UNIVERSIDADE FEDERAL DE SANTA CATARINA Centro de Ciˆencias F´ısicas e Matem´aticas
Curso de Licenciatura em Matem´atica
TEOREMA DA DECOMPOSIC
¸ ˜
AO PRIM ´
ARIA
Autora: M´arian Concei¸c˜ao
Orientador: Prof. Dr. Aldrovando Lu´ıs Azeredo Ara´ujo Florian´opolis
M ´ARIAN CONCEIC¸ ˜AO
Teorema da Decomposi¸c˜
ao Prim´
aria
Trabalho acadˆemico de gradua¸c˜ao apresentado `a disciplina Trabalho de Conclus˜ao de Curso II, do Curso de Matem´atica - Habilita¸c˜ao Licenciatura, do Centro Ciˆencias F´ısicas e Matem´aticas da Universidade Federal de Santa Catarina
Professora: Carmen Suzane Comitre Gimenez
Florian´opolis Agosto 2006
Agradecimentos
Quero agradecer `a todos que contribu´ıram para a concretiza¸c˜ao deste traba-lho e tamb´em para o encerramento do meu curso de gradua¸c˜ao. Primeira-mente `a meus pais, M´ario e Madalena, que sempre me apoiaram e continuam acreditando em mim. `A meu professor e orientador, Aldrovando Luis, pela sua paciˆencia, estando ao meu lado nas minhas horas dif´ıceis, mostrando ser um verdadeiro amigo. Ao professor Rafael Casali pelas contribui¸c˜oes na digita¸c˜ao do trabalho em latex. Ao professor Rubens Starke, pelo exemplo de car´ater e pelas palavras de incentivo no decorrer do curso. Aos colegas de curso que estiveram ao meu lado e aqueles que me abandonaram no meio do caminho, pois, ajudaram no meu crescimento pessoal.
Sum´
ario
1 Espa¸cos Vetoriais 7
1.1 Defini¸c˜ao de Espa¸co Vetorial . . . 7
1.2 Independˆencia Linear e Bases . . . 9
1.3 Somas de Subespa¸cos Vetoriais . . . 9
1.4 Cn e complexifica¸c˜ao de um espa¸co vetorial real . . . . 11
2 Transforma¸c˜oes Lineares 14 2.1 Transforma¸c˜oes Lineares . . . 14
2.2 N´ucleo e Imagem de uma Transforma¸c˜ao Linear . . . 15
2.3 Isomorfismos . . . 17
2.4 Matriz de uma Transforma¸c˜ao Linear . . . 19
2.5 Operadores Lineares . . . 20
3 Teorema da Decomposi¸c˜ao Prim´aria 26 3.1 Subespa¸cos Invariantes . . . 26
3.2 Autovalores e autovetores . . . 28
3.3 Operadores Irredut´ıveis . . . 32
3.4 Teorema da Decomposi¸c˜ao Prim´aria . . . 39
3.5 Aplica¸c˜oes do Teorema . . . 44
Introdu¸c˜
ao
A ´Algebra Linear ´e uma ´area da matem´atica imprescind´ıvel `a in´umeras ou-tras. ´E t˜ao importante que nos cursos de bacharelado da maioria das Uni-versidades brasileiras seus conte´udos s˜ao apresentados em duas disciplinas. A primeira ´e introdut´oria e se dedica aos conceitos fundamentais necess´arios para o core da teoria que ´e apresentado num segundo semestre. Esta segunda parte, essencialmente se reduz ao estudo dos operadores lineares em espa¸cos de dimens˜ao finita e suas represent˜a¸c˜oes matriciais, que ´e normalmente de-notado por formas canˆonicas. Esta parte da teoria ´e requisito b´asico para outras disciplinas como por exemplo a ´Analise Real de Fun¸c˜oes de V´arias Vari´aveis, Equa¸c˜oes Diferenciais Ordin´arias e Parcias, C´alculo de Fun¸c˜oes de V´arias Vari´aveis etc. ´E dif´ıcil imaginar alguma disciplina que n˜ao use conceitos fundamentais da ´algebra linear.
Sendo aluna de licenciatura, durante meu curso n˜ao tive a oportunidade de ver esta parte final da ´algebra linear. Decidi fazer meu trabalho, por-tanto, sobre algumas destas id´eias, mais especificamente, o extraordin´ario teorema conhecido como Teorema da Decomposi¸c˜ao Prim´aria, primeiro e fundamental passo na constru¸c˜ao das formas canˆonicas. Conversando com meu orientador, soube que ele conhecia uma prova geom´etrica deste teo-rema, inexistente na literatura e que seria um trabalho bem interessante apresent´a-la `a comunidade. Este, ´e em resumo, o objetivo e conte´udo de meu trabalho: conhecer a teoria e os argumentos envolvidos na constru¸c˜ao das formas canˆonicas dos operadores lineares em espa¸cos vetoriais de di-mens˜ao finita e apresentar uma vers˜ao geom´etrica elegante do teorema da decomposi¸c˜ao prim´aria.
No primeiro e segundo cap´ıtulos apresentamos os conceitos b´asicos ne-cess´arios da teoria da ´algebra linear, respectivamente espa¸cos vetoriais e e conceitos gerais sobre transforma¸c˜oes lineares. No terceiro cap´ıtulo introdu-zimos a no¸c˜ao de subespa¸co invariante e a partir da´ı desenvolvemos a teoria que leva ao teorema da decomposi¸c˜ao prim´aria. A demonstra¸c˜ao deste teo-rema ´e puramente geom´etrica e n˜ao se encontra na literatura, ao menos na literatura que meu orientador conhece. O argumento principal ´e usual em sistemas dinˆamicos e consiste em obter o subespa¸co invariante procurado como o ponto fixo de uma aplica¸c˜ao de gr´afico. O argumento ´e muito seme-lhante a prova do teorema da variedade est´avel para difeomorfismos de uma
variedade .
N˜ao ´e do escopo deste trabalho apresentar resultados sobre operadores agindo em espa¸cos com produto interno. Em particular, nada ´e mencionado sobre o teorema espectral ou resultados equivalentes, apesar de importˆancia dos mesmos. Optamos por uma ´algebra linear que prescinde da defini¸c˜ao de determinante, o que torna algumas defini¸c˜oes como a de polinˆomio carac-ter´ıstico e outras, mais complicadas. No entanto, outros conceitos e provas ganham uma nova luz com este approach que consideramos compensar as desvantagens.
Quanto a nota¸c˜ao, gostar´ıamos de observar que todas as provas terminam com um quadrado sem preenchimento, nota¸c˜ao esta adotada pela AMS, que facilita ao leitor saber onde termina o argumento da prova.
Cap´ıtulo 1
Espa¸cos Vetoriais
1.1
Defini¸c˜
ao de Espa¸co Vetorial
Defini¸c˜ao 1.1 (Espa¸co vetorial ) Um conjunto V ´e um espa¸co vetorial sobre um corpo K, que no nosso caso ser´aRou C, se existem duas opera¸c˜oes definidas sobre os elementos deste conjunto, que denominaremos por abuso de nota¸c˜ao de adi¸c˜ao e multiplica¸c˜ao por um escalar do corpo K. Estas duas opera¸c˜oes
E × E → E (u, v) → u + v
K × E → E (a, v) → a ∗ v devem satisfazer o seguinte conjunto de propriedades:
• (Associatividade da soma)(u + v) + w = u + (v + w) para todo u, v e w em E.
• (Comutatividade da soma) u + v = v + u para todo u e v ∈ E. • (Existˆencia de neutro aditivo) H´a um elemento 0 ∈ E, tal que u + 0 =
u para todo u ∈ E.
• (Existˆencia de inverso aditivo) Para todo elemento v ∈ E h´a um ele-mento u ∈ E tal que u + v = O.
• a ∗ (b ∗ u) = (a · b) ∗ u para a, b ∈ K e u ∈ E.
• Se e ∈ K ´e a unidade de F , e ∗ u = u para todo u ∈ E. • a ∗ (u + v) = a ∗ u + a ∗ vpara a ∈ K e todo u, v ∈ E. • (a + b) ∗ u = a ∗ u + b ∗ u para para todo a, b ∈ K e u ∈ E.
vetores. J´a os elementos do corpo s˜ao chamados de escalares. A opera¸c˜ao de soma ser´a denotada por soma de vetores e a opera¸c˜ao de multiplica¸c˜ao ser´a denotada por multiplica¸c˜ao por escalar. Como exemplo de espa¸cos vetorias podemos citar:
Exemplo 1.1. Rn = {(x
1, x2, · · · , xn) : x1, x2, · · · , xn ∈ R} com as
opera¸c˜oes usuais a saber
(x1, x2, · · · , xn) + (y1, y2, · · · , yn) = (x1+ y1, x2+ y2, · · · , xn+ yn) e
λ ∗ (x1, x2, · · · , xn) = (λx1, λx2, · · · , λxn)
onde λ denota um elemento de R . Exemplo 1.2. Cn= {(z 1, z2, · · · , zn) : z1, z2, · · · , zn∈ C} com as opera¸c˜oes usuais a saber (z1, z2, · · · , zn) + (w1, w2, · · · , wn) = (z1+ w1, z2+ w2, · · · , zn+ wn) e λ ∗ (z1, z2, · · · , zn) = (λz1, λz2, · · · , λzn)
onde λ denota um elemento de C .
