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À procura de trabalho e identidade profissional

Nas diferentes trajetórias alcançadas nesta pesquisa, uma condição apareceu compartilhada por grande parte dos músicos: a procura de trabalho no campo artístico e dificuldade de identidade profissional. No último caso, seja pela

resistência em se assumir artista enquanto principal profissão, seja pelo alto grau de fragmentação do trabalho, de modo que a identidade profissional fica diluída frente às inúmeras atividades exercidas. Esses fatores, por sua vez, variam de acordo com a classe, a cor, a família (artística ou não), a região e o gênero dos artistas, assim como o cruzamento de todos esses fatores.

O fato da amostra desta pesquisa ser parte da “nova cena independente brasileira”, cuja maioria dos nomes conta com histórico de influência artística familiar e/ou estrutura financeira favorável suscitam algumas questões. Para esses nomes, em geral brancos, a dificuldade em se assumir artista aparece, comumente, pincelada em suas narrativas. É o que acontece com o músico Felipe Cordeiro, cuja família achou estranho quando ele disse que ia ser professor de filosofia, ao invés de músico. A exceção vem da Alessandra Leão, situação em que a condição de gênero se sobressaiu à sua condição de classe financeiramente estável.

Na amostra da pesquisa, foram os artistas negros que mais destacaram em suas narrativas a dificuldade em se assumir artista, ao mesmo tempo em são os que mais contam com formação superior (dos sete artistas, apenas um não tem ou não está fazendo curso superior). Mas essa observação varia quando considerado, sobretudo, a condição familiar do artista, seja financeira e/ou artística. É o que acontece no caso de Marcia Castro. A artista, negra e nordestina, explica que quando tem que preencher uma ficha hoje e afirma que tem 36 anos e é cantora, a pessoa já desconfia que ela não “está pra brincadeira”, por conta da idade. Hoje, na sua família, as pessoas entendem que fazer música não está ligada somente ao ócio (embora ele seja bastante importante no processo criativo). Sua família lhe vê enquanto empreendedora dentro do seu trabalho, o que deixa Marcia muito feliz. Esse entendimento familiar sobre a sua escolha, e até apoio, veio quando ela gravou o seu primeiro disco, em 2007, momento em que Marcia teve uma conversa mais séria com sua mãe: “Ó, mãe, é isso aqui... Tenho esse plano de ir pra São Paulo, inclusive, preciso de você nesse momento pra isso. E ela foi muito bacana. E me ajuda, inclusive financeiramente, quando eu preciso” (CASTRO, 5/5/2015).

Por outro lado, quanto mais dificuldade financeira, e ainda mais se o músico não vem de família artística, mais adversidade para assumir o risco da profissão artística. O caso de Juçara Marçal é emblemático da intersecção entre

raça, classe e gênero. Mulher e negra, da mesma forma que Marcia, Juçara não conta com suporte familiar na área artística e/ou uma situação familiar que pudesse sustentar a sua escolha em “ser artista”. Na ocasião da entrevista Juçara tinha, há pouco mais de um mês, pedido demissão da faculdade em que dava aula. Porque segundo a artista, toda a sua trajetória é permeada por “essa coisa de tá com o pé em duas canoas”. E pela primeira vez, em Abril de 2015, com 52 anos, ela assumiu pra si mesma e pra sua família que iria “viver com as coisas da música”. Nas suas palavras: “Agora eu sou uma pessoa totalmente independente, digamos assim. Vivendo só de música” (MARÇAL, 7/5/2015).

No decorrer da entrevista, Juçara deixou evidente algumas incompatibilidades que sua vida como artista lhe impôs. Ela relata que, até bem pouco tempo, era professora de faculdade, dava aula de canto no curso de teatro. E por mais que essa atividade estivesse envolvida com música, tinha “um complicador”, já que existia um programa a ser seguido, tinha a coisa da “rigidez dos horários, tem a coisa da preparação... Não é você estar lá só no horário da aula, né?” (MARÇAL, 7/5/2015). Tal configuração foi ficando cada vez mais inviável de administrar com sua vida enquanto artista. As viagens e os shows que acabam tarde da noite complicam o compromisso de estar na aula no dia seguinte bem cedo. Mesmo tentando manter suas atividades com a música e com a faculdade (ela tinha um coordenador bastante compreensível que lhe permitia certa flexibilidade quanto às reposições de aula), chegou um ponto em que ficou insustentável a conciliação.

