Escravidão africana no recôncavo da Guanabara: (séculos XVII-XIX)

Texto

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Escravidão africana no

Recôncavo da Guanabara

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Mariza de Carvalho Soares e Nielson Rosa Bezerra

(Organizadores)

Escravidão africana no

Recôncavo da Guanabara

(séculos XVII-XIX)

Niterói, RJ – 2011

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Ao Professor Maurício Abreu, um apaixonado pelo

Recôncavo da Guanabara, cujo trabalho inspira a busca

de conexões entre a História e a Geografia.

Ao Professor José Cláudio de Souza Alves referência para

os estudos da Baixada Fluminense nas fronteiras entre a

História e a Sociologia.

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Copyright © 2011 by Mariza de Carvalho Soares e Nielson Rosa Bezerra

Direitos desta edição reservados à EdUFF - Editora da Universidade Federal Fluminense - Rua Miguel de Frias, 9 - anexo - sobreloja - Icaraí - CEP 24220-900 - Niterói, RJ - Brasil - Tel.: (21) 2629-5287 - Fax: (21) 2629- 5288 - www.editora.uff.br - E-mail: secretaria@editora.uff.br É proibida a reprodução total ou parcial desta obra sem autorização expressa da Editora. Normalização: Caroline Brito

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Projeto gráfico e editoração eletrônica: José Luiz Stalleiken Martins Supervisão gráfica: Káthia M. P. Macedo

Dados Internacionais de Catalogação-na-Publicação - CIP S676 Soares, Mariza de Carvalho; Bezerra, Nielson Rosa.

Escravidão africana no Recôncavo da Guanabara (séculos XIII-XIX)/Mariza de Carvalho Soares e Nielson Rosa Bezerra (organizadores). Niterói, Editora da UFF, 2011. 300 p. 23 cm. (Coleção História, 2, 2011)

Inclui Bibliografia ISBN 978-85-228-0633-1

1. História do Brasil. 2. escravidão. I. Título. II. Série

CDD 90700

UNIVERSIDADE FEDERAL FLUMINENSE Reitor: Roberto de Souza Salles

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Hebe Maria da Costa Mattos Gomes de Castro Marcelo Bittencourt Ivair Pinto Ana Maria Mauad de Sousa Andrade Essus

Márcia Maria Menendes Motta Ismênia Lima Martins Norberto Osvaldo Ferreras Comissão Julgadora Convidada (2010)

Ângela de Castro Gomes Jacqueline Hermann Leonardo Afonso de Miranda Pereira

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Sumário

Agradecimentos ...5 Apresentação ...6 Introdução ...9

Mariza de Carvalho Soares e Nielson Rosa Bezerra

Primeira Parte

A escravidão como experiência coletiva

A família escrava em Jacutinga, 1686-1721 ...17

Denise Vieira Demétrio

As milícias de cor na cidade do Rio de Janeiro, séculos XVIII e XIX...40

Michel Mendes Marta

Crise e decadência: a Fazenda do Iguaçu e seus escravos, século XIX ...60

Paulo Henrique Silva Pacheco

Viver na rua, viver a rua: usos e práticas da moradia escrava

na Guanabara oitocentista ...77

Ynaê Lopes dos Santos

Africanos e crioulos, nacionais e estrangeiros: os mundos do trabalho no Rio de Janeiro nas décadas finais do Oitocentos ...93

Lucimar Felisberto dos Santos

Segunda parte A escravidão como negócio

A pesca da baleia na capitania do Rio de Janeiro (século XVII) ...120

Camila Baptista Dias

O mercado do Valongo e comércio de escravos africanos – RJ (1758–1831) .138

Cláudio de Paula Honorato

Pombeiros e o pequeno comércio no Rio de Janeiro do século XIX ...166

Juliana Barreto Farias

Escravidão, tráfico e farinha: a viagem redonda entre

o Rio de Janeiro e a Baía de Biafra ...185

Nielson Rosa Bezerra

Referências ...206 Os autores ...239

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Agradecimentos

A ideia de reunir um grupo de jovens pesquisadores interessados no estudo do Recôncavo da Guanabara para esta publicação, resultou dos anos de trabalho conjunto. Este livro é, portanto, fruto da convivência e do trabalho coletivo. Assim sendo, os agradecimentos começam pela pró-pria experiência de trabalho e amizade no Programa de Pós-Graduação em História do Departamento de História da UFF, onde os autores desta coletânea tiveram a oportunidade de estudar ou frequentar, através de eventos e encontros informais. Os agradecimentos se estendem a outras instituições com quem ao longo dos anos temos partilhado nosso traba-lho, através de eventos acadêmicos que propiciaram uma rica convivência entre professores e alunos interessados no estudo da escravidão e temas conexos. Não menos importante foram as instituições de pesquisa, arqui-vos e bibliotecas cujas respectivas direções e, especialmente, seus quadros de funcionários, têm sido parceiras fundamentais para o desenvolvimen-to das pesquisas com resultados ora apresentamos.

Queremos agradecer também às instituições de fomento que têm fi-nanciado as pesquisas individuais dos autores – CNPq, CAPES, FAPERJ, FAPESP, Biblioteca Nacional e algumas prefeituras – que vêm, sistematica-mente, apoiando a divulgação do trabalho dos nossos pesquisadores, por intermédio de iniciativas diversas. Por fim, agradecemos o apoio acadêmi-co e financeiro do PPGH que permitiu a edição desta acadêmi-coletânea, enquanto o trabalho cuidadoso da equipe da EDUFF viabilizou seu resultado.

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Apresentação

Este livro é fruto de longos anos de trabalho em ensino e pesquisa que tenho acompanhado de perto. Em 2005, Mariza de Carvalho Soares levou para o Brasil o projeto Eclesiastical Sources for Slaves Societies, dirigido por mim na Vanderbilt University e financiado pelo National Endowments for the Humanities. Através desse projeto, com a partici-pação de bolsistas de Iniciação Científica do Departamento de História da UFF, digitalizamos cerca de 30 mil páginas de documentos referentes às antigas freguesias do Recôncavo da Guanabara, no período de vigência da escravidão. Naquela ocasião, foram constituídas séries documentais digitais de livros de batismo, casamento e óbito, obtidas nos arquivos da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu e da Cúria Arquidiocesana de Niterói. Por intermédio da professora Mariza Soares o projeto se desdobrou em ativi-dades de pesquisa e cursos no Departamento de História da UFF. Hoje é possível afirmar que o projeto não apenas viabilizou a digitalização de do-cumentos de modo a facilitar o acesso a eles e ao mesmo tempo preservar os originais, mas também divulgou junto a estudantes e professores a im-portância dessa documentação e dos arquivos que as abrigam. Duas das autoras desta coletânea foram bolsistas do projeto: Camila Baptista Dias e Denise Vieira Demétrio. É com satisfação que registro este fato e des-taco a importância de projetos coletivos para a formação de jovens pes-quisadores. Todos os demais autores, direta ou indiretamente, estiveram próximos dessa experiência ou a nós se juntaram por uma afinidade com a preocupação de levar o ensino e a pesquisa sobre a escravidão para além dos limites da cidade do Rio de Janeiro. Aceitar o convite para apresentar esta coletânea é para mim a renovação dos laços de trabalho e amizade construídos entre os departamentos de história da UFF e de Vanderbilt.

Pensar o Recôncavo da Guanabara como um recorte importante para os estudos da escravidão no Brasil resulta de uma linha de trabalho que se inspira em outras abordagens da escravidão. Desde o inicio foi fun-damental tomar como referência o marcante livro do historiador ame-ricano Stuart Schwartz Sugar Plantations in the Formation of Brazilian

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Society (1985), publicado no Brasil sob o título Segredos Internos. Engenhos e escravos na sociedade colonial (1988) onde o autor estudou a produção

açucareira do Recôncavo da baiano. A segunda referência é uma obra re-cente, Geografia Histórica do Rio de Janeiro (2010), de autoria do geógra-fo Mauricio Abreu que anos atrás apresentou um pequeno segmento de sua pesquisa em congresso da BRASA, realizado em Vanderbilt (2006), onde tive a oportunidade de conhecê-lo. Assim sendo, este livro destaca a importância de alargar os limites dos estudos da escravidão para além da cidade do Rio de Janeiro e, ao mesmo tempo, incentiva a pesquisa na rica documentação histórica disponível sobre o Recôncavo e que foi por muitos anos negligenciada.

Por fim, a importância da divulgação dos resultados da pesquisa de jovens historiadores merece nosso especial reconhecimento e tenho cer-teza de que o público leitor irá reconhecer também a importância dessa iniciativa na qualidade dos trabalhos apresentados.