Exemplo 1.3. Pm = {p(x) = amxm+ · · · a
1x + a0| a0, a1, a2, · · · , am ∈ R}
com as opera¸c˜oes usuais a saber
[p + q](x) = p(x) + q(x)) e λ ∗ p(x) = λp(x) onde λ denota um elemento de R .
Defini¸c˜ao 1.2 Seja E ´e um espa¸co vetorial. Um subconjunto F ⊂ E ´e um subespa¸co vetorial se F ´e fechado sob as opera¸c˜oes de adi¸c˜ao e de multiplica¸c˜ao por escalar em E; a saber, para todo v, u ∈ F e λ ∈ K
u + v ∈ F, λ ∗ u ∈ W.
Segue que com estas opera¸c˜oes F satisfaz as 8 propriedades de espa¸co vetorial e portanto, F ´e tamb´em um espa¸co vetorial sobre K. Se F cont´em apenas o 0 escrevemos F = 0 e dizemos que F ´e o subespa¸co trivial. Se F 6= E dizemos que F ´e um subespa¸co pr´oprio de E.
Defini¸c˜ao 1.3 Dados um subconjunto de vetores de um espa¸co vetorial, {u1, u2, · · · , uk} ∈ E e escalares λ1, λ2, · · · λk ∈ K ao vetor
λ1u1+ λ2u2+ · · · + λkuk∈ E
Defini¸c˜ao 1.4 Um subconjunto S = {u1, u2, · · · , uk} ∈ E ´e um
com-junto gerador (gera E) se todo vetor em E ´e uma combina¸c˜ao linear de u1, u2, · · · , uk; isto ´e, para todo u ∈ E existem escalares λ1, λ2, · · · λk tais que
u = λ1u1+ λ2u2+ · · · + λkuk.
1.2
Independˆ
encia Linear e Bases
Defini¸c˜ao 1.5 Dizemos que um subconjunto S = {u1, u2, · · · , uk} ⊂ E ´e
linearmente independente se para todo λ1, λ2, · · · λk∈ K com
λ1u1+ λ2u2+ · · · + λkuk= 0 ent˜ao, λ1 = 0, λ2= 0, · · · λk= 0.
Defini¸c˜ao 1.6 Uma base de E ´e um conjunto ordenado de vetores de E que ´e linearmente independente e gerador.
Proposi¸c˜ao 1.1. Todo espa¸co vetorial E tem uma base, e toda base de E tem o mesmo n´umero de elementos. Se {u1, u2, · · · , uk} ⊂ E ´e linearmente
independente mas n˜ao ´e uma base, ent˜ao, sempre podemos acrescentar um conjunto adequado de vetores {uk+1, uk+2, · · · , un} para formar uma base {u1, u2, · · · , un}
O n´umero de elementos em uma base de E ´e chamado a dimens˜ao de E, e se denota por dim E. Se S = {u1, u2, · · · , un} ´e uma base de E, ent˜ao,
todo vetor u ∈ E pode ser expresso como u =
n
XXX
i=1
λivi λi ∈ R,
j´a que o conjunto S gera E. Al´em disso, os escalares λ1, λ2, · · · λns˜ao ´unicos
o que decorre facilmente da independˆencia linear do conjunto S. Os escalares
λ1, λ2, · · · λn s˜ao chamados de coordenadas de u na base u1, u2· · · , un. A
base canˆonica de Rn ε = {e
1, e2, · · · , en} ´e definida por
e1= (0, · · · , 0, 1, 0, · · · , 0) i = 1, · · · , n,
onde tem-se 1 na i-´esima posi¸c˜ao e 0 nas demais.
1.3
Somas de Subespa¸cos Vetoriais
Defini¸c˜ao 1.7 Em um espa¸co vetorial E, definimos a soma dos seus su-bespa¸cos F e G, denotada por F + G, como o conjunto de todos os vetores da forma v = u + w, onde u ∈ F e w ∈ G, isto ´e:
Proposi¸c˜ao 1.2. Se F e G s˜ao subespa¸cos de um espa¸co vetorial E, ent˜ao, a soma F + G ´e um subespa¸co de E.
Prova. Se v, v0 ∈ F + G existem u, u0∈ F , w, w0∈ G tais que v = u + w e
v0 = u0+ w0. Como F e G s˜ao subespa¸cos vetoriais, segue que, u + u0∈ F
e w + w0 ∈ G. Logo,
v + v0 = (u + w) + (u0+ w0) = u + u0+ w + w0∈ F + G.
Al´em disso, se λ ∈ K λu ∈ F e λw ∈ G. Logo,
λv = λ(u + w) = λu + λw ∈ F + G,
provando assim que F + G ´e um subespa¸co vetorial.
Defini¸c˜ao 1.8 Em um espa¸co vetorial E, definimos a interse¸c˜ao dos su-bespa¸cos de F e G, denotada por F ∩G, como o conjunto de todos os vetores pertencentes a ambos os subespa¸cos, isto ´e:
F ∩ G = {v : v ∈ F ; v ∈ G}
Proposi¸c˜ao 1.3. Se F e G s˜ao subespa¸cos de um espa¸co vetorial E, ent˜ao, a interse¸c˜ao F ∩ G ´e um subespa¸co de E.
Prova. Se v, v0 ∈ F ∩ G e λ ∈ K ent˜ao, v, v0 ∈ F e F sendo subespa¸co
vetorial segue que v + v0 ∈ F e λv ∈ F . Do mesmo modo como v, v0 ∈ Gtem-se que v + v0 ∈ G e λv ∈ G. Logo, v + v0∈ F ∩ G e λv ∈ F ∩ G.
Defini¸c˜ao 1.9 Se F e G s˜ao subespa¸cos de um espa¸co vetorial E, definimos a soma direta de F e G, denotada por F ⊕ G, como o conjunto de todos os vetores que podem ser escritos de uma forma ´unica como v = u + w, onde u ∈ F e w ∈ G.
Teorema 1.1. Sejam F e G subespa¸cos de um espa¸co vetorial E. E = F ⊕G se, e somente se,
E = F + G e F ∩ G = {0}.
Prova. Se E = F ⊕G ent˜ao, sabemos que dado v ∈ E existem ´unicos u ∈ F e w ∈ G tais que v = u + w. Segue que E = F + G. Seja agora v ∈ FTG,
ent˜ao, v = 0 + v ∈ F + G e v = v + 0 ∈ G + V . Como cada vetor de E pode ser escrito de forma ´unica como soma de um vetor de F com um de G segue que v = 0, isto ´e, F ∩ G = {0}.
Para provar a rec´ıproca, suponhamos que E = F + G e que F ∩ G = {0}. Se v ∈ E ent˜ao, existem u ∈ F e w ∈ G tais que v = u + w. Se v = u0+ w0 com u0∈ F e w0∈ G ent˜ao,
0 = v − v = (u + w) − (u0+ w0) ⇒ u − u0= w0− w.
Segue que u + u0 ∈ F ∩ G. Como F ∩ G = {0}, u − u0 = 0 isto ´e u = u0. Do
mesmo modo conclu´ımos que w = w0, isto ´e, que a representa¸c˜ao ´e ´unica provando assim que E = F ⊕ G.
Lema 1.1. Sejam F e G subespa¸cos de um espa¸co vetorial E, tais que
E = F ⊕ G.
Ent˜ao, se α = {u1, u2, · · · , uk} e β = {uk+1, uk+2, · · · , uk+r} s˜ao bases de F e G respectivamente ent˜ao,
γ = {u1, u2, · · · , uk, uk+1, uk+2, · · · , uk+r}
´e uma base de E.
Exemplo 1.4. Seja E o espa¸co vetorial das matrizes quadradas reais de ordem 2, S o subespa¸co de E das matrizes sim´etricas, isto ´e, as matrizes da forma: S = " x y y z #
e T o subespa¸co de E das matrizes anti-sim´etricas, que tˆem a forma geral:
T = " 0 w −w 0 # Assim, E = S ⊕ T , pois, E = S + T e S ∩ T = {0}.
Generalizando, tem-se que toda matriz quadrada de n´umeros reais de ordem n, pode ser decomposta de forma ´unica, como soma de uma matriz sim´etrica e uma matriz anti-sim´etrica.
Se M ´e uma matriz quadrada arbitr´aria de ordem n, ent˜ao, ´e poss´ıvel obter uma matriz sim´etrica M0 e uma matriz anti-sim´etrica M00 dadas por:
M0 =1
2(M + M
t) e M00=1
2(M − M
t)
de modo que existe uma decomposi¸c˜ao ´unica para M , isto ´e, M = M0+ M00.
1.4
C
ne complexifica¸c˜
ao de um espa¸co vetorial
real
Dadas as limita¸c˜oes alg´ebricas do corpo dos n´umeros reais, temos que muitas vezes, ao estudarmos operadores em espa¸cos vetoriais reais, estendˆe-los ao chamado complexificado deste espa¸co.
Cn ´e o espa¸co das n-uplas (z
1, z2, . . . , zn) de n´umeros complexos com
as opera¸c˜oes usuais de soma de n-uplas e de multiplica¸c˜ao de n-uplas com numeros complexos.
(z1, z2, . . . , zn) + (w1, w2, . . . , wn) = (z1+ w1, z2+ w2, . . . , zn+ wn) λ(z1, z2, . . . , zn) = (λz1λz2, . . . , λzn).
