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Efeito cascata

No documento Braulio da Silva Machado (páginas 147-151)

3 PRIMEIRO JOGO DA FINAL DA LNF 2019: PATO FUTSAL X MAGNUS FUTSAL

3.3 SEGUNDO TEMPO (1º JOGO)

3.3.3 Efeito cascata

A reciprocidade das ações executadas por companheiros e adversários é, ao mesmo tempo, produto e fonte de informações que constituem a possibilidade de percepção e intervenção na realidade concreta do jogo. A cadeia ininterrupta de atos táticos apontada por Mahlo (1997) é dependente, nesta perspectiva, das informações contidas nos posicionamentos, gestos e deslocamentos de todos os atletas em quadra.

Por um lado, o jogador recolhe deste ambiente as informações necessárias para estabelecer a tríade percepção e análise da situação, solução mental e solução motora dos problemas de jogo. Por outro, o movimento contínuo de materialização do jogo por via das ações executadas pelo atleta constitui a própria matriz referencial às interpretações de companheiros e adversários que interagem na produção da realidade.

Este mesmo arcabouço de informações está disponível para o espectador externo ao jogo e se não autoriza a indicação das decisões a serem tomadas em tempo real, por conta desta prerrogativa ser exclusiva dos sujeitos da ação, quais sejam os atletas em quadra, oferece a possibilidade de apreciação a posteriori, o que permite a formulação de interpretações com base na compreensão de jogo possuída pelo observador.

No caso de um jogo de Futsal midiatizado, a equipe de transmissão incorpora, de forma interessada, a tarefa mediadora de traduzir ao público os acontecimentos em quadra e, como consequência, estabelece a garantia de apresentação das noções de jogo que orbitam os sentidos, apontados por Verón (1980), como originais à produção jornalística, como no caso abaixo.

Daniel Pereira: Vai pra cobrança, autorizado, correu pra bola, Di Maria, tocou, no Jhow, empurrou, pro Neguinho, pisou, limpou, vai bater, pro goool, lá dentro! Goool do Pato! É tradição, não é moda, explode o Lavardão. Neguinho, demais, joga na rede. A imagem lá de cima, oh, lá do teto do Lavardão. Tá de brincadeira, o driblinho curto, e a bola no cantinho. Pato 3 (três), Sorocaba 0 (zero), Neguinho, assina, mais uma vez antes da assinatura, merece, ele que vai pra China, tá deixando o Pato e joga a bola pro gol, assina que o gol é seu. 3x0 pro Pato, Marcelo.

Marcelo Rodrigues: Ah ele joga demais, ele joga demais, ele percebeu que o Kevin já vinha no carrinho, ele já deu a pisada e já fez um toque de categoria, cracasso de bola, um golaço.

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A narração e a posterior apreciação do terceiro gol do Pato Futsal na partida confirmam o apelo, assinalado por Schmitz Filho (1999), àquilo que, do ponto de vista estético, apresenta maior aspecto sensacional para a constituição do cenário esportivo apresentado ao público. Tanto o narrador, quanto o comentarista da partida não mencionaram a relevância do aspecto relacional entre o ataque do Pato Futsal e a defesa do Magnus Futsal para os desdobramentos que resultaram na marcação do gol.

Importa ressaltar que o lance de jogo teve origem na cobrança de uma falta na meia quadra de ataque do Pato Futsal e que, portanto, as informações contidas já no posicionamento prévio do ataque de uma equipe e da defesa de outra carregavam, ao mesmo tempo, os gatilhos iniciais para a sucessão de atos táticos executados pelos jogadores em quadra e a referência preliminar ao entendimento das razões pelas quais uma ação levou a outra até a concretização do gol.

O narrador da partida mencionou, inclusive, a câmera panorâmica, posicionada no teto do ginásio, anunciada no início da transmissão como aparato tecnológico facilitador do trabalho do comentarista e acionada para repetir ao público as imagens do encadeamento de ações de jogo que materializou a totalidade da jogada. No entanto, apesar das imagens terem sido repetidas pelo ângulo da câmera, não foram utilizadas como ferramenta explicativa por Marcelo Rodrigues.

Para apresentar ao público uma apreciação que transbordasse o limite da beleza realmente contida na ação do jogador Neguinho, que não foi finalística, mas resultado final dependente de condicionantes prévias, seria necessário descrever a jogada a partir do erro inicial cometido pelo posicionamento defensivo do Magnus Futsal na montagem da barreira para a cobrança da falta.

A equipe optou por dispor 03 (três) atletas de linha no lado da quadra onde a bola estava colocada para a cobrança da falta, os 02 (dois) primeiros jogadores na barreira e o terceiro próximo à linha de fundo (Kevin), estabelecendo marcação direta ao atacante posicionado próximo a trave da goleira. Ao quarto defensor restou a responsabilidade pela marcação de dois adversários localizados no lado oposto da quadra, um na mesma altura da posição da bola e outro também próximo a linha de fundo (Neguinho), ambos distantes um do outro, o que dificultava a cobertura de todo o espaço pelo marcador.

O Pato Futsal estabeleceu, a partir do desenho de um quadrado, uma disposição inicial dos atletas que garantia amplitude e profundidade na quadra,

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enquanto o Magnus Futsal organizou sua defesa de forma desequilibrada, com superioridade numérica de uma lado da quadra (3x2) e inferioridade do outro (1x2). Esta distribuição dos jogadores forneceu as condições iniciais para os desdobramentos seguintes.