Jane G.Landers

Gertrude Conway Vanderbilt Chair of History, Vanderbilt University

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Introdução

Mariza de Carvalho Soares e Nielson Rosa Bezerra

A pesquisa sobre a escravidão no Brasil tem ampliado seus horizon-tes e contribuído não só para diversificar o debate sobre a escravidão na historiografia brasileira mas também na historiografia do Atlântico e da história o debate sobre a África. Tem contribuído, de forma decisiva, para

preservação do patrimônio a ela associado.1 O aprofundamento de todos

esses caminhos de investigação tem sido fundamental para provocar uma reflexão crítica de parte dos pesquisadores da escravidão, no sentido de alargar as fronteiras de suas investigações, dialogando sempre com outras abordagens e temáticas da história. A capitania (posteriormente provín-cia) do Rio de Janeiro esteve sempre marcada pela presença da escravi-dão africana. Trabalhos sobre as dimensões demográficas da população escrava, sobre sua sociabilidade e ações de resistência têm caracterizado a historiografia da escravidão, mas no caso do Recôncavo da Guanabara,

a maioria deles teve como foco a cidade do Rio de Janeiro.2 São poucos os

livros que focalizam a escravidão fora dos limites urbanos, tendo como

foco da análise outras partes do Recôncavo.3

Já no início do século XVI, podem ser encontrados registros regulares da presença de escravos africanos no Recôncavo da Guanabara. A justifica-tiva para o recorte aqui estabelecido pode, portanto, nos remeter aos mais remotos tempos da ocupação do entorno da baía da Guanabara. O uso de rios, como Iguaçu, Sarapuí e Meriti, foi fundamental para estabelecer uma 1 Ver como exemplo alguns projetos do LABHOI como o Memória da Escravidão e o Escravidão

Africana nos Arquivos Eclesiásticos. Ver: <www.historia.uff.br/labhoi/>.

2 Dentre eles os que mais influenciaram as pesquisas aqui apresentadas podemos citar SOARES,

Mariza de Carvalho. Devotos da cor: identidade étnica, religiosidade e escravidão no Rio de Janeiro, século XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2000; para o século XIX o trabalho que enfoca os africanos de modo mais abrangente é de Mary C. Karasch, Slave Life in Rio de Janeiro, 1808-1850. New Jersey: Princeton University Press, 1987. Para o comércio de escravos africanos na cidade ver FLORENTINO, Manolo Garcia. Em Costas Negras: uma história do tráfico atlântico de escravos entre a África e o Rio de Janeiro (séculos XVIII e XIX). Rio de Janeiro: Arquivo Nacional, 1995.

3 Para investigações voltadas para o recôncavo ver GOMES, Flávio dos Santos. Histórias de

quilom-bolas: mocambos e comunidades de senzalas no Rio de Janeiro, século XIX. São Paulo: Companhia das Letras, 2006; BEZERRA, Nielson Rosa. As chaves da liberdade: confluências da escravidão no Recôncavo do Rio de Janeiro (1833-1888). Niterói: EdUFF, 2008.

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estreita rede de conexões. Os capítulos aqui reunidos mostram trabalhos recentes e atentos para um novo olhar sobre as relações entre a cidade do Rio de Janeiro e o entorno da baía. Embora nem sempre tenha sido este o ponto de partida dos pesquisadores que compõem essa coletânea, acreditamos que, reunidos, reforçam a proposta de pensar o Recôncavo da Guanabara em seu conjunto, rompendo com a antiga dicotomia entre a cidade e seu entorno. Para pensar o recôncavo sob este ponto de vista partimos de cinco pontos importantes.

O primeiro discute a relação entre historiadores e memorialistas.

Segundo Ana Lucia Ennes,4 a “rede de história e memória da Baixada

Fluminense” possui dois grupos principais: os memorialistas que, fazem uma crônica da Baixada, enfocam o passado mais distante e uma leitura pouco crítica dos documentos; e os historiadores acadêmicos representa-dos pelos pesquisadores oriunrepresenta-dos representa-dos programas de pós-graduação, em

especial da UFF, UFRJ e Universidade Severino Sombra/Vassouras.Mais

que uma diferenciação entre memorialistas5 e historiadores6 acreditamos

que o surgimento recente de um grupo de pesquisadores formados pelos programas de pós-graduação, vêm renovando o interesse pela história e pela memória da Baixada Fluminense. Como consequência, acreditamos que, longe de se distanciar dos pesquisadores de outras gerações, esse 4 ENNE, Ana Lucia Silva. Lugar, meu amigo, é minha Baixada: memória, representações sociais e

iden-tidade. Tese (Doutorado em Antropologia Social)–Museu Nacional, Universidade Federal Flumi-nense, Rio de Janeiro, 2002.

5 Entre os memorialistas destacam-se: FORTE, José Mattoso Maia. Memória da

Fundação de Iguassu. Rio de Janeiro: Typografia do Jornal do Comércio, 1933;

PEREIRA, Waldick. Cana, café e laranja: história econômica de Nova Iguaçu. Rio de Janeiro: FGV, 1977; PEIXOTO, Rui Afranio. Imagens iguaçuanas. Nova Igua-çu: IHGNI, 1968; PERES, Guilherme. Baixada Fluminense: os caminhos do ouro. Duque de Caxias: Consórcio de Edições, 1993; PERES, Guilherme. Tropeiros e

viajantes na Baixada Fluminense. São João de Meriti: IPAHB, 2002; TORRES,

Gênesis (Org.). Baixada Fluminense: a construção de uma história. São João de Meriti: IPAHB, 2004.

6 Ver FRÓES, Vânia. Município de Estrela 1846-1892. Dissertação (Mestrado em Historia)–

Univer-sidade Federal Fluminense, Niterói, 1974; SOUZA, Marlúcia dos Santos. Escavando o passado da cidade: Duque de Caxias e os projetos de poder político local, 1900-1964. Dissertação (Mestrado em História)– Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2002; BEZERRA, Nielson Rosa. As con-fluências da escravidão no Recôncavo do Rio de Janeiro: Iguaçu e Estrela (1833-1888). Dissertação (Mestrado)–Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2004; MARQUES, Alexandre dos Santos. Militantes da cultura em uma área periférica: Duque de Ca-xias, 1950-1980. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2005; GREGÓRIO, Maria do Carmo. Solano Trindade: raça e classe, poesia e teatro na trajetória de um afro-brasileiro, 1930-1960. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, 2006; BRAZ, Antonio Augusto. Vidas em transição: a cidade e a vida na cidade de Duque de Caxias nas décadas de 30, 40 e 50 do século XX. Dissertação (Mestrado em História)– Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2006; PEREIRA, Sandra Godinho Maggessi. Vozes Afro-Caxienses: ecos político-culturais dos movimentos de resistência negra em Duque de Ca-xias, 1949-1968. Dissertação (Mestrado em História)–Universidade Severino Sombra, Vassouras, 2006; BEZERRA, Nielson Rosa. Mosaicos da escravidão: identidades africanas e conexões atlânticas do Recôncavo da Guanabara (1780-1840). Tese (Doutorado)–Programa de Pós-Graduação em His-tória, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2010.

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movimento tem aproximado esta nova geração da produção que os prece-deu e que teve papel determinante na identificação de temas fundadores da historiografia recente.

O segundo ponto discute a questão da história regional cuja

aborda-gem ainda hoje marca os estudos sobre o Recôncavo da Guanabara.7 Sem

querer desmerecer essa abordagem que tem sido fundamental para o avanço das pesquisas até agora realizadas, esta coletânea toma um rumo diferente. Como alternativa para estabelecer o Recôncavo como limite de análise, demarcando o interior dessa “região” como foco de nossa atenção, privilegiamos as conexões entre as várias partes do Recôncavo e as cone-xões do mesmo com o Atlântico, através do comércio de escravos. Assim sendo, o Recôncavo do Guanabara ganha ênfase não como uma região, mas como um complexo conjunto de caminhos, redes sociais, pequenos e grandes negócios, movimento de pessoas e mercadorias que liga suas partes entre si e com outras partes da capitania, com São Paulo e Minas

Gerais, e mais longe com a África e Portugal, através do Atlântico.8

Um terceiro pilar que sustenta a organização desta obra pode ser perce-bido através do interesse em oferecer ferramentas para o enfrentamento do debate que envolve a dicotomia centro/periferia; urbano/rural. Essas são chaves de leitura das quais até hoje o Recôncavo da Guanabara não conseguiu se livrar. Toda a historiografia que trabalha o Rio de Janeiro esbarra numa visão do Recôncavo como periferia rural da cidade, da ca-pital. Entre os historiadores que trabalham com esta oposição destaco o artigo do brasilianista A. J. R. Russell-Wood. O historiador sofistica a no-ção usual de periferia distinguindo três diferentes situações consideradas periféricas atraves de três termos tomados de empréstimo aos

geógra-fos (umland, hinterland e vorland).9 Sua análise permite entender melhor

a diversidade de espaços e a multiplicidade de situações que podem ser aí identificadas. De acordo com o autor, o Recôncavo seria uma umland, próxima ao centro (a cidade do Rio de Janeiro). Apesar de seu esforço, permanece na oposição centro/periferia a ideia de sujeição da periferia ao centro. E é justamente este pressuposto que queremos combater.

O quarto pilar está diretamente relacionado às assimetrias sociais que envolviam escravos, forros e livres em um mesmo ambiente social que 7 Para uma abordagem da história regional ver número especial da revista Estudos Históricos, v. 8, n.