Observe que podemos considerar Rn ⊂ Cn pela identifica¸c˜ao de Rn com
o vetores de Cn (z
1, z2, . . . , zn) onde z1, z2, . . . , zn ∈ R. Seja agora F um
subespa¸co complexo de Cn . Ent˜ao,
FR= F ∩ Rn
´e o conjunto das n-uplas (z1, z2, . . . , zn) que est˜ao em F e s˜ao reais. ´E f´acil
ver que FR´e fechado relativamente as opera¸c˜oes de soma e de multiplica¸c˜ao por n´umeros reais. Deste modo FR ´e um espa¸co real ou um subespa¸co de
Rnse usarmos a identifica¸c˜ao mencionada acima.
Consideremos agora, a rec´ıproca. Seja E ⊂ Rn um subespa¸co de Rn, e
seja EC definido por
EC= {z ∈ Cn :
k
X
j=1
cjzj, zj ∈ E, cj ∈ C}. E ´e claramente um subespa¸co complexo de Cn . E
C´e denominado de com-plexificado de E. Observe que
(EC)R= E.
Dado um n´umero complexo z = x + iy define-se o conjugado de z por ¯
z = x − iy. Usando a fun¸c˜ao
σ : C −→ C z 7−→ ¯z,
se escreve ¯z = σ(z). Observe que σ2 = σ e que o conjunto dos pontos fixos
de σ ´e exatamente o conjunto dos n´umeros reais em C . A fun¸c˜ao σ pode ser estendida para Cn como:
σ : Cn −→ Cn
(z1, z2, . . . , zn) 7−→ (¯z1, ¯z2, . . . , ¯zn).
Para esta extens˜ao o conjunto dos pontos fixos ´e Rn.
Lema 1.2. Seja F um subespa¸co de Cn. Ent˜ao, FR= {z ∈ F : σ(z) = z}.
Lema 1.3. Seja F um subespa¸co de Cn . Ent˜ao, existe E ⊂ Rn tal que
F = EC se e somente se σ(F ) ⊂ F.
Prova. Suponhamos que F = EC para algum E ⊂ Rn. Ent˜ao, dado z ∈ F
existem λ1, λ2, . . . , λr∈ C e z1, z2, . . . , zr ∈ Rn, tais que z = λ1z1+ λ2z2+ · · · + λrzr. Ent˜ao,
σ(z) =σ(λ1z1+ λ2z2+ · · · + λrzr) =
=σ(λ1)σ(z1) + σ(λ2)σ(z2) + · · · + σ(λr)σ(zr)
pois, σ(zi) = zi j´a que zi ∈ Rn para 1 ≤ i ≤ r.
Reciprocamente, seja F ⊂ Cnsubespa¸co de Cntal que σ(F ) ⊂ F . Ent˜ao,
z = x + iy ∈ F com x, y ∈ Rn. Como σ(z) ∈ F e σ(z) = σ(x + iy) = x − iy segue que
x = 1
2[(x + iy) + (x − iy) ∈ F. O mesmo vale para y. Logo, F = (FR)C.
No caso geral de um espa¸co vetorial abstrato sobre o corpo do reais a mesma teoria feita agora se aplica.
Defini¸c˜ao 1.10 Seja E um espa¸co vetorial de dimens˜ao finita sobre o corpo R. Ent˜ao, a complexifica¸c˜ao de E ´e o conjunto
EC= {u + iv : u, v ∈ E}
com as opera¸c˜oes
u1+ iv1+ u2+ iv2= (u1+ u2) + i(v1+ v2),
e
(a + ib) ∗ (u + iv) = (au − bv) + i(av + bu).
Lema 1.4. O conjunto EC dotado com as opera¸c˜oes definidas acima ´e um
espa¸co vetorial sobre o corpo C.
Podemos pensar E como um subconjunto de EC, identificando E com o
conjunto
{u + i0 : u ∈ E} ⊂ EC.
Nestas condi¸c˜oes ´e f´acil ver que qualquer base de E ´e uma base de EC, e portanto, a dimens˜ao de E como espa¸co vetorial real ´e igual a dimens˜ao de
Cap´ıtulo 2
Transforma¸c˜
oes Lineares
2.1
Transforma¸c˜
oes Lineares
Sejam E, F espa¸cos vetoriais de dimens˜ao finita sobre um corpo K onde
K = R ou K = C.
Defini¸c˜ao 2.1 Uma fun¸c˜ao T : E → F ´e uma transforma¸c˜ao linear se 1. T (u + v) = T (u) + T (v) para ∀u, v ∈ E
2. T (λv) = λT (v) para ∀λ ∈ K, v ∈ E
Exemplo 2.1. Seja T : E → F definida por T (v) = 0 Exemplo 2.2. Seja T : E → E definida por T (v) = v
Exemplo 2.3. Seja E = Pn(R)=espa¸co dos polinˆomios de grau menor ou
igual a n com coeficientes reais. Ent˜ao, defina o operador
D : Pn(R) → Pn(R) por D(p) = p0 onde
D(a0+ a1x + · · · + anxn) = a1+ 2a2x + · · · + nanxn−1
O fato desta transforma¸c˜ao ser linear ´e uma consequˆencia b´asica das propriedades da diferencia¸c˜ao, a saber:(f + g)0 = f0 + g0 e (λf )0 = λf0
sempre que f, g forem fun¸c˜oes diferenci´aveis e λ ∈ R. Lema 2.1. Se T : E → F ´e linear ent˜ao, T (0) = 0 Prova. T (0) = T (2 ¦ 0) = 2T (0) ⇒ T (0) = 0
Se {v1, · · · , vn} ´e uma base de E e T : E → F ´e uma transforma¸c˜ao
linear ent˜ao, dado v ∈ E v se escreve de modo ´unico como v = a1v1+ · · · + anvn.
Logo,
T (v) = T (a1v1+ · · · + anvn) = a1T (v1) + · · · + anT (vn).
Em particular, os valores T (v1) + · · · + T (vn) determinam os valores de T
em um vetor arbitr´ario v ∈ E. Segue que uma transforma¸c˜ao linear fica completamente definida quando especificamos seus valores em uma base de
E.
Denotamos por L (E, F ) o conjunto das transforma¸c˜oes lineares de E em F . Podemos atribuir uma estrutura de espa¸co vetorial a L (E, F ) via: Se T, S ∈ L (E, F ) e λ ∈ K
(T + S)(v) = T (v) + S(v) (λT )(v) = λT (v)
T + S e λT s˜ao claramente elementos de L (E, F ).
Quando E = F os elementos de L (E, E), denotado por L (E), s˜ao denomi-nados de operadores lineares e uma opera¸c˜ao de produto pode tamb´em ser definida.
(T · S)(v) = T (S(v)
T · S ´e apenas a composi¸c˜ao T ◦ S dos dois operadores. A nota¸c˜ao usada
ser´a no entanto, T S.
Lema 2.2. Se T, S, R ∈ L (E) e I denota o elemento identidade de L (E) ent˜ao, vale
1. (T S)R = T (SR) 2. T I = IT = T
3. (T + S)R = T R + SR
O produto dos operadores no entanto, n˜ao ´e comutativo. Denotamos por
Tno operador
Tn=
n vezes
z }| {
T · T · · · T .
2.2
N´
ucleo e Imagem de uma Transforma¸c˜
ao
Li-near
Defini¸c˜ao 2.2 Se T ∈ L (E, F ) ent˜ao, o n´ucleo de T , que denotamos por N (T ) ´e o subconjunto
N (T ) = {v ∈ E | T (v = 0}
e a imagem de T que denotamos por Im(T ) ´e o subconjunto Im(T ) = {T (v) ∈ F | v ∈ E}.
Lema 2.3. Se T ∈ L (E, F ) ent˜ao, N (T ) ´e um subespa¸co de E e Im(T ) ´e um subespa¸co de F .
Prova. Se u, v ∈ N (T ) e λ ∈ K ent˜ao, T (u) = 0 e T (v) = 0. Logo,
T (u + v) = T (u) + T (v) = 0 + 0 = 0 e T (λu) = λT (u) = λ0 = 0
provando que u + v ∈ N (T ) e λu ∈ N (T ).
Agora se w, z ∈ Im(T ) ent˜ao, existem u, v ∈ E tais que T (u) = w e
T (v) = z. Assim
T (u + v) = T (u) + T (v) = w + z isto ´e w + z ∈ Im(T ).
Finalmente se w ∈ Im(T ) e λ ∈ K existe u ∈ E tal que T (u) = w. Mas
T (λu) = λT (u) = λw, isto ´e λw ∈ Im(T ), terminando assim a prova do lema.
Teorema 2.1. Se T ∈ L (E, F ) ent˜ao,
dim E = dim N (T ) + dim Im(T )
Prova. Seja {u1, . . . , ur} uma base de N (T ). Pela Proposi¸c˜ao (1.1)
pode-mos estender {u1, . . . , ur} a uma base de E, isto ´e existem {w1, . . . , ws} ⊂ E
tais que
{u1, . . . , ur, w1, . . . , ws}
forma uma base de E. Em particular, dim E = r + s. A prova do teorema estar´a terminada se provarmos que T (w1), . . . , T (ws) ´e uma base de Im(T ).
