Processo 243/2009-JP
Data do documento 1 de abril de 2022
Relator
Dulce Nascimento
JULGADOS DE PAZ | CÍVEL
Sentença
DESCRITORES
Contrato de mútuoSUMÁRIO
N.D.TEXTO INTEGRAL
SENTENÇA
Valor da Acção: € 1.227,22 (mil duzentos e vinte e sete euros e vinte e dois cêntimos) I – IDENTIFICAÇÃO DAS PARTES
Demandante: A Mandatário: B Demandado: C Mandatário: D
II – OBJECTO DO LITÍGIO
O Demandante intentou a presente acção pedindo a condenação do Demandado a pagar a quantia de 1.227,22€ (mil duzentos e vinte e sete euros e vinte e dois cêntimos) referente a um mútuo e respectivos juros de mora, cujo termo era em 8 de Abril de 2009. Com efeito, até à presente data o Demandado não devolveu ao Demandante a quantia mutuada. Juntou aos autos 3 documentos e procuração forense.
Procedeu-se à citação do Demandado, que contestou dizendo que o mútuo contratado entre as partes foi integralmente cumprido através de cheque que o Demandante apresentou a pagamento e obteve boa cobrança em 27/04/2009, não lhe devendo mais quaisquer quantias. Juntou aos autos quatro documentos e procuração forense.
As partes aderiram à Mediação, não logrando chegar a acordo, tendo nos termos do disposto nos artigos 56º e 57º da Lei 78/2001 de 13 de Julho se procedido à Audiência de Julgamento.
O Julgado de Paz é competente em razão da matéria, objecto, território e valor. O processo não enferma de nulidades que o invalidem na totalidade. As partes gozam de personalidade e capacidade judiciárias e são legítimas.
III – FUNDAMENTAÇÃO
Da prova produzida (documental e testemunhal), com interesse para a decisão, ficou provado que:
Em 20.03.2009 o Demandante entregou, a título de empréstimo, por cerca de um mês, ao Demandado a pedido do mesmo a quantia de 1.200€ em 20.03.2009 através do cheque x do X (fls. 3), tendo o Demandado entregue ao Demandante o cheque x do XX para pagar a quantia mutuada no mesmo valor, à ordem do Demandante com vencimento de 26.04.2009 (fl. 22). Ambos os cheques foram emitidos à ordem.
O Demandante apresentou o cheque do Demandado a pagamento no dia 31.03.2009 (antes da data de vencimento do mesmo), e perante a falta de provisão as partes acordaram em emitir novos cheques de igual valor com vencimento na mesma data – 26.04.2009. Assim, em 31.03.2009 Demandante e Demandado trocaram novamente cheques na importância e para a mesma data, (fl. 4 e 23), respectivamente x do X e x do XX, tendo os mesmos sido emitidos ao portador por solicitação do Demandante, e trocados na esplanada de um café em Santa Maria da Feira.
O cheque x do XX, que o Demandado entregou ao Demandante, foi apresentado a pagamento e liquidado pelo banco em 27.04.2009, no correspondente valor de 1.200€, sacado da conta bancária correspondente do Demandado (fls. 24 a 25V).
O cheque foi x do XX, foi endossado a E, neto do Demandante, e a F, filho do Demandado, os quais pontualmente prestam serviços para o Demandante no sector da construção civil (fl. 23).
Por carta registada de 16.06.2009 o Demandado foi extra judicialmente interpelado a liquidar a quantia de 1.200€ resultante do mútuo efectuado pelo Demandante concretizado pelo cheque x (fls. 5 e 6), tendo o Demandado informado o Demandante que o cheque que emitira já tinha sido descontado, pelo que nada mais tinha de liquidar.
A letra constante dos cheques de fls. 4 e 23, ambos emitidos ao portador, indiciam que foram preenchidos pela mesma pessoa, tendo a testemunha G identificado a mesma como sendo a letra do Demando, esclarecendo que as partes tinham entre elas uma relação de grande confiança.
Os depoimentos das testemunhas, mereceram a credibilidade do Tribunal, por terem deposto de modo imparcial e credível, demonstrando ter conhecimento directo e pessoal da factualidade sobre a qual depunham. Nomeadamente, a testemunha H quanto à forma de trabalhar do Demandante e à relação familiar de E, neto do Demandante, e F, filho do Demandado, a quem o cheque em causa terá sido endossado. A testemunha I relativamente aos dois acordos celebrados entre as partes, nos quais esteve presente, bem como ao relacionamento das partes. Por fim, a testemunha J, que não obstante a relação familiar com o Demandado, demonstrou isenção no sue depoimento, esclarecendo o tribunal sobre a relação das partes, reconhecendo a letra aposta nos cheques juntos a fls. 4 e 23, com excepção das assinaturas, como sendo a do seu pai, ora Demandado.
Para fixação dos factos provados concorreram os depoimentos testemunhais e os documentos juntos aos autos. A fixação da matéria fáctica dada como não provada resultou da ausência de mobilização probatória credível, que permitisse ao Tribunal aferir da veracidade dos factos, após a análise dos documentos juntos
e da inquirição das testemunhas apresentadas.