15, Dossiê História e Região, 1995, em especial Francisco Carlos Teixeira da Silva e Maria Yedda Linhares, em Região e história agrária, p. 17-26; ver também: SILVA, Marcos (Coord.). República em Migalhas: história regional e local. São Paulo: Marco Zero, 1990.

8 O uso da expressão conexões faz referência a uma já ampla historiografia. Ver como exemplo

SU-BRAHMANYAM, Sanjay. Connected histories: notes towards a reconfiguration of Early Modern Eurosia. Modern Asian Studies, Cambridge, v. 31, n. 3, Special Issue: The Eurasian Context of the Early Modern History of Mainland South East Asia, 1400-1800, p. 735-762, jul. 1997. Para os estudos atlânticos ver CURTO, José C.; LOVEJOY, Paul E. (Ed.). Enslaving connections: changing cultures of Africa and Brazil during the Era of Slavery. Amherst: Humanities Books, 2004.

9 RUSSELL-WOOD, A. J. R. Centro e periferia no mundo luso-brasileiro, 1500-1808. Revista

Bra-sileira de História, São Paulo, v. 18, n. 36, Dossiê Do Império Português ao Império do Brasil, p. 187-249, 1998.

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Russell-Wood tão bem explorou em seu livro Escravos e libertos.10 A vida

dos escravos não se fazia isolada do conjunto das pessoas que partilhavam com eles os mesmos espaços e instituições. Ao contrário, eles viviam no interior de uma sociedade múltipla, marcada justamente pela interação de seus diferentes segmentos, daí, como nos mostrou Stuart Schwartz em

Segredos internos, tratar-se de uma sociedade escravista.11 Apesar de não

terem trabalhado o Recôncavo da Guanabara, esses autores são aqui invo-cados por terem sido fundamentais para os novos rumos da pesquisa his-tórica sobre a escravidão, a partir da década de 1980. Pela atenção que dão à pesquisa com fontes primárias, inéditas e cuidadosamente recolhidas em diferentes arquivos e pela suas preciosas análises da sociedade colo-nial são ambos leitura indispensável. O foco desta coletânea é exatamente a convivência entre escravos, libertos e livres; a consequente e constante alteração das fronteiras sociais, étnicas e culturais estabelecidas, de modo a criar situações de interação nas quais a ação das pessoas (escravos e livres) exerce papel de destaque.

Por último, o quinto pilar discute a distinção entre os estudos fecha-dos na análise da escravidão no Brasil e aqueles que se abrem para uma perspectiva atlântica, em especial os que abordam a questão da diáspora africana nas Américas. Nesse sentido, para além dos marcos da história regional e das análises centro/periferia, os capítulos trabalham em escalas reduzidas para desvendar uma enorme riqueza de situações sociais que apontam quase sempre para o conjunto do Recôncavo e para o Atlântico.

É importante ainda explicar a escolha dos dois pesquisadores a quem dedicamos este livro. O geógrafo Maurício Abreu esteve sempre no cam-po da geografia histórica e seus trabalhos são leitura indispensável, em particular para os interessados no Recôncavo da Guanabara e na cida-de do Rio cida-de Janeiro. Descida-de a publicação cida-de A evolução urbana do Rio cida-de

Janeiro (1987), até seu mais recente trabalho, Geografia Histórica do Rio de Janeiro. 1502-1700, uma monumental pesquisa sobre o Recôncavo da

Guanabara até o século XVII, Maurício Abreu tem colaborado de forma determinante para avanço da pesquisa interdisciplinar e para a formação

dos historiadores.12 José Cláudio de Souza Alves, sociólogo é conhecido

por sua atuação na luta pelos direitos humanos na Baixada Fluminense onde desenvolve uma marcante reflexão sobre a importância da educação e da cultura como ferramentas para construção da justiça social. Seu livro

Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada Fluminense é

10 RUSSELL-WOOD, A. J. R. Escravos e libertos no Brasil colonial. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira,

2005. (primeira edição em inglês, 1982).

11 SCHWARTZ, Stuart B. Segredos internos: engenhos e escravos na sociedade colonial (1550-1835).

São Paulo: Companhia da Letras; Brasília, DF: CNPq, 1988. (primeira edição em inglês, 1985).

12 ABREU, Maurício de Almeida. A evolução urbana do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: IPLAN: Zahar,

1987. (atualmente em sua quarta edição pelo Instituto Pereira Passos); ABREU, Maurício de Almei-da. Geografia Histórica do Rio de Janeiro: 1502 - 1700. Rio de Janeiro: Andrea Jakobsson Estúdio, 2010.

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referência obrigatória para os trabalhos que a ele se seguiram; e sua

traje-tória, um exemplo para os jovens pesquisadores da Baixada.13

A coletânea reúne nove textos, sendo seis de autores que em algum momento de sua formação passaram pelo Departamento de História da UFF ou pelo seu programa de pós-graduação; os outros três são convida-dos que, oriunconvida-dos de outras instituições, estiveram em contato conos-co e têm na bibliografia produzida por nós referência importante para suas pesquisas. Apresentam cronologias, recortes temáticos e abordagens diversas, a maioria deles ainda em fase de desenvolvimento. Os textos foram selecionados e organizados em duas partes de modo a promover uma aproximação e um diálogo entre as mesmas. A primeira parte trata da diversidade das vivências coletivas de escravos e libertos, desde suas relações familiares até esferas de organizações formais e informais; a se-gunda, enfoca a questão da escravidão como negócio, nas várias esferas em que seus agentes se apresentam, sejam eles senhores, escravos, co-merciantes ou outros segmentos da população.

A primeira parte é composta de cinco capítulos. O primeiro, de autoria de Denise Vieira Demetrio, trata da família escrava na freguesia de Santo Antonio de Jacutinga, situada no fundo da baía de Guanabara, uma das mais antigas e representativas freguesias do Recôncavo da Guanabara, entre 1686 e 1721. Avançando nas análises sobre o tema que enfoca as relações familiares entre escravos, a autora aborda as conexões entre es-cravos e homens livres a partir de um diálogo inovador com o segmento da historiografia brasileira que trabalha com a noção de Antigo Regime. O segundo, de Michel Mendes Marta, analisa a presença das milícias de cor na cidade do Rio de Janeiro, nos séculos XVIII e XIX, mostrando-as como importantes esferas de organização coletiva dos chamados africa-nos forros da cidade do Rio de Janeiro, em especial os chamados “pretos--minas”. O texto abre um novo caminho para as pesquisas sobre africanos na historiografia brasileira e também a importância desses regimentos na medida em que colaboravam para a manutenção da ordem na cidade. O capítulo de autoria de Paulo Henrique Silva Pacheco descreve a vida dos escravos na Fazenda de Iguaçu, de propriedade da Ordem de São Bento. Fundada no século XVII, foi uma das fazendas mais importantes do en-torno da Guanabara tendo concentrado uma significativa mão de obra escrava. Partindo desta importante presença, o texto explora justamente a participação dos escravos na organização do cotidiano da congregação beneditina. No quarto capítulo, Lucimar Felisberto dos Santos trata das formas de agenciamento junto à população trabalhadora da cidade do Rio de Janeiro, mostrando que na primeira metade do século XIX os trabalha-dores escravos atuaram lado a lado com trabalhatrabalha-dores livres, tendo como perspectiva a possibilidade de qualificação profissional. Situando-se no 13 ALVES, José Cláudio de Souza Alves. Dos barões ao extermínio: uma história da violência na Baixada

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campo da história do trabalho, a autora caracteriza a formação da clas-se operária brasileira como emergente do regime escravista, destacando a proximidade entre experiência escrava e trabalho livre. Encerrando a primeira parte da coletânea, Ynaê Lopes dos Santos apresenta casos de escravos de proprietários do Recôncavo da Guanabara que “moravam” longe de seus senhores, na cidade do Rio de Janeiro onde eram “colocados ao ganho”. A questão da moradia é apresentada como um importante e geralmente desconsiderado aspecto da experiência da escravidão, em es-pecial àqueles que tinham a rua como lugar de suas lucrativas atividades econômicas.