Seja v ∈ Im(T ). Ent˜ao, existe u ∈ E tal que
T (u) = v.
Mas u = a1u1+ · · · + arur+ b1w1+ · · · + bsws. Logo,
v =T (u) = T (a1u1+ · · · + arur+ b1w1+ · · · + bsws) =
=a1T (u1) + · · · + arT (ur) + b1T (w1) + · · · + bsT (ws) = =b1T (w1) + · · · + bsT (ws)
pois, T (ui) = 0 para ∀ 1 ≤ i ≤ r uma vez que ui ∈ N (T ). Segue que T (w1), . . . , T (ws) ´e um conjunto gerador de Im(T ).
Para provarmos que T (w1), . . . , T (ws) ´e um conjunto linearmente
inde-pendente, suponha que
c1T (w1) + · · · + csT (ws) = 0.
Ent˜ao,
e portanto, c1w1 + · · · + csws ∈ N (T ). Mas {u1, . . . , ur} ´e uma base de N (T ). Logo, existem d1, . . . , dr∈ K tais que
c1w1+ · · · + csws= d1u1+ · · · + drur
isto ´e
c1w1+ · · · + csws− d1u1− · · · − drur = 0. Como {u1, . . . , ur, w1, . . . , ws} ´e uma base de E, segue que,
c1= c2= . . . = cs= d1= d2 = . . . = dr = 0.
Em particular, c1 = c2 = . . . = cs = 0 provando que T (w1), . . . , T (ws) s˜ao
linearmente independentes.
Lema 2.4. Se T ∈ L (E, F ) ent˜ao, T ´e injetivo se e somente se N (T ) = 0. Prova. ⇒ Se N (T ) 6= {0} ent˜ao, existe u ∈ N (T ) u 6= 0. Mas ent˜ao,
u 6= 0 e T (u) = T (0) = 0 provando que T n˜ao ´e injetivo.
⇐ Sejam u, v ∈ E tais que T (u) = T (v). Ent˜ao, T (u) − T (v) = 0 =⇒ T (u − v) = 0
isto ´e u − v ∈ N (T ). Como N (T ) = {0} segue que, u − v = 0 e assim u = v provando que T ´e injetiva.
2.3
Isomorfismos
Defini¸c˜ao 2.3 Uma transforma¸c˜ao linear T ∈ L (E, F ) chama-se invers´ıvel quando existe S ∈ L (F, E) tal que
T S = I|E e ST = I|F.
Diz-se, ent˜ao, que T ´e uma bije¸c˜ao linear entre E e F ou mais apropria-damente que T ´e uma isomorfismo e que os espa¸cos vetoriais E e F s˜ao isomorfos. S ´e chamada de inversa de T e denota-se por T−1.
Se T ∈ L (E, F ) e R ∈ L (F, G) s˜ao isomorfismos, ent˜ao, T−1 ∈ L (F, E)
e RT ∈ L (E, G) tamb´em s˜ao isomorfismos. Al´em disso, tem-se que, (RT )−1 = T−1R−1 e para α 6= o, (αT )−1 = 1
αT −1.
Um isomorfismo entre espa¸cos vetoriais transforma toda base de E numa base de F . Reciprocamente, se uma transforma¸c˜ao linear T ∈ L (E, F ) leva uma base de E em uma base de F ent˜ao, T ´e um isomorfismo.
Segue que, dois espa¸cos vetoriais de dimens˜ao finita isomorfos tˆem a mesma dimens˜ao. A rec´ıproca ´e verdadeira, como veremos a seguir.
Lema 2.5. Seja E um espa¸co vetorial de dimens˜ao n sobre K. Fixando uma base β = {u1, . . . , un} de E, podemos definir a transforma¸c˜ao linear
Φβ ∈ L (E, Kn) via,
Φβ : E −→ Kn
u 7−→ (x1, x2, . . . , xn),
onde u = x1u1+ x2u2+ · · · + xnun ´e a representa¸c˜ao (´unica) de u na base
β. Ent˜ao, Φβ ´e um isomorfismo.
Prova. Observe que para 1 ≤ i ≤ n Φβ(ui) = ei onde ² = {e1, . . . , en}
denota a base canˆonica de Kn, a saber,
ei= (0, . . . , 1|{z} i
, . . . , 0).
Assim Φβ transforma a base β de E na base canˆonica de Kn, e portanto,
Φβ ´e um isomorfismo entre E e Kn.
Corol´ario 2.1. Sejam E e F espa¸cos vetoriais sobre K de mesma dimens˜ao. Ent˜ao, E e F s˜ao isomorfos.
Seja T ∈ L (E, F ). Sejam {u1, . . . , un} e {w1, . . . , wm} bases de E e F
respectivamente. Como j´a observamos T est´a completamente determinado pelos valores
T (u1), . . . , T (un).
Mas para cada 1 ≤ i ≤ n podemos escrever T (ui) de modo ´unico como
combina¸c˜ao linear de w1, . . . , wm.
T (u1) = a1iw1+ · · · + amiwm
onde aik∈ K para 1 ≤ k ≤ n. Portanto, os escalares (aij)i,j para 1 ≤ k ≤ m
1 ≤ j ≤ n determinam completamente a transforma¸c˜ao linear T . Seja a matriz A = (aij)i,j de ordem m × n, onde os aij’s s˜ao definidos como acima.
Defini¸c˜ao 2.4 Se α = {u1, . . . , un} e β = {w1, . . . , wm} s˜ao bases de E
e F respectivamente e T ∈ L (E, F ), ent˜ao, a matriz A = (aij)i,j de ordem
m × n, onde os aij’s s˜ao definidos por
T (uk) = a1kw1+ · · · + amkwm
para 1 ≤ k ≤ n, denomina-se de matriz de T nas bases α, β e denota-se por A = [T ]βα.
2.4
Matriz de uma Transforma¸c˜
ao Linear
Sejam os espa¸cos vetoriais Kne Km. Seja A = (aij)i,j uma matriz de ordem m × n com entradas em K. Ent˜ao, a aplica¸c˜ao
S : Kn→ Km definida por S(x1, x2, . . . , xn) = a11 a12 · · · a1n a21 a22 · · · a2n .. . ... . .. ... am1 am2 · · · amn x1 x2 .. . xn
´e uma transforma¸c˜ao linear de Kn em Km, isto ´e S ∈ L (Kn, Km).
Deno-tando x = (x1, x2, . . . , xn) podemos escrever S(x) = Axt.
Observe que
S(x + y) = A(x + y)t= A(xt+ yt) = Axt+ Ayt= S(x) + S(y)
S(λx) = A(λx)t= λAxt= λS(x)
provando que S ∈ L (Kn, Km). Por outro lado se S ∈ L (Kn, Km) ent˜ao,
se
² = {e1, . . . , en}
onde ei = (0, . . . , 1|{z}
i
, . . . , 0) denota o i-´esimo elemento da base canˆonica de Kn, defina a matriz A = (a
ij)i,j por
aij = S(ej)i.
Agora observe que
S(x1, x2, . . . , xn) = S(x1e1+ · · · + xnen) = x1S(e1) + · · · + xnS(en) = x1(a11, . . . , am1) + · · · + xn(a1n, . . . , amn) = (a11x1+ · · · + a1nxn, . . . , am1x1+ · · · + amnxn) = a11 a12 · · · a1n a21 a22 · · · a2n .. . ... . .. ... am1 am2 · · · amn x1 x2 .. . xn
isto ´e
S(x) = Axt.
Segue que, toda S ∈ L (Kn, Km) ´e da forma S(x) = Axt, onde A ´e uma
matriz m × n com entradas em K.
Seja E um espa¸co vetorial de dimens˜ao n. Ent˜ao, se α = {u1, . . . , un} ´e
uma base de E temos o isomorfismo definido no lema (2.5): Φα : E → Kn
Φα(u) = (x1, x2, . . . , xn)
onde u = x1u1+ · · · + xnun.
Lema 2.6. Sejam T ∈ L (E, F ) e α = {u1, . . . , un}, β = {w1, . . . , wm}
bases de E e F respectivamente. Ent˜ao, definindo S por
S(x1, x2, . . . , xn) = Φα◦ T ◦ Φ−1β (x1, x2, . . . , xn)
temos que, S ∈ L (Kn, Km), e portanto, S ´e da forma S(x) = Axt onde
A = [T ]βα.
2.5
Operadores Lineares
Nesta parte final do cap´ıtulo vamos nos restringir `as transforma¸c˜oes lineares de um espa¸co vetorial E sobre ele mesmo, isto ´e, aos elementos T ∈ L (E). Defini¸c˜ao 2.5 Seja T ∈ L (E). Ent˜ao, dizemos que T ´e nilpotente se ∀u ∈ E existe n ∈ N n > 0 tal que Tn(u) = 0.
Exemplo 2.4. Seja o operador linear sobre Rn ou Cn dado por
T (x) = Axt com A = 0 1 0 · · · 0 0 0 1 · · · 0 .. . ... ... . .. ... 0 0 0 · · · 1 0 0 0 · · · 0 .
Ent˜ao, ´e f´acil ver que Tn= 0, e portanto, T ´e nilpotente.
Lema 2.7. Sejam N ∈ L (E) nilpotente. Ent˜ao, existe 0 < k ≤ dim(E) tal que Nk= 0.
