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J. Pediatr. (Rio J.) vol.92 número6

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Academic year: 2018

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JPediatr(RioJ).2016;92(6):543---545

www.jped.com.br

EDITORIAL

Maternal

and

neonatal

mortality:

time

to

act

,

夽夽

Mortalidade

materna

e

neonatal:

hora

de

agir

Waldemar

A.

Carlo

e

Colm

P.

Travers

UniversityofAlabamaatBirmingham,DivisionofNeonatology,Birminghan,EstadosUnidos

A taxa de mortalidade materna, infantil e neonatal é uma referência do cuidado materno/fetal e da saúde da sociedade em geral. Esforc¸osglobais para reduzir a mor-talidadematerna, infantileneonatalforamlideradospela Organizac¸ão Mundialde Saúde(OMS) e pelas Nac¸ões Uni-das. A mortalidade materna, infantil e neonataldiminuiu substancialmente em todo omundo, porém asambiciosas reduc¸õesdosObjetivosdeDesenvolvimentodoMilênionão foramatingidas.Amortalidadematernaapresentoureduc¸ão de cerca de 45% da taxa de referência dos Objetivos de DesenvolvimentodoMilênioem1990.1Umemquatrobebês

em todo o mundonasce sem a presenc¸ade umaparteira qualificada. Todos os dias ocorrem óbitos maternos evi-táveis devido a complicac¸ões relacionadas à gravidez ou ao parto.As taxasde mortalidadeinfantildiminuíram em paísesemdesenvolvimento,porémessasreduc¸õesna mor-talidadeforam,em grandeparte, devidasàsreduc¸õesem óbitosporpneumoniaedoenc¸as diarreicasapóso período neonatal,aopassoqueóbitosprecocesrelacionadosà pre-maturidade, asfixia ao nascer e a infecc¸ões diminuíram menos.2Comoconsequência,osóbitosneonatais

represen-tamatualmente44%damortalidadeinfantil,oíndicemais alto.2 Aproximadamente2,8 milhões de bebês em todo o

mundofalecemtodososanosduranteoprimeiromêsapós

DOIserefereaoartigo:

http://dx.doi.org/10.1016/j.jped.2016.08.001

Comocitaresteartigo:CarloWA,TraversCP.Maternaland

neo-natalmortality:timetoact.JPediatr(RioJ).2016;92:543---5.

夽夽VerartigodeRodriguesetal.naspáginas567---73.

Autorparacorrespondência.

E-mail:[email protected](W.A.Carlo).

onascimentoeamaioriadessesbebêsfaleceempaísesem desenvolvimento.2Aampliac¸ãodasintervenc¸ões,que

pro-vousermuitoeficaz,podereduzirsubstancialmenteaperda lamentáveldejovensvidas.

Oartigosobre‘‘Evoluc¸ãotemporaleespacialdastaxas de mortalidade materna e neonatal no Brasil de 1997 a 2012’’, de Rodrigues et al.,3 relata as tendências no

índice de mortalidade maternae na taxa de mortalidade neonatal em uma ampla área geográfica com disparida-dessignificativasna situac¸ãosocioeconômica.Esse estudo destacaqueataxademortalidadematernacontinuou rela-tivamenteconstante durante operíodo doestudo, apesar dosaumentos nataxademortalidadeneonatal. Adicional-mente,importantesdiferenc¸asgeoespaciaisnamortalidade foramdocumentadascomasmaioresreduc¸õesnastaxasde mortalidadeneonatalemregiõescommelhorsituac¸ão soci-oeconômicaemcomparac¸ãocomregiõescomapiorsituac¸ão socioeconômicanoBrasil.Ascomparac¸õesinternacionaisda taxa de mortalidade neonatal são difíceis de interpretar devidoagrandesdiferenc¸asnoregistrodeneonatos,jáque osmenorespesosaonascereasgestac¸õespodemser con-tadoscomoóbitosfetais,independentemente desinaisde vidaapósonascimento.4,5

Os esforc¸os relacionados aos Objetivos de Desenvolvi-mentodoMilênioforamassociadosaumareduc¸ãode∼45%

damortalidadematernaemaisde50%damortalidade neo-nataleinfantil.Areduc¸ãonamortalidadeneonataleinfantil resultouemquase6milhõesdevidassalvasporano. Con-tudo,semelhantementeaosresultadosdoBrasilnoestudo deRodriguesetal.,3essasreduc¸õesnamortalidadematerna

eneonatalforamheterogêneas,comreduc¸õesmenoresou mesmoaumentosnaspopulac¸õesmaisvulneráveis.A maio-riadosóbitosmaternos,neonataiseinfantiséevitávelcom

2255-5536/©2016PublicadoporElsevierEditoraLtda.emnomedeSociedadeBrasileiradePediatria.Este ´eumartigoOpenAccesssob

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544 CarloWA,TraversCP

aimplantac¸ãodeintervenc¸õesmédicasbemcomprovadase eficazes.