A segunda parte é composta de quatro capítulos. O primeiro, de auto-ria de Camila Baptista Dias, descreve a pesca da baleia, um negócio pouco explorado pela historiografia e que foi de grande importância na baía da Guanabara no século XVII. A autora mostra os contratadores da baleia no quadro dos negócios portugueses e das elites da cidade do Rio de Janeiro, assim como o uso pouco estudado da mão de obra escrava africana no beneficiamento do óleo e outros derivados da baleia. Cláudio de Paula Honorato analisa o funcionamento do Mercado do Valongo. Criado no sé-culo XVIII para receber os africanos desembarcados, foi fechado em 1831 e sua existência desencadeou grandes debates do ponto de vista econô-mico, urbanístico e sanitário que merecem a atenção dos historiadores. Ao estudar o mercado, o autor apresenta também uma nova dimensão da cidade, assim como a dispersão dos escravos pelo recôncavo através de uma teia de pequenos negócios. Discutindo o pequeno comércio, o capítu-lo de Juliana Barreto Farias mostra a atuação dos chamados “pombeiros” no porto da cidade do Rio de Janeiro do século XIX onde as mercadorias produzidas no recôncavo eram vendidas aos moradores. O texto mostra as variadas estratégias de trabalho e sobrevivência desses pequenos co-merciantes na primeira metade do século XIX. O último texto da coletâ-nea, de autoria de Nielson Rosa Bezerra, parte das freguesias do fundo da Baía da Guanabara onde se concentrava a produção de farinha para mostrar as amplas redes de comércio constituídas por esses produtores. Nielson Bezerra analisa o caso de um grupo de comerciantes que levou uma embarcação com um grande lote de farinha de mandioca para ser

vendido nos portos de Bony e Calabar em troca de escravos destinados

aos comerciantes da cidade do Rio de Janeiro. Dessa forma o autor inves-tiga as conexões atlânticas do Recôncavo da Guanabara e mais uma rota atlântica minoritária (Rio de Janeiro – Baía de Biafra) frequentada pelos mercadores de escravos da cidade do Rio de Janeiro, na África Ocidental.

No seu conjunto, os textos abrangem temas variados, mas o diálogo entre eles pode ser reconhecido através da constante atenção, embora em medidas variadas, aos temas e abordagens destacados nesta introdução. Por fim, o conjunto dos capítulos demonstra que todos os autores tiveram sua formação marcada pela pesquisa documental nos arquivos do Rio de

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Janeiro e municípios da Baixada Fluminense, o que faz desta coletânea uma iniciativa pioneira não apenas por divulgar esse conjunto inédito de pesquisas cujos autores estão ingressando na vida acadêmica, mas tam-bém por divulgar uma rica e pouco explorada vertente da historiografia baseada em pressupostos que trazem ao palco dos estudos da escravidão um segmento da população escrava e liberta e de suas experiências e ne-gócios que até agora têm sido pouco explorados pela historiografia.

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Primeira Parte

A escravidão como experiência coletiva

3ª prova – JLuizSM - 13 junho 2011 11:31 AM

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A família escrava em Jacutinga, 1686-1721

1 Denise Vieira Demétrio

Introdução: problemática e fontes

Em 2001, num artigo, o historiador Ronaldo Vainfas alertava:

a imensa maioria das pesquisas sobre família escrava no Brasil se encon-trava baseada em fontes do século XVIII – via de regra o tardio XVIII – e, sobretudo, do século XIX, e jamais do século XVII, tempo em que a es-cravidão africana passou a ser dominante no litoral brasílico, e tempo em que a estrutura organizativa da Igreja – incluindo a rede paroquial – era acanhadíssima.2

Quase dez anos se passaram e a realidade dos estudos não é, hoje,

muito diferente.3

1 Este capítulo é parte de uma pesquisa iniciada na graduação em História e que se desdobra no

projeto de doutorado recém-iniciado. Esta versão é um resumo qualificado de três capítulos da dissertação de mestrado (1, 2 e 3). Para a versão completa da dissertação ver: DEMETRIO, Denise Vieira. Famílias escravas no Recôncavo da Guanabara: séculos XVII e XVIII. Dissertação (Mestrado)– Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2008. Dispo-nível em: <http://www.historia.uff.br/stricto/tesesonline.php>. Agradeço à Fundação de Amparo à Pesquisa do Estado do Rio de Janeiro-FAPERJ e ao projeto Ecclesiastical Sources in Slaves Socie-ties/Vanderbil University pelas bolsas de iniciação científica ao longo do meu curso de graduação quando iniciei minha pesquisa sobre a escravidão africana na freguesia de Jacutinga. Agradeço também a Coordenadoria de Ensino e Pesquisa-CAPES pelas bolsas de mestrado e doutorado, a última ainda em curso. Agradeço ainda a Mariza Soares e Allofs Daniel Batista pela revisão e suges-tões a este texto.

2 VAINFAS, Ronaldo. Jesuítas, escravidão colonial e família escrava: a especificidade do Nordeste

seiscentista. In: SILVA, Francisco Carlos Teixeira da; MATTOS, Hebe Maria; FRAGOSO, João. Escritos sobre História e Educação: homenagem a Maria Yedda Linhares. Rio de Janeiro: FAPERJ: Mauad, 2001. p. 220.Para os debates historiográficos acerca do tema ver: SLENES, Robert. Na senzala, uma flor: esperanças e recordações na formação da família escrava – Brasil sudeste, século XIX. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1999; SCHWARTZ, Stuart B. Escravos, roceiros e rebeldes. Bau-ru: Edusc, 2001; FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de Janeiro: Nova Fronteira, 1998.

3 Os 23 trabalhos apresentados no I Simpósio Internacional de Estudos Sobre a Escravidão Africana

no Brasil (junho-2010) referentes a família escrava permitem corroborar a crítica do autor. Deles, apenas dois não focaram o século XIX. Para a listagem completa dos resumos aprovados ver: <www. cchla.br/isi >.

(21)

Os estudos recentes sobre o período colonial4 compreendem a

forma-ção de famílias escravas e livres a partir da perspectiva do Antigo Regime

na América portuguesa5 procurando inserir seus agentes nas redes de

reciprocidades/solidariedades que se formavam no Império português entre distintos segmentos sociais; no caso deste artigo privilegiaram-se

as relações de compadrio entre famílias escravas e livres.6 O título deste

capitulo revela a preocupação do texto com a implementação de uma pes-quisa temática, geográfica e temporalmente difícil.

Do ponto de vista teórico-metodológico, a adoção da micro-história italiana aliada à fontes seriais permitiu conjugar dados qualitativos e quantitativos. O uso deste procedimento parte do pressuposto de que a redução de grau de escala permite observar de forma mais acurada

fenô-menos ditos gerais. Para tanto, o conceito de “jogos de escala”,7

cunha-do por Jacques Revel, permitiu tratar metocunha-dologicamente a freguesia de Jacutinga para mostrar suas configurações econômicas, sociais e políticas além de compreender as características da escravidão e, consequentemen-te, da família escrava no Recôncavo da Guanabara.

Os dados aqui apresentados foram obtidos através de um pequeno banco construído a partir do Livro de Batismos, Matrimônios e Óbitos de Escravos, de Santo Antônio de Jacutinga (1686-1721), hoje perten-cente ao Arquivo da Cúria de Nova Iguaçu, o mais antigo até o momento

4 LARA, Silvia Hunold. Conectando historiografias: a escravidão africana e o Antigo Regime na

Amé-rica portuguesa. In: BICALHO, Maria Fernanda; FERLINI, Vera Lúcia Amaral. Modos de governar: idéias e práticas políticas no império português: séculos XVI a XIX. 2. ed. São Paulo: Alameda Casa Editorial, 2007. p. 21-38; LARA, Silvia Hunold. Fragmentos setecentistas: escravidão, cultura e po-der na América portuguesa. São Paulo: Companhia das Letras, 2007.

5 DEMETRIO, Denise Vieira. Famílias escravas: novas perspectivas de análise para o período

colo-nial: Recôncavo da Guanabara, séculos XVII e XVIII. In: SIMPÓSIO INTERNACIONAL DE ESTU-DOS SOBRE A ESCRAVIDÃO AFRICANA NO BRASIL, 1., 2010, Natal. Anais... Natal: [s.n.], 2010.

6 Estudos recentes vêem demonstrando tais alianças, destacadamente os de João Fragoso. Dentre

outros trabalhos ver: FRAGOSO, João Luís. Fidalgos e parentes de pretos: notas sobre a nobreza principal da terra do Rio de Janeiro (1600-1750). In: FRAGOSO, João; SAMPAIO, Antônio Carlos Jucá; ALMEIDA, Carla Maria de Carvalho (Org.). Conquistadores e negociantes: histórias de elites no antigo regime nos trópicos: América Lusa, séculos XVI a XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Bra-sileira, 2007. p. 33-120; FRAGOSO, João. A reforma monetária, o rapto de noivas e o escravo cabra José Batista: notas sobre hierarquias sociais costumeiras na monarquia pluricontinental lusa (séculos XVII e XVIII). In: AZEVEDO, Cecília et al. Cultura política, memória e historiografia. Rio de Janeiro: FGV, 2009. p. 315-341; FRAGOSO, João. Capitão Manuel Pimenta Sampaio, senhor do engenho do Rio Grande, neto de conquistadores e compadre de João Soares, pardo: notas so-bre uma hierarquia social costumeira (Rio de Janeiro, 1700-60). In: GOUVÊA, Maria de Fátima; FRAGOSO, João (Org.). Na trama das redes: política e negócios no império português, séculos XVI--XVIII. Rio de Janeiro: Civilização Brasileira, 2010. p. 243-294; DEMETRIO, Denise Vieira. Famílias escravas no Recôncavo da Guanabara: séculos XVII e XVIII. Dissertação (Mestrado)–Programa de Pós-Graduação em História, Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2008.

