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PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO PUC-SP ELIETE DE SOUZA

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Academic year: 2018

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PONTIFICIA UNIVERSIDADE CATÓLICA DE SÃO PAULO

PUC-SP

ELIETE DE SOUZA

Mídia e a circulação e naturalização do politico corrupto como tipo de pessoa

DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

SÃO PAULO

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ELIETE DE SOUZA

Mídia e a circulação e naturalização do político corrupto como tipo de pessoa

DOUTORADO EM PSICOLOGIA SOCIAL

Tese apresentada à Banca Examinadora da

Pontifícia Universidade Católica de São

Paulo, como exigência parcial para obtenção

do título de Doutor em Psicologia Social, sob

a orientação do Prof. Dr. Mary Jane Paris

Spink.

SÃO PAULO

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Souza, Eliete

Mídia e a circulação e naturalização do político corrupto como tipo de pessoa. 127f. 2014.

Orientadora: Mary Jane Spink

Tese (doutorado) – Pontifícia Universidade Católica de São Paulo

1. Corrupção. 2. Políticos corruptos; Mídia; Práticas discursivas.

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BANCA EXAMINADORA

____________________________________

____________________________________

____________________________________

____________________________________

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AGRADECIMENTOS

Agradecer é solenizar a partilha. Partilha de tanto e de tantas coisas diferentes... De apoio, de incentivo, de compreensão, de críticas, ajudas múltiplas em situações tão variadas...

Agradecer à vida, a Deus e aos amigos: meus heróis e vilões. A CAPES, pelo apoio financeiro.

À minha orientadora Mary Jane, uma verdadeira lady... Firme e amorosa, presente e exigente. Uma longa e deliciosa relação de tantos aprendizados e sentimentos.

Aos colegas e amigos do Núcleo, parceiros de uma década: Vanda e Jack, ou quase meia década, Mari, George, Pedro, Samanta, Simone, Claudia, Bruna, Thiago, Camila e Jussara, pessoas tão queridas e tão especiais. Presentes e incentivadoras, parceiras colaboradoras sempre interessadas e dispostas umas com as outras. E os novos Mario, Roberth, Hercílio. Esse ciclo do Núcleo é o mais especial de todos...

Aos professores Marco Teixeira e Vera Chaia, tão dedicados e colaboradores. Provando que ciência e carinho são compatíveis.

Ao professor Peter Spink, primoroso em avaliações e sugestões, lorde da sensibilidade e das observações profundas e suaves.

Ao professor Salvador Sandoval, pela valiosa participação.

Às professoras Ciça e Ruth, pela acolhida e por mostrar que ser professores são muito divertidos também.

Agradeço à Marlene, por ajudar e orientar, tornando os caminhos difíceis e burocráticos mais possíveis.

Aos meus amigos, que tiveram que ouvir tantos nãos pela indisponibilidade da presença. Que participaram com amizade, apoio, aconchego, chá quente, incentivos e longas conversas, dentre tantos Carla e Erich, Beth Taino, Gianne, Pedro Azevedo.

Às pessoas com quem trabalho e que tiveram compreensão, paciência, admiração e fé no meu esforço neste trabalho.

A meu querido Edesio, tão presente e único.

À minha família, que acompanhou e apoiou, tendo respeito e admiração pelo esforço.

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Ouves no papel a pena?

Agora, acumula embargos à sentença que o

condena

O que outrora, em altos cargos,

Pelo mais breve conceito,

As rendas do Real Erário

Revertia em seu proveito!

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RESUMO

Esta tese integra-se à produção do Grupo de Estudos de Práticas Discursivas e Produção de Sentidos (CNPq) e do núcleo de pesquisa homônimo, que tem sua sede no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo. A pesquisa aqui apresentada insere-se mais especificamente no eixo que alinha questões de governamentalidade discutidas por Foucault e teorizações sobre práticas discursivas. Nessas, a questão da mídia tem relevância, sendo esta um produto social e, paralelamente, tendo o poder de fazer circular repertórios e versões de eventos. Tendo em vista o referencial epistemológico e teórico ao qual nos afiliamos, nesta pesquisa partimos do pressuposto de que a corrupção é uma construção social, não sendo essencial à natureza do homem. Trata-se de um fenômeno bastante complexo e presente em diferentes sociedades e em diferentes momentos históricos. Apesar da sua presença na vida social, raramente a ideia de corrupção é problematizada. A afirmação de que todo político é corrupto ou, ainda, de que somente no Brasil existe corrupção foi frequentemente encontrada em nossa inserção no campo de pesquisa, nos motivando a buscar entender alguns caminhos que possibilitam a naturalização desse fenômeno. Aceitar a corrupção e seus efeitos como algo natural, que faz parte da vida em sociedade e que não tem solução; que é algo comum e acontece todo dia, é o que chamamos de naturalização. De modo a demonstrar como ocorre esse processo de naturalização, escolhemos como estudo de caso a veiculação de informações sobre corrupção na mídia. Por meio da análise das matérias do jornal Folha de S.Paulo, procuramos mostrar que as notícias sobre corrupção concentram-se na área da política. De modo a entender as estratégias discursivas de construção do “tipo político corrupto”, utilizamos como evento crítico o caso conhecido como a “máfia das ambulâncias”, ou “escândalo dos sanguessugas”, e, como fonte de informação, para analisar a construção do tipo político corrupto, o site Rede de Escândalos da revista Veja.

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ABSTRACT

This doctoral thesis is part of the production of the Discursive Practices and Construction of Senses Study Group (CNPq) and of the homonymous research center of the Social Psychology Post-Graduate Studies Program of the Pontifical Catholic University of São Paulo (PUC). The research presented herein more specifically fits in the context that aligns governmentality matters discussed by Foucault and discursive practice theories. In such theories, media plays a key role for being a social product while at the same time having the power to disseminate repertoires and versions of events. Based on the epistemological and theoretical framework we are affiliated with, in this dissertation we assume corruption is a social construction not essential to human nature. It is a very complex phenomenon, present in different societies and in different historical moments. Even though it is part of social life, the idea of corruption is rarely problematized. We have frequently found in our research the affirmation that every politician is corrupt, or even that corruption exists only in Brazil, which has encouraged us to try to understand to a certain degree what causes the naturalization of this phenomenon. Accepting corruption and its effects as something natural that is part of life in society and that has no solution, that it is something that happens every day, is what we call naturalization. In order to demonstrate how this naturalization process occurs, our case study is on how the media publishes information about corruption. By analyzing stories on the Folha de S.Paulo daily, we have attempted to demonstrate news on corruption concentrates in the political sphere. So as to understand the discursive strategies used to construct the “corrupt political type,” we used the case known as the “ambulance mafia” or “leeches scandal” as critical event, and our information source to analyze the construction of the corrupt political type was the Scandals Network website of the Veja magazine.

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RÉSUMÉ

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SUMÁRIO

CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO 13

CAPÍTULO 2 – O QUE SE ENTENDE POR CORRUPÇÃO? 17

2.1 PROBLEMATIZANDO O CONCEITO DE CORRUPÇÃO 17

2.2 O CONCEITO DICIONARIZADO 18

2.2.1 Modificações Históricas do Conceito de Corrupção 18 2.3 A DISCUSSÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE CORRUPÇÃO 21 2.4 IMPACTOS DA CORRUPÇÃO NA ECONOMIA 25

2.5 CORRUPÇÃO NA PERSPECTIVA DA POLÍTICA E DE 27

SUAS INSTITUIÇÕES CAPÍTULO 3 – O PAPEL DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DE FATOS SOCIAIS 31 3.1. MÍDIA E PRÁTICAS DISCURSIVAS 31 3.2 MÍDIA, OS PROCESSOS SOCIAIS E O PODER MIDIÁTICO 33 3.3 NOVOS CAMINHOS MIDIÁTICOS: A RELEVÂNCIA 41 DA INTERNET CAPÍTULO 4 – MÍDIA E VISIBILIDADE 46 4.1 MÍDIA, VISIBILIDADE E TRANSFORMAÇÕES NAS RELAÇÕES DE PODER 46