Verificando-se os pressupostos processuais de regularidade e validade da instância, não existindo excepções, nulidades ou quaisquer questões prévias de que cumpra conhecer, ou que obstem ao conhecimento do mérito da causa, cumpre apreciar e decidir:
IV - Direito
A relação material controvertida que esteve na base do presente processo caracteriza-se por um contrato de mútuo, isto é “contrato pelo qual uma das partes empresta à outra dinheiro…, ficando a segunda obrigada a restituir outro tanto do mesmo género e qualidade” (1142º CC).
O valor total mutuado ascendeu a 1.200€ (mil e duzentos euros), pelo que não está sujeito à forma escrita (1143º CC). Por outro lado, Demandante e Demandado não acordaram o pagamento de quaisquer juros, pelo que o mútuo celebrado é gratuito (1145º CC), não sendo devidos juros.
Da matéria de facto dada como provada resulta que o Demandado entregou ao Demandante um cheque ao portador no valor mutuado para 26.04.2009, cheque que foi descontado na conta bancária do Demandado em 27.04.2009, resultando do mesmo que este terá sido descontado por terceiros à presente acção (E e F).
Nos termos da lei considera-se que o devedor cumpre a obrigação quando realiza a prestação a que está obrigado, devendo as partes proceder de boa fé (762º CC). Cumpre ao devedor cumprir a prestação a que está obrigado perante o credor ou ao seu representante (769º CC), porém a prestação feita a terceiro também extingue a relação se for uma das situações descritas no artigo 770º CC.
Dos autos resulta que o Demandado emitiu e entregou ao Demandante cheque ao portador, a pedido deste, na importância mutuada para a data acordada (cerca de um mês depois), tendo o aludido cheque sido efectivamente apresentado a pagamento e descontado não pelo Demandante mas por terceiros. O Demandante não denunciou qualquer situação, nomeadamente, de extravio, furto, roubo, ou outra, alegando diferentemente nos autos não ter recebido o cheque.
Pelo facto de nos presentes autos o Demandante alegar não ter recebido o cheque cuja cópia se encontra junta a fls. 23, resulta para o Demandado nos termos legais o ónus de prova de que essa entrega ocorreu (342º CC), o que foi efectuado através de prova testemunhal, tendo este tribunal criado a convicção de que houve efectiva emissão e entrega do mesmo ao Demandante. A este propósito teve-se ainda em consideração o facto de a letra constante no preenchimento do cheque do Demandado (fl. 23) e do cheque do Demandante (fl. 4) são exactamente iguais com excepção da assinatura, que em nenhum dos dois foi posta em causa.
O cheque é um título de crédito, emitido por uma pessoa para benefício da entidade nele indicada ou ao portador, contendo uma ordem pura e simples de pagamento da quantia nele inscrita, dirigida a um estabelecimento bancário, no qual o seu emitente possui fundos disponíveis, para liquidar o mesmo aquando da sua apresentação a pagamento.
Nos termos do disposto na Lei Uniforme relativa aos cheques (LUC), de acordo com a Convenção de Genebra de 19.03.1931, ratificada em Portugal pelo DL 23721 de 29.03.1934, podemos concluir pela existência de diferentes tipos de emissão de cheques, resultando em relação a cada um diferente segurança e garantias.
É conveniente e recomendável que quem passa um cheque preencha todos os espaços brancos do mesmo, protegendo-se dessa forma de eventuais utilizações abusivas, mas tal preenchimento não é obrigatório, podendo as partes deixar espaços em branco como foi o caso dos autos em que o Demandado emitiu cheque ao portador.
A partir do momento em que o cheque é preenchido e entregue, o emitente deixa de poder controlar a sua posterior utilização, não tendo assim qualquer possibilidade de impedir que os espaços em branco venham a ser preenchidos por outra pessoa.
Para além do risco de preenchimento abusivo, a falta de indicação da entidade a favor de quem o cheque é passado comporta igualmente alguns riscos. Nomeadamente, no caso de não existir entidade beneficiária do cheque, o banco que o vai pagar não está obrigado a exigir a identificação de quem se apresentar como seu portador, correndo-se o risco de, em caso de furto ou extravio, ficar por identificar a pessoa que dele se apropriou indevidamente.
Resulta do disposto no art. 19º da LUC, que o Detentor de um cheque endossável é considerado portador legítimo se justifica o seu direito por uma série ininterrupta de endossos, mesmo se o último for em branco.
Dos factos provados resulta que os autos desconhecem se aqueles terceiros teriam ou não, designadamente, algum crédito sobre o Demandante, ou se o levantamento foi consentido por este (770º a) e c)), tendo apenas resultado provado que pontualmente prestavam serviços para o Demandante.
Contudo, perante o acordado entre as partes, e sem conhecimento de qualquer alteração das circunstâncias, não é legalmente exigível ao Demandado proceder de forma diferente, nomeadamente controlando o seu percurso, porquanto a partir do momento em que entregou o cheque em causa nos autos “cruzado”, “não à ordem” e “ao portador” (fl. 23), deixou de ter qualquer possibilidade de seguir o mesmo, à semelhança de ter efectuado um pagamento com dinheiro para uma data de utilização posterior.