7 REVEL, Jacques. Microanálise e construção do social. In: REVEL, Jacques (Org.). Jogos de escalas:

(22)

encontrado para esta freguesia.8 Também utilizamos as “Estatísticas

rea-lizadas pelo governo do Marquês de Lavradio”9 de finais do século XVIII,

onde podemos visualizar dados referentes à distribuição de engenhos, es-cravos e produção de açúcar/aguardente, população e produção agrícola desta freguesia. Estes dados são importantes para dar uma idéia da diver-sificação do emprego da mão de obra escrava e de como essa economia in-terferia na organização do trabalho e na vida da população, especialmente no que diz respeito à sua fixação na região e a constituição de laços dura-douros como casamento e outros laços familiares, nosso foco privilegiado. Outra fonte contemporânea desta e imprescindível para qualquer estudo sobre o recôncavo da Guanabara são os diversos escritos do Monsenhor

José de Souza Azevedo Pizarro e Araújo.10

Quanto aos engenhos de Jacutinga no século XVII, as fontes pesquisa-das foram complementapesquisa-das com informações da Base de Dados para o Rio de Janeiro da Linha de Pesquisa de Geografia Histórica, organizada por

Maurício Abreu.11 Para conhecimento da trajetória dos personagens da

freguesia e das localidades próximas, dois trabalhos de fôlego – as obras genealógicas de Carlos G. Rheingantz e Elysio de O. Belchior – foram

re-ferências indispensáveis.12 Ambos serviram enormemente para

identifi-car as genealogias de alguns proprietários para os quais privilegiamos o cruzamento de dados relativos a casamento, propriedades na localidade e 8 Arquivo da Cúria Diocesana de Nova Iguaçu, doravante ACDNI. Livro de Batismo, Matrimônio e

óbitos de Escravos, Santo Antônio de Jacutinga, 1686-1721. Este livro inclui mais duas folhas que foram encontradas no Arquivo da Cúria Metropolitana do Rio de Janeiro, por mim transcritas e cujos dados foram reunidos aos demais. A parte do livro relativa aos mortos, que consta em sua página de abertura, não foi encontrada. Agradeço a Antonio Lacerda, diretor do referido arquivo, pela disponibilização da fonte e a Nelson Aranha, paleógrafo, que orientou na transcrição deste e outros manuscritos.

9 LAVRADIO, Marquês do. Estatística realizada pelo Governo do Marquês do Lavradio, entre

1769-79. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, São Paulo, t. 76, parte 1, p. 289-360, 1913.

10 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. O Rio de Janeiro nas visitas pastorais de Monsenhor

Pi-zarro: inventário da Arte Sacra Fluminense. Rio de Janeiro: INEPAC, 2008. 2 v; ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano de 1794. Nilópolis: Prefeitura de Nilópolis, 2000; ARAÚJO. José de Souza Azevedo Pizarro e. Memórias históricas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro: Imprensa Nacional, 1948. 10v; ARAÚJO. José de Souza Azevedo Pizarro e. Relação das Sesmarias da Capitania do Rio de Janeiro. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, Rio de Janeiro, t. 63, v. 1, 1900.

11 Maurício Abreu, Base de Dados para o Rio de Janeiro da Linha de Pesquisa de Geografia Histórica,

Núcleo de Pesquisas de Geografia Histórica do Departamento de Geografia Universidade Federal do Rio de Janeiro, 2008 (ainda não disponível), doravante citada como Abreu, BDGHRJ. A Base de Dados agrega livros cartoriais, inventários, verbas testamentárias, livros de tombo das ordens re-ligiosas, autos de medição de terras, autos de demandas judiciais etc., de diferentes instituições, e nas preciosas genealogias das famílias fluminenses dos séculos XVI e XVII, obra de Carlos G. Rhein-gantz, e tem neste segmento por objetivo a identificação e a localização dos engenhos fluminenses dos séculos XVI e XVII. Para consulta a esta base ainda em fase de finalização pude contar com a generosidade do professor Maurício de Almeida Abreu, em cuja pesquisa colaborei transcrevendo escrituras no Arquivo Nacional, ocasião em que pude tomar conhecimento das atividades e da pesquisa por ele coordenada.

12 Elysio de Oliveira Belchior. Conquistadores e Povoadores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro, Livraria

Brasiliana Editora. 1965; RHEIGANTZ, Carlos. Primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro: Livraria Brasiliana, 1965. 2 v.

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ocupação de cargos no governo da capitania. Desse modo pudemos aliar os dados qualitativos aos quantitativos.

A Freguesia

Santo Antônio de Jacutinga foi uma das freguesias do Recôncavo da Guanabara criadas no século XVII, cuja economia estava voltada para o abastecimento da cidade do Rio de Janeiro. Dos nove engenhos identi-ficados por Mauricio Abreu, apenas um não possuía invocação a Nossa Senhora: São eles: N. S. do Rosário e S. Antônio, N. S. da Conceição dos Gaias, São Miguel, N. S. da Batalha, N. S. da Conceição da Cachoeira, Sem identificação, N. S. do Bonsucesso, N. S. da Conceição e São Francisco,

Santo Antônio de Jacutinga.13

Diferentemente das demais capelas e freguesias do recôncavo que pos-suíam invocação mariana, Jacutinga foi dedicada a Santo Antônio, sendo ainda a única a incorporar o nome de uma antiga aldeia indígena ao seu orago. Segundo as Cartas do padre José de Anchieta (1584), os benediti-nos franceses realizavam um trabalho de catequização e de plantio nas

margens do rio Iguaçu junto aos jacutingas.14 A atuação francesa, porém,

foi interrompida durante a guerra contra os portugueses, o que acarre-tou a morte ou a fuga desses indígenas para o interior. No Auto de São

Lourenço, escrito também por Anchieta (1587), consta o seguinte trecho,

esclarecedor da posição que os índios Jacutingas ocupavam durante o conflito.

Também São Sebastião valente santo soldado, que aos tamoios rebela-dos deu outrora uma lição hoje está do vosso lado E mais — Paranapucu, Jacutinga, Morói, Sariguéia, Guiriri, Pindoba, Pariguaçu, Curuça, Miapei E a tapera do pecado, a de Jabebiracica, não existe. E lado a lado a nação dos derrotados no fundo do rio fica. Os franceses seus amigos, inutilmente trouxeram armas. Por nós combateram Lourenço, jamais vencido, e São Sebastião flecheiro.15 (grifos do autor)

A importância dessa freguesia pode ser ressaltada pela presença de seus rios: Cachoeira de Santo Antonio do Mato, D’Ouro e Riachão que, engrossados por outros, desde as serras da Cachoeira e de Tinguá, despe-jam volumosas águas nos rios Iguaçu, Sarapuí, Meriti, importantes vias 13 Ver Abreu. BDGHRJ. O fato é significativo, uma vez que os índios jacutingas, como já mencionado,

emprestaram seu nome à freguesia. Sua presença deve ter sido marcante e, sobretudo, a conversão dos sobreviventes ao catolicismo pode indicar porque foram incorporados ao nome dela.

14 José de Anchieta. Cartas Jesuíticas III. Cartas de Joseph de Anchieta S. J. Cartas, informações,

frag-mentos históricos e sermões. Rio de Janeiro, Civilização Brasileira. 1933. Disponível em: <http:// purl.pt/155>.

15 ANCHIETA, José de, Padre. Auto representado na Festa de São Lourenço. Rio de Janeiro: Serviço

Nacional de Teatro, Ministério da Educação e Cultura, 1973. Disponível em: <http://www.domi-niopublico.gov.br/download/texto/bv000145.pdf >.

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de transporte e comunicação que cortavam o território de Jacutinga. É a partir dos rios que se inicia a ocupação dessa região com as doações de ses-marias. A primeira sesmaria foi dada a Cristóvão Monteiro em 1565, no mesmo ano da fundação da cidade do Rio de Janeiro, o que mostra a liga-ção entre a cidade e seu entorno através das doações de sesmarias. Santo Antônio de Jacutinga foi o núcleo originário dos territórios de partes dos atuais municípios de Nova Iguaçu, Belford Roxo, São João de Meriti e Duque de Caxias, Nilópolis e Mesquita hoje integrantes da Baixada Fluminense. Já em 1686 a então chamada Igreja de Santo Antônio (da aldeia) de Jacutinga constava como Paróquia e segundo cálculos de

mon-senhor Pizarro teria sido criada em 1657.16

A partir do final do século XVII a região passou a integrar os circuitos econômicos do império português, voltado para a descoberta do ouro em Minas Gerais, tornando-se uma área de passagem estratégica, por conta de seus rios e das estradas que foram abertas serra acima para que o trân-sito de pessoas e mercadorias fosse dinamizado. No livro de André João Antonil Cultura e opulência do Brasil, de 1711, o Caminho Novo é dividido em quatro jornadas, partindo do Rio de Janeiro “a primeira jornada se vai a Irajá; a segunda ao engenho do alcaide-mor, Tomé Correia; a terceira ao porto do Nóbrega no rio Iguassu, onde há passagem de canoas e

