• Nenhum resultado encontrado

Luz do dia na arquitetura brasileira

No documento Edificações com vazio central (páginas 178-192)

Filia-se a nova arquitetura, isto sim, nos seus exemplos mais característicos – cuja clareza e objetividade nada têm do misticismo nórdico – às mais puras tradições mediterrâneas, àquela mesma razão dos gregos e latinos, que procurou renascer no

Quatrocento, para logo depois afundar sob os artifícios da maquilagem acadêmica – só

agora ressurgido, com imprevisto e renovado vigor. E aqueles que, num futuro talvez não tão remoto como o nosso comodismo de privilegiados deseja, tiveram a ventura – ou o tédio – de viver dentro da nova ordem conquistada, estranharão, por certo, que se tenha pretendido opor criações de origem idêntica e negar valor plástico a tão claras afirmações de uma verdade comum. Porque, se as formas variam – o espírito ainda é o mesmo, e permanecem fundamentais, as mesmas leis. Lucio Costa 2

1 Pau a pique e aberturas IN Técnicas construtivas do período colonial – Foto Pedro Martinelli.

Fonte: <coisasdaarquitetura.wordpress.com/category/arquitetura-colonial/>. Acesso em 12 dez 2011.

2 COSTA, Lucio. Razões da nova arquitetura. 1930. IN Lúcio Costa: Sobre a Arquitetura, volume 1

(coletânea de textos de Lúcio Costa, organização de Alberto Xavier), Porto Alegre: Centro dos Estudantes Universitários de Arquitetura, 1962.

Do período colonial ao moderno, a luminosidade aumentou nos espaços interiores da arquitetura brasileira. Nossa produção moderna caracterizou-se pela fusão dos princípios ortodoxos das vanguardas europeias, as posturas orgânicas americanas e os valores locais relacionados ao clima e à arquitetura vernácula. A arquitetura desenvolvida no Brasil a partir dos anos de 1930 representou um momento que foi além da simples adoção dos princípios estrangeiros - nossos arquitetos valeram-se de distintas estratégias e obtiveram certa dinâmica espacial, ora caracterizada pela expansão, ora pelo recolhimento. (BARNABÉ, 2008, s/p).

Ao olhar para a história da arquitetura e das cidades, observamos que foi apenas por um período relativamente curto que as considerações sobre as premissas fundamentais de projeto com relação ao impacto nas condições de conforto ambiental e no consumo de energia não foram determinantes. A arquitetura modernista brasileira, especialmente durante o período de 1930 a 1960, mostrou características bioclimáticas, das quais se pode destacar o emprego de quebra-sóis e cobogós, amplamente adotados por arquitetos desse período. Entre os arquitetos brasileiros atuantes nessa época, Lúcio Costa, na medida em que ressaltou a importância da compreensão das condições climáticas foi um dos que cumpriu um papel exemplar na educação e na prática

arquitetônica (GOLÇALVES; DUARTE, 2006, p.54). 3

Os principais traços da influência árabe na cultura dos países sul-americanos se fazem notar pela herança colonizadora de portugueses e espanhóis impregnados pelo sangue e pela cultura árabe resultante de séculos de dominação na Península Ibérica. Lúcio Costa pesquisou a presença dessa tradição na arquitetura colonial brasileira e, em particular, no chamado barroco mineiro. Em “Documentação Necessária”, texto escrito em 1938, que constitui uma espécie de programa de trabalho para o então recém-criado SPHAN, destaca a importância de se resgatar o valor cultural e a importância construtiva e climática de tais influências. Soluções construtivas tradicionais como os balcões fechados com a chamada treliça mineira são, por exemplo, testemunhos vivos dessa tradição.

3 GONÇALVES, Joana C. S.; DUARTE, Denise H. S. Arquitetura sustentável: uma integração entre

ambiente, projeto e tecnologia em experiências de pesquisa, prática e ensino. Congresso, Ambiente Construído, Porto Alegre, v. 6, n. 4, p. 51-81 out./dez. 2006.