4.2 ESCÂNDALOS POLÍTICOS 50 CAPÍTULO 5 – A CIRCULAÇÃO E NATURALIZAÇÃO DA CORRUPÇÃO POLÍTICA 59

5.1 O PODER DA MÍDIA NA NATURALIZAÇÃO DE FENÔMENOS 59 SOCIAIS: O CASO DA CORRUPÇÃO POLÍTICA 5.2 A MÍDIA E A ÊNFASE NA CORRUPÇÃO POLÍTICA 63

5.3 NOVAS FORMAS DE VISIBILIDADE DA CORRUPÇÃO: A POLÍTICA DA TRANSPARÊNCIA 66

CAPÍTULO 6 – A CONSTRUÇÃO DO TIPO POLÍTICO CORRUPTO 71 6.1 CORRUPÇÃO: UM TRAÇO DO CARÁTER NACIONAL 71

BRASILEIRO? 6.2 A CONSTRUÇÃO DE “TIPOS” COMO OFERTA DE POSIÇÕES DE PESSOAS 74 6.3 AS CARACTERÍSTICAS DO “TIPO POLÍTICO CORRUPTO” EM CIRCULAÇÃO NA MÍDIA 78

6.3.1 A Máfia das Ambulâncias: Breve Descrição 79 6.3.2 A Construção do Tipo “Político Corrupto” no Site Rede de Escândalos da Revista Veja 85

6.4 O TIPO POLÍTICO CORRUPTO QUE CIRCULA NA MÍDIA: SÍNTESE 98

CAPÍTULO 7 – CONSIDERAÇÕES FINAIS 102

8 REFERÊNCIAS 108

Anexo A - Sites sobre corrupção. 113

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CAPÍTULO 1 – INTRODUÇÃO

Esta tese está inserida no conjunto de estudos sobre construção social de fatos, processo no qual o uso da linguagem é de fundamental importância. Trata-se de uma das linhas de pesquisa do grupo Práticas discursivas e produção de sentidos (CNPq) e do núcleo de pesquisa homônimo, que tem sua sede no Programa de Estudos Pós-Graduados em Psicologia Social da Pontifícia Universidade Católica de São Paulo.

À luz do papel da linguagem na construção de fatos sociais e na produção de sentidos no cotidiano, a psicologia discursiva resulta basicamente de dois movimentos confluentes: (1) as reflexões sobre conhecimento que levaram ao questionamento da retórica da verdade; e (2) a virada linguística na filosofia da linguagem, ou giro linguístico. Embora confluentes, os dois movimentos não são sinonímicos.

As bases epistemológicas e teóricas desse empreendimento podem ser sistematizadas em três eixos: uma perspectiva política que concentra suas discussões principalmente na governamentalidade e os seus efeitos; uma perspectiva linguística em que se enfatizam as práticas discursivas do cotidiano e na qual a noção de linguagem é entendida como forma de ação social, cujo foco é na interação, nas práticas sociais e no processo; e, finalmente, um eixo que concentra estudos de ontologia política e construcionismo.

Cada um desses eixos dialoga com determinados autores cujas reflexões voltam-se às problemáticas acima descritas. Ao tratarmos a produção de voltam-sentidos como processo dialógico, que leva à análise de práticas discursivas, temos por base os teóricos Rom Harré e Mikail Bakhtin e os conceitos de enunciação, interlocutores ou vozes e interanimação dialógica. O eixo sobre os efeitos da governamentalidade dos discursos contextualizados, nos direciona à análise da linguagem em documentos de domínio público; sendo as principais influências teóricas Michael Foucault e J. B. Thompson.

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De modo a demonstrar como ocorre esse processo de naturalização, escolhemos, como estudo de caso a veiculação de informações sobre corrupção,tema que vem assumindo especial relevância sobretudo após a aprovação da Lei da Transparência, em 2011. Porém, não se trata apenas de accountability governamental. Nas primeiras incursões ao campo-tema1 (SPINK, P., 2003), deparamos com falas que circulam nas conversas do cotidiano que apontam, de um lado, para a corrupção como característica do próprio caráter nacional do brasileiro e, de outro, como sendo traço arraigado da vida política do país. Foram essas primeiras inserções no campo-tema que nos provocaram a procurar entender o papel da mídia na naturalização dessas concepções.

Tendo em vista o referencial epistemológico e teórico ao qual nos afiliamos, nesta pesquisa partimos do pressuposto de que a corrupção é uma construção social, não sendo essencial à natureza do homem. Trata-se de um fenômeno bastante complexo e presente em diferentes sociedades e em diferentes momentos históricos. A corrupção está em todas as esferas da vida, em todos os lugares e em distintas épocas, não sendo exclusiva de nenhum grupo, sociedade ou lugar.

Trata-se, portanto, de uma prática social que é constituída por uma rede de elementos heterogêneos. Ou seja, a corrupção não existe por si, isoladamente; ela é sustentada por pessoas, instituições, sistemas e formas de poder, documentos, diferentes materialidades e sociabilidades (LAW; MOL, 2002). Como tal, é prática bastante presente na vida social. Uma das formas que a corrupção assume no cotidiano diz respeito à maneira corrupta de se agir como recurso para obter ou conseguir coisas mais rápido ou eficazmente e tratar esse comportamento como algo normal ou natural. Práticas corruptas não são raras ou desconhecidas, sendo muitas vezes toleradas, tendo, inclusive, para nomeá-las uma expressão: “o jeitinho brasileiro”, que promulga a forma que as pessoas usam para resolver entraves, buscar vantagens ou privilégios, muitas vezes entendida como a única, pois de outra maneira não se conseguiria chegar aos resultados desejados individualmente.

Nesta pesquisa, nos interessam os processos de naturalização e essencialização de noções acerca de corrupção. Consequentemente, a investigação focaliza o papel da mídia nesses processos tendo em vista que a corrupção é frequentemente pensada a partir de escândalos, sendo esses veiculados na mídia por meio de matérias que nos levam a pensar que

1Para o autor, campo-tema refere-se ao contato com o campo que se configura desde a inserção no problema,

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todos os políticos são corruptos, que o governo é brando em relação aos atos de corrupção e que a penalização é inexistente. A exposição de um escândalo dessa natureza não é acompanhada do processo de solução com a mesma ênfase, sugerindo que o que mais dá resultados midiáticos é o “problema”, e não a solução. Cabe aqui outro repertório que circula no cotidiano brasileiro: “tudo acaba em pizza”, usado para expressar a falta de fé na Justiça e na correção dos crimes de corrupção.

Apesar da presença na vida social, raramente a ideia de corrupção é problematizada. A tese de que todo político é corrupto ou, ainda, de que somente no Brasil existe corrupção foi frequentemente encontrada em nossa inserção no campo de pesquisa, nos motivando a buscar entender alguns caminhos que possibilitam a naturalização desse fenômeno. Por um lado, há um investimento midiático na divulgação dos escândalos de corrupção, que denuncia e propicia a crítica. Porém, por outro lado, a repetição de notícias sobre corrupção envolvendo figuras públicas pode ter como efeito a ideia de que essa prática é comum, normal ou que não tem jeito; é assim mesmo. A cada novo escândalo, o anterior é esquecido, seus personagens e sua dinâmica são sobrepujados pelo próximo.

Aceitar a corrupção e os efeitos como algo natural, que faz parte e que não tem solução, que é algo comum e acontece todo dia, é o que chamamos de naturalização.

Nesse sentido, o objetivo desta pesquisa é discutir o papel da mídia na naturalização da corrupção, por meio da construção discursiva do tipo político corrupto. Para isso, nossa linha de argumento começa com a questão: de que corrupção se fala? Este é o tema do capítulo 2, no qual abordamos as diversas formas pelas quais a corrupção tem sido conceituada. Iniciamos com uma breve contextualização histórica, seguida por uma incursão na bibliografia contemporânea sobre o tema, considerando as dimensões econômicas e políticas acarretadas pela corrupção nas esferas de governo.