savei-ros; a quarta ao sítio que chamam de Manuel do Couto”.17 O mencionado

Tomé Correia era Tomé Correia Vasques, alcaide-mor, casado com a filha

de Garcia Rodrigues Pais, responsável pela abertura do dito caminho.18

Os engenhos

Na ausência de informações sistematizadas sobre os engenhos do sécu-lo XVII começamos pelas estatísticas realizadas pesécu-los Mestres de Campo a pedido do Marquês de Lavradio, então vice-rei, entre 1769 e 1779. Ali podemos encontrar dados referentes à distribuição de engenhos, escra-vos e produção de açúcar/aguardente, população e produção agrícola des-ta freguesia. Ainda que avançadas no tempo em relação ao período aqui 16 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano

de 1794. Nilópolis: Prefeitura de Nilópolis, 2000. p. 26-27. Ainda segundo Pizarro a ela pertenciam as seguintes capelas: Nossa Senhora do Rosário, na fazenda que pertenceu à Ordem de São Bento, fundada depois de 1600; Nossa Senhora da Conceição de Sarapuí, construída por Afonso de Gaya; N. S. do Livramento, construída por João Ferreira; Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira, construída antes de 1731 por Manoel Correa Vasques, em substituição a capela que Manoel de Marins construíra na fazenda de Maxambomba; Nossa Senhora da Madre de Deus, construída antes de 1743 por João de Veras Nascente na fazenda da Posse; Nossa Senhora da Conceição do Pantanal, fundada por Antonio Ferreira Quintanilha, antes de 1753.

17 ANTONIL, André João. Cultura e opulência do Brasil. 3. ed. Belo Horizonte: Itatiaia: Edusp, 1982.

cap. 12: roteiro do caminho novo da cidade do Rio de Janeiro para as minas. Disponível em: <http://www.dominiopublico.gov.br/download/texto/bv000026.pdf >.

18 Sobre os caminhos ver: OLIVEIRA, Rafael da Silva. O ouro e o café na região de Iguaçu: da abertura

de caminhos à implantação da estrada de ferro. Revista Pilares da História, [S.l.], p. 7-21, maio 2004; SOUZA, Marlúcia S. de Souza; OLIVEIRA, José C.; BEZERRA, Nielson R. Os caminhos do ouro na Baixada Fluminense. Revista Pilares da História, [S.l.], v. 6, p. 7-21, 2007.

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tratado, essas informações mostram o perfil da freguesia e permitem con-jecturar sobre o perfil da freguesia um século antes. Segundo aquele re-latório, Jacutinga tinha sete engenhos: Madureira, Posse, Maxambomba, Brejo, Cachoeira, Santo Antonio do Mato e N. S. da Conceição. Juntos reuniam um total de aproximadamente 236 escravos (uma média de 39 escravos em cada propriedade), produzindo 163 caixas de açúcar e 77

pi-pas de aguardente.19 Em síntese podemos afirmar que, comparada às

de-mais freguesias do entorno do Iguaçu citadas no relatório, Jacutinga se sobressaía por sua produção de gêneros alimentícios e açúcar; e por sua

densidade demográfica.20

É marcante em todo o relatório a produção de farinha da capitania do Rio de Janeiro, superior à de outros alimentos. Apenas em Inhomirim

e Marapicu ela é menor do que a de outros gêneros.21 No que toca a

Jacutinga merece destaque sua produção de farinha (25.000 alqueires), enquanto outras freguesias produziam bem menos: Guaratiba/Itaguaí (5.440 alqueires), Campo Grande (2.500 alqueires), Jacarepaguá (2.888 alqueires), Piedade de Iguaçu (10.000 alqueires) e Marapicu (150 alquei-res). Jacutinga equipara-se à Angra dos Reis da Ilha Grande (25.736

al-queires), cuja diferença não é tão significante.22 Este dado torna-se

im-portante para que se tenha uma ideia da diversificação do emprego da mão de obra escrava e de como essa economia interferia na organização do trabalho e da vida da população, especialmente no que diz respeito à sua fixação na freguesia e a constituição de laços familiares duradouros.

A partir da comparação com as demais freguesias do Recôncavo da Guanabara, Jacutinga não pode ser considerada uma grande produtora dos produtos famosos destinados à exportação – açúcar e cachaça –, mas destaca-se como a mais importante no contexto local devido à sua

im-portância para o abastecimento de gêneros alimentícios.23 Infelizmente

não dispomos de dados socioeconômicos para o século anterior, mas 19 LAVRADIO, Marquês do. Estatística realizada pelo Governo do Marquês do Lavradio, entre

1769-79. Revista do Instituto Histórico e Geográfico Brasileiro, São Paulo, t. 76, parte 1, p. 289-360, 1913.

20 A produção anual de gêneros alimentícios da freguesia de Jacutinga constava de 25.000 sacas de

farinha (de mandioca), 1.000 de milho, 1.000 de feijão e 10.000 de arroz num total de 37.000 sacas por alqueire destacando-se entre as demais freguesias que compunham o distrito ao qual pertencia (Marapicu com 2.750; Meriti com 4.190; Pilar com 19.963 e Iguaçu com 20.800 sacas, por alquei-re). (GOMES, Flávio dos Santos. Quilombos do Rio de Janeiro no século XIX. In: GOMES, Flávio dos Santos; REIS, João José (Org.). Liberdade por um fio: história dos quilombos no Brasil. Rio de Janeiro: Companhia das Letras, 1996. p. 263-290).

21 Sobre a farinha no Rio de Janeiro ver: SOARES, Mariza de Carvalho. O vinho e a farinha, ‘zonas de

sombra’ na economia atlântica no século XVII. In: SOUSA, Fernando de (Coord.). A companhia e as relações econômicas de Portugal com o Brasil, a Inglaterra e a Rússia. Lisboa: CEPESE: Afrontamento, 2008. p. 215-232; SOARES, Mariza de Carvalho. Engenho sim, de açúcar não: o engenho de farinha de Frans Post. Vária Historia, Belo Horizonte, v. 25, n. 41, p. 61-83, jan./ jun. 2009..

22 LAVRADIO, ibidem.

23 BEZERRA, Nielson Rosa. Tensões e interações das relações sociais em torno do regime escravista

na Freguesia de Santo Antônio de Jacutinga. Revista Pilares da História, [S.l.], ano 2, n. 2, maio 2003. p. 9.

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acreditamos que o perfil consolidado em meados do século XVIII, já deve-ria caracterizar a freguesia no século anterior.

Ainda segundo cálculos de Monsenhor Pizarro, o templo original da igreja de Jacutinga fora elevado em Jambuí, em data desconhecida ao lon-go do século XVII, e dali transferido em 1733 para o sítio denominado

“Calhamaço” (Brejo), próximo ao rio Santo Antônio.24 Como isso

acon-tecera cerca de 68 anos antes do dito relatório, deduz-se que a Capela de Santo Antônio de Jacutinga fora elevada a Paróquia entre 1653 e 1663, mais precisamente, 1657. Em 1641 o Capitão Manoel Homem Albernaz e sua mulher Maria Cubas venderam ao Capitão Bento do Rego Barbosa um engenho “de invocação de Santo Antônio, sito em Jacutinga, com uma ermida de taipa de mão coberta de telhas havido por títulos de heran-ça e de compra”. Tudo indica terem Manoel e Maria erguido a primitiva ermida de Santo Antônio de Jacutinga que deu origem à sede da futura

freguesia.25 Entretanto, os nomes do casal não foram encontrados na

ge-nealogia de Rheingantz; mas havendo indícios de que, pelo nome, fossem parentes das famílias Albernaz e Cubas, já que ambas receberam

sesma-rias no século XVI e XVII na região do rio Iguaçu.26 No Livro de Batismos

de Jacutinga consta um Manoel Cardoso Albernaz anotado como tendo servido de padrinho em dois registros, para os quais não foi encontrada nenhuma informação até o momento.

Em 1668, Salvador Mendes e Vicente Rodrigues vendem este engenho ao coronel Manoel Martins Quaresma, que, com sua esposa Domingas do Amaral, vende-o novamente em 1679 ao capitão Custódio Coelho Madeira. Em 1681, a metade do engenho é vendida a Manoel de Pontes de Labrit para estabelecimento de parceria e sociedade, transação que será cancelada, de comum acordo, em 1683. Entre 1681 e 1685 o mesmo enge-nho volta às mãos do Capitão Manoel Martins Quaresma que o vende ao

Capitão Manoel da Guarda Muniz em 1685.27 Em 1698 a filha de Manoel

da Guarda, Brígida da Guarda, casa-se, em Jacutinga, com João Maciel da Costa que em 1709 hipoteca a metade do engenho. Este casal teve seis

filhos, todos nascidos em Jacutinga.28

João Maciel da Costa nasceu no arcebispado de Braga, por volta de 1668 e faleceu no Rio em 1723. Ao todo somam 68 registros em que apa-rece como proprietário de escravos. Há três registros de padrinho (1688, 24 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano

de 1794. Nilópolis: Prefeitura de Nilópolis, 2000. p. 26-27.