A arquitetura mudéjar, tipicamente ibérica, caracteriza-se pela simbiose entre a arte árabe-muçulmana e elementos da arte europeia cristã. Os principais exemplos encontram-se no sul da Espanha - palácios da Alhambra e mesquitas de Córdoba e Toledo - mas também em Portugal, onde o mudéjar português caracteriza-se pelo revestimento mural de azulejos com motivos geométricos, solução de revestimento mais econômica e rápida em relação à pedra de cantaria. Uma decoração exuberante, com motivos abstratos e geométricos,

arabescos, adornos em gesso e utilização de estuques, azulejos (do árabe

az-zuléidj) e a própria tapeçaria, produzem edifícios públicos, religiosos e vivendas aclimatadas com plantas, flores, fontes, chafarizes, tanques e pomares, ao mesmo tempo em que pátios internos e gelosias nas janelas denunciam o recato e a busca de privacidade (TRUZZI, 2007, pp. 360-361). Em toda a América Latina, a distribuição dos espaços e muitas abóbodas de igrejas e de conventos refletem a arquitetura mudéjar, algumas já desaparecidas desde o século XIX. Segundo Comas (2002) a revolução na arquitetura brasileira dá-se na década de 1930 em correspondência aproximada com a ascensão ao poder de Vargas, a consolidação do regime e a formulação do Estado Novo e isto se dá em três atos. Ato 1. Exploratório – dura três anos, introduz no Rio de Janeiro a arquitetura moderna, em oposição ao tradicionalista neocolonial. Ato 2. Assimilador - outro triênio. Ocorre a apropriação da arquitetura moderna enquanto cresce a influência de Le Corbusier. Ato 3. Propositivo – concretiza-se com o apoio de setores chave do governo federal, orçamentos generosos, em locais de visibilidade e programas de forte carga representativa. Culmina no equacionamento de uma arquitetura moderna de veia corbusiana e sabor brasileiro.

Segundo Lucio Costa, ao contrario do que ocorreu na maioria dos países no Brasil foram justamente os que lutaram pela abertura para o mundo moderno, os que mergulharam no país à procura de das suas raízes, da sua tradição. Em nota acrescentada por ele mesmo em 1991 ao seu texto de 1934 somos advertidos de que “depois de uma coisa vem outra; ser moderno é – conhecendo a fundo o passado – ser atual e prospectivo. Assim, cabe distinguir entre moderno e modernista, a fim de evitar designações inadequadas” (COSTA, 1991, p.116).

No Brasil, devido à influência do edifício do Ministério da Educação e Saúde no Rio de Janeiro (1936-1945), alinhado com os cinco pontos da nova arquitetura de Le Corbusier, entram em cena os elementos característicos para controle da iluminação e térmica: o brise-soleil, painéis móveis como persianas, treliças,

grades, toldos, cobogós ou elementos vazados, o pátio interno, a pérgula, a luz zenital controlada, entre outros (SZABÓ, 2004, p. 103). Lucio Costa ainda nos lembra que a arquitetura dita moderna, no Brasil e fora, resultou de um processo com raízes profundas e legitimas, “portanto nada a ver com certas obras de feição afetada e equivoca – estas sim modernistas”. Nos fala da coincidência, de uma concomitância, pois a indústria vidreira, depois de atender à demanda das cidades arrasadas pela da guerra, viu-se apta a atender as novas teorias arquitetônicas para quem a fachada suporte deixara de existir. “Ocorrera efetivamente um milagre: em vez da fachada tradicional – aonde cada vão representava uma violência à sua integridade estrutural – não se tratava mais de abrir buracos nos muros de sustentação”. Concluído o arcabouço do prédio a fachada se oferecia aberta, livre de qualquer comprometimento estrutural, tornou-se muito tentador não fechá-la com alvenaria, mas simplesmente dispor chapas de vidro plano na vedação, dramatizando o contraste - do lado de fora a intempérie, o sol escaldante e internamente o ambiente climatizado, a sensação de frescor e bem-estar. (COSTA, p.237)

Figura B.03 - O ministério no traço de Lucio Costa.

Fonte:<www.arcoweb.com.br/artigos/casa-grande-sobrados-ideia-convergente-10-10-2005.html>

A principal justificativa das enormes áreas envidraçadas dos edifícios europeus e norteamericanos é - devido ao seu céu pouco luminoso – permitir a entrada da iluminação natural nos ambientes internos. Essas grandes áreas também beneficiam o conforto térmico, pela conversão em calor da radiação solar introduzida. O céu tropical é cheio de luz. Pequenas aberturas, protegidas da radiação solar direta, seriam suficientes para um bom nível de conforto visual. Os edifícios em clima tropical úmido devem ser permeáveis para permitir a

ventilação interna que beneficia o conforto térmico das pessoas. Um exemplo bem sucedido foi o obtido por Lucio Costa no Parque Guinle, ao utilizar blocos perfurados na fachada dos apartamentos - elementos formais que ao mesmo tempo em que contribuem para o controle solar, permitem o movimento do ar. (CORBELLA; YANNAS, 2003, pp.23-24).