A circulação de episódios e situações de corrupção tem nas conversas do cotidiano um dos espaços privilegiados, em que experiências e opiniões são articuladas no boca a boca. Nesses espaços dialógicos, a mídia assume papel de relevância à medida que alimenta, informa e oferece material para as discussões e formação de posicionamentos. A mídia foi o caminho escolhido nesta tese para entender a circulação da corrupção, considerando que ela é uma das principais formas de apresentar, esconder, informar e apresentar a corrupção para a sociedade. Esse será o tema do capítulo 3.

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matérias do jornal Folha de S.Paulo (FSP), procuraremos mostrar que as notícias sobre corrupção concentram-se na área da política.

O argumento central do capítulo 5 é que na vida social ocorre a naturalização de ideias e conceitos que, por sua vez, geram comportamentos e expertises. Nesse processo, a mídia tem papel importante por fazer circular repertórios que levam à ideia de que a corrupção é quase exclusiva aos meios políticos. Como demonstração, apresentamos um levantamento sobre matérias do jornal escolhido, de 2000 a 2012.

No capítulo 6, trazemos a discussão sobre o tipo “político corrupto”, tomando por base a concepção de “tipo” proposta por Hacking, que mostra que a construção de tipos de classificações é produzida no mundo social, nunca sendo aleatória. Ou seja, não basta circular a ideia de que a corrupção ocorre essencialmente nos meios políticos; ao apresentar casos e discutir o envolvimento de pessoas em atos corruptos, a mídia faz circular também certas características pessoais que levam à naturalização do “tipo político corrupto”.

Utilizaremos como evento crítico para essa discussão um caso conhecido como a “Máfia das Ambulâncias”, ou “Escândalo dos Sanguessugas”, e, como fonte de informação, para analisar a construção do tipo político corrupto, o site Rede de Escândalos da revista Veja. A “Máfia das Ambulâncias” foi escolhida por ser um caso exemplar de corrupção, que responde a alguns critérios por nós definidos: ocorrido em período recente; já estar concluso em termos de investigação, julgamento e punições; envolver políticos de diferentes partidos e níveis (municipal, estadual e federal); envolver empresas privadas e funcionários públicos; e, finalmente, ter dimensão nacional, já que ocorreu em vários Estados brasileiros. A Veja foi escolhida por ter em seu site espaço de apresentação de vários escândalos e a descrição dos envolvidos, com facilidade de acesso.

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CAPÍTULO 2 – O QUE SE ENTENDE POR CORRUPÇÃO?

Neste capítulo abordamos as diversas formas pelas quais a corrupção tem sido conceituada. Iniciamos com uma breve contextualização histórica para, então, fazer uma incursão na literatura contemporânea sobre o tema. Considerando as múltiplas associações com corrupção, organizamos a revisão bibliográfica em temas, iniciando com conceituações atuais e adentrando em suas dimensões econômicas e políticas.

2.1 PROBLEMATIZANDO O CONCEITO DE CORRUPÇÃO

O administrador público estava enriquecendo por meio de negociatas, favorecimentos e esquemas até que, descobrindo isso, um líder comunitário resolveu agir para defender os interesses coletivos e o denuncia. Porém, o líder comunitário acabou por ceder aos esquemas especulativos e envolveu-se com o sistema.

Será esse pequeno relato uma notícia de jornal, uma matéria de revista, um livro de ficção ou um documentário, uma conversa de bar, uma nota num blog ou site da internet? Ou, ainda, um roteiro de filme? Seria difícil identificar, mas é fácil perceber que a breve narrativa descreve um episódio de corrupção. Ficção ou realidade, atual ou antigo, eventos que envolvem corrupção fazem parte de nosso cotidiano.

O trecho acima está na sinopse do filme Le mani sulla Cittá, de 1963, do diretor italiano Francesco Rossi, e ilustra como o tema da corrupção circula no mundo todo e há muito tempo.

Essas situações e acontecimentos sobre corrupção fazem parte do dia a dia das pessoas em diferentes lugares, em vários países, Estados ou municípios. Em outras palavras, a corrupção está presente em pequenos ou grandes locais, espaços públicos e/ou privados; e não é somente um fenômeno brasileiro. Também não é assunto novo, existindo registros de situações dessa natureza ao longo de toda a história da humanidade. Construído e envolto em atmosfera de segredos, quando descoberto e revelado, um episódio de corrupção se torna objeto de análise de comentaristas e especialistas, promove discursos defensivos e acusativos, entra em discussões e nas conversas das pessoas. Muito se escreve e se fala sobre corrupção.

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divulgação da corrupção na vida social? É possível transformar essa cultura ou a forma de enxergar o fenômeno? Essas são algumas questões que nos desafiam nesta tese.

Chaia e Teixeira (2001) afirmam que os estudos de corrupção possuem um objetivo principalmente instrumental e moral e não propriamente científico. Isso porque, segundo os autores, as causas e os elementos desencadeadores de casos de corrupção não são avaliados e tampouco destacados.

Nesta tese partimos da premissa de que o conceito de corrupção é produzido por pessoas em determinadas épocas e sociedades, sendo um equívoco desvincular seu sentido do contexto social em que foi produzido. Entendemos que problematizar o conceito de corrupção é considerar as negociações presentes, as origens, os sentidos, os caminhos, as condições em que o conceito emergiu, as regras que o permeiam e que o sustentam e também os saberes que se estabelecem a partir disso.

2.2 O CONCEITO DICIONARIZADO

Para iniciar a discussão sobre o conceito de corrupção buscamos algumas definições dicionarizadas. No Dicionário etimológico da língua portuguesa, Cunha nos apresenta os seguintes termos para definir corrupção: corromper, estragar, decompor, perverter, depravar. Em outro dicionário da língua portuguesa, escrito por Ferreira, a corrupção é definida como “[...] ato ou efeito de corromper; decomposição; devassidão; depravação; suborno; peita”. Podemos dizer que em ambas as definições a corrupção é enfatizada como algo negativo, sugerindo que existe um estado “normal” que, através da ação da corrupção, é estragado, depravado ou decomposto.

Na vida contemporânea, utilizamos o sentido de corrupção como proposto por esses verbetes do dicionário. Porém, ressalvamos que nem sempre foi assim, uma vez que historicamente o conceito de corrupção teve significados diferentes.

2.2.1 Modificações Históricas do Conceito de Corrupção

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dois mundos: dos deuses e dos homens. O mundo dos deuses era sempre perfeito e incorruptível; o dos homens, ao contrário, era suscetível constantemente à corrupção.

Segundo Filgueiras (2008), Aristóteles acreditava que o mundo natural estava sujeito constantemente à corrupção, entendida como um processo de mudança com base em um substrato material que se colocava de modo inseparável dos princípios que organizavam a natureza. O ser, mesmo sujeito à corrupção, era compreendido pela ordem e estabilidade, e o movimento de corrupção tinha o poder de dissolução da diversidade e da mudança, sendo necessária a corrupção para a natureza. Ou seja, “[...] a solução de continuidade de uma ordem depende da possibilidade constante de sua corrupção, sendo ela necessária para a integridade do ser frente à diversidade do universo” (FILGUEIRAS, 2008a, p. 30).

Dessa forma, o pensamento aristotélico indica que não há possibilidade de erradicar a prática da corrupção, pois ela está relacionada à ordem e o que se pode fazer é mantê-la sob controle; uma forma política perfeita é impossível.

[...] já que o mundo, tanto natural quanto político, assenta-se na unidade ontológica e, ao mesmo tempo, no movimento que demanda para sua continuidade, mecanismos de controle sobre a possibilidade de desordem (FILGUEIRAS, 2008a, p. 33).

Nos séculos iniciais da era cristã, a noção de corrupção estava associada ao processo natural da vida. Dito de outra forma, na regra da vida, os seres nascem, crescem e se desenvolvem, atingem um ápice e depois começam a se degenerar, chegando finalmente à morte. Esse processo carrega uma noção “natural” do termo corrupção.

A corrupção teve sua primeira designação num contexto biológico ou naturalista, e foi associada a um dos momentos do ciclo da vida, no instante em que o corpo começa a perder seu vigor, sua força, sua vitalidade e ruma para a morte (MARTINS, 2008, p. 14).