Prova. Seja 0 6= u ∈ E. Como N ´e nilpotente existe m > 0
Nm(u) = 0.
Tome k = inf{j > 0 : Nj(u) = 0}. Logo, se j < k sabemos que Nj(u) 6= 0. Seja o conjunto de vetores
{u, N (u), N2(u), . . . , Nk−1(u)}.
a prova do lema estar´a terminada se provarmos que este conjunto ´e linear-mente independente, pois, neste caso como existem k vetores no conjunto, segue que, k ≤ dim(E). Al´em disso, como o resultado vale para todo vetor de E, segue que, Nk= 0. Provemos pois, que o conjunto
{u, N (u), N2(u), . . . , Nk−1(u)}
´e linearmente independente. Suponhamos que existam c0, c1, . . . , ck−1 tais
que
c0u + c1N (u) + · · · + ck−1Nk−1(u) = 0.
Primeiro provemos que c0 = 0. Aplicando Nk−1 ´a igualdade obtemos c0Nk−1(u) + c1Nk(u) + · · · + ck−1N2k−2(u) = Nk−1(0) = 0. Como Nj(u) = 0 se j > k − 1, segue que, a igualdade fica
c0Nk−1(u) = 0.
Mas como Nk−1(u) 6= 0, segue que, c0= 0. Suponhamos por indu¸c˜ao finita
que c0 = c1 = . . . = cj = 0 com j < k − 1. Ent˜ao, a igualdade c0u + c1N (u) + · · · + ck−1Nk−1(u) = 0
se reduz
cj+1Nj+1(u) + · · · + ck−1Nk−1(u) = 0.
Aplicamos a igualdade Nk−j−2 obtemos
cj+1Nk−1(u) + · · · + ck−1N2k−j−3(u) = Nk−j−2(0) = 0
que se reduz a
cj+1Nk−1(u) = 0.
Mas como Nk−1(u) 6= 0 Segue que, cj+1 = 0. Portanto, pelo princ´ıpio de
indu¸c˜ao temos,
c0= c1= . . . = ck−1= 0, terminando assim a prova do lema.
Lema 2.8. Seja N ∈ L (E) um operador nilpotente. Ent˜ao,
I + N ´e um isomorfismo.
Prova. Observando a s´erie de potˆencias de 1
1 + x = 1 − x + x
2− · · · + (−1)kxk+ · · · ,
podemos procurar o inverso de I + N via
I + N = I − N + N2− · · · .
Mas como N ´e nilpotente, Nm = 0 para algum m ≤ n. Nessas condi¸c˜oes a
soma infinita acima se torna uma soma finita. Logo, procuramos o operador inverso de I + N da forma
(I + N )−1 = I − N + N2+ · · · + (−1)m−1Nm−1.
Afirmamos que I − N + N2+ · · · + (−1)m−1Nm−1, ´e de fato um inverso de I + N .
(I + N )(I − N + · · · + (−1)m−1Nm−1)
= I − N + · · · + (−1)m−1Nm−1+ N − N2+ · · ·
· · · + (−1)m−2Nm−1+ (−1)m−1Nm= I + (−1)m−1Nm= I
onde se vˆe claramente que a soma acima ´e telesc´opica e portanto, todos os termos se anulam exceto o primeiro e o ´ultimo, sendo que o primeiro ´e I e o ´ultimo ´e (−1)m−1Nm= 0.
Defini¸c˜ao 2.6 Seja P ∈ L (E). Ent˜ao, se P2 = P dizemos que o operador
P ´e uma proje¸c˜ao.
Exemplo 2.5. Seja uma decomposi¸c˜ao em soma direta
E = F ⊕ G.
Logo, se u ∈ E existem ´unicos v ∈ F e w ∈ G tais que u = v + w. Assim definimos o operador
PF : E → E
por PF(u) = v. Ent˜ao, PF ´e de fato, uma proje¸c˜ao, denominada proje¸c˜ao
sobre F associada `a decomposi¸c˜ao E = F ⊕ G. De fato se u ∈ E ent˜ao, u = v + w com v ∈ F e w ∈ G.
PF(u) = v =⇒ PF2(u) = PF(v) = v = PF(u)
O pr´oximo lema garante que toda proje¸c˜ao ´e do tipo P = PF para alguma
decomposi¸c˜ao
E = F ⊕ G.
Lema 2.9. Seja P ∈ L (E) uma proje¸c˜ao. Ent˜ao, existe uma decomposi¸c˜ao
E = F ⊕ G
tal que P = PF.
Prova. Sejam G = N (P ) e F = Im(P ). Ent˜ao, F, G s˜ao subespa¸cos de E. Afirmamos que
E = Im(P ) ⊕ N (P ).
Seja u ∈ E. Ent˜ao, P2(u) = P (u). Defina
v = u − P (u). Ent˜ao,
P (v) = P (u − P (u)) = P (u) − P2(u) = P (u) − P (u) = 0, isto ´e, v = u − P (u) ∈ N (P ). Logo,
u = P (u) + v ∈ Im(P ) + N (P ) isto ´e,
E = Im(P ) + N (P ).
Provemos agora que Im(P ) ∩ N (P ) = {0}. Se u ∈ Im(P ) ∩ N (P ) ent˜ao,
P (u) = 0 e existe v ∈ E tal que u = P (v). Ent˜ao,
0 = P (u) = P (P (v)) = P2(v) = P (v) = u =⇒ u = 0, provando que
Im(P ) ∩ N (P ) = {0}.
Se u ∈ E ent˜ao, pelo que acabamos de mostrar existe v ∈ N (P ) tal que u = P (u) + v ∈ Im(P ) + N (P ). Segue que
P (u) = PIm(P )(u) terminando assim a prova do lema.
Defini¸c˜ao 2.7 Suponhamos que
E = E1⊕ E2⊕ · · · ⊕ Em,
e que existam operadores Tj ∈ L (Ej) para 1 ≤ j ≤ m. Ent˜ao, o operador T ∈ L (E) definido por
T (u) = T (u1+ u2+ · · · + um) = T1(u1) + T2(u2) + · · · + Tm(um),
onde u = u1 + u2 + · · · + um se denomina soma direta dos operadores
T1, T2, . . . , Tm e se denota por:
T1⊕ T2⊕ · · · ⊕ Tm.
Terminamos este cap´ıtulo com a no¸c˜ao de complexificado ou complexi-fica¸c˜ao de um operador sobre Rn.
Defini¸c˜ao 2.8 Seja F ⊂ Rn um subespa¸co de Rn. Seja T ∈ L (F ). Ent˜ao,
o operador
TC : FC−→ FC,
onde, FC´e o complexificado ou complexifica¸c˜ao de F , definido por
se z ∈ FC ent˜ao, z =
X
λjxj =⇒ TC(z)def=
X
λjT (xj)
se denomina de complexificado ou complexifica¸c˜ao de T ´
E f´acil ver que esta defini¸c˜ao n˜ao depende da escolha da representa¸c˜ao de z ∈ FC.
Se β = {u1, u2, . . . , ur} ´e uma base de F ent˜ao, β = {u1, u2, . . . , ur} ´e
tamb´em uma base de FC. Al´em disso, [T ]ββ = [TC]ββ.
Lema 2.10. Sejam F ⊂ Rn um subespa¸co real e F
C sua complexifica¸c˜ao.
Seja S ∈ L (FC). Ent˜ao, S = TC para algum T ∈ L (F ) se e somente se, σS = Sσ.
Prova. Se S = TC,
σS(z) = σTC¡ Xλjxj¢= σXλjT (xj) =Xλ¯jσ(T (xj)) =X¯λjT (xj). Por outro lado,
S¡σ(z)¢= S¡σ(Xλjxj) ¢ = S¡ Xλ¯jσ(xj) ¢ = TC( X ¯ λjxj) = X ¯ λjT (xj), provando que σS = Sσ.
Suponhamos agora que σS = Sσ. Ent˜ao, S(F ) ⊂ F . De fato, se x ∈ F ,
σ(x) = x e
σ(S(x)) = S(σ(x)) = S(x),
logo,
S(x) ∈ {z ∈ FC : σ(z) = z} = FCR= F.
Seja T = SF ∈ L (F ). Da defini¸c˜ao de TC segue que TC= S.
O que fizemos para operadores sobre subespa¸cos de Rn pode ser feito
para operadores sobre um espa¸co vetorial abstrato sobre o corpo R.
Lema 2.11. Seja E um epa¸co vetorial sobre R e T ∈ L (E). Ent˜ao, a fun¸c˜ao TC: EC→ ECdefinida por
TC(u + iv) = T (u) + iT (v),
para todo u + iv ∈ EC ´e um operador linear sobre EC, considerado como um espa¸co vetorial sobre o corpo dos complexos.
Defini¸c˜ao 2.9 Seja E um espa¸co vetorial sobre R e T ∈ L (E) um operador linear sobre E. Ent˜ao, o operador
TC∈ L (EC),
definido no lema acima denomina-se de complexificado ou complexifica¸c˜ao do operador T .
Se escolhemos uma base β de E, ent˜ao, esta mesma base ´e uma base de
EC, considerado como espa¸co vetorial sobre o corpo dos complexos. Segue,
imediatamente que a matriz que representa T na base β ´e a mesma matriz que representa TCna base β.