Então, o que pode ser feito para reduzir a mortali-dade neonatal e materna? Os dois primeiros dias após o nascimento são responsáveis por mais de 50% de óbitos neonatais,aopassoque aprimeira semanadevida é res-ponsávelpormaisde75%detodososóbitosneonatais.Os óbitosneonatais são mais frequentemente resultantes de asfixiaaonascer,prematuridade,sepseemá-formac¸ão con-gênita.Isso indicaque asintervenc¸õesdevemserfocadas noperíododopartoelogoapósonascimentocombaseno momentodas causas de morte, com alguns esforc¸ospara reduzir os óbitos neonatais estendidos para além da pri-meirasemana após o nascimento.Assim, a OMS fez uma forterecomendac¸ãodecuidadospós-nataisem estabeleci-mentosporpelomenos24horasapósonascimentoecontato pós-natalematé24horasapósonascimentoparaneonatos nascidosemcasa.6Otreinamentoemreanimac¸ãoeem

cui-dadosessenciaiscomrecém-nascidos reduzamortalidade perinataleneonatal.5,7Estimou-sequeaimplantac¸ão

des-ses programaspossa reduziraté ummilhãode óbitospor anocasosejamampliadosemtodoomundo.8Osprogramas

detreinamentoAjudandoBebêsaRespirar[HelpingBabies Breathe] e CuidadosEssenciais para Todo Bebê [Essential Carefor Every Baby] estão disponíveis, porém não foram ampliadosconformenecessário.OnovoprogramaCuidados Essenciaispara Bebês Pequenos [Essential Care for Small Babies]tambémpodereduziróbitosrelacionadosà prema-turidade,atualcausanúmeroumdamortalidade infantil. Esses programas podem ser implantados de modo a ser umadasintervenc¸õescomamelhorrelac¸ãocusto-benefício parareduzir a mortalidade neonatal.9 Além disso,

conta-tospós-nataissãorecomendadosnodia 3(48a72horas), entre os dias 7 a 14 e seis semanas após o nascimento. Iniciativasdesaúdepúblicacomoobjetivodemelhoraro acesso a assistênciamédica e que visam à populac¸ão em maiorrisco deresultados adversos podem reduzir a mor-talidade maternae neonatal. Essas intervenc¸ões incluem visitasdomiciliaresdeagentescomunitáriosdesaúde princi-palmenteemambientesdealtamortalidadeselecionados. As visitasdomiciliares para cuidado neonatal por agentes comunitáriosdesaúdeestãoassociadasàreduc¸ãoda mor-talidadeneonatalem ambientescom recursoslimitados e cuidado em unidades de saúde pouco acessíveis. Agentes desaúdetreinados podemidentificar crianc¸as seriamente doentes.Dados devários estudoscontroladosem ambien-tesde poucoacesso acuidadosem unidades de saúdeno SuldaÁsiaindicamqueocuidadoneonataldomiciliarfeito por agentes comunitários de saúde reduz a mortalidade neonataleperinatal,especialmentenosambientescomas maiorestaxas dereferência demortalidade neonatal.10 A

adoc¸ãodeumapolíticadecuidadoneonataldomiciliar pres-tadoporagentescomunitáriosdesaúdeéjustificadanesses ambientes.

Háumgrandenúmerodeevidênciassobrepacotes efica-zes de cuidadosde intervenc¸ões seletivas de baixo custo eficazes para reduzir a mortalidade neonatal em ambi-entes com recursos limitados, em ambientes de baixa e média renda, que são particularmente apropriados para ampliac¸ão.11 Ensaiosclínicosemgrandeescala

demonstra-rama viabilidadee aeficácia depacotesdeintervenc¸ões parareduzir a mortalidade neonatal.5,11 Na recentesérie

daLancetchamadaTodoRecém-Nascido(EveryNewborn), estimou-sequeenormesbenefíciosdesobrevivência neona-talseriamobtidosapartirdaampliac¸ãodasintervenc¸ões, que consistem em pacotes de cuidados particularmente focados em neonatos pequenos e doentes.5,11 Sob essa

luz, as recomendac¸ões6 da OMS com base nessas

análi-sesproporcionamumimpulsopolíticooportunoemdirec¸ão ao cumprimento das metas demortalidade neonatal após 2015.

