3 PRIMEIRO JOGO DA FINAL DA LNF 2019: PATO FUTSAL X MAGNUS FUTSAL
3.2 PRIMEIRO TEMPO (1º JOGO)
3.2.9 É sempre importante combinar com o adversário
A interdependência das ações de jogo executadas por companheiros e adversários é tão verdadeira que bastam alguns instantes de bola rolando para qualquer reflexão neste sentido se materializar na prática. O jogo de goleiro linha do Pato Futsal, traduzido na figura de Djony e apresentado como responsável pelo equilíbrio entre as ações em quadra, também é suscetível à leitura de jogo dos adversários.
O trecho transcrito a seguir, apresenta a efetivação de um exemplo de desarticulação da superioridade numérica oferecida por um jogo de goleiro linha, imposta pela equipe do Magnus Futsal na relação entre ataque e defesa de ambas as equipes, numa perspectiva de imposição de perturbações recíprocas que afetam o jogo, causando desequilíbrios e reequilíbrios constantes e característicos da dinâmica do Futsal.
Daniel Pereira: Lateral já cobrado pelo Tom, tá aí Di Maria, bola no chão, Leandro Lino diminui espaço, William, entregando novamente para o Djony, é o último capítulo, ih Djon… Djony, presta atenção no serviço meu garoto, oh a lambança aí, a gente pediu até seleção pro Djony, cara, não vai estragar, né?
Marcelo Rodrigues: Não, na realidade todo mundo sabe que ele tem essa característica de jogo, então obviamente o Ricardinho estudou bastante, ãhn, o posicionamento dele ali, então uma hora ou outra (...) um jogador de Sorocaba vai tentar pressionar o Djony ali, vai tentar fechar esse passe dele. Então o Djony tem que ficar esperto, embora ele tenha feito, ao longo de toda a temporada, esse trabalho com muita eficiência, evidentemente a, a equipe de Sorocaba já tá de olho nisso também.
Considerando que a simples leitura do trecho não seja autoexplicativa, a descrição do que se passou em quadra poderá oferecer as bases para sua respectiva análise na amplitude e profundidade necessárias que os argumentos apresentados demandam.
O lance em questão justifica, de certa forma, a própria necessidade de compreensão de jogo por parte dos praticantes, o que oferece significado, inclusive para processos de ensino esportivo que possuam este viés pedagógico. De qualquer
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forma, é preciso entender a sequência de ações executadas pelos jogadores de ambas as equipes.
Neste contexto, se destacam Leandro Lino, pela equipe do Magnus Futsal e Djony, pela equipe do Pato Futsal, pelo motivo de que protagonizaram o lance final e a apreciação jornalística que se pretende analisar. Primeiramente, no que diz respeito à sequência de circunstâncias que envolveram as ações de jogo dos jogadores do Pato Futsal, evidencia-se, mais uma vez, a disposição posicional do goleiro linha e do ala canhoto em quadra.
O jogador Di Maria (canhoto), que recebe a bola passada por William a partir de uma sequência de ações iniciadas pela cobrança de um tiro lateral efetuado por Tom, se encontrava na zona de armação das jogadas. Ao dominar a bola e perceber o posicionamento de Djony executou um passe ao goleiro, que se encontrava em uma posição mais central e recuada na quadra de jogo.
Di Maria, por sua vez, recebia a marcação direta do jogador Leandro Lino próximo à linha lateral da quadra. Após o passe ser efetuado na direção do goleiro, o jogador do Magnus Futsal se deslocou rapidamente na direção de Djony, na intenção de encurtar a distância em relação ao jogador e perturbar suas ações.
A referência da posição de Di Maria na quadra de jogo, próximo à linha lateral direita da quadra na perspectiva da equipe do Pato Futsal, indica a trajetória do deslocamento de Leandro Lino em direção ao goleiro Djony. Isto significa que o goleiro recebeu uma pressão iniciada pelo lado de seu pé dominante, o que naturalmente o induziu a conduzir a bola na direção oposta.
A tomada de decisão que levou Djony a carregar a bola ocorre a partir do processo de percepção, análise da situação e solução mental e motora do problema proposta por Mahlo (1997), sendo produto da perturbação deliberadamente executada por Leandro Lino, que a partir de seu deslocamento, isolou o ala Di Maria da possibilidade de receber um passe de Djony e contou, ainda, com a ação de seus companheiros, que também intensificaram a marcação sobre os demais atletas do Pato Futsal, restringindo o estabelecimento de linhas de passe seguras.
A ação conjunta possibilitou o restabelecimento da situação de igualdade numérica numa condição em que todos os jogadores do Pato Futsal que poderiam receber um passe de Djony encontravam-se marcados e na perspectiva de efetivação de um jogo posicional dado pelo gatilho do acionamento do goleiro linha.
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Como Djony precisou agir rapidamente e sob pressão, o tempo perdido ao não encontrar um companheiro em condições de receber um passe em segurança foi o suficiente para Leandro Lino obstruir a ação do goleiro, a ponto de quase marcar um gol, quando o passe forçado acabou rebatendo no jogador do Magnus Futsal e direcionando a bola para o gol da equipe do Pato Futsal.
