tin u id a d e cu ltu ra l.

C re io, fin a lm e n te , e e ste con stitu i, d e ce rta m a n e ira , o fu n d a m e n to d e tod a a m in h a d iscu ssã o, q u e é a e ssa ca u sa lid a d e su b je tiva q u e a se m â n tica p r ofu n d a re sp on sá ve l p e la e xp r e ssã o n a a r te p rim itiva se re p orta . De tu d o o q u e foi visto a n te riorm e n te , n ã o é a b su rd o su p or q u e , se a se m â n tica su p e rficia l se re fe re a o con te ú d o n a rra tivo e e xtrín se co, re sp on d e n d o p e lo va lor e m ocion a l e con scie n te d a ob ra d e a r te , e ssa se m â n tica p rofu n d a se re fe re a o con te ú d o in trín se co e re sp on d e p or su a d im e n sã o cog n itiva .

Boa s op e ra cion a liza , a ssim , a s d ificu ld a d e s e a m b ig ü id a d e s im p líci-ta s — e , p od e r-se -ia m e sm o d ize r, con stitu tiva s — n a n oçã o d e e stilo, e su a re sistê n cia à siste m a ticid a d e con ce itu a l, se m se lim ita r a u m p roce d i-m e n to i-m e ra i-m e n te d e scritivo. O fu n d a i-m e n to d a te n sã o q u e p re sid e q u a l-q u e r te n ta tiva d e a n á lise e stilística é for m u la d o p or Pa n ofsk y (1976a [1915]:197), q u a n d o a firm a q u e “ p a ra a crítica d e a rte é a o m e sm o te m p o u m a b ê n çã o e u m a m a ld içã o q u e se u s ob je tos (d e ciê n cia ) m a n ife ste m n e ce ssa ria m e n te a p re te n sã o d e se re m com p re e n d id os a p a rtir d e ou tro â n g u lo, q u e n ã o o p u ra m e n te h istórico” . C re io q u e Boa s tra n sform a e ssa te n sã o, q u e tra d u z n o p la n o d a a rte a a rticu la çã o p rob le m á tica e n tre os n íve is “ e sté tico” e “ a fe tivo” , n o m otor d e su a ob ra .

(23)

n e ce ssá rio, con se q ü e n te m e n te , d e fin ir os con ce itos h istórico-a rtísticos sob re o p la n o m e tod ológ ico, o ú n ico, se g u n d o e le , ca p a z d e tra n sform a r o fe n ôm e n o a r tístico e m ob je to p a ssíve l d e con h e cim e n to cie n tífico. A m e tod olog ia b oa sia n a te m com o p rin cíp io u m a op e ra çã o a n á log a : a o con -ju g a r os n íve is “ e sté tico” e “ a fe tivo” , d e m on stra q u e a h istória d a a rte é con d içã o d e p ossib ilid a d e p a ra a via b iliza çã o d e u m a ciê n cia d a cu ltu ra , o q u e a te n d e ria à d e m a n d a e n u n cia d a p or Pa n ofsk y d e u m a ciê n cia d a arte q u e se coloq u e d o p on to d e vista d a h istória d o se n tid o.

J u lg o, p orta n to, q u e , lon g e d e se r in com p a tíve l com a p e rsp e ctiva re la tivista e sig n ifica tiva in sta u ra d a p e la a n trop olog ia b oa sia n a , a ê n fa se n a ca te g oria “ a rte ” n ã o só a con firm a , m a s d e sfa z o e q u ívoco d e q u e e sta te ria sid o e sta b e le cid a a p a rtir d a a firm a çã o d a d im e n sã o e sp iritu a l e irre -d u tíve l -d a cu ltu ra e m -d e trim e n to -d a su a -d im e n sã o m a te ria l e -d ia lóg ica . Su ce d e , con tu d o, com o e scla re ce Lé viStra u ss, q u e , a o a firm a r a n a tu re -za sim b ólica d o se u ob je to e , con se q ü e n te m e n te , d e su a p e rsp e ctiva — e m u m p roce sso q u e re m on ta e m g ra n d e m e d id a a Boa s —, a a n trop olog ia n ã o p re cisa , n e ce ssa ria m e n te , se a fa sta r d a m a te ria lid a d e d e ste , se p a -ra n d o cu ltu -ra m a te ria l e cu ltu -ra e sp iritu a l, form a e sig n ifica d o e , p or q u e n ã o d ize r, re la tivism o cu ltu ra l e u n ive rsa lism o e sté tico. N ã o é à toa , p or-ta n to, q u e a a rte con stitu i ob je to p rivile g ia d o p a ra a in ve stig a çã o d e ssa con e xã o, p ois é a tra vé s d e la q u e se d issolve a d istin çã o su p e rficia l q u e a m od e rn a a n trop olog ia socia l p a re ce e sta b e le ce r e n tre a m b a s. E, com e fe i-to, “ com o p od e ria fa zê -lo, u m a ve z q u e a a r te , on d e tu d o é sig n o, u tiliza ve ícu los m a te ria is?” (Lé vi-Stra u ss 1976[1960]:19, ê n fa se s m in h a s).