25 Base de Dados da Linha de Pesquisa de Geografia Histórica do Rio de Janeiro, Departamento de

Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, elaborada pelo Prof. Maurício Abreu.

26 BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:

Livra-ria Brasiliana, 1965. p. 28-30, 142-151.

27 BELCHIOR, Elysio de Oliveira. Conquistadores e povoadores do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:

Livra-ria Brasiliana, 1965. p. 28-30, 142-151.

28 RHEIGANTZ, Carlos. Primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro:

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1712, 1710) com o nome João Maciel sendo um deles (1710) acrescido do termo “o mosso”, indicando ser provavelmente seu filho de mesmo nome, nascido em Jacutinga em 1701, então com nove anos. Já o registro de 1688 é anterior ao seu nascimento, portanto, deve ser o próprio João Maciel da Costa, que apadrinha um escravo de Antonio Gonçalves Freire. Outro filho seu, de nome José Maciel da Costa, nascido em Jacutinga em 1705, também foi padrinho de escravo, pertencente a Manoel Alves de Góis, em 1714. João Maciel da Costa serviu ainda como testemunha de

três casamentos entre cativos.29

O engenho de São Miguel pertence, em 1652, a Francisco de Araújo Caldeira. Durante sua trajetória ocorreram duas hipotecas de um partido de canas sito no engenho: em 1685 e 1690. Em 1694 é vendida a meta-de do mesmo pela viúva meta-de Francisco (falecido em 1681), Francisca meta-de Araújo, a João Gonçalves Viana e a outra metade passa para seus filhos Bartolomeu de Araújo Caldeira e Miguel de Araújo Caldeira. Há outra hi-poteca de um partido de canas em 1697, na metade que coube aos filhos. Bartolomeu de Araújo Caldeira casa-se no Rio, em 1647, com Ana Cabral de Melo (proprietária em Jacutinga) e não deixam geração; o mesmo

fale-ce em 1701.30 Já em 1718, seu irmão, o capitão Miguel de Araújo Caldeira

e sua mulher Brigida da Guarda, vendem terras e um engenho “velho e

desfabricado” ao alcaide-mor Tomé Correia Vasques.31 Todos esses

per-sonagens frequentam a paróquia de Jacutinga para batizar escravos. Francisca de Araújo possuía 29 escravos; seu filho Bartolomeu, 33, e sua nora Ana Cabral, três escravos; seu outro filho Miguel, 33.

O Engenho Nossa Senhora da Batalha é vendido em 1652 por João Coelho e sua mulher Bárbara de Brito, a Estevão de Vasconcelos. O mes-mo Estevão, para comprar o engenho de João Coelho, se endividou com o Capitão Gaspar de Mariz de Almeida, que em 1670 vende o engenho a Bento Garcez de Araújo que ainda em 1676 continua fazendo pagamentos a Gaspar Mariz de Almeida. Bento Garcez falece em 1676 e em 1685 é vendido um partido de canas no dito engenho que nessa ocasião já per-tencia a outro proprietário, João Rodrigues do Vale. Este aparece como padrinho de um escravo de D. Catarina Colaça em 1691 em Jacutinga. É seu único registro. No inventário de João, informa que ele possuía um engenho em Jacutinga, vendido a Domingos da Costa, lavrador. João e

a mulher Leonor Guterres foram presos pela Inquisição.32 Segundo Lina

Goreinstein em Jacutinga haviam três senhores de engenho cristãos-29 ACDNI. Livro de Batismos e Matrimônios de escravos de Santo Antônio de Jacutinga. 1686-1721. 30 RHEIGANTZ, ibidem, p. 130.

31 RHEIGANTZ, Carlos. Primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro:

Livra-ria Brasiliana, 1965. p. 130.

32 NOVINSKY, Anita. Inventários de bens confiscados a cristãos novos no Brasil. Lisboa: Imprensa

Nacio-nal, Casa da Moeda, 1978. p. 148-149; e Lina Goreinstein Apud Base de Dados da Linha de Pesqui-sa de Geografia Histórica do Rio de Janeiro, Departamento de Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, elaborada pelo Prof. Maurício Abreu.

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-novos: Diogo de Lucena Montarroio e Bento de Lucena, além de João

Rodrigues do Vale.33 Não há registro de batismos de nenhum escravo dos

Lucena na freguesia, o que pode redimensionar a questão da prática reli-giosa católica dos cristãos novos.

O engenho de Nossa Senhora da Conceição dos Gaias pertencia a Alonso de Gaia e sua mulher Maria de Aguiar, que o comprara a Jordão Homem da Costa em 1668. Este, por sua vez, havia comprado o dito engenho em 1652 de Antônio de Aguiar e sua mulher Marcelina da Costa. Consta em Monsenhor Pizarro que a Igreja de Nossa Senhora da Conceição [dos Gaias] sita em Sarapuí, fora erecta por Afonso de Gaia e criada como Capela Curada em 1674. Desde 1691 a Capela já necessitava ser reedificada e em 1736 a mesma fora extinta por sentença, pela qual o bispo D. Antônio de Guadalupe a aniquilou e uniu seu território ao da Matriz de Santo Antônio de Jacutinga, de quem se havia desmembrado

em 1674.34 Após a morte de Alonso de Gaia o engenho é passado a vários

proprietários dentre eles ao capitão Manoel Cabral de Melo e sua mulher Vitória de Azedias Machado que o possuía em 1696. Manoel era irmão de Ana Cabral de Melo, casada com Bartolomeu de Araújo Caldeira, do-nos do engenho São Miguel. No Livro de Batismos de Jacutinga há vários indivíduos com o sobrenome Cabral e Azedias Machado, mas que ainda não puderam ser considerados parentes pela quantidade de homônimos nas duas famílias. Importa dizer apenas que dois engenhos de Jacutinga pertenciam a parentes consanguíneos.

Na capela de Nossa Senhora da Conceição da Cachoeira foram realiza-dos 11 batismos e três casamentos de escravos entre 1708 e 1720 que ora são registrados como pertencentes ao alcaide-mor Tomé Correia Vasques, ao sargento-mor Martim Correia Vasques (filho natural do alcaide com Ana Soares de Matos), a D. Guiomar (filha do Alcaide com D. Antonia Tereza Maria Pais), à D. Antônia Tereza Maria Pais (viúva de Tomé Correia Vasques, falecido em 1718), ao capitão Salvador Correia de Sá (irmão de Tomé C. Vasques; aqui aparece o apelido de Sá, acrescentado por analogia com os parentes do primeiro matrimônio de Gonçalo Correia, tronco da

família)35 e ainda simplesmente “escravos da Cachoeira”, o que dificulta

identificar claramente a quem pertencia o engenho em determinados momentos.

Em 1692 o sargento-mor Martim Correia Vasques, herdeiro de Pedro de Souza Pereira, recebe terras e sobejos entre seus engenhos da Cachoeira e Maxambomba, o que sinaliza que ambos lhe pertenciam antes desta 33 GOREINSTEIN, Lina. Heréticos e impuros. Rio de Janeiro: AGCRJ, 1995. Cap. 3: os engenhos,

os partidos, os negócios, p. 59-80. Disponível em: <http://www.rumoatolerancia.fflch.usp.br/ node/838>.

34 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano

de 1794. Nilópolis: Prefeitura de Nilópolis, 2000. p. 36-37.

35 RHEIGANTZ, Carlos. Primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro:

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data. Já em 1731, segundo Pizarro, uma Provisão do bispo D. Fr. Antônio de Guadalupe, autoriza o Dr. Manoel Correia Vasques, senhor e possuidor que foi desta fazenda e engenho, a demolir a capela de Nossa Senhora da Conceição, arruinada, para construir outra, junto à sua casa de

vi-venda, por ser mais cômoda.36 Ainda sobre esta Capela, Pizarro informa

que foi construída antes de 1731 para substituir outra dedicada a Nossa Senhora do Bonsucesso na Fazenda de Maxambomba, pouco distante da

Cachoeira37 que segundo Matoso Maia Forte seria fundada por Manoel de

Mariz [de Brito],38 mas não podemos afirmar a partir da documentação

disponível que o engenho Machambomba pertencera a Manoel de Mariz de Brito, antes de passar para Martim Correia Vasques.