Note que qualquer autovalor real de TC´e tamb´em um autovalor de T porque
se λ ∈ R e
TC(u + iv) = λ(u + iv) = λ(T (u) + iT (v)) =⇒ T (u) = λu, T (v) = λv.
Autovalores n˜ao-reais de TC aparecem aos pares. Mais precisamente,
(TC− λI)(u + iv) = 0 ⇐⇒ (TC− λI)(u − iv) = 0.
Cap´ıtulo 3
Teorema da Decomposi¸c˜
ao
Prim´
aria
Neste cap´ıtulo estudamos as aplica¸c˜oes lineares de um espa¸co vetorial em si mesmo, isto ´e os operadores lineares de um espa¸co vetorial dado. O estudo destas aplica¸c˜oes constitue a parte mais importante e densa da ´algebra li-near. Mais especificamente nosso objetivo ´e entender de maneira geom´etrica a a¸c˜ao de um tal operador. A no¸c˜ao fundamental ´e o conceito de subespa¸cos
invariantes pelo operador que consiste em subespa¸cos do espa¸co nos quais
o operador atua independentemente. As no¸c˜oes de autovalores e autoveto-res seguir˜ao como consequˆencia natural do conceito de subespa¸co invariante assim como a id´eia de formas canˆonicas. Vamos nos restringir, no entanto, a apresentar o teorema da decomposi¸c˜ao prim´aria. A prova deste teorema usa um argumento usual na teoria de sistemas din˜amicos, a saber a no¸c˜ao de aplica¸c˜ao de gr´afico usada para obter o espa¸co todo com decomposi¸c˜ao em soma direta de subespa¸cos invariantes.
3.1
Subespa¸cos Invariantes
Defini¸c˜ao 3.1 Seja E um espa¸co vetorial de dimens˜ao finita sobre K e T ∈ L (E) um operador linear. Um subespa¸co F de E, ´e invariante pelo operador T se
T (F ) ⊆ F isto ´e, se para todo v ∈ F , T (v) ∈ F .
Observe que se F ´e invariante por T , ent˜ao, o operador T pode ser visto como um operador atuando sobre F . Para diferenciarmos do pr´oprio T denotamos por T|F o operador
definido por T|F(v) = T (v) para todo v ∈ F . Vejamos alguns exemplos de subespa¸cos invariantes.
Exemplo 3.1. Se T ∈ L (E) ent˜ao, F = N (T ) ´e claramente um subespa¸co invariante por T .
Exemplo 3.2. Se T ∈ L (E) ent˜ao, F = Im(T ) ´e claramente um subespa¸co invariante por T .
De fato se w ∈ Im(T ) ent˜ao, existe v ∈ E tal que w = T (v). Logo,
T (w) = T (T (v)) ∈ Im(T )
Exemplo 3.3. Se T = I, isto ´e, T ´e o operador identidade sobre E, ent˜ao, qualquer F ⊂ E ´e um subespa¸co invariante por I.
Defini¸c˜ao 3.2 Seja T ∈ L (E). Um subespa¸co F de E, invariante pelo operador T ´e dito um subespa¸co invariante n˜ao-trivial se
F 6= E e F 6= {0}.
O seguinte lema vai tornar mais claro a importˆancia da no¸c˜ao de subespa¸co invariante, bem como, indicar quais os resultados que necessitamos obter se quisermos entender a¸c˜ao de T sobre E, isto ´e, como atua o operador T sobre os vetores de E.
Lema 3.1. Suponhamos que T ∈ L (E) e que
E = F ⊕ G
com F, G subespa¸cos invariantes por T n˜ao-triviais de E. Ent˜ao, existe base
² = {u1, . . . , uk+l} de E talq ue, [T ]²²= Ã A 0 0 B !
onde A, B s˜ao matrizes quadrados de ordem k, l respectivamente onde k =
dim(F ), l = dimG, [T|F]²1 ²1 = A [T|G] ²2 ²2 = B e ²1 = {u1, . . . , uk}, ²2= {uk+1, . . . , uk+l}.
Prova. Segue do Lema (1.1) que podemos escolher ² = {u1, . . . , uk+l} base
de E com k + l = n, ²1 = {u1, . . . , uk} base de F , e ²2 = {uk+1, . . . , uk+l}
base de G. Como para 1 ≤ i ≤ k, ui ∈ F e T (F ) ⊆ F tem-se que T (ui) = a1iu1+ · · · + akiuk+ 0uk+1+ · · · + 0uk+l.
Do mesmo modo para k + 1 ≤ i ≤ k + l como ui∈ G e T (G) ⊆ G obtˆem-se: T (ui) = 0u1+ · · · + 0uk+ b1iuk+1+ · · · + bliuk+l.
segue imediatamente a representa¸c˜ao [T ]²²= Ã A 0 0 B !
onde, A = (aij)k×k, B = (bij)l×l. O restante das conclus˜oes s˜ao imediatas.
O que este lema implica ´e que se queremos entender a a¸c˜ao de T sobre
E a seguinte estrat´egia se evidencia promissora:
1. Obter uma decomposi¸c˜ao de E
E = E1⊕ · · · ⊕ Er
com Ej subespa¸cos invariantes n˜ao-triviais por T para 1 ≤ j ≤ r e
indecompon´ıveis no sentido de n˜ao admitir decomposi¸c˜ao semelhante invariante por T .
2. Obter uma representa¸c˜ao da a¸c˜ao de T|Ej a mais simplificada poss´ıvel quando os Ej’s s˜ao minimais invariantes por T cuja soma direta ´e E.
Precisamos tornar precisas as no¸c˜oes de indecomponibilidade e de
repre-senta¸c˜ao simplificada. Antes vamos investigar como age um operador linear
sobre um subespa¸co invariante de dimens˜ao 1.
3.2
Autovalores e autovetores
Exemplo 3.4. Seja F um subespa¸co invariante por T e unidimemsional. Seja v0∈ F tal que
F = {αv0 : α ∈ K}. Ent˜ao, se u ∈ F existe λ ∈ K tal que
u = αv0.
Assim,
T (u) = T (αv0) = αT (v0).
Como T (F ) ⊆ F , T (v0) = λv0 para algum λ ∈ K. Logo,
T (u) = T (αv0) = αT (v0) = αλv0 = λαv0 = λu isto ´e, existe λ ∈ K tal que
T (u) = λu ∀u ∈ F.
podemos escrever a equa¸c˜ao acima como
Portanto, se F ´e um subespa¸co unidimensional invariante por T existe λ ∈ K tal que
(T − λI)(u) = 0 para todo u ∈ F isto ´e, existe λ ∈ K tal que
(T − λI) : E → E
´e um operador com n´ucleo n˜ao-trivial, ou um operador n˜ao-invers´ıvel. Defini¸c˜ao 3.3 Um escalar λ ∈ K tal que o operador
(T − λI) : E → E
seja n˜ao-invers´ıvel denomina-sede autovalor de T . Ao subespa¸co F = N (T − λI)
denominamos de autoespa¸co associado ao autovalor λ ∈ K e denotamos por Eλ. Denota-se por esp(T ) ao conjunto
esp(T ) = {λ ∈ K : ´e autovalor de T }.
Lema 3.2. Seja λ ∈ K um autovalor de T . Ent˜ao, Eλ ´e um subespa¸co
invariante por T n˜ao-trivial. Prova.
Eλ = N (T − λI)
Da defini¸c˜ao de autovalor segue que Eλ 6= {0}. Seja v ∈ Eλ. Ent˜ao, como T comuta com (T − λI) segue que
(T − λI)(T (v)) = T (T − λI)(v) = T (0) = 0 isto ´e,
T (v) ∈ N (T − λI) = Eλ
provando que T (Eλ) ⊂ Eλ.
Defini¸c˜ao 3.4 Seja T ∈ L (E) um operador linear. Seja λ ∈ Kum auto-valor de T . Ent˜ao, aos vetores de
Eλ= N (T − λI),
denominamos de autovetores de T associados ao autovalor λ. V´arias questˆoes se colocam na sequˆencia de nosso roteiro:
1. Existem sempre subespa¸c˜os invariantes n˜ao-triviais, isto ´e diferentes de E e de {0}?
2. Existem subespa¸cos invariantes do tipo autoespa¸co associado a algum autovalor? Em outras palavras, sempre existem autovalores?.
Exemplo 3.5. Seja Rπ/2 : R2 → R2 a rota¸c˜ao em R2 de um ˆangulo π/2.
Ent˜ao, [Rπ/2]²²= Ã 0 1 −1 0 !
onde ² denota a base canˆonica de R2. Como cada vetor de R2 sofre uma
rota¸c˜ao de um ˆangulo π/2, os ´unicos subespa¸cos invariantes s˜ao os triviais. Neste caso, estamos numa situa¸c˜ao de inexistˆencia de subespa¸cos invariantes n˜ao-triviais.
Exemplo 3.6. Seja T ∈ L (R2, R2) o operador linear cuja matriz na base canˆonica de R2 ´e A = Ã 1 1 0 1 ! . seja v = (1, 0). ent˜ao, Avt= Ã 1 1 0 1 ! Ã 1 0 ! = Ã 1 0 ! . Logo, (T − I)(1, 0) = (0, 0), isto ´e, λ = 1 ´e um autovalor de T .