Os filósofos desse período, ao entenderem as cidades como corpos naturais, estenderam a imagem biológica da corrupção para o mundo político e social, não havendo nesse pensamento ênfase ou conotação moral. Entretanto, ao longo do tempo a corrupção se transferiu do campo da concepção biológica para o campo da moral, passando a ser vista como um critério para qualificar a vida na sociedade.

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decorrência das normas políticas, porque se entendia que o homem dependia da coletividade, do grupo social, da polis.

Essa situação se inverteu na Era Cristã, quando se constata a subordinação dos critérios políticos à moralidade cristã. Nessa visão, as qualidades morais de um governante são paralelas aos ideais de vida de um cristão, de santidade. É a partir dessa visão que se julga que os impérios romano, persa, babilônico e egípcio caem pela falta de “[...] retidão moral de seus membros, principalmente seus governantes, uma corrupção eminentemente moral” (MARTINS, 2008, p. 20).

Corrupção para o homem latino dos séculos I e II era um termo formado a partir da conjunção de outros termos: cum e rumpo (do verbo romper), significando romper totalmente, quebrar o todo e quebrar completamente, levando logo a uma ideia de destruição.

Filgueiras (2008) sustenta que o império romano, a partir do século IV, introduziu novas conotações ao conceito de corrupção, em função da forma como a religião regia as práticas políticas: a fragmentação do império e a oficialização do cristianismo geraram uma mudança que centralizou a ideia de decadência nas proposições da filosofia política. Ou seja, a ideia da decaída do homem como premissa para pensar a política e suas instituições.

O autor observa que a Idade Média “[...] também assistiu a uma mudança conceitual da temática da corrupção, uma vez que o pensamento político estaria marcado pelo dogma cristão e pela existência de uma antologia cindida entre dois mundos” (FILGUEIRAS, 2008a, p. 55). De um lado, o mundo sagrado e, do outro, o dos homens, caracterizado pela decadência e pela luxúria, corrupção que era associada a luxo e cobiça.

Martins (2008) afirma que foi Maquiavel quem buscou separar o campo da política e o da ética e da moral. O mundo político possui regras próprias e deve ser avaliado segundo elas, e não por critérios da moral particular. A distinção entre a corrupção política e a corrupção moral é um dos marcos do pensamento político moderno. Martins também propõe que as análises de caráter moralizante são menos adequadas para entender a corrupção e prefere ressaltar o caráter político, considerando que o discurso político enfatiza principalmente comportamento e poder.

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Para Filgueiras (2008), o nascimento da ciência moderna proporcionou uma virada no conceito de corrupção, uma vez que desvinculou o problema da corrupção do problema moral das virtudes. Na vida política, houve uma separação entre moral e lei, passando a existir uma autoridade soberana que concentra o comando como domínio formal. Em seu estudo sobre a história do conceito de corrupção, o autor afirma que o pensamento político moderno trabalha com o problema da corrupção por meio de uma semântica diferente do aristotelismo e republicanismo, “[...] moralizando os interesses e encobrindo o tema das virtudes, reproduzindo a ordem por uma organização das necessidades em contextos econômicos” (FILGUEIRAS, 2008, p. 80).

Renato Janine Ribeiro (2000) afirma que a corrupção teve significados diferentes de acordo com o sistema de governo predominante. Assim, na monarquia não havia a separação entre bem público e bem privado, logo, a corrupção era entendida como “[...] usura dos costumes” (p. 176) a compreensão atual sobre corrupção é um fenômeno da moderna República, atualmente entendida como “[...] mau trato dos dinheiros públicos” (p. 176).

2.3 A DISCUSSÃO CONTEMPORÂNEA SOBRE CORRUPÇÃO

Marcos Silva (2001) afirma que a palavra corrupção tem a mesma acepção e a origem em francês, italiano, espanhol e inglês; provém do latim, significando decomposição, putrefação, depravação, desmoralização, sedução e suborno. O autor lembra que o senso comum relaciona corrupção com poder, com os políticos e com as elites econômicas, considerando-a como algo frequente e comum. Afirma – e concordamos com ele – que nem sempre é tarefa fácil distinguir o que é corrupção. As burocracias modernas possuem elevado poder discricionário, sendo difícil distinguir entre um comportamento legal e ilegal, corrupto ou não. Em determinadas circunstâncias podem existir critérios técnicos variáveis que justifiquem certas decisões. Silva exemplifica que nem sempre é possível medir a capacidade de um indivíduo em cargos burocráticos ou, ainda, as alocações de recursos no âmbito de orçamentos públicos, que dependem de negociações e troca de favores políticos. Essas são situações limítrofes que podem aparentar determinada coisa e ser outra.

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humanidade; é sempre um ato imoral e de traição da confiança do público em suas instituições.

O autor afirma que a ideia de corrupção e as suas várias definições possíveis envolvem uma noção de legalidade e ilegalidade, sendo a definição do que é legal ou ilegal condicionada pela história e pelo conjunto de valores de uma sociedade, e que muitas sociedades definiram corrupção nos limites de ilegalidade e crime. Definindo a corrupção pública como um ato ilegal, criminoso e ilegítimo, afirma:

A corrupção pública é uma relação social (de caráter pessoal, extramercado e ilegal) que se estabelece entre dois agentes ou dois grupos de agentes (corruptos e corruptores), cujo objetivo é a transferência de renda dentro da sociedade ou do fundo público para realização de fins estritamente privados. Tal relação envolve a troca de favores entre os grupos de agentes e geralmente a remuneração dos corruptos com o uso da propina de qualquer tipo de pay-off (prêmio, recompensa) (SILVA, 2001, p. 31).

Bobbio (1998), em seu dicionário de política, define corrupção como o “[...] fenômeno pelo qual um funcionário público é levado a agir de modo diverso dos padrões normativos do sistema, favorecendo interesses particulares em troco de recompensa” (p. 292). O autor descreve três tipos de corrupção: a peita (recompensa, propina); o nepotismo; e o peculato (desvio de verba).

Bobbio ressalta a relação entre os indivíduos envolvidos no processo: corrupção significa transação ou troca entre quem corrompe e quem se deixa corromper. Nesse sentido, enfatizar a relação considerando os dois polos é algo muito importante e nem sempre observado no senso comum, como observamos em nossa inserção no campo de pesquisa.

Para o autor, a corrupção é uma forma particular de exercer influência; influência ilícita, ilegal e ilegítima em três pontos: tomada de decisões, acesso privilegiado e fuga de sanções. Acentua que a corrupção tem de ser entendida dentro da legalidade/ilegalidade, e não da moralidade/imoralidade.

Em sua apresentação conceitual sobre corrupção, Bobbio faz duas distinções importantes: entre as práticas sociais e normalizações legais e entre o setor público e o privado.

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Marcos Silva (2001) realizou um estudo sobre a corrupção dos agentes públicos no qual relacionou várias definições de corrupção: a) prática do uso do poder do cargo público para obtenção do ganho privado à margem das leis; b) comportamento que foge das normas para atingir fins privados; e c) mau uso do poder político para benefícios privados.

O autor também nos apresenta a teoria S.H.Alatas, segundo a qual a corrupção é o uso da máquina pública para transferir renda para os agentes envolvidos, podendo ser divida em sete formas: transativa, extorsiva, defensiva, preventiva, nepotista, autogerativa e de apoio. A corrupção transativa envolve a transação entre agentes públicos e privados que agem como caçadores de renda; a corrupção extorsiva implica pagamento de propina para obter vantagem e evitar algum prejuízo ao pagador; a corrupção defensiva diz respeito ao pagamento de propina para evitar coerção e se defender; a corrupção preventiva é o pagamento de propinas ou presentes para obter ganhos no futuro; corrupção nepotista refere-se ao favorecimento de familiares para cargos públicos; a corrupção autogerativa é aquela que envolve o ato de um agente público que se autofavorece; e a corrupção de apoio é a praticada para encobrir a corrupção já existente.