É importante destacar aqui a importância da família Correia Vasques

tanto para a Capitania quanto para a região.39 Os Correia Vasques tinham

influência, projeção política e social no Rio de Janeiro. O sargento-mor Martin Correia Vasques foi provedor da Santa Casa de Misericórdia (1662-1663), bem como seu pai Manoel Correia (1629-1632); igualmente seu irmão Tomé Correia de Alvarenga, por três vezes (1641-1655; 1656-1660; 1671-1674) e também seu filho o Dr. Manoel Correia Vasques (bacharel,

laureado em Coimbra) por duas vezes, (1732-1735 e 1737-1742).40 Pela

documentação dos engenhos reunida por Maurício Abreu em sua base de dados, dos nove engenhos aqui tratados, os únicos que permanecem com seus proprietários originais ou membros da mesma família e que chegam ao século XVIII são os engenhos da Cachoeira e Maxambomba. Além des-ses, em 1718 o alcaide-mor Tomé Correia Vasques compra do Capitão

Miguel de Araújo Caldeira o engenho São Miguel.41

Manoel de Mariz de Brito nasceu no Rio por volta de 1637. Bisneto de Antônio de Mariz ou Marins e Isabel Velha; faleceu em sua fazenda em Moquetá em 1722 onde recebeu uma sesmaria e uns sobejos em 1679. Era casado com D. Jerônima Correia Ximenes, cristã-nova. Em 1714 seu engenho, de invocação de Nossa Senhora do Bonsucesso, é confiscado pelo

Fisco Real a mando da Inquisição.42 D. Maria de Mariz, sua filha,

casou-36 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano

de 1794. Nilópolis: Prefeitura de Nilópolis, 2000. p. 34.

37 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Memórias históricas do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:

Imprensa Nacional, 1945. v. 3, p. 145-46.

38 FORTE, José Mattoso Maia. Memória da Fundação de Iguassu. Rio de Janeiro: Typografia do Jornal

do Comércio, 1933. p. 28.

39 DEMETRIO, Denise Vieira. Martim Correia Vasques: trajetória política e redes clientelares.

Comuni-cação apresentada no Simpósio Temático Poderes, Riquezas e Saberes: elites plurais num império multifacetado do 3º Encontro Internacional de História Colonial – Cultura, Poderes e Sociabilida-des no Mundo Atlântico (séc. XV-XVIII), Recife, Universidade Federal de Pernambuco, 2010.

40 FAZENDA, José Vieira. Os provedores da Santa Casa da Misericórdia do Rio de Janeiro. Rio de Janeiro:

Typographia do Jornal do Commercio, 1912.

41 Base de Dados da Linha de Pesquisa de Geografia Histórica do Rio de Janeiro, Departamento de

Geografia, Universidade Federal do Rio de Janeiro, Rio de Janeiro, elaborada pelo Prof. Maurício Abreu.

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-se com Antônio da Cunha Falcão em 1703, em Jacutinga, e deste casal a única filha, D. Micaela Arcângela, nasceu também em Jacutinga em 1704. Antônio possuía 29 registros de batismos de escravos em Jacutinga.

Em 1726, esta filha do casal casou com Henrique Alfradique de Souza, nascido em Meriti por volta de 1690. Membros da família Alfradique apa-recem também no livro de batismos de Jacutinga, como o próprio capitão Inácio Alfradique, patriarca da família, cuja primeira esposa, Bárbara de Araújo era filha de Francisco de Araújo Caldeira e Francisca de Araújo, donos do engenho São Miguel, com a qual teve Antônio Alfradique. Este

tinha filha e neta nascidas em Jacutinga.43 E também teve com a

segun-da esposa, Margarisegun-da de Mendonça, Manuel Alfradique. Inácio e Antônio Alfradique possuíam, respectivamente, quatro e 19 registros de escravos em Jacutinga e Manuel aparece duas vezes como padrinho de escravos.

Em 1720 são realizados dois batismos de escravos de Manoel de Mariz na Capela de Nossa Senhora do Bonsucesso (seu engenho) na Freguesia

de Jacutinga.44 Os outros registros somam 91 escravos na paróquia de

Jacutinga. Após sua morte, em 1722, seu filho Manoel Correia de Mariz vende terras e o engenho a Nicolau de Bittencourt Heredia em 1735, que, no mesmo ano, vende a Manoel Martins Margaça.

O capitão Inácio de Madureira Machado e sua esposa Águida Faleiro possuíam em 1697 seu engenho no Cabuçu, indo para Marapicu, na estra-da que hoje recebe o nome de Estraestra-da de Madureira. Em 1728 o engenho pertencia a seu filho João de Madureira Machado, que fora hipotecado em dois momentos: em 1708 e 1714, primeiro pelo pai, depois pelo filho. O capitão Inácio de Madureira era filho de Bárbara de Madureira e José de Barcelos Machado, nascido no Rio em 1647 e casado com Agueda Faleiro em 1668, filha do capitão Fernão Faleiro Homem e Inês de Andrade. Inácio de Madureira possuía 28 registros de escravos na paróquia de Jacutinga; sua esposa, oito e seu filho João, 15.

Sobre o engenho de Antônio de Azeredo Coutinho, sabe-se ape-nas que, em 1718, o mesmo já era senhor de engenho, posto que os li-mites de suas terras confrontavam com as compradas pelo alcaide-mor Tomé Correia Vasques ao capitão Miguel de Araújo Caldeira. Monsenhor Pizarro, ao relatar os bens patrimoniais da Paróquia de Jacutinga, diz que a mesma possuía apenas 50 braças de terras em quadra, doadas por José de Azeredo, senhor e possuidor delas no engenho Santo Antonio, no lugar do Calhamaço, quando ali existiu a Freguesia. Depois de transferida para o segundo lugar que ocupou, Antônio de Azeredo, seu filho, comutou por aquelas 50 braças, situadas no morro ao pé do Rio de Santo Antônio, outra

igual porção no lugar em que se fundou de novo a Matriz.45 Infelizmente

43 RHEIGANTZ, Carlos. Primeiras famílias do Rio de Janeiro: séculos XVI e XVII. Rio de Janeiro:

Livra-ria Brasiliana, 1965. p. 32-33.

44 ACDNI. Livro de Batismo e Matrimônio de escravos de Santo Antônio de Jacutinga. 1686-1721. 45 ARAÚJO, José de Souza Azevedo Pizarro e. Livro de visitas pastorais na Baixada Fluminense no ano

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tanto a doação quanto a comutação não possuem documento algum, ba-seando-se monsenhor Pizarro apenas na tradição oral dos mais antigos.

De fato: é marcante a presença de membros da família Azeredo Coutinho em Jacutinga, que pode ser confirmada também pelos registros de batismo e matrimônio da freguesia. O próprio Antônio de Azeredo apa-drinhou escravos em seis ocasiões entre 1686 e 1718 e serviu como

tes-temunha em quatro registros de casamento entre 1713 e 1720. 46 Outros

membros da família aparecem ocasionalmente: Luiz de Souza Coutinho, Luiz Matoso de Azeredo, Úrsula de Azeredo, Joana de Azeredo e Luiz de Azeredo, como padrinhos de escravos, e Baltazar de Azeredo e João de

Azeredo como proprietários de escravos.47

A trajetória das famílias locais, sobretudo no tocante a sua vivência econômica, tornou-se fundamental para esta pesquisa. Os contatos en-tre esses proprietários imputam papel decisivo e estratégico também na relação com os escravos. No dizer de Sheila Faria: a família exerceu funda-mental importância na montagem e funcionamento das atividades eco-nômicas coloniais, em particular às ligadas ao mundo agrário. É pela fa-mília, não necessariamente a consanguínea, que todos os aspectos da vida cotidiana, pública ou privada, originam-se ou convergem. É a família que confere aos homens estabilidade ou movimento, além de influir no status e na classificação social. Pouco, na Colônia, refere-se ao indivíduo enquan-to pessoa isolada – sua identificação é sempre com um grupo mais amplo. O termo “família” aparece ligado a elementos que extrapolam os limites da consanguinidade – entremeia-se à parentela e à coabitação, incluindo

relações rituais.48 Pelo que expusemos até aqui, as famílias até agora

en-contradas em Jacutinga (livres e escravas) não fugiram a esta regra. O que é importante observar: o número de engenhos até o momento encontrados em Jacutinga no século XVII não difere muito dos que foram relatados no final do século XVIII pelo Marquês do Lavradio, nem dos de Monsenhor Pizarro, contemporâneo do vice-rei. E também fica claro pela documentação de Maurício Abreu que os engenhos foram passan-do de mão em mão, senpassan-do dividipassan-dos, provavelmente reagregapassan-dos, ven-didos ou hipotecados. Essas transferências de titularidade parecem ser um indício de que a implantação da economia canavieira no século XVII na região era dificultada por algum fator, seja financeiro ou até mesmo natural, que necessita ser analisado mais detidamente. O principal a ser destacado aqui é que tudo indica que essas transferências podem estar 46 Sobre os Azeredo Coutinho e o Morgadio de Marapicu, cf. RIBEIRO, Gisele Martins. Família

es-crava e a decretação da liberdade dos ventres: Freguesia de Nossa Senhora da Conceição de Mara-picu,1871-1888. Monografia (Bacharelado em História)–Departamento de História,Universidade Federal Fluminense, Niterói, 2006.

47 ACDNI. Livro de Batismo e Matrimônio de Escravos de Santo Antônio de Jacutinga. 1686-1721. Como

a descendência dos Azeredo é numerosa e existem muitos homônimos, ainda não foi possível iden-tificar genealogicamente o grau de parentesco desses indivíduos.

48 FARIA, Sheila de Castro. A colônia em movimento: fortuna e família no cotidiano colonial. Rio de

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Referências