Re tom a n d o a q u e stã o m a is g e ra l q u e a b riu e ste a rtig o, e u con clu iria in d a g a n d o se o “ e sq u e cim e n to” d a a rte p or p a rte d a a n trop olog ia p ós-b oa sia n a p od e se r con sid e ra d o com o u m a lacu n a, ou se ja , u m e sp a ço va zio q u e p od e ria se r p re e n ch id o a p oste riori, m e d ia n te a a p lica çã o a o ob je to “ a rte ” d e te oria s e m é tod os d e se n volvid os n a a n á lid e d e te m á ti-ca s ou tra s e q u e , n o lim ite , te ria m sid o e sta b e le cid os à re ve lia d os se u s ob je tos e sp e cíficos. O u , a o con trá rio, se a “ m e m ória ” q u e con d icion a rá a a tu a lid a d e d a a n trop olog ia d e ve se r con stru íd a n a p róp ria p ositivid a d e d e sse “ e sq u e cim e n to” q u e , a o se r p e n sa d o com o “ in com p a tib ilid a d e ” , n os ob rig a ria a re fle tir sob re a s op çõe s h istórica s q u e le va ra m à e xclu sã o d e u m d os ob je tos ce n tra is d a a n trop olog ia a té Boa s.

(24)

e m te rm os d e m e m ória e e sq u e cim e n to, a tra je tória te órica d a a n trop olog ia d a a rte , im p e d e su a re ifica çã o com o e sp a ço te órico n e u tro, in d ife re n te à e scolh a h istórica d os se u s ob je tos e p rob le m a s, com o te n d e a a con te -ce r, p or ve ze s, n a a n trop olog ia p ós-b oa sia n a .

Re ce b id o e m 6 d e ou tu b ro d e 1997

Re a p re se n ta d o e m 16 d e m a rço d e 1998

Ap rova d o e m 27 d e m a rço d e 1998

(25)

Not as

* Este a rtig o é o d e sd ob ra m e n to d e u m d os ca p ítu los d e m in h a d isse rta çã o d e m e stra d o Por u m a An trop olog ia H istórica : Arte Prim itiva e C ole çã o Etn og rá fi-ca e m Fra n z Boa s, d e fe n d id a e m a g osto d e 1995 n o Pr og ra m a d e Pós-G ra d u a çã o e m H istória Socia l d a C u ltu ra d a PUC -Rio.

1 Escla re ço q u e a s n u m e rosa s con sid e ra çõe s d e Boa s sob re o te m a , d isp e

rsa s e m vá rios a rtig os e sp e cíficos e / ou in se rid a s e m d iscu ssõe s d ive rrsa s, fora m con -sid e ra d a s e m con ju n to com Prim itiv e A rt.

2 As e xp re ssõe s “ sé m a n tiq u e d e su rfa ce ” e “ sé m a n tiq u e p rofon d e ” sã o d e

Pa u l Ricœ u r (1986) e se re fe re m orig in a lm e n te à d iscu ssã o d a a n á lise le vistra u s-sia n a d os m itos, ta l com o le va d a a e fe ito n o a rtig o “ Le M od è le d u Te xte : L’Action Se n sé e C on sid e ré e com m e u n Te xte ” . M in h a u tiliza çã o d e ssa s e xp re ssõe s, tod a -via , n ã o e stá in te ira m e n te con d icion a d a p e lo se u se n tid o orig in a l, p ois o q u e m e in te re ssa , e sp e cifica m e n te , é a d issocia çã o d os n íve is se m â n ticos q u e e la s p e rm i-te m e fe tu a r.

Ref erências bibliográf icas

ARG AN, G iu lio C a rlo. 1988 [1984]. A rte

e Crítica d e A rte . Lisb oa : Ed itoria l

Esta m p a .

AZEVEDO, Wa rre n d ’. 1958. “ A Stru c-tu ra l Ap p roa ch to Esth e tics: Tow a rd a De fin ition of Art in An th rop olo-g y” . A m e rican A n th rop oloolo-g ist, 60: 702-714.

BO AS, Fra n z. 1938a [1911]. “ Th e In te r-p re ta tion of C u ltu re ” . In : Th e M in d

of Prim itiv e M an . N e w York : Th e

Fre e Pre ss. p p . 162-179.

___ . 1938b [1911]. “ Th e Em otion a l As-socia tion of Prim itive ” . In : Th e M in d

of Prim itiv e M an . N e w York : Th e

Fre e Pre ss. p p . 204-225.

___ . 1940 [1887]. “ Th e Stu d y of G e og -ra p h y” . In : Race , Lan g u ag e an d

Cu ltu re . N e w York : Th e Fre e Pre ss.

p p . 639-647.

___ . 1940 [1888]. “ Th e Aim s of Eth n oog y” . In : Race , Lan g u ag e an d Cu

l-tu re . N e w York : Th e Fre e Pre ss. p p .

Referências

Documentos relacionados

Este artigo é um exame crítico de três premissas que dominaram e viciaram o debate recente sobre divisão racial e pobreza urbana nos Estados Unidos: a) diluir a noção de gueto

Disse rta tion in An th rop olog y, Sta n ford Un ive rsity... Be rk e le y: Un ive rsity of C a liforn ia

O encanto de La Souffrance à Distance reside em primeiro lugar no fato de que Boltanski se detém aí, justamente, em uma sutilíssima recu- peração das condições de emergência

Os cat álogos como document os de ident idade... BO URDIEU ,

Como eu dizia, a nova geração de alunos de Park constituiu o corpo do- cente do Departamento de Sociologia da Universidade de Chicago: Hughes, Blumer, Wirth e Redfield, que estava

[r]

Badiou define a “ética de uma verdade” como o “que dá consistência à presença de alguém na composição de um sujeito que induz o processo dessa verdade” (:57).. Ora, o

Como vincular, então, essa constru- ção à noção estruturalista de incesto e ao valor funcional de sua proibição? Héritier apresenta seu trabalho como complementar à teoria de