Ornella Maria Castelnuovo Angelucci
Arquitetura e luz:
o átrio (ex-pátio)
São Paulo Fevereiro 2012
Arquitetura e luz:
o átrio (ex-pátio)
Dissertação apresentada ao Programa de Pós- Graduação em Arquitetura e Urbanismo da Universidade Presbiteriana Mackenzie como requisito parcial para obtenção de título de Mestre em Arquitetura e Urbanismo.
Orientadora: Prof. Dra. Maria Augusta Justi Pisani
São Paulo Fevereiro 2012
A585a Angelucci, Ornella Maria Catelnuovo.
Arquitetura e luz: o átrio / Ornella Maria Catelnuovo Angelucci. -
186 f. : il. ; 30 cm.
Dissertação (Mestrado em Arquitetura e Urbanismo) - Universidade Presbiteriana Mackenzie, São Paulo, 2012.
Bibliografia: f. 141-153.
1. Arquitetura. 2. Luz na arquitetura. 3. Átrio. 4. Pátio. I.
Título.
À luz que renasce a cada dia.
Este trabalho analisa o átrio como espaço integrante de edificações não residenciais quanto ao seu potencial em fornecer luz do dia. A leitura proposta e os esquemas aqui apresentados investigam as possibilidades de decisões do arquiteto em relação ao espaço do átrio frente às condições de cada projeto. Um resumo histórico da utilização de tais elementos compositivos na arquitetura evidencia seu uso por propósitos projetuais, climáticas e de qualidade ambiental.
Para estudo dos aspectos qualitativos da incorporação do átrio no conjunto da edificação serão tomados casos cujo vazio central se expressa marcadamente.
Palavras-chave: Arquitetura, luz do dia, átrio, pátio.
Abstract
This study examines the atrium space as part of non-residential buildings for their potential to provide natural light in hot-humid climates. The proposed reading scheme investigates the possibilities of the architect's decisions in relation to its lobby, as well as the use of adjacent elements to forward them to the conditions of each project. A historical summary of the use of such compositional elements in the architecture shows its use for design purpose, climatic and environmental comfort, being performed a review of the design specification for buildings in tropical climates. To study the qualitative aspects of the merger of the atrium throughout the building, it will be taken cases where the central void is markedly expressed.
Key-words: Architecture, daylight, atrium, courtyard.
INTRODUÇÃO _____________________________________________ 001
1. EDIFÍCIO COM VAZIO CENTRAL _______________________________ 011 1.1. Origens ______________________________________ 014 1.1.1. China – Índia _______________________________ 019 1.1.2. Grécia – Roma _______________________________ 022 1.1.3. Mundo árabe _______________________________ 033 1.2. Desenvolvimento _______________________________ 042 1.2.1. 1ª Revolução Industrial _______________________________ 048 1.2.2. 2ª Revolução Industrial _______________________________ 058 1.2.3. 3ª Revolução Industrial _______________________________ 068 1.2.4. Já se fala da 4ª ______________________________________ 082
2. ÁTRIO ____________________________________________________ 085 2.1. Atrium, plur. Atria ______________________________________ 086 2.2. Considerações ______________________________________ 091 2.2.1. Qualidade ambiental _______________________________ 095 2.2.2. Eficiência energética _______________________________ 097 2.3. Configuração do átrio _______________________________ 098
3. ESTUDO DE CASOS _______________________________________ 111 3.1. Fórum Trabalhista Ruy Barbosa ________________________ 114 3.2. Centro de Cultura Britânica ________________________ 125
4. CONSIDERAÇÕES FINAIS _______________________________________ 135
5. REFERÊNCIAS BIBLIOGRÁFICAS ________________________________ 141
6. APÊNDICES
6.1. Luz do dia: conceitos e estratégias para uso __________________ 154 6.2. Luz do dia na arquitetura brasileira _________________________ 168
Figura 0.01 - Visualizing the Invisible ... 01
Figura 0.02 - Luz de inverno no Pantheon, Roma ... 03
Figura 0.03 - Croqui jornada solar, Le Corbusier ... 04
Figura 0.04 - Vasos de plantas ... 08
Figura 1.01 - Aquarela ilustrativa de casa-pátio ... 11
Figura 1.02 - Acampamento beduíno e tenda em camelo, Rub’al-khali ... 15
Figura 1.03 - Assentamento em Mesakin Quisar ... 15
Figura 1.04 - Montagem de uma Yurca ... 16
Figura 1.05 - Localização do Crescente Fértil ... 16
Figura 1.06 - Casa-pátio, Ur (Caldéia) ... 17
Figura 1.07 - Pátio, Jaisalmer, India ... 20
Figura 1.08 - Casas-pátio, Pequim ... 20
Figura 1.09 - Casa-pátio tradicional em Xinjiang Uygur Zizhiqu, China ... 20
Figura 1.10 - Jardim japonês ... 20
Figura 1.11 - Torres Hakka, Fujian Tulou ... 21
Figura 1.12 - Planta e reconstrução de casa em Priene ... 23
Figura 1.13 - Planta e ruína de casa em Delos ... 23
Figura 1.14 - Ruína de casa etrusca, Vetulonia, Toscana ... 24
Figura 1.15 - Templo e casa etrusca ... 25
Figura 1.16 - Madeiramento da cobertura e corte do átrio toscano ... 26
Figura 1.17 - Aposentos em uma Domus italica típica ... 27
Figura 1.18 - Planta e reconstituição da Domus Itálica ... 29
Figura 1.19 - Reconstrução da Vila Adriana, Tivoli ... 29
Figura 1.20 - Villae rustica ... 29
Figura 1.21 - Ilustração esquemática de uma Insulae ... 30
Figura 1.22 - Corte esquemático de uma Insulae ... 30
Figura 1.23 - Interior de um a casa senhorial romana ... 30
Figura 1.24 - Átrio de casa romana em Pompéia ... 30
Figura 1.25 - Atrium e Impluvium, ruína de Pompéia ... 31
Figura 1.26 - Lararium da Casa dei Vettii, Pompéia ... 31
Figura 1.27 - Eixos vertical e horizontal em Atrium da casa romana ... 32
Figura 1.28 - Casa-pátio e distribuição dos aposentos, Yatz ... 34
Figura 1.29 - Casa de Maomé, Medina e mapa ocupação do Islã ... 35
Figura 1.30 - Grande Mesquita de Damasco, Síria ... 36
Figura 1.31- Vista aérea da Grande Mesquita de Damasco ... 36
Figura 1.32 - Fiéis em oração no interior da Mesquita de Damasco ... 37
Figura 1.33 - Vista aérea da Grande Mesquita de Damasco. ... 37
Figura 1.34 - Local de orações da mesma mesquita ... 37
Figura 1.35 - Pátio interno Grande Mesquita de Damasco ... 37
Figura 1.38 - Detalhes das arcadas da Mesquita de Córdoba ... 38
Figura 1.39 - Colina de Alhambra e Generalife, Granada ... 39
Figura 1.40 - Pateo de los Arrayanes, Alhambra, Granada ... 39
Figura 1.41 - Pateo de los Leones, Alhambra, Granada ……….…… 39
Figura 1.42 - Palau de la Generalitat, Barcelona ……….. 39