Cumpre esclarecer que “cheque cruzado” é um cheque atravessado por duas linhas paralelas e oblíquas, geralmente colocadas no canto superior esquerdo, o qual garante que só pode ser depositado em conta bancária, ou levantado por cliente do banco sobre o qual o cheque foi emitido, constituindo tal uma segurança em caso de roubo ou perda, porquanto é identificável quem procede à sua apresentação e efectivo levantamento, como se verifica nos autos através da identificação de E e F.
Cheque "não à ordem” é aquele onde consta essa expressão, e significa que só pode ser pago a quem ali constar como beneficiário. Não pode ser endossado. Um cheque “não à ordem” não pode ser alterado para cheque “à ordem de”. Caso isso seja efectuado o banco recusará o seu pagamento.
Por último ”cheque ao portador”, é um cheque no qual não é indicado o nome do beneficiário, pelo que como o próprio nome indica não tendo designação de beneficiário ou pessoa certa, considera-se portador do mesmo aquele que o possui, à semelhança do que acontece com as notas e moedas. O cheque ao portador pode ser pago a qualquer pessoa que o apresente no banco.
Assim é recomendável que quem quiser certificar-se de que o cheque só é pago determinada entidade, preencha sempre o nome do beneficiário, sendo este denominado de “cheque nominal ou nominativo”, o qual só pode ser descontado pelo próprio.
Na perspectiva do justo e do razoável importaria a efectiva relação entre as partes e os terceiros que levantaram o cheque, com quem existe por um lado relação familiar e por outro relação profissional.
Cumpre referir que face à relação de amizade, proximidade e confiança existente entre as partes, e as características das mesmas, no cumprimento da vocação dos Julgados de Paz, da justa composição dos litígios por acordo das partes e pacificação social, a resolução efectiva das relações interpessoais deve ser encontrada por outras vias de resolução de litígios, que possibilitem um trabalho conjunto, participativo e cooperativo das partes, onde para além das questões objectivas são investigadas, analisadas e tratadas as questões subjectivas. Tal é possível, em Santa Maria da Feira, neste Julgado de Paz, através da aceitação e participação voluntária na Pré Mediação e Mediação, que implica um compromisso das partes em trabalharem cooperativamente o seu diferendo, libertando-se das posições assumidas e trabalhando o conflito efectivo com o auxílio do Mediador de Conflitos, esclarecendo e compreendendo com verdade toda a situação. É assim, um trabalho possível, por via do qual pacificamente se pode concluir o processo.
Nos termos do disposto no artigo 26º/2 da LJP o Juiz de Paz pode decidir segundo juízos de equidade, se as partes assim o acordarem, não ficando sujeito aos critérios de legalidade estrita, quando o valor da acção não exceda metade do valor da alçada do tribunal de 1ª instância. Sucede que apesar do valor da acção permitir a decisão por equidade, o Demandante rejeitou tal possibilidade, tem de se aplicar a lei que vem ao caso, ficando o Juiz de Paz sujeito a critérios de legalidade estrita.
Sucede que as partes acordaram na modalidade de cheque emitido e entregue, não sendo desculpável ao Demandante o desconhecimento dos riscos que corria ao aceitar o mesmo e mantê-lo ao portador.
Deste modo, tendo em consideração os factos dados como provados, e o disposto na legislação aplicável, considera-se que o Demandado cumpriu efectivamente a sua obrigação de liquidação da quantia mutuada, ao entregar cheque ao Demandante no correspondente valor e nos termos acordados, não se encontrando em mora quanto foi extra judicialmente interpelado por carta registada de 16.06.2009, porquanto o cheque emitido e entregue ao Demandante foi efectivamente descontado em 27.04.2009. Termos em que não se pode assacar qualquer responsabilidade ao Demandando, resultando que a presente acção não pode ter provimento.
V - Decisão
Em face do exposto, julgo a presente acção improcedente, por não provada, e consequentemente absolvo o Demandado do pedido.
Nos termos da Portaria nº 1456/2001, de 28 de Dezembro, o Demandante é condenado na taxa única, que ascende a 70€ (setenta euros), devendo proceder ao pagamento dos 35€ em falta, no Julgado de Paz, no prazo de três dias úteis, a contar da data da notificação desta sentença, sob pena do pagamento de uma sobretaxa diária de 10€ (dez euros) por cada dia de atraso.
Cumpra-se o disposto no número 9 da mesma portaria, em relação ao Demandado.
A sentença (processada em computador, revista e impressa pela signatária - artigo 18º da Lei nº 78/2001, de 13 de Julho) foi proferida e notificada aos presentes, nos termos do artigo 60º, da Lei nº 78/2001, de 13 de Julho, que ficou ciente de tudo quanto antecede.
Registe.
Julgado de Paz de Santa Maria da Feira, em 01 de Março de 2010 A Juiz de Paz
(Dulce Nascimento)
Fonte: http://www.dgsi.pt