Ao princípio as paredes eram grossas. Protegiam o homem. Então o homem sentiu o desejo de liberdade e do prometedor mundo lá fora. Primeiro fez uma abertura tosca. Então explicou à infeliz parede que ao aceitar a abertura, a parede devia seguir uma ordem maior de arcos e pilares, com elementos novos e de valor […]. No entanto, os arquitetos de hoje em dia, quando pensam em edifícios esquecem a sua fé na luz natural. Contando com a pressão de um dedo sobre um interruptor, basta-lhes a luz estática, e esquecem-se das qualidades infinitamente cambiantes da luz natural, com a qual um edifício é um edifício diferente a cada segundo do dia. Louis Kanh
1 Vista do mezanino da OCA de Oscar Niemeyer. Parque do Ibirapuera, São Paulo SP, Foto de
O título atribuído a este trabalho - Arquitetura e luz: o átrio (ex-pátio) – pretende enfatizar a evolução histórica do vazio central em configurações arquitetônicas originarias do espaço interno aberto ao céu que, fazendo uso das disponibilidades técnicas pode ser coberto, transformando-se em abrigo às variações climáticas. O desígnio atrium, rastreado desde a antiga Roma, e antes dela nos povos que povoaram a região da Toscana (noroeste da Itália), define um espaço onde o impluvium, (abertura azimutal com origem nos abrigos primitivos para exaustão da fumaça do fogo) representava o centro geométrico do ambiente. O Atrium Romanun e o átrio contemporâneo, além do aporte de luz do dia, guardam em comum o caráter social e o papel ordenador dos demais compartimentos do edifício. Entretanto, no nosso entender, o átrio do século XXI parece se identificar mais com o vazio central primordial – um espaço protegido, que permite contato com o mundo exterior, pois, mesmo coberto, sua característica porosa possibilita a participação do mundo natural.
É de conhecimento comum que o ambiente construído atua sobre nosso estado psiquico e consequentemente sobre nossa disponibilidade para tarefas. A teoria da arquitetura fornece poucos subsidios, cedendo a responsabilidade para a sensibilidade pessoal do arquiteto. São poucas as investigações sistemáticas que relacionam diretamente a estrutura física de um espaço e a experiencia deste espaço. Uma das razões para esta lacuna reside na dificuldade do estabelecimento de metódos com que a pesquisa empírica se depara, uma vez que no mundo real os fenômenos se mostram complexos e sujeitos a muitas variáveis. Explorar as relações entre propriedades espaciais e experiência vivenciada implica em uma sistemática de interrelações difícil de ser transformada em fatores lineares.
Esta pesquisa, que se debruçou sobre o espaço do átrio como elemento de admissão de luz do dia ao interior de edificações, deparou-se com aspectos do aproveitamento deste aporte e com o caráter configurador do espaço interno que a presença do átrio proporciona.
Através do levantamento histórico, observou-se a migração da função espacial primordial do vazio central como espaço defendido (dos rigores climáticos, da ameaça de inimigos, etc.) e de convívio social, para um espaço contemporâneo de proporções majestosas, possibilitados pelas conquistas tecnológicas. Assim como o edifício de pele de vidro, o edifício com átrio muitas vezes migrou de latitude, sem observância das características climáticas especificas do local de implantação. De forma geral, observou-se que os átrios contemporâneos são
projetados para operar com ventilação mecânica fazendo uso de interfaces de sombreamento. Em muitos casos observam-se o uso do átrio como elemento agregador de status ao conjunto de edifício. Não raros são os exemplos de átrios impactantes em hotéis e edifícios de escritórios.
Espaços que incorparam elementos naturais ajudam a superar a fadiga, relaxando e restaurando a mente. Em ambientes urbanos, espaços verdes são sinônimos para descanso cognitivo, onde se incentiva a interação social e alivio do estresse. Em ambientes internos, como nos átrios, a presença da luz do dia e o uso social do espaço contribuem positivamente.
Através de pesquisas na área da psicologia ambiental, foi possível constatar que privação de visão para o exterior está associada a níveis mais elevados de tensão e ansiedade nos usuários de edifícios não residenciais. Se o ambiente construído estabelecer diálogaos com a complexidade do mundo natural, os sistemas sensoriais de uma pessoa podem ser solicitados a explorar o espaço interno do objeto construído, estimulando a função cognitiva através do apelo visual.
A necessidade humana de contato com o ambiente natural, no qual se inclui a luz do dia, se confirmou ao longo da pesquisa quando foram encontrados indícios de satisfação dos usuários nos dois edifícios analisados. No caso do Centro Cultural Britânico, mesmo com os espaços de trabalho não diretamente conectados ao átrio, os usuários relatam sua presença como agradável e têm satisfação em ocupar o edifício. Já no Tribunal Trabalhista Ruy Barbosa, onde a frequência dos usuários está ligada a solução de litígios, a praça (como Tozzi chamou o vazio central) e a altura do poço certamente contribuem para aliviar tensões.
Pode-se constatar a tendência de que a incorporação da luz natural em edifícios não residenciais através do espaço do átrio tende a se verificar tanto em novos projetos como em reformas e adequações de edifícios existentes. Os exemplos do escritório de Norman Foster (citados no Capitulo 2), comprometido com a
Green agenda, é referência do potencial formal e ambiental do uso no átrio. A pesquisa também revelou o emprego do átrio como elemento de integração entre um edifício existente e uma nova ala, como no caso de museus que ocupam edifícios de reconhecida qualidade arquitetônica original, cujas atividades demandaram acréscimo de área.
Edifícios que consomem menos energia geram menos poluição e são socialmente mais responsáveis tendem a nortear as escolhas dos arquitetos
contemporâneos. A disponibilização de mecanismos de interface com controle eletro/eletrônico responsivos à luz, para problemas acentuados pela entrada de luz solar direta (questões térmicas, de ofuscamento de visão, etc.), têm potencial para transformar aspectos adversos em soluções arquitetonicamente inovadoras e ambientalmente compatíveis com a dinâmica das mudanças que a tecnologia proporciona.
A luz do dia, saudável e estimulante para o sistema humano, desejada independentemente de onde se viva, teve seu lado negro na história quando foi negligenciada em ambientes profissionais. A era pré-fluorescente, quando a iluminação natural regia o projeto, traz referencias para construir o futuro que, com a cololaboração entre arquiteto e tecnologia, por muitas razões, acena com perspectivas brilhantes.
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