Figura 1.43 - Pateo de las Donzelas, Alcazar, Sevilha ... 40
Figura 1.44 - Exemplo estilo Mudejar ... 41
Figura 1.45 - Casa privada em igreja em Dura Europos ... 45
Figura 1.46 - Broletto Nuovo, Milão ... 44
Figura 1.47 - Basílica di São Lorenzo, Florença ... 45
Figura 1.48 - Ilustrações sobre trabalhos de Brunelleschi ... 45
Figura 1.49 - San Pietro in Montorio, Roma ... 47
Figura 1.50 - Planta e corte do Convento della Carità, Veneza ... 47
Figura 1.51 - Palazzo Farnese, Roma ... 47
Figura 1.52 - Ponte de Coalbrookdale, Birmingham ... 48
Figura 1.53 - Casa-museu Soane, Londres ... 49
Figura 1.54 - Reform Club, Londres ... 50
Figura 1.55 - Palácio de Cristal, Londres ... 52
Figura 1.56 - Exposição Internacional de Paris de 1889 ... 52
Figura 1.57 - Gare d'Orsay, Paris ... 53
Figura 1.58 - Museu d’Orsay, Paris ... 53
Figura 1.59 - Galerie Vivienne, Paris ... 54
Figura 1.60 – Familistério, Guise ... 55
Figura 1.61 - Galeria Vittorio Emanuele II, Milão ... 56
Figura 1.62 - Hotel Four Seasons Gresham Palace, Budapeste ... 57
Figura 1.63 - Maison & Atelier de Victor Horta, Bruxelas ... 57
Figura 1.64 - Entrada de estação de metro, Paris ... 57
Figura 1.65- Galerie Lafayette, Paris ... 57
Figura 1.66 - Janela em prédio da Bauhaus, Dessau ... 58
Figura 1.67 - Pavilhão alemão em Barcelona, Mies van der Rohe ...’59
Figura 1.68 - Casa de férias Alvar Aalto, Muuratsalo ... 60
Figura 1.69 - Villa Savoye, Poissy-sur-Seine, França, Le Corbusier ... 61
Figura 1.70 - Wainwright Building Sullivan, St. Louis... 62
Figura 1.71-Larkin Building, Nova York ………..………... 63
Figura 1.72 - Johnson Wax Building, Racine ……….……….. 63
Figura 1.73 - Museu Guggenheim, Nova York ……….………….……… 64
Figura 1.74 - Museu Guggenheim, Nova York …………..……... 64
Figura 1.75 - Hyatt Regency Hotel, Atlanta ... 65
Figura 1.78 - Kimbell Art Museum. Fort Wort, Texas. ………. 67
Figura 1.79 - Climatroffice de Buckminster Fuller e Norman Foster ….…… 70
Figura 1.80 – Plantas do primeiro pavimento do Museu Britânico ... 71
Figura 1.81 – Ilustração do Interior da Sala de Leitura, 1857 ... 71
Figura 1.82 – Exterior do Museu Britânico em fotografia de 1900 ... 71
Figura 1.83 – Interferência no Museu Britânico, Londres, Reino Unido ... 72
Figura 1.84 – Museu de Arte Joslyn, Omaha, Nabraska ... 73
Figura 1.85 - Reichstag, Berlin ... 74
Figura 1.84 – Instituto Smithsonian, Washington DC ... 75
Figura 1.85 - Hearst Tower. Cidade de Nova York ... 76
Figura 1.86 – Commerzbank. Frankfurt ... 77
Figura 1.87 - Swiss Re Headquarter. Londres ... 78
Figura 1.88 - City Hall. Londres ……… 79
Figura 1.89 - Clarence Hotel. Dublin, Irlanda ... 80
Figura 1.90 - Beijing Airport. Pequim, China ... 81
Figura 2.01 - Átrio Edifício de Engenharia,Universidade de Wisconsin ... 85
Figura 2.02 - Ilustração de tenda e fogo interno ... 90
Figura 2.03 - Diagramas e definições de termos ... 91
Figura 2.04 - Distribuição luminosa em função da geometria do átrio ... 99
Figura 2.05 - Implantação referente ao hemisfério norte. ... 101
Figura 2.06 - Configurações de átrios ... 101
Figura 2.07 - Classificação de átrios conforme o numero de lados. ... 102
Figura 2.08 - Linha de céu nos espaços adjacentes ... 103
Figura 2.09 - Quota de luz do dia em átrio ... 104
Figura 2.10 - Fluxo de calor através de vidro insulado. ... 105
Figura 2.11 - Projetos que fizeram uso do ETFE ... 106
Figura 3.01 – Montagem de imagens do átrio do Fórum Trabalhista ... 114
Figura 3.02 – Implantação, plantas e cortes do Fórum Trabalhista ... 116
Figura 3.03 – Imagens internas do Fórum Trabalhista ... ... 117 - 124 Figura 3.04 - Imagem da entrada do Conselho Britânico ... 125
Figura 3.05 - Cortes longitudinal e transversal do Ed. Conselho Britânico... 126
Figura 3.06 – Imagens externas do Ed. Conselho Britânico ...128 Figura 3.07 – Imagens internas do Ed. Conselho Britânico ...130 - 134
1
Introdução
Daylighting in architecture is an area in which we know so much and yet practice so little.
Füller Moore2
1 Figura 0.01 - Visualizing the Invisible. Concepção e Foto: Talia Chetrit. Disponível em:
<//wecantpaint.com/log/?p=1519 >. Acesso em 11 out 2011
2 MOORE, Füller. Concepts and practice of architectural daylighting. Nova York: Van Nostrand Reinhold. 1991.
Ao invadir e permear o mundo material a luz define contornos, torna visíveis e perceptíveis espaços e objetos. A luz, uma entidade aparentemente imaterial, empresta significados, sensações e mensagens à arquitetura. Priorizar a luz no momento conceptivo do projeto arquitetônico define relações formais e espaciais, e quando se trata de conceber um habitat, pode ser entendida como material construtivo. A relação entre o usuário e o ambiente construído transcende ao status material das construções, relação esta que possibilita experiências pessoais na apreciação do espaço e seus elementos.
No processo de concepção arquitetônica interagem múltiplas relações e elementos que definem aspectos específicos do objeto construído.
Dentre tantas possibilidades a luz pode: revelar ou desmaterializar formas, espaços e superfícies; relacionar a obra com seu contexto físico- cultural, seu clima e sua orientação; promover a percepção do tempo com dinâmicos efeitos cinéticos; condicionar a escolha de uma pele, de uma matéria, pois os mesmos reforçam o caráter tátil, ótico e natural com cores e texturas diversas, além de interferir no grau de transparência e opacidade; conectar ou separar o interior do exterior – as interferências feitas no envoltório (tipos de aberturas, filtros e vãos) serão decisivas na forma como a luz adentrará nos espaços interiores e na maneira como o jogo de luz e sombra modificará a articulação volumétrica; unir, diferenciar, conectar ambientes; dirigir e orientar, estabelecendo pontos focais, hierarquias e movimentos dinâmicos;
enfatizar, no espaço, um sentido de verticalidade ou horizontalidade;
com a sombra, modificar as proporções óticas do conjunto edificado e seus detalhes, promovendo efeitos de leveza ou peso – como também reforçar volumes e perfis, marcar acessos, articular superfícies e projetar rendilhados; criar atmosferas, podendo simbolizar ou representar uma idéia, um conceito. [...] Enfim, uma boa iluminação molda e modifica a realidade, condiciona o estado de ânimo das pessoas e a percepção geral dos ambientes que vivenciam (BARNABÉ, 2007, p. 80) 3.