O jogador Di Maria, responsável pela cobrança da falta, ao perceber a acomodação dos adversários e considerando, ainda, a distância da falta para o gol, optou em executar um passe ao companheiro posicionado à altura da bola no lado oposto. Jhow, que recebeu este primeiro passe, despertou a atenção do marcador que se encontrava em situação de inferioridade numérica e ao identificar a aproximação e intenção de abordagem, rapidamente, passou a bola para Neguinho, que também se encontrava do lado oposto ao princípio da jogada e mais próximo da linha de fundo.

Após os dois primeiros passes, com a bola próxima ao gol e sob domínio do jogador Neguinho, o desequilíbrio inicial da disposição defensiva do Magnus Futsal se acentuou e obrigou Kevin, posicionado atrás da barreira, a se deslocar em velocidade na tentativa de abordar o adversário a tempo de impedir sua finalização. Mas a distância a ser percorrida e o tempo disponível para a tarefa foram insuficientes para Kevin abordar Neguinho em pé. Foi preciso investir contra o adversário através de um carrinho iniciado em atraso.

O drible derradeiro foi executado, portanto, em ambiente facilitado por erro cometido no princípio da jogada, quando apenas o posicionamento fixo de cada atleta em quadra continha pistas preliminares e objetivas aos ajustes necessários. O desequilíbrio causado pela superioridade numérica da defesa do Magnus Futsal de um lado da quadra e a consequente inferioridade do lado oposto foi o preâmbulo para a sucessão de erros cometidos em efeito cascata.

Por fim, após alguns instantes, apesar da equipe de transmissão não ter identificado os aspectos relacionais entre ataque e defesa que implicaram nos erros estabelecidos, inicialmente, no posicionamento e, posteriormente, nas investidas defensivas em desequilíbrio dos atletas do Magnus Futsal, o repórter de quadra chamou o narrador da partida para comunicar que a arbitragem havia confirmado o gol para o jogador Denner, que inicialmente estava sendo vigiado diretamente por Kevin, mas que acabou a jogada livre de marcação para empurrar a bola ao gol com tranquilidade.

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Anderson Luís: Daniel Pereira.

Daniel Pereira: Ih rapaz, o inabalável chamou rapaz, fala aí meu garoto. A. L.: e a arbitragem confirmou o gol pra Denner, camisa 95, diz que ele tocou na bola antes dela entrar.

D. P.: É? A. L.: É.

D. P.: Pode ser, olha a bola chegando pro Eder. Só pra súmula, né, porque o Brasil e o mundo inteiro deram o gol pro Neguinho. Cê viu de forma diferente Marcelo?

Marcelo Rodrigues: Ele chega tocando na bola, é, porque a gente fala da jogada toda que o Neguinho fez, mas o Denner chegou no finalzinho ali e empurrou pro gol. Aliás o Denner que fez aquela jogada sensacional do gol do Di Maria, né, contra Carlos Barbosa. Custo-benefício melhor da equipe do Pato, ele entra 10s e resolve.

A conclusão do narrador e a apreciação do comentarista reforçam a centralidade do aspecto sensacional atribuído ao drible como conteúdo suficiente a ser apresentado ao público. Em segundo plano, ou mesmo proscrito, por não interessar às demandas jornalísticas, foi deixado o conteúdo esportivo que poderia oferecer significado ao que se estabeleceu em quadra e contribuir para a compreensão do jogo por parte dos espectadores.

O papel da equipe de transmissão, como tradutora das informações produzidas pelo jogo, repousava na identificação do erro inicial e, posteriormente, na sua explicação e apontamento sugestivo de uma resolução simples para o problema, acompanhada da repercussão direta sobre as relações entre ataque e defesa de ambas as equipes.

O equilíbrio defensivo poderia ser alcançado com o simples escalonamento da barreira, o que significaria que dos 2 (dois) jogadores, aquele localizado mais próximo a lateral da quadra, a partir de sua posição na barreira, deveria ser deslocado alguns passos para trás, ocupando o lugar de Kevin no conjunto defensivo e executando a dupla função de formação da barreira e marcação do jogador Denner, que ao fim das ações de jogo não acabaria livre para marcar o gol.

Com isso Kevin poderia ter sido liberado para equilibrar, em termos numéricos, a defesa do lado oposto à posição inicial da bola, marcando diretamente o jogador Neguinho desde o princípio da jogada e, assim, liberando seu companheiro, antes em inferioridade numérica, para marcar diretamente o jogador Jhow. Este ajuste simples emitiria uma outra constelação de informações à equipe adversária.

Como uma sequência simples de passes estaria dificultada pelo equilíbrio entre o ataque de uma equipe e a defesa da outra, as possibilidades de atos táticos passíveis de execução, a partir da autorização da arbitragem para a cobrança da falta,

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iriam da finalização direta a gol a uma variedade indefinida de jogadas ensaiadas a fim de desequilibrar a defesa através de movimentações sem bola que facilitassem finalizações a gol de posições mais favoráveis.

A percepção do público seria distinta e mais abrangente, as bases para interpretação de outras situações de jogo seriam ampliadas e o drible efetuado por Neguinho não perderia excepcionalidade, ao contrário, revelaria a capacidade de percepção e análise da situação, formulação de soluções a nível mental e habilidade de execução motora do jogador.

No documento Braulio da Silva Machado (páginas 147-151)