Carvalho (2008) observa que no Brasil a palavra corrupção sempre foi usada, mas a semântica e a dimensão foram alteradas no percurso histórico do termo. O autor afirma que a corrupção política é um fenômeno histórico, que apresenta algumas evidências históricas marcantes para sua definição.

As acusações de corrupção dirigidas ao Império e à Primeira República não se referiam a pessoas, mas principalmente ao sistema. Nenhum republicano acusava D. Pedro II de presidir uma administração corrupta ou de ser ele mesmo corrupto. (CARVALHO, 2008: 238)

Ele relata que, a partir de 1945, a oposição a Getúlio Vargas2 passou a ressaltar a corrupção individual, entendida como falta de moralidade das pessoas. Essa foi uma importante mudança semântica do conceito, uma vez que deixa de enquadrar o sistema como

2

Getúlio Vargas assumiu o poder em 1930, após comandar a Revolução de 1930, que derrubou o governo de Washington Luís. Sob seu governo foi promulgada a Constituição de 1934 e fechado o Congresso Nacional, em 1937. Com isso, Vargas instalou o Estado Novo, passando a governar com poderes ditatoriais. Centralizador e controlador, Vargas criou o temido DIP (Departamento de Imprensa e Propaganda) para controlar e censurar manifestações contrárias ao seu governo, perseguindo e prendendo opositores políticos. Em 1950, voltou ao poder através

de eleições democráticas, dando continuidade a uma política nacionalista. Em agosto de 1954, Vargas suicidou-se no Palácio do Catete com um tiro no peito, após forte pressão política por parte da imprensa e dos militares, que acusavam sua gestão de corrupta.

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corrupto e inverte para os individuos, que passam a ser tratados e entendidos como corruptos. Carvalho (2008), que acredita que essa visão se faz presente até hoje na política brasileira, critica esse padrão. Para ele, apesar de envolver o comportamento individual, a corrupção deve ser enfatizada em uma perspectiva política e sistêmica, não moralista.

O autor adverte que mudou também a dimensão da corrupção: o tamanho da corrupção política depende da natureza e do tamanho do Estado, acentuando que “[...] quanto mais despótico o Estado, maior a corrupção pela dificuldade de combatê-la. Quanto maior o Estado, quanto mais recursos ele controlar, maiores as oportunidades de corrupção” (CARVALHO, 2008, p. 239).

Para Marcos Silva (2001), no Brasil a corrupção é um fenômeno estrutural. O autor acredita que um elemento importante nessa discussão é a compreensão do que é público e o que se entende como privado. Silva afirma que grande parte da sociedade se estrutura em grupos que se apropriam da res publica3 e, muitas vezes, a sobrevivência econômica e política exige o mesmo tipo de ação por parte de vários outros grupos e agentes. A corrupção passa a ser, então, institucionalizada e naturalizada. Isso ocorre porque, como é inerente à dominação patrimonialista, não há uma distinção entre a coisa pública e a privada.

Um dos pilares da corrupção são as relações de clientelismo. Silva (2001) escreve que nos Estados Unidos o aprofundamento da democracia e do papel da burocracia profissional, juntamente com o crescimento econômico e o aumento da mobilidade social, reduziu o espaço das relações clientelistas. Outro caso são as “panelinhas”, um tipo de instituição que fundamenta o clientelismo e o patrimonialismo, presentes em todas as áreas da vida social, sempre envolvendo disputas por interesses econômicos e políticos. O autor define as panelinhas como “[...] um grupo informal fechado onde predominam alguns interesses em comum” (p. 54).

O patrimonialismo e o clientelismo brasileiros possuem uma dimensão extremamente perversa, já que a necessidade de participar de uma panelinha é imposta como condição de sobrevivência política e econômica dos agentes. (SILVA, 2001, p. 55).

Considerando que a corrupção está apoiada, em grande parte, na miséria como moeda política, na falta de aprofundamento dos sistemas de controle e, no limite, na imaturidade de nossa democracia, Silva acredita, ainda, que o combate à corrupção depende

3Expressão latina que significa literalmente “coisa do povo”, “coisa pública”, sendo a origem da palavra

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de uma batalha cultural, de uma mudança nos sistemas e mentalidades e de uma permanente luta persuasiva, sendo importante informar as pessoas, mostrando-lhes os custos e as inconveniências geradas pela corrupção.

2.4 IMPACTOS DA CORRUPÇÃO NA ECONOMIA

Chaia e Teixeira (2001) lembram que o tema da corrupção entra na agenda política, e a partir dos anos 1990 se associa umbilicalmente às necessidades das reformas políticas e institucionais. Os autores lembram que os relatórios do Banco Mundial, principalmente a partir de 1996, “[...] são enfáticos em relação ao tema da corrupção e incentivam pesquisas que busquem detectar áreas e instituições ‘contaminadas’ pela corrupção e que sejam alvo privilegiado de reformas estruturais e institucionais” (p. 63).

Na discussão contemporânea, uma das formas de compreender a corrupção se dá pelo viés da economia, sendo isso característica das democracias modernas que também associam a corrupção com a prática política.

Abramo (2005) critica as pesquisas disponíveis sobre o problema da percepção da corrupção, considerando a imprecisão e a dificuldade de se firmar uma correlação efetiva entre a corrupção existente num país e sua percepção pela população. O autor afirma que mesmo seus impactos sobre a economia são discutíveis, citando como exemplo a carência de levantamentos empíricos, o que não permite aferir em que medida investidores internacionais utilizariam essas percepções em seus processos decisórios. Existem diferentes estratégias para a medição da corrupção: a pesquisa de opinião, o número de ações e de condenações efetivamente impostas e executadas, o que é divulgado pela mídia. Mas nenhuma delas consegue efetiva e absolutamente dimensionar o problema e, consequentemente, não podem ser consideradas eficientes para indicar o grau de corrupção.

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Para Susan Rose-Ackerman (2001), a corrupção é o uso incorreto do poder público para obtenção de benefícios privados. A autora reconhece que a corrupção se apresenta como um problema cultural e político. No sentido político estão implicadas as relações da democracia, principalmente no tocante às eleições e ao controle do poder político, que incluiu o legislativo e judiciário; no aspecto cultural, consideram-se os subornos e as dificuldades com o público e o privado. Porém, ela enfatiza que, embora as diferenças culturais e da moral sejam importantes para a compreensão da corrupção, a economia é uma poderosa ferramenta para análise do fenômeno, pois é nesse âmbito que se observa a sua maior motivação e o seu maior impacto.

Para Rose-Ackerman, a corrupção pode ter suas raízes na cultura e na história, mas não deixa de ser um problema econômico e político. Produz ineficácia e injustiça na distribuição dos benefícios e nos custos públicos. É um sintoma de que o sistema político está funcionando com pouca preocupação no interesse público geral. Indica que a estrutura do governo não canaliza eficazmente os interesses privados. A legitimidade política é enfraquecida se o governo permite a alguns obter ganhos privados desproporcionais à custa de outros. O estudo da corrupção obriga cientistas e atores políticos a centrarem-se na tensão que existe entre o comportamento egoísta e os valores públicos, bem como enfatizar a distinção entre normas públicas e privadas.

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2.5 CORRUPÇÃO NA PERSPECTIVA DA POLÍTICA E DE SUAS INSTITUIÇÕES

Muitas vezes se acredita na corrupção como algo eficiente e que faz o sistema funcionar. Essa crença leva à concepção de que é algo tolerável, virtuoso ou funcional, um meio, às vezes o único, de contornar os obstáculos burocráticos e se obter o que se necessita. Nesse enfoque a corrupção é vista como um comportamento adaptativo útil dentro do sistema, que usa de uma pseudolegalidade para atingir os fins desejáveis, se valendo de determinadas trocas ilegais entre os atores para superar os entraves burocráticos ou uma gestão engessada. Nesse caso, os esquemas de corrupção servem tanto para contornar as regras burocráticas quanto para reduzir os efeitos desiguais de mercado e movimentar estruturas rígidas. Um exemplo comum é o de um departamento público que tem verba para usar em determinada compra, porém, o que foi autorizado não é necessário, então se monta um esquema de notas ‘’frias’’ com fornecedores e compradores para se comprar o outro produto e atender uma demanda mais premente.