Quanto a definir a luz natural, inicialmente vale lembrar que luz é o que nos permite definir o que é através da percepção das variações e de seus impactos no espaço. Luz, ou sua ausência, transforma o espaço a cada estação, a cada dia do ano, a cada hora do dia, a cada momento. Através da historia da arquitetura, a luz foi precisa na Grécia; destilada ao passar do exterior ao interior
3 BARNABÉ, Paulo M. M. A luz natural como diretriz de projeto. Artigo publicado na Revista de Programa Pós-Graduação de Arquitetura e Urbanismo da FAUUSP nº 22. São Paulo. 2007.
Disponível em: <www.revistasusp.sibi.usp.br/pdf/posfau/n22/05.pdf>. Acesso em 13 jul 2011.
em Roma (Figura 0.02); liturgica através dos vitrais góticos; humanizada no renascimento; sublime do barroco; flúida nas caixas de vidro da arquitetura contemporânea (PORTELA 2007, p.63-65, tradução nossa) 4.
Arquitetura não são quatro paredes e um teto, é também e acima de tudo, o ar que permeia este interior, o espaço que encerram” (Lao-Tse, apud Portela, p.64, tradução nossa)
Figura 0.02
Luz de inverno no Pantheon, Roma, Itália (27 aC.).
Fontes:
Foto: Dan Heller- jan 1997, disponível em:
<www.arch.mcgill.ca/prof/sijpkes/D+C-winter- 2010/D+C-2010-winter.html>
Planta: <www.spanisharts.com/arquitectura/
imagenes/roma/panteon_planta.html>
Corte: <http://web.educastur.princast.es>.
Acessos em 21 set 2011.
O espaço é o resultado da totalidade do sistema de percepção. Uma mudança nas condições de iluminação de um ambiente significa uma mudança na nossa percepção do espaço (TRAPANO; BASTOS, 2006, p.4) 5.
Arquitetura e luz, ou luz e arquitetura, foram conceitos interdependentes ao longo da história. A relação entre a luz e arquitetura ocorre inevitavelmente, consciente ou inconscientemente. Dependendo de como é usada, pode transformar o contexto espacial, criar sensações agradáveis/desagradáveis,
4 PORTELA, César – Light and Architecture. Palestra na Starlight Conference, 2007. Disponível em: <www.starlight2007.net/pdf/proceedings/CesarPortela.pdf>. Acesso em 21 nov 2011. O arquiteto natural da Galícia (Espanha,1937) é doutor pela Politécnica de Madrid (1968) e professor da Escola de Altos Estudos de Arquitectura, de La Coruña desde 1990.. Fonte:
<www.starlight2007.net/pdf/CV/CesarPortela.pdf>. Acesso em 24 nov 2011.
5 TRAPANO, Patrizia Di, BASTOS, Leopoldo E. G. Bastos. Luz, Espaço e Forma. Revista Lume Arquitetura, n.22, 2006. Disponível em: <www.lumearquitetura.com.br/pdf/ed22/ed_22_Ponto.pdf>.
Acesso em 18 nov 2011.
realistas ou misteriosas, ampliar ou redizir um espaço, ou simplesmente destacar aspectos do espaço que interessam. (PORTELA, 2007, p.63-65, tradução nossa). 6
A luz natural é um dos materiais de base de qualquer projeto arquitetônico. Luz como a matéria é o conceito defendido por Le Corbusier 7: Os elementos arquitetônicos são a luz, a sombra e o espaço da parede.
Figura 0.03 – Ilustração integrante da Carta de Atenas, Le Corbusier / CIAM, 1933.
Fonte: <//arquitetonica.wordpress.com/category/urbanismo/>. Acesso em 27 set 2011.
Relações entre o interior e o exterior de um edifício são moduladas pelas aberturas. A penetração da luz é um elemento essencial do uso e da estética da arquitetura. Desde o século XIX, com a evolução de materiais e o desenvolvimento de novas técnicas de construção, a estrutura tornou-se independente da pele do edifício, capaz de responder à luz e a focos de visão (BESÈME et al,. 2009, s/p, tradução nossa) 8.
Uma publicação do grupo de pesquisa da Escola de Arquitetura da Universidade de Dublin 9 aponta uma crescente gratificação do usuário no uso de luz e ventilação naturais. O estudo mostra que as pessoas valorizam a variação da luz do dia e querem ao menos um vislumbre para o mundo exterior. Historicamente, os belos edifícios sempre exploraram a luz do dia, e atualmente, após um breve
6 PORTELA, César. Light and Architecture. Palestra na Starlight Conference, 2007. Disponível em: <www.starlight2007.net/pdf/proceedings/CesarPortela.pdf>. Acesso em 21 nov 2011.
7 LE CORBUSIER. Hacia una arquitectura. Barcelona: Poseidon, 1977.
8 BESEME, Odile et al. Architecture et lumière. Disponível em: <www.crdp- montpellier.fr/themadoc/Architecture/ArchitectureImp.htm>. Acesso em 10 dez 2011.
9 ________. Daylighting in Buildings. Grupo de Pesquisa em Energia da Escola de Arquitetura da Universidade de Dublin (Irlanda) para a Comissão Europeia - Diretório Geral de Energia, 1994.
Disponível em: <//erg.ucd.ie/UCDERG/pdfs/mb_daylighting_in_buildings.pdf >. Acesso em 23 fev 2011.
intervalo, ve-se a luz como elemento crítico de projeto arquitetônico. O argumento para a iluminação natural em edifícios, portanto, tem três vertentes:
proporciona um clima interno mais saudável e mais agradável; conserva os recursos do planeta; economiza energia.
O Relatório Técnico da Comissão de Energia da Califórnia 10 é um dos muitos no campo de estudo da ciência do edifício, relativamente novo, que busca compreender o impacto das decisões de projeto de arquitetura sobre o usuário, visando fornecer recomendações para futuras pesquisas que darão suporte ao desenvolvimento contínuo da área. O relatório entende que os edifícios são construídos para abrigar as atividades humanas e, projetos que possam melhorar o propósito de seus ocupantes são valiosos. Na medida em que informações confiáveis possam ser fornecidas à arquitetos e empresários, sobre como decisões de projeto influenciam no desempenho dos usuários desses edifícios, ambientes mais adequados à saúde e à produtividade poderão ser construídos, otimizando a ambas as preocupações. O relatório traz como recomendação incentivar a concepção de edifícios de escritório com possibilidade de visão para o exterior disponível à todos os usuários. Tanto em escolas como em escritórios, a pesquisa encontrou correlações consistentes entre visão e desempenho e sugere que a possibilidade de visão através de janelas constitui fator importante ao desempenho humano (HERSCHONG et al, 2003, p.148-157, tradução nossa) 11.
A Teoria da Restauração da Atenção de Kaplan 12 oferece um mecanismo para explicar os benefícios da exposição da visão à natureza. A teoria sugere que
10 Relatório Técnico da Comissão de Energia da Califórnia (Heschong Mahone Report) foca a relação de conforto e produtividade relacionada à iluminação natural em espaços de trabalho. O Heschong Mahone Group(estabelecido na Califórnia desde 1994, por Lisa Heschong e Douglas Mahone, dedica-se a questões de eficiência energética do edifício. Fonte: <www.h-m- g.com/projects/daylighting/acknowledge%20daylight.htm>. Acesso em 15 abr 2011, tradução nossa.
11 HERSCHONG, Lisa – arquiteta, 30 anos de carreira entre pesquisa em energia e projeto.
Reconhecida internacionalmente como especialista em luz do dia, uso de energia em iluminação e fatores humanos em projeto de edifícios. MAHONE, Douglas – arquiteto, colaborador e especialista em códigos de princípios e praticas de construção energeticamente eficiente. Professor na faculdade de Arquitetura do Instituto de Tecnologia de Massachusetts (MIT), ligado ao Laboratório de Pesquisas em Energia. Fonte: <www.h-m-g.com/>. Acesso em 15 abr 2011.