Portanto, ainda que o pedido de tempo técnico tenha servido para que Alexandre Buffolin e o grupo de atletas do Pato Futsal discutissem as condições ideais para utilização do goleiro linha de forma segura no momento em que a partida se encontrava, a equipe do Magnus Futsal, em contrapartida e sob as mesmas condições de imprevisibilidade que o jogo impõe, também estava ativa e constantemente respondendo aos desequilíbrios causados pelo adversário.
Neste sentido, após as primeiras participações de Djony como goleiro linha, Leandro Lino e seus companheiros em quadra foram capazes de ajustar o comportamento defensivo da equipe em condição de inferioridade numérica. Através da percepção condicionada por um determinado nível de compreensão de jogo e provavelmente ancorados no processo de treinamento desta situação, os atletas foram capazes de encontrar uma oportunidade, ainda que momentaneamente, de desarticular a estratégia adversária.
O narrador da partida, talvez pelas condições impostas pelo dinamismo do jogo, atribuiu o desdobramento do lance a um suposto erro cometido pelo goleiro Djony, desconsiderando, para a apresentação, o contexto geral da situação e as variáveis impostas pelo encadeamento das ações individuais de todos os atletas em quadra no momento.
A referência de Schmitz Filho (1999) permite apontar que mais uma vez as restrições impostas pela disponibilidade de tempo para a apreciação de um cenário esportivo dinamicamente constituído e em constante transformação condicionaram a fragmentação do comentário jornalístico. O desdobramento, neste caso, recai sobre o estreitamento e a superficialidade da avaliação de um cenário esportivo específico, dificultando a atribuição de erro e de mérito aos jogadores envolvidos na jogada.
Quando Marcelo Rodrigues chamou atenção para o fato de que a característica de Djony é bastante conhecida, destacou a obviedade de que Ricardinho, treinador do Magnus Futsal, havia estudado as possibilidades de atuação do atleta e que, portanto, seu time estava atento ao jogo de goleiro linha do Pato Futsal. O
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comentarista, neste caso, se referia justamente ao processo de preparação para as finais da competição.
Seria interessante, para a compreensão de jogo por parte do público, discutir que tipo de preparação um jogo do nível de uma final de Liga Nacional de Futsal demanda às equipes. Embora o comentarista indique que a equipe do Magnus Futsal, de forma geral, já possuía conhecimento das possibilidades de atuação de Djony e, por consequência, da própria equipe do Pato Futsal, esta consideração não explica por si só a efetividade defensiva capitaneada por Leandro Lino neste lance específico. É preciso considerar também, que na mesma medida em que a comissão técnica e o grupo de jogadores do Magnus Futsal são capazes de conhecer todas as características do Pato Futsal, o contrário também pode ser verdadeiro. Ao assumir esta reflexão como unicamente determinante para os resultados do que se produzirá na quadra de jogo durante os enfrentamentos, o jogo absorve um caráter estéril do ponto de vista criativo e de todas as questões que os enfrentamentos suscitam.
Neste sentido, seria interessante considerar para a apresentação do argumento, a necessidade de esclarecimento de que conhecer as características do adversário no maior nível de detalhamento possível é prerrogativa para o desenvolvimento de um processo de preparação que oferece aos jogadores elementos que objetivam o enriquecimento do repertório de estímulos para a resolução de problemas diversos.
Autores como Bettega e col. (2019, 2018 e 2015), Teoldo e col. (2015), Pivetti (2012) e Mahlo (1997) defendem processos de ensino e treinamento com este alinhamento metodológico. A perspectiva das proposições apresentadas nestas obras encontra base justamente na consideração de que ações individuais se imbricam na constituição de cenários esportivos complexos, imprevisíveis e ininterruptos.
Na esteira da multiplicidade das ações, se o mérito aparente da situação de jogo transcrita aponta para a atuação conjunta dos jogadores do Magnus Futsal, a partir da ação direta de Leandro Lino apoiada pelo comportamento de seus companheiros na execução de seus atos táticos sem bola, seria razoável considerar os erros envolvidos na materialização da jogada na mesma perspectiva.
Djony não errou sozinho pelo simples fato de ser o detentor da posse de bola na ocasião, apenas executou o ato tático que encerrou a sequência de ações descritas. Os outros 04 (quatro) jogadores em quadra pela equipe do Pato Futsal tampouco ofereceram condições para que o goleiro executasse um passe com
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segurança. Outra questão fundamental é a de que o erro de passe apontado, não se configure como um erro para a equipe possuidora da bola, mas sim se constitua como a última alternativa a ser adotada nas possibilidades estabelecidas dentro das estratégias e táticas previstas.
Esta é uma prerrogativa importante tanto para a compreensão do jogo, quanto para a avaliação efetuada em ato por jornalistas esportivos e a posteriori por professores, treinadores e equipes de análise de desempenho, por exemplo. A amostra constitui uma reflexão válida tanto para autores que se debruçam sobre discussões a respeito de metodologias de ensino e treinamento, como para estudos específicos como os de Variani (2018), Voser e col. (2016), Anderson e Sally (2013) e Fakuda e Santana (2012), dedicados aos números do jogo.