Outro tipo de corrupção é o chamado clientelismo; neste. Nele não há somente o ganho pessoal, mas também a promoção de um ganho social com redistribuição de beneficios obtidos, relações pacíficas, estabilidade social e política, o que muitas vezes explica por que a corrupção pode ser tolerada pelas autoridades públicas e pela sociedade. Um exemplo desse caráter dinâmico e funcional: sem o esquema de corrupção, não se consegue aquele contrato e sem contrato pode acorrer perda de empregos, crise social e falência de negócios.

A corrupção nesse enfoque enviesado assume a forma de uma modalidade de negociação que visa tornar uma norma ou regra favorável a determinados grupos, sobrepujando os níveis legais e econômicos. Assim, cria-se uma solução oportuna para vários conflitos de interesse, o que leva à tolerância da transgressão das normas.

Consonante com a discussão apresentada aqui, notadamente com Silva (2001) e Filgueiras(2008 a), entendemos que a corrupção é usada como instrumento por alguns grupos econômica ou politicamente favorecidos que possuem algum tipo de poder, que usam seus recursos privados para determinar ou influenciar políticas públicas em seu benefício. Nesse sentido, proporcionam o favorecimento e a apropriação privada dos recursos públicos, o que gera a reafirmação e o aprofundamento das desigualdades.

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porque constituem valores que funcionam como motivos para ação. O autor entende a corrupção como um tipo de patologia que está associada aos processos de decadência institucional.

Silva e Baptista (2001) acreditam que, para se compreender a corrupção, é necessário ter como pressuposto os valores e as normas, já que ela implica transgressão de uma norma. Os autores sugerem que se deve entender a corrupção a partir da crítica moral da política e de suas instituições. Lembram que “[...] ser corrupto no Brasil implica roubar o dinheiro público para fins pessoais, privados” (SILVA; BAPTISTA, 2011, p. 723). Os autores afirmam que os valores e a moral são bem mais abrangentes para o entendimento da corrupção, e que, ao desviar a compreensão do problema corrupção para o conceito mercantil, a afastamos dos valores ligados à lei.

Nosso levantamento inicial nessa pesquisa demonstrou que nem sempre a corrupção envolve valores monetários diretamente. Observamos que em alguns casos implica trocas informais de favores e compromissos, se torna parte de um sistema de troca generalizada que pode ter um aspecto de legal ou natural, mesmo não sendo, como, por exemplo, acesso ao emprego, progressão na carreira, indicação de produtos e empresas, favorecimento de um grupo específico, acesso a informações. Isso evidencia a relação de simbiose entre a corrupção e o sistema.

Filgueiras (2008a) alega que a corrupção é um fato inerente ao campo da política, acentuando que a ciência política excluiu do plano analítico da corrupção toda conotação moral. Assim, o autor apresenta como alternativa partir da premissa de que a corrupção só pode ser compreendida por meio da crítica moral da política e das suas instituições: “O conceito de corrupção só é compreensível se tomarmos, de forma pressuposta, a discussão de valores e normas. Afinal, só existe corrupção quando uma norma é transgredida” (p. 21)

Renato Janine Ribeiro (2000) sustenta que, para conhecer o fenômeno da corrupção, deve-se combinar a leitura antropológica com a política. Essa seria uma alternativa para ampliação da visão moral da corrupção em que se conseguiria um engate entre política e ética, entre a coisa pública e privada, entre os costumes e os poderes – para o autor, os costumes são por definição políticos. Ele define como abordagem antropológica do fenômeno da corrupção as vivências que se organizam em sistemas para gerar ou reiterar atitudes, atos ou instituições.

Os costumes, na corrupção, não são uma vaga descrição de modos de ser, de

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corrupção é tema de uma antropologia política: aqui estamos na charneira em que os costumes e a política se exigem um ao outro (RIBEIRO, 2000, p. 165).

Essa visão tem como ponto positivo mostrar que o fenômeno tem profundas raízes na sociedade brasileira, e indica que voluntarismo ou soluções jurídicas são frágeis diante da dimensão do problema. O ponto negativo ou limitado dessa abordagem é igualar todos, deixando de enfatizar as distintas responsabilidades pela corrupção, sobretudo as instituições que a preservam e sustentam. Outro aspecto de uma antropologia política é o de pensar a política mais pelo afeto que pela razão. Ribeiro (2000) assegura que o Estado desenvolvido funciona quase por inércia, no jogo dessa transição do egoísmo individual em bem público. Apoiando-se em Montesquieu, ele afirma que não há dominação política sem um engate afetivo. Lembra que existem três regimes de governo: monarquia, república e despotismo, cada um com sua respectiva estrutura de mando e poder, sendo que nenhum deles prescinde do engate afetivo para manter a obediência. Costumes são o princípio de funcionamento de um governo que opera com o cimento da obediência. Nessa perspectiva, o ponto relevante da discussão em relação à corrupção é que ela somente se torna problema no Estado de direito, pois nele a relação entre os cidadãos e o governo se baseia na lei, não sendo problema para os déspotas, por exemplo.

Para Ribeiro (2000), na articulação entre a democracia e a corrupção existe uma questão de extrema relevância: na democracia, a corrupção é fatal ao regime de liberdade, diferente da monarquia e do despotismo, nos quais a corrupção faz parte dos padrões e costumes. A democracia é um dos regimes que mais exigem dos cidadãos, uma vez que somente nela as mesmas pessoas que mandam também obedecem; não se legisla só para si, mas para todos, o que exige um grau de autodisciplina:

Se a corrupção não ameaça a ditadura, mas, ao contrário, até a alimenta, quando ministrada à democracia ela pode ser fatal. E ao mesmo tempo essa corrupção é quase nutrida pela vida social de baixo custo, que é a condição para existir a nossa democracia moderna (p. 175).

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recuperar o sentido de bem comum como algo moral e ético, enfocando não somente o sentido econômico. A corrupção está no plano dos costumes, mas, como princípio político, diz respeito à sociedade e ao modo como ela articula seu Estado.

Assim, a lógica pela qual nossa sociedade conhece a corrupção, como um de seus componentes talvez mais inevitáveis, associa-se aos princípios que a fazem mais tolerante com a diversidade de seus membros. Uma mesma tolerância assim beneficiaria dois fenômenos muito diferentes: a apropriação privada do patrimônio público, e a variação dos comportamentos pessoais. A liberdade afetiva seria favorecida pela indiferença em relação a uma comunidade de valores que, também, abre lugar para a dilapidação da coisa pública (RIBEIRO, 2000, p. 185).

O autor afirma que existe a corrupção dos dinheiros apenas como sintoma de corrupção maior: a dos costumes. Ele acredita que qualquer estudo teórico sobre corrupção deve contemplá-la a partir dos costumes politizados da sociedade.

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CAPÍTULO 3 – O PAPEL DA MÍDIA NA CONSTRUÇÃO DE FATOS

SOCIAIS

As conversas cotidianas constituem um dos caminhos possíveis para a circulação da noção de corrupção na sociedade, sendo normalmente alimentadas pelas informações e notícias que chegam por meio da mídia, que faz a divulgação, informando e denunciando episódios de corrupção.

Entendemos mídia como uma prática discursiva. Neste capítulo, apresentaremos a noção de mídia que adotamos, a partir de nosso referencial teórico. Por meio de uma revisão bibliográfica, conceitualizamos e discutimos algumas questões sobre o poder midiático, embasando-nos principalmente em John B. Thompson. Incorporamos à discussão a relevância da internet nos dias atuais, considerando sua influência sobre a mídia formal e a sociedade.

3.1 MÍDIA E PRÁTICAS DISCURSIVAS

A mídia é uma prática social que atravessa o cotidiano das pessoas não apenas veiculando notícias, mas também atuando como coprodutora de sentidos e de subjetividades, apresentando múltiplas possibilidades de comunicação e veiculação de informações: rádio, jornais, televisão, revistas e internet, estando cada veículo inserido em um contexto e possuindo discursividade própria4. Spink afirma que a mídia

[...] não é apenas um meio poderoso de criar e fazer circular repertórios simbólicos, mas possui um poder transformador ainda pouco estudado – e, talvez, ainda subestimado –, de reestruturação dos espaços de interação propiciando novas configurações aos esforços de produção de sentidos (SPINK, 2004, p. 58).