12 KAPLAN, Rachel e Stephen - Attention Restoration Theory, teoria desenvolvida em 1980, proposta na publicação: A experiência da natureza: uma perspectiva psicológica. Fonte:
cenas da natureza têm potencial para restaurar a atenção dirigida, ou capacidade da atividade cognitiva do cérebro, após atividade prolongada ter exaurido a habilidade da pessoa em concentrar-se. Uma vez que a capacidade da mente para eliminar distrações e impulsos tenha se esgotado, as pessoas apresentam resultados fracos em tarefas que exigem mais concentração, apresentando irritabilidade e impaciência. Em vários estudos, a possibilidade de visão para o exterior mostra-se efetiva em ajudar a manter ou restaurar a capacidade de concentração durante longos períodos. Por sua caracteristica transitiva, a luz natural gera variações de luminância ao longo do dia e da época do ano, que associada às condições atmosféricas locais também variáveis, contribui para nosso estado de alerta (HERSHONG et al, 2003, p.23-26, tradução nossa) 13.
O acesso a energia barata e abundante no século XX, alavancou o desenvolvimento de nossas cidades e nossa arquitetura, permitindo o que antes não teria sido possível. A noção de projeto energeticamente eficiente, inicialmente fruto da inquietação perante a escassez no fornecimento de petróleo dos anos 197014, levantou a questão da demanda energética despendida na iluminação e climatização de edifícios. Na passagem para o século XXI a necessidade de mitigar os impactos ambientais tornou-se bem compreendida.
(KING, 2009, s/p, tradução nossa) 15.
A pesquisa em conforto ambiental nos anos 1950 protagonizada pelos irmãos Olgyay 16, constituiu uma primeira etapa dos estudos focada na saúde física dos
<//firesidelearning.ning.com/forum/topics/attention-restoration-theory>. Acesso em 25 abr 2011, tradução nossa.
13 HERSHONG et al. op.cit.
14 O embargo do petróleo árabe de 1973-74 - como uma tática política, em outubro de 1973 os países da OPEP (Organização dos Países Exportadores de Petróleo) suspenderam as exportações de petroleo para os EUA e outras nações ocidentais em retalhação ao apoio prestado à Israel. O embargo forçou considerações sem precedentes sobre a disponibilidade de energia a prazo. Fonte: HORTON, Sarah. The 1973 Oil Crisis. Disponível em <www.envirothonpa.org>.
Acesso em 20 set 2011, tradução nossa.
15 KING, Douglas. Passive Design. Fonte: <www.dougking.co.uk>. Graduado em física, consultor especializado em inovação de design e desenvolvimento sustentável da construção e do ambiente construído. Professor do Departamento de Arquitetura e Engenharia Civil na Universidade de Bath, Reino Unido. Fonte: http://www.bath.ac.uk/ace/index.php?page=AcePerson&person=king-doug>.
Acessos em 14 jul 2011.
16 OLGYAY, Aladar. OLGYAY, Victor. Solar control & shading devices. Meriden, Connecticut:
Princeton, 1957.
usuários, fortemente voltada para o desempenho de produção no ambiente de trabalho. Valores quantitativos foram definidos e normas foram elaboradas, de modo a alcançar o estado físico de conforto nas edificações de uso não residencial. A década de 80, portanto após a crise energética, constituiu uma etapa posterior nos estudos. A percepção da finitude dos recursos energéticos (não só do petróleo) levou as pesquisas no campo do conforto ambiental a tenderem para os fatores humanos da situação analisada, levando em consideração os contextos espaciais e sociais. As normas elaboradas a partir dos estudos (referenciados em resultados de condições experimentais e simulações) representavam zonas de conforto físico, o que não necessariamente corresponde a um “estado de conforto” para o usuário. A tendência atual é o estudo contextual, de forma a melhor incluir as variáveis qualitativas na avaliação do conforto ambiental de um espaço (AUGOYARD, 1998, p.15, destaque do autor, tradução nossa) 17.
Quando os arquitetos contaram com avanços da indústria e tiveram a fachada liberta da função estrutural, ocorreu a profusão do uso dos panos de vidro e das fontes artificiais de iluminação e ventilação. O fascínio pela tecnologia cresceu a partir de diversas motivações entre as quais a experiência da sensação de domínio do mundo material e para superar a separação do século anterior entre arte e tecnologia. Na passagem para o século XX, as mudanças radicais na percepção da tecnologia ocorreram pelo contato com objetos domésticos, cidades e espaços de trabalho. Neste momento histórico-evolutivo o homem experimentou um sentimento de liberdade, de visão irrestrita e novas relações espaciais, porém, trouxe alguns velhos problemas em magnitude ampliada (TROMMLER, 1995). 18
17 AUGOYARD, Jean-François. Eléments pour une théorie des ambiances architecturales et urbaines, in Les cahier de la recherché architectural. Marselha: Ministério da cultura e da comunicação, 1998. Disponível em: <www.archi.fr/RECHERCHE/cahiers/niv3_12.htm>. O autor é graduado em filosofia, estética e musicologia, doutor em estudos urbanos e prática planejamento, sempre em Paris. Desde 1975 é pesquisador em sociologia urbana e antropologia do meio ambiente. Professor das universidades Vincennes, Paris VI e Grenoble. Fonte:
<www.archipel.org/archive/bios_comp/txtaugoyard.htm>. Acessos em 27 nov 2010, tradução nossa.
18 TROMMLER, Frank. The avant-garde and technology: toward technological fundamentalism in turn-of-the-century in Europe. Cambridge: University Press, 1995. Disponível em:
<//journals.cambridge.org>. Acesso em 01 set 2010.
O artigo de Baker (2000, s/p) 19We are all outdoor animals, reflete sobre o fato de que, embora hoje passemos a maior parte de nosso tempo em ambientes internos, somos seres do ar livre, pois os genes dos quais somos originados se encontram nas planícies, florestas e montanhas e não em ambientes projetados.
Se tivermos em conta que até bem recentemente (quinze gerações), os edifícios eram basicamente destinados a fornecer abrigo e segurança em horas e situações especificas, observa-se que as mudanças culturais foram significativas na forma como hoje nos relacionamos com o ambiente construído. Frase do texto na Figura abaixo:
Tecnicamente, a ciência de projetar fazendo uso de iluminação natural não se resume em fornecer luz suficiente para a atividade que será desempenhada no espaço, mas como fazê-lo sem os efeitos indesejáveis - ganho de calor e perda de equilíbrio térmico, controle de brilho (ofuscamento), variações na disponibilidade de luz do dia. Um projeto de iluminação natural consiste de sistemas, tecnologias e arquitetura (ANDER, 2011, s/p, tradução nossa). 20 Comumente, descrições de um espaço se referem às suas propriedades geométricas - proporções, relações volumétricas, etc. No entanto, a descrição de um espaço não deveria ser separada da percepção deste espaço, o que demanda que seja percebido em um contexto onde se combinam propriedades visuais e ambientais. Além disso, a percepção não é só espacial, mas também temporal. Que a percepção do espaço está inadvertidamente ligada à geometria e seu ambiente nunca foi desafiado como argumento teórico, quer por
19 BAKER, Nick. We are all outdoor animals. Artigo apresentado na 17ª Conferencia PLEA (Passive and Low Energy Architecture), 2000. Fonte: <www.arct.cam.ac.uk/plea2000 >. Disponível em: <www.thedaylightsite.com/showarticle.asp?id=38&tp=6>. Acesso em 14 mar 2011.