Nas três primeiras décadas do século XX, o clima cultural e político do Brasil, com forte componente nacionalista, atingiu também o debate arquitetônico do período. O processo de constituição da nação e as investigações sobre sua identidade foram gestados através das lutas pela Independência e pelos sentimentos antilusitanos dos dois séculos precedentes. O clima foi reforçado pelas preocupações acerca da identidade da jovem nação, dotada de grandes particularidades no cenário mundial: forte herança lusitana, africana e indígena e intensa miscigenação, sob um clima tropical e em um país de grandes dimensões territoriais. (CORREIA, p. 8)

Quando ligado ao movimento neocolonial, na década de 1920, Lucio Costa pesquisou a arquitetura colonial, à qual se referia, em 1929, como: “robusta, forte, maciça e dotada de linhas calmas e tranquilas”. Trata-se de um conceito que provavelmente chegou à Costa através de Gilberto Freyre e de seu mentor da fase colonial, José Mariano. Costa lançou as bases do discurso da adaptação da arquitetura ao meio, como uma possibilidade que a arquitetura moderna, mais que qualquer outra, poderia realizar. Em textos teóricos e em projetos buscou evidenciar tal noção. (COSTA, 1962, 14-15) 4.

Para Correia, a apresentação da arquitetura moderna brasileira por historiadores de arquitetura tem recorrentemente frisado a adaptabilidade ao meio entre suas qualidades. A autora afirma que a repetição do argumento acaba por sugerir um monopólio modernista sobre esta qualidade, quando a ideia de adaptabilidade da arquitetura ao clima dos trópicos esteve longe de ser um tema do debate arquitetônico restrito ao século XX, não constituindo uma preocupação específica de arquitetos modernistas. De falas anteriores ao modernismo, Correia traz uma frase de Gilberto Freyre, onde se percebe que a questão há muito se fazia presente:

Foi talvez Debret quem primeiro fizesse justiça aos jesuítas portugueses que levantaram, num Brasil ainda rude e cheio de mato, edifícios

4 COSTA, Lúcio. Razões da nova arquitetura. In: Documentação Necessária. 1 volume. Porto

urbanos nobres e até monumentais, importando para alguns, de Lisboa, materiais talhados e numerados, mas, em geral, respeitando judiciosamente as exigências do clima e dos materiais existentes no país. (Freyre, 1997, 225, apud CORREIA, p. 2) 5.

Em seu texto Correia diz que no século XIX, a questão já preocupava Manuel de Araújo Porto Alegre, diretor e professor da Academia Real de Belas Artes do Rio de Janeiro que, refletindo sobre o ensino e a prática de arquitetura no país, indagava se as construções urbanas estariam em harmonia com o nosso clima e vida doméstica. Faz ainda referencia ao artigo “A Casa Tropical”, de 1927, do engenheiro pernambucano Alde Sampaio, ao sublinhar a necessidade de adaptação da habitação ao clima, definindo como princípios básicos a orientação, a proteção contra o sol e a garantia de ventilação.

Figura B.04 - Desenho de Carlos Leão, para a primeira edição de Sobrados e mocambos, mostra a

relação entre o grupo de Costa e Freyre. Fonte: <Fonte:<www.arcoweb.com.br/artigos/casa-grande-sobrados-ideia-convergente-10-10-2005.html>, Acesso em 15 ago 2011.

O tema da adaptação ao meio estaria na pauta no Primeiro Congresso de Habitação, realizado em São Paulo em maio de 1931, na conferência intitulada “A Arquitetura Mesológica” de José Marianno (médico e ex-diretor da Escola de Belas Artes do Rio de Janeiro) que defendia uma arquitetura que fosse

5 CORREIA, Telma de Barros. O modernismo e o núcleo fabril: o anteprojeto de Lúcio Costa para

Monlevade. Anais do VI Seminário de História da Cidade e do Urbanismo. CD-ROM. Natal, UFRN, 2000.

“expressão do meio”, que se harmonize com hábitos e costumes; que empregasse materiais disponíveis e que fosse capaz de defender seus ocupantes dos rigores do clima. Mariano entende que no Brasil, as bases desta arquitetura estariam naquela praticada nos três primeiros séculos da colonização portuguesa, cujos construtores:

Observaram sensatamente o meio físico; reconheceram os elementos que precisavam combater; puseram em linha de combate os meios rudimentares de que podiam dispor no momento, para lhes anular os desagradáveis efeitos. À mingua de uma tradição local, fizemos apelo à experiência caldeada ao contato das civilizações orientais. Contra a ação direta do sol, se fizeram paredes espessas de pedra canjicada, tijolo, taipa, ou adobe, de acordo com os recursos regionais. Calcularam os telhados com suave inclinação, para que sobre eles deslizassem as abundantes águas pluviais. Fizeram os longos beirais cobrir de sombra o espelho das paredes; protegeram o corpo da habitação com peças de anteparo à ação do sol, como alpendres, copiares, loggias, ou pórticos. Utilizaram-se por fim da árvore, como a sua mais preciosa aliada. Dispuseram balcões, janelas e miradores rendados em adufa, à moda do Islam. Procederam assim nos grandes como nos pequenos detalhes do sistema, como consumados arquitetos. (MARIANNO, 1931, 317, Apud CORREIA p.4).