A hipotermia neonatal ocorre em até 50% dos neona-tos em ambientes de baixa e média renda e a gravidade da hipotermia está associada a um risco de mortalidade maiorduranteosprimeirossete diasapósonascimento.12

Parareduzirahipotermianeonatal,aOrganizac¸ãoMundial deSaúderecomendaumconjuntodeprocedimentos inter-ligados denominados‘‘cadeia decalor’’ a seremseguidos apósonascimento.Asintervenc¸õesincluemsalasdeparto aquecidas,secagemimediata,contatopeleapeletão con-tinuamentequantopossível,amamentac¸ãoprecoce,banho epesagempostergados,agasalhosadequados,mãeebebê juntos, transporte de calor, ressuscitac¸ão por calor, jun-tamentecom treinamentoe conscientizac¸ão dosriscosde hipotermia.Ométodomãe-canguru,ummétododecontato peleapele,promoveaamamentac¸ão,reduzahipotermia, amortalidadeneonatal,asepseeotempodeinternac¸ãona altaouem40semanasemprematuroseneonatoscombaixo peso aonascer(BPN)emcomparac¸ãocomcuidados hospi-talaresconvencionais.13Váriasaplicac¸ões(diariamentepor

7a10dias)declorexidinanocordãoumbilicalpodem redu-ziroriscodemortalidadeneonataleonfaliteemneonatos nascidos em casa em ambientes de mortalidade neonatal elevada(30 oumaismortesneonataisa cada1.000 nasci-dosvivos)14eérecomendadapelaOMS.Contudo,provas

insuficientes para recomendar essa intervenc¸ão em neo-natos nascidosem unidades de saúde e/ou ambientes de mortalidade neonatalmenor.Estudos observacionais suge-remqueamortalidadehospitalaremneonatosprematuros podeser reduzida com a implantac¸ão depressão positiva contínuadasviasaéreas,compatívelcomdadosdeensaios clínicos controlados e randomizados feitos em ambientes commuitosrecursos.15Evidênciasdeestudosrandomizados

eobservacionaisindicamqueaadministrac¸ãointramuscular derotinade1mgdevitaminaKnonascimentoreduz hemor-ragia por deficiência de vitamina K durante a infância.16

Amplasevidênciasdeambientesdealtarendaindicamque a terapia de reposic¸ão de surfactante reduz a mortali-dade e vazamentos de ar17 e a terapia surfactante pode

reduziramortalidadeneonatalevazamentosdearem ambi-entes com poucos recursos também. Alguns estudos que testaramterapiasemambientescompoucosrecursoscom eficácia comprovada em ambientes com muitos recursos tiveramresultadosdecepcionantes.Porexemplo,umgrande ensaiorandomizadocontroladoemblocosdeadministrac¸ão de corticosteroides pré-natais em países com recursos limitadosnãomostrouumbenefíciodesobrevidaentre neo-natosprematurosexpostosacorticosteroidespré-nataisea exposic¸ãofoiassociadaaumaumentodoriscodeinfecc¸ão materna.18

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Maternalandneonatalmortality 545

emtodoomundoeapresentoureduc¸ãoemtodasasregiões da OMS.1 As principais causas de mortes maternas são

hemorragia pós-parto, hipertensão e eclâmpsia induzidos porpré-eclâmpsia/gravidezeinfecc¸ões,todasasquaissão em grandeparte evitáveis com intervenc¸õescomprovadas e eficazes. As estratégiasbem-sucedidas que reduziram a mortalidade materna em ambientes com poucos recursos até o momento incluíram investimento no transporte e acesso ao cuidado,19 bem como investimento em terapia

antirretroviralem paísescomaltaprevalênciadovírus da imunodeficiência humana.20 O acesso a servic¸osde saúde

maternoseinfantisfoimelhoradoaoseabriremcentrosde saúde24horaspordiaeaoseacrescentaremmaternidades e salas de parto em centros de saúde.21 O aumento do

número de parteiras qualificadas também foi associado a reduc¸õesnoíndicedemortalidadematerna.21Programasde

treinamentonacionaisaumentaramaquantidadede partei-raseagentescomunitáriosdesaúdetreinadosdisponíveis, principalmenteemáreascarentes,pormeiodealocac¸ãoe incentivo direcionados.21 Esforc¸oscontínuosdepesquisae

dadosmelhorados sãonecessários paradeterminar formas com bom custo-benefício para ampliar intervenc¸ões que podemreduzira mortalidade maternaem ambientes com poucosrecursos.

Em resumo, conforme relatado no Brasil, apesar das principais reduc¸ões na mortalidade, os Objetivos de Desenvolvimento do Milênio na reduc¸ão da mortalidade maternaeneonatalnãoforamatingidos,principalmentenas populac¸õesmaisvulneráveisaoredordomundo.Osdados geoespaciaisetemporaispodemajudaraidentificarasáreas maisvulneráveis queprecisam principalmente de cuidado materno e neonatalmelhorados. Conformedeclarado por GabrielaMistral,ganhadoradoprêmioNobel,‘‘somos cul-padosdemuitoserrosemuitasfalhas,masnossopiorcrime éabandonar ascrianc¸as,desprezandoafontedavida’’.É horadeagirparaampliarasintervenc¸õesefetivas compro-vadamenteeficazesecombomcusto-benefício.

Conflitos

de

interesse

O Dr. Waldemar A. Carlo é membro do Conselho de Administrac¸ãodaMednax.ODr.ColmP.Traversdeclaranão haverconflitosdeinteresse.

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