20 ANDER, Gregg D. Daylighting. Disponível em: <www.wbdg.org/resources/daylighting.php>.
Acesso em 25 abr 2011, tradução n ossa.
Figura 0.04 - “Há um reconhecimento quase universal do desejo de luz em nosso amor por vasos de plantas”. (Baker, 2000, op. Cit, s/p.)
pesquisadores como por profissionais. Ainda assim, estudos analíticos de projeto têm continuamente separado os dois aspectos - estudos ambientais ligam-se a aspectos comportamentais, enquanto geometria e técnicas do projeto estão ligados aos aspectos formais e de identificação do edifício (CHOUDHARY, HEO, BAFNA, 2007, s/p, tradução nossa). 21
O objeto de estudo deste trabalho é o átrio em edificações não residenciais, sua concepção espacial, materialidade e ambiência como resposta a aspectos climáticos, sociais e usos específicos, tendo por objetivo o estudo deste espaço enquanto portador de luz do dia ao interior do edifício e como elemento configurador do espaço edificado. Como método, foi revisto o percurso histórico, estudadas as possibilidades de incorporação da luz do dia no projeto arquitetônico e levantadas questões de qualidade ambiental associadas à incorporação desta luz.
Baseado em revisão da literatura, imagens e esboços de análise, o primeiro capítulo revisa o desenvolvimento e as transformações da tipologia de edificações que incorporam um vazio central, pela da perspectiva histórica e de sua configuração espacial, das origens às modernas interpretações.
O segundo capitulo é dedicado ao átrio, objeto de estudo desta pesquisa, enquanto espaço de admissão de luz do dia. Conceitua este espaço e estuda estratégias de projeto com exemplos em diversas latitudes.
O terceiro capítulo se dedica aos estudos de caso, para o que foram tomados edifícios na cidade de São Paulo cujo vazio central se expressa marcadamente:
Fórum Trabalhista Ruy Barbosa, de Decio Tozzi e Karla Albuquerque (1992- 2004) e o Centro Cultural Britânico, de Alberto Botti e Marc Rubin (1999-2000).
Como método de avaliação qualitativo foi realizado estudo fotográfico dos átrios destas obras. Entrevista com o arquiteto e fotógrafo de arquitetura Nelson Kon contribuiu com parâmetros para a leitura.
21 CHOUDHARY, HEO, BAFNA. A Study of Variations Among Mies’s Courtyard. Artigo apresentado no 6º Simpósio Internacional de Sintaxe do Espaço, İstanbul (Turquia), 2007.
Disponível em: <www.spacesyntaxistanbul.itu.edu.tr/papers%5Clongpapers%5C096%20-
%20Choudhary%20Heo%20Bafna.pdf>. Acesso em 14 out 2011, tradução nossa.
O quarto capítulo procede à leitura crítica do objeto de estudo com especial interesse no espaço arquitetônico enquanto volume e ambiente, sob o olhar da percepção deste espaço e das sensações associadas a luz do dia.
Os anexos trazem estudos realizados durante o desenvolvimento desta pesquisa e representam campos de conhecimento inerentes ao tema:
1. Estudo da luz do dia e sua relação com o espaço edificado.
2. Conceituação da arquitetura bioclimática e qualidade ambiental.
3. Luz do dia na arquitetura brasileira.
1
capítulo 1
Edificações com vazio central
desenvolvimento histórico
Reunimos trinta raios e os chamamos de roda; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade da roda depende. Giramos a argila para fazer um vaso; mas é do espaço onde não há nada que a utilidade do vaso depende. Perfuramos portas e janelas para fazer uma casa; e é desses espaços onde não há nada que a utilidade da casa depende. Portanto, da mesma forma que nos aproveitamos daquilo que é, devemos reconhecer a utilidade do que não é.
Lao-tzu, Tao Te Ching, VI Ac
1 Figura 1.Erro! Apenas o documento principal. – Aquarela ilustrativa em Roman History and Environment. Disponível em: <//romanculture.wordpress.com/category/rome/>. Acesso em 05 Dez 2011.
Edifícios com pátios remontam às civilizações antigas de climas mais quentes (como grega, hindu, romana e árabe), onde o pátio central desempenhou importante função social e espacial do assentamento. Pode ser classificado como um padrão de desdobramento a partir do centro que, controla e impõe a organização entre os demais espaços, pela posição dominante, física e visual, próxima à entrada e aos espaços circundantes (ŞEKER ILGIN, 2008, p. 31, tradução nossa) 2.
A incorporação de um poço de luz ou um átrio ao edifício pode dinamizar o espaço interno pela admissão de luz natural e parece ter efeito positivo na interação entre os usuários. Ao lado dos efeitos psicológicos positivos, os fisiológicos também se beneficiam pela exposição à luz do dia. No século XX, o espaço do átrio foi arquitetonicamente pouco recorrente. Entretanto nos últimos 40 anos 3 o encontramos em reinterpretações, em todas as latitudes e em diversas tipologias, especialmente nos edifícios altos (AHMAD; RASDI, 2000, p.5, tradução nossa) 4. Hoje, átrios são recursos de projeto em construções de grande porte como edifícios de escritórios, shopping centers e hotéis (ASHLEY, p.14, tradução nossa) 5.
No entanto, observa-se em muitos átrios contemporâneos que a iluminação elétrica não é equacionada com base na disponibilidade de luz do dia. Além disso, as dimensões e a geometria dos espaços com átrio podem resultar em ganho solar excessivo no verão e perda de calor no inverno. O impacto da área envidraçada sobre o desempenho térmico dos edificios com átrio começa a ser compreendido e a contar com o apoio de simulações computacionais
2 ŞEKER ILGIN, Aysegül. Form and Space in Roman domestic architecture: the architectural language of the atrium house. Dissertação de Mestrado, Escola de Ciências Sociais da Universidade Técnica do Oriente Médio, Ankara (Turquia), 2008. Disponível em:
<//etd.lib.metu.edu.tr/upload/12609731/index.pdf>. Acesso em 20 mar 2011.
3 O interesse do profissional de arquitetura pela casa-pátio intensificou-se no período do embargo do petróleo, fato que estimulou pesquisas com foco na diminuição na dependência deste recurso.
Enquanto o arquiteto "verde" abraçou a adaptabilidade ambiental da casa-pátio, outros empregaram a tipologia para diferentes razões e finalidades. Nota da autora.
4 AHMAD, Hamdan, RASDI, Mohamad. Design principles for atrium buildings for the tropics. Selangor, Malásia: Penerbit UTM, 2000.
5 ASHLEY, John. Modification of atrium design to improve thermal and daylight performance. Dissertação de Mestrado, Escola de Ciências Físicas e Químicas da Universidade de Queensland, Austrália, 2001. Disponível em: <//eprints.qut.edu.au/15780/1/John_Mabb_Thesis.pdf>. Acesso em 15 jun 2011.
(ferramentas de projeto específicas), para tirar partido da potencialidade da luz do dia, resultando em melhoria do desempenho térmico e otimização de consumo total de energia - iluminação, aquecimento e refrigeração. (LAOUADI;
ATIF; GALASIU, 2002, p. 4, tradução nossa) 6.
Tipicamente, a centralidade da implantação de um átrio o torna elemento ordenador do espaço, incorporando funções que podem proporcionar ambientes agradáveis e confortáveis. Pode-se dizer que hoje, o átrio comporta-se de maneira similar ao átrio romano, quando aquele espaço representava o centro social do edifício (ANDER, 2002, p. 20-21, tradução nossa) 7.