As maneiras pelas quais as pessoas produzem sentidos e se posicionam em relações sociais constituem o que chamamos de práticas discursivas. Essas práticas incluem discursos, textos, documentos e imagens, entre tantas outras materialidades, estando presentes em todas elas repertórios interpretativos, termos, descrições, lugares-comuns e figuras de linguagem. A noção de práticas discursivas diz respeito ao conjunto de enunciados de um determinado campo do saber, constituído historicamente e em meio a disputas de poder,

4 Adotamos posicionamento teórico centrado na produção de sentidos e práticas discursivas no cotidiano,

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podendo ser tomada como uma ampliação da noção foucaultiana de discurso. Nesse enfoque também são consideradas as condições de existência de um determinado discurso, buscando estabelecer as relações com os outros enunciados aos quais ele pode estar ligado e observar que outras formas de enunciação estão excluídas.

Foucault (2003) refere-se a discurso não limitando a noção à fala, à oratória, às frases ou enunciações, mas define que é ele mesmo uma prática constituidora de outras práticas e também constituído no interior delas. Essa perspectiva nos possibilita observar as regras ou as condições de formação em que os enunciados são instituídos, possibilitando problematizar recortes ou determinados agrupamentos.

Entendemos que um material discursivo não existe ao acaso. Ele pertence a um conjunto de saberes, faz parte de um contexto social e histórico e diz respeito a determinado lugar, existindo sempre em uma relação de poder. Isso porque uma das características relevantes do discurso é que ele carrega um regime de verdade que possibilita sua existência.

Partindo dessa perspectiva foucaultiana, entendemos as diferentes formas midiáticas como discursos, ou práticas discursivas, situados histórica e socialmente que não são somente produtos em si. Pensando a mídia como um dispositivo produtivo para construção de realidades, buscamos observar como os discursos sobre corrupção circulam e atuam como instrumento de articulação das relações de poder/saber e de que forma eles criam possibilidades de existência de conceitos e sentidos sobre corrupção. Acreditamos que os discursos carregam “verdades” em que se inscreve a possibilidade de exercício de poder; da mesma forma, entendemos que nos discursos os seus autores não são neutros, pois são sempre portadores de uma ordem, cultura e instituição nas quais estão imersos.

Nossa proposição é a de que os processos sociais, a identidade dos políticos e a imagem social do brasileiro são determinantemente influenciados pela mídia. A forma como a mídia trata, apresenta e desenvolve as notícias e eventos constrói o modo como vemos, pensamos e encaramos a corrupção.

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3.2 MÍDIA, OS PROCESSOS SOCIAIS E O PODER MIDIÁTICO

Compreendendo a mídia como uma prática discursiva, consideramos que o próprio termo tenha uma amplitude de compreensões e significados. Embora a palavra mídia seja amplamente utilizada, não encontramos uma definição que seja consensualmente compartilhada nas diferentes áreas de estudo.

Guazina (2007) afirma que, a partir da década de 1990, o termo teve seu uso generalizado: é utilizado no mesmo sentido de imprensa, grande imprensa, jornalismo, meio e veículo de comunicação. A autora lembra que “[...] às vezes, é citada no plural, mídias, num esquecimento – deliberado ou não – de sua origem latina como plural de medium (meio)” (p. 49). Ela destaca que hoje a mídia é entendida como indústria da comunicação, possuindo empresas e rotinas específicas, linguagens, formatos, estratégias, processos e agentes múltiplos que abarcam a comunicação de massa, projetam conceitos, imagens e visibilidades e constituem um poder no mundo contemporâneo.

Coutinho, Freire Filho e Paiva (2008, p. 7) enfatizam o papel da mídia “[...] na disputa de hegemonia, na promoção de ideais identitários, na regulação de comportamentos, na administração da memória, na constituição da opinião pública e na formulação de agenciamentos democráticos”, e a definem como “[...] um dispositivo capaz de influenciar significativamente, das formas mais diversificadas, a vida cotidiana e a atuação política dos indivíduos – a maneira como agem, sentem, desejam, lembram, convivem e resistem.”

O poder midiático tem sido objeto de estudos de diferentes autores com posicionamentos teóricos distintos. Para os marxistas, é um meio de opressão a serviço dos grupos dominantes, e os veículos de informação organizam e veiculam uma representação mistificada da realidade, apresentando como universais as ideias e os valores de um grupo social particular. Alguns marxistas encaram a mídia não apenas como um instrumento de dominação burguesa, mas como uma instância da luta político-cultural em que se confrontam diferentes discursos, ideologias e forças sociais.

[...] a mídia legitima e dá sustentação à ação coercitiva do Estado, modelando a vontade política da sociedade, é capaz em suas manifestações contra-hegemônicas de expressar vozes dissonantes empenhadas na organização de uma nova cultura e na criação de uma nova ordem social (COUTINHO; FREIRE FILHO; PAIVA, 2008, p. 8).

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uma determinada concepção de mundo, tendo como objetivo a conservação ou transformação da estrutura socioeconômica, pressupõe a construção de um universo intersubjetivo de crenças e valores. Implica, portanto, “[...] a persuasão e o diálogo, a mediação da linguagem, o ‘tornar comum’ da práxis interativa comunicacional” (COUTINHO, 2008, p. 44).

Apoiando-se em Gramsci, Coutinho afirma que nas sociedades industrializadas ocidentais a dominação de classes não se dá exclusivamente pelos aparelhos de coerção, mas também pela hegemonia, que o autor define como a busca de consenso do dominado. É exatamente nesse ponto que o autor insere o papel da mídia como uma das instâncias de luta política em que se legitima ou se contesta a legitimação, por meio da construção e difusão da visão de mundo dos grupos que representam.

Hoje, ocupando um lugar de destaque na sociedade civil, a mídia é seguramente a mais importante daquelas fortificações que protegem o aparelho de Estado do impacto das crises político-econômicas (...) é ela que garante as relações de produção e propriedade, criando e recriando o consenso necessário à dominação do capital (COUTINHO, 2008, p. 47).

O autor faz um paralelo entre o príncipe maquiavélico e o “príncipe eletrônico” – colocando a televisão como o principal responsável pela organização da ideologia necessária à dominação burguesa e ao desenvolvimento das relações capitalistas.

Outros teóricos, apoiados em Mead e Habermas, discutem a importância da mídia como possibilidade de conhecermos e nos relacionarmos com o mundo. Para eles, o jornalismo teria não só a função de prover a esfera pública com informação relevante, mas cumpriria, nas sociedades contemporâneas, a função que as grandes narrativas míticas cumpriram no passado. Coutinho (2008) afirma que desde os anos 1920, Mead reconhecia que a notícia era um produto feito para o mercado e que seu valor variava de acordo com a sua capacidade de apresentar a verdade dos fatos. Mas a premissa funcionava apenas quando a notícia se relacionava às esferas da política e da economia, quando trazia os resultados das últimas eleições ou os números das bolsas de valores, quando o valor da verdade da notícia permanecia absoluto. Em todos os outros casos os fatos eram menos relevantes e valia mais a qualidade de uma boa história.

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Para Thompson (2012), as sociedades modernas estão intimamente ligadas ao desenvolvimento da mídia; o fenômeno “midiação da cultura moderna” é o aspecto mais importante para a compreensão dessas sociedades, tendo sido possibilitado pelo avanço da tecnologia, pelo crescimento da indústria midiática e pelo desenvolvimento do capitalismo. O fenômeno referido transformou a sociedade e determinou novas formas simbólicas que são produzidas e circulam na vida social. A mídia é indiscutivelmente ator privilegiado na produção e circulação das formas simbólicas.