Calculemos E1. E1= N (A − I). (A − I) = Ã 1 1 0 1 ! = Ã 0 1 0 0 ! . Ã 0 1 0 0 ! Ã x y ! = Ã 0 0 ! ,
cuja solu¸c˜ao ´e, y = 0 e x ´e qualquer. Logo,
E1 = {(s, 0) : s ∈ R} = subespa¸co gerado por (1, 0).
Lema 3.3. Se F ⊂ R2´e um subespa¸co invariante por T n˜ao-trivial no
exem-plo anterior ent˜ao, F = E1. Em particular, n˜ao existe uma decomposi¸c˜ao
R2 = E ⊕ F
Prova. Se {0} 6= F 6= R2 ´e invariante por T ent˜ao, dim(F ) = 1 e portanto,
segue do Exemplo (3.4) que T|F = λI para algum λ ∈ R. Logo, existe 0 6= v ∈ F e λ ∈ R tais que à 0 1 0 0 ! à x y ! = à λx λy ! , isto ´e, x + y = λx e y = λy
com (x, y) 6= (0, 0). Se y 6= 0 ent˜ao, λ = 1. Neste caso, x + y = x ⇒ y = 0 o que ´e um absurdo. Logo, y = 0. Segue que x 6= 0 e como
x + y = x + 0 = λx ⇒ λ = 1.
Portanto, λ = 1 e F = E1, terminando assim a prova do lema.
O exemplo anterior mostra que a ´unica decomposi¸c˜ao R2 = F ⊕ G
em subespa¸cos invariantes por T ´e F = R2e G = {0} ou G = R2 e F = {0}. Segue que se alguma no¸c˜ao de indecomponibilidade ´e implement´avel no caso do corpo ser R ent˜ao:
A : R2 → R2
deveria ser uma aplica¸c˜ao indecomponivel. precisamos pois, tornar precisa a id´eia intuitiva de operador indecompon´ıvel e a´ı chegar a uma caracteriza¸c˜ao geral suficiente que descreva as aplica¸c˜oes indecompon´ıveis. Vejamos mais um exemplo.
Exemplo 3.7. Considere o operador
Iλ: E → E dim (E) ≥ 2
definido por Iλ(v) = λv, isto ´e Iλ = λI. Ent˜ao, ´e ´obvio que ∀F ⊂ E subespa¸co de E ´e invariante por Iλ e portanto, neste caso temos infintas
decomposi¸c˜oes poss´ıveis de E em soma direta de subespa¸cos invariantes n˜ao-triviais.
Este ´e uma exemplo que imp˜oe certas dificuldades em nosso roteiro, uma vez que desejamos ter algum tipo de unicidade na decomposi¸c˜ao do espa¸co em subespa¸cos invariantes.
Exemplo 3.8. Considere o operador linear dado pela matriz
Jλ= λ 1 0 · · · 0 0 λ 1 · · · 0 .. . ... . .. ... ... 0 0 · · · λ 1 0 0 · · · 0 λ n×n .
Assim como no Lema (3.3), pode-se mostrar que o ´unico subespa¸co invari-ante 6= Rn´e F = gerado por (1,0,. . . ,0), e que al´em disso, n˜ao existe G ⊂ Rn
tal que
Rn= F ⊕ G,
e Jλ(G) ⊂ G. Portanto, para este operador a ´unica decomposi¸c˜ao poss´ıvel
seria a formada pelo espa¸co todo. Deste modo dever´ıamos incluir este ope-rador no conjunto dos opeope-radores indecompon´ıveis, isto ´e aqueles que n˜ao admitem decomposi¸c˜oes n˜ao-triviais em subespa¸cos invariantes, que vamos definir mais adiante. Observe que
Jλ = λI + N onde N = 0 1 0 · · · 0 0 0 1 · · · 0 .. . ... . .. ... ... 0 0 · · · 0 1 0 0 · · · 0 0 n×n .
J´a vimos anteriormente que o operador N ´e um operador nilpotente, pois,
Nn= 0.
3.3
Operadores Irredut´ıveis
Defini¸c˜ao 3.5 Um operador T ∈ L (E) ´e dito ser irredut´ıvel se n˜ao existe nenhuma decomposi¸c˜ao
E = F ⊕ G com
T (F ) ⊂ F, T (G) ⊂ G subespa¸cos invariantes n˜ao-triviais.
J´a sabemos que os operadores da forma Jλ s˜ao irredut´ıveis sobre E = Rn
ou E = Cn. Como j´a observamos antes podemos escrever Jλ = λI + N
onde N ´e um operador nilpotente de ordem n. A seguinte conjectura se coloca em fun¸c˜ao do observado acima:
Conjectura Se T ∈ L (E) ´e um operador irredut´ıvel ent˜ao, T = λI + N
com λ ∈ K e N ´e um operador nilpotente.
Uma resposta afirmativa `a conjectura ser´a dada mais abaixo. Antes precisamos de alguns resultados.
Teorema 3.1. Se K = C ent˜ao, qualquer T ∈ L (E) tem pelo menos 1 autovalor.
Prova. Seja 0 6= v ∈ E e considere o conjunto
{v, T (v), T2(v), . . . , Tn(v)}
onde n = dim(E). Segue que o conjunto acima que ´e constituido de n+1 vetores ´e linearmente dependente. Logo, existem c0, c1, . . . , cn∈ C n˜ao todos
nulos tais que
c0v + c1T (v) + c2T2(v) + · · · + cnTn(v) = 0. Seja p : C → C o polinˆomio p(z) = c0+ c1z + c2z2+ · · · + cnzn. Ent˜ao, p(T ) = c0I + c1T + c2T2+ · · · + cnTn. Logo, p(T )(v) = 0.
Sendo p um polinˆomio sobre os complexos, segue pelo Teorema Fundamental da ´Algebra que podemos escrever
p(z) = n
Y
i=1
(z − λi)
com λi∈ C os zeros do polinˆomio p, tomados com repeti¸c˜oes. Logo, p(T ) = n Y i=1 (T − λiI). Mas p(T )(v) = n Y i=1
(T − λiI)(v) = (T − λ1I)(T − λ2I) · · · (T − λnI)(v).
Como p(T )(v) = 0 seja m = sup{1 ≤ j ≤ n : n Y k=j (T − λkI)(v) = 0}
Se m = n ent˜ao, (T − λnI)(v) = 0 e neste caso λn´e um autovalor de T . Se
m < n ent˜ao, definimos w = n Y k=m+1 (T − λkI)(v) 6= 0.
Ent˜ao, (T − λmI)w = (T − λmI) n Y k=m+1 (T − λkI)(v) = n Y k=m (T − λkI)(v) = 0,
provando que λm ´e um autovalor de T .
Para provar a existˆencia de autovalores para operadores sobre espa¸cos vetorias sobre R, precisamos de um teorema antes.
Teorema 3.2. Todo operador T ∈ L (E) onde E ´e um espa¸co vetorial sobre
R admite pelo menos um subespa¸co invariante de dimens˜ao 1 ou 2. Prova. Seja 0 6= v ∈ E. Ent˜ao, considere o conjunto
{v, T (v), T2(v), . . . , Tn(v)}
onde n = dim(E). Segue que o conjunto acima que ´e constituido de n+1 vetores ´e linearmente dependente. Logo, existem c0, c1, . . . , cn∈ R n˜ao todos
nulos tais que
c0v + c1T (v) + c2T2(v) + · · · + cnTn(v) = 0.
Seja p : R → R o polinˆomio
p(x) = c0+ c1x + c2x2+ · · · + cnxn
que pode ser fatorado como
p(x) = c m Y i=1 (x − λi) r Y i=1 (x2+ aix + bi). Assim p(T ) = c m Y i=1 (T − λiI) r Y i=1 (T2+ aiT + biI) e 0 = p(T )v = c m Y i=1 (T − λiI) r Y i=1 (T2+ aiT + biI)v.
Pelo mesmo racioc´ınio do teorema anterior conclui-se que: ou existe 1 ≤ i ≤
m tal que
(T − λiI)w = 0
com w 6= 0 e neste caso λi ´e um autovalor de T ou existe 1 ≤ j ≤ r tal que
(T2+ aiT + biI)w = 0, w 6= 0.
O primeiro caso acarreta que o subespa¸co gerado por w ´e um subespa¸co invariante de dimens˜ao 1. Vamos pois, analisar o segundo caso.
Seja ent˜ao, w 6= 0 tal que
(T2+ aiT + biI)w = 0.
Seja F o subespa¸co de E gerado por w, T (w). Afirmamos que T (F ) ⊂ F , isto ´e que F ´e um subespa¸co invariante por T . De fato, basta provar que
T (T (w)) ∈ F . Mas
0 = (T2+ aiT + biI)w = T2(w) + ajT (w) + bjw,
logo,
T2(w) = −bjw − ajT (w) ∈ F,
provando o teorema.
Teorema 3.3. Todo operador T ∈ L (E) onde E ´e um espa¸co vetorial sobre
R de dimens˜ao ´ımpar tem 1 autovalor.
Prova. Seja a sequˆencia de afirma¸c˜oes indexada em 0 ≤ i:
P(i):=Se T ∈ L (E) onde E ´e um espa¸co vetorial sobre R de dimens˜ao
2i+1 ent˜ao, T tem uma autovalor.
P(0) ´e verdadeira. ( ´Obvio.)