Historicamente, o pátio interno manteve a área privada como espaço defendido comum onde a socialização acontecia. A casa de pátio, uma das formas mais duradouras de arquitetura, transcende os limites regionais, históricos e culturais.
O equilíbrio entre simplicidade tipológica e controle ambiental continua adequado a diferentes estruturas sociais e familiares. Observa-se que o vernaculismo na arquitetura foi acolhido como um valor contemporâneo, uma tradição a ser observada quando se projetada para o futuro. (ALABIDIN, 2010, p.1, tradução nossa) 8.
Atenção deve ser dada na determinação da forma do poço e nos locais a ele adjacentes. A penetração de luz gera variáveis qualitativas na avaliação do conforto ambiental sendo necessária especial atenção aos fatores humanos na percepção do conforto (SHARPLES, LASH, 2007 s/p, tradução nossa) 9. Recentes desenvolvimentos de programas de simulações em computador do permitem investigar o desempenho energético dos edifícios. Pesquisas em vidros também avançaram para aperfeiçoar o nível de conforto dentro de edifícios.
6 LAOUADI, A., ATIF, M. R., GALASIU, A. Towards developing skylight design tools for thermal and energy performance of atriums in cold climates. Relatório de pesquisa realizada pelo Indoor Environment Research Program do National Research Council Canada(RNC), Montreal, Canadá. Disponível em: <www.nrc.ca/irc/ircpubs>. Acesso em 20 abr 2011.
7 ANDER, Gregg D. Daylighting performance and design. Nova Jersey,EUA: John Wiley and Sons, 2003.
8 ALABIDIN, Mahmoud Zein. The Courtyard Houses of Syria. 2010. Artigo disponível em:
<www.muslimheritage.com >. Acesso em 20 maio 2011.
9 SHARPLES, S.; LASH, D. Daylight in atrium buildings: a critical review. Artigo publicado pela Faculdade de Arquitetura Desenho e Urbanismo da Universidade de Sidney, 2007. Disponível em:
<//goliath.ecnext.com/free-scripts/document_view_v3.pl?item_id=0199-7311300&format_id=XML>.
Acesso em 18 abr 2011
1.1
Origens
Nas últimas décadas, teóricos e historiadores da arquitetura têm debatido sobre a origem da forma da casa-pátio, porém sua exata origem e caminho evolucionário continuam indeterminados. De forma geral, a casa-pátio de base, pode ser descrita como uma disposição de aposentos em torno de um espaço aberto para o céu. Parece ser consenso acreditar que esta tipologia universal, à qual responde a necessidade humana de espaço privado e defendido, pode ter sido decorrente dos instintos humanos básicos de abrigo, podendo ser rastreada até os habitantes das cavernas pré-históricas. Baseado nos levantamentos de Blaser (1999) 10, Schoenauer (2000) 11 e Capitel (2005) 12, pode-se dizer que as primeiras formas da arquitetura do pátio evoluíram a partir dos acampamentos das tribos nômades (Figura 1.2) e, posteriormente, do conjunto de habitações composto pelas primeiras comunidades agrárias (Figura 1.3) (DAS, 2006, p.3-4, tradução nossa) 13.
A função mais importante do pátio é fornecer uma janela para o céu, duto de ar e luz em meio ao tecido urbano, garantindo simultaneamente privacidade visual e espacial. Para mediar as restrições entre aberto e fechado, dentro e fora, exigências sociais e ambientais, ou, mais abstratamente entre natureza e cultura, o autor acredita que a casa com pátio é um dos meios arquitetônicos mais bem sucedidos e facilmente realizáveis (Macintosh, 1973, p.28, tradução nossa).
10 BLASER, Werner Blaser. Pateos: 5000 años de evolución desde la antigüedad hasta nuestros días. Barcelona: Gustavo Gili, 1997.
11 SCHOENAUER, Norbert. 6000 Years of Housing. Nova York: W.W. Norton, 2000.
12 CAPITEL, Antón. La arquitectura del patio. Barcelona: Gustavo Gilli, 2005.
13 DAS, Nibedita. Courtyards houses of Kolkata: bioclimatic, typological and socio-cultural study.
Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura Urbanismo e Design, Kansas State University.
2001. Disponível em: <//krex.k-state.edu/dspace/bitstream/2097/146/.../NibeditaDas2006A.pdf>
Acesso em 18 abr 2011, tradução nossa.
Figura 1.2 - Acampamento beduíno e transporte da tenda em camelo. Rub’al-khali, Arábia.
Fonte: Cobijo. Madri: Blume, 1979, p.13 e p.11 respectivamente.
Figura 1.3 - Assentamento em Mesakin Quisar, Sudão. Fonte: SCHOENAUER 14, p. 60.
Os padrões de ocupação humana ligam-se às atividades que os suportam. No período pré-histórico, quando o alimento era provido pelo sistema caça/coleta, quanto menos abundante fosse a oferta maior precisaria ser o território. Assim, o padrão foi migratório, movendo-se com os rebanhos de animais pelas estações do ano. A forma da casa correspondia a essas necessidades.
Um exemplo é yurta (do russo юрта) que foi, e ainda hoje continua a ser, a principal forma de habitação familiar dos nômades nas estepes da Mongólia.
Yurtas (Figura 1.4) têm sido característica distintiva da vida na Ásia Central há pelo menos três mil anos15. Mantêm o ambiente interno aquecido no inverno, resistem a ventos fortes, além da praticidade de transporte e montagem.
14 SCHOENAUER, op. cit.
15 Yurta - a primeira descrição foi registrada por Heródoto de Halicarnasso (Grécia 484- 424 aC.), que descreveu a yurta como a tenda dos Citas (do grego antigo Skythēs), nômades equestres que viveram ao norte do Mar Negro e na região da Ásia Central a partir de cerca de 600 aC. Evidências
Figura 1.4 - Montagem de uma Yurca. Fonte: <www.mongolian-yurt.com>. Acesso em 28 out 2011.
Ao intervir sobre o ciclo reprodutivo de plantas comestíveis (controle e gestão da alimentação) ocorreu a correspondente mudança no padrão de assentamento humano. Com o desenvolvimento da agricultura, os agrupamentos foram capazes de produzir um excedente de alimentos e, deste fato, nasceu a divisão do trabalho. Mais tarde descortinaria a configuração de agrupamentos maiores - vilas e cidades.
Figura 1.5 - Localização do «Crescente Fértil» Fonte: <www.igm.mat.br>. Acesso em 27 out 2011.
Os primeiros centros urbanos surgiram em áreas climatologicamente favoráveis, como no «Crescente Fértil» 16 (Figura 1.5), com disponibilidade de água para fins
arqueológicas comprovam que os hunos, o primeiro império de guerreiros das estepes da Ásia Central, ativos entre os século VI e VI dC, habitavam em yurtas. Fonte: <www.mongolian- yurt.com/Yurt-history.html>. Acesso em 28 out 2011, tradução nossa.
16 O termo «Crescente Fértil» criado pelo arqueólogo James H. Breasted, refere-se a imagem de arco formado pela região onde se encontram os rios Tigre e Eufrates, e o Nilo no extremo.
de irrigação durante todo o ano. Concentrações populacionais surgiram na região dos rios Eufrates e Tigre (antiga Mesopotâmia 17), no deserto de Thar atravessado pelo rio Indo (atual Índia), no Egito ao longo do rio Nilo. Em todas essas regiões a tipologia da casa com pátio central emergiu como a forma básica de moradia (POSTER, 1989, s/p, tradução nossa) 18.