Nessa discussão, o autor nos apresenta uma articulação entre o conceito de ideologia e “midiação da cultura moderna”. O conceito de ideologia, apesar da saturação que por vezes se ocupa do termo, é para Thompson importante na análise social e política e pode ser entendido como o sentido mobilizado nas formas simbólicas a serviço da dominação. O autor destaca três aspectos que merecem atenção: a noção de sentido; o conceito de dominação; e as maneiras como o sentido pode servir para estabelecer e sustentar relações de poder. Destaca cinco modos gerais de operação na construção simbólica: legitimação; dissimulação; unificação; fragmentação; e reificação.

Para Thompson (2000), “legitimação” é o modo pelo qual as relações de dominação podem ser estabelecidas e sustentadas, justamente em razão de serem representadas como legítimas, como justas e dignas de apoio. Segundo o autor, há três tipos de fundamentos sobre os quais a legitimação pode estar baseada: (1) fundamentos racionais, legalidades das regras; (2) fundamentos tradicionais, santidade das tradições imemoriais; e (3) fundamentos carismáticos, o caráter excepcional de uma pessoa individual que exerça autoridade. Isso se concretiza por meio das seguintes estratégias: (a) racionalização, o produtor de uma forma simbólica constrói um raciocínio que procura justificar as relações ou instituições sociais e assim persuadir de que isso é digno de apoio; (b) universalização, alguns acordos institucionais, que servem a interesses de alguns indivíduos, são apresentados como de interesse de todos e podem propagar a ideia de que são abertos a qualquer um que tenha habilidade ou tendência a ser neles bem-sucedidos; e (c) narrativização, a partir de histórias que contam o passado e tratam o presente como parte de uma tradição eterna e estável.

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positivas do termo são transferidas para o objeto ou pessoa); (2) eufemização, ações, instituições ou relações sociais são descritas ou “redescritas” de modo a despertar uma valoração positiva, havendo aí uma mudança de sentido sutil; (3) tropo, utilização de figuras da linguagem como a sinédoque – quando se utiliza a função semântica de uma parte e do todo –, técnica que pode dissimular relações sociais através da confusão ou da inversão entre coletividades e suas partes e entre grupos particulares e formações sociais e políticas mais amplas; (4) metonímia, envolve o uso de um termo que toma o lugar de um atributo, um adjunto ou de uma característica relacionada a algo para se referir à própria coisa, embora não exista conexão necessária entre o termo e a coisa à qual alguém possa estar se referindo; (5) metáfora, implica a aplicação de um termo ou frase a um objeto ou ação à qual ele literalmente não pode ser aplicado.

O terceiro modo de operação da ideologia é a “unificação”, que, para Thompson (2000), significa a construção, no nível simbólico, de uma forma de unidade que interliga os indivíduos, numa identidade coletiva, independentemente das diferenças e divisões que possam separá-los. Utiliza as estratégias de: (1) padronização, formas simbólicas são adaptadas a um referencial padrão, que é proposto como um fundamento partilhado e aceitável de troca simbólica; e (2) simbolização da unidade, construção de símbolos de unidade, de identidade e de identificação coletivos, difundidos por meio de um grupo ou uma pluralidade de grupos.

Outro modo de operação da ideologia é a “fragmentação”, que age segmentando indivíduos e grupos que possam se contrapor aos dominantes (Thompson, 2000). Utiliza as estratégias de: (1) diferenciação, com ênfase nas diferenças e divisões entre grupos e pessoas, apoiando as características que os desunem e os impedem de constituir um desafio efetivo; e (2) expurgo do outro, envolve a construção de um inimigo, seja ele interno ou externo, que é retratado como mal, perigoso e ameaçador e contra o qual os indivíduos são chamados a resistir coletivamente ou a expurgá-lo. A fragmentação pode sobrepor-se à unificação, pois estimula as pessoas a se unirem contra uma ameaça.

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acontece quando sentenças ou parte delas, a descrição da ação e dos participantes são transformadas em nomes; e (4) passivização, presente em verbos colocados na voz passiva.

Thompson (2000) explica que os cinco modos de operação da ideologia não são as únicas maneiras pelas quais a ideologia opera, e adverte que esses modos podem sobrepor-se e reforçar-sobrepor-se mutuamente.

Além da discussão sobre ideologia, Thompson (2012) trata de outro tema de interesse relevante para esta tese: mídia e modernidade, tendo como enfoque principal ao discussão do papel desempenhado pela mídia na formação das sociedades modernas, buscando entender o impacto social das novas formas de difusão de comunicação e informação, desde o advento da imprensa até a expansão das redes de comunicação global de hoje. Nessa perspectiva, o autor discute o papel central das instituições por meio das quais as formas simbólicas são produzidas e divulgadas no mundo social. Ele acredita que o desenvolvimento da mídia transformou a constituição da vida social, passando a moldar o mundo em que vivemos atualmente, criando novas formas de ação e interação não mais dependentes do compartilhamento de um local ou tempo comum, reordenando as relações de tempo e espaço.

A mídia não se preocupa apenas em descrever o mundo social que poderia, como pôde, continuar o mesmo sem ela. A mídia se envolve ativamente na construção do mundo social. Ao levar as imagens e as informações aos indivíduos situados nos mais distantes contextos, a mídia modela e influencia o curso dos acontecimentos, cria acontecimentos que não poderiam ter existido em sua ausência. Além do mais, os indivíduos envolvidos nestes acontecimentos podem estar bem conscientes do papel construtivo (ou destrutivo) da mídia (THOMPSON, 2012, p. 156).

O autor lembra que inicialmente as agências de notícias tinham como objetivo a coleta de informações em grandes extensões territoriais, para serem difundidas em grande escala, inclusive as relacionadas a finanças e comércio. Após um período, suas atividades se expandiram e se diversificaram, tirando vantagem da tecnologia da informação, tornando-se “atores centrais” no mercado global de comunicações.

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pensar a informação como uma mercadoria ou pensar que a comunicação pode, muitas vezes, estar a serviço de interesses políticos e econômicos.

Azevedo (2010) considera que, apesar da concentração dos meios de comunicação (os grandes jornais e revistas nacionais continuam controlados por poucas famílias5 que detêm a propriedade cruzada dos meios impressos, eletrônicos e digitais) e da limitação da diversidade e do confronto de opiniões políticas, a grande imprensa brasileira tem cumprido seu papel e assumido de fato sua função de “cão de guarda” tanto em relação aos governos de centro-esquerda quanto de centro-direita.

Nesta tese entendemos que a mídia tem grande relevância na formação de realidades, não apenas como meio, mas também por possuir poder simbólico: ela forma e produz opiniões, conceitos e gera efeitos. Thompson (2012) apresenta uma relevante e intensa discussão sobre esse tema, distinguindo quatro tipos de poder: econômico, político, coercitivo e simbólico. Eles refletem os diferentes tipos de atividades humanas e os recursos de poder.

O poder econômico é relacionado à produtividade, envolve recursos materiais e financeiros como nas empresas comerciais. O poder político é a coordenação dos indivíduos e a regulação dos padrões de interação; tem um conjunto de regras e procedimentos organizado em forma de leis e administrado por uma parte desse poder, que é judicial, sendo seu maior recurso o poder de autoridade que possui o Estado em todas as instâncias. O poder coercitivo, embora relacionado ao poder político, é distinto; implica uso de força ou ameaça para subjugar. Seu recurso é a força física e armada, e as instituições que fazem parte dele são todas as militares, policiais e carcerárias.

O quarto poder é o cultural ou simbólico, originado na atividade de comunicação das formas simbólicas, que é característica essencial da vida social. Tem como recurso os meios de informação e comunicação e se concentra nas instituições culturais – escolas, igrejas e também nas indústrias da mídia. O quadro abaixo resume as quatro formas de poder.

5 Segundo o Intervozes – Coletivo de Comunicação Social, em 2013 menos de 10 famílias controlam, por meio

Imagem

Tabela 1 - Corrupção no jornal Folha de S.Paulo.
Tabela 2 - Escândalo no jornal Folha de S.Paulo.
Tabela 4: Matérias na Folha de S.Paulo com o descritor: “Máfia dos Sanguessugas”
Tabela 5 - Classificação de gravidade dos escândalos no site de Veja: 1992-2003.

Referências

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