Em textos dos anos trinta de Gilberto Freyre e Lucio Costa, nossas casas coloniais - com suas paredes grossas, pés direitos altos, beirais, alpendres e muxarabis - têm sido sistematicamente celebradas como climaticamente adequadas. Para Gilberto Freyre nossa arquitetura doméstica colonial foi testemunho de um “espírito de harmonia da construção com o clima, o meio e os materiais peculiares a esta parte da América [...]” (FREYRE, 1997, p. 225 apud CORREIA, op. cit.). Mostra como na habitação, os portugueses usaram em algumas situações a coberta de palha dos índios, dos quais também absolveram a rede; dos árabes recuperaram o hábito de sentar em tapetes e esteiras, o azulejo e as gelosias; dos asiáticos a parede grossa, o alpendre e a telha recurvada em asas de pombo (FREYRE, 1989).

A casa-grande de engenho que o colonizador começou, ainda no século XVI, a levantar no Brasil - grossas paredes de taipa ou pedra e cal, coberta de palha ou de telha-vã, alpendre na frente e dos lados, telhados caídos num máximo de proteção contra o sol e as chuvas tropicais - não foi nenhuma reprodução das casas portuguesas, mas uma expressão nova, correspondendo ao nosso ambiente físico e a uma fase

surpreendente, inesperada, do imperialismo português: sua atividade agrária e sedentária nos trópicos; seu patriarcalismo rural e escravocrata. (FREYRE, 1989, apud CORREIA, p. 5).

Em 1931, no artigo “Uma escola viva de Belas-Artes”, Costa faz referências elogiosas à nossa arquitetura residencial colonial, onde a coloca como pura honesta e dotada de uma relação de integridade entre as técnicas construtivas empregadas e a expressão formal. Afirma ter se inspirado na Bahia, no Recife e em Minas, na sua opção por uma arquitetura contemporânea e coerente com nossos materiais, costumes e meios de realização (COSTA, 1987, 47-48). Após 1933, entretanto, estes elogios incorporariam novos argumentos inspirados em Freyre. Em Documentação Necessária - citando diretamente o sociólogo - à pureza e despretensão, é acrescida outra qualidade à nossa arquitetura residencial colonial: ser adaptada ao meio (COSTA, 1962, 86-87). Simultaneamente a palavra “elasticidade” - no sentido empregado por Freyre para “plasticidade” - é incorporada ao discurso de Costa (COSTA, 1936, 29 e 72).

As notórias influências do pensamento de Gilberto Freyre sobre Lucio Costa expressam-se em diferentes aspectos, entre os quais a abordagem do arquiteto sobre a relação entre modernidade e tradição na arquitetura brasileira. Os vínculos intelectuais entre Lúcio Costa e Gilberto Freyre evidenciam-se várias vezes nas obras de ambos. No prefácio da primeira edição de Casa Grande e Senzala, de 1933, Freyre cita trecho do artigo de Costa “O Aleijadinho e a arquitetura tradicional”, de 1929, onde este descreve suas impressões dos casarões antigos de Sabará, Ouro Preto e Mariana em termos de um reencontro. Freyre recorre a esta citação ao sugerir a história da casa como um ponto de partida importante para se entender a história de um povo, de sua vida doméstica, religiosa, social, etc. Lúcio Costa por sua vez, cita Freyre no artigo “Documentação necessária”, de 1937, ao apontar entre as qualidades de nossa arquitetura residencial colonial, sua adaptação ao meio (COSTA, 1962, 87). A leitura de nossa arquitetura colonial enquanto resultado do meio ocorreria depois em obras de autores como Mindlin, Saia e Lemos, por exemplo, entretanto, sem a ênfase na noção de adaptabilidade colocada por Costa.