Figura 1.6 - Direita: Planta de casa-pátio, 3.000-4.000 aC. Esquerda: Ilustração de casa com impluvium,19 2.000 aC., Ur (Caldéia) Fonte: Blaser 20, 1999, p. 10.
Historicamente, o projeto da habitação responde ao clima e aos aspectos físicos do ambiente, sendo a compreensão dos elementos ambientais fornecedora de indícios da tipologia empregada. É sabido que em climas quentes, tanto secos quanto úmidos, a implantação do abrigo buscará evitar demasiada exposição ao sol e facilitar o resfriamento pelos ventos. Por outro lado, em climas frios, o projeto se voltará para a maximização de aproveitamento do calor solar e a evitar os ventos no inverno. No entanto, parece que as condições climáticas não foram o único componente determinante para o uso da planta da casa-pátio, uma vez que as habitações das civilizações urbanas mais antigas (Figura 1.6) e
Atualmente a região corresponde a Israel, Cisjordânia e Líbano, partes da Jordânia, Síria, Iraque, Egito, da Turquia e Irã. Fonte: <www.igm.mat.br>. Acesso em 27 out 2011.
17 Mesopotâmia – terra entre rios, do grego ‘mesos‘ meio e 'potamos' rios. Termo aplicado às culturas que floresceram entre os Rios Tigre e Eufrates a partir de cerca de 5.000 aC. Fonte:
<www.bbc.co.uk/history/ancient/cultures/mesopotamia>. Acesso em 28 out 2011.
18 POSTER, Corky. The Courtyard House. Disponível em: <//ag.arizona.edu>. Acesso em 20 abr 2011.
19Impluvium – designação romana para abertura zenital para captação de água de entra chuva.
Nota da autora. Ver p. 27.
20 BLASER, op. cit.
ao longo da história das moradias dos períodos clássicos grego e romano, encontramos elementos para suportar o fato de que a "forma pátio" seria atemporal na história da arquitetura (DAS, 2006, p.4, destaque do autor, tradução nossa).
Ao longo do desenvolvimento da humanidade, a luz do dia foi a única fonte de iluminação eficiente disponível. Na historia da arquitetura, o vão ou janela, no que se refere à proporção e a quantidade, expandiu-se conforme o desenvolvimento da técnica de nossa civilização (CORONA; LEMOS, 1998, p.284) 21. Na passagem para o século XX, quando os arquitetos tiveram a fachada liberta da função estrutural e contaram com os avanços da indústria e fontes de luz artificial mais eficientes, ocorreu a profusão no uso dessas fontes, assim como da ventilação artificial (BERALDO, 2006, p. 34) 22.
O fascínio pela tecnologia cresceu a partir da passagem do século XIX para o XX por diversas motivações, entre as quais a experiência da sensação de domínio do mundo material. As mudanças radicais na percepção da tecnologia ocorreram pelo contato com objetos domésticos, cidades e espaços de trabalho.
Gropius, Mies van der Rohe e Le Corbusier, entre outros, através de seus projetos acentuaram o funcionalismo como parte da experiência estética da modernidade. Entretanto, as novas relações trouxeram alguns problemas, ou velhos problemas em magnitude ampliada, como a associação entre clima e ambiente construído (TROMMLER, 1995, s/p) 23.
1.1.1
China - Índia
Casas com patio foram construídas na Índia e na China, por volta de 3000 aC.
Constituíam um local bem guardado, onde a família formava uma pequena
21 CORONA, Eduardo. LEMOS, Carlos Alberto Cerqueira. Dicionário da arquitetura brasileira. São Paulo: Companhia das Artes, 1998, 2ª ed.
22 BERALDO, Juliano Coronato. Eficiência energética em edifícios: avaliação de uma proposta de regulamento de desempenho térmico para a arquitetura do estado de São Paulo. Dissertação de Mestrado em Arquitetura e Urbanismo. Universidade de São Paulo, 2006. Disponível em:
<www.usp.br/fau/cursos/pos/teses/mestrado/2006/beraldo_jc/dissertacao.pdf> Acesso em: 29 ago 2010.
23 TROMMLER, Frank. The avant-garde and technology: toward technological fundamentalism in turn-of-the-century in Europe. Cambridge University Press, 1995. Disponível em:
<//journals.cambridge.org>. Acesso em 01 set 2010.
comunidade. China e Índia têm origem cultural semelhante e, para ambas, a privacidade é elemento chave. Dimensionadas para abrigar uma única família, geralmente têm pátios retangulares cercados por muros altos e pela propria edificação. Nessas casas a única ligação com o mundo exterior é através de uma entrada simples ou de uma câmara estreita. Em ambas as culturas, o pátio foi usado como uma sala de estar ao ar livre, lugar para as atividades diárias, especialmente para as mulheres (Figura 1.7).
Dimensões e acabamento refletem o estado social dos moradores (Figura 1.8 e 1.9). As principais diferenças entre os pátios de Pequim e os indianos são o tamanho e a forma, justificado pelo clima. Em Pequim são largos e grandes o suficiente para permitir entrada de luz solar nos ambientes internos, enquanto os indianos são profundos na busca de sombra. Devido às restrições de tamanho, os pátios indianos têm pouca vegetação em comparação aos de Pequim.
Posteriormente, esta tipologia influenciaria a casa-pátio urbana em outros países do sul asiático. Os jardins japoneses (Figura 1.10) refletiriam os princípios dos primeiros jardins do pátio chinês (Yu, 1999, p.16-20, tradução nossa) 24.
Um exemplo notável de assentamento humano, Fujian Tulou 25, encontra-se entre campos de arroz e chá, na região montanhosa do sudeste da China.
Desde o século XIII, migrações sucessivas de grupos da etnia Hakka, originalmente do norte da China, construiram um conjunto de 46 edifícios de planta circular ou quadrada, orientadas para o interior (Figura 1.11). As estruturas mais elaboradas datam dos séculos XVII e XVIII. Em torno de um pátio central (com uma unica entrada e janelas para o exterior apenas acima do primeiro pavimento) os edificios sobreviveram ao tempo e aos ataques.
(UNESCO, 2011, s/p, tradução nossa) 26.
24 YU, Nancy. The urban courtyard housing form as a response to the human needs, culture and environment. Dissertação de Mestrado, Universidade de Guelph, Ontário, Canadá 1999. Disponível em: <www.collectionscanada.gc.ca/obj/s4/f2/dsk2/ftp01/MQ43240.pdf>. Acesso em 14 maio 2011.
25 Inscrito pela UNESCO como de valor universal excepcional, modelo de uma tradição de construção, função, vida comunitária, organização defensiva e relação harmoniosa com o meio ambiente,
26 Disponível em: <//whc.unesco.org/en/list/1113>. Acesso em 10 Jun 2011.
Figura 1.8 -Em Pequim, o tamanho dos pátios varia conforme as posses familiares, geralmente construídos no eixo norte-sul. Os desenhos mostram variação entre pátios de 2, 3 e 4 lados. Fonte:
<http://depts.washington.edu/chinaciv/3intrhme.htm#shy1>. Acesso em 22 Out 2011.
Figura 1.9 – Casa-pátio tradicional em Xinjiang Uygur Zizhiqu, China. Foto Christopher Little.
Fonte: <//luciensteil.tripod.com/katarxis02-1/id43.html>. Acesso em 28 out 2011.
Figura 1.7 - Costureira e vacas em pátio. Jaisalmer, India 1987.
Foto: Philip Zosloff. Fonte: <www.flickr.com/people/philinflash/>. Acesso em 25 set 2011.