Suponhamos que P(n) seja verdadeira. Seja T ∈ L (E) um operador sobre E espa¸co vetorial sobre R de dimens˜ao 2n+3. Pelo Teorema (3.2) ou T tem um autovalor, ou existe subespa¸co E1 ⊂ E com dim(E1) = 2
invariante por T , isto ´e, T (E1) ⊂ E1. Seja E = E1⊕ E2
uma decomposi¸c˜ao de E em soma direta. Sejam Π1 : E → E1, Π2 : E → E2 as proje¸c˜oes associadas `a decomposi¸c˜ao dada. Defina
T2= Π2◦ T|E2 ∈ L (E2, E2).
Como dim(E1) = 2 segue que dim(E2) = (2n + 3) − 2 = 2n + 1. Da hip´otese
de indu¸c˜ao o operador
T2 : E2 → E2
tem um autovalor λ ∈ R. Seja 0 6= v ∈ E2 um autovetor associado a λ, isto ´e,
T2(v) = λv.
Seja
Seja u + αv um vetor arbitr´ario em F . Ent˜ao,
(T −λI)(u+αv) = T (u)+αT (v)−λu−λαv = T (u)−λu+α(T (v)−λv) = = T (u) − λu + α(Π1T (v) + Π2T (v) + λv) =
T (u) − λu + α(Π1T (v) + (T2− λI)(v)) = T (u) − λu + αΠ1T (v),
pois, (T2− λI)(v) = 0. Resumindo temos
(T − λI)(u + αv) = T (u) − λu + αΠ1T (v) ∈ E1,
pois, u ∈ E1, T (E1) ⊂ E1 e Π1T (v) ∈ E1. Logo, (T − λI)|F : F → F e Im(T − λI) = E1 F. Segue que N ((T − λI)|F) 6= {0}.
Segue que existe α ∈ R com u ∈ E1 tal que w = u + αv satisfaz (T − λI)w = 0,
implicando que λ ´e um autovalor de T completando a prova do teorema. Estamos finalmente prontos para provar o lema fundamental que caracteriza como s˜ao os operadores irredut´ıveis.
Lema 3.4. Seja E um espa¸co vetorial sobre o corpo C e T ∈ L (E) um ope-rador irredut´ıvel. Ent˜ao, existem λ ∈ C e N ∈ L (E), opeope-rador nilpotente tal que
T = λI + N.
Prova. Seja λ ∈ C um autovalor de T dado pelo teorema 4.1 e defina
T0 = T − λI. Seja
E0 = {v : ∃n ≥ 0 tal que T0n(v) = 0}.
E0 ´e um subespa¸co invariante por T0, isto ´e, T0(E0) ⊂ E0 e T0|E0 ´e um
operador nilpotente. Se mostrarmos que E0= E o lema estar´a provado.
Suponhamos por contradi¸c˜ao que E0 6= E. Como λ ´e autovalor de T
segue que E0 6= {0}. Vamos mostrar que existe um subespa¸co E0 ⊂ E tal
que T0(E0) ⊂ E0 e
E = E0⊕ E0.
Como T0 − T − λI segue que se T0(E0) ⊂ E0 ent˜ao, T (E0) ⊂ E0. Mas T (E0) ⊂ E0 contradizendo a irreducibilidade de T .
Para construir E0 tomamos E
1 tal que E = E0⊕ E1.
Se A ∈ L (E1, E0) denotamos por
graf(A) = {x + Ax : x ∈ E1}.
Para qualquer A ∈ L (E1, E0) graf(A) ´e um subespa¸co de E tal que E = E0⊕ graf(A).
Para provarmos a afirma¸c˜ao tome v ∈ E = E0⊕ E1. Ent˜ao,
v = v0+ v1= v0+ v1+ Av1− Av1 =
= (v0− Av1) + v1+ Av1 ∈E0⊕ graf(A)
pois, Av1 ∈ E0. Logo, v ∈ E0⊕ graf(A) isto ´e E = E0 + graf(A). Agora, suponha que v ∈ E0∩ graf(A). Ent˜ao, v ∈ E0 e
v = w + Aw com w ∈ E0.
Logo,
v = w + Aw ⇒ v − Aw = w ∈ E1.
Como v − Aw ∈ E0 e E0∩ E1= {0} segue que w = 0, e portanto, Aw = 0.
Assim
v = w + Aw = 0 + 0 = 0, isto ´e, v = 0. Segue que
E = E0+ graf(A),
como quer´ıamos demonstrar. O subespa¸co invariante por T0 que queremos
encontrar para concluirmos a prova, estar´a representado como o gr´afico de um operador, a saber, graf(A), com A ∈ L (E1, E0). Logo, a prova estar´a terminada se acharmos A ∈ L (E1, E0) tal que
T0(graf(A)) ⊂ graf(A).
Sejam
Π0 : E → E0, Π1 : E → E1
as proje¸c˜oes associadas `a decomposi¸c˜ao E = E0⊕ E1, e T1 def= Π1T0|E1 ∈ L (E1, E1)
Ent˜ao, se A ∈ L (E1, E0), T0(graf(A)) ={T0x + T0Ax : x ∈ E1} ={Π1T0x + Π0T0T0x + T0Ax : x ∈ E1} ={T1x + T2x + T0Ax : x ∈ E1} ={T1x + (T2+ T0A)x : x ∈ E1}. Logo,
T0(graf(A)) ⊂ graf(A) ⇔T1x + (T2+ T0A)x ∈ graf(A) ∀x ∈ E1 ⇔AT1x = (T2+ T0A)x ∀x ∈ E1
⇔AT1 = T2+ T0A.
Ou seja, a prova est´a reduzida a encontrar A ∈ L (E1, E0) tal que AT1− T0A = T2.
Consideremos o operador
Φ : L (E1, E0) → L (E1, E0) definido por
Φ(X) = XT1− T0X.
Se provarmos que Φ ´e injetivo seguir´a que ´e sobrejetivo e portanto, existe
A ∈ L (E1, E0), satisfazendo
AT1− T0A = T2.
Se Φ(X) = 0 tem-se que
XT1− T0X = 0 ⇒ XT1 = T0X.
Suponha por indu¸c˜ao que XT1n−1= T0n−1X ent˜ao,
XT1n= (XT1n−1)T1 HI= (T0n−1X)T1 = T0n−1T0X = T0nX,
isto ´e
XT1n= T0nX ∀n.
Como T0 ´e nilpotente, existe n tal que T0n= 0. Logo, XT1n= T0nX = 0X = 0,
mas T1 ´e um isomorfismo pois,
T1v = 0 ⇒ Π1T0x = 0 ⇒ T0x ∈ E0 ⇒ v ∈ E0.
Como v ∈ E1 resulta que v = 0. Logo, T1n´e um isomorfismo. Assim XT1m= 0 ⇒ X = 0,
Corol´ario 3.1. Seja T ∈ L (E) onde E ´e um espa¸co vetorial sobre os complexos. Ent˜ao, existe uma decomposi¸c˜ao
E = E1⊕ E2⊕ · · · ⊕ Em, tal que T (Ej) ⊂ Ej e T|Ej ´e irredut´ıvel.
Prova. Vamos usar indu¸c˜ao na dimens˜ao de E. Se dim(E) = 1 ent˜ao, o resultado ´e trivial. Suponhamos que o resultado seja v´alido para todo operador T ∈ L (E) sempre que dim(E) < n. Seja agora T ∈ L (E) com
dim(E) = n. Ent˜ao, ou T ´e irredut´ıvel ( e ent˜ao, o resultado vale) ou ∃ uma
decomposi¸c˜ao E = E1⊕ E2 tal que T (Ej) ⊂ Ej e 0 < dim(Ei) < n, i = 1, 2.
Aplicando a hip´otese de indu¸c˜ao a T|Ei, i = 1, 2 o lema fica demonstrado.
3.4
Teorema da Decomposi¸c˜
ao Prim´
aria
Teorema 3.4. [Teorema da Decomposi¸c˜ao Prim´aria] Seja T ∈ L (E), onde E ´e um espa¸co complexo, ou E ´e real se todos os autovalores de T s˜ao reais. Seja esp(L) = {λ1, λ2, . . . , λm}. Ent˜ao, existe uma decomposi¸c˜ao
E = E1⊕ E2⊕ · · · ⊕ Em, tal que T (Ej) ⊂ Ej T|Ej = λjI + Nj, Nj nilpotente para todo 1 ≤ j ≤ m. Prova. Seja E = F1⊕ F2⊕ · · · ⊕ Fr,
uma decomposi¸c˜ao de E dada pelo Corol´ario (3.1). Ent˜ao, T (Fj) ⊂ Fj e T|Fj ´e irredut´ıvel para todo 1 ≤ j ≤ r. Ent˜ao, para cada 1 ≤ j ≤ r existe
λ0j ∈ C e Nj0 ∈ L (Fj) nilpotente tal que T|Fj = λ0jI + Nj0.
Seja a decomposi¸c˜ao
E = E1⊕ E2⊕ · · · ⊕ Em,
obtida somando os Fj para os quais λ0j coincide. Ent˜ao, T (Ei) ⊂ Ei e ∃ λi∈ C e Ni ∈ L (Ei) nilpotente tal que
T|Ei = λiI + Ni,
e λi 6= λj se i 6= j e 1 ≤ i, j ≤ m. A prova do teorema estar´a terminada se
provarmos que