Juçara revela, então, que começou a se sentir mal com a situação de achar que não estava fazendo o seu trabalho de forma satisfatória. Nesse momento, calhou dela ganhar o prêmio Governador do Estado, um recurso que, até então, ela não pensava em ter. A cantora explica que “não é uma coisa que ‘agora vou comprar uma piscina e beber champanhe’. Bem longe disso. Mas era uma grana pra você ter uma reserva pra conseguir segurar por um tempo” (MARÇAL, 7/5/2015). Nesse instante, ela entendeu que era a hora propícia de pedir demissão “e arriscar” uma situação em que ela até então não estava acostumada, que é conviver com uma sazonalidade. Em suas palavras:

Eu realmente tô num momento... Eu realmente pedi demissão agora, em Abril... Então, ainda não sei o que é isso. Eu ainda não sei o que é viver sem ter um salário que, por menor que seja, está ali todo dia X do mês. Então, agora eu vou ter que entender como é isso de você ter que lidar com a sazonalidade [...] Realmente agora eu vou aprender a lidar com essa nova realidade. Mas eu resolvi arriscar porque justamente do ponto de vista do trabalho com shows, com gravação, tá rolando bastante... E aí a minha perspectiva é que isso aumente, né? Vou trabalhar pra isso. Acho que até a coisa de pedir demissão é pra ter disponibilidade pra que os shows e as gravações aumentem cada vez mais. É bem esse momento aí... (MARÇAL, 7/5/2015).

Diante da análise das trajetórias pesquisadas observa-se que os mecanismos que fazem aparecer ou celebrar “talentos” estão ligados a condições familiares financeiras e/ou artísticas, assim como cor, gênero, idade, região e formação. Cada uma dessas condições e suas articulações informam diferentes dimensões das atividades artísticas. Como o sociólogo Howard Becker (2006) demonstrou com simplicidade desconcertante, arte é uma atividade reconhecida, transmitida, apreendida, organizada, celebrada, e, como toda atividade, obedece a regras, a constrangimentos, insere-se numa divisão do trabalho, em carreiras profissionais, trajetórias financeiras, políticas de financiamento etc.

A partir dessa premissa, esta pesquisa pergunta o que é possível apontar como específico e o que distingue o trabalho artístico das outras formas de trabalho. Por trás da criação da ideologia do gênio criador, em um mercado aparentemente harmônico e ligado a valores nobres de inventividade e individualidade, escondem- se aspectos reais de uma carreira. Em outros termos, o artista é (também) um trabalhador. Sua caracterização “independente” conforme categorizado pela mídia e festivais especializados (e seu atributo cult), até aqui, se dá por meio de um perfil jovem, de estrato de classe privilegiado, masculino, branco, geograficamente localizado e com nível de escolaridade elevada em relação ao restante da população.

III RETRATOS DO MERCADO DE TRABALHO ARTÍSTICO

O quadro analítico para a elaboração do retrato sociológico do artista é permeado por desafios teóricos e metodológicos. Qualquer que sejam as especificidades das práticas artísticas, elas não constituem uma exceção ao mundo trabalho, mas representam e reconfiguram sua exterioridade. Embora o trabalho artístico esteja constantemente relacionado a uma atividade distante de sua concretude e autonomizado das demais esferas da realidade social, sua realização prática e objetiva coloca o artista inserido no mundo do trabalho e de todas as relações que dele se desdobram. Percebe-se a insuficiência de construções simbólicas como vocação e dom para dar resposta aos sentidos e organizações das profissões artísticas. Trata-se da emergência das ciências sociais em analisar o que vem a ser o trabalho artístico e em quê ele se diferencia das outras formas de atividade. Nesse contexto, problematiza-se a investigação do trabalho imaterial realizada pelos teóricos do neomarxistas – Antonio Negri, Maurizio Lazzarato e André Gorz – para incluir pressuposto da produtividade, segundo o arcabouço analítico marxiano do trabalho.

Nessa perspectiva, a socióloga do trabalho artístico no Brasil, Liliana Segnini (2012), considera a arte como um trabalho e o artista como um trabalhador, e, dessa forma, integra a atividade artística na esfera do trabalho e dos constrangimentos que são singulares e que a constituem. O trabalho artístico se inscreve também (mas não só) na lógica de mercado e esta vinculação expressa as configurações do próprio momento histórico.

O ofício do artista requer um longo processo de formação profissional, que não termina jamais. Todo ensaio, todo espetáculo significa, ao mesmo tempo, trabalho (muito trabalho!) e aprendizagem. Esta óbvia constatação só foi por mim realizada, socióloga do trabalho já mais de trinta anos, recentemente, há dez anos. Participar da elaboração da CBO 2002 – Classificação Brasileira de Ocupações, coordenando os comitês compostos por trabalhadores e ocupados em Artes e Espetáculos, representou um momento de descoberta, superação de equivocada percepção de que o artista é um ‘ser iluminado’ que necessita de pouco trabalho para criar e interpretar (SEGNINI, 2012, p. 49)

Contrariando as compreensões que encerram as explicações do trabalho artístico em significantes como genialidade, observa-se que o trabalho para o músico é tido (também) como processo consciente e racional, ao fim do qual resulta uma obra como realidade dominada e não – de modo algum – um estado de pura inspiração. Ao longo da entrevista, na inserção das subjetividades no contexto mercadológico, identificou-se que muitas vezes os artistas se sentem “diferenciados” dos outros trabalhadores, mesmo afirmando condições de precariedade. Falas de autolouvor e de valorização se misturam ao reconhecimento das consequências de processos estruturais. Algumas narrativas aparecem permeadas pelos discursos de poder das instituições e da oficialidade, enquanto produto de um contexto contraditório.