Figura 1.10 – Jardim japonês. Fonte: <//hometrendy.org>. Acesso em 14 nov 2011.
1.1.2
Grécia – Roma
Presume-se que a casa-pátio grega tenha se originado entre os séculos IV e V aC., pois a era clássica da arquitetura 27 carrega evidências de moradias com pátio. Os gregos conceberam suas casas de forma a permitir a entrada do sol baixo de inverno, enquanto os ângulos altos do sol de verão eram bloqueados por beirais (DAS, 2006, p.7, tradução nossa) 28.
Em Memorabilia (III. 8, seções 9,10), Xenofonte 29 relata a visão de Sócrates de uma boa casa:
A boa casa, pensou ele, deve ser fresca no verão e quente no inverno, conveniente para a acomodação da família e suas posses. Os quartos centrais devem, portanto, ser elevados e abrir para o sul, mas para proteção no verão deve haver bons beirais salientes (sobre o peristilo) e, novamente, a exposição dos quartos no norte deve ser menor. Tudo isso faz sentido, mas na realidade, o homem médio ateniense não se importa muito com sua habitação. Ele gasta pouco dinheiro para embelezá-la. A menos que esteja doente, provavelmente vai estar em casa apenas para dormir e comer.
27 Era clássica – entendida como a herança cultural da Grécia Antiga (séculos VI-IV aC.) continuada pelos diversos períodos político-culturais romanos, até o declínio do império a partir do século III. Fonte: <//greciantiga.org/arquivo.asp?num=0427>. Acesso em 25 maio 2011.
28 DAS, Nibedita. Op. cit.
29 Xenofonte - (431-354 aC.) ateniense discípulo de Sócrates recuperou lições do mestre e escreveu Memorabilia, cujo título significa literalmente “o que se mantém na memória”. A versão latina consagrou o título Memorabilia Socratis dicta, ou seja, Ditos memoráveis de Sócrates, que registra aspectos de natureza mundana da vida de Sócrates. Fonte:
<www.edtl.com.pt/index.php?option=com_mtree&task=viewlink&link_id=876&Itemid=2>. Acesso em 25 out 2011.
Figura 1.11 Torres de terra socada e cenas cotidianas da etnia Hakka em Fujian Tulou, China.
Fonte: <www.newchinatours.com/eastchinaadventure/FujianHakka.html>. Acesso 14 jun 2011
Na arquitetura grega o requinte era reservado somente aos edifícios públicos, especialmente templos e monumentos erguidos em homenagem aos deuses. No campo, as casas seriam cabanas retangulares com cobertura de palha, de um único aposento ladeado por um estábulo. Na cidade, em geral, as casas eram de dois pavimentos - o primeiro era frequentemente dividido em dois ambientes, sendo um deles voltado para a rua (servindo ao trabalho como oficina ou loja). O segundo pavimento, por vezes alugado a outras famílias, seria acessado por escada externa. Encontravam-se também grandes casas de aluguel, divididas em pequenos apartamentos. De forma geral, as casas urbanas apresentavam duas tipologias de plantas, referentes às cidades de Priene e Delos. A casa de Priene (Figuras 1.12 e 1.13) seria composta por três partes: um pátio, ao fundo deste um vestíbulo e um ou dois quartos. A casa de Delos tinha na parte central um pátio que podia ou não conter um altar. Neste pátio, por vezes, existia um pequeno lago que servia para captar as águas da chuva 30. As casas refletiam a riqueza do proprietário, sobretudo com respeito às dimensões e ao mobiliário.
Janelas não eram comuns nestas habitações. Para criar uma maior sensação de espaço, grandes áreas de paredes eram elaboradas com afrescos e mosaicos (POMBO, 2011, s/p) 31.
30 Reconheceremos mais tarde no impluvium no átrio romano. Nota da autora.
31 POMBO Olga. As Casas Gregas. Disponível em: <www.educ.fc.ul.pt/docentes/opombo>. Acesso em 09 maio 2011.
Figura 1.12 – Planta e reconstrução de casa em Priene, séc. IV aC. Fonte:
<www.aibim.org/>. Acesso em 12 abr 2011.
No norte da península itálica, na região hoje equivalente a Toscana, os etruscos
32 construíam casas de único pavimento, sem janelas. O fogo situava-se no centro do espaço, em cuja cobertura havia uma abertura para extração do fumo do fogo, cuja dimensão foi sendo progressivamente aumentada (Figura 1.14). A luz penetrava através desta abertura zenital e da passagem de acesso. O fogo, originalmente no centro da casa, transferiu-se para outro espaço, sendo a função da abertura zenital substituída pela recolha da água da chuva. Estima-se que foi esta evolução que deu surgimento a um tanque de recolha de água de chuva (DUARTE, 2010, p.28-29) 33.
32 Etruscos - em cerca de 700 aC., a maioria das tribos do atual território da Itália eram relativamente recém chegadas, vindos por terra do norte ou por mar pelo Adriático. Eram compostas por indo-europeus, falando línguas do subgrupo conhecido como Itálico. Naquele momento, a parte sul da península, incluindo a Sicília, encontrava-se dominada por colônias gregas, assentadas nas regiões costeiras. Os etruscos foram o grupo dominante e controlaram grande parte do centro da península até cerca de 500 aC., quando perderam poder para os romanos e foram subjulgados. Fonte: <www.historyworld.net>. Acesso em 29 maio 2011, tradução nossa.
33 DUARTE, Daniel Filipe Folgado. A habitação em torno de um vazio nuclear: princípios de reabilitação do alto da Cova da Moura. Dissertação de Mestrado, Faculdade de Arquitetura da Universidade Técnica de Lisboa, 2010. Disponível em: <www.repository.utl.pt/>. Acesso em 10 maio 2011.
Figura 1.13 – Planta e ruína de casa em Delos. Fonte: <pages. uoregon.edu>.
Acesso em 30 out 2011.
Figura 1.14 – Ruína de casa etrusca de cerca de 2.400 anos encontrada em sitio arqueológico em Vetulonia, Toscana, Itália. Fonte: <www.italymag.co.uk>. Acesso em 12 nov 2011.
Segundo Jason e Jason (1988), o Império Romano foi uma sociedade extraordinariamente aberta e cosmopolita, que absorveu os traços regionais num modelo ao mesmo tempo homogêneo e diversificado. Para os autores, a
"romanidade" deve ser buscada nesse modelo complexo e não em uma única e consistente qualidade formal. A arquitetura romana mesclou influências etruscas e gregas com as características de sua própria civilização, principalmente a partir do século II aC., quando as conquistas possibilitaram a formação de uma elite enriquecida. Obras públicas de dimensões monumentais (templos, basílicas, anfiteatros, arcos de triunfo, arcos comemorativas, termas, edifícios administrativos e privados, mansões nas cidades e em seus arredores) refletiam a riqueza e o gosto pelo luxo (JANSON e JANSON, 1988, s/p, destaque do autor, tradução nossa) 34.
A casa romana original, ou domus italica, herdada dos etruscos (Figura 1.15), tinha apenas um cômodo, sendo este constituído pelo atrium 35 onde se cozinhava, comia e dormia. Com a evolução econômica, os romanos acrescentaram partições a casa. Na época de Cícero (106-43 aC.,) o átrio havia
34 JANSON, H. W. , JANSON, Antony F. Iniciação á História da Arte. São Paulo: Martins Fontes, 1988.
35Atrium, plural Atria – termo de origem etrusca, objeto de estudo do Capítulo 2. Nota da Autora.