Embora sem fazer qualquer referência direta a Gilberto Freyre, o anteprojeto de Monlevade - concebido pouco depois da publicação de Casa Grande e Senzala - é talvez o momento da obra de Lúcio Costa onde se revela com mais força o impacto deste livro. Sua ideia de “delineamento elástico” aproxima-se da noção

de “plasticidade”, central no pensamento de Freyre. A mistura de técnicas construtivas artesanais e modernas é outra expressão desta busca de estabelecer elos entre o novo e o tradicional, entre o local e o internacional, central nas qualidades atribuídas por Freyre ao conceito de “plasticidade”.

No anteprojeto de Monlevade - concebido por Lúcio Costa para concurso promovido em 1934 pela siderúrgica Belgo-Mineira - três requisitos básicos foram indicados como norteadores do plano: reduzir ao mínimo os movimentos de terra, prejudicar o menos possível a beleza natural do lugar e evitar “delineamentos rígidos ou pouco maleáveis, procurando, pelo contrário, aquele delineamento que se apresentasse como mais elástico, tornando assim fácil a sua adaptação conveniente às particularidades topográficas locais” (COSTA, 1936, 115).

No plano, o “delineamento elástico” postulado por Costa se expressou em um projeto pouco detalhado, onde um largo central concentrava os equipamentos coletivos, enquanto as casas, dispostas duas a duas, ocupavam encostas em ruas irregulares, dotadas, conforme o autor da “feição despretensiosa peculiar às estradas” (COSTA, 1936, 117). No projeto das moradias tal delineamento se expressou no uso de pilotis que permitia pousar a casa sobre um solo em declive sem maiores obras de terraplanagem. Coerente com seu intuito de conciliar técnicas novas e tradicionais, este também tributário da noção de plasticidade de Freyre, Lúcio Costa propõe reunir nas casas concreto armado e taipa; telhas de fibrocimento e forros de taquara.

Sobre a laje apoiada nos pilotis, o arquiteto propõe paredes de taipa, adequadas pela leveza e economia e por isoladas do solo, estarem livres de seu maior inconveniente, a umidade. Na escola e nas casas sugere o uso de forros de taquara, material artesanal e local, sob telhas Eternit, na época importadas da Bélgica, justificadas pela leveza, durabilidade e qualidades térmicas.

A noção de adaptabilidade ao meio inspiraria outros projetos modernistas desde então. Foi recuperada, em meados da década de 1950, pelos arquitetos Jacques Pilon e Giancarlo Gasperini no projeto de uma indústria e de seu núcleo residencial elaborado para a fábrica Mecânica Pesada, no município de Taubaté. O projeto inclui casas para operários, técnicos, 8 engenheiros e diretor, área para esportes, centro social e comercial, casa de hóspedes, igreja, escola, clube, residência do diretor, refeitório e ambulatório. As moradias e áreas verdes foram dispostas em torno da área de produção. Quatro tipos de moradias - todas térreas - foram projetados: uma casa para o diretor; 16 casas geminadas duas a

duas para engenheiros; 32 casas dispostas em blocos de quatro para técnicos e 276 moradias dispostas em blocos de oito para operárias.

As moradias dos operários - separadas das demais habitações por uma área ocupada por igreja, escola e centro comercial e social - são dispostas em blocos de oito e têm jardim, quintal, varanda, sala, dois quartos, cozinha, sanitário e lavanderia. Em 1937, uma matéria na revista Habitat enfatiza a “elasticidade” e “adaptabilidade” que teriam norteado o projeto destas moradias:

A planta (...) possui uma elasticidade, longamente estudada a partir da célula-tipo, a qual poderá restringir-se a um só dormitório, ou desdobrar-se em habitações de três dormitórios, tudo dependendo das solicitações, das necessidades familiares que se fossem deparando. Esse aspecto de elasticidade da célula-tipo constitui um dos objetivos da organização adotada. Sua adaptabilidade fica demonstrada de uma forma inteiramente nova em conjuntos semelhantes, indo ao encontro das demandas diversas de habitação, numa constante possibilidade de atendimento às diferentes situações familiares do pessoal operário. (Habitat, 1956, 7).

Na realidade, esta elasticidade é bastante limitada: construído o bloco de oito casas, a criação de um terceiro quarto só seria possível nas duas casas situadas nas extremidades.

Em 1888, o escritor e crítico literário cearense Araripe Junior, conciliando uma cultura filosófica determinista, na qual o conceito de meio era central, com um forte sentimento popular-nacionalista,

Investigavam-se as características do naturalismo brasileiro em termos da emergência de um estilo tropical. Sugeria a existência de um fenômeno que chama de “obnubilação”, que provocaria adaptações e transformações nos indivíduos diante do contato com a paisagem, o clima e os modos de vida

No documento Edificações com vazio central